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1 Pedro · 60 de 66 · Novo Testamento

1 Pedro — Capítulo 3

Infográfico de “1 Pedro 3 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 5 partes: A esposa que testemunha sem medo; O marido e a coerdeira da graça; Uma comunidade que abençoa em vez de revidar; A esperança explicada com mansidão; O Cristo que sofreu, venceu e subiu.

Título do capítulo: A esperança que responde com mansidão
Gênero literário: Carta — exortação, código da casa e consolo no sofrimento (as esposas e os maridos; a comunidade que abençoa; o sofrimento por fazer o bem; o Cristo que sofreu, foi vivificado e subiu)
Número de versículos: 22

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. Nenhum versículo é transcrito: as palavras de Pedro, a citação do Sl 34.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nos vv. 10-12 e o eco de Is 8.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nos vv. 14-15 são resumidos com outras palavras. A apresentação da carta inteira (autoria, Silvano, Babilônia e Roma, destinatários, data e estrutura) está no estudo do capítulo 1; os escravos da casa e as autoridades, que abrem o código da casa, estão no estudo do capítulo 2. Três pontos têm história nos manuscritos e são tratados no lugar próprio, sem tirar a numeração: no v. 7, o caso de uma palavra; no v. 15, Cristo como Senhor ou o Senhor Deus; e, no v. 18, sofreu ou morreu, e nos conduzir ou vos conduzir. As datas antigas são aproximadas.

Uma palavra pastoral: a primeira parte deste capítulo fala de esposas e maridos, e frases dela já foram usadas para ferir. O estudo dirá no lugar próprio, com todas as letras, que este texto nunca obriga uma mulher a permanecer numa casa com violência, nunca lhe pede que suporte agressão para ganhar o marido para a fé e não dá a nenhuma liderança o direito de usá-lo para isso. A violência doméstica é crime no Brasil, e quem a sofre deve ser protegida, nunca pressionada a voltar.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O capítulo na carta

O estudo do capítulo 1 apresenta a carta. Ela se diz de Pedro, apóstolo de Jesus Cristo (1Pe 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), escrita por meio de Silvano (1Pe 5.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a partir da cidade que chama de Babilônia, quase certamente Roma (1Pe 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Igreja antiga a recebeu como dele; muitos estudiosos pensam num escrito do círculo de Pedro em Roma, depois da sua morte, e o acervo não decide a questão. Os destinatários viviam nas províncias da Ásia Menor (1Pe 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), eram na maioria convertidos do paganismo (1Pe 1.14, 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.3-4) e experimentavam o que a carta chama de condição de estrangeiros e residentes de passagem: não tanto uma perseguição oficial organizada, mas a calúnia, a desconfiança dos vizinhos e a exclusão.

Desde 2.11, a carta trata do procedimento no meio das nações. O programa está em 2.11-12: viver de modo tão bom que os acusadores, observando as obras, acabem dando glória a Deus. Segue o código da casa (2.13–3.7): o respeito às instituições humanas por causa do Senhor (2.13-17), os escravos da casa (2.18-25), as esposas (3.1-6) e os maridos (3.7). O capítulo 3 completa o código, volta-se para a comunidade inteira (3.8-12), encara o sofrimento por causa do bem (3.13-17) e firma tudo no Cristo que sofreu e venceu (3.18-22), num argumento que continua em 4.1-6. A palavra homoiōs, do mesmo modo, que abre os vv. 1 e 7, amarra esposas e maridos ao que veio antes: a mesma liberdade de quem serve a Deus (1Pe 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o mesmo olhar fixo no Cristo que sofreu sem revidar (1Pe 2.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A casa antiga e a religião da família

Os moralistas gregos ensinavam a administração da casa em três pares, falando ao chefe da casa, como mostra o estudo de Efésios 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Uma regra pesava sobre a esposa: a religião da casa era a do marido. Plutarco, nos Preceitos conjugais, aconselha a mulher a honrar somente os deuses do marido e a fechar a porta a cultos estranhos. Em Roma, os cultos estrangeiros eram suspeitos de seduzir mulheres e desfazer famílias, e Tácito, no começo do século II, chamaria o cristianismo de superstição.

É nesse mundo que se lê o v. 1. Uma mulher que se tornava cristã sem o marido fazia algo ousado: escolhia, por consciência própria, um Senhor que o chefe da casa não reconhecia, e confirmava aos olhos dos vizinhos a suspeita de que o cristianismo desorganizava os lares. David L. Balch viu no código uma resposta apologética, para mostrar que os cristãos não subvertiam a casa; John H. Elliott sublinhou a coesão de uma comunidade marginalizada, que não deveria se dissolver na sociedade. As duas coisas cabem no texto, que quer silenciar a calúnia (1Pe 2.12, 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.16) sem que os cristãos deixem de ser quem são.

Adornos, Sara e o dilúvio

A crítica ao luxo das mulheres ricas, aos penteados elaborados e às joias era lugar-comum entre moralistas gregos, romanos e judeus, e aparece também em 1Tm 2.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Sara era honrada na tradição judaica como mãe do povo, e o detalhe que Pedro lembra está em Gn 18.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando ela, rindo por dentro diante da promessa de um filho, se refere a Abraão como seu senhor, tratamento respeitoso comum na época.

A segunda metade do capítulo traz Noé (Gn 6–8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, muito provavelmente, a tradição judaica sobre os filhos de Deus de Gn 6.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O livro de 1 Enoque, muito lido no tempo do Novo Testamento (Jd 14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o cita), conta que anjos rebeldes, os vigilantes, corromperam a terra antes do dilúvio e foram mantidos presos à espera do juízo, e que Enoque lhes anunciou a condenação. Os leitores conheciam essas histórias, e isso pesa na interpretação dos vv. 19-20.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Pedro se dirige às esposas. Como os escravos da casa, elas aceitem a ordem do lar diante dos próprios maridos, porque, se alguns deles recusam o evangelho, podem ser conquistados sem discurso, ao observarem a vida pura e reverente delas (vv. 1-2). O enfeite que importa não é o exterior, de tranças, ouro e vestidos, mas o da pessoa escondida no coração, a beleza que não se desfaz de um espírito brando e sereno, preciosa para Deus (vv. 3-4). Assim faziam as mulheres santas de outrora, que esperavam em Deus, como Sara, que chamava Abraão de senhor; delas as leitoras se tornam filhas quando praticam o bem e não se deixam aterrorizar por intimidação alguma (vv. 5-6).

Os maridos, do mesmo modo, convivam com as esposas com entendimento e as honrem, conscientes de que elas são mais frágeis e de que herdam com eles a graça da vida, para que nada interrompa as suas orações (v. 7).

Para todos: uma só disposição, compaixão, amor de irmãos, ternura e humildade (v. 8). Ninguém responda ao mal com outro mal, nem à ofensa com ofensa; abençoem, porque foram chamados a herdar bênção (v. 9). O Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o confirma: quem deseja uma vida boa guarda a língua do mal e do engano, faz o bem e corre atrás da paz, porque Deus olha para os justos e escuta a sua súplica, e se opõe aos que praticam o mal (vv. 10-12).

Quem fará mal a quem se dedica ao bem? E, mesmo que venham a sofrer por causa da justiça, são felizes. Que o medo dos outros não os domine; consagrem Cristo como Senhor no coração e estejam preparados para explicar a quem perguntar a esperança que têm, com brandura e reverência, de consciência limpa, para que os difamadores fiquem envergonhados. É melhor sofrer fazendo o bem, se Deus o quiser, do que fazendo o mal (vv. 13-17).

Porque também Cristo sofreu uma única vez por causa dos pecados, o Justo em favor de injustos, para conduzi-los a Deus; foi morto quanto à carne e recebeu a vida quanto ao espírito. Assim foi e fez uma proclamação aos espíritos que estavam sob guarda, os que outrora desobedeceram quando a paciência de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto se construía a arca, na qual oito pessoas atravessaram a água a salvo (vv. 18-20). Essa água prefigura o batismo, que agora salva os leitores, não como limpeza do corpo, mas como apelo de uma consciência boa a Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo, que subiu ao céu e está à direita de Deus, com anjos, autoridades e poderes submetidos a ele (vv. 21-22).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-6 — A esposa que testemunha sem medo

O v. 1 traz o particípio hypotassomenai, aceitando a ordem, o mesmo verbo dito dos escravos da casa (1Pe 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de todos diante das instituições humanas (1Pe 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hypotassō é pôr-se no próprio lugar dentro de uma ordem, e a carta o pede sempre por causa do Senhor, nunca contra ele. É tois idiois andrasin, aos próprios maridos: o texto não submete as mulheres aos homens em geral. O motivo é missionário: alguns maridos apeithousin tō logō, recusam a palavra do evangelho, e podem ser kerdēthēsontai, ganhos, verbo que Paulo usa para a missão (1Co 9.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O jogo de palavras é fino: os que recusam a palavra podem ser ganhos aneu logou, sem palavra, pela vida. Eles epopteusantes, observando com atenção, o verbo de 2.12, veem a anastrophē, o procedimento, hagnē, puro, en phobō (v. 2). Na carta, o temor recomendado é o de Deus (1Pe 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.17), e o medo das pessoas é justamente o que se recusa (vv. 6, 14): a esposa vive em reverência diante de Deus, não com medo do marido. A frase supõe, aliás, que ela já contrariou a expectativa mais forte da época: não seguiu a religião do marido, e Pedro não lhe pede que volte atrás. A submissão que ele pede está dentro dessa fidelidade a Cristo, não acima dela.

Os vv. 3-4 falam do kosmos, o enfeite, palavra que deu cosmético: tranças elaboradas, adereços de ouro, vestidos. A frase não proíbe pentear o cabelo nem usar uma joia, assim como não proíbe vestir roupa; diz onde não está a beleza que vale. O que vale é ho kryptos tēs kardias anthrōpos, a pessoa escondida no coração, revestida de algo aphthartos, que não se corrompe, o adjetivo da herança e da semente da palavra (1Pe 1.4, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O enfeite é o praus kai hēsychios pneuma, um espírito de brandura e serenidade. Praus é a mansidão que Jesus atribuiu a si mesmo (Mt 11.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); hēsychios é a serenidade, não o silêncio imposto, e em 1Tm 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve a vida tranquila de toda a igreja. E isso é polytelēs, de altíssimo preço, diante de Deus. As virtudes não são exclusivas das mulheres: os vv. 8 e 16 as pedem a todos. Não é moralismo sobre roupas, mas um convite a não medir o próprio valor pelo olhar dos outros.

Os vv. 5-6 recorrem às hagiai gynaikes, as mulheres santas de antigamente, que elpizousai eis theon, punham a esperança em Deus. A esperança, palavra-chave da carta (1Pe 1.3, 13, 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é a raiz da serenidade. Sara é o exemplo: obedecia a Abraão e o chamava kyrios, senhor, palavra que em Gn 18.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aparece de passagem, quando ela ri por dentro diante da promessa. Pedro não escolhe um episódio heroico, mas um tratamento de respeito comum, num momento em que nem a fé de Sara estava firme. E, em Gênesis, Abraão também ouviu a esposa, por ordem de Deus (Gn 21.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As leitoras se tornam tekna, filhas, de Sara. Vindas em grande parte das nações, entram pela fé na família de Abraão e Sara (Gl 3.7, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): inclusão na família da promessa, não desapropriação de Israel, como mostra o estudo do capítulo 2. A condição é dupla: agathopoiousai, praticando o bem, palavra que a carta repete (1Pe 2.15, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.17), e mē phoboumenai mēdemian ptoēsin, não temendo nenhuma intimidação. Ptoēsis é o terror, o susto que paralisa; muitos comentaristas ouvem aqui um eco de Pv 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) na antiga tradução grega, que pede ao sábio que não tema o pavor repentino.

O texto supõe que a esposa cristã poderia enfrentar pressão e ameaças por causa da fé, e lhe diz que não ceda ao medo. É preciso dizer com todas as letras: este texto nunca obriga uma mulher a permanecer numa casa com violência, nunca lhe pede que suporte agressão física, sexual, psicológica, moral ou patrimonial para ganhar o marido, e nenhuma liderança pode usá-lo para isso. Ganhar alguém pela conduta não é deixar-se destruir. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 2006) protege a mulher, e separar-se para proteger a própria vida e a dos filhos não é falta de fé. A violência doméstica também acontece em famílias de igreja, e não pode ser escondida em nome da reputação.

As igrejas leem a submissão da esposa de modos diferentes, como mostraram os estudos de Efésios 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Colossenses 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Tito 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Na leitura complementarista, marido e esposa têm a mesma dignidade e papéis distintos: ele é chamado a uma liderança de serviço, ela a acolhê-la livremente. Na igualitária, a submissão era a forma que o testemunho tomava numa casa do século I, como a dos escravos, e o rumo do evangelho leva à reciprocidade plena (Ef 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A carta Mulieris Dignitatem (1988), de João Paulo II, lê os códigos da casa a partir da submissão recíproca na reverência a Cristo. Todas, fiéis ao texto, concordam que a primeira lealdade da esposa é a Cristo e que nada aqui autoriza domínio.

Versículo 7 — O marido e a coerdeira da graça

Os maridos recebem um só versículo. O primeiro verbo é synoikountes, convivendo, kata gnōsin, segundo o conhecimento: com discernimento, atentos a quem a esposa é e ao que Deus pede. Pedro não manda o marido governar nem fazer a esposa se submeter; isso não aparece em nenhum código do Novo Testamento.

Vem então a comparação discutida: ela é asthenesteron skeuos, um utensílio mais frágil. Skeuos, vaso ou utensílio, é imagem da pessoa ou do corpo (1Ts 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o comparativo diz algo que se esquece: se ela é mais frágil, ele também é frágil; os dois são barro. A fragilidade de que o texto fala, no contexto, é a da força física e a da posição social e jurídica de uma mulher no mundo antigo, casada cedo, com poucos direitos e exposta ao poder do marido. Não é inferioridade espiritual, moral ou intelectual. A frase é um aviso a quem tem mais força: ela não lhe dá direito, dá-lhe responsabilidade.

O segundo verbo diz a responsabilidade: aponemontes timēn, atribuindo honra, dando a ela o lugar que lhe cabe. A mesma timē que a carta manda dar a todos (1Pe 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que o próprio Deus deu à pedra viva e aos que creem (1Pe 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O motivo é o mais forte do versículo: elas são synklēronomoi charitos zōēs, coerdeiras, herdam com eles o dom da vida. Alguns manuscritos põem a palavra num caso que a liga aos maridos, eles coerdeiros com elas; outros, às esposas; o sentido é o mesmo: diante de Deus, os dois herdam juntos, e a herança não se divide pelo sexo (1Pe 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Num mundo em que a mulher podia ser excluída da herança da família, a palavra tem peso.

E o fim é sério: eis to mē enkoptesthai tas proseuchas hymōn, para que as orações não sejam cortadas. Enkoptō é cortar o caminho, interromper. Muitos entendem que são as orações do marido: o homem que não honra a esposa encontra o caminho até Deus obstruído. É a linha de Ml 2.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Deus recusa as ofertas de quem traiu a mulher da juventude, como mostra o estudo de Malaquias 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e de Mt 5.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Não há piedade que conviva com o desprezo dentro de casa.

Versículos 8-12 — Uma comunidade que abençoa em vez de revidar

O v. 8 começa com to de telos, enfim, e se volta para todos. Cinco adjetivos: homophrones, de um só modo de pensar, uma orientação comum, não uniformidade; sympatheis, que sentem com o outro, a palavra que deu simpatia, aqui no sentido de compaixão; philadelphoi, que se amam como irmãos (1Pe 1.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.17); eusplanchnoi, de entranhas ternas, a palavra de Ef 4.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); tapeinophrones, de mente humilde, a virtude que o capítulo 5 pedirá a todos. O amor fraterno está no centro da lista.

O v. 9 é o coração ético do capítulo: mē apodidontes kakon anti kakou ē loidorian anti loidorias, não responder ao mal recebido com outro mal, nem à ofensa com outra ofensa. Loidoreō é o verbo usado de Cristo em 2.23: insultado, ele não respondeu da mesma forma. O que se pede aos leitores é o que ele fez. E o contrário do revide não é o silêncio ressentido, mas eulogountes, abençoar, falar bem, pedir o bem de Deus para quem ofende. É o ensino de Jesus (Lc 6.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), repetido por Paulo (Rm 12.14, 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostram os estudos de Lucas 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Romanos 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O motivo: eis touto eklēthēte, para isso foram chamados, a mesma expressão de 2.21, para que eulogian klēronomēsēte, herdem bênção. Quem foi abençoado por Deus pode abençoar; a herança dos crentes (1Pe 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) inclui essa bênção prometida desde Abraão (Gn 12.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Recusar a vingança não é aceitar o mal: denunciar um crime ou proteger uma vítima não é revide, e Paulo, logo depois de proibir a vingança, fala da autoridade que serve à justiça (Rm 12.19–13.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 10-12 citam o Sl 34.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), perto da forma da antiga tradução grega, com algumas adaptações. O salmo, como mostra o estudo do Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é atribuído a Davi no tempo em que, fugitivo entre estrangeiros, fingiu loucura diante de um rei filisteu: a oração de um homem acuado que encontrou livramento, em quem os leitores de Pedro podiam se ver. O pedido é concreto: guardar a língua, desviar-se do mal, fazer o bem e perseguir a paz, com o verbo diōkō, o de quem corre atrás. Pedro para a citação no meio do v. 16 do salmo e não traz a segunda metade, sobre apagar da terra a lembrança dos malfeitores; a carta deixa o juízo com Deus e mantém aberto o caminho de quem acusa (1Pe 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos notam ainda que, no v. 4 do salmo, a antiga tradução grega fala de livramento de todas as paroikiai, peregrinações, do salmista, a família de palavras que a carta usa para os leitores (1Pe 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.11); o salmo, já usado em 2.3, parece ser um dos textos de fundo da carta.

Versículos 13-17 — A esperança explicada com mansidão

O v. 13 pergunta: quem os maltratará, kakōsōn, se forem zelosos do bem? Muitos comentaristas ouvem aqui Is 50.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) na antiga tradução grega, em que o Servo, confiante no Senhor que o defende, pergunta quem lhe fará mal. A pergunta não nega que os cristãos sofram; afirma que nenhum mal pode tocar o que eles são diante de Deus (Mt 10.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 8.31-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 14 usa um modo verbal raro, o optativo: ei kai paschoite, mesmo que viessem a sofrer, como possibilidade, não como destino certo. Sofrer dia dikaiosynēn, por causa da justiça, e não por qualquer motivo, faz deles makarioi, felizes, a palavra das bem-aventuranças. A frase ecoa a de Jesus sobre os perseguidos por causa da justiça (Mt 5.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Mateus 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Não é romantismo: a felicidade não está no sofrimento, mas em pertencer a Deus quando se sofre por fazer o certo.

Vem então o eco de Is 8.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Em Isaías, Deus pedia ao profeta que não temesse o que o povo temia, mas que tratasse como santo o SENHOR dos Exércitos; como mostra o estudo de Isaías 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o temor de Deus libertava do medo coletivo. Pedro aplica a frase: que o medo que os adversários espalham não os domine nem os agite. E, no v. 15, faz a troca decisiva: kyrion de ton Christon hagiasate en tais kardiais hymōn, tratem Cristo como Senhor, como santo, no coração. Onde Isaías falava do SENHOR dos Exércitos, Pedro põe Cristo. Os manuscritos mais antigos, como o P72, o Sinaítico, o Alexandrino e o Vaticano, trazem Cristo; manuscritos posteriores trazem o Senhor Deus, talvez por influência da forma de Isaías. A leitura mais antiga é também a mais ousada: Jesus ocupa o lugar do Deus de Israel no coração dos que creem.

Aqui se entende o código da casa inteiro. A esposa chama o marido de senhor, como Sara; mas há um só Senhor no coração, e é Cristo. Toda submissão humana é relativa; só essa é absoluta. Por isso os apóstolos puderam dizer às autoridades que obedeceriam a Deus antes que a elas (At 4.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.29), como mostram os estudos de Atos 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 5.

Da consagração nasce a disposição: hetoimoi aei pros apologian, sempre prontos para uma resposta, uma defesa. Apologia era o termo do tribunal, a defesa diante do juiz, e Paulo o usa para os seus julgamentos (At 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25.16; Fp 1.7, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aqui o alcance é mais largo: panti tō aitounti, a qualquer pessoa que peça logon, uma explicação, a respeito da esperança que eles trazem. A pergunta pode vir de um magistrado, como as que Plínio, governador da Bitínia por volta de 112, faria aos cristãos, ou do vizinho intrigado e do marido descrente. O que se explica é a esperança, não a queixa.

E o modo importa tanto quanto o conteúdo. O v. 16 pede meta praytētos kai phobou: com brandura, a palavra do v. 4, e com temor, que pode ser o temor de Deus, como em toda a carta, ou o respeito pelo interlocutor; muitos entendem as duas coisas juntas. Quem responde sabe que está diante de Deus e trata o outro com consideração. A resposta vem com syneidēsis agathē, consciência boa, que não tem nada a esconder, para que, no ponto em que são difamados, kataischynthōsin, fiquem envergonhados os que epēreazontes, maltratam e insultam a boa conduta deles em Cristo. É o verbo de Lc 6.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Jesus manda orar pelos que tratam mal os discípulos. A vitória esperada não é humilhar o adversário, mas que a mentira se desfaça diante da vida.

O v. 17 resume: é melhor sofrer fazendo o bem do que fazendo o mal, com o optativo ei theloi, se acaso a vontade de Deus o quiser. A frase não diz que Deus deseja que alguém sofra violência; diz que, se o preço da fidelidade for o sofrimento, ele não está fora do governo de Deus, e é participação no caminho de Cristo. O texto fala do sofrimento que vem por ser cristão e por fazer o bem, não do que um agressor impõe dentro de casa: este não é vontade de Deus, e a vítima deve ser protegida.

Versículos 18-22 — O Cristo que sofreu, venceu e subiu

O hoti kai Christos do v. 18, porque também Cristo, liga a exortação ao fundamento. É o indicativo que sustenta todos os imperativos do capítulo. Cristo hapax, uma única vez, de modo definitivo, sofreu peri hamartiōn, por causa dos pecados; o advérbio é o de Hebreus para o sacrifício que não se repete (Hb 9.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.10), como mostram os estudos de Hebreus 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10. Primeira variante: parte dos manuscritos diz que Cristo sofreu, outra parte que morreu, ambas com testemunhas antigas; sofreu combina com o vocabulário da carta (1Pe 2.21, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.1), e o sentido não muda: o sofrimento é a morte de cruz.

Dikaios hyper adikōn, o Justo em favor de injustos. A preposição hyper diz em favor de, e a frase lembra o Servo de Is 53.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o justo que leva a culpa de muitos e os torna justos, cântico que a carta acabou de usar (1Pe 2.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O propósito: hina prosagagē tō theō, para conduzir ao encontro de Deus. Prosagō é levar alguém à presença, como quem introduz o visitante diante do rei; Paulo fala do acesso ao Pai por meio de Cristo (Rm 5.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segunda variante: uns manuscritos dizem conduzir vocês, outros conduzir-nos, sem mudar a mensagem.

O fim do v. 18 diz como Cristo chegou até lá: thanatōtheis men sarki, zōopoiētheis de pneumati. Os dois dativos são paralelos e não opõem corpo e alma, como se só o corpo tivesse morrido e a alma continuasse viva; descrevem duas esferas de existência. Sarx, aqui, é a existência humana mortal e frágil; pneuma, a vida nova da ressurreição, na esfera do Espírito de Deus, como em Rm 1.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 1Tm 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Cristo foi entregue à morte como homem mortal e devolvido pelo poder de Deus a uma vida que a morte não alcança mais (1Pe 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 19-20 formam o trecho mais difícil da carta, talvez de todo o Novo Testamento, e Lutero confessou não ter certeza do que Pedro queria dizer. En hō kai: na qual, isto é, na esfera do espírito, ou, segundo alguns, por isso mesmo. Cristo poreutheis, tendo ido, ekēryxen, proclamou, fez um anúncio, tois en phylakē pneumasin, aos espíritos que estavam sob guarda. Quem eram? Os que apeithēsasin pote, outrora desobedeceram, quando a makrothymia, a paciência de Deus, esperava nos dias de Noé, enquanto a arca era preparada. O verbo kēryssō diz proclamar como arauto; não é o mesmo de 4.6, onde se fala de anunciar o evangelho. Três leituras principais se apresentam, e o estudo não decide entre elas.

A primeira é a de Agostinho, numa carta a Evódio: Cristo, no espírito, pregou por meio de Noé à geração do dilúvio, que hoje, morta, está sob guarda. A carta já dissera que o Espírito de Cristo falava nos profetas (1Pe 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e 2Pe 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chama Noé de arauto da justiça. A leitura foi seguida por muitos no Ocidente e, entre os modernos, defendida por Wayne Grudem. A dificuldade é a ordem do texto, que parece pôr a ida depois da vivificação.

A segunda é a descida à mansão dos mortos: entre a morte e a ressurreição, Cristo foi ao lugar dos mortos e lhes anunciou a sua vitória ou a salvação. Muitos Pais da Igreja leram assim, ligando o texto a 4.6, e é a fé que o Símbolo dos Apóstolos confessa. O estudo de Efésios 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresentou as tradições: a católica ensina que ele desceu como Salvador, para abrir o céu aos justos que o precederam, e não para libertar os condenados (Catecismo da Igreja Católica, n. 631-637); a ortodoxa celebra a cena no ícone pascal da Ressurreição, em que Cristo, sobre as portas quebradas do Hades, levanta Adão e Eva; os luteranos, na Fórmula de Concórdia, pediram que se cresse, sem especulações, que Cristo desceu e venceu o inferno para os que creem; Calvino e o Catecismo de Heidelberg entenderam o artigo do Credo sobretudo como a angústia que Cristo sofreu na cruz.

A terceira, proposta no fim do século XIX e desenvolvida por William J. Dalton e, com nuances, por estudiosos como Paul J. Achtemeier e John H. Elliott, lê os espíritos como os anjos rebeldes de Gn 6.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), na linha de 1 Enoque. No Novo Testamento, espíritos, sem outra qualificação, costuma designar seres espirituais, e 2Pe 2.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) põe lado a lado os anjos guardados em cadeias e os dias de Noé (cf. Jd 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo poreutheis reaparece no v. 22, para a subida ao céu: Cristo, ressuscitado e subindo, teria proclamado a sua vitória aos poderes rebeldes, o que combina com os poderes submetidos do fim do capítulo.

Duas cautelas valem para as três. O texto não dá base segura para afirmar uma segunda oportunidade de salvação depois da morte, e nenhuma especulação deve ser apresentada como certa; e não foi escrito para dar medo, mas para consolar. A consolação é comum às leituras: nenhum lugar é tão distante, nem poder tão rebelde, que fique fora do alcance do Cristo que venceu a morte. O v. 4.6, sobre o evangelho anunciado também aos mortos, é lido por muitos como referência aos que ouviram a mensagem em vida e depois morreram, e por outros em ligação com a descida; o estudo do capítulo 4 o trata.

O v. 20 termina com a arca: nela oktō psychai, oito pessoas, diesōthēsan di' hydatos, foram levadas a salvo através da água (Gn 7.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para uma igreja pequena e desprezada, a lembrança consola: Deus salvou poucos, e o número não mediu a sua fidelidade.

O v. 21 faz a ligação: ho kai hymas antitypon nyn sōzei baptisma, a água, que corresponde como figura, agora salva também vocês, isto é, o batismo. Antitypos é aquilo que corresponde ao modelo; Pedro mesmo usa a linguagem tipológica. E, para que ninguém pense em magia, o batismo salva ou sarkos apothesis rhypou, não como remoção da sujeira do corpo, não como banho de purificação exterior, alla syneidēseōs agathēs eperōtēma eis theon. A palavra eperōtēma tem dois sentidos possíveis. Pode ser pedido, apelo, a súplica a Deus por uma consciência purificada; ou, à luz de documentos comerciais um pouco posteriores, a resposta comprometida a uma pergunta formal, o compromisso assumido diante de Deus por uma consciência reta, talvez lembrando as perguntas feitas ao batizando. As duas leituras se tocam: no batismo, a pessoa se volta para Deus. E o batismo salva di' anastaseōs Iēsou Christou, pela ressurreição: a força não está na água, mas no Cristo vivo, como a carta disse desde o começo (1Pe 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As tradições leem esse versículo de modos diferentes, cada uma com as suas razões, como mostraram os estudos de Romanos 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Tito 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Atos 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A católica e a ortodoxa veem no batismo o sacramento pelo qual Deus une a pessoa a Cristo, perdoa os pecados e dá o novo nascimento; a luterana e a anglicana, meio da graça, a palavra de Deus unida à água e recebida pela fé, e Lutero compôs para o rito uma oração que lembra a arca de Noé. A reformada o vê como sinal e selo da união com Cristo; as igrejas batistas, pentecostais e muitas evangélicas, como testemunho público de quem já creu, e o sentido de compromisso de eperōtēma lhes parece confirmar isso. Divergem também sobre o batismo de crianças. Todas concordam no que Pedro afirma: o batismo vale pela ressurreição de Cristo, não pelo rito em si.

O v. 22 fecha com a exaltação: Cristo está en dexia theou, à direita de Deus, a posição do Sl 110.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); poreutheis eis ouranon, subiu ao céu; e hypotagentōn autō, estão submetidos a ele anjos, autoridades e poderes. O verbo é o hypotassō do código da casa: acima de toda ordem está o Cristo a quem até os poderes invisíveis se submetem (Ef 1.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e nem o império nem o medo têm a última palavra.


✨ 4. Versículos-Chave

1Pe 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O marido convive com a esposa com entendimento e lhe dá honra, porque ela herda com ele a graça da vida. A fragilidade, no mundo antigo, chama à responsabilidade, não ao domínio; a palavra coerdeira firma uma igualdade diante de Deus que nenhum costume anula; e a dureza em casa obstrui o caminho até Deus.

1Pe 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Não retribuir o mal recebido nem a ofensa, mas abençoar, porque fomos chamados a herdar bênção. É o ensino de Jesus no Sermão, vivido por ele na Paixão (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

1Pe 3.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Consagrar Cristo como Senhor no coração e estar pronto para explicar a esperança, com brandura e reverência, de consciência limpa. O versículo põe Cristo no lugar do Senhor dos Exércitos de Isaías e define o tom de todo testemunho cristão: firme no conteúdo, manso na forma.

1Pe 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo sofreu uma vez pelos pecados, o Justo em favor de injustos, para nos conduzir a Deus; morto na esfera da carne, recebeu vida na esfera do Espírito. É um dos resumos mais completos do evangelho: a cruz definitiva, a substituição, o acesso a Deus e a ressurreição.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A conduta que fala. O capítulo continua o programa de 2.12: a vida dos cristãos é o primeiro argumento do evangelho. A esposa ganha o marido sem discursos, a comunidade responde ao insulto com bênção, a boa consciência envergonha a calúnia. Não é estratégia de propaganda, mas a vida de quem nasceu de novo pela ressurreição de Cristo (1Pe 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e já não precisa de aprovação para saber o que vale. Jesus pediu o mesmo: obras que levem os outros a glorificar o Pai (Mt 5.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A recusa do revide. Abençoar quem amaldiçoa é o modo de Cristo, e o capítulo o põe no centro da vida comum. A recusa não é fraqueza nem cumplicidade com o mal: é confiar o juízo a Deus, que vê os justos e se opõe aos que fazem o mal (vv. 10-12), sem abrir mão da justiça que protege os fracos.

A esperança que se explica. A fé cristã tem razões e pode ser explicada a quem pergunta. A apologia nasce do coração que consagra Cristo como Senhor e se faz com mansidão, porque o conteúdo é um Senhor manso: a herança guardada, a ressurreição, o Cristo que virá (1Pe 1.3-5, 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A vitória de Cristo e o batismo. O sofrimento de Cristo não terminou na derrota: ele foi vivificado, proclamou a sua vitória, subiu e reina sobre todos os poderes. O batismo une os crentes a essa história, como a arca levou Noé através das águas. Quem foi batizado no Cristo ressuscitado pode sofrer sem desespero, porque pertence ao Senhor a quem tudo está submetido.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

A Criação está no homem e na mulher, imagem de Deus os dois (Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Queda aparece no domínio de um sobre o outro, que Gn 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve como fruto do pecado, na rebeldia dos dias de Noé (Gn 6.1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e nos insultos e ameaças que os cristãos sofrem. A Redenção em andamento está em Sara, que esperava em Deus, em Noé e na arca, no salmista que, entre estrangeiros, provou o livramento (Sl 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e no profeta que temia só ao Senhor (Is 8.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Redenção consumada está no Cristo que sofreu uma vez, o Justo em favor de injustos, foi vivificado e subiu. E a Nova Criação aparece na herança de bênção (v. 9) e na graça da vida que esposas e maridos herdam juntos, e nos poderes já submetidos ao Cristo exaltado, à espera da manifestação plena (1Pe 1.5, 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — Noé, a arca e as águas (tipologia)

Pedro usa a palavra técnica: o batismo é antitypos, o correspondente da figura. No seu contexto, o dilúvio foi juízo sobre uma humanidade corrompida e, ao mesmo tempo, salvação para os poucos que a paciência de Deus guardou na arca (Gn 6–8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A água que destruiu o mundo antigo levou Noé ao mundo novo, onde Deus fez aliança com toda a criação (Gn 9.8-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aliança que Isaías retoma para prometer que a sua bondade não se afastará do povo (Is 54.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Isaías 54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Em Cristo, a figura encontra a realidade. As águas do juízo caíram sobre ele, que chamou a própria morte de batismo (Lc 12.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e quem é unido a ele no batismo atravessa o juízo e sai do outro lado, para a vida nova (Rm 6.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A arca não salvava por ser de madeira, mas porque Deus a mandara construir e fechara a porta (Gn 7.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o batismo não salva por ser água, mas pela ressurreição de Cristo.

6.3 — O Senhor de Isaías e o justo do Salmo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (promessas cumpridas)

Dois textos do Antigo Testamento ganham aqui o seu sentido pleno. Em Is 8.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), no seu contexto, o profeta era chamado a não temer as ameaças políticas de Judá, mas o SENHOR dos Exércitos; Pedro põe Cristo no lugar do SENHOR, e com isso confessa que Jesus partilha a identidade do Deus de Israel. No Sl 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o justo perseguido clama e é ouvido; no Novo Testamento, o Justo por excelência (At 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) clamou e foi ouvido pela ressurreição (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os que lhe pertencem podem rezar o salmo com ele. E o rei do Sl 110.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), convidado a sentar-se à direita, é o Cristo que subiu ao céu (v. 22), como mostra o estudo do Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este Capítulo

Os indicativos: Cristo sofreu uma vez pelos pecados, o Justo pelos culpados, para nos conduzir a Deus, e foi morto e vivificado (v. 18); proclamou a sua vitória (v. 19); salva pelo batismo, por meio da sua ressurreição (v. 21); está à direita de Deus (v. 22). A carta já o mostrara como exemplo, o Servo que, insultado, não revidou e confiou a causa ao Deus que julga com justiça (1Pe 2.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os imperativos nascem daí: conduta que ganha sem palavras, honra à esposa, compaixão, bênção em lugar do insulto, coragem, resposta mansa.

Na cristologia, Cristo é o Senhor que ocupa o lugar de Deus no coração (v. 15) e o exaltado acima de todos os poderes (v. 22). Na soteriologia, a morte dele é definitiva (hapax), substitutiva (hyper adikōn) e reconciliadora (prosagō). Na eclesiologia, a igreja é a família de Sara e de Noé, poucos guardados por Deus. Na ética, toda relação é vivida diante do único Senhor, o que dá às submissões humanas o seu limite. Na escatologia, os poderes já foram submetidos, mas a plena manifestação ainda virá; por isso se sofre com esperança.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar 1 Pedro 3 é levar o ouvinte do lar e da praça até a cruz e a ressurreição. Para a esposa que vive a fé sozinha numa casa dividida, o evangelho diz que ela tem um Senhor que não a abandona e que o seu valor está escondido no coração, à vista de Deus. Para o marido, que a força não é licença e que a mulher ao seu lado herda com ele a mesma graça. Para quem é insultado por causa da fé, que o Justo também o foi e não revidou. E para todos, que o Cristo que morreu pelos injustos nos leva a Deus pela mão, como quem conduz um convidado à mesa do rei. O capítulo não termina no sofrimento: termina no trono, com o Cristo vivo a quem anjos e poderes estão submetidos.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

A fé vivida numa casa dividida. Muitas mulheres, e também homens, são os únicos cristãos da casa. O texto oferece um caminho: não a pressão nem a chantagem espiritual, mas uma vida que fala por si, com serenidade e esperança em Deus. Paulo dá conselho parecido em 1Co 7.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), como mostra o estudo de 1 Coríntios 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e reconhece que nem sempre a paz é possível. O resultado está nas mãos de Deus, e a fé de quem crê não precisa ser escondida.

Nenhuma submissão obriga a suportar a violência. Se você sofre agressão, ameaça, controle, humilhação, isolamento ou tem o seu dinheiro e os seus documentos tomados, saiba com clareza: este capítulo não está do lado de quem a fere, e você não desonra a Deus ao pedir ajuda. Procure proteção: a delegacia, de preferência a Delegacia da Mulher, onde houver; o Ministério Público; a Defensoria Pública; pessoas de confiança. A Lei Maria da Penha prevê medidas protetivas de urgência. Quem aconselha alguém a voltar e suportar a agressão em nome destes versículos faz o contrário do que eles ensinam; a igreja deve ser lugar de amparo, e o agressor precisa responder diante de Deus e da lei.

Maridos que honram. O v. 7 desafia os homens a uma masculinidade diferente da que a cultura premia: conhecer de verdade a esposa, honrá-la em público e em particular, partilhar o peso da casa, não usar a força, o dinheiro ou a posição para dominar. Cristo, que tinha todo o poder e se fez servo, é o modelo.

Abençoar sem renunciar à justiça. Num tempo de discussões ásperas, nas redes sociais, na política e até nas igrejas, o v. 9 é contracultural. Não devolver o insulto não significa calar diante da injustiça, deixar de denunciar crimes ou proteger abusadores; significa recusar a vingança e o prazer de ferir de volta.

Explicar a esperança com mansidão. A resposta cristã não é a agressividade nem a vitória num debate, mas a explicação paciente de uma esperança, nas redes e fora delas, com preparo, escuta e vida coerente. Pede também sobriedade: discordância e crítica não são perseguição, e os cristãos que a sofrem de verdade em vários países merecem oração e solidariedade; no Brasil, a Constituição garante a liberdade de crença e de culto (art. 5º, VI), e essa liberdade vale para todos, inclusive para as religiões de matriz africana, que sofrem intolerância e até violência. Honrar a todos (1Pe 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) inclui defender o direito de quem crê diferente.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. A esposa dos vv. 1-6 escolheu Cristo sem o marido. O que isso ensina sobre a consciência pessoal diante de Deus? Como o texto, lido no seu contexto, protege a mulher em vez de expô-la?
  2. O que muda na leitura do v. 7 quando se percebe que o marido também é frágil e que a esposa é coerdeira da graça? Por que Pedro liga a honra à esposa às orações?
  3. Em que situações você se sente mais tentado a devolver o insulto (v. 9)? Como a lembrança de Cristo, que não revidou, pode mudar a sua resposta, sem que você deixe de buscar a justiça?
  4. Se alguém lhe perguntasse hoje por que você tem esperança, o que responderia? O que significaria responder com brandura e reverência (vv. 15-16)?
  5. Das três leituras dos espíritos sob guarda (vv. 19-20), qual lhe parece mais convincente, e por quê? Que consolo comum as três oferecem?
  6. Para meditação e oração: agradeça a Cristo, o Justo que sofreu pelos injustos para conduzi-lo a Deus. Consagre-o como Senhor no seu coração e ore pelas famílias divididas pela fé e por quem sofre violência dentro de casa.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), na parte sobre 1 Pedro, de D. A. Carson

Comentários de 1 Pedro:

  • Wayne Grudem — 1 Pedro: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Karen H. Jobes — 1 Peter (Baker Academic, série de comentários exegéticos, 2005)
  • Peter H. Davids — The First Epistle of Peter (NICNT, Eerdmans, 1990)
  • J. Ramsey Michaels — 1 Peter (Word Biblical Commentary, 1988)
  • Paul J. Achtemeier — 1 Peter (Hermeneia, Fortress, 1996)
  • John H. Elliott — 1 Peter (Anchor Bible, Doubleday, 2000) e A Home for the Homeless (Fortress, 1981)

O código da casa e os espíritos sob guarda:

  • David L. Balch — Let Wives Be Submissive: The Domestic Code in 1 Peter (Scholars Press, 1981)
  • William J. Dalton — Christ's Proclamation to the Spirits (Pontifício Instituto Bíblico, 2.ª ed., 1989)
  • João Paulo II — carta apostólica Mulieris Dignitatem (1988); Catecismo da Igreja Católica, n. 631-637 e a parte sobre o batismo
  • Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha)

O texto:


Sabedoria para o Cotidiano
O Cristo que sofreu sem revidar, morreu uma vez pelos culpados e hoje reina sobre todos os poderes é o único Senhor do seu coração; por isso nenhuma ameaça precisa aterrorizá-lo e nenhuma ofensa precisa ser devolvida. Em casa, viva de modo que a sua fé se veja antes de ser dita, e honre quem divide a vida com você como herdeiro da mesma graça; mas lembre que nenhum versículo deste capítulo pede a alguém que suporte a violência. Fora de casa, abençoe quem o insulta e, quando lhe perguntarem pela sua esperança, responda com a calma de quem sabe que o túmulo de Cristo está vazio.

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