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Cotidiano

Aprender a medir a vida: a lição do Salmo 90

A oração de Moisés diante da brevidade da vida e o que significa, à luz de Cristo, viver com sabedoria o tempo que Deus nos dá.

12 minutos de leitura

Há dias em que o calendário pesa. Um aniversário redondo, uma foto antiga em que metade das pessoas já não está, a notícia da morte de alguém da nossa idade, um exame que volta com um resultado inesperado. De repente, o tempo que parecia não ter fim ganha contorno e limite. A maioria de nós vive como se tivesse um estoque ilimitado de anos — e, quando percebe que não tem, oscila entre o pânico e a negação.

A Bíblia guarda uma oração escrita exatamente para esse momento. No Salmo 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Moisés olha para a fragilidade humana sem maquiagem e, no centro do poema, faz um pedido que atravessou os séculos: que Deus ensine o seu povo a dar aos dias a medida certa, para que a vida seja conduzida com sabedoria (Sl 90.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é um pedido de mais tempo. É um pedido de outro modo de olhar o tempo.

Este artigo percorre essa oração, escuta o que outras partes da Escritura dizem sobre a brevidade da vida e chega a Jesus, que viveu cada hora sabendo para onde ia — e que mudou, com a ressurreição, o sentido da conta.

Uma oração nascida no deserto

O Salmo 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o único do Saltério atribuído a Moisés, chamado no título de homem de Deus. Os estudiosos discutem a data e a autoria dos títulos dos salmos, mas a tradição judaica e cristã sempre leu este poema à luz da vida de Moisés — e a leitura faz sentido. Depois da incredulidade do povo às portas de Canaã, Deus determinou que a geração que saíra do Egito não entraria na terra: por quarenta anos o povo vagaria no deserto, até que aquela geração morresse (Nm 14.26-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moisés presidiu, literalmente, uma longa sequência de sepultamentos.

O salmo se move em quatro tempos:

  1. Deus é o lar permanente (Sl 90.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antes de existirem montes e terra, Deus já era Deus. De geração em geração, ele foi o abrigo do seu povo.
  2. O ser humano é passageiro (Sl 90.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus faz o homem voltar ao pó; para ele, mil anos equivalem a um dia já encerrado ou a um turno de vigia durante a noite (veja também 2Pe 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vida humana é comparada ao capim do campo, verde ao amanhecer e seco ao entardecer.
  3. A fragilidade tem raiz moral (Sl 90.7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moisés não trata a morte como simples fenômeno natural: ele a liga ao pecado e à ira de Deus. Os anos humanos — setenta, oitenta para os mais robustos — passam depressa e trazem consigo fadiga e dor (Sl 90.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  4. O pedido (Sl 90.12-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ensino para medir os dias, compaixão, alegria que sacie desde cedo, a beleza de Deus sobre o povo e firmeza para o trabalho das mãos.

Repare na ordem. O salmo não começa pela brevidade humana, mas pela eternidade de Deus. Quem contempla a própria finitude sem antes olhar para o Eterno tende ao desespero ou ao cinismo. Quem começa por Deus pode encarar o próprio limite com serenidade.

O que significa contar os dias

O verbo hebraico do versículo 12 é manah: "contar", "numerar", mas também "designar", "atribuir a porção". Não se trata de aritmética — ninguém precisa da Bíblia para saber quantos anos tem. Trata-se de avaliar com justeza: dar a cada dia o seu peso real, sem desprezá-lo como se houvesse dias de sobra, nem idolatrá-lo como se ele fosse tudo.

O fruto desse aprendizado é levav chokhmah, "coração de sabedoria". No pensamento hebraico, o coração (lev, levav) não é apenas a sede das emoções; é o centro das decisões, da vontade e do entendimento. E chokhmah não é erudição, mas a habilidade de viver bem diante de Deus — a mesma sabedoria que, segundo Provérbios, começa no temor do Senhor (Pv 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo que expressa o "alcançar" esse coração deriva de bo, "trazer", "fazer entrar"; alguns comentaristas veem aí a imagem de quem recolhe a colheita para dentro de casa, ou de quem apresenta uma oferta. Contar os dias é o trabalho do campo; o coração sábio é a colheita.

Há um detalhe que costuma passar despercebido: Moisés pede que Deus ensine. A consciência da brevidade não chega automaticamente com a idade. Há idosos insensatos e jovens sábios. Aprender a medir a vida é uma graça que se pede, não uma conquista que se acumula a cada aniversário.

Duas formas erradas de contar

A Escritura aponta dois desvios. O primeiro é o de quem conta como se o tempo lhe pertencesse. Tiago adverte os que fazem planos de viagem e de lucro sem lembrar que a vida é como uma névoa que surge e logo desaparece (Tg 4.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus conta a parábola do rico que ampliou os celeiros e planejou anos de folga, mas teve a vida pedida naquela mesma noite (Lc 12.16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O problema dele não era planejar; era planejar sem Deus.

O segundo desvio é o de quem conta só para lamentar. O Eclesiastes mostra a tentação de concluir que tudo é vapor e nada vale a pena (Ec 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — mas o próprio livro corrige o rumo: há um momento certo para cada coisa debaixo do céu (Ec 3.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a orientação final é lembrar-se do Criador desde a juventude e temer a Deus (Ec 12.1,13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A brevidade não anula o sentido da vida; ela o torna urgente.

A brevidade da vida em toda a Escritura

O Salmo 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não está sozinho. Davi pede a Deus que lhe mostre quão passageira é a sua existência e reconhece que seus dias têm a largura de um palmo (Sl 39.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) compara o ser humano à flor do campo, que uma rajada de vento leva sem deixar vestígio, e contrapõe a isso o amor fiel de Deus — o chesed —, que dura para sempre sobre os que o temem (Sl 103.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó, no fundo do sofrimento, lamenta a vida curta e cheia de inquietação (Jó 14.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías contrasta a vegetação que murcha com a palavra de Deus, que permanece (Is 40.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Pedro retoma essa imagem para falar do evangelho anunciado aos cristãos (1Pe 1.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No Novo Testamento, Paulo pede aos efésios que vivam com cuidado, como sábios, aproveitando bem cada oportunidade (Ef 5.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 4.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Duas palavras gregas ajudam aqui. A primeira é exagorazō, "comprar de volta", "resgatar" — termo do mercado, usado para quem arremata algo valioso. A segunda é kairos, o tempo oportuno, a ocasião certa, distinto de chronos, o tempo que corre no relógio. Em linguagem simples: o cristão não apenas gasta horas; ele as resgata, transformando o tempo que passa em ocasiões de fazer o bem.

Paulo também ensina a avaliar o tempo à luz da eternidade. O corpo se desgasta, mas o interior se renova a cada dia, e as aflições presentes, por mais reais que sejam, são pequenas e breves diante da glória que virá (2Co 4.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que Jesus ensina e faz com o tempo

Os Evangelhos mostram um Jesus que nunca tem pressa e, ao mesmo tempo, nunca desperdiça uma hora. Ele interrompe o caminho para ouvir uma mulher doente havia doze anos (Mc 5.25-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), demora-se com as crianças que os discípulos queriam afastar (Mc 10.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), levanta-se ainda de madrugada para orar sozinho (Mc 1.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não vive dominado pelo relógio, mas orientado por uma missão.

João registra várias vezes a consciência que Jesus tinha da sua hora. Nas bodas de Caná, ele diz que ela ainda não chegou (Jo 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mais tarde, anuncia que chegou (Jo 12.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e, antes da Páscoa, sabendo que se aproximava o momento de voltar ao Pai, ama os seus até o fim (Jo 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas observa que, quando se aproximava o tempo de ser elevado ao céu, Jesus seguiu com determinação rumo a Jerusalém (Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele sabia que seus dias estavam contados — e caminhou para a cruz de olhos abertos.

Ao mesmo tempo, Jesus livra os discípulos da tirania do amanhã. O Pai que alimenta as aves e veste os lírios conhece as nossas necessidades; cada dia já traz a sua própria carga, e não há por que antecipar a do dia seguinte (Mt 6.25-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Contar os dias, para Jesus, não é viver ansioso pelo que falta, mas fiel no que está diante de nós. Ele mesmo afirma que é preciso cumprir a obra do Pai enquanto há luz, antes que chegue o tempo em que já não se pode agir (Jo 9.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na casa de Marta e Maria, Jesus mostra que nem toda ocupação é prioridade: enquanto Marta se desgasta com o serviço, Maria escolhe ficar a seus pés, e essa escolha não lhe será tirada (Lc 10.38-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E diante do túmulo de Lázaro, Jesus chora com os que choram e, ao mesmo tempo, se apresenta como a ressurreição e a vida (Jo 11.25-26,35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É aqui que a conta começa a mudar.

Caminhos práticos para medir a vida com sabedoria

A sabedoria do Salmo 90 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não fica no plano das ideias. Ela se traduz em escolhas concretas:

Jonathan Edwards, o pastor e teólogo americano, registrou ainda jovem um conjunto de Resoluções (1722–1723); numa delas, decidiu jamais fazer algo que teria medo de fazer se aquela fosse a última hora da sua vida. Não é uma regra para viver com medo, mas um critério para viver com clareza.

Uma palavra de cuidado: pensar na própria finitude pode trazer angústia, sobretudo depois de um diagnóstico difícil, de uma perda ou em fases de depressão. Se essa angústia paralisar, tirar o sono ou roubar a vontade de viver, não a enfrente sozinho. Converse com seu pastor e com irmãos de confiança, e procure ajuda médica e psicológica — a fé não substitui esse cuidado, e buscar ajuda não é falta de fé. Se surgirem pensamentos de tirar a própria vida, ligue para o CVV, no telefone 188, gratuito e disponível 24 horas.

Esperança em Cristo: a conta que não termina no pó

Moisés começou pela eternidade de Deus e terminou pedindo que o trabalho humano tivesse firmeza (Sl 90.1-2,17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre um extremo e outro havia um abismo: como uma criatura feita de pó pode participar do que é eterno? A resposta do Novo Testamento tem nome: Jesus Cristo. Nele, o Deus que existia antes dos montes entrou no tempo — nasceu na plenitude dos tempos, contou dias, cansou-se, chorou e morreu (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Eterno aceitou a medida curta da vida humana para que a vida humana recebesse a medida dele.

A ligação entre morte e pecado que o salmo enxerga (Sl 90.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é exatamente o que Cristo enfrenta na cruz. Ele carrega o pecado e, ao ressuscitar, quebra o domínio da morte e liberta os que viviam escravizados pelo medo dela (Rm 6.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 15.20-22,54-57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 2.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso Paulo pode concluir que o trabalho feito no Senhor não é em vão (1Co 15.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — uma resposta, séculos depois, ao pedido final de Moisés para que Deus desse firmeza à obra das mãos.

Pode-se ver, também, uma correspondência bonita entre o pedido de ser saciado logo cedo com o chesed, o amor fiel de Deus (Sl 90.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a manhã de domingo em que as mulheres encontraram o túmulo vazio (Mc 16.2-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O amanhecer que Moisés desejou ganhou forma na ressurreição.

Para quem está em Cristo, contar os dias deixa de ser uma contagem regressiva para o fim e passa a ser o caminho para um encontro. Paulo podia dizer que toda a sua vida se resumia a Cristo e que a morte, para ele, seria ganho, porque o levaria para junto do Senhor (Fp 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O próprio Cristo ressuscitado afirma ter autoridade sobre a morte e sobre o mundo dos mortos (Ap 1.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a Escritura termina com a promessa de um tempo sem morte, sem luto, sem choro e sem dor (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Talvez você esteja lendo isto num dia comum, sem nenhum aniversário ou notícia difícil. É o melhor dia para começar. Faça, com suas próprias palavras, o pedido de Moisés: que Deus lhe ensine a medir a vida, a dar a cada dia o peso certo, a viver o hoje com fidelidade e o amanhã com esperança. A sabedoria não está em saber quantos dias restam, mas em saber a quem eles pertencem — e em descansar naquele que venceu a morte e segura o nosso tempo nas mãos.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.