Temas bíblicos
A presença que não falha: contentamento e coragem em Hebreus 13
A garantia de que Deus não larga os seus liberta do amor ao dinheiro e do medo — e ganha seu peso máximo na cruz de Cristo.
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Há frases da Bíblia que a gente lê de passagem e há frases que seguram uma vida inteira. A promessa registrada em Hb 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é da segunda espécie. Muitos cristãos a sabem de cor, já a anotaram no caderno de oração, já a ouviram num corredor de hospital ou à beira de um túmulo: Deus garante aos seus que não os soltará e não os deixará para trás.
O curioso é o lugar onde ela aparece. Não está num capítulo dedicado ao luto, nem numa cena de batalha, mas no meio de conselhos muito práticos sobre a vida da comunidade: hospitalidade, cuidado com os presos, fidelidade no casamento — e dinheiro (Hb 13.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O autor de Hebreus pede uma conduta livre do amor ao dinheiro e um coração satisfeito com o que se tem. A razão que ele oferece não é uma regra de economia doméstica. É uma pessoa: o próprio Deus, que prometeu ficar.
Uma promessa no meio de uma conversa sobre dinheiro
Os primeiros leitores de Hebreus sabiam o que era perder. Algum tempo antes, tinham sido expostos publicamente a insultos e aflições, ficaram ao lado de irmãos presos e aceitaram com alegria o confisco dos próprios bens, porque sabiam possuir algo melhor e permanente (Hb 10.32-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A carta foi escrita para gente cansada, tentada a recuar e a abandonar a confiança que tinha abraçado (Hb 10.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 12.3,12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nesse cenário, o dinheiro deixa de ser assunto neutro. Para quem já perdeu tudo uma vez, a tentação é agarrar o que sobrou e transformar a reserva financeira no lugar onde a alma descansa. O autor percebe o perigo e lhe dá nome. A palavra que ele usa em Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é aphilargyros, literalmente "sem amor à prata". O problema não é ter recursos, mas amar os recursos — depender deles como a fonte última de segurança. E o remédio é o contentamento: o particípio arkoumenoi descreve quem se dá por satisfeito, quem considera suficiente o que tem diante de si.
Paulo fala a mesma língua. Ele conta que aprendeu a viver contente tanto na fartura quanto na escassez e atribui essa liberdade à força que recebe de Cristo (Fp 4.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em outra carta, alerta que o desejo de enriquecer arrasta muitos para longe da fé e lhes causa dores profundas (1Tm 6.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus já tinha colocado a questão nos termos mais radicais: ninguém consegue servir a dois senhores, e o dinheiro é um senhor que disputa com Deus o centro da vida (Mt 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Repare na lógica de Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O contentamento não é apresentado como esforço de força de vontade, nem como resignação fria diante da vida. Ele é consequência. Você pode viver satisfeito com o que tem porque tem alguém. A pequena conjunção grega gar ("pois", "porque") é a dobradiça do versículo. A ganância costuma nascer do medo de ficar desamparado; a promessa de Deus vai direto à raiz desse medo.
A Bíblia não diz que dinheiro não importa: ela manda trabalhar, planejar e sustentar os seus (Pv 6.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Tm 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o dinheiro não é a última muralha entre você e o abismo. A última muralha é Deus.
O que o original diz: negações em cadeia e dois verbos
Quem lê Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em grego encontra algo que as traduções têm dificuldade de reproduzir. A frase acumula negações: ou mē, depois oud', depois ou mē outra vez — cinco partículas negativas em pouquíssimas palavras. O grego do Novo Testamento usa a combinação ou mē para a negação mais forte possível, aquela que exclui uma hipótese por completo. Aqui ela aparece duas vezes, costurada por mais uma negação.
Os dois verbos também merecem atenção.
- Aniēmi significa soltar, afrouxar, largar. É o verbo usado quando as correntes dos presos se soltam em Filipos (At 16.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e quando os marinheiros afrouxam as amarras do leme no naufrágio de Paulo (At 27.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imagem é a de uma mão que segura e não se abre.
- Enkataleipō significa deixar para trás, desamparar, largar alguém à própria sorte. É o verbo da solidão: Paulo o usa quando conta que Demas o deixou porque preferiu este mundo (2Tm 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, em sua primeira defesa no tribunal, ninguém ficou ao seu lado (2Tm 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há ainda um detalhe na forma como a promessa é introduzida. O autor escreve que ele mesmo disse (autos gar eirēken). O pronome enfático aponta para Deus em pessoa, não para um porta-voz qualquer, e o tempo verbal — o perfeito grego — indica algo dito no passado cujo efeito permanece no presente. A promessa não envelheceu: continua dita, continua valendo.
Uma promessa que atravessa o Antigo Testamento
O autor de Hebreus não inventa a promessa; ele a recolhe das Escrituras de Israel. Não há um único versículo do Antigo Testamento que corresponda exatamente à forma que ele usa, mas a garantia aparece em vários momentos decisivos da história do povo de Deus — e quase sempre em momentos de transição, perda ou medo.
Jacó, fugindo de casa
O primeiro eco está em Betel. Jacó foge do irmão que quer matá-lo, dorme ao relento com uma pedra sob a cabeça e recebe de Deus, em sonho, a garantia de que estará com ele por onde for, o protegerá e não se afastará dele até cumprir tudo o que prometeu (Gn 28.10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Moisés e Josué, diante de Canaã
O eco mais próximo vem de Deuteronômio. Moisés está para morrer e não entrará na terra; o povo vai perder o líder de quarenta anos. Diante disso, Moisés anima Israel e depois Josué, diante de todos: que sejam firmes e não tenham medo, porque o Senhor irá à frente deles e não os largará (Dt 31.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pouco depois, o próprio Deus repete a garantia a Josué, prometendo estar com ele como esteve com Moisés (Js 1.5-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Vale notar: a promessa foi feita a um povo prestes a enfrentar guerras reais, cidades fortificadas e inimigos mais numerosos. Ela nunca significou ausência de luta. Significou companhia na luta.
Davi, Salomão e os profetas
Séculos depois, Davi entrega ao filho Salomão a tarefa de construir o templo — uma obra grande demais para um jovem rei — e o encoraja com a mesma garantia: Deus não o deixaria até que tudo estivesse concluído (1Cr 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pelos profetas, ela chega ao povo abatido: Deus está presente e mantém de pé quem se sente fraco (Is 41.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Alguns estudiosos observam que Fílon de Alexandria, autor judeu do século 1, cita a promessa a Josué numa forma muito parecida com a de Hebreus. Seja como for, o autor da carta faz algo ousado: aplica a palavra dita a Jacó, a Josué e a Salomão a cada leitor da carta. O que foi dito a patriarcas e reis em horas decisivas vale agora para o cristão comum diante da conta do mês, do diagnóstico difícil ou da casa vazia.
A resposta da fé: coragem em vez de medo
Hb 13.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra o que a promessa produz. Deus fala primeiro; o crente responde depois. Por causa do que Deus disse, afirma o autor, podemos falar com ânimo — o verbo tharreō descreve coragem, confiança, firmeza interior. E a resposta que ele coloca na boca do leitor vem do Sl 118.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o Senhor está ao meu lado para socorrer, e por isso nenhuma ameaça humana tem a última palavra sobre mim.
A ordem importa. A fé cristã não começa com o crente tentando se convencer de que tudo vai dar certo. Começa com Deus falando — e a coragem vem como eco. Primeiro a promessa, depois a confissão.
A palavra usada para Deus nessa resposta é boēthos, "ajudador", aquele que corre em socorro de alguém em perigo. O Sl 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o cântico de quem foi cercado, empurrado até quase cair, e foi sustentado pelo Senhor (Sl 118.10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo a tradição judaica, os Salmos 113 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a 118 eram cantados na Páscoa — provavelmente o hino de Jesus e dos discípulos ao fim da última ceia (Mt 26.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Repare também no alvo do medo: o que as pessoas podem fazer. Os leitores de Hebreus conheciam de perto a hostilidade humana — insultos, prisões, perda de bens (Hb 10.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A promessa não lhes garantia que ninguém lhes faria mal. Garantia que nenhum mal humano teria a palavra final, porque o Deus que os segurava era maior do que qualquer perda. Jesus disse algo semelhante: não é preciso temer quem só tem poder sobre o corpo, porque o Pai cuida até dos pardais vendidos por quase nada (Mt 10.28-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Coragem, na Bíblia, raramente é ausência de medo. É medo destronado. O medo continua batendo à porta, mas já não governa a casa.
O que esta promessa não diz
Uma promessa tão preciosa também pode ser mal usada.
Não é promessa de prosperidade. O versículo está justamente num contexto de perdas materiais (Hb 10.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e chama ao contentamento com pouco ou com muito. Ele não promete que a conta estará sempre cheia, mas que, cheia ou vazia, Deus continua presente.
Não é promessa de ausência de sofrimento. Paulo, que conhecia esta verdade, foi deixado sozinho por todos no tribunal romano. E, no mesmo parágrafo, testemunha que o Senhor esteve ao seu lado e lhe deu forças (2Tm 4.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em outra carta, ele usa o mesmo verbo de Hebreus para descrever sua vida apostólica: perseguido, sim, mas nunca largado à própria sorte (2Co 4.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A presença de Deus não elimina a dor; impede que a dor seja a palavra final.
Não é promessa de que você sempre vai sentir a presença de Deus. Os salmos de lamento mostram crentes que perguntam até quando Deus vai se esconder (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ou que se sentem esquecidos (Sl 42.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não os censura por isso; ele colocou essas orações na própria Escritura. Sentir-se abandonado não é prova de ter sido abandonado. A promessa se apoia no caráter de quem a fez, não no que sentimos num dia ruim.
Não é licença para o isolamento. Curiosamente, o mesmo verbo enkataleipō aparece em Hb 10.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando o autor pede aos leitores que não deixem de se reunir. Deus não abandona os seus — e os seus não devem abandonar uns aos outros. Muitas vezes, a presença de Deus chega pelas mãos de um irmão (Hb 13.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E quando o medo e a solidão se transformam em ansiedade persistente ou tristeza profunda, buscar ajuda médica e psicológica não é falta de fé: é cuidar do corpo e da mente que Deus criou. Se você estiver passando por pensamentos de tirar a própria vida, procure ajuda agora — o CVV atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
Em Cristo, o abandonado para que nunca fôssemos deixados
Há um lugar no Novo Testamento em que o verbo enkataleipō soa com um peso único. No Calvário, Jesus clama em alta voz, com as palavras do Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), perguntando ao Pai por que fora deixado (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aquele que nunca tinha conhecido um instante sem comunhão com o Pai experimenta, na cruz, o desamparo que pertence ao pecado.
É aqui que a promessa de Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) encontra seu fundamento mais firme. Deus pode garantir que jamais deixará os seus porque, em Cristo, o Filho foi deixado em lugar deles. Ele carregou o abandono que nós merecíamos para que a presença de Deus fosse, para sempre, a nossa herança (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como ter certeza de que Deus não vai desistir de mim? Porque ele não desistiu nem quando o preço foi o próprio Filho (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A própria carta aos Hebreus caminha nessa direção. Jesus é apresentado como o sumo sacerdote que se compadece das nossas fraquezas, porque foi provado em tudo, sem pecado, e por isso podemos nos aproximar de Deus com confiança para receber socorro no momento certo (Hb 4.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois da promessa de Hb 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o autor lembra que Jesus Cristo não muda com o passar do tempo (Hb 13.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — a presença prometida tem rosto, nome e história. E o Jesus ressuscitado garantiu aos discípulos que estaria com eles todos os dias, até o fim da história (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que não os deixaria sem amparo, enviando o Espírito para habitar neles (Jo 14.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E nada em toda a criação pode nos separar do amor de Deus em Cristo (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Caminhos para viver a promessa
- Examine onde está a sua segurança. O que tira o seu sono — a ausência de Deus ou a ausência de reserva? Poupar é sabedoria; pôr a alma no saldo é idolatria.
- Pratique a generosidade. O mesmo capítulo pede que não nos esqueçamos de fazer o bem e de repartir (Hb 13.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem sabe que não será largado por Deus pode abrir a mão para os outros.
- Diga a promessa em voz alta. Hb 13.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina a fé a responder. Repita-a na oração e nos dias difíceis.
- Ore também o lamento. Quando Deus parecer ausente, leve isso a ele com as palavras dos salmos. O lamento é fé que ainda fala com Deus.
- Não caminhe sozinho. Aceite e ofereça ajuda na sua comunidade.
- Volte à cruz. Quando a dúvida apertar, olhe para o Filho deixado em seu lugar: ali está a prova de que Deus fica.
A promessa de Hb 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não foi escrita para pessoas que nunca perderam nada. Foi escrita para gente que perdeu bens, conheceu prisões e sentiu o cansaço de seguir em frente. A elas, e a nós, Deus diz que não abrirá a mão. E, porque Cristo foi deixado na cruz, essa palavra não é otimismo religioso: é a rocha onde se pode viver contente e corajoso, aconteça o que acontecer.
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