Cotidiano
Amar quem nos ama é fácil. E os outros?
No Sermão do Monte, Jesus pede um amor que não depende de retorno. O que isso significa diante de quem nos fere — e de onde vem a força para viver assim.
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Pense por um instante em quem é fácil de amar na sua vida: o amigo que liga no aniversário, o filho que agradece, o colega que divide o trabalho sem reclamar. Agora pense nos outros. O colega que leva o crédito pelo que você fez. O vizinho que não abaixa o som. O parente que deixou de falar com você desde a partilha da herança. O ex-sócio que saiu levando os clientes. A pessoa que, no grupo da família, transforma cada conversa em briga política.
Gostar de quem gosta de nós não exige esforço nenhum. É quase uma troca: recebo carinho, devolvo carinho. O problema começa quando o retorno não vem — ou quando o que vem é ofensa. E é exatamente nesse ponto que Jesus coloca uma das ordens mais desconcertantes de todo o seu ensino (Mt 5.43-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que Jesus disse no Sermão do Monte
O trecho fecha uma série de seis contrastes que Jesus faz no Sermão do Monte. Em cada um, ele lembra o que os ouvintes tinham aprendido e, em seguida, aprofunda a exigência, levando a Lei da superfície do comportamento até o coração (Mt 5.21-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O último contraste é o mais radical.
A Lei de Moisés mandava amar o próximo (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em nenhum lugar, porém, ela mandava odiar o inimigo. Essa segunda metade era uma conclusão que muitos tiravam por conta própria: se devo amar o próximo, quem não é próximo pode ser odiado. Há registro histórico desse modo de pensar fora da Bíblia — a Regra da Comunidade, um dos manuscritos de Qumran, orientava os membros daquele grupo a amar os "filhos da luz" e a odiar os "filhos das trevas". Jesus desmonta essa lógica pela raiz: ele manda amar os inimigos e orar por quem nos persegue (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E dá a razão. Quem age assim se mostra filho do Pai celeste, porque o Pai não reserva a luz da manhã e a água do céu para quem o agrada: as duas chegam ao campo de todos, do honesto e do desonesto (Mt 5.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A bondade de Deus não espera merecimento — e os filhos se parecem com o Pai.
Em seguida, Jesus faz duas perguntas que ferem o nosso orgulho. Que mérito há em amar só quem nos ama, se até os cobradores de impostos — tidos então como traidores e corruptos — fazem isso? E o que há de especial em cumprimentar apenas os nossos, se os pagãos fazem o mesmo (Mt 5.46-47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? O amor recíproco não é pecado; é apenas comum. Jesus pede algo além do comum.
Por fim, ele resume tudo num chamado: ser completo como o Pai celeste é completo (Mt 5.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Três palavras que iluminam o texto
- Amar traduz o verbo grego agapaō. Não se trata, em primeiro lugar, de emoção, mas de disposição da vontade: querer o bem do outro e agir para que esse bem aconteça.
- Inimigo traduz echthros, alguém hostil, que se opõe a nós. Jesus não fala de um adversário abstrato, mas de gente real que nos quer mal — tanto que, no mesmo versículo, menciona a perseguição.
- Fazer de mais traduz perissos, "o que excede", "o que vai além". O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, em Discipulado (1937), viu nessa palavra a marca do seguidor de Cristo: o extraordinário, aquilo que não se explica pela simples conveniência.
- Completo traduz teleios, que fala de inteireza e maturidade, não de uma perfeição sem falhas. É o amor que não fica pela metade, que não escolhe a quem servir.
Isso já estava na Escritura
Seria um erro pensar que Jesus inventou uma ética nova, sem raízes. O que ele faz é revelar o sentido mais profundo do que Deus sempre quis.
A própria Lei mandava devolver o boi ou o jumento perdido do inimigo e ajudar a levantar o animal dele caído sob a carga (Êx 23.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O livro de Provérbios orienta a dar comida e água a quem nos odeia quando ele tiver fome e sede (Pv 25.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — conselho que Paulo retomaria séculos depois (Rm 12.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
As histórias também ensinam. Davi teve Saul, o rei que tentava matá-lo, ao alcance da mão por duas vezes — numa caverna e num acampamento adormecido — e o poupou nas duas (1Sm 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O profeta Eliseu, quando o exército sírio que o cercava foi entregue nas mãos do rei de Israel, mandou que os soldados fossem alimentados e devolvidos para casa em vez de executados; o resultado foi o fim das incursões por um tempo (2Rs 6.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E há Jonas, talvez o retrato mais honesto de todos nós. Ele fugiu da missão porque sabia que Deus era misericordioso e temia que os ninivitas, inimigos cruéis do seu povo, se arrependessem e fossem poupados. Quando isso aconteceu, ele ficou furioso. O livro termina com Deus perguntando ao profeta se não deveria ter compaixão de uma cidade tão grande (Jn 4.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta fica no ar — e chega até nós.
O que Jesus fez, e não só disse
O que torna o ensino de Jesus irresistível é que ele o viveu até o fim.
Quando um especialista na Lei quis saber quem era o seu próximo — talvez esperando uma lista de quem merecia amor —, Jesus contou a parábola do bom samaritano. O herói da história pertencia a um povo desprezado pelos judeus, e foi ele quem parou, cuidou e pagou pelo ferido. Jesus inverteu a pergunta: o importante não é descobrir quem merece ser meu próximo, mas tornar-me próximo de quem precisa (Lc 10.25-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Na última noite com os discípulos, Jesus lavou os pés de todos eles — inclusive os de Judas, que ele sabia que o entregaria (Jo 13.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No jardim, quando Pedro feriu com a espada o servo do sumo sacerdote, Jesus mandou guardar a arma e curou a orelha do homem que viera prendê-lo (Lc 22.49-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E na cruz, enquanto era executado, pediu ao Pai que perdoasse os que o crucificavam, porque não sabiam o que estavam fazendo (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os discípulos aprenderam. Estêvão, o primeiro mártir da igreja, morreu apedrejado pedindo que aquele pecado não fosse imputado aos que o matavam (At 7.59-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre os presentes estava um jovem chamado Saulo, que mais tarde seria o apóstolo Paulo (At 7.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ninguém sabe o que aquela oração plantou nele.
O que amar o inimigo não significa
Por ser tão exigente, esse ensino costuma ser mal entendido — e às vezes usado para manter pessoas feridas presas a quem as fere. Vale separar com cuidado.
Não significa sentir carinho. Jesus manda amar, não manda gostar. C. S. Lewis, em Cristianismo puro e simples, observa que amamos a nós mesmos sem necessariamente nos acharmos simpáticos: queremos o nosso bem mesmo quando detestamos o que fizemos. Amar o inimigo, nessa linha, é querer o bem dele — inclusive que se arrependa e mude — sem precisar sentir afeição.
Não significa fingir que o mal não aconteceu. Paulo, no mesmo capítulo em que manda não se vingar, chama o mal pelo nome e afirma que a justiça pertence a Deus (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois, reconhece que as autoridades existem para conter o mal e punir quem o pratica (Rm 13.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O próprio Jesus, esbofeteado diante do sumo sacerdote, não ficou calado: perguntou em que tinha errado para merecer aquilo (Jo 18.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Paulo, preso injustamente, invocou sua cidadania romana para exigir os seus direitos (At 16.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 22.25-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amar não é abrir mão da verdade nem da justiça; é abrir mão da vingança.
Não significa permanecer numa situação de abuso. Ninguém é chamado por Deus a se expor à violência para provar que ama. Proteger-se, afastar-se, denunciar e buscar ajuda não contradizem o Sermão do Monte. Jesus mandou os discípulos serem prudentes no meio de lobos (Mt 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, mais de uma vez, ele mesmo se retirou de quem queria matá-lo (Lc 4.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 8.59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se você vive violência doméstica, procure ajuda: no Brasil, a Central de Atendimento à Mulher atende pelo telefone 180, e a Polícia Militar, pelo 190. Você pode orar pelo agressor e, ao mesmo tempo, manter distância dele.
Não significa reconciliação imediata. Perdoar é uma decisão que depende de você; reconciliar exige que o outro reconheça o mal e mude. José perdoou os irmãos, mas antes os provou para saber se tinham mudado (Gn 42–45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Caminhos práticos para esta semana
Um mandamento tão grande pode paralisar. Por isso, vale começar pequeno e concreto:
- Dê um nome. "Amar os inimigos" em geral é fácil. Pense em uma pessoa específica — aquela que veio à sua mente no primeiro parágrafo.
- Ore por ela pelo nome. Jesus ligou o amor à oração (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não ore para que ela "aprenda a lição"; peça a Deus o bem dela. Em Discipulado, Bonhoeffer descreve a oração pelo inimigo como um gesto de colocar-se ao lado dele diante de Deus e interceder em seu favor — e é difícil continuar alimentando ódio por quem se carrega assim.
- Faça um bem pequeno e discreto. Um cumprimento, uma ajuda prática, uma palavra justa a respeito dela quando outros a criticam (Lc 6.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Vigie a língua. Boa parte da inimizade cresce na conversa: o comentário no grupo de mensagens, o desabafo que vira fofoca. Paulo pede palavras que edifiquem e façam bem a quem ouve (Ef 4.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Entregue a justiça a Deus. Quando a vontade de revidar vier, lembre-se de que Jesus, injuriado, não revidou, mas se entregou ao Pai, que julga com justiça (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Peça ajuda. Algumas feridas são fundas demais para resolver sozinho. Conversar com um pastor, com irmãos maduros na fé ou com um psicólogo não é falta de fé; é cuidado com a alma que Deus lhe deu.
Esperança em Cristo: amados quando éramos os outros
Há um detalhe no evangelho que muda tudo: no relato bíblico, nós não somos apenas os que precisam amar os inimigos. Nós fomos os inimigos.
Paulo afirma que Deus demonstrou o seu amor quando ainda éramos pecadores, e que fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho quando ainda éramos seus inimigos (Rm 5.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo não esperou retorno. Ele derrubou o muro de hostilidade que separava os povos e fez a paz por meio da cruz (Ef 2.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem de Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é um ideal inalcançável lançado sobre nós; é o retrato do que Deus fez primeiro. Nós amamos porque ele nos amou antes (1Jo 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por isso esse amor não nasce de força de vontade. Ele é fruto do Espírito Santo em quem pertence a Cristo (Gl 5.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem se sabe perdoado de uma dívida impagável começa, aos poucos, a soltar as pequenas dívidas dos outros (Mt 18.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A história cristã guarda exemplos disso. A holandesa Corrie ten Boom, que perdeu a irmã num campo de concentração nazista, contou anos depois que, ao fim de uma palestra sobre perdão, foi procurada por um ex-guarda daquele campo, que lhe estendeu a mão. Ela relatou que não sentiu nada além de frieza — e que só conseguiu apertar aquela mão depois de pedir a Jesus o amor que ela mesma não tinha. E Martin Luther King Jr., no sermão "Amando os seus inimigos", publicado em A força de amar (1963), escreveu que o amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo.
Talvez você ainda não consiga sentir nada de bom pela pessoa que lhe veio à mente. Não tem problema: comece pelo que está ao seu alcance — orar por ela, não revidar, querer o seu bem. O resto é obra de Deus, que manda sol e chuva para todos e que, um dia, alcançou você quando você também era um dos outros.
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