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Cotidiano

Ambição, humildade e grandeza

Paulo não condena o desejo de crescer: em Fp 2.3-8, ele mostra no caminho de Cristo onde está a grandeza verdadeira.

12 minutos de leitura

Querer crescer faz parte da vida. O estudante mira a aprovação, a profissional sonha com a promoção, o empreendedor planeja a segunda loja, o pastor deseja ver a igreja alcançar mais gente. Nada disso é estranho à fé. O problema começa quando o crescimento deixa de ser meio e vira medida do próprio valor — quando precisamos ser vistos, comparados e preferidos para nos sentirmos alguém.

A carta aos Filipenses toca esse nervo com precisão. Escrevendo da prisão a uma igreja que amava, Paulo pede algo que vai contra a corrente em qualquer época: não agir movido por rivalidade nem por vaidade, tratar o outro como mais importante e olhar também para os interesses alheios, e não apenas para os próprios (Fp 2.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para que o pedido não fique no ar, ele aponta para Jesus e descreve o caminho que o Filho percorreu (Fp 2.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A pergunta deste artigo é direta: um cristão pode ter ambição? E, se pode, que ambição é essa?

A ambição na Bíblia tem dois rostos

A Escritura conhece bem a ambição que adoece. Em Babel, os construtores querem uma torre que alcance o céu e um nome para si mesmos (Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pecado não está no tijolo nem na cidade, mas no projeto de grandeza sem Deus. Saul, depois de uma vitória, ergue um monumento em sua própria honra (1Sm 15.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uzias, fortalecido pelo próprio Deus, ensoberbece-se e invade uma função que não era sua (2Cr 26.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nabucodonosor contempla a Babilônia como obra do seu poder e é humilhado até reconhecer quem de fato governa os reinos (Dn 4.28-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Provérbios resume o padrão: a soberba vem antes da ruína (Pv 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Novo Testamento não é diferente. Diótrefes gosta de ocupar o primeiro lugar e, para isso, recusa os irmãos (3Jo 9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E os próprios discípulos discutem quem é o maior — mais de uma vez, inclusive na noite da última ceia, enquanto Jesus se preparava para morrer (Lc 9.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mas há outro rosto. Desde o início, Deus confia ao ser humano a tarefa de cultivar, multiplicar e desenvolver a criação (Gn 1.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Provérbios elogia o trabalhador competente, que chega a servir diante de reis (Pv 22.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o próprio Paulo usa, três vezes, o verbo grego philotimeomai — literalmente "amar a honra", mas empregado no sentido de "ter como ambição", "empenhar-se com todas as forças". Sua ambição era anunciar Cristo onde ele ainda não era conhecido (Rm 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), agradar ao Senhor (2Co 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e levar uma vida tranquila, trabalhando com as próprias mãos (1Ts 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Repare no movimento: a palavra que, no mundo grego, descrevia a corrida por prestígio público é redirecionada para Deus e para o bem do próximo. A Bíblia não apaga o impulso de crescer; ela o converte. O conselho de Jeremias ao seu secretário Baruque mostra onde está a fronteira: o profeta o adverte a não buscar grandes coisas para si (Jr 45.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O problema não é o tamanho do sonho, mas o seu centro. A questão nunca foi a intensidade da ambição, e sim a direção: para quem e para quê.

O que Paulo pede aos filipenses

Filipos era uma colônia romana, orgulhosa de seus laços com Roma. Na vida pública do império, a carreira de um homem de posição seguia uma escada de cargos e honras — o cursus honorum —, e as inscrições espalhadas pelas cidades registravam cada degrau alcançado. O estudioso Joseph Hellerman, em Reconstructing Honor in Roman Philippi (2005), sustenta que Paulo escreve a uma comunidade moldada por essa cultura da honra, e que a descrição de Cristo em Filipenses 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) funciona como uma escada às avessas: em vez de subir, ele desce.

É nesse ambiente que Paulo escolhe as palavras com cuidado:

Tratar os outros como superiores a si não significa fingir que todos são mais competentes. Significa dar a eles prioridade no trato, na honra e na atenção — o mesmo que Paulo pede aos romanos quando os chama a se anteciparem uns aos outros em demonstrar honra (Rm 12.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o pedido não era teórico: na mesma carta, ele precisa rogar a duas cooperadoras, Evódia e Síntique, que cheguem a um acordo no Senhor (Fp 4.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ambição desordenada não ameaça só o mercado; ameaça a igreja por dentro.

O caminho de Cristo: a descida que redefine a grandeza

Paulo então convida os filipenses a terem entre si a mesma disposição que houve em Cristo Jesus (Fp 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo é phroneō, que fala de mentalidade, de modo de pensar e avaliar. O que segue (Fp 2.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é, segundo muitos estudiosos — entre eles Ralph P. Martin, em Carmen Christi —, um hino cristão primitivo, talvez cantado nas reuniões da igreja. Seja composição de Paulo ou anterior a ele, o texto descreve o movimento de Cristo em três passos.

Ele não se apegou à sua posição

Cristo existia na forma de Deus — morphē, a realidade essencial, não uma aparência (Fp 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, mesmo sendo igual a Deus, não tratou essa igualdade como harpagmos, algo a ser retido ou explorado em benefício próprio. Esse é o ponto que desmonta a ambição egoísta: Jesus tinha direito a tudo e não usou esse direito para si.

Muitos intérpretes veem aqui um contraste com Adão, que quis agarrar a semelhança com Deus que lhe fora oferecida pela serpente (Gn 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pode-se ler a história humana como a repetição desse gesto — de Babel aos escritórios de hoje. Cristo faz o caminho inverso.

Esvaziou-se para servir

O verbo kenoō, "esvaziar", não significa que Cristo deixou de ser Deus (Fp 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Significa que abriu mão de privilégios e assumiu a forma de servo — e Paulo repete a palavra morphē: a condição de servo foi tão real quanto a condição divina. Ele se tornou semelhante aos homens, sendo rico, fez-se pobre por amor de nós (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Evangelho de João mostra essa disposição em cena. Na noite da ceia, sabendo que o Pai havia entregado tudo em suas mãos e que viera de Deus e voltava para Deus, Jesus se levanta, tira a roupa de cima, pega a toalha e lava os pés dos discípulos (Jo 13.1-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem dos fatos importa: a humildade de Jesus não nasce de insegurança, mas da segurança absoluta de quem ele é. Quem sabe de onde vem e para onde vai não precisa provar nada a ninguém — e por isso fica livre para servir.

Até a cruz

Por fim, Cristo humilhou a si mesmo — o verbo é tapeinoō, da mesma família da humildade que Paulo pediu no versículo 3 — e foi obediente até a morte, e não qualquer morte: a cruz (Fp 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para os leitores de Filipos, isso era chocante. A crucificação era o castigo reservado a escravos e rebeldes. Cícero, em seu discurso em defesa de Rabírio, afirma que até a palavra "cruz" deveria ficar longe dos pensamentos, dos olhos e dos ouvidos de um cidadão romano. Paulo coloca o Senhor da glória no degrau mais baixo da escada romana da honra.

Jesus já havia ensinado isso quando Tiago e João lhe pediram os lugares de destaque no seu reino (Mc 10.35-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não ridiculariza o desejo de grandeza; redefine o caminho até ela. Entre os poderosos deste mundo, grande é quem manda; entre os seus, grande é quem serve, e o primeiro é quem se faz servo de todos. E dá a si mesmo como prova: ele veio não para ser servido, mas para servir e entregar a vida em resgate de muitos (Mc 10.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Humildade não é se diminuir

Há uma caricatura de humildade que precisa ser desfeita. Ser humilde não é negar os próprios dons, recusar elogios por obrigação ou viver se depreciando. Paulo não fazia isso: quando necessário, defendia com firmeza o seu ministério, ainda que preferisse se gloriar nas próprias fraquezas (2Co 11–12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E ele mesmo adverte contra uma humildade de fachada, religiosamente vistosa, que no fundo infla o ego (Cl 2.18,23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A humildade bíblica é, antes, uma avaliação sóbria de si, feita diante de Deus: nem acima nem abaixo do que convém, segundo a medida da fé que ele concedeu (Rm 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a liberdade de não precisar viver em comparação. C. S. Lewis, em Cristianismo puro e simples, observa que o orgulho é essencialmente competitivo: ele não se satisfaz em ter alguma coisa, mas em ter mais do que o outro. Por isso o orgulhoso nunca descansa — sempre haverá alguém mais rico, mais bonito, mais influente.

Agostinho, numa carta ao jovem Dióscoro (Carta 118), escreve que, se lhe perguntassem qual é o caminho da vida cristã, responderia que o primeiro passo é a humildade, o segundo é a humildade e o terceiro também. Não por desprezo à ação, mas porque sem ela todas as outras virtudes acabam a serviço da vaidade.

Vale uma palavra pastoral: um sentimento crônico de inferioridade, de não valer nada, não é humildade cristã — muitas vezes é sofrimento. Se você se reconhece aí, converse com alguém de confiança na igreja e, se for o caso, procure ajuda psicológica. A humildade que Cristo ensina liberta; não esmaga.

Caminhos práticos para uma ambição redimida

Como isso se traduz na segunda-feira de manhã? Alguns passos, à luz dos textos:

  1. Pergunte para quem é o projeto. Antes do plano, da candidatura ou do investimento, examine a motivação. Paulo orienta a fazer tudo para a glória de Deus e a trabalhar de coração, como para o Senhor (1Co 10.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ambição que não suporta essa pergunta precisa ser reorientada.
  2. Meça o êxito também pelo que você faz crescer nos outros. Paulo elogia Timóteo justamente porque ele cuidava sinceramente dos interesses dos filipenses, enquanto muitos buscavam só os próprios (Fp 2.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um gestor que forma sucessores, um professor que se alegra quando o aluno o supera, um sócio que divide o crédito — aí está Fp 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em carne e osso.
  3. Celebre o sucesso alheio. Alegrar-se com quem se alegra é um teste honesto de humildade (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se a promoção do colega lhe tira o sono, ali há uma ferida a ser levada a Deus.
  4. Faça o bem em segredo. Jesus ensina a praticar a generosidade, a oração e o jejum sem plateia, diante do Pai que vê o que está escondido (Mt 6.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma boa obra por semana que ninguém fique sabendo é um ótimo exercício.
  5. Aceite a tarefa invisível. Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus diz que lhes deu um exemplo para que façam o mesmo (Jo 13.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Arrumar as cadeiras, revisar o relatório do outro, atender o cliente difícil: a toalha continua à disposição.
  6. Receba correção sem se defender de imediato. Provérbios afirma que quem ama a disciplina ama o conhecimento (Pv 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O orgulho se protege; a humildade aprende.
  7. Liderança como serviço. Se Deus lhe deu autoridade — numa empresa, numa família, numa igreja —, lembre que Jesus redefiniu o poder como serviço (Mc 10.42-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro aplica isso aos líderes da igreja: pastorear sem domínio, sendo exemplo (1Pe 5.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  8. Descanse na avaliação de Deus. Jesus pergunta como podem crer aqueles que vivem recebendo glória uns dos outros e não buscam a que vem do único Deus (Jo 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem se humilha sob a mão de Deus pode lançar sobre ele a ansiedade, inclusive a ansiedade por reconhecimento (1Pe 5.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A grandeza que vem depois da descida

Filipenses 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não termina na cruz. Logo em seguida, Paulo afirma que, por isso, Deus exaltou Cristo ao lugar mais alto e lhe deu o nome acima de todo nome, diante do qual toda a criação um dia se dobrará, confessando que Jesus é o Senhor (Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A grandeza não foi tomada; foi dada. Cristo não subiu agarrando, e sim descendo — e o Pai o ergueu.

Aqui está a boa notícia para quem tem ambição. O Evangelho não pede que você renuncie à grandeza, mas que pare de persegui-la por conta própria. Jesus promete que quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado (Mt 23.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 14.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro acrescenta que Deus exalta os humildes no tempo certo (1Pe 5.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João Batista entendeu isso ao alegrar-se por ver o seu papel diminuir enquanto o de Jesus crescia (Jo 3.27-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O próprio Paulo é a prova de uma ambição redimida. Ele que, por nascimento e formação, tinha muito de que se orgulhar, passou a considerar tudo isso perda diante de conhecer a Cristo — e, ainda assim, continuou correndo com energia em direção ao alvo (Fp 3.4-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A força do impulso permaneceu; mudou o prêmio. E aos filipenses, tão orgulhosos de sua cidadania romana, ele lembra que a verdadeira cidadania está nos céus, de onde aguardamos o Salvador que transformará até o nosso corpo frágil (Fp 3.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Talvez você esteja diante de uma escolha: um cargo, uma sociedade, um projeto, uma disputa silenciosa por espaço. Antes de decidir, olhe para a escada que Cristo desceu. Ela não o tornou menor; revelou quem ele era. Seguindo esse caminho, você também descobrirá que a grandeza mais sólida não é a que se conquista sobre os outros, mas a que Deus concede a quem aprendeu a servir.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.