1 Coríntios · 46 de 66 · Novo Testamento
1 Coríntios — Capítulo 14
Título do capítulo: A palavra que edifica a igreja reunida
Gênero literário: Epístola — instrução sobre o culto e os dons (o amor posto em prática na assembleia: a profecia preferida às línguas sem interpretação, a oração com o espírito e com a mente, Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o sinal para os que não creem, a ordem de quem fala no culto, o silêncio pedido às mulheres e a conclusão de toda a seção dos dons, iniciada no capítulo 12)
Número de versículos: 40
Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. Nenhum versículo é transcrito; as frases de Paulo, inclusive as mais conhecidas, e a citação de Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) no v. 21 são resumidas com outras palavras. A apresentação da carta inteira (autoria, data, a cidade de Corinto, a correspondência e a estrutura) está no estudo do capítulo 1. Dois pontos de texto são tratados no lugar próprio: o lugar dos vv. 34-35, que alguns manuscritos de tipo ocidental põem depois do v. 40, e a forma do verbo no v. 38. As datas são aproximadas.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O capítulo na carta
Como mostra o estudo do capítulo 1, Paulo escreve de Éfeso, por volta de 53 a 55, pouco antes de um Pentecostes (1Co 16.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a uma igreja que ele fundou alguns anos antes (At 18.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que lhe mandara uma carta com perguntas (1Co 7.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fórmula peri de, quanto a, organiza as respostas, e em 1Co 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ela abre o assunto dos pneumatika, as manifestações do Espírito, que ocupa três capítulos.
O capítulo 14 é o ponto de chegada. No capítulo 12, o mesmo Espírito reparte os dons, a confissão de Jesus como Senhor marca toda fala inspirada (1Co 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a igreja é um corpo em que ninguém dispensa ninguém. No capítulo 13, o amor fica acima de qualquer dom: sem ele, a fala mais extraordinária é ruído, e os dons, parciais, cessarão quando vier o que é completo (1Co 13.1, 8-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora Paulo aplica tudo isso à assembleia reunida. O critério que governa o capítulo inteiro é a oikodomē, a edificação, palavra que aparece, com o verbo da mesma raiz, sete vezes em quarenta versículos.
O problema em Corinto
Os coríntios valorizavam a fala em línguas, ao que parece, como prova de espiritualidade superior. Chamavam-se pneumatikoi, espirituais (1Co 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.1; 14.37). Nas reuniões, vários falavam ao mesmo tempo, em línguas sem interpretação, e o visitante podia sair achando que todos estavam fora de si (v. 23). Paulo não os acusa de inventar dons (1Co 1.5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o problema era o uso: o dom dado para servir o corpo virara vitrine de quem o possuía. É a mesma doença do orgulho que dividia a igreja em partidos (1Co 1.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e humilhava os pobres à mesa da ceia (1Co 11.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O mundo religioso de Corinto
Os coríntios conheciam a fala em transe das religiões gregas. A sacerdotisa de Delfos dava oráculos em estado de inspiração, e os cultos de Dionísio cultivavam a mania, o arrebatamento. Platão chama de divina essa loucura no Fedro e, no Timeu, observa que o costume era nomear intérpretes para julgar o que dizia quem falava inspirado. Paulo lembrara aos coríntios o passado em que eram levados, sem rumo, aos ídolos mudos (1Co 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Contra esse pano de fundo, o capítulo traz uma novidade: o Espírito de Deus não arrasta ninguém. Quem fala em línguas pode calar (v. 28); quem profetiza pode esperar a vez (vv. 30-32).
A igreja se reunia em casas. Quando Paulo fala da igreja inteira reunida num só lugar (v. 23), pensa provavelmente numa casa grande como a de Gaio, que hospedava toda a igreja da cidade (Rm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jerome Murphy-O'Connor, estudando as casas escavadas em Corinto, estimou que uma reunião assim teria algumas dezenas de pessoas. Ali o estranho que entrasse seria notado na hora, e não havia, ao que tudo indica, um pregador e uma plateia: cada um podia trazer um cântico, um ensino, uma revelação (v. 26). Essa liberdade é a riqueza e o risco do capítulo.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
Paulo pede que os coríntios corram atrás do amor e desejem com ardor as manifestações do Espírito, sobretudo a profecia. Quem fala em língua se dirige a Deus, e ninguém o entende: pelo Espírito, diz coisas ocultas. Quem profetiza fala às pessoas e lhes traz construção, ânimo e conforto; o primeiro edifica a si mesmo, o segundo, a igreja. Paulo gostaria que todos falassem em línguas, mas prefere que profetizem, porque quem profetiza é maior, a menos que a língua seja interpretada e a igreja, edificada (vv. 1-5).
Se o próprio Paulo chegasse falando em línguas, sem revelação, conhecimento, profecia ou ensino, de nada serviria. A flauta e a cítara precisam de notas distintas, e a trombeta de som confuso não chama ninguém à batalha; a fala sem sentido claro se perde no vento, e quem não entende a língua do outro fica estrangeiro diante dele. Já que são zelosos das manifestações do Espírito, que procurem transbordar delas para edificar a igreja (vv. 6-12).
Quem fala em língua deve orar para interpretá-la. Quando Paulo ora em língua, o espírito ora e a mente fica sem fruto; por isso ele ora e canta com os dois. Como o não iniciado dirá amém ao que não entendeu? Paulo agradece a Deus por falar em línguas mais do que todos eles; mas, na igreja, prefere cinco palavras ditas com a mente, para instruir os outros, a dez mil numa língua (vv. 13-19).
Que não pensem como crianças: no mal, sejam pequeninos; no juízo, adultos. A Lei diz que Deus falaria a este povo por gente de outra língua, e nem assim seria ouvido. As línguas são sinal para os que não creem, e a profecia, para os que creem. Se a igreja inteira fala em línguas e entra alguém de fora ou um descrente, dirá que estão loucos; se todos profetizam, ele é convencido e examinado, os segredos do seu coração aparecem e, prostrado, ele adora a Deus e declara que Deus está de fato no meio deles (vv. 20-25).
Quando se reúnem, cada um traz um cântico, um ensino, uma revelação, uma língua ou uma interpretação, e tudo deve edificar. Em línguas, falem dois ou três, um de cada vez, com intérprete; sem ele, quem fala em língua fale só consigo e com Deus. Dos profetas, falem dois ou três, e os outros avaliem; se outro recebe uma revelação, o primeiro se cale, pois todos podem profetizar, um por um, para aprender e ser encorajados. Os profetas têm domínio sobre o próprio impulso, porque Deus não produz tumulto, e sim paz (vv. 26-33).
Como em todas as igrejas, as mulheres devem guardar silêncio nas assembleias e estar submissas, como diz a Lei; se querem aprender, perguntem em casa aos maridos, pois é desonroso a mulher falar na assembleia. A palavra de Deus, pergunta Paulo, saiu de Corinto ou só chegou até eles? (vv. 33-36).
Quem se tem por profeta ou espiritual reconheça que o que Paulo escreve é mandamento do Senhor; quem não o reconhecer não será reconhecido. Que desejem profetizar, não impeçam as línguas e façam tudo com decoro e em ordem (vv. 37-40).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-5 — O amor escolhe o dom que serve
O v. 1 amarra os dois capítulos. Diōkete tēn agapēn: persigam o amor, com o verbo da caça e da corrida; e, sem contradição, zēloute de ta pneumatika, desejem com ardor as manifestações do Espírito. O amor não se opõe aos dons; é o caminho por onde eles devem andar (1Co 12.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo zēloute volta no v. 39 e emoldura o capítulo.
Os vv. 2-3 definem por contraste. Quem fala glōssē, em língua, fala a Deus, não às pessoas: ninguém o akouei, ouve no sentido de compreender, e ele diz mystēria pelo espírito, não o plano de Deus revelado em Cristo, como em 1Co 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mas coisas que ficam ocultas para quem ouve. Neste capítulo, as línguas são oração, louvor e ação de graças (vv. 14-17).
Quem prophēteuei, ao contrário, fala às pessoas e lhes traz oikodomē, construção; paraklēsis, o encorajamento que também exorta, palavra ligada ao nome de Barnabé (At 4.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e paramythia, o conforto de quem está abatido. É o mais perto que o Novo Testamento chega de definir a profecia, e a definição fala do efeito, não da forma. Não se trata, em primeiro lugar, de prever o futuro, embora Ágabo tenha anunciado uma fome e a prisão de Paulo (At 11.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.10-11). É uma palavra inteligível, dada pelo Espírito para o momento (v. 30), que fortalece, chama de volta ao caminho, consola e, no v. 24, expõe o coração.
As tradições leem essa profecia de modos diferentes. Calvino e os puritanos a aproximaram da pregação e da exposição das Escrituras; William Perkins chamou de A arte de profetizar o seu manual de pregação. Muitos cessacionistas, como Richard Gaffin, entendem que a profecia como revelação nova pertenceu ao fundamento da igreja, com os apóstolos (Ef 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e cessou com ele. Muitos continuístas, como Wayne Grudem, a descrevem como palavra espontânea, recebida do Espírito e comunicada com palavras humanas, que deve ser avaliada e nunca tem a autoridade das Escrituras. As igrejas pentecostais e carismáticas praticam a palavra profética no culto, com a exigência de ser julgada. A tradição católica fala dos carismas repartidos entre os fiéis (Lumen Gentium 12), e a ortodoxa honra os dons do Espírito na vida dos santos. Em todas, o v. 3 é a pedra de toque: palavra que não edifica, não encoraja nem consola, por mais solene que pareça, não é o que Paulo chama de profecia.
Quem fala em língua heauton oikodomei, edifica a si mesmo (v. 4). Não há desprezo nisso; orar a Deus e ser fortalecido é bom. Mas a assembleia não existe para que cada um se edifique sozinho diante dos outros. E o v. 5 equilibra: Paulo gostaria, thelō, que todos falassem em línguas, como Moisés desejou todo o povo profeta (Nm 11.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quer mais, porém, que profetizem. Quem profetiza é meizōn, maior, pela utilidade para os outros, ektos ei mē, a não ser que a língua seja interpretada, porque então edifica como a profecia. Logo depois do hino ao amor, a medida da grandeza é servir.
Versículos 6-12 — Sons que ninguém entende
Paulo se põe no exemplo (v. 6): se o fundador da igreja chegasse falando em línguas, só seria útil trazendo apokalypsis, revelação, gnōsis, conhecimento, prophēteia ou didachē, ensino, formas de palavra que se entende.
Vêm as imagens. A aulos, flauta dupla dos banquetes e dos funerais, e a kithara, a lira, são instrumentos apsycha, sem vida, e mesmo assim precisam de notas distintas, diastolē, para que se reconheça a melodia (v. 7). A salpinx, trombeta militar, dava os sinais de avançar ou recuar; se soa incerta, nenhum soldado se prepara (v. 8). A fala sem eusēmos logos, palavra de sentido claro, vai eis aera, para o ar (v. 9).
Há no mundo muitíssimos genē phōnōn, tipos de línguas, e nenhum é sem sentido (v. 10). O problema não é a língua, e sim a falta de compreensão. Quem não entende o que ouve fica barbaros, estrangeiro, para quem fala, e vice-versa (v. 11); era a palavra com que os gregos imitavam a fala alheia como um balbucio. Numa cidade portuária, todos conheciam a sensação de estar de fora, e Paulo não a quer dentro da igreja. Os coríntios são zēlōtai pneumatōn, ávidos das manifestações do Espírito (v. 12); Paulo não lhes apaga o zelo, muda-lhe o alvo: que procurem transbordar, perisseuein, para a construção da igreja.
Versículos 13-19 — O espírito que ora e a mente que entende
Quem fala em língua deve orar para poder interpretar (v. 13); a hermēneia é ela mesma um dom (1Co 12.10, 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que a mesma pessoa pode receber.
O v. 14 é um raro relato de experiência interior. Quando Paulo ora em língua, to pneuma mou proseuchetai, o seu espírito ora, mas ho nous mou akarpos estin, a mente fica sem fruto. Pneuma pode ser o espírito humano movido pelo Espírito Santo ou o próprio Espírito que nele ora; muitos pensam nos dois, como em Rm 8.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Akarpos pode indicar que a mente não entende ou que não produz fruto para os outros. Paulo não escolhe um lado: decide orar e psallein, cantar, com o espírito e também com a mente (v. 15), com o verbo que passara de tanger cordas a cantar louvores (Ef 5.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 16 traz o idiōtēs, o leigo, o não iniciado num ofício ou num culto, que ocupa ton topon, um lugar na reunião: o visitante interessado, o simpatizante ainda não batizado ou o crente sem o dom de interpretar; o v. 23 o põe ao lado do descrente. Ele deveria dizer o amēn, a palavra hebraica com que a sinagoga selava a oração de outro (Ne 8.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 106.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas como dirá amém ao que não entendeu? O amém é a assinatura da comunidade na oração, e ninguém assina em branco. A ação de graças em língua pode ser bela diante de Deus, mas o outro ouk oikodomeitai, não é edificado (v. 17).
Os vv. 18-19 mostram o equilíbrio de Paulo. Ele dá graças porque fala em línguas mais do que todos os coríntios; não fala como quem despreza o que não conhece. Mas en ekklēsia, na assembleia, prefere cinco palavras ditas com a mente, para katēchein, instruir, a myrioi, dez mil, em língua. Myrioi era o maior número com nome em grego: a desproporção é completa. As línguas têm o seu lugar sobretudo na oração pessoal; a assembleia pede a palavra que se entende.
Versículos 20-25 — Sinal para quem não crê, palavra que desvenda o coração
O v. 20 é uma correção carinhosa: adelphoi, irmãos, não sejam paidia, crianças, nas phrenes, no modo de julgar; na maldade, sim, sejam nēpioi, bebês; no juízo, teleioi, adultos. Os coríntios, que se achavam maduros, gostavam de dons vistosos como crianças gostam do que brilha; Paulo já lhes dissera que ainda precisavam de leite (1Co 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No v. 21, Paulo cita o nomos, a Lei, no sentido amplo das Escrituras de Israel, como em Rm 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O texto é Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), citado com liberdade: a forma não segue de perto nem o hebraico nem a antiga tradução grega, põe Deus falando na primeira pessoa e termina dizendo que, nem assim, o povo o ouviria. Como mostra o estudo de Isaías 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o oráculo respondia aos líderes de Jerusalém que zombavam do profeta como de quem balbucia lições de criança: já que achavam a palavra clara de Deus um balbucio, ouviriam a fala incompreensível dos assírios. A língua estrangeira era sinal de juízo sobre quem recusara ouvir (Dt 28.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 22 tira a conclusão: as línguas funcionam como sēmeion, sinal, voltado aos que não creem, e a profecia, aos que creem. Os vv. 23-24 parecem dizer o contrário: o descrente que entra e ouve todos falando em línguas dirá que estão mainesthe, loucos, e é a profecia que o alcança. Essa aparente contradição recebeu várias leituras.
A primeira, que o estudo de Isaías 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) acompanha e que muitos intérpretes, como Gordon Fee e Anthony Thiselton, preferem, lê o sinal à luz de Isaías, como juízo: a fala incompreensível não converte ninguém; confirma o descrente na sua distância. A profecia, ao contrário, é sinal de que Deus está com o seu povo e lhe fala. Por isso Paulo não quer na assembleia o sinal que afasta, mas a palavra que chama. A segunda leitura entende o sinal de modo positivo, como no Pentecostes, quando as línguas compreendidas fizeram muitos perguntar o que aquilo significava (At 2.6-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); em Corinto, sem interpretação, o sinal se frustra e vira zombaria, como em parte também em Jerusalém (At 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma terceira, de poucos estudiosos, vê no v. 22 uma opinião dos coríntios que Paulo cita para corrigir. E alguns cessacionistas, como O. Palmer Robertson, leem nas línguas um sinal dirigido sobretudo a Israel incrédulo, num período de transição. As leituras convergem no ponto prático: na reunião, deve prevalecer a palavra que o de fora pode entender.
Se hē ekklēsia holē, a igreja toda, está reunida e todos falam em línguas, os idiōtai ē apistoi, não iniciados ou descrentes, que entram dirão mainesthe, estão em delírio (v. 23), a palavra que os gregos usavam para o êxtase dionisíaco. O culto do Deus vivo passaria por mais um culto de mistérios.
Os vv. 24-25 descrevem a alternativa. Se todos profetizam, o descrente que entra é elenchetai, convencido, e anakrinetai, examinado, por todos; ta krypta tēs kardias, os segredos do seu coração, tornam-se visíveis. Não é espetáculo de adivinhação, e sim a palavra que alcança a consciência, como a samaritana, que contou a todos que Jesus lhe dissera tudo o que ela fizera (Jo 4.19, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou Natanael, conhecido antes de ser chamado (Jo 1.47-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele cai com o rosto em terra, adora a Deus e declara que Deus está de fato no meio dos crentes, eco da promessa de que as nações viriam a Israel reconhecendo que Deus estava com ele (Is 45.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 8.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que os profetas esperavam acontece numa sala de Corinto, quando a igreja fala de modo que se entenda.
Versículos 26-33 — Cada um com um dom, todos em ordem
Ti oun estin, adelphoi? Que fazer, então, irmãos? (v. 26). É um dos raros retratos de culto do Novo Testamento. Quando se reúnem, hekastos, cada um, traz algo: um psalmos, cântico, talvez um salmo de Israel ou um hino novo (Cl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); uma didachē, ensino; uma apokalypsis, revelação; uma glōssa, língua; uma hermēneia, interpretação. A igreja não era plateia, e a regra para todos é uma só: panta pros oikodomēn ginesthō, tudo sirva para edificar.
Para as línguas (vv. 27-28): kata dyo ē to pleiston treis, dois ou no máximo três, ana meros, um de cada vez, e alguém interprete. Sem intérprete, quem fala em língua sigatō, cale-se na assembleia e fale heautō kai tō theō, consigo mesmo e com Deus. A instrução supõe que o dom pode ser controlado: ninguém é arrastado por uma força que não domina.
Para os profetas (vv. 29-31): falem dois ou três, e hoi alloi diakrinetōsan, os outros avaliem. Diakrinō é distinguir, julgar com discernimento, o verbo da diakrisis pneumatōn de 1Co 12.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os outros podem ser os demais profetas ou a assembleia inteira; muitos preferem a segunda leitura, porque Paulo pede a toda a igreja que não despreze as profecias, submeta tudo a exame e guarde só o que for bom (1Ts 5.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhuma profecia estava acima de avaliação. Os critérios aparecem na carta e no restante do Novo Testamento: a confissão de Jesus como Senhor (1Co 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 4.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a concordância com o ensino apostólico (v. 37; Gl 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o fruto na vida de quem fala (Mt 7.15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a edificação do corpo.
Se outro, kathēmenos, sentado, recebe uma revelação, o primeiro se cale (v. 30): falava-se de pé, ouvia-se sentado, e ninguém tinha a palavra para sempre. Todos podem profetizar, kath' hena, um por um, para que todos manthanōsin, aprendam, e parakalōntai, sejam encorajados (v. 31). O todos pensa, ao que tudo indica, nos que receberam o dom, já que 1Co 12.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pergunta se todos são profetas esperando a resposta negativa.
O v. 32 dá o princípio: pneumata prophētōn prophētais hypotassetai, os impulsos proféticos estão sujeitos aos próprios profetas. É a diferença decisiva em relação à mania dos cultos gregos: o Espírito não anula a pessoa, que continua responsável pelo que diz e pelo momento em que fala. Ninguém pode alegar que o Espírito o obrigou a interromper, gritar ou humilhar alguém.
O v. 33 funda tudo no caráter de Deus, que não é fonte de akatastasia, o tumulto, a agitação (2Co 12.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Tg 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e sim de eirēnē, a paz que no hebraico shalom é harmonia, cada coisa no seu lugar. O culto revela o Deus que se cultua. A expressão seguinte, sobre o costume de todas as igrejas dos santos, pode fechar o v. 33 ou abrir o v. 34; as edições se dividem, e muitas a ligam ao que vem depois.
Versículos 34-36 — O silêncio pedido às mulheres e as leituras da passagem
Poucos versículos foram tão discutidos e pedem tanto cuidado. Paulo pede que as mulheres sigatōsan, fiquem em silêncio, nas assembleias, porque lalein, o falar, ouk epitrepetai, não lhes é concedido ali; e que se mantenham hypotassesthōsan, submissas, invocando a Lei (v. 34). Se querem mathein, aprender, perguntem em casa tous idious andras, aos próprios maridos, porque ele considera aischron, desonroso, a mulher falar na assembleia (v. 35). E o v. 36 pergunta, com ironia, se a palavra de Deus saiu dos coríntios ou só chegou até eles.
Qualquer leitura séria tem de explicar uma tensão dentro da própria carta. Em 1Co 11.5, Paulo supõe que mulheres oram e profetizam no culto e não o proíbe; regula apenas a cobertura da cabeça. E a regra dos profetas que falam um por um (v. 31) não distingue homens e mulheres. Joel prometera filhas que profetizariam (Jl 2.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Pedro o anunciou no Pentecostes (At 2.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Filipe tinha quatro filhas profetisas (At 21.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O silêncio do v. 34 dificilmente é absoluto; a pergunta é de que fala ele trata.
Antes, o texto. Todos os manuscritos conhecidos trazem os vv. 34-35, mas alguns de tipo ocidental, entre eles o Claromontano, e escritores latinos antigos, como Ambrosiastro, os põem depois do v. 40. Gordon Fee e Philip Payne, entre outros, defenderam que seriam uma nota marginal de copista, talvez inspirada em 1Tm 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), incorporada ao texto em dois lugares diferentes; Payne viu ainda, à margem do Vaticano, sinais que indicariam um problema neste ponto, interpretação discutida. A maioria dos estudiosos, como Anthony Thiselton, D. A. Carson e Craig Keener, mantém os versículos como de Paulo: nenhum manuscrito os omite, a mudança de lugar pode ter sido uma tentativa de copistas de agrupar as instruções, e o vocabulário (calar, falar, submeter-se, aprender) se liga ao contexto. Este estudo os lê como parte do texto, como fazem as Bíblias e as igrejas, sem esconder a questão.
Entre os que os mantêm, há leituras de contexto. Uma, de Craig Keener e outros, pensa em perguntas que interrompiam o culto: numa sociedade em que as mulheres raramente recebiam instrução e se esperava delas reserva em público, esposas recém-chegadas à fé perguntavam em voz alta durante o ensino, e Paulo, com o mesmo cuidado que teve com as línguas e as profecias, pede que perguntem em casa. O verbo mathein é notável: ele quer que elas aprendam, coisa que muitos mestres do tempo nem cogitavam. Outra, de D. A. Carson e Wayne Grudem, liga o silêncio ao julgamento das profecias do v. 29: as mulheres profetizavam, mas não deviam tomar parte, em público, na avaliação das profecias, sobretudo as dos maridos, que as poria num papel de autoridade doutrinária. Uma terceira, de poucos estudiosos, vê nos vv. 34-35 uma opinião de alguns coríntios que Paulo refuta no v. 36.
E a Lei do v. 34? Nenhum texto do Antigo Testamento manda as mulheres calar. Alguns pensam em Gn 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); outros, na ordem da criação de Gn 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a que Paulo recorre em 1Co 11.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); outros, no sentido geral das Escrituras, numa tradição judaica de interpretação ou nos costumes greco-romanos. Plutarco, nos Conselhos aos noivos, aconselha que a esposa fale ao marido ou por meio dele, e Tito Lívio põe na boca de Catão a censura às mulheres que interpelavam homens em público em vez de perguntar em casa aos maridos. Em que medida Paulo confirma esse mundo e em que medida o corrige é o que as tradições discutem.
As igrejas tiram daí conclusões diferentes, e o leitor merece conhecê-las com respeito. A leitura complementarista, de muitas igrejas evangélicas, entende que homens e mulheres têm a mesma dignidade e funções diferentes, e que o ensino e a direção com autoridade sobre a assembleia cabem a homens; lê 1Co 14.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com 1Tm 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e reconhece, por causa de 1Co 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que mulheres oram, testemunham e profetizam. A Igreja Católica e as ortodoxas, por razões teológicas próprias, reservam a homens o ministério ordenado e reconhecem muitos serviços de mulheres. A leitura igualitária, de muitas igrejas protestantes e pentecostais, entende que as restrições respondiam a uma situação local e que Gl 3.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o exemplo de Priscila, que instruiu Apolo (At 18.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de Febe e de Júnia (Rm 16.1-2, 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) abrem às mulheres todos os ministérios. No movimento pentecostal, desde o começo, mulheres pregaram e abriram trabalhos, e as igrejas pentecostais hoje têm práticas diversas.
Nenhuma dessas leituras autoriza o desprezo. O texto não diz que a mulher vale menos nem que a sua fé ou a sua inteligência são inferiores, e muito menos dá a alguém o direito de calá-la com humilhação, de impedi-la de pedir ajuda ou de denunciar um abuso. Usar este versículo para ferir mulheres é contradizer o capítulo 13, que o precede. E o v. 36 corrige a todos: nenhuma igreja é dona da palavra de Deus. Ela veio de fora, chegou a Corinto como chega a nós, e quem a recebeu não pode tratá-la como propriedade.
Versículos 37-40 — Mandamento do Senhor, decoro e ordem
Quem se considera prophētēs ou pneumatikos (v. 37) se reconhece por um sinal simples: reconhece que o que Paulo escreve é kyriou entolē, mandamento do Senhor. A ordem no culto não é gosto de um apóstolo cansado de barulho; vem de Cristo. O v. 38 tem duas formas nos manuscritos. Na que muitas edições seguem, quem não o reconhece agnoeitai, não é reconhecido, provavelmente por Deus (1Co 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); em outros, entre eles o P46 e o Vaticano, lê-se agnoeitō, que fique na sua ignorância. Nas duas, a pretensa espiritualidade que não se submete à palavra apostólica se desqualifica.
Hōste, adelphoi mou (v. 39): portanto, meus irmãos. Desejem com ardor, zēloute, profetizar, e não impeçam, mē kōlyete, o falar em línguas. Paulo protege os dois lados: aos entusiastas, lembra que a profecia vale mais na assembleia; aos que quisessem resolver o problema calando todo dom, proíbe a proibição.
O v. 40 fecha a seção iniciada em 1Co 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): panta de euschēmonōs kai kata taxin ginesthō. Euschēmonōs é com decoro, com boa forma; kata taxin, em ordem, cada coisa no seu tempo, palavra das fileiras de um exército e dos turnos sacerdotais (Lc 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem não é o contrário do Espírito; é a forma que a sua liberdade toma quando o amor governa.
✨ 4. Versículos-Chave
1Co 14.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O amor como caminho e o desejo dos dons como zelo, sem que um anule o outro. O versículo une os capítulos 13 e 14 e corrige dois erros: buscar experiências espirituais sem amor e, por prudência, deixar de desejar o que o Espírito dá.
1Co 14.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A profecia fala às pessoas e lhes traz construção, encorajamento e consolo. É a régua de toda palavra que se apresenta como vinda de Deus: o que ela faz com quem ouve? As tradições que divergem sobre a natureza da profecia concordam nesse critério, e pregadores e conselheiros encontram aqui a finalidade do seu ministério.
1Co 14.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O descrente que entra, é alcançado pela palavra, vê o coração exposto, adora a Deus e reconhece a sua presença entre os crentes. É o retrato de uma conversão no culto e a medida missionária da assembleia.
1Co 14.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 14.40 — Deus não produz tumulto, e sim paz; por isso tudo no culto deve ter decoro e ordem. Os dois versículos deram às igrejas o princípio de que a liturgia, espontânea ou fixa, deve refletir o caráter de Deus. Todas as tradições os invocam, cada uma com a sua forma de culto, e todas podem ser julgadas por eles.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A edificação como critério. A palavra oikodomē atravessa o capítulo. Paulo já falara da igreja como construção sobre o único fundamento, Jesus Cristo (1Co 3.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e contrapusera o saber que infla ao amor que constrói (1Co 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui a régua se aplica ao culto: um dom vale, na assembleia, pelo que constrói nos outros (Rm 14.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 4.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 5.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A mente e o espírito. O Espírito não despreza a inteligência. Paulo valoriza a oração que ultrapassa as palavras, mas, na assembleia, quer o espírito e a mente juntos; o Espírito que inspira é o que ilumina o entendimento (Lc 24.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 1.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os reformadores invocaram este capítulo ao defender o culto na língua do povo, e o Concílio Vaticano II, por caminho próprio, abriu amplamente a liturgia às línguas de cada povo (Sacrosanctum Concilium 36).
A ordem que nasce da paz de Deus. Os limites de Paulo, dois ou três, um de cada vez, um intérprete, a avaliação das profecias, não sufocam o Espírito; mostram que ele é Espírito de paz. Deus cria pondo ordem no caos (Gn 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o seu Espírito produz domínio próprio (Gl 5.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Tm 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A assembleia que acolhe o de fora. A igreja reunida não é clube de iniciados com linguagem secreta, mas lugar em que o mundo pode ouvir e entender. O tema vem do templo que Deus queria aberto à oração de todos os povos (Is 56.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e floresce na igreja em que gente de muitas línguas compreende as grandezas de Deus (At 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
1 Coríntios 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no tempo da Redenção consumada, entre o Pentecostes e a volta do Senhor, que Paulo invocará no fim da carta com o Marana tha (1Co 16.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Queda aparece na confusão das línguas: em Babel, o orgulho terminou em gente que já não se entendia (Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e em Isaías a língua estrangeira foi juízo para quem recusara a palavra clara (Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Redenção em andamento está no desejo de Moisés e na promessa de Joel, cumprida no Pentecostes. E a Nova Criação se anuncia quando o louvor é compreendido e o estranho entra, reconhece a presença de Deus e o adora: uma igreja pequena reunida em ordem é amostra da multidão de todas as línguas diante do Cordeiro (Ap 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Cristo, fundamento do culto e dos dons
Cristologia. Paulo abriu a seção com o critério de toda fala inspirada: só pelo Espírito alguém confessa Jesus como Senhor (1Co 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Línguas, profecias e revelações valem na medida em que servem a essa confissão; o testemunho de Jesus é o espírito da profecia (Ap 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Eclesiologia. O indicativo vem antes: pelo mesmo Espírito, todos foram mergulhados num só corpo (1Co 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A igreja já é o corpo de Cristo antes de qualquer culto, e por isso o culto deve edificá-la. Os dons são charismata, graça repartida pelo Cristo exaltado (Ef 4.7-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ética. O imperativo nasce desse indicativo. O amor do capítulo 13 é o amor que Deus mostrou em Cristo, que não buscou agradar a si mesmo (Rm 15.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Preferir cinco palavras que edificam a dez mil que exibem é seguir o Senhor que se fez servo; o idiōtēs que não entende e o visitante que entra são aqueles por quem Cristo morreu (1Co 8.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Escatologia. Os dons pertencem ao tempo presente e cessarão quando vier o que é completo (1Co 13.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que a maioria dos intérpretes, também entre os cessacionistas, identifica com a vinda de Cristo; alguns cessacionistas pensam no cânon completo das Escrituras. O culto da igreja aponta para o encontro face a face.
6.3 — Como o capítulo lê o Antigo Testamento
Isaías 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Pentecostes. Em Isaías, a fala incompreensível dos assírios foi sinal de juízo; no Pentecostes, como lembra o estudo de Isaías 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), as línguas viraram anúncio dos feitos de Deus. Em Corinto, as línguas sem interpretação ameaçavam voltar a ser o sinal que afasta, em vez do sinal que chama. O Cristo que derramou o Espírito (At 2.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) quer que ele una.
Joel e Moisés. O desejo de Moisés (Nm 11.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a promessa de Joel (Jl 2.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) estão por trás do v. 31. Como mostra o estudo de Joel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a promessa derruba fronteiras de idade, de sexo e de condição social; por isso qualquer leitura dos vv. 34-35 tem de conviver com as filhas que profetizam.
As nações que reconhecem Deus. O v. 25 retoma a esperança dos profetas de Israel de que os povos confessariam a presença de Deus no meio do seu povo (Is 45.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 8.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, judeu, não a tira de Israel; vê o seu cumprimento começar quando gentios reconhecem o Deus de Israel presente entre os discípulos de Jesus.
6.4 — O Cristo que fala para ser entendido
Jesus, o Verbo feito homem, falou a gente simples em língua de gente simples, em parábolas de sementes, moedas e pais que esperam, e explicava aos discípulos o que não tinham entendido (Mc 4.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nele, Deus não se escondeu atrás de sons obscuros; falou de modo definitivo (Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A preferência de Paulo pela palavra inteligível tem raiz aqui.
E Jesus conhecia o que havia no coração das pessoas (Jo 2.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cena dos vv. 24-25 repete o que acontecia diante dele: a samaritana, Natanael, Pedro que, depois da pesca, se prostrou reconhecendo-se pecador (Lc 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando a igreja profetiza no sentido do v. 3, é a voz do Senhor que continua a sondar e a curar; a palavra que penetra até o íntimo (Hb 4.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) não expõe para humilhar, mas para levar a Deus. E o Deus de paz do v. 33 tem um rosto: Cristo é a nossa paz, que derrubou o muro entre os povos (Ef 2.14-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar 1 Coríntios 14 é anunciar o Deus que fala para salvar e quer ser compreendido. O evangelho é palavra inteligível: a morte de Cristo pelos pecados, o seu sepultamento e a sua ressurreição, que Paulo resumirá no credo do capítulo seguinte (1Co 15.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o capítulo mostra o que essa palavra faz quando é dita com clareza: um descrente entra numa casa, descobre que Deus o conhece por dentro e, em vez de ser esmagado, cai em adoração. É a conversão em poucas linhas, a verdade que expõe e a graça que acolhe. Quem prega este capítulo pode convidar o ouvinte a esse encontro, certo de que o Deus que vê os segredos do coração é o mesmo que em Cristo os perdoa, e lembrar à igreja que a sua reunião existe para que outros encontrem esse Deus.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- 1Co 12.1-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.1-13 — o contexto imediato: o Espírito que reparte os dons, o corpo de muitos membros e o amor sem o qual nada vale.
- Nm 11.24-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 2.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.9 — o Espírito de profecia sobre todo o povo, filhos e filhas; ver os estudos de Joel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Atos 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 28.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.4-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — da confusão de Babel e da língua estrangeira como juízo ao Pentecostes, em que as línguas anunciam os feitos de Deus; ver o estudo de Isaías 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- At 10.44-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19.6 — as línguas e a profecia que acompanham a vinda do Espírito em Cesareia e em Éfeso; ver os estudos de Atos 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 19.
- Rm 12.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 4.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 4.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os dons da graça, a profecia conforme a fé e a edificação do corpo; ver o estudo de Romanos 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Dt 18.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 23.16-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 7.15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 5.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 4.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a profecia que deve ser examinada e os sinais do falso profeta.
- 1Co 11.2-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 16.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Tm 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os textos que entram na discussão sobre as mulheres no culto; ver o estudo de Romanos 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Ef 5.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o culto cheio do Espírito, com cânticos, ensino mútuo e a paz de Cristo.
Na história da igreja, o capítulo sustentou a defesa do culto na língua do povo e esteve no centro das discussões sobre os dons, do montanismo, no século II, ao pentecostalismo e à renovação carismática do século XX.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Um culto que o visitante entende. Pense em quem entra pela primeira vez na sua igreja. Entende o que se canta, o que se ora, o que se prega? Expressões de dentro, ritos sem explicação, um volume que impede pensar podem ser a versão atual das línguas sem intérprete. Cristo, que falou em parábolas aos simples, ensina a explicar e a acolher. Não se trata de tirar do culto o mistério, e sim de não fechar a porta a quem chega.
Desejar o que edifica. Continuístas e cessacionistas, pentecostais, carismáticos, reformados, católicos e ortodoxos leem este capítulo de modos diferentes, e todos podem ouvir o mesmo chamado. Quem pratica os dons pode perguntar se o que faz serve aos outros ou à própria imagem; quem não os pratica, se não está calando o Espírito por medo do que não controla. E a conversa entre irmãos que pensam diferente deve ter o tom do capítulo 13.
Nenhuma profecia acima do exame. O v. 29 manda avaliar. Há quem use a palavra profecia para manipular: anunciar a alguém com quem deve casar, cobrar dinheiro em troca de bênção, ameaçar com doença quem deixa um grupo, exigir obediência cega a um líder, prometer cura e culpar o doente quando ela não vem. Nada disso é a profecia de 1 Coríntios 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que edifica, encoraja e consola, sem aprisionar, amedrontar ou enriquecer quem fala (Mt 7.15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem recebe uma palavra assim pode e deve submetê-la às Escrituras e a irmãos maduros, e recusá-la. Líderes que a usam para controlar pessoas respondem ao Senhor da igreja.
Cada um tem algo a oferecer. No culto do v. 26 ninguém era só espectador. Talvez o seu dom seja um cântico, um ensino, uma oração, uma palavra de consolo depois da reunião, a cadeira oferecida ao visitante. Cante com o coração e com a mente, e diga amém ao que entendeu. E, quer a sua tradição reserve certos ministérios a homens, quer os abra a todos, honre as mulheres que servem e nunca use a Escritura para calar quem precisa falar, pedir ajuda ou denunciar um mal.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O que, segundo o v. 3, a profecia traz a quem ouve? Que palavra recente edificou, encorajou ou consolou você?
- O que o equilíbrio de Paulo nos vv. 18-19 ensina sobre a oração pessoal e o culto comunitário?
- Como você entende a aparente contradição entre o v. 22 e os vv. 23-25? Que leitura lhe parece mais coerente com Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)?
- Como Jesus, que conhecia o coração das pessoas e lhes falava com clareza, ilumina a cena do descrente que se prostra e adora (vv. 24-25)?
- Que leituras dos vv. 34-35 você conhece? Como cada uma delas explica que, em 1Co 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mulheres oram e profetizam no culto?
- Para meditação e oração: peça a Deus que lhe mostre o que você pode trazer, na próxima reunião da igreja, para edificar alguém, e que faça de você uma pessoa que acolhe quem chega de fora.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), sobre Is 28.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em 1Co 14.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
- Gordon D. Fee — God's Empowering Presence: The Holy Spirit in the Letters of Paul (Hendrickson, 1994)
Comentários de 1 Coríntios:
- Leon Morris — 1 Coríntios: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Gordon D. Fee — The First Epistle to the Corinthians (New International Commentary on the New Testament, Eerdmans, 1987; ed. rev., 2014)
- Anthony C. Thiselton — The First Epistle to the Corinthians (New International Greek Testament Commentary, Eerdmans, 2000)
- Craig S. Keener — 1–2 Corinthians (New Cambridge Bible Commentary, Cambridge University Press, 2005)
Sobre os dons, a profecia e as línguas:
- D. A. Carson — Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12–14 (Baker, 1987)
- Wayne Grudem — The Gift of Prophecy in the New Testament and Today (Crossway, ed. rev., 2000)
- Richard B. Gaffin Jr. — Perspectives on Pentecost (P&R, 1979)
Sobre as mulheres no culto (leituras diferentes):
- John Piper e Wayne Grudem (orgs.) — Recovering Biblical Manhood and Womanhood (Crossway, 1991), com o capítulo de D. A. Carson sobre 1Co 14.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
- Philip B. Payne — Man and Woman, One in Christ (Zondervan, 2009)
Sobre a cidade e o texto:
- Jerome Murphy-O'Connor — St. Paul's Corinth: Texts and Archaeology (Liturgical Press, 3ª ed., 2002)
- Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2ª ed., 1994)
Sabedoria para o Cotidiano
Em 1 Coríntios 14, o amor entra no culto e faz uma pergunta simples a cada dom: a quem você serve? Antes de falar, cantar ou orar diante dos outros, pergunte se aquilo vai construir alguém, e prefira poucas palavras que alcancem o coração a muitas que só mostrem você. Examine com calma toda palavra que se diz vinda de Deus, e não deixe ninguém governar a sua vida em nome de uma profecia. Abra espaço para quem chega de fora, porque o Deus de paz que você adora quer ser encontrado também por ele.
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