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1 Coríntios · 46 de 66 · Novo Testamento

1 Coríntios — Capítulo 1

Infográfico de “1 Coríntios 1 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 5 partes: Uma igreja de Deus numa cidade de homens; Gratidão por uma igreja difícil; Os nomes nas bandeiras e o nome de Cristo; O Crucificado diante dos sábios e dos que pedem sinais; O chamado dos que não contavam.

Título do capítulo: A cruz que desfaz os partidos
Gênero literário: Epístola — saudação, ação de graças e exortação pastoral (os remetentes e a igreja de Deus em Corinto; a gratidão pelos dons de uma igreja difícil; as divisões em torno de nomes de líderes; a mensagem da cruz diante da sabedoria do mundo; a vocação dos coríntios e o único orgulho legítimo; abertura da carta)
Número de versículos: 31

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. A seção 1 apresenta a carta inteira, e os estudos dos outros capítulos remetem a ela; os pontos de texto e as grandes questões de interpretação aparecem aqui em linhas gerais e são tratados nos capítulos que os contêm. Nenhum versículo é transcrito; todos são parafraseados. As datas antigas são aproximadas.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Uma carta a uma igreja que Paulo fundou

Romanos foi escrita a cristãos que Paulo ainda não conhecia; 1 Coríntios, a uma igreja que ele mesmo plantou e que conhecia pelo nome. Não é um tratado. É a resposta de um pai na fé a notícias que o inquietavam e a perguntas que lhe mandaram por escrito, e por isso nenhuma outra carta mostra tão de perto uma comunidade cristã da primeira geração: as suas brigas, os seus banquetes, as suas dúvidas sobre sexo e casamento, o seu culto barulhento, a sua esperança confusa. A autoria paulina não tem disputa séria. Por volta do fim do século I, Clemente de Roma, escrevendo à mesma igreja, de novo dividida, mandou que relessem a carta do bem-aventurado apóstolo Paulo, que já os repreendera por causa de Cefas e de Apolo (1 Clemente 47).

Paulo e Sóstenes

Paulo se apresenta como apóstolo por chamado e pela vontade de Deus, título que em Corinto alguns punham em dúvida (1Co 9.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 10–13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e põe ao seu lado o irmão Sóstenes (1Co 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Atos fala de um Sóstenes, chefe da sinagoga de Corinto, espancado diante do tribunal de Gálio (At 18.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se for o mesmo, o homem agredido naquele dia tornou-se irmão e colaborador; o nome era comum, e o estudo de Atos 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) deixa a identificação em aberto. A carta corre quase toda na primeira pessoa do singular, e o próprio Paulo assina a saudação final de próprio punho (1Co 16.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sinal de que ditou o resto.

Corinto, a cidade que recomeçou

A Corinto grega, uma das cidades mais ricas da Grécia, foi arrasada pelo cônsul romano Lúcio Múmio em 146 a.C. Durante um século o lugar ficou quase vazio, até que Júlio César a refundou como colônia romana, por volta de 44 a.C., povoada em boa parte por libertos. Quando Paulo chega, é capital da província da Acaia, com leis romanas, inscrições oficiais em latim e o grego nas ruas, como recorda o estudo de Atos 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

A geografia fazia a riqueza. A cidade dominava o istmo estreito entre o Peloponeso e o continente e tinha dois portos: Lequeu (Lecaion), a oeste, voltado para a Itália, e Cencreia, a leste, voltado para a Ásia. Navios pequenos eram arrastados de um mar ao outro sobre o diolkos, uma pista de pedra. A cada dois anos, no santuário de Posêidon no istmo, celebravam-se os jogos ístmicos, presididos pela cidade; as imagens de corrida, coroa e treino de 1Co 9.24-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) falavam a quem os conhecia. Numa cidade de gente nova e misturada, sem nobreza antiga, a honra se conquistava: inscrições de benfeitores, cargos, clientelas, oradores aplaudidos. Essa busca de status ajuda a entender por que a palavra kauchaomai, gloriar-se, vangloriar-se, aparece tanto na carta.

Corinto tinha fama de devassa. Atribui-se a Aristófanes o verbo korinthiazesthai, corintizar, no sentido de levar vida dissoluta, e Estrabão fala de mais de mil servidoras sagradas no templo de Afrodite, no Acrocorinto; mas ambos falam da cidade grega anterior, e muitos estudiosos consideram os números exagerados. A Corinto romana não era necessariamente pior que outros portos do Império. Os problemas que a carta enfrenta, porém, eram reais (1Co 5–6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No fórum ficava o bēma, a tribuna onde Gálio recusara julgar Paulo; o apóstolo lembrará aos coríntios outro tribunal, o de Cristo (2Co 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A fundação da igreja

Paulo chegou a Corinto vindo de Atenas, por volta de 50, e ficou cerca de um ano e meio (At 18.1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pela inscrição de Gálio em Delfos, a estada vai mais ou menos de 50 a 52, conforme o estudo de Atos 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Trabalhou fazendo tendas com Áquila e Priscila, pregou na sinagoga, passou para a casa vizinha, de Tício Justo, viu crer Crispo, o chefe da sinagoga, com toda a família, e batizou muitos. Chegou fraco e com medo (1Co 2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e resolveu concentrar a pregação em Jesus Cristo e na sua cruz (1Co 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois dele passou por Corinto Apolo, o pregador eloquente de Alexandria, instruído por Priscila e Áquila em Éfeso (At 18.24–19.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se Pedro esteve na cidade, não se sabe; Dionísio, bispo de Corinto por volta de 170, citado por Eusébio, diz que Pedro e Paulo plantaram ali a igreja, mas muitos estudiosos pensam que o grupo de Cefas pode ter surgido sem visita alguma, pela fama do apóstolo ou por cristãos vindos da Judeia.

Escrita em Éfeso, por volta de 53 a 55

Paulo escreve de Éfeso, onde pretende ficar até o Pentecostes, porque o trabalho ali tinha uma oportunidade rara e também muita oposição (1Co 16.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Áquila e Priscila estão com ele e mandam saudações, com a igreja que se reúne na casa deles (1Co 16.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Timóteo está a caminho de Corinto (1Co 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.10), e Paulo planeja passar pela Macedônia antes de ir até eles (1Co 16.5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso cabe nos quase três anos de Paulo em Éfeso, situados pelo estudo de Atos 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) entre cerca de 52 ou 53 e 55 ou 56. A carta é, portanto, de por volta de 53 a 55, provavelmente perto do fim da estada; Romanos virá alguns anos depois, escrita em Corinto.

Uma correspondência maior que duas cartas

1 Coríntios não foi a primeira carta. Paulo menciona outra, anterior, em que mandara não se misturar com os imorais, e que os coríntios entenderam mal (1Co 5.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ela se perdeu, e a ideia de que um pedaço dela sobreviveu em 2Co 6.14–7.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é hipótese de poucos. Depois, duas fontes de notícias: o relato oral dos de Cloe, gente da casa de uma mulher desse nome (1Co 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e uma carta dos próprios coríntios com perguntas (1Co 7.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), provavelmente levada por Estéfanas, Fortunato e Acaico, que alegraram Paulo com a sua visita (1Co 16.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A história continua em 2 Coríntios. Paulo fez a Corinto uma visita dolorosa (2Co 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.2) e escreveu, com muitas lágrimas, uma carta severa (2Co 2.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.8). Muitos pensam que essa carta das lágrimas se perdeu; outros a reconhecem, ao menos em parte, em 2Co 10–13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); poucos hoje a identificam com 1 Coríntios. Há, portanto, pelo menos quatro cartas de Paulo a Corinto, das quais duas chegaram até nós, e a reconstrução exata pede cautela.

A arquitetura da carta

Os capítulos 1 a 6 respondem sobretudo ao que Paulo soube por relatos; a partir de 7.1, ele segue a carta dos coríntios, e cada assunto novo abre com a fórmula peri de, quanto a (1Co 7.1, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.1; 12.1; 16.1, 12). Margaret Mitchell mostrou que a carta inteira tem a forma de um apelo à concórdia, homonoia, tema caro à retórica política antiga, e que o v. 10 do capítulo 1 funciona como a sua tese. O amor do capítulo 13 e a ressurreição do capítulo 15 são os dois pontos altos.

As frases dos coríntios na boca de Paulo

Os textos antigos não tinham aspas, e muitos estudiosos reconhecem na carta frases que circulavam em Corinto e que Paulo cita para corrigir. A liberdade sem limite, panta moi exestin, que ele repete e logo qualifica (1Co 6.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a ideia de que os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos (1Co 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a recomendação de que o homem se abstenha de relações com a mulher (1Co 7.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a confiança no conhecimento que todos teriam, pantes gnōsin echomen, e a certeza de que o ídolo não é nada e de que há um só Deus (1Co 8.1, 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde começam e terminam essas citações é discutido, e cada capítulo apresenta as leituras. O método de Paulo é quase sempre o mesmo: concorda com o que há de verdadeiro e corrige pelo amor, pelo corpo e pela cruz.

Quem eram os coríntios

Paulo lembra que entre eles não havia muitos sábios, poderosos ou bem-nascidos (1Co 1.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não muitos, mas alguns: Crispo dirigira a sinagoga; Gaio hospedava Paulo e a igreja inteira (Rm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Erasto, administrador da cidade, talvez seja o da inscrição do calçamento perto do teatro, possibilidade que o estudo de Romanos 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta com cautela; Estéfanas tinha uma casa que se pôs a serviço dos santos (1Co 16.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na ceia, havia quem tivesse casa para comer e quem não tivesse nada (1Co 11.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gerd Theissen e Wayne Meeks descreveram uma comunidade misturada, com poucos de posição e muitos sem ela, e viram nessa mistura a raiz de vários conflitos; estudos posteriores, como o de Steven Friesen, lembram que a maioria vivia perto do limite da subsistência. A igreja se reunia em casas, em grupos, e às vezes toda junta (1Co 14.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era formada sobretudo por gentios, que antes eram levados aos ídolos mudos (1Co 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com judeus como Crispo, Áquila e Priscila.

O texto dos manuscritos

1 Coríntios chegou com bom testemunho. O papiro P46, de por volta de 200, traz a maior parte da carta; os grandes códices Sinaítico, Vaticano e Alexandrino, e o Claromontano, grego e latino, completam o quadro. As diferenças mais conhecidas, tratadas nos seus capítulos sem tirar a numeração, são: o mistério ou o testemunho de Deus (1Co 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o jejum acrescentado em manuscritos posteriores (1Co 7.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Cristo ou o Senhor posto à prova no deserto (1Co 10.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); as formas curtas e longas das palavras sobre o pão (1Co 11.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); as palavras acrescentadas em 11.29; o corpo entregue para ser queimado ou para que Paulo pudesse se gloriar (1Co 13.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o lugar de 14.34-35, que alguns manuscritos de tipo ocidental põem depois de 14.40; a imagem do homem celeste que traremos ou que devemos trazer (1Co 15.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e as formas diferentes de 15.51. Nenhuma delas muda o que a fé confessa.

As grandes questões que a carta levanta

A disciplina do capítulo 5, com a ordem de entregar o culpado a Satanás, tem por alvo a restauração, nunca o controle ou a humilhação. Os processos entre irmãos (1Co 6.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) tratam de questões civis e jamais servem para encobrir crimes, que devem ser levados às autoridades. A lista de 6.9-11 pede a fidelidade e o cuidado do estudo de Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O capítulo 7 fala de casamento, celibato, divórcio e escravidão. Os capítulos 8 a 10 tratam da liberdade e da consciência; o 11, do véu, da cabeça e da ceia, que as tradições católica, ortodoxa e evangélica entendem de modos próprios; os capítulos 12 a 14, dos dons, que dividem continuístas e cessacionistas, e do lugar das mulheres no culto; o 15, do credo antigo, do corpo ressuscitado e do enigmático batismo pelos mortos. Cada questão é apresentada no seu capítulo, com as leituras das tradições.

Sem antijudaísmo

Paulo escreve como judeu. Diz que se faz judeu com os judeus (1Co 9.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), chama os israelitas do deserto de nossos pais (1Co 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e lê a Páscoa de Israel para entender a de Cristo (1Co 5.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando, neste capítulo, diz que a cruz tropeça os judeus e parece tolice aos gregos (vv. 22-23), descreve duas formas de resistência humana, sem desprezo de nenhuma das duas, e o v. 24 põe judeus e gregos, lado a lado, entre os chamados.

O capítulo 1 no argumento

Depois da saudação e da ação de graças, o v. 10 lança o apelo que governa os quatro primeiros capítulos: que as divisões acabem. Paulo não ataca as divisões com um regulamento, mas com a cruz (1.18–2.5), com a sabedoria que o Espírito revela (2.6-16), com a imagem da lavoura e do edifício de Deus (capítulo 3) e com o retrato dos apóstolos como servos tratados pela cidade como refugo (capítulo 4). Para curar uma igreja que se gloriava em homens, ele a leva ao lugar onde nenhum homem pode se gloriar.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Paulo, chamado para ser apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Sóstenes escrevem à igreja de Deus que está em Corinto: gente consagrada em Cristo Jesus, chamada a ser santa, unida a todos os que, em qualquer lugar, invocam o nome do Senhor Jesus Cristo, um só Senhor para todos eles e para Paulo. O desejo é de graça e de paz, vindas de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo (vv. 1-3).

Paulo agradece sempre a Deus pela graça dada aos coríntios em Cristo: neles nada faltou de palavra e de conhecimento, o testemunho sobre Cristo se firmou entre eles, e eles têm todos os dons de que precisam enquanto aguardam que o Senhor se revele. Cristo os manterá firmes até o fim, para que ninguém possa acusá-los no dia do Senhor. E a fidelidade de Deus garante tudo isso: foi ele quem os chamou a partilhar a vida do seu Filho (vv. 4-9).

Então vem o apelo: em nome do Senhor, que estejam de acordo no que dizem, que não haja rachaduras entre eles, que se refaçam num mesmo modo de pensar e de julgar. Os de Cloe contaram a Paulo que há brigas: cada um se diz de alguém, de Paulo, de Apolo, de Cefas, e há quem diga ser de Cristo. Paulo pergunta se Cristo foi repartido, se foi Paulo quem morreu na cruz por eles ou se o nome sobre o batismo deles era o de Paulo. Agradece por ter batizado poucos ali, só Crispo e Gaio, para que ninguém alegue ter recebido o batismo como discípulo dele; lembra-se depois da casa de Estéfanas e de mais ninguém. A missão que recebeu de Cristo não era batizar, e sim levar o evangelho, sem os recursos da oratória, que tirariam da cruz o seu peso (vv. 10-17).

Para quem caminha para a perdição, diz ele, o anúncio da cruz soa como insensatez; para os que Deus está salvando, é o próprio poder de Deus em ação. A Escritura já anunciava que Deus acabaria com o saber dos que se têm por sábios. Paulo chama à cena o sábio, o mestre da Lei e o polemista desta época, e nenhum responde. Deus expôs como tolice o saber do mundo: como o mundo, com toda a sua sabedoria, não chegou a conhecer a Deus, Deus resolveu salvar quem crê por meio de um anúncio que parece insensato. De um lado, judeus que querem ver sinais; de outro, gregos atrás de sabedoria; e os apóstolos anunciam um Messias crucificado, pedra no caminho de uns e absurdo para outros. Mas, para os chamados, judeus e gregos, Cristo é aquele em quem Deus mostra o seu poder e a sua sabedoria. O que em Deus parece tolo e fraco supera toda a sabedoria e toda a força humanas (vv. 18-25).

Paulo pede que olhem para si mesmos quando foram chamados: não havia muitos sábios pelos critérios humanos, nem muitos poderosos ou bem-nascidos. Deus escolheu o que o mundo tem por tolo, fraco, sem linhagem e desprezado, até o que nem conta, para envergonhar e anular o que se julga alguma coisa, de modo que nenhum ser humano tenha de que se gabar na presença de Deus. É por obra de Deus que eles estão em Cristo Jesus, a quem Deus deu aos crentes como a sabedoria deles, e nele a justiça, a consagração e o resgate, para que, como diz a Escritura, todo orgulho se volte para o Senhor (vv. 26-31).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-3 — Uma igreja de Deus numa cidade de homens

O endereço segue a forma das cartas antigas, remetente, destinatário e saudação, e Paulo enche cada parte de teologia. Ele é klētos apostolos Christou Iēsou, apóstolo por chamado, e dia thelēmatos theou, pela vontade de Deus (v. 1). Numa igreja em que se escolhiam líderes pelo gosto, Paulo lembra logo que não se nomeou a si mesmo: foi enviado. O irmão Sóstenes, ho adelphos, aparece ao lado dele como testemunha e colaborador.

O destinatário é tē ekklēsia tou theou tē ousē en Korinthō (v. 2). A frase tem duas metades que a carta inteira vai tensionar. A igreja é de Deus, não de Paulo, de Apolo ou dos seus membros mais ricos; ekklēsia é a palavra que a antiga tradução grega usava para a assembleia de Israel no deserto, o qahal. E essa igreja está em Corinto, com tudo o que a cidade carrega. Os coríntios são hēgiasmenoi en Christō Iēsou, já consagrados em Cristo, particípio perfeito de uma ação concluída, e klētoi hagioi, chamados a ser santos, a mesma expressão de Rm 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). É o indicativo e o imperativo numa linha: Deus já os separou para si; agora precisam viver como gente separada. Paulo dirá coisas duras a essa igreja, mas começa chamando-a de santa.

O v. 2 acrescenta: syn pasin tois epikaloumenois to onoma tou kyriou hēmōn Iēsou Christou en panti topō, com todos os que, em todo lugar, invocam o nome de Jesus Cristo, um só Senhor para todos eles e para Paulo. Invocar o nome do Senhor era, nas Escrituras de Israel, a forma de orar ao Deus de Israel (Gn 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo aplica a expressão a Jesus (Rm 10.9-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A comunidade de Corinto, orgulhosa da sua sabedoria e dos seus dons, é lembrada de que pertence a um corpo maior, e a carta voltará a lembrá-lo: o costume das igrejas de Deus (1Co 11.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que se ensina em toda parte (1Co 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.17; 14.33). A tradição cristã leu aqui as duas faces da igreja, a local, inteira em cada lugar, e a universal, espalhada por todos os lugares.

A saudação (v. 3) une charis, a graça, e eirēnē, a paz, o shalom de Israel, vindas de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, postos lado a lado como uma só fonte.

Versículos 4-9 — Gratidão por uma igreja difícil

Paulo agradece pantote, sempre (v. 4), por uma igreja que lhe dava mais preocupação do que qualquer outra. O motivo da gratidão não são os coríntios, mas tē chariti tou theou tē dotheisē hymin en Christō Iēsou, a graça de Deus dada a eles em Cristo. Paulo agradece pelo que Deus fez, não pelo que eles fizeram com isso.

Eles foram enriquecidos, eploutisthēte, em tudo, en panti logō kai pasē gnōsei, em toda forma de fala e de saber (v. 5). As duas palavras não estão ali por acaso. Logos, a fala, e gnōsis, o conhecimento, eram justamente os orgulhos de Corinto, e voltarão nos problemas da carta: a eloquência que divide (1.17; 2.1-4), o conhecimento que incha (8.1), as línguas que se exibem (14). Paulo reconhece os dons como verdadeiros e, ao chamá-los de graça, já os desarma: o que foi recebido não serve de troféu, e Paulo lembrará que tudo o que possuem lhes foi dado (1Co 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O martyrion tou Christou, o testemunho sobre Cristo, ebebaiōthē, firmou-se entre eles (v. 6): o evangelho pegou raiz. Por isso eles têm todo charisma de que precisam (v. 7), palavra que nomeará os dons dos capítulos 12 a 14. Mas Paulo desloca logo o olhar para o futuro: eles têm os dons apekdechomenous tēn apokalypsin, enquanto aguardam a revelação do Senhor Jesus Cristo. Muitos estudiosos pensam que parte dos coríntios se sentia já plenamente espiritual, como se o fim tivesse chegado (1Co 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo põe os dons dentro da espera. A igreja não é o céu; é o povo que o aguarda.

O v. 8 promete que Cristo os bebaiōsei, confirmará, o mesmo verbo do v. 6, heōs telous, até o fim, anenklētous, de modo que ninguém possa acusá-los, no dia do Senhor. O dia do SENHOR dos profetas virou o dia do Senhor Jesus Cristo. E a garantia não está na firmeza deles, mas em Deus: pistos ho theos (v. 9). Deus é fiel ao que começou, e os chamou eis koinōnian tou huiou autou, a ter parte na vida do seu Filho. Koinōnia é participação, vida em comum; a mesma palavra nomeará a participação no sangue e no corpo de Cristo na ceia (1Co 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma igreja chamada à comunhão com o Filho não pode viver em partidos, e é exatamente isso que o versículo seguinte vai dizer.

O nome de Cristo aparece em quase todos os versículos de 1 a 10: antes de qualquer problema, Paulo enche a página de Cristo.

Versículos 10-17 — Os nomes nas bandeiras e o nome de Cristo

Parakalō de hymas, adelphoi (v. 10): o apelo vem com afeto, chamando-os de irmãos, e com autoridade, pelo nome do Senhor Jesus Cristo. Paulo pede que todos to auto legēte, digam o mesmo, expressão da linguagem política para partidos que se reconciliam, e que não haja schismata, rachaduras, como as de um pano rasgado. Pede que estejam katērtismenoi, refeitos, ajustados. É o verbo usado para os pescadores que consertavam as redes (Mc 1.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não pede uniformidade de opiniões em tudo, mas a mesma nous, mente, e a mesma gnōmē, juízo, sobre o que importa.

A notícia veio hypo tōn Chloēs, pelos de Cloe (v. 11), provavelmente escravos ou libertos da casa de uma mulher desse nome, cristã ou não, de Corinto ou de Éfeso; o texto não diz. Paulo cita a fonte, sem anonimato e sem boato. Há erides, brigas.

O v. 12 descreve o quadro: cada um proclama egō men eimi Paulou, eu pertenço a Paulo, e outros, a Apolo, a Cefas, a Cristo. Não se deve imaginar partidos organizados, com doutrinas próprias. Paulo fala de grupos de afinidade em torno de nomes, numa cultura acostumada a seguir mestres e oradores como torcidas seguiam atletas. Os de Paulo seriam talvez os da primeira hora; os de Apolo, atraídos pela eloquência do alexandrino (At 18.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os de Cefas, o nome aramaico de Pedro (Jo 1.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que Paulo usa sempre nesta carta (1Co 3.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.5; 15.5), talvez fossem judeus cristãos ou admiradores do primeiro dos Doze; Ferdinand Christian Baur, no século XIX, construiu sobre isso a tese de um conflito entre um cristianismo de Pedro e outro de Paulo, que hoje quase ninguém aceita naquela forma. E os de Cristo são o grande enigma: um grupo que se dizia acima dos outros, uma resposta irônica de Paulo, ou uma nota de copista? As leituras se dividem. O que importa é que até o nome de Cristo podia virar bandeira de facção.

Paulo não toma o partido de ninguém, nem o seu. Três perguntas retóricas (v. 13) reduzem a disputa ao absurdo. Memeristai ho Christos? Cristo foi repartido em pedaços, um para cada grupo? Quem morreu por eles numa cruz, Paulo? O nome invocado no batismo deles foi o de Paulo? Ao corrigir os que se diziam seus, Paulo mostra que o problema não era escolher o líder errado, mas pôr qualquer líder no lugar que só Cristo pode ocupar. Mais adiante dirá que Paulo, Apolo e Cefas pertencem à igreja, e não o contrário, e que a igreja pertence a Cristo (1Co 3.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Apolo, aliás, nunca aparece como rival: Paulo o chama de irmão e insiste para que volte a Corinto (1Co 16.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 14-16 têm um tom espontâneo. Paulo agradece por ter batizado pouca gente em Corinto: Crispo, o antigo chefe da sinagoga (At 18.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Gaio, provavelmente o hospedeiro da igreja (Rm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lembra-se depois da casa de Estéfanas, os primeiros convertidos da Acaia (1Co 16.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e não sabe se batizou mais alguém. A correção de memória, no meio de uma carta inspirada, mostra um autor real, que dita e se emenda.

O v. 17 fecha e abre: a missão para a qual Cristo o apesteilen, enviou, não era baptizein, mas euangelizesthai, levar a boa notícia. Paulo não despreza o batismo, que é união com a morte de Cristo (Rm 6.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e entrada num só corpo pelo Espírito (1Co 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e as tradições cristãs não leem o versículo contra o sacramento; ele recusa que o batismo vire distintivo de grupo. E anuncia ouk en sophia logou, sem a arte da eloquência, a dos oradores que encantavam Corinto, hina mē kenōthē ho stauros tou Christou, para que a cruz não fique oca. Se o evangelho dependesse do brilho do pregador, a fé se apoiaria no pregador, e a cruz perderia o seu peso. Bruce Winter mostrou como os sofistas de Corinto atraíam discípulos e rivalidades; Paulo se recusa a ser um deles.

Versículos 18-25 — O Crucificado diante dos sábios e dos que pedem sinais

O v. 18 é o centro do capítulo. Ho logos ho tou staurou, o anúncio que tem a cruz por conteúdo, é mōria, de onde vem a nossa palavra moron, tois apollymenois, para quem está a caminho da perdição; tois de sōzomenois hēmin, para quem Deus está salvando, Paulo incluído, é dynamis theou, Deus agindo com poder. Os dois particípios estão no presente: perder-se e ser salvo são caminhos em andamento. A humanidade não se divide entre inteligentes e ignorantes, mas pela resposta à cruz. E a palavra que se opõe a tolice não é sabedoria, como se esperaria, mas força: a cruz não é só uma ideia melhor; é Deus agindo.

O v. 19 apoia isso nas Escrituras com Is 29.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), na forma da antiga tradução grega: Deus anuncia que acabará com o saber dos que se têm por sábios e tornará sem efeito o discernimento dos entendidos. Muitos observam que Paulo usa um verbo mais forte que o daquela tradução, de anular, e não de esconder. O estudo de Isaías 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostrou que, no profeta, a obra maravilhosa de Deus desmascarava os conselheiros que queriam salvar Jerusalém com alianças políticas; Paulo vê na cruz a obra mais espantosa de todas.

O v. 20 dispara perguntas no estilo de Is 19.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 33.18. Paulo convoca o sophos, o sábio, o grammateus, o especialista da Lei, e o syzētētēs tou aiōnos toutou, o polemista desta era, e pergunta onde foram parar. O verbo emōranen diz que Deus expôs como tolice o saber do mundo.

O v. 21 explica o paradoxo. Na sabedoria de Deus, o mundo não chegou a conhecer a Deus pela sua própria sabedoria. Paulo não despreza a razão; diz que ela não alcança, por si, o Deus que se revela. Então Deus decidiu, eudokēsen, salvar os que creem por meio do que parece tolice: o kērygma, o anúncio. Não é a tolice de pregar mal, mas a do conteúdo anunciado: um Messias pregado numa cruz.

Os vv. 22-23 trazem a oposição mais conhecida do capítulo. Do lado judeu, o pedido é por sēmeia, sinais; do lado grego, a procura é por sophia. Paulo não ridiculariza nenhum dos dois. O desejo de sinais tinha raízes nas Escrituras, nos sinais do êxodo e dos profetas, e os Evangelhos mostram gente que pedia a Jesus um sinal do céu (Mc 8.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a busca de sabedoria era a nobreza da filosofia grega. O problema é que ambos querem um Deus que se encaixe na sua expectativa. Os apóstolos, porém, anunciam Christon estaurōmenon, um Messias crucificado, num particípio perfeito que muitos leem como o crucificado que permanece marcado pela cruz: o Ressuscitado não deixa de ser o Crucificado. Para os judeus, é skandalon, pedra de tropeço: um Messias devia vencer os inimigos de Israel, e a Lei dizia que o pendurado no madeiro estava sob maldição (Dt 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), texto que Paulo aplicará ao próprio Cristo, que carregou a maldição que pesava sobre nós (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para os ethnē, as nações, é mōria.

A crucificação era, no mundo romano, a morte dos escravos, dos rebeldes e dos bandidos, e era feita para humilhar. Cícero, no discurso em defesa de Rabírio, diz que até o nome da cruz deveria ficar longe do corpo, dos pensamentos, dos olhos e dos ouvidos dos cidadãos romanos; Martin Hengel reuniu os textos antigos que mostram o horror que ela provocava. Um grafite encontrado no monte Palatino, em Roma, geralmente datado do fim do século II ou do começo do III, mostra um crucificado com cabeça de jumento e um homem que o saúda, com uma inscrição em grego que diz que Alexâmenos adora o seu deus; muitos o leem como zombaria de um cristão, embora a interpretação não seja unânime. Pregar um crucificado como Senhor era, para a cidade, ridículo.

O v. 24 vira a página: autois de tois klētois, para os próprios chamados, Ioudaiois te kai Hellēsin, judeus e gregos juntos, Cristo é theou dynamin kai theou sophian. O que os judeus procuravam, a força de Deus em ação, e o que os gregos buscavam, a sabedoria, estão no Crucificado, mas não do jeito que esperavam. E o v. 25 fecha com um paradoxo deliberado: nem o que em Deus parece mōron fica atrás da sabedoria humana, nem o que nele parece asthenes, fraco, perde para a força humana; ao contrário, supera as duas. Paulo não diz que Deus é tolo ou fraco; diz que até aquilo que os homens julgam assim, a cruz, ultrapassa o melhor que eles têm.

Versículos 26-31 — O chamado dos que não contavam

A prova está na própria igreja. Blepete tēn klēsin hymōn (v. 26): olhem para o chamado de vocês, o modo como Deus os chamou e quem eles eram então. Não muitos eram sophoi kata sarka, sábios pelos critérios humanos; não muitos, dynatoi, influentes; não muitos, eugeneis, de boa família. Os três termos ecoam Jr 9.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que o estudo de Jeremias 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aproxima deste versículo: o sábio, o forte e o rico, adaptados à sociedade de Corinto. O não muitos é honesto: havia alguns, e Paulo os conhecia.

Nos vv. 27-28, o verbo exelexato, escolheu, aparece três vezes. Deus escolheu ta mōra tou kosmou, o que o mundo tem por tolo, para que os sábios fiquem envergonhados; ta asthenē, o que o mundo tem por fraco, para expor a vergonha dos fortes; ta agenē, o que não tem linhagem, ta exouthenēmena, o desprezado, e até ta mē onta, o que nem conta, para katargēsē, anular, ta onta, o que se julga alguma coisa. A última expressão é radical: Deus age com os que, socialmente, nem existem. É o Deus que faz existir o que não existia (Rm 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Deus de Ana e de Maria, que tira do trono os que mandam e ergue os que estavam por baixo (1Sm 2.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 1.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo não idealiza a pobreza nem condena os que têm posição; descreve o modo como Deus age para que a salvação não seja confundida com mérito.

O propósito vem no v. 29: que nenhuma sarx, nenhum ser humano na sua fragilidade, tenha do que se gabar, kauchēsētai, diante de Deus.

O v. 30 é a afirmação positiva. Ex autou de hymeis este en Christō Iēsou: é de Deus, por iniciativa dele, que eles estão em Cristo Jesus. Pelo verbo egenēthē, Deus fez de Cristo a sabedoria que nos é dada, sophia hēmin apo theou, e Paulo acrescenta três palavras que muitos entendem como a explicação dessa sabedoria: dikaiosynē, justiça, a posição de justo diante de Deus; hagiasmos, santificação, a consagração a ele; apolytrōsis, redenção, o resgate de quem estava cativo, palavra que lembra a libertação do Egito e a obra da cruz (Rm 3.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A sabedoria de Deus não é um sistema que se domina, mas uma pessoa que se recebe. Os coríntios buscavam sabedoria em mestres; Deus lhes deu o Filho.

O v. 31 fecha com a Escritura: todo aquele que se orgulha deve ter o Senhor por motivo do seu orgulho. É o resumo de Jr 9.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que Paulo usará de novo em 2Co 10.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Em Jeremias, o único orgulho legítimo era conhecer o SENHOR, que pratica lealdade, direito e justiça; em Paulo, o Senhor é Cristo, e conhecê-lo é conhecer o Crucificado. O capítulo que começou com partidos formados em torno de nomes humanos termina com um único nome digno de orgulho.


✨ 4. Versículos-Chave

1Co 1.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O apelo contra as divisões e pela igreja refeita num mesmo modo de pensar é a tese dos capítulos 1 a 4 e, para muitos, da carta inteira. O verbo das redes consertadas descreve a unidade como restauração, não como uniformidade imposta.

1Co 1.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O anúncio da cruz, insensatez para quem se perde, é o poder de Deus em ação em quem está sendo salvo. O versículo define o evangelho pela cruz e divide a humanidade pela resposta a ela, não pela inteligência.

1Co 1.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Messias crucificado, pedra no caminho para judeus e absurdo para as nações, é, para os chamados de todos os povos, aquele em quem Deus mostra o seu poder e a sua sabedoria. Lutero fez desses versículos o centro do que chamou de teologia da cruz, na Disputa de Heidelberg (1518), contra uma teologia da glória que procura Deus no poder e no sucesso.

1Co 1.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus deu Cristo aos crentes como a sabedoria deles, e nele a justiça, a consagração e o resgate, para que todo orgulho se volte para o Senhor. É o versículo que liga a cruz à salvação inteira e cumpre, em Cristo, o oráculo de Jr 9.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A igreja de Deus e a unidade em Cristo. A igreja pertence a Deus, está numa cidade concreta e se une a todos os que invocam o nome de Jesus. A unidade não nasce de simpatias ou de líderes comuns, mas da comunhão com o Filho (v. 9) e da cruz (v. 13); a divisão por personalidades reparte o que não pode ser repartido.

A sabedoria de Deus e a sabedoria do mundo. O capítulo não opõe fé e inteligência, mas duas sabedorias. A do mundo mede Deus pela sua expectativa e o procura no prestígio, na eloquência e no poder; a de Deus se revela num crucificado. É a linha que vem de Is 29.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Jr 9.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e chega a Cristo, sabedoria de Deus em pessoa (v. 30).

A graça que inverte as posições. Deus chama os que não contavam, e assim ninguém tem do que se gabar diante dele. A salvação é dom do começo ao fim: Deus chama (vv. 2, 9, 26), Deus dá a graça (v. 4), Deus confirma até o fim (v. 8), Deus põe em Cristo (v. 30). Os dons também são graça (vv. 5-7), e por isso não servem de troféu.

O indicativo e o imperativo. O indicativo vem primeiro e é abundante: consagrados, enriquecidos, guardados por um Deus fiel, postos em Cristo. O imperativo brota disso: que estejam unidos (v. 10) e que todo orgulho se volte para o Senhor (v. 31).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

1 Coríntios 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no tempo da igreja, depois da Redenção consumada e antes da Nova Criação, na espera da revelação do Senhor (v. 7) e do seu dia (v. 8). A Queda aparece na sabedoria humana que não conhece a Deus (v. 21) e no orgulho que transforma até os dons em motivo de divisão. A Redenção em andamento está nas Escrituras de Israel que Paulo cita, Is 29.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jr 9.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e no povo de Deus, a ekklēsia, agora formado por gente de Corinto. A Redenção consumada é a cruz, centro do capítulo. E a Criação ressoa no Deus que faz contar o que não contava (v. 28), como no princípio fez existir o que não existia.

6.2 — Cristo, fundamento da carta inteira

O capítulo abre o tema que a carta desenvolverá: Cristo é o fundamento de tudo. Neste capítulo, ele é o Crucificado, força e sabedoria de Deus (vv. 23-24), e o Senhor em cujo nome se ora (v. 2). No capítulo 3, será o único alicerce que alguém pode lançar (1Co 3.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); no 5, o cordeiro da nossa Páscoa, já sacrificado (1Co 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); no 8, o único Senhor por quem tudo existe (1Co 8.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); nos capítulos 10 a 12, aquele cujo corpo e sangue a igreja partilha na ceia e cujo corpo a igreja é; no 15, o primeiro fruto da colheita da ressurreição (1Co 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o último Adão. E a carta termina com o clamor aramaico Marana tha, Senhor nosso, vem (1Co 16.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Toda a resposta pastoral de Paulo é cristológica: ao incesto responde com a Páscoa, à ceia dividida com a morte do Senhor, à negação da ressurreição com o Cristo ressuscitado.

6.3 — Como o capítulo lê o Antigo Testamento

Isaías 29.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (v. 19). Em acordo com o estudo de Isaías 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): Deus, maravilhoso em conselho, desfaz o saber dos conselheiros que confiavam em si. Na cruz, o Conselheiro maravilhoso de Is 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) salva o mundo não por uma aliança política, mas entregando a vida.

Jeremias 9.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (vv. 26-31). Em acordo com o estudo de Jeremias 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o sábio, o forte e o rico não têm de que se gloriar, e o único orgulho legítimo é conhecer o SENHOR. Paulo vê esse conhecimento em Cristo, a sabedoria de Deus dada aos crentes, em quem recebem justiça, santidade e resgate.

O nome do Senhor (v. 2). A invocação do nome do SENHOR, que em Jl 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) salva no dia do Senhor, é dirigida a Jesus, sem que Paulo deixe de confessar um só Deus (1Co 8.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.4 — A situação de Corinto e a resposta de Cristo

Corinto era uma cidade de gente que precisava provar o seu valor, e a igreja trouxe esse hábito para dentro: escolhia patronos espirituais, comparava pregadores, exibia dons. Paulo não responde com um código de conduta, mas com Cristo crucificado. A cruz desfaz a lógica do prestígio, porque mostra Deus salvando pelo que o mundo despreza. Desfaz também os partidos, porque só Cristo foi crucificado por todos e só no seu nome todos foram batizados. E desfaz o orgulho, porque tudo o que a igreja tem lhe foi dado. O imperativo da unidade nasce do indicativo da cruz.

6.5 — O Evangelho no capítulo

O evangelho deste capítulo é a notícia de um Deus que não espera que subamos até ele pela inteligência, pelo poder ou pela linhagem, mas que desce até a cruz, o lugar da vergonha, e ali salva. Pregar 1 Coríntios 1 é dizer ao ouvinte que ele não precisa ser alguém para ser chamado; que Cristo é a sabedoria que ele não alcançaria, a justiça que ele não teria, a santidade que não produziria e o resgate que não poderia pagar; e que, recebido tudo isso, o único orgulho que lhe resta é o Senhor.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

O culto às personalidades. Hoje ninguém diz que é de Apolo, mas muitos se definem pelo pregador que seguem, pelo canal que assistem, pelo líder cuja foto está no cartaz, pela denominação que acham superior. Paulo recusa até os que se diziam seus. A unidade pedida no v. 10 não exige que todos pensem igual em tudo, mas que ninguém faça de pessoas ou estilos um motivo de ruptura. O pastor fiel aponta para Cristo e sai da frente; a igreja madura agradece pelos servos que Deus lhe deu sem pôr nenhum deles no lugar do Crucificado. Antes de defender o seu líder ou o seu grupo, pergunte: Cristo foi repartido?

A cruz contra a teologia do sucesso. Corinto queria um evangelho com eloquência, prestígio e resultados visíveis. Muitas pregações atuais prometem o mesmo, com outro vocabulário: Deus como garantia de prosperidade, saúde e vitória, e a fé medida pelo que se conquista. A cruz desmente essa teologia. Deus salvou pelo que parecia derrota, e continua agindo por meio de gente fraca. Isso não glorifica a pobreza nem o sofrimento, mas liberta o crente de medir a presença de Deus pelo sucesso. Quem perdeu o emprego, adoeceu ou fracassou não está mais longe de Deus do que quem prosperou.

Ninguém é pequeno demais para Deus. Os coríntios eram, na maioria, gente sem nome. Deus os chamou assim mesmo. Quem se sente insignificante, sem estudo, sem influência ou sem família de prestígio, pode ouvir o v. 28 como boa notícia: Deus gosta de trabalhar com o que o mundo não conta. E quem tem posição pode usá-la como Gaio e Estéfanas, a serviço dos irmãos.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Paulo chama de santa uma igreja cheia de problemas (v. 2) e agradece a Deus por ela (v. 4). O que isso ensina sobre o modo de olhar para a sua própria igreja?
  2. Que formas de divisão por nomes, líderes ou grupos você reconhece hoje (v. 12)? Como a pergunta do v. 13 as desmonta?
  3. Por que a cruz pareceu tropeço aos judeus e tolice aos gregos (vv. 22-23)? Que expectativas sobre Deus a cruz contraria hoje?
  4. Paulo diz que Deus escolheu o que o mundo despreza (vv. 27-28). Como isso transforma o modo de ver a si mesmo e os outros?
  5. O que significa receber Cristo como sabedoria, e nele a justiça, a santidade e o resgate (v. 30)? Em qual dessas dimensões você precisa mais de Cristo agora?
  6. Para meditação e oração: examine do que você se orgulha, entregue isso a Deus e peça a graça de se gloriar somente no Senhor crucificado (v. 31).

📚 10. Para Aprofundamento

Comentários de 1 Coríntios:

  • Gordon D. Fee — The First Epistle to the Corinthians (NICNT, Eerdmans, 1987; 2.ª ed., 2014)
  • Anthony C. Thiselton — The First Epistle to the Corinthians (NIGTC, Eerdmans, 2000)
  • Roy E. Ciampa e Brian S. Rosner — The First Letter to the Corinthians (Pillar New Testament Commentary, Eerdmans, 2010)
  • Richard B. Hays — First Corinthians (Interpretation, John Knox, 1997)
  • Joseph A. Fitzmyer — First Corinthians (Anchor Yale Bible, Yale University Press, 2008)
  • Leon Morris — 1 Coríntios: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • David Prior — A mensagem de 1 Coríntios (ABU, série A Bíblia Fala Hoje)

Corinto, a igreja e o contexto:

  • Jerome Murphy-O'Connor — St. Paul's Corinth: Texts and Archaeology (Liturgical Press, 3.ª ed., 2002)
  • Gerd Theissen — The Social Setting of Pauline Christianity (Fortress, 1982)
  • Wayne A. Meeks — The First Urban Christians (Yale University Press, 1983)
  • Bruce W. Winter — After Paul Left Corinth (Eerdmans, 2001)
  • Margaret M. Mitchell — Paul and the Rhetoric of Reconciliation (Mohr Siebeck, 1991)
  • Martin Hengel — Crucifixion in the Ancient World and the Folly of the Message of the Cross (Fortress, 1977)
  • Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2.ª ed., 1994)
  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), na parte sobre 1 Coríntios

Sabedoria para o Cotidiano
A igreja de Corinto se dividia em torno de nomes famosos, e Paulo respondeu com a cruz, onde só um foi crucificado por todos. Antes de seguir pessoas, siga o Crucificado; antes de medir a vida pelo sucesso, lembre que Deus salvou o mundo pelo que parecia derrota. Você não precisa ser sábio, influente ou bem-nascido para ser chamado: Cristo é a sabedoria, a justiça, a santidade e o resgate que Deus lhe dá. O único orgulho que sobra a quem recebeu tudo é o próprio Senhor.

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