Pular para o conteúdo
Farol Bíblico
Início

← Apocalipse

Apocalipse · 66 de 66 · Novo Testamento

Apocalipse — Capítulo 9

Infográfico de “Apocalipse 9 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 7 partes: A estrela caída e o poço do abismo; Gafanhotos que não tocam a erva; O retrato do enxame e o seu rei destruidor; Um ai encerrado, dois por vir; A voz do altar e os anjos do Eufrates; Cavalos de fogo, fumaça e enxofre; Os que não mudaram de rumo.

Título do capítulo: O abismo aberto e o coração fechado
Gênero literário: Apocalipse profético — visões de juízo e de esperança (a quinta trombeta: a estrela caída, o poço do abismo e os gafanhotos que atormentam os que não têm o selo de Deus; o primeiro ai; a sexta trombeta: a voz do altar, os quatro anjos do Eufrates e a cavalaria incontável; o segundo ai em curso; os sobreviventes que não se arrependem)
Número de versículos: 21

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. A apresentação do livro inteiro (autoria, data, gênero, estrutura, cânon e escolas de interpretação) está no estudo do capítulo 1, e o estudo do capítulo 8 apresenta as sete trombetas. Nenhum versículo é transcrito: as visões são resumidas e explicadas, e as alusões a Joel, ao Êxodo, aos Salmos, a Daniel e aos profetas são indicadas pelo endereço. Os pontos de texto dos vv. 13 e 21 são tratados no lugar próprio. Os números do capítulo, como os cinco meses e a cavalaria de duas vezes dez mil vezes dez mil, são lidos como linguagem simbólica, nunca como dados para cálculo.

Uma palavra pastoral: este é um dos capítulos mais estranhos da Bíblia, com gafanhotos de rosto humano, cavalos com cabeça de leão e cauda de serpente, fogo e enxofre. Muita gente o conheceu por pregações e vídeos que viam nele helicópteros, exércitos de países de hoje ou armas modernas, e ficou com medo. Se você chegou aqui assim, saiba que o capítulo foi escrito para dizer o contrário do que o medo diz: o abismo só se abre por pouco tempo e com limites, os que pertencem a Deus estão marcados por ele, e o mal acaba destruindo a si mesmo. O que o capítulo lamenta não é a força dos monstros, mas o coração humano que, mesmo diante de tudo, não quis voltar para Deus.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O quinto e o sexto toques: os dois primeiros ais

No fim do capítulo 8, a águia anunciou três ais sobre os habitantes da terra, por causa das três trombetas que faltavam (8.13). O capítulo 9 traz os dois primeiros: a quinta trombeta, com os gafanhotos do abismo (vv. 1-11), e a sexta, com a cavalaria que sai do Eufrates (vv. 13-21). Entre elas, uma linha anuncia que um ai passou e que outros dois vêm a seguir (v. 12). O segundo ai só terminará em 11.14, porque o livro abre, entre a sexta e a sétima trombetas, um longo interlúdio: o anjo com o livrinho (10) e as duas testemunhas (11.1-13). A estrutura é a mesma dos selos, em que o capítulo 7 se intercalou entre o sexto e o sétimo.

As quatro primeiras trombetas feriram a natureza: a terra, o mar, as águas, os astros. As duas deste capítulo ferem diretamente as pessoas, e as forças que agem agora vêm de baixo, do abismo e dos anjos presos. O juízo muda de natureza: já não é só a criação que se volta contra os que adoram as criaturas, mas o próprio mal que se volta contra os que o servem. A proporção continua a da terça parte (v. 15), e o capítulo termina com a constatação de que nem assim houve arrependimento (vv. 20-21), como no Egito.

O abismo, os gafanhotos e o Eufrates no imaginário antigo

O abyssos, literalmente o sem fundo, era a palavra que a antiga tradução grega usou para o tehom, as águas profundas e escuras do princípio (Gn 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do dilúvio (Gn 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). No judaísmo do tempo de Jesus, tornara-se também o lugar de prisão dos espíritos rebeldes. O 1 Enoque fala de estrelas que desobedeceram e ficaram presas num lugar de fogo e trevas, e o Novo Testamento conhece essa linguagem: os demônios que Jesus expulsa do homem de Gerasa lhe pedem que não os mande para o abismo (Lc 8.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Lucas 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e Judas e 2 Pedro falam dos anjos guardados em prisões escuras até o juízo (Jd 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Pe 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Judas. No Apocalipse, o abismo é a origem da besta (11.7; 17.8) e o lugar onde o dragão será preso (20.1-3).

O gafanhoto era um dos piores flagelos do mundo antigo. Uma nuvem deles escurecia o céu, devorava em poucas horas as lavouras de uma região e deixava a fome atrás de si. A oitava praga do Egito foi uma invasão de gafanhotos que cobriu a terra até escurecê-la (Êx 10.12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Joel descreveu uma praga assim como um exército do dia do Senhor, com dentes de leão, aparência de cavalos e barulho de carros de guerra (Jl 1.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.1-11), em acordo com os estudos de Joel 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 2. João toma essas imagens e as leva ao extremo. Em vários lugares do Oriente, a temporada dos gafanhotos ia aproximadamente da primavera ao fim do verão, e alguns comentaristas veem nisso a origem dos cinco meses do v. 5.

O Eufrates (v. 14) era, nas Escrituras, o grande rio. Nasce no Éden (Gn 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), marca o limite da terra prometida a Abraão (Gn 15.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Js 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e é a fronteira de onde vinham os invasores que castigaram Israel e Judá: Isaías compara o assírio às águas do rio que transbordam (Is 8.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jeremias vê o exército do Egito derrotado junto ao Eufrates (Jr 46.2, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No primeiro século, o rio era a fronteira oriental do Império Romano, e do outro lado ficavam os partos, cavaleiros temidos que haviam derrotado as legiões de Crasso em Carras, em 53 a.C., e eram famosos por atirar flechas para trás enquanto pareciam fugir. Circulava ainda a lenda de que Nero, morto em 68, voltaria do Oriente à frente dos partos para se vingar de Roma, registrada com variações por historiadores romanos e pelos Oráculos Sibilinos. Muitos estudiosos pensam que esse medo dos leitores está ao fundo da sexta trombeta. Mas os cavalos de João têm cabeça de leão e cospem fogo: o medo real serve para falar de algo maior.

Uma história de leituras e uma advertência

Nenhum capítulo do Apocalipse foi tão usado para identificar acontecimentos da história. Muitos historicistas protestantes, do século XVII ao XIX, leram a quinta trombeta como a expansão dos árabes muçulmanos e a sexta como a dos turcos otomanos, e alguns fizeram cálculos com os números do capítulo: em 1838, o pregador milerita Josiah Litch somou a hora, o dia, o mês e o ano do v. 15, pelo princípio de que um dia profético vale um ano, e anunciou para agosto de 1840 o fim do poder otomano. No século XX, um autor norte-americano muito lido nos anos 1970 sugeriu que os gafanhotos seriam helicópteros de combate, e o número dos cavaleiros foi associado ao tamanho do exército de um país asiático. Leituras preteristas viram nos gafanhotos os exércitos romanos ou os grupos armados da guerra judaica de 66 a 70.

Este estudo registra essas leituras como história e recusa as identificações. Elas foram feitas e refeitas muitas vezes, com nomes diferentes a cada geração, e todas fracassaram como chave do texto. Além disso, fizeram mal: alimentaram o medo, o ódio religioso contra muçulmanos e a desconfiança contra povos inteiros, e transformaram um texto sobre a idolatria em mapa de inimigos. O Apocalipse não fala de helicópteros, de mísseis nem de exércitos de países de hoje. Fala, com imagens do seu tempo e das Escrituras de Israel, do mal que sai do abismo, devora quem o serve e não consegue tocar quem pertence a Deus.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Ao toque do quinto anjo, João vê um astro já tombado do céu na terra, que recebe a chave do poço que desce ao abismo. Aberto o poço, sai dele uma fumaceira de fornalha imensa, e o sol e o ar ficam escuros (vv. 1-2). Da fumaça brotam gafanhotos que se espalham pela terra, armados com um poder de escorpião. Recebem ordem de poupar a vegetação, a erva e as árvores, e de se voltar só contra quem não traz na testa o selo de Deus; matar, não podem; podem apenas causar, durante cinco meses, uma dor semelhante à do ferrão do escorpião. Naqueles dias, quem sofrer esse tormento vai querer morrer, mas a morte, buscada, lhes escapará (vv. 3-6).

João descreve os gafanhotos: a silhueta lembra cavalos aparelhados para a batalha; na cabeça, algo semelhante a coroas douradas; o rosto lembra o humano, o cabelo é longo como o das mulheres, os dentes são de leão; o tórax parece revestido de ferro, e o zumbido das asas soa como o tropel de muitos carros de guerra. As caudas trazem ferrões de escorpião, e nelas está o poder de ferir por cinco meses. Quem os comanda é o anjo do abismo, chamado Abadom em hebraico e Apoliom em grego (vv. 7-11). Encerra-se o primeiro ai, e dois outros ainda estão por vir (v. 12).

Ao toque do sexto anjo, uma voz sai dos chifres do altar de ouro, diante de Deus, e ordena ao sexto anjo que liberte os quatro anjos presos à beira do Eufrates, o grande rio. Libertados, eles cumprem a tarefa para a qual tinham sido mantidos à espera do momento exato: matar um terço da humanidade. João ouve o tamanho da cavalaria: duas vezes dez mil vezes dez mil (vv. 13-16). Os cavaleiros vestem couraças vermelhas como fogo, azul-escuras como jacinto e amarelas como enxofre; os cavalos têm cabeça de leão e soltam pela boca fogo, fumaça e enxofre, as três pragas que matam um terço da humanidade. Ferem com a boca e também com a cauda, que parece serpente, tem cabeça e causa dano (vv. 17-19).

Quem sobrevive a essas pragas não abandona os ídolos fabricados pelas próprias mãos: segue prestando culto aos demônios e a imagens de ouro, prata, bronze, pedra e madeira, incapazes de enxergar, de escutar ou de dar um passo. Também não larga os homicídios, as feitiçarias, a imoralidade sexual e os roubos (vv. 20-21).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-2 — A estrela caída e o poço do abismo

Quando o quinto anjo toca, João vê astera ek tou ouranou peptōkota eis tēn gēn, uma estrela caída do céu na terra. O particípio está no perfeito: João não a vê cair, vê-a já caída. No Apocalipse, as estrelas podem representar anjos (1.20), e a estrela recebe uma chave e age, o que faz dela uma figura pessoal. Quem é? Muitos intérpretes pensam num anjo caído, talvez o próprio Satanás, lembrando o rei de Babilônia, astro da manhã derrubado das alturas (Is 14.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Isaías 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e a palavra de Jesus sobre Satanás tombando do céu num clarão (Lc 10.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Lucas 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Outros notam que, em 20.1, um anjo desce do céu com a chave do abismo para prender o dragão, e entendem que aqui também se trata de um anjo de Deus, enviado para abrir. O verbo do v. 1, caída, favorece a primeira leitura, mas o texto não decide, e a lição não depende dessa escolha.

A lição está no passivo: edothē autō hē kleis, foi-lhe dada a chave. Quem dá? O livro já disse: o Cristo ressuscitado tem as chaves da morte e do Hades (1.18), e também a chave de Davi (3.7). Nada sai do abismo sem permissão. O passivo edothē vai se repetir no capítulo (vv. 1, 3, 5) e é uma das maneiras de o livro afirmar a soberania de Deus sem fazer dele o autor do mal: o mal age, mas dentro de limites que não foram escolhidos por ele.

O v. 2 descreve a abertura do phrear tēs abyssou, o poço do abismo, como uma boca estreita que desce para as profundezas. Sobe uma fumaça hōs kapnos kaminou megalēs, como de uma grande fornalha, a imagem da fumaça que subia de Sodoma (Gn 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do Sinai envolto em fogo (Êx 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sol e o ar eskotōthē, escureceram, como na quarta trombeta (8.12) e como os gafanhotos do Egito escureceram a terra (Êx 10.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mal começa por roubar a luz.

Versículos 3-6 — Gafanhotos que não tocam a erva

Da fumaça saem akrides, gafanhotos, e lhes é dado um poder hōs echousin exousian hoi skorpioi tēs gēs, como o que têm os escorpiões da terra. A mistura já mostra que não são insetos comuns: gafanhotos não picam, e escorpiões não voam em nuvens. No deserto, Moisés lembrou ao povo que Deus o havia conduzido por uma terra de serpentes venenosas e escorpiões (Dt 8.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imagem junta a devastação do enxame e a dor do ferrão.

O v. 4 contradiz o instinto do gafanhoto: eles são proibidos de danificar ton chorton tēs gēs, a erva da terra, e qualquer planta verde ou árvore. O alvo são tous anthrōpous hoitines ouk echousi tēn sphragida tou theou epi tōn metōpōn, as pessoas que não têm o selo de Deus na testa. O selo foi posto no capítulo 7, antes que os ventos do juízo soprassem (7.2-4), na linha de Ezequiel, que viu os que choravam pelas abominações de Jerusalém marcados na testa para serem poupados (Ez 9.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Ezequiel 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O modelo é ainda o Êxodo: as pragas atingiam o Egito e poupavam Gósen, onde vivia o povo de Deus (Êx 8.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.4, 26; 10.23). O selo não promete aos fiéis uma vida sem sofrimento, pois o mesmo livro fala de mártires (6.9; 11.7; 13.7); promete que o tormento que vem do abismo não tem poder sobre quem pertence a Deus. Paulo fala do Espírito como selo dos que creram (Ef 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.30; 2Co 1.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 5 põe um segundo limite: os gafanhotos não podem matar, só basanisthēsontai, atormentar, e por mēnas pente, cinco meses. O tempo é curto e definido, e muitos o relacionam à temporada de vida do gafanhoto, como se disse. O tormento é comparado à picada do escorpião, dolorosa mas raramente mortal para um adulto. O mal que sai do abismo é real e doloroso, mas não tem a última palavra sobre a vida.

O v. 6 é um dos mais sombrios do livro. Naqueles dias, diz João, as pessoas zētēsousin ton thanaton, buscarão a morte como saída, e ela pheugei, fugirá: o desejo de morrer ficará sem resposta. O desejo de morrer já aparece em Jó, que fala dos que esperam a morte como quem procura um tesouro escondido e ela não vem (Jó 3.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Jó 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e em Jeremias, que anuncia um tempo em que o povo idólatra vai preferir a morte à vida (Jr 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo descreve o desespero de quem se entregou ao que não salva. Não é uma regra para ler a dor de pessoas concretas, e muito menos um diagnóstico espiritual de quem sofre de depressão ou pensa em morrer. Quem passa por isso precisa de acolhimento, não de julgamento; se for o seu caso, procure ajuda hoje: o CVV atende pelo telefone 188, a qualquer hora, e um pastor ou um profissional de saúde podem caminhar com você.

Versículos 7-11 — O retrato do enxame e o seu rei destruidor

A descrição dos vv. 7-10 é feita quase toda com homoios e hōs, semelhante a e como. João não fotografa; tenta dizer o que viu com as palavras que tem. Os gafanhotos são homoia hippois hētoimasmenois eis polemon, semelhantes a cavalos preparados para a guerra, imagem de Joel (Jl 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de Jeremias, que compara os cavalos dos invasores a gafanhotos eriçados (Jr 51.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cabeça trazem hōs stephanoi homoioi chrysō, algo como coroas parecidas com ouro: uma realeza de imitação, que lembra por contraste as coroas verdadeiras dos anciãos (4.4) e do Filho do Homem (14.14). Têm rosto hōs prosōpa anthrōpōn, como de gente, sinal de uma malícia que pensa; cabelos hōs trichas gynaikōn, como de mulher, isto é, longos, talvez evocando os guerreiros de cabelo comprido que os romanos temiam, ou as antenas do inseto; não há aqui nenhum julgamento sobre as mulheres, apenas um traço do retrato. E dentes hōs leontōn, como de leões, mais uma imagem de Joel (Jl 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 9 descreve o tórax como thōrakas hōs thōrakas sidērous, couraças como de ferro, e o som das asas como o de harmatōn hippōn pollōn, carros de muitos cavalos correndo para a batalha (Jl 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 10 volta ao ferrão: caudas e aguilhões como de escorpião, e o poder de ferir mēnas pente, por cinco meses, repetidos para fechar a descrição. O conjunto é um monstro composto, como as feras de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em acordo com o estudo de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): parte cavalo, parte leão, parte escorpião, parte gente. O Apocalipse gosta dessas misturas para mostrar o mal como deformação do que Deus criou.

O v. 11 diz que eles têm basilea, um rei, ton angelon tēs abyssou, o anjo do abismo. O detalhe é significativo, porque Provérbios observa que os gafanhotos não têm rei e, mesmo assim, avançam em ordem (Pv 30.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); estes têm, e o seu rei é o anjo do abismo. O nome é dado nas duas línguas. Em hebraico, Abaddōn, que vem da raiz de perecer e designa, nos livros de sabedoria e nos salmos, o lugar da perdição, junto do mundo dos mortos (Jó 26.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 28.22; Pv 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 88.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com os estudos de Jó 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 28, de Provérbios 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e do Salmo 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Em grego, Apollyōn, o Destruidor. Alguns estudiosos veem no nome grego um jogo de palavras com Apolo, deus a quem às vezes se associava o gafanhoto e com quem alguns imperadores, como Nero, gostavam de ser identificados; se for assim, o Apocalipse estaria dizendo, com ironia, que o deus protetor do império é, na verdade, o destruidor. A hipótese é possível e deve ser lida com cautela.

O mais importante é o que o nome revela. O rei dos gafanhotos se chama Destruidor, e o seu exército atormenta justamente os que não pertencem a Deus, isto é, os que se entregaram aos ídolos e ao poder que o abismo inspira. O mal devora quem o serve. É a lógica que o livro mostrará de novo quando a besta e os seus aliados se voltarem contra a prostituta que montavam (17.16): o reino do mal é dividido contra si mesmo (Mc 3.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e acaba consumindo os seus. Os servos do Destruidor não encontram nele um senhor, mas um algoz.

Versículo 12 — Um ai encerrado, dois por vir

O versículo é uma pausa breve e um marcador da estrutura: hē ouai hē mia apēlthen, o primeiro ai passou, e erchetai eti duo ouai, vêm ainda dois ais depois destas coisas. A águia de 8.13 tinha anunciado três; o primeiro foi a quinta trombeta, e o segundo, a sexta, só será declarado concluído em 11.14, depois do interlúdio. A frase lembra ao leitor que a história caminha: o que passou passou, e o livro não se detém no horror, mas avança para o que Deus vai fazer.

Versículos 13-16 — A voz do altar e os anjos do Eufrates

O sexto anjo toca, e João ouve phōnēn mian, uma voz, que vem ek tōn tessarōn keratōn tou thysiastēriou tou chrysou, dos quatro chifres do altar de ouro que está diante de Deus. O número quatro falta em alguns manuscritos antigos, entre eles o P47 e o Alexandrino, e está em muitos outros; a edição crítica o mantém entre colchetes. O sentido não muda. O altar de ouro é o mesmo do incenso e das orações (8.3-5), e a voz que sai dos seus chifres, a parte mais sagrada do altar, onde se punha o sangue da expiação (Êx 30.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), liga a sexta trombeta, de novo, às orações dos santos. O juízo continua sendo resposta ao clamor dos que sofrem.

A voz manda soltar tous tessaras angelous tous dedemenous epi tō potamō tō megalō Euphratē, os quatro anjos amarrados junto ao grande rio Eufrates. Que estejam amarrados sugere, para muitos intérpretes, anjos rebeldes, mantidos sob custódia como os de Jd 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Outros os associam aos quatro anjos que seguravam os quatro ventos nos cantos da terra (7.1), agora soltos. Em qualquer leitura, o Eufrates traz consigo o peso da história: a fronteira de onde vinham os impérios que oprimiram Israel e, no tempo de João, a fronteira de onde Roma temia os partos.

O v. 15 diz que os quatro foram soltos, hoi hētoimasmenoi eis tēn hōran kai hēmeran kai mēna kai eniauton, preparados para a hora, o dia, o mês e o ano. O artigo único, no grego, governa as quatro palavras: não se trata de uma duração a somar, mas de um momento preciso, fixado por Deus. É exatamente o contrário do uso que fizeram do versículo os que somaram a hora, o dia, o mês e o ano para chegar a um número de anos e a uma data. O texto não entrega o calendário; diz que nada acontece fora da hora que Deus determinou. O alvo é apokteinōsin to triton tōn anthrōpōn, matar a terça parte da humanidade, a mesma proporção das trombetas anteriores, agora aplicada às pessoas: o juízo cresce, mas ainda é parcial.

O v. 16 dá o número dos exércitos de cavalaria: dismyriades myriadōn, duas vezes dez mil vezes dez mil. A miríade, dez mil, era o maior número com nome próprio em grego, e miríades de miríades já designaram, no livro, os anjos incontáveis em volta do trono (5.11; Dn 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Somado ao pé da letra, daria duzentos milhões, mas a expressão quer dizer uma multidão impossível de contar, maior que qualquer exército. João não a conta; ēkousa ton arithmon autōn, ouviu o número. Não é um efetivo militar a comparar com estatísticas de países, e as leituras que fizeram isso caíram com o tempo.

Versículos 17-19 — Cavalos de fogo, fumaça e enxofre

O v. 17 começa com en tē horasei, na visão, o que o próprio texto sublinha: o que segue é visto em visão, não registrado como relatório. Os cavaleiros têm couraças pyrinous kai hyakinthinous kai theiōdeis, cor de fogo, de jacinto, um azul escuro como o da fumaça, e de enxofre, amarelo. As três cores correspondem às três coisas que saem da boca dos cavalos: pyr kai kapnos kai theion, fogo, fumaça e enxofre. As cabeças dos cavalos são hōs kephalai leontōn, como de leões. O cavaleiro quase desaparece da cena; quem age são os cavalos, monstros que cospem o que lembra a destruição de Sodoma (Gn 19.24, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de Edom (Is 34.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Leviatã de Jó, de cuja boca saem tochas e fumaça (Jó 41.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Jó 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O fogo e o enxofre voltarão no livro como linguagem do juízo final (14.10; 19.20; 21.8).

O v. 18 diz que, por tōn triōn plēgōn toutōn, essas três pragas, morreu a terça parte da humanidade. A palavra plēgē, praga, é a do Êxodo. A morte não vem diretamente de Deus, mas daquilo que o próprio mal produz e espalha; Deus permite e limita, como nas trombetas anteriores. A linguagem é a de uma visão, e não autoriza ninguém a ler nela uma estatística de mortos em guerras ou epidemias de qualquer época.

O v. 19 acrescenta que o poder dos cavalos está na boca e nas caudas, e que as caudas, homoiai ophesin, semelhantes a serpentes, têm cabeças e ferem com elas. Os cavalos ferem pela frente e por trás, como os arqueiros partos que atiravam para trás enquanto se afastavam, segundo alguns intérpretes, com cautela. A serpente lembra também a antiga serpente do Éden (Gn 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 12.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o veneno que fica depois que o ataque parece ter passado. O dano do mal não termina onde parece terminar.

Versículos 20-21 — Os que não mudaram de rumo

O capítulo termina com a frase mais triste das trombetas. Hoi loipoi tōn anthrōpōn, os demais, os que não morreram nessas pragas, oude metenoēsan, nem assim se arrependeram. O verbo metanoeō, mudar de mente e de rumo, é o mesmo das cartas às igrejas (2.5, 16, 21-22; 3.3, 19) e voltará nas taças (16.9, 11). As trombetas, como as pragas, foram também chamados ao arrependimento, e a recusa repete a do Faraó, que endurecia o coração a cada praga (Êx 8.15, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.34-35).

De que deveriam se arrepender? O v. 20 responde primeiro com a idolatria: das erga tōn cheirōn autōn, as obras das próprias mãos, a ponto de não mais adorar ta daimonia, os demônios, e os ídolos de ouro, prata, bronze, pedra e madeira, ha oute blepein dynantai oute akouein oute peripatein, que não podem ver, nem ouvir, nem andar. É a sátira dos salmos e dos profetas contra os ídolos (Sl 115.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 135.15-17; Is 44.9-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 10.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com os estudos do Salmo 115 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Isaías 44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e a acusação de Daniel ao rei que louvou deuses de ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedra e não honrou o Deus que tinha nas mãos o fôlego dele (Dn 5.4, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Daniel 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os ídolos e os demônios aparecem juntos, como em Dt 32.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e em 1Co 10.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Paulo diz que o ídolo não é nada, mas que por trás do culto aos ídolos há poderes espirituais, em acordo com o estudo de 1 Coríntios 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Para as igrejas da Ásia, a questão era concreta: os banquetes nos templos, as associações de ofícios e o culto imperial (2.14, 20).

O v. 21 passa da primeira à segunda tábua da lei. Também não se arrependeram ek tōn phonōn, dos seus assassinatos, ek tōn pharmakōn, das suas feitiçarias, ek tēs porneias, da sua imoralidade sexual, e ek tōn klemmatōn, dos seus roubos. A lista segue de perto a ordem dos mandamentos (Êx 20.3-5, 13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): primeiro a falsa adoração, depois a violência, a infidelidade e o roubo. É a mesma lógica de Rm 1.18-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em acordo com o estudo de Romanos 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): quando o ser humano troca o Criador pela criatura, a vida com o próximo se desfaz. Alguns manuscritos trazem pharmakeiōn, a palavra da feitiçaria como prática, em lugar de pharmakōn, as poções e os encantamentos; o sentido é o mesmo. A palavra designava a magia, a manipulação por meio de poções e, muitas vezes, o envenenamento; aparece entre as obras da carne (Gl 5.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Gálatas 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e será um dos pecados de Babilônia (18.23). Ela não condena os remédios nem a medicina, e não pode ser usada para afastar alguém de um tratamento.

O capítulo termina aqui, sem resolução, e é preciso ler o que vem depois para entender o seu lugar. Muitos intérpretes, como Richard Bauckham, observam que o Apocalipse mostra, nas trombetas, que o juízo sozinho não converte ninguém. Depois delas vêm o anjo com o livrinho (10) e as duas testemunhas (11), e só depois do testemunho fiel, da morte e da vindicação das testemunhas é que os que sobrevivem dão glória a Deus (11.13). O que as pragas não conseguem, o testemunho da igreja e do Cordeiro consegue.


✨ 4. Versículos-Chave

Ap 9.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os gafanhotos do abismo são proibidos de tocar a erva e as árvores e só podem atingir quem não tem o selo de Deus na testa. O versículo diz duas coisas ao mesmo tempo: que o mal tem limites que não escolheu, e que os que pertencem a Deus estão guardados pelo seu selo. Não promete ausência de sofrimento, mas assegura que o tormento que vem do abismo não tem poder sobre eles, como Gósen no Egito (Êx 8.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e os marcados de Ezequiel (Ez 9.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ap 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A morte desejada que não chega. O versículo mostra o fim do caminho da idolatria: o desespero de quem serviu ao Destruidor e não encontra saída. Lido à luz de Cristo, que tem as chaves da morte (1.18), ele também lembra que a vida não está nas mãos do abismo, e que quem está desesperado pode ser alcançado pelo Cordeiro que conhece a dor por dentro.

Ap 9.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O rei dos gafanhotos é o anjo do abismo, Abadom em hebraico e Apoliom em grego, o Destruidor. O nome revela a natureza do mal: ele não constrói nada, só destrói, e destrói primeiro os que o seguem. Contra ele, o livro apresenta o Cordeiro, que é chamado de testemunha fiel e primogênito dos mortos (1.5), aquele que dá a vida em vez de tirá-la.

Ap 9.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os sobreviventes não se arrependem nem da idolatria nem dos assassinatos, das feitiçarias, da imoralidade e dos roubos. O versículo junta as duas tábuas da lei e mostra que a falsa adoração e a injustiça andam juntas. É uma das frases mais tristes do livro, porque revela que o problema humano não é falta de avisos, mas um coração que se fecha. O livro inteiro, até o convite final (22.17), é a resposta de Deus a esse coração.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

O mal sob a soberania de Deus e o mal que se destrói. A chave do abismo é dada, o poder dos gafanhotos é dado, o tempo é limitado, os alvos são restritos, os anjos são soltos na hora fixada por Deus. O capítulo nunca põe o mal no mesmo plano de Deus. E mostra o mal voltando-se contra os que o servem: o rei dos gafanhotos é o Destruidor, e o seu exército atormenta os que não têm o selo de Deus. O mal não tem futuro próprio; vive do que destrói. O tema prepara a queda de Babilônia e a derrota final do dragão (17.16-17; 20.10).

O selo que guarda. No meio da fumaça do abismo, há pessoas que os gafanhotos não podem tocar. O selo de Deus, recebido no capítulo 7, é a marca de pertença ao Pai e ao Cordeiro (14.1). A segurança dos fiéis não está na força deles, mas no nome que levam. O tema atravessa a Bíblia, do sangue nas portas na noite da Páscoa (Êx 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) aos marcados de Ezequiel e ao Espírito que sela os que creem (Ef 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A idolatria e a injustiça. A lista final junta os ídolos e os demônios com os assassinatos, as feitiçarias, a imoralidade e os roubos, na ordem das duas tábuas da lei. Quem adora o que não vê nem ouve acaba sem ver nem ouvir o próximo. No mundo de João, os ídolos estavam ligados ao poder e ao comércio do império; em todas as épocas, a idolatria toma a forma do que se põe no lugar de Deus, como o dinheiro, o poder ou a nação, e sempre cobra o seu preço dos mais fracos.

O arrependimento recusado e a paciência de Deus. As trombetas foram avisos, e o resultado foi a recusa. O capítulo não esconde a tragédia de um coração que endurece, como o do Faraó. Mas o livro não termina aqui: a paciência de Deus continua a chamar, primeiro pelo testemunho das igrejas (11), depois pelo evangelho eterno anunciado a toda nação (14.6-7), até o convite final a quem tem sede (22.17). O juízo mostra o que o coração humano é capaz de recusar; o evangelho mostra até onde Deus vai para alcançá-lo.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

A Criação está no fundo do abismo, que é a palavra das águas do princípio (Gn 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no Eufrates, que nasce no Éden (Gn 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Queda aparece no seu ponto mais escuro: a estrela caída, a serpente nas caudas dos cavalos e uma humanidade que adora demônios e ídolos e se fecha ao arrependimento. A Redenção em andamento está no padrão do Êxodo, no selo de Ezequiel, nos gafanhotos de Joel e na sátira dos profetas contra os ídolos. A Redenção consumada está no Cordeiro que abriu os selos e tem as chaves da morte, e a Nova Criação é o horizonte que o capítulo ainda não mostra, mas para o qual caminha: o dia em que o abismo será fechado, o dragão preso e lançado fora, e as nações virão à cidade de Deus não como cavalaria invasora, mas trazendo a sua glória (20.1-3, 10; 21.24-26).

6.2 — O Cristo que tem as chaves (Cristologia)

O capítulo começa com uma chave dada a uma estrela caída, e o leitor do Apocalipse sabe de onde ela vem. O Cristo que apareceu a João no capítulo 1 se apresentou como o Vivente que passou pela morte e vive para sempre, com as chaves da morte e do Hades nas mãos (1.18). À igreja de Filadélfia, apresentou-se como o portador da chave de Davi (3.7; Is 22.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As chaves, no mundo antigo, eram sinal de autoridade sobre uma casa. Se o abismo se abre, é porque ele permite; e no fim do livro é um anjo enviado do céu que desce com a chave e acorrenta o dragão (20.1-3).

Os Evangelhos mostram essa autoridade em ação. Os demônios do homem de Gerasa reconhecem Jesus e lhe suplicam que não os mande para o abismo (Lc 8.28-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): eles têm medo dele. E quando os setenta e dois voltam da missão alegres porque até os demônios lhes obedeciam, Jesus conta que viu Satanás despencar do céu, rápido como o raio, e lembra que os enviara com autoridade sobre a força do inimigo, figurada em serpentes e escorpiões (Lc 10.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Lucas 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Serpentes e escorpiões são exatamente as imagens deste capítulo. Os discípulos de Jesus não precisam temer os monstros do abismo; e Jesus acrescenta que a alegria maior não é essa autoridade, mas saber que o próprio nome está registrado no céu (Lc 10.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que é o sentido do selo na testa. Na cruz, Cristo desarmou os poderes e os expôs à vergonha diante de todos, como um general no cortejo da vitória (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Colossenses 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

6.3 — Os gafanhotos de Joel e os anos restituídos (Promessas e cumprimento)

O capítulo retoma as imagens de Joel, e Joel não termina com os gafanhotos. No contexto do profeta, a praga real devastou Judá e levou o povo a rasgar o coração e voltar a Deus (Jl 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus respondeu com uma promessa: compensaria as colheitas devoradas pelos gafanhotos (Jl 2.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e derramaria o seu Espírito sobre todos (Jl 2.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Joel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). No cumprimento já começado em Cristo, Pedro anuncia em Pentecostes que esse Espírito foi derramado pelo Cristo exaltado (At 2.16-21, 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o tempo dos gafanhotos não é o último tempo de Deus. No cumprimento final, ainda futuro e sem data, a restituição será completa na nova criação, onde nada mais será destruído (21.4-5; 22.3).

O mesmo vale para o Eufrates. O rio que, nas Escrituras, sempre trouxe invasores, nasce no jardim de Deus (Gn 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e o livro termina com outro rio, que nasce do trono de Deus e do Cordeiro e atravessa a cidade, regando a árvore da vida, cujas folhas trazem cura aos povos (22.1-2). O rio que trouxe a morte será substituído pelo rio que traz a vida.

6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo

O v. 6 fala de gente que procura a morte e não a encontra. Cristo é o que encontrou a morte de frente, não como fuga, mas por amor, e passou por ela em favor de todos (Hb 2.9, 14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo de Hebreus 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Por isso ele tem as chaves: não as tomou à força, recebeu-as vencendo a morte por dentro. O desespero do v. 6 não é a última palavra sobre ninguém, porque o Cordeiro desceu mais fundo do que qualquer abismo (Ef 4.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 10.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 20-21 falam de ídolos cegos, surdos e parados. Em Cristo, o Deus vivo fez o contrário: viu a aflição do seu povo, ouviu o seu clamor, como no Egito (Êx 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e andou entre nós. Jesus olhava as multidões e se compadecia delas (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ouvia o grito do cego à beira do caminho (Mc 10.46-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e andou pelas estradas da Galileia e até o Calvário. O ídolo é uma imagem muda feita por mãos humanas; Cristo torna visível o Deus que ninguém vê (Cl 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e esse Deus vê, ouve e caminha conosco.

E o selo na testa é o nome do Pai e do Cordeiro (14.1; 22.4). A proteção dos fiéis não é um amuleto nem uma fórmula; é pertencer a Cristo. Quem é dele não é poupado de toda dor, mas não está nas mãos do Destruidor.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar Apocalipse 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é anunciar que o mal é real, mas não é soberano. Ele sai do abismo apenas quando a porta lhe é aberta, por pouco tempo e dentro de limites, e devora primeiro os que o servem. Quem confia nos ídolos do poder, do dinheiro e do prazer descobre, cedo ou tarde, que eles são mudos e inertes, e que o rei do abismo tem o nome de Destruidor.

O evangelho está no contraste. Contra o Destruidor, o Cordeiro que dá a vida; contra os ídolos mudos, o Deus que vê, ouve e caminha; contra o tormento do abismo, o selo de quem pertence a Deus; contra o desespero de quem procura a morte, o Cristo que tem as chaves da morte e as usa para abrir a porta da vida. E contra o coração que não se arrepende, a paciência de Deus, que não desiste de chamar enquanto ainda há tempo. Ninguém está tão longe que o Cordeiro não possa alcançá-lo.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Não ter medo dos monstros. O capítulo não foi escrito para assustar crianças nem para alimentar maratonas de vídeos sobre o fim. Se você cresceu ouvindo que os gafanhotos eram helicópteros ou que um exército de duzentos milhões estava para invadir o mundo, saiba que essas leituras já mudaram de alvo muitas vezes e todas fracassaram. Com as crianças, fale do selo: Deus conhece os seus e os guarda. E desconfie de quem lucra com o medo, vendendo livros, cursos ou abrigos para o fim do mundo.

Não ver demônios em toda dor. O tormento dos gafanhotos é uma imagem do mal que corrói quem o serve, não um manual para diagnosticar doenças. Depressão, ansiedade, epilepsia e outras enfermidades precisam de cuidado médico e psicológico, e o Cristo que tem autoridade sobre os demônios é o mesmo que curava os doentes e os devolvia ao convívio. A palavra pharmakeia fala de magia e envenenamento, nunca de remédios: tomar o remédio receitado não é falta de fé. E se a dor chegar ao ponto de desejar a morte, peça ajuda, como se disse no comentário do v. 6.

Desmascarar os ídolos de hoje. Os ídolos de ouro, prata e pedra têm hoje outras formas: o dinheiro que promete segurança, o poder que exige lealdade absoluta, a fama, a nação posta no lugar de Deus. Todos têm algo em comum com os do v. 20: são cegos e surdos às pessoas, e acabam cobrando caro. Pergunte-se diante de Cristo o que ocupa, na sua vida, o lugar que só Deus deveria ocupar.

Unir a fé e a justiça. O v. 21 lembra que a idolatria e a injustiça andam juntas: o assassinato, a violência sexual, o roubo e a manipulação. A fé no Deus vivo se mostra no cuidado com a vida, no respeito ao corpo do outro e na honestidade no trabalho e no comércio. Uma religião que fecha os olhos para a violência e o roubo ainda não deixou todos os seus ídolos.

Não endurecer o coração. O capítulo termina com gente que viu tudo e não mudou de rumo. A pergunta é para cada um: que avisos Deus já me deu, e quais eu ignorei? O arrependimento não é humilhação; é voltar para casa. O Cordeiro ainda chama, e a porta ainda está aberta.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Quantas vezes o capítulo diz que algo foi dado, permitido ou limitado? O que isso ensina sobre a relação entre Deus e o mal?
  2. Por que os gafanhotos são proibidos de tocar a erva e só atingem quem não tem o selo de Deus? Que relação há com as pragas do Egito e com Ezequiel 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)?
  3. O que o nome do rei do abismo, Abadom e Apoliom, revela sobre a natureza do mal e sobre o destino dos que o servem?
  4. Por que as identificações dos gafanhotos e dos cavaleiros com armas, exércitos ou povos de hoje são um mau uso do texto, e que mal elas podem causar?
  5. Como Jesus, que deu aos discípulos autoridade sobre serpentes e escorpiões e tem as chaves da morte, muda a maneira de ler este capítulo?
  6. Para meditação e oração: peça a Deus que mostre os ídolos que ainda ocupam o seu coração, agradeça pelo selo de quem pertence a Cristo e ore por quem vive no desespero, para que encontre a vida no Cordeiro.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Richard Bauckham — The Theology of the Book of Revelation (Cambridge University Press, 1993)
  • Richard Bauckham — The Climax of Prophecy: Studies on the Book of Revelation (T&T Clark, 1993)
  • Michael J. Gorman — Reading Revelation Responsibly (Cascade, 2011)
  • Bruce M. Metzger — Breaking the Code: Understanding the Book of Revelation (Abingdon, 1993)

Comentários do Apocalipse:

  • Leon Morris — Apocalipse: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • G. K. Beale — The Book of Revelation (New International Greek Testament Commentary, Eerdmans, 1999)
  • David E. Aune — Revelation 6–16 (Word Biblical Commentary, 1998)
  • Craig R. Koester — Revelation (Anchor Yale Bible, Yale University Press, 2014)
  • Brian K. Blount — Revelation (New Testament Library, Westminster John Knox, 2009)

O texto e a história da interpretação:

  • Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2.ª ed., 1994)
  • Judith Kovacs e Christopher Rowland — Revelation: The Apocalypse of Jesus Christ (Blackwell Bible Commentaries, 2004)

Sabedoria para o Cotidiano
O abismo só se abre quando a chave é dada, e quem a tem nas mãos é o Cristo que venceu a morte: por isso os monstros deste capítulo não precisam governar a sua imaginação nem o seu sono. O mal que promete tudo acaba atormentando quem o serve, e os ídolos que hoje pedem a sua lealdade são incapazes de enxergar a sua dor. Viva marcado pelo nome de Deus, recuse cada ídolo que ele lhe mostrar e não deixe o coração endurecer diante dos avisos: enquanto o Cordeiro chama, ainda é tempo de voltar para casa.

Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?

Pergunte ao Farol

Interpretação e comentários da Bíblia. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.

Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.