2 Reis · 12 de 66 · Antigo Testamento
2 Reis — Capítulo 17
Título do capítulo: Samaria cai e a palavra explica
Gênero literário: Narrativa histórica (relato da queda do reino do Norte com reflexão teológica sobre o exílio)
Número de versículos: 41
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
1 e 2 Reis formavam um só livro na Bíblia hebraica e contam a história do povo de Deus desde a morte de Davi até o exílio babilônico. O autor não se identifica. Uma tradição judaica registrada no Talmude o associa a Jeremias, e muitos estudiosos modernos leem a obra como parte de uma grande história escrita à luz de Deuteronômio e concluída durante o exílio, já que o último episódio do livro se passa por volta de 560 a.C. (2Rs 25.27-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O propósito é teológico antes de ser cronológico: o livro responde a um povo deportado que perguntava por que o SENHOR deixara cair os reinos de Israel e de Judá. O capítulo 17 é a resposta mais extensa e explícita dessa pergunta em todo o livro. Depois de narrar a queda de Samaria em seis versículos, o narrador interrompe a crônica e prega durante dezessete, explicando as razões da catástrofe. É, por assim dizer, o sermão fúnebre do reino do Norte.
O pano de fundo é a expansão da Assíria. Desde 745 a.C., com Tiglate-Pileser III, o império passara a anexar territórios e a deportar populações. Israel já perdera a Galileia e a Transjordânia por volta de 733-732 a.C. (2Rs 15.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o que sobrava do reino era pouco mais que a região montanhosa de Efraim em torno de Samaria. Oseias, filho de Elá, chegara ao trono matando Peca (2Rs 15.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e uma inscrição de Tiglate-Pileser afirma que foi ele, o rei assírio, quem o pôs no trono. Oseias começa como vassalo. Quando Tiglate-Pileser morre, em 727 a.C., e Salmanaser V assume, Oseias tenta se libertar, buscando apoio no Egito. É o erro fatal.
A identidade de So, o rei do Egito a quem Oseias recorre (v. 4), é incerta. O Egito vivia então um período de fragmentação, com vários governantes simultâneos no delta do Nilo. Alguns estudiosos identificam So com Osorcon IV, de Tânis; outros entendem que o texto se refere à cidade de Saís, sede de um governante chamado Tefnakht, e leem algo como foi a Saís, ao rei do Egito. A questão permanece aberta. O que se sabe é que o Egito não veio socorrer Samaria, confirmando o que Isaías dizia sobre a inutilidade do apoio egípcio (Is 30.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); anos depois, o próprio enviado assírio zombaria de Judá comparando o Egito a uma cana rachada, que fere quem se apoia nela (2Rs 18.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O cerco de Samaria durou três anos (v. 5). A cidade foi tomada, segundo a datação mais aceita, em 722 a.C., ou por volta disso. A Bíblia atribui a campanha ao rei da Assíria e menciona Salmanaser no início (v. 3; 2Rs 18.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Sargão II, que subiu ao trono assírio nesse mesmo período, reivindica nas suas inscrições a conquista de Samaria e a deportação de pouco mais de 27 mil pessoas, além da reorganização da região como província assíria, chamada Samerina. Os historiadores discutem se Samaria caiu ainda sob Salmanaser V e Sargão apenas consolidou a conquista, possivelmente depois de uma revolta por volta de 720 a.C., ou se a tomada final foi obra de Sargão. As duas leituras são compatíveis com o texto bíblico, que fala genericamente do rei da Assíria no v. 6.
Há também uma dificuldade de sincronismo. 2Rs 18.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) situa o início do cerco no quarto ano de Ezequias e a queda no sexto ano dele; mas 2Rs 18.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) coloca a invasão de Senaqueribe, que se sabe ter ocorrido em 701 a.C., no 14º ano de Ezequias. As duas informações não se ajustam facilmente. Muitos estudiosos propõem uma co-regência de Ezequias com Acaz, ou contagens diferentes do início do reinado; nenhuma proposta é unânime. O mais prudente é situar a queda de Samaria por volta de 722 a.C. e reconhecer que os números de Reis, neste ponto, ainda desafiam os especialistas.
Os lugares do exílio mencionados no v. 6 ficam no norte da Mesopotâmia e no planalto iraniano: Hala, cuja localização exata é discutida, o rio Habor, afluente do Eufrates na região de Gozã, no nordeste da atual Síria, e as cidades dos medos, mais a leste. Documentos assírios encontrados nessas regiões mencionam pessoas com nomes tipicamente israelitas nas décadas seguintes, o que confirma a presença dos deportados. Não se deve pensar, porém, que todos os habitantes do Norte foram levados. A Assíria deportava sobretudo as elites, os artesãos e os soldados; muitos camponeses ficaram, e Crônicas registra que, poucos anos depois, Ezequias e, mais tarde, Josias convidaram o remanescente das tribos do Norte para celebrar em Jerusalém (2Cr 30.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 34.9).
A segunda metade do capítulo descreve a política assíria de repovoamento (v. 24). Gente de Babilônia, de Cuta, de Ava, de Hamate e de Sefarvaim foi instalada nas cidades de Samaria. Cuta era uma cidade mesopotâmica conhecida pelo culto de Nergal (v. 30); Hamate ficava na Síria; a localização de Ava e de Sefarvaim é incerta. As inscrições de Sargão mencionam o assentamento de grupos árabes em Samaria alguns anos depois da conquista, e o livro de Esdras registra populações trazidas por reis assírios posteriores, como Esar-Hadom e Assurbanipal (Ed 4.2, 9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O repovoamento foi, portanto, um processo de várias décadas, e dele surgiu, na leitura judaica posterior, uma das explicações para a origem dos samaritanos.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
No 12º ano de Acaz, rei de Judá, Oseias, filho de Elá, começa a reinar sobre Israel em Samaria e reina nove anos. Faz o que é mau aos olhos do SENHOR, mas não como os reis de Israel que o antecederam. Salmanaser, rei da Assíria, sobe contra ele, e Oseias se torna seu vassalo e lhe paga tributo. Mas o rei da Assíria descobre uma conspiração: Oseias mandara mensageiros a So, rei do Egito, e deixara de pagar o tributo anual. O rei da Assíria o prende e o mete na prisão. Depois invade toda a terra, sobe contra Samaria e a cerca por três anos. No nono ano de Oseias, o rei da Assíria toma Samaria e deporta os israelitas para a Assíria, instalando-os em Hala, junto ao Habor, rio de Gozã, e nas cidades dos medos (vv. 1-6).
Isso aconteceu porque os israelitas pecaram contra o SENHOR, seu Deus, que os tirara do Egito e os livrara da mão do faraó, e passaram a temer outros deuses. Seguiram os costumes das nações que o SENHOR expulsara de diante deles e os que os próprios reis de Israel tinham introduzido. Fizeram às escondidas coisas que não eram retas contra o SENHOR; construíram altos em todas as suas cidades, da torre de vigia à cidade fortificada; levantaram colunas sagradas e postes-ídolos em toda colina alta e debaixo de toda árvore frondosa; queimaram incenso em todos os altos, como as nações; fizeram coisas más que provocaram a ira do SENHOR e serviram aos ídolos, embora o SENHOR lhes tivesse proibido isso (vv. 7-12).
O SENHOR advertira Israel e Judá por meio de todos os seus profetas e videntes, chamando-os a deixar os maus caminhos e a guardar os seus mandamentos e estatutos, segundo toda a lei que ordenara aos pais e transmitira pelos seus servos, os profetas. Mas eles não ouviram; endureceram a cerviz como os seus pais, que não confiaram no SENHOR, seu Deus. Rejeitaram os estatutos e a aliança que ele fizera com os pais deles, e as advertências que lhes dera; foram atrás de coisas vazias e se tornaram vazios, seguindo as nações vizinhas, que o SENHOR lhes proibira imitar. Abandonaram todos os mandamentos, fizeram os dois bezerros de metal fundido e um poste-ídolo, adoraram todo o exército dos céus e serviram a Baal. Fizeram passar pelo fogo os seus filhos e as suas filhas, praticaram adivinhação e feitiçaria e se venderam para fazer o que é mau aos olhos do SENHOR, provocando a sua ira (vv. 13-17).
Por isso o SENHOR se irou muito contra Israel e o tirou da sua presença; ficou somente a tribo de Judá. Mas também Judá não guardou os mandamentos do SENHOR e andou nos costumes que Israel introduzira. O SENHOR rejeitou toda a descendência de Israel, humilhou-a, entregou-a nas mãos de saqueadores e a lançou da sua presença. Quando ele separou Israel da casa de Davi, os israelitas fizeram rei a Jeroboão, filho de Nebate, e Jeroboão desviou Israel do SENHOR e o fez cometer um grande pecado. Os israelitas andaram em todos os pecados de Jeroboão e não se afastaram deles, até que o SENHOR os tirou da sua presença, como anunciara por todos os seus servos, os profetas. Assim Israel foi levado da sua terra para a Assíria, onde está até hoje (vv. 18-23).
O rei da Assíria traz gente de Babilônia, Cuta, Ava, Hamate e Sefarvaim e a instala nas cidades de Samaria, no lugar dos israelitas. Eles tomam posse de Samaria e habitam nas suas cidades. No início, não temem o SENHOR, e o SENHOR envia leões que matam alguns deles. Então informam ao rei da Assíria que as nações transferidas não conhecem a maneira de servir ao Deus da terra, e que por isso ele mandou leões. O rei ordena que se envie de volta um dos sacerdotes deportados, para que viva ali e ensine o costume do Deus da terra. Um dos sacerdotes vem, mora em Betel e ensina como temer o SENHOR. Mas cada povo continua a fazer os seus próprios deuses e os põe nos santuários dos altos que os samaritanos tinham construído, cada povo na sua cidade. Os de Babilônia fazem Sucote-Benote; os de Cuta, Nergal; os de Hamate, Asima; os aveus, Nibaz e Tartaque; e os sefarvitas queimam os filhos em honra de Adrameleque e Anameleque, deuses de Sefarvaim. Eles temiam o SENHOR, mas escolhiam entre si sacerdotes para os altos, que oficiavam nos santuários. Temiam o SENHOR e, ao mesmo tempo, serviam aos seus deuses, segundo os costumes das nações de onde tinham sido trazidos (vv. 24-33).
Até o dia do narrador, continuam com os antigos costumes. Não temem de fato o SENHOR, nem seguem os estatutos, as normas, a lei e o mandamento que o SENHOR deu aos filhos de Jacó, a quem chamou Israel. O SENHOR fizera aliança com eles e lhes ordenara que não temessem outros deuses, nem os adorassem, nem os servissem, nem lhes oferecessem sacrifícios; deviam temer, adorar e oferecer sacrifícios somente ao SENHOR, que os tirara do Egito com grande poder e braço estendido; deviam guardar para sempre os estatutos e a lei que ele escrevera para eles, sem esquecer a aliança e sem temer outros deuses, porque é o SENHOR, seu Deus, quem os livraria dos seus inimigos. Mas eles não ouviram e continuaram nos seus antigos costumes. Assim, aquelas nações temiam o SENHOR e serviam às suas imagens; e os seus filhos e netos continuam fazendo o mesmo que os pais até hoje (vv. 34-41).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-6 — O último rei e o cerco de três anos
O reinado de Oseias é contado com uma brevidade quase fria. A avaliação traz uma nuance: ele fez o que era mau, mas não como os reis anteriores (v. 2). O narrador não diz em que ele foi menos mau; alguns pensam que ele não promoveu ativamente o culto dos bezerros, talvez porque o bezerro de Betel já tivesse sido levado pela Assíria, como Oséias parece sugerir (Os 10.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O detalhe é importante teologicamente. O reino não cai por causa do seu último rei, que nem foi o pior; cai pelo acúmulo de dois séculos de infidelidade. O juízo de Deus não é uma reação impulsiva a um pecado isolado, mas a conclusão de uma longa história de paciência rejeitada.
Os vv. 3-4 mostram a política suicida de Samaria. Oseias se submete a Salmanaser e paga tributo; depois conspira, manda mensageiros ao Egito e suspende o pagamento. Oséias, o profeta, descrevera essa oscilação com uma imagem certeira: Efraim é como uma pomba sem juízo, que chama o Egito e corre para a Assíria (Os 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nem um nem outro podia salvá-lo. O rei da Assíria descobre a traição, prende Oseias (v. 4) e ataca o país. O texto não diz como Oseias foi capturado, nem o que aconteceu com ele. O último rei de Israel simplesmente desaparece da história, preso, enquanto a capital resiste sem rei.
O cerco dura três anos (v. 5). Samaria, construída por Onri no alto de uma colina isolada (1Rs 16.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), era uma fortaleza difícil de tomar, e as escavações revelaram ali muralhas de excelente construção. A resistência foi longa, e o sofrimento da população deve ter sido terrível, ainda que o texto não o descreva. A frase final, no v. 6, tem a secura de um registro de arquivo: o rei da Assíria tomou Samaria e levou Israel para a Assíria. Os nomes dos lugares de exílio, Hala, Habor, Gozã, as cidades dos medos, são nomes estranhos, distantes, que o leitor hebreu não conhecia. A terra prometida ficou para trás. Exatamente como Moisés advertira: a desobediência terminaria com o povo disperso entre nações distantes, pelos quatro cantos do mundo (Dt 28.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 7-17 — O sermão da queda: por que Israel caiu
O v. 7 começa com uma conjunção que funciona como uma porta: isso aconteceu porque. O narrador para a crônica e oferece a interpretação. E a primeira coisa que ele lembra não é o pecado de Israel, mas a graça de Deus: o SENHOR, seu Deus, que os tirara da terra do Egito e da mão do faraó. Todo o pecado do povo é visto contra o pano de fundo do êxodo. Israel não pecou contra um Deus distante, mas contra o seu libertador. O primeiro mandamento já ligava as duas coisas: o Deus que tirou o povo da escravidão não admite outros deuses diante de si (Êx 20.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que se segue é um catálogo minucioso. Temeram outros deuses (v. 7). Seguiram os costumes das nações e os costumes que os reis de Israel tinham criado (v. 8), o que inclui a religião estatal de Jeroboão. Fizeram coisas às escondidas (v. 9), verbo de sentido discutido, que pode indicar dissimulação ou tentativa de encobrir. Construíram altos em todas as cidades, da torre de vigia à cidade fortificada (v. 9), expressão que abrange do menor ao maior povoado. Levantaram colunas sagradas (matsevot) e postes de Aserá em toda colina e debaixo de toda árvore frondosa (v. 10), as marcas do culto cananeu da fertilidade. Serviram aos ídolos, contra a proibição expressa de Deus (v. 12).
O v. 13 é o centro do sermão e talvez o versículo mais importante do capítulo. Deus não puniu sem avisar. Advertiu Israel e Judá por meio de todos os profetas e videntes, chamando-os de volta. O verbo advertir (ʿud) é o verbo do testemunho no tribunal: Deus pôs testemunhas diante do povo. A frase lembra, a quem leu todo o livro, Aías, Elias, Eliseu, Micaías, Jonas, e, fora de Reis, Amós e Oséias, que pregaram no Norte nas últimas décadas. Deus fala muito antes de julgar.
Os vv. 14-15 descrevem a resposta: não ouviram. Endureceram a cerviz, imagem do boi que não aceita a canga, usada desde o deserto para descrever a teimosia do povo (Êx 32.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Rejeitaram os estatutos, a aliança e as advertências. E o v. 15 traz um jogo de palavras precioso no hebraico: foram atrás do hevel, o vazio, o sopro, e se tornaram hevel. É a mesma palavra que Eclesiastes usa para a vaidade das coisas. O princípio é profundo: a pessoa se torna semelhante àquilo que adora. Os salmos dizem que os que fazem ídolos se tornam como eles, sem fala e sem vida (Sl 115.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jeremias usa quase a mesma construção para Judá (Jr 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 16-17 completam a lista com os pecados mais graves: os dois bezerros de Jeroboão, o poste de Aserá, o culto aos astros, que o texto chama de todo o exército dos céus, o culto a Baal, o sacrifício de filhos e filhas, a adivinhação e a feitiçaria. Nem todos esses pecados aparecem com a mesma frequência na história do Norte; o narrador reúne num quadro só o que se acumulou durante dois séculos, e o quadro corresponde ponto por ponto às proibições de Deuteronômio (Dt 18.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão final é forte: venderam-se para fazer o mal (v. 17), como Acabe fizera (1Rs 21.20, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo que Deus resgatara da escravidão se vendeu de novo como escravo.
Versículos 18-23 — O juízo anunciado e o aviso a Judá
O v. 18 traz o veredito: o SENHOR se irou muito e tirou Israel da sua presença. A expressão afastar da presença é a linguagem mais grave do capítulo. A terra era o lugar onde Israel vivia diante de Deus; o exílio é o afastamento dessa presença. Ficou só Judá. Mas o narrador não deixa Judá se consolar: no v. 19, ele avisa que também Judá não guardou os mandamentos e seguiu os costumes de Israel. O leitor exilado na Babilônia, membro de Judá, lê esse versículo como um espelho. O que aconteceu a Samaria aconteceria a Jerusalém, e já tinha acontecido quando o livro foi concluído (2Rs 24–25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 20 amplia o veredito a toda a descendência de Israel, e os vv. 21-22 voltam à origem do mal: a divisão do reino. Quando Deus separou Israel da casa de Davi, como juízo sobre a idolatria de Salomão (1Rs 11.11, 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as tribos do Norte fizeram rei a Jeroboão, e ele as afastou do SENHOR com os bezerros (1Rs 12.26-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O narrador chama isso de grande pecado, a mesma expressão usada para o bezerro de ouro no deserto (Êx 32.21, 30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeroboão repetiu Arão, e Israel nunca se libertou desse pecado inaugural. O v. 23 sela tudo com a fórmula de cumprimento: o SENHOR tirou Israel da sua presença, como dissera por todos os seus servos, os profetas. A palavra de Deus se cumpre também no juízo.
Versículos 24-33 — Os novos habitantes e a religião misturada
A terceira parte muda de cena. O rei da Assíria repovoa as cidades de Samaria com gente de cinco lugares (v. 24). A política assíria de transferência cruzada buscava quebrar as identidades locais e impedir revoltas. E o texto diz que esses novos moradores tomaram posse de Samaria, usando o verbo yarash, o mesmo da conquista da terra por Israel no livro de Josué. A terra prometida passa a outros donos.
O episódio dos leões (vv. 25-26) é contado com naturalidade. Os novos habitantes não temem o SENHOR, e ele envia leões que matam alguns deles. A lei já previa que a terra infiel seria tomada por feras (Lv 26.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Reis registra outros casos de leões como agentes de juízo (1Rs 13.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.36). Os conselheiros do rei interpretam o fato à maneira da religião antiga: cada terra tem o seu deus, e quem mora nela precisa conhecer o costume (mishpat) do deus local. O rei manda de volta um sacerdote israelita deportado (vv. 27-28). O detalhe de que ele vai morar em Betel é carregado de ironia. Betel era o santuário do bezerro de Jeroboão, o lugar onde o pecado inaugural do Norte se instalara (1Rs 12.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sacerdote que ensina a temer o SENHOR é, ao que tudo indica, um sacerdote da religião dos bezerros. A instrução vem da mesma fonte que contaminara Israel.
O resultado é previsível (vv. 29-31). Cada povo fabrica os seus deuses e os coloca nos santuários dos altos construídos pelos samaritanos, isto é, pelos antigos habitantes israelitas de Samaria. A palavra hebraica shomronim aparece aqui pela única vez no Antigo Testamento, e designa simplesmente os moradores da região de Samaria; o sentido religioso e étnico que a palavra samaritanos terá no tempo de Jesus é posterior. A lista dos deuses é exótica e, em vários casos, de identificação incerta: Sucote-Benote, Nergal, o deus mesopotâmico do mundo dos mortos cultuado em Cuta, Asima, Nibaz, Tartaque, e por fim Adrameleque e Anameleque, aos quais os sefarvitas queimavam os filhos. O narrador cita esses nomes quase com desdém, como uma lista de produtos importados. A terra que fora purificada dos cultos cananeus recebe novos cultos, ainda mais estranhos.
Os vv. 32-33 resumem a situação com uma fórmula paradoxal que será repetida: eles temiam o SENHOR e serviam aos seus deuses. O SENHOR passa a ser um deus entre outros, o deus da terra a ser aplacado ao lado das divindades de cada grupo. Os sacerdotes dos altos são escolhidos entre o próprio povo (v. 32), exatamente como Jeroboão fizera (1Rs 12.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A religião misturada dos novos habitantes não é uma novidade; é a continuação, em versão multinacional, da religião do Norte.
Versículos 34-41 — Temer o SENHOR e servir a outros: o veredito final
A última perícope dá um passo além. O v. 34 parece contradizer o v. 33: lá se diz que temiam o SENHOR, aqui que não o temiam. A contradição é aparente e intencional. Há um temor que é apenas medo supersticioso de um deus local, o temor dos leões; e há o temor da aliança, que significa adoração exclusiva e obediência. Os novos habitantes tinham o primeiro e não o segundo. Alguns estudiosos pensam que os vv. 34-40 se referem não aos estrangeiros, mas aos israelitas que permaneceram na terra, a quem se aplicam com mais propriedade as referências à aliança com os filhos de Jacó; outros entendem que o narrador fala de toda a população da região. Em qualquer caso, o critério é o mesmo.
Os vv. 35-39 relembram a aliança com uma densidade de linguagem deuteronômica. Três vezes se repete a proibição de temer outros deuses (vv. 35, 37, 38). Três vezes se afirma o temor devido ao SENHOR (vv. 36, 39). Ele os tirou do Egito com grande poder e braço estendido (v. 36), expressão clássica do êxodo (Dt 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.15). E a promessa vem no v. 39: é ele quem os livraria dos seus inimigos. Se o povo tivesse temido somente o SENHOR, a Assíria não teria sido necessária.
O v. 40 repete o diagnóstico central do capítulo: não ouviram. E o v. 41 encerra com uma frase que atravessa gerações: aquelas nações temiam o SENHOR e serviam às suas imagens, e os filhos e netos continuaram fazendo o mesmo. O capítulo, que começou com a queda de um reino, termina com a descrição de uma religião híbrida que se perpetua. A lição para o leitor exilado é clara: o problema de Israel nunca foi apenas político. Foi um coração dividido, e um coração dividido passa de pai para filho.
✨ 4. Versículos-Chave
2Rs 17.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A explicação da queda começa pela memória do êxodo. O pecado de Israel é ingratidão contra o Deus libertador. Toda a ética bíblica parte desse ponto: obedecer é responder à graça recebida. No Novo Testamento, o êxodo maior é a obra de Cristo, que nos libertou da escravidão do pecado (Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que a partida de Jesus em Jerusalém é chamada de êxodo; Cl 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a infidelidade a ele é ingratidão ainda mais grave (Hb 2.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
2Rs 17.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O SENHOR advertiu por todos os profetas, e o povo não ouviu. O versículo mostra a paciência de Deus e a responsabilidade humana. O juízo não veio sem aviso. Jesus contará uma parábola sobre isso: o dono da vinha envia servo após servo aos lavradores, que os maltratam, e por fim envia o próprio filho (Mt 21.33-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus resume: depois de se comunicar de modos variados por meio dos profetas, Deus deu a sua palavra definitiva no Filho (Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estêvão acusará os seus ouvintes da mesma dureza de cerviz (At 7.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
2Rs 17.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Seguiram o vazio e se tornaram vazios. O versículo formula uma lei espiritual: o ser humano se assemelha ao que adora. Paulo descreve o mesmo processo em Rm 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando a humanidade troca a glória de Deus por imagens e se torna fútil nos seus pensamentos. Em Cristo acontece o movimento contrário: quem fixa os olhos na glória do Senhor vai sendo moldado à semelhança dele (2Co 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
2Rs 17.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Temiam o SENHOR e serviam aos seus deuses. É a definição do sincretismo e o retrato de uma fé dividida. Jesus avisou que é impossível ser servo de dois donos ao mesmo tempo (Mt 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, conversando com uma mulher de Samaria, observou que o culto do povo dela era prestado sem verdadeiro conhecimento (Jo 4.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A religião misturada do v. 33 é o pano de fundo distante desse diálogo.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A teologia do exílio: por que Israel caiu. O capítulo é a explicação oficial do livro para a queda do Norte, e ela é inteiramente teológica. A Assíria foi o instrumento; a causa foi a quebra da aliança. O exílio cumpre as maldições de Lv 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Dt 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que previam a dispersão do povo infiel entre as nações. O livro não vê a história como um jogo de forças políticas, mas como o palco da fidelidade de Deus à sua palavra, na bênção e no juízo. Essa leitura não é um consolo barato: ela devolve sentido ao sofrimento e abre a porta para o arrependimento, como Salomão pedira na dedicação do templo (1Rs 8.46-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, a maldição da aliança quebrada é carregada por aquele que a tomou sobre si no lugar dos culpados (Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A paciência de Deus e a palavra profética. Entre a fundação do reino do Norte e a sua queda passaram-se cerca de dois séculos, e Deus enviou profeta após profeta. O juízo é lento e precedido de muitos avisos. Pedro explicará que, quando Deus parece demorar, é por paciência, porque deseja dar a todos a oportunidade de se arrepender (2Pe 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a paciência tem limite, e o capítulo é um aviso de que a advertência desprezada termina em juízo.
A idolatria que esvazia. O v. 15 diagnostica o que a idolatria faz com o ser humano: torna-o vazio como os ídolos que adora. Os ídolos do capítulo são concretos, bezerros, postes, astros, Baal, mas o mecanismo é universal. Tudo o que ocupa o lugar de Deus promete plenitude e entrega vazio. Em Cristo, a plenitude de Deus está presente num corpo humano, e quem está unido a ele não tem falta de coisa alguma (Cl 2.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O coração dividido. A fórmula dos vv. 33 e 41 resume o problema de Israel e dos novos habitantes: temer o SENHOR e servir a outros. A aliança exigia exclusividade, e o coração dividido não é meio fiel, é infiel. Elias já desafiara o povo no Carmelo a decidir a quem pertencia, em vez de oscilar de um lado para o outro (1Rs 18.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus pede um amor a Deus de todo o coração (Mc 12.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e só ele o viveu plenamente.
A esperança que não aparece no capítulo, mas não morre. O capítulo termina sem promessa. Mas o restante da Escritura não termina aí. Os profetas anunciaram que Deus reuniria de novo Efraim e Judá (Jr 31.1-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 37.15-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 1.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O silêncio do capítulo é o silêncio de um funeral, não o fim da história.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
2 Reis 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) marca um dos pontos mais baixos da Redenção em andamento. A promessa da terra, feita a Abraão e cumprida em Josué, é revogada para dez das doze tribos. O povo que saiu do Egito volta a uma terra estrangeira, agora para o norte e para o leste. A história de Israel parece correr ao contrário: do êxodo ao exílio, da liberdade à servidão, da presença de Deus ao afastamento dela.
O capítulo revela com clareza o problema humano que a redenção precisa resolver. Não é a falta de informação: Israel tinha a lei e os profetas. Não é a falta de oportunidades: Deus advertiu durante dois séculos. O problema é o coração, que endurece a cerviz, vai atrás do vazio e se divide entre o SENHOR e os ídolos. Jeremias, um século depois, dirá que o pecado de Judá estava entalhado no coração do povo como uma inscrição gravada a ferro (Jr 17.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e anunciará uma nova aliança em que Deus escreveria a sua lei no coração do povo, de Israel e de Judá (Jr 31.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus mostra que essa nova aliança foi inaugurada por Cristo (Hb 8.6-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A queda de Samaria prepara a necessidade de uma redenção que vá até o coração.
6.2 — Tipologias: o exílio e o Filho que o carregou
O exílio é, na Escritura, a experiência de ser afastado da presença de Deus. O capítulo repete a expressão três vezes (vv. 18, 20, 23). Essa é a consequência última do pecado desde o Éden, quando o primeiro casal foi expulso do jardim para o oriente (Gn 3.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O exílio de Israel é uma repetição em escala nacional da expulsão de Adão.
A leitura cristã reconhece em Jesus aquele que entrou nesse exílio em nosso lugar. Não se trata de uma tipologia explícita do Novo Testamento, mas de uma leitura canônica apoiada em vários textos. Jesus foi levado para fora da cidade e crucificado fora da porta (Hb 13.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, clamou com as palavras do salmo que fala do abandono por Deus (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo explica que Cristo tomou sobre si a maldição que pesava sobre nós, e por esse caminho a bênção prometida a Abraão alcançou os gentios (Gl 3.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A maldição da aliança quebrada, cujo ponto máximo era o exílio (Dt 28.64-68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), foi carregada por Cristo. O Filho que sempre viveu na presença do Pai experimentou o afastamento para que os afastados pudessem voltar.
Há ainda um contraste tipológico entre Jeroboão e Cristo. Jeroboão, posto como rei sobre as tribos separadas da casa de Davi, desviou-as do SENHOR (v. 21). Cristo, o Filho de Davi, veio reunir o que Jeroboão dividira. Ezequiel anunciou que Deus tomaria a vara de Efraim e a vara de Judá e faria delas uma só, sob um só rei, o seu servo Davi (Ez 37.15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus se apresenta como o bom Pastor que reúne um só rebanho (Jo 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João interpreta a sua morte como o meio pelo qual Deus reuniria em um só povo os filhos de Deus dispersos (Jo 11.51-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.3 — Promessas e ecos no Novo Testamento: as tribos dispersas e os samaritanos
O capítulo não contém promessa. Mas as promessas que os profetas fizeram às tribos do Norte encontram eco no Novo Testamento, de maneiras que merecem ser vistas com cuidado.
As tribos do Norte não desapareceram por completo. É comum ouvir falar das dez tribos perdidas. O texto bíblico é mais matizado. Muitos israelitas do Norte permaneceram na terra; outros fugiram para Judá; Ezequias e Josias os convidaram a celebrar em Jerusalém (2Cr 30.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 34.9). No Novo Testamento, a profetisa Ana, que reconheceu o menino Jesus no templo, era da tribo de Aser, uma das tribos do Norte (Lc 2.36-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tiago escreve às doze tribos dispersas (Tg 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus promete aos apóstolos que eles se sentariam em tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mt 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A visão do Apocalipse inclui as doze tribos entre os selados (Ap 7.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura não esquece Efraim.
Oséias e o povo restaurado. Oséias, o profeta das últimas décadas de Samaria, deu aos seus filhos nomes de juízo: Desfavorecida e Não-meu-povo (Os 1.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas anunciou que um dia o povo rotulado como não-meu-povo seria reconhecido como família do Deus vivo (Os 1.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.23). Paulo e Pedro aplicam essa promessa à igreja, formada de judeus e de gentios, que em Cristo recebe misericórdia e se torna povo de Deus (Rm 9.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cumprimento histórico parcial pode ser visto no retorno de alguns israelitas ao culto de Jerusalém; o cumprimento pleno, na reunião de um povo em Cristo; a consumação, na multidão de todas as tribos e nações diante do trono (Ap 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os samaritanos e Jesus, com cautela histórica. O v. 29 usa a palavra samaritanos para os habitantes de Samaria, e a leitura judaica posterior viu nos vv. 24-41 a origem dos samaritanos do tempo de Jesus. O historiador judeu Flávio Josefo, no século I, chama-os de cuteus, em referência a Cuta (v. 24), sublinhando a sua origem estrangeira. Os próprios samaritanos, porém, sempre se apresentaram como descendentes das tribos de Efraim e Manassés, guardiões fiéis da lei de Moisés. A pesquisa moderna tende a ver a formação da comunidade samaritana como um processo mais longo, que se consolidou no período persa e helenístico: o templo do monte Gerizim, segundo escavações recentes, foi construído por volta do século V a.C. e destruído pelo governante judeu João Hircano no fim do século II a.C. Os samaritanos conservaram uma forma própria do Pentateuco e não aceitavam os demais livros do Antigo Testamento como Escritura. É prudente, portanto, não identificar simplesmente os samaritanos dos Evangelhos com os povos trazidos pela Assíria. O capítulo 17 está na raiz da hostilidade entre judeus e samaritanos, mas não explica sozinho a história desse povo.
É sobre esse fundo que o encontro de Jesus com a mulher de Samaria ganha toda a sua força (Jo 4.1-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus atravessa a fronteira que separava os dois povos, pede água a uma mulher samaritana e conversa com ela, o que deixa a própria mulher e os discípulos surpresos (Jo 4.9, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando ela levanta a questão do lugar certo de culto, o monte Gerizim ou Jerusalém, Jesus responde que chegara o tempo em que a adoração ao Pai não dependeria de nenhum dos dois montes (Jo 4.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diz que os samaritanos adoravam sem conhecer e que a salvação vinha dos judeus (Jo 4.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas anuncia uma adoração verdadeira, nascida do Espírito, que o Pai procura (Jo 4.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A frase de Jesus sobre adorar sem conhecer ressoa, de longe, com o diagnóstico de 2Rs 17.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): temer o SENHOR sem conhecê-lo de verdade. A resposta de Jesus não é um retorno a Jerusalém, mas ele mesmo. Ele se revela à mulher como o Messias esperado (Jo 4.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e muitos samaritanos da cidade creem nele e o reconhecem como o Salvador do mundo (Jo 4.39-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Alguns intérpretes antigos relacionaram os cinco maridos da mulher (Jo 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) aos cinco povos de 2Rs 17.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), lendo o diálogo como alegoria da história religiosa de Samaria. A leitura é engenhosa, mas a maioria dos comentaristas a considera forçada, até porque os deuses listados nos vv. 30-31 são mais de cinco. O texto de João não precisa dessa alegoria para dialogar com 2 Reis 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a ponte está na pergunta pela adoração verdadeira.
Outros textos completam o quadro. Jesus apresenta um samaritano como exemplo de amor ao próximo (Lc 10.30-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); um samaritano é o único dos dez leprosos curados que volta para agradecer (Lc 17.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e, depois da ressurreição, Jesus manda as testemunhas a Jerusalém, à Judeia, a Samaria e até os confins da terra (At 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Filipe prega em Samaria, e a cidade se alegra com o evangelho (At 8.5-8, 14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A região que 2 Reis 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve como terra de religião misturada recebe a palavra de Cristo e o Espírito Santo.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
O capítulo enumera o pecado de um povo e mostra a consequência: o afastamento da presença de Deus. Cristo ilumina esse quadro de três maneiras.
Primeiro, ele é a Palavra final depois de todos os profetas. O v. 13 diz que Deus advertiu por todos os seus servos, os profetas; Hebreus mostra que, depois deles, Deus deu a sua palavra definitiva no Filho (Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A parábola dos lavradores mostra o Filho como a última e maior advertência, rejeitado como os profetas, mas transformado em pedra angular (Mt 21.37-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Segundo, ele é a resposta ao coração dividido. Israel temia o SENHOR e servia a outros deuses. Cristo viveu um amor indiviso ao Pai, a ponto de dizer aos discípulos que cumprir a vontade de quem o enviara o sustentava mais do que a comida (Jo 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e disse isso, curiosamente, em Samaria. E ele não apenas exemplifica esse coração; ele o dá, pelo Espírito, na nova aliança (Ez 36.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 3.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Terceiro, ele é o caminho de volta do exílio. O pecado afastou Israel da presença de Deus; a cruz de Cristo reabre o acesso. Paulo ensina que o sangue de Cristo desfez a distância entre Deus e os que estavam longe dele (Ef 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Cristo derrubou a barreira que separava os povos para formar com eles uma única humanidade nova (Ef 2.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os estrangeiros da terra de Samaria, que adoravam sem conhecer, e os israelitas dispersos, que tinham abandonado a aliança, podem igualmente voltar para casa em Cristo.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar 2 Reis 17 à luz de Cristo exige coragem para anunciar o juízo e alegria para anunciar a graça. O capítulo é uma advertência séria: Deus é paciente, mas não indiferente; fala muitas vezes, mas a sua palavra também se cumpre no juízo. Ninguém deve ler este capítulo como história alheia. O v. 19 avisa Judá, e o leitor cristão também é avisado de que a familiaridade com as coisas de Deus não protege um coração que não ouve.
Mas o evangelho anuncia que o exílio não é a última palavra. O Filho de Deus entrou no lugar do afastamento, fora da porta, sob a maldição, para que os afastados fossem trazidos de volta. E ele foi pessoalmente a Samaria, sentou-se junto a um poço, pediu água a uma mulher de religião misturada e lhe ofereceu a água viva (Jo 4.10, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo convite chega a quem hoje teme a Deus e serve a outros senhores: deixar o vazio que esvazia e beber da fonte que satisfaz.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Lv 26.14-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 28.15-68 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as maldições da aliança, incluindo a dispersão entre as nações, cumpridas na queda de Samaria.
- 1Rs 8.46-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a oração de Salomão prevendo o exílio e pedindo que Deus ouvisse o povo arrependido na terra dos seus captores.
- 1Rs 12.25-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os bezerros de Jeroboão, o grande pecado que o capítulo aponta como raiz da queda (vv. 21-22).
- Os 1.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.11; 10.5-6 — Oséias, profeta das últimas décadas do Norte, sobre a política entre Egito e Assíria, o juízo e a promessa de restauração.
- Am 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — profecias sobre a destruição de Samaria.
- Ez 37.15-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a reunificação de Efraim e Judá sob um só rei da casa de Davi.
- Jr 31.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 8.6-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a nova aliança com Israel e Judá, inaugurada por Cristo.
- Ed 4.1-3, 9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os habitantes de Samaria trazidos pelos reis assírios e a oposição à reconstrução do templo.
- Jo 4.1-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus e a mulher de Samaria: a adoração verdadeira e o Salvador do mundo.
- Lc 10.30-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 17.11-19; At 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.5-17 — os samaritanos no ministério de Jesus e na missão da igreja.
- Mt 21.33-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os profetas rejeitados e o Filho enviado como palavra final.
- Gl 3.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 11.51-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo carrega a maldição e reúne os dispersos num só povo.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Levar a sério as advertências de Deus. O reino do Norte ouviu profeta após profeta e não mudou. É possível acostumar-se com a palavra de Deus a ponto de ela não nos tocar mais. A paciência de Deus não é sinal de indiferença; é oportunidade. Cristo, a palavra final do Pai, convida hoje, e o capítulo lembra que o hoje não dura para sempre (Hb 3.7-8, 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Examinar o que estamos adorando. O v. 15 ensina que nos tornamos semelhantes ao que adoramos. Quem adora o dinheiro se torna mesquinho; quem adora a aprovação se torna vazio; quem adora o poder se torna duro. A pergunta não é apenas se cremos em Deus, mas o que de fato ocupa o centro do nosso coração. Em Cristo, quem fixa os olhos nele vai sendo refeito à semelhança dele.
Rejeitar a fé de coração dividido. Temer o SENHOR e servir a outros deuses é a tentação de muitos cristãos: domingo para Deus, o resto da semana para outros senhores. Jesus não aceita ser um senhor entre outros. Mas ele não exige apenas; ele cura o coração dividido e lhe dá a inteireza pela qual o salmista orava (Sl 86.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Não cultivar a hostilidade que Jesus atravessou. A história de 2 Reis 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) alimentou séculos de desprezo entre judeus e samaritanos. Jesus atravessou essa fronteira e fez de um samaritano o modelo do amor ao próximo. A igreja de Cristo é chamada a fazer o mesmo com os grupos que a sua cultura despreza, levando a eles a água viva em vez do preconceito herdado.
Esperar a restauração depois do juízo. O capítulo termina sem esperança aparente, mas a Escritura continua. Quem vive as consequências dos próprios erros, ou dos erros da família e do povo, pode olhar para Cristo, que carregou o exílio e abriu o caminho de volta. Nenhum afastamento é longe demais para quem o Pai foi buscar.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Por que o sermão sobre a queda de Samaria começa lembrando o êxodo (v. 7)? O que isso ensina sobre a relação entre graça e obediência?
- O v. 13 diz que Deus advertiu Israel por meio de todos os profetas. Como a parábola dos lavradores (Mt 21.33-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) retomam esse tema em relação a Jesus?
- O que significa, na sua experiência, que nos tornamos semelhantes ao que adoramos (v. 15; Sl 115.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
- Como você entende a fórmula temiam o SENHOR e serviam aos seus deuses (vv. 33, 41)? Em que formas ela pode aparecer na vida cristã hoje?
- Que cuidados históricos devemos ter ao relacionar os novos habitantes de Samaria (vv. 24-41) com os samaritanos do tempo de Jesus? O que o encontro de Jesus com a mulher de Samaria (Jo 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) acrescenta a este capítulo?
- Para meditação e oração: peça a Deus que mostre as áreas em que o seu coração está dividido. Agradeça a Cristo, que entrou no lugar do afastamento para trazer você de volta à presença do Pai.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Graeme Goldsworthy — According to Plan (IVP, 1991)
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo a Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Edmund P. Clowney — The Unfolding Mystery: Discovering Christ in the Old Testament (P&R, 1988)
Comentários de 2 Reis:
- Donald J. Wiseman — 1 e 2 Reis: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Dale Ralph Davis — 2 Kings: The Power and the Fury (Christian Focus, 2005)
- Iain W. Provan — 1 and 2 Kings (New International Biblical Commentary, Hendrickson, 1995)
- Paul R. House — 1, 2 Kings (New American Commentary, Broadman & Holman, 1995)
- Mordechai Cogan e Hayim Tadmor — II Kings (Anchor Bible, 1988)
- Peter J. Leithart — 1 & 2 Kings (Brazos Theological Commentary, 2006)
Exílio, cronologia e samaritanos:
- Edwin R. Thiele — The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings (edição revista, Kregel)
- Reinhard Pummer — The Samaritans: A Profile (Eerdmans, 2016)
- IVP Bible Background Commentary: Old Testament
Sabedoria para o Cotidiano
Samaria não caiu de uma hora para outra: caiu depois de dois séculos de avisos ignorados e de um coração que temia a Deus e servia a outros senhores. Não se acostume com a voz de Deus, nem divida o coração entre ele e aquilo que esvazia; quem segue o vazio se torna vazio. E, se você já sente o peso do afastamento, lembre-se de que Cristo foi até Samaria, sentou-se junto a um poço e ofereceu água viva a quem tinha uma fé misturada: o caminho de volta está aberto em quem carregou o exílio por nós.
Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?
Pergunte ao Farol