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Cotidiano

Amar quem nos ama é fácil. E os outros?

No Sermão do Monte, Jesus pede um amor que não depende de retorno. O que isso significa diante de quem nos fere — e de onde vem a força para viver assim.

11 minutos de leitura

Pense por um instante em quem é fácil de amar na sua vida: o amigo que liga no aniversário, o filho que agradece, o colega que divide o trabalho sem reclamar. Agora pense nos outros. O colega que leva o crédito pelo que você fez. O vizinho que não abaixa o som. O parente que deixou de falar com você desde a partilha da herança. O ex-sócio que saiu levando os clientes. A pessoa que, no grupo da família, transforma cada conversa em briga política.

Gostar de quem gosta de nós não exige esforço nenhum. É quase uma troca: recebo carinho, devolvo carinho. O problema começa quando o retorno não vem — ou quando o que vem é ofensa. E é exatamente nesse ponto que Jesus coloca uma das ordens mais desconcertantes de todo o seu ensino (Mt 5.43-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que Jesus disse no Sermão do Monte

O trecho fecha uma série de seis contrastes que Jesus faz no Sermão do Monte. Em cada um, ele lembra o que os ouvintes tinham aprendido e, em seguida, aprofunda a exigência, levando a Lei da superfície do comportamento até o coração (Mt 5.21-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O último contraste é o mais radical.

A Lei de Moisés mandava amar o próximo (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em nenhum lugar, porém, ela mandava odiar o inimigo. Essa segunda metade era uma conclusão que muitos tiravam por conta própria: se devo amar o próximo, quem não é próximo pode ser odiado. Há registro histórico desse modo de pensar fora da Bíblia — a Regra da Comunidade, um dos manuscritos de Qumran, orientava os membros daquele grupo a amar os "filhos da luz" e a odiar os "filhos das trevas". Jesus desmonta essa lógica pela raiz: ele manda amar os inimigos e orar por quem nos persegue (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E dá a razão. Quem age assim se mostra filho do Pai celeste, porque o Pai não reserva a luz da manhã e a água do céu para quem o agrada: as duas chegam ao campo de todos, do honesto e do desonesto (Mt 5.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A bondade de Deus não espera merecimento — e os filhos se parecem com o Pai.

Em seguida, Jesus faz duas perguntas que ferem o nosso orgulho. Que mérito há em amar só quem nos ama, se até os cobradores de impostos — tidos então como traidores e corruptos — fazem isso? E o que há de especial em cumprimentar apenas os nossos, se os pagãos fazem o mesmo (Mt 5.46-47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? O amor recíproco não é pecado; é apenas comum. Jesus pede algo além do comum.

Por fim, ele resume tudo num chamado: ser completo como o Pai celeste é completo (Mt 5.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Três palavras que iluminam o texto

  • Amar traduz o verbo grego agapaō. Não se trata, em primeiro lugar, de emoção, mas de disposição da vontade: querer o bem do outro e agir para que esse bem aconteça.
  • Inimigo traduz echthros, alguém hostil, que se opõe a nós. Jesus não fala de um adversário abstrato, mas de gente real que nos quer mal — tanto que, no mesmo versículo, menciona a perseguição.
  • Fazer de mais traduz perissos, "o que excede", "o que vai além". O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, em Discipulado (1937), viu nessa palavra a marca do seguidor de Cristo: o extraordinário, aquilo que não se explica pela simples conveniência.
  • Completo traduz teleios, que fala de inteireza e maturidade, não de uma perfeição sem falhas. É o amor que não fica pela metade, que não escolhe a quem servir.

Isso já estava na Escritura

Seria um erro pensar que Jesus inventou uma ética nova, sem raízes. O que ele faz é revelar o sentido mais profundo do que Deus sempre quis.

A própria Lei mandava devolver o boi ou o jumento perdido do inimigo e ajudar a levantar o animal dele caído sob a carga (Êx 23.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O livro de Provérbios orienta a dar comida e água a quem nos odeia quando ele tiver fome e sede (Pv 25.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — conselho que Paulo retomaria séculos depois (Rm 12.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As histórias também ensinam. Davi teve Saul, o rei que tentava matá-lo, ao alcance da mão por duas vezes — numa caverna e num acampamento adormecido — e o poupou nas duas (1Sm 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O profeta Eliseu, quando o exército sírio que o cercava foi entregue nas mãos do rei de Israel, mandou que os soldados fossem alimentados e devolvidos para casa em vez de executados; o resultado foi o fim das incursões por um tempo (2Rs 6.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E há Jonas, talvez o retrato mais honesto de todos nós. Ele fugiu da missão porque sabia que Deus era misericordioso e temia que os ninivitas, inimigos cruéis do seu povo, se arrependessem e fossem poupados. Quando isso aconteceu, ele ficou furioso. O livro termina com Deus perguntando ao profeta se não deveria ter compaixão de uma cidade tão grande (Jn 4.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta fica no ar — e chega até nós.

O que Jesus fez, e não só disse

O que torna o ensino de Jesus irresistível é que ele o viveu até o fim.

Quando um especialista na Lei quis saber quem era o seu próximo — talvez esperando uma lista de quem merecia amor —, Jesus contou a parábola do bom samaritano. O herói da história pertencia a um povo desprezado pelos judeus, e foi ele quem parou, cuidou e pagou pelo ferido. Jesus inverteu a pergunta: o importante não é descobrir quem merece ser meu próximo, mas tornar-me próximo de quem precisa (Lc 10.25-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na última noite com os discípulos, Jesus lavou os pés de todos eles — inclusive os de Judas, que ele sabia que o entregaria (Jo 13.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No jardim, quando Pedro feriu com a espada o servo do sumo sacerdote, Jesus mandou guardar a arma e curou a orelha do homem que viera prendê-lo (Lc 22.49-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E na cruz, enquanto era executado, pediu ao Pai que perdoasse os que o crucificavam, porque não sabiam o que estavam fazendo (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os discípulos aprenderam. Estêvão, o primeiro mártir da igreja, morreu apedrejado pedindo que aquele pecado não fosse imputado aos que o matavam (At 7.59-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre os presentes estava um jovem chamado Saulo, que mais tarde seria o apóstolo Paulo (At 7.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ninguém sabe o que aquela oração plantou nele.

O que amar o inimigo não significa

Por ser tão exigente, esse ensino costuma ser mal entendido — e às vezes usado para manter pessoas feridas presas a quem as fere. Vale separar com cuidado.

Não significa sentir carinho. Jesus manda amar, não manda gostar. C. S. Lewis, em Cristianismo puro e simples, observa que amamos a nós mesmos sem necessariamente nos acharmos simpáticos: queremos o nosso bem mesmo quando detestamos o que fizemos. Amar o inimigo, nessa linha, é querer o bem dele — inclusive que se arrependa e mude — sem precisar sentir afeição.

Não significa fingir que o mal não aconteceu. Paulo, no mesmo capítulo em que manda não se vingar, chama o mal pelo nome e afirma que a justiça pertence a Deus (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois, reconhece que as autoridades existem para conter o mal e punir quem o pratica (Rm 13.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O próprio Jesus, esbofeteado diante do sumo sacerdote, não ficou calado: perguntou em que tinha errado para merecer aquilo (Jo 18.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Paulo, preso injustamente, invocou sua cidadania romana para exigir os seus direitos (At 16.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 22.25-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amar não é abrir mão da verdade nem da justiça; é abrir mão da vingança.

Não significa permanecer numa situação de abuso. Ninguém é chamado por Deus a se expor à violência para provar que ama. Proteger-se, afastar-se, denunciar e buscar ajuda não contradizem o Sermão do Monte. Jesus mandou os discípulos serem prudentes no meio de lobos (Mt 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, mais de uma vez, ele mesmo se retirou de quem queria matá-lo (Lc 4.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 8.59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se você vive violência doméstica, procure ajuda: no Brasil, a Central de Atendimento à Mulher atende pelo telefone 180, e a Polícia Militar, pelo 190. Você pode orar pelo agressor e, ao mesmo tempo, manter distância dele.

Não significa reconciliação imediata. Perdoar é uma decisão que depende de você; reconciliar exige que o outro reconheça o mal e mude. José perdoou os irmãos, mas antes os provou para saber se tinham mudado (Gn 42–45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Caminhos práticos para esta semana

Um mandamento tão grande pode paralisar. Por isso, vale começar pequeno e concreto:

  1. Dê um nome. "Amar os inimigos" em geral é fácil. Pense em uma pessoa específica — aquela que veio à sua mente no primeiro parágrafo.
  2. Ore por ela pelo nome. Jesus ligou o amor à oração (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não ore para que ela "aprenda a lição"; peça a Deus o bem dela. Em Discipulado, Bonhoeffer descreve a oração pelo inimigo como um gesto de colocar-se ao lado dele diante de Deus e interceder em seu favor — e é difícil continuar alimentando ódio por quem se carrega assim.
  3. Faça um bem pequeno e discreto. Um cumprimento, uma ajuda prática, uma palavra justa a respeito dela quando outros a criticam (Lc 6.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  4. Vigie a língua. Boa parte da inimizade cresce na conversa: o comentário no grupo de mensagens, o desabafo que vira fofoca. Paulo pede palavras que edifiquem e façam bem a quem ouve (Ef 4.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  5. Entregue a justiça a Deus. Quando a vontade de revidar vier, lembre-se de que Jesus, injuriado, não revidou, mas se entregou ao Pai, que julga com justiça (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  6. Peça ajuda. Algumas feridas são fundas demais para resolver sozinho. Conversar com um pastor, com irmãos maduros na fé ou com um psicólogo não é falta de fé; é cuidado com a alma que Deus lhe deu.

Esperança em Cristo: amados quando éramos os outros

Há um detalhe no evangelho que muda tudo: no relato bíblico, nós não somos apenas os que precisam amar os inimigos. Nós fomos os inimigos.

Paulo afirma que Deus demonstrou o seu amor quando ainda éramos pecadores, e que fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho quando ainda éramos seus inimigos (Rm 5.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo não esperou retorno. Ele derrubou o muro de hostilidade que separava os povos e fez a paz por meio da cruz (Ef 2.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem de Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é um ideal inalcançável lançado sobre nós; é o retrato do que Deus fez primeiro. Nós amamos porque ele nos amou antes (1Jo 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por isso esse amor não nasce de força de vontade. Ele é fruto do Espírito Santo em quem pertence a Cristo (Gl 5.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem se sabe perdoado de uma dívida impagável começa, aos poucos, a soltar as pequenas dívidas dos outros (Mt 18.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A história cristã guarda exemplos disso. A holandesa Corrie ten Boom, que perdeu a irmã num campo de concentração nazista, contou anos depois que, ao fim de uma palestra sobre perdão, foi procurada por um ex-guarda daquele campo, que lhe estendeu a mão. Ela relatou que não sentiu nada além de frieza — e que só conseguiu apertar aquela mão depois de pedir a Jesus o amor que ela mesma não tinha. E Martin Luther King Jr., no sermão "Amando os seus inimigos", publicado em A força de amar (1963), escreveu que o amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo.

Talvez você ainda não consiga sentir nada de bom pela pessoa que lhe veio à mente. Não tem problema: comece pelo que está ao seu alcance — orar por ela, não revidar, querer o seu bem. O resto é obra de Deus, que manda sol e chuva para todos e que, um dia, alcançou você quando você também era um dos outros.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.