Cotidiano
Caminhando por vales sem perder a confiança
O Salmo 23 não promete uma vida sem trevas: mostra quem caminha ao nosso lado nelas e para onde o caminho leva.
12 minutos de leitura
Ninguém escolhe entrar num vale. Ele chega com um telefonema do hospital, com uma demissão inesperada, com o silêncio de uma casa depois do enterro, com uma tristeza que não vai embora mesmo quando tudo parece em ordem. De repente, o chão que era plano começa a descer, a luz diminui e as perguntas ficam mais altas do que as respostas: onde está Deus? Por que isto? Até quando?
Se você está num desses lugares agora, saiba que a Bíblia não pede que você finja força. Ela conhece os vales por dentro. E um dos textos mais lidos em toda a história, cantado em funerais, rezado em hospitais e decorado por crianças, foi escrito justamente para quem precisa atravessar a escuridão sem soltar a mão de Deus: o Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Sl 23.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Charles Spurgeon, o pregador batista inglês do século 19, chamou-o de a pérola dos salmos, em seu comentário O Tesouro de Davi. Vale a pena olhar essa pérola de perto, frase por frase, para entender por que ela sustenta tanta gente.
Um salmo escrito por quem conhecia o campo
O título do salmo o atribui a Davi, e isso ajuda a lê-lo. Antes de ser rei, Davi foi pastor de ovelhas, o filho mais novo, deixado no campo enquanto os irmãos eram apresentados ao profeta (1Sm 16.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele conhecia o trabalho por experiência: defender o rebanho de leões e ursos, buscar a ovelha arrancada da boca do predador (1Sm 17.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Davi chama o Senhor de seu pastor, não está usando uma imagem bonita e distante; está dizendo que Deus faz por ele tudo aquilo que ele mesmo fazia, de madrugada, com frio e com risco, pelas suas ovelhas.
No mundo antigo, a figura do pastor era também uma imagem de governo: reis eram chamados de pastores do povo. Na própria Bíblia, Deus denuncia os líderes que exploravam o rebanho em vez de cuidar dele e promete pastorear pessoalmente as suas ovelhas, buscando a perdida e tratando a ferida (Ez 34.1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, a primeira linha do Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é ao mesmo tempo terna e enorme: o Deus que governa todas as coisas aceita a tarefa humilde de cuidar de uma ovelha.
O salmo tem seis versículos e duas imagens. Nos quatro primeiros, Deus é o pastor que conduz; nos dois últimos, é o anfitrião que recebe. Entre uma imagem e outra fica o vale. E é justamente ali, no ponto mais escuro, que o salmo muda de tom.
O que o salmo ensina sobre os vales
A suficiência antes da crise
O salmista começa declarando que, sob esse pastor, não lhe falta o necessário (Sl 23.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo hebraico chasar, "ter falta", "carecer", é o mesmo usado para lembrar que, nos quarenta anos de deserto, Israel não ficou sem nada do que precisava (Dt 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é promessa de fartura, conforto ou ausência de perda; é a certeza de que o cuidado de Deus alcança o que é essencial, mesmo no deserto.
Em seguida vêm os lugares de descanso: pasto verde, água que não assusta, o pastor que faz a ovelha deitar e recupera as forças dela (Sl 23.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há aqui um detalhe pastoral precioso. A confiança no vale costuma ser construída antes do vale, nos dias comuns, quando aprendemos a reconhecer a voz do pastor em coisas pequenas. Quem só procura Deus na crise encontra-o também ali, porque ele é misericordioso; mas quem caminhou com ele nos dias claros tem memória para se apoiar nos dias escuros.
O versículo 3 acrescenta que o pastor guia por caminhos certos por causa do seu nome. Em outras palavras, a fidelidade de Deus não depende do nosso desempenho, mas do caráter dele. Ele conduz bem porque é bom, e a reputação dele está ligada ao destino das suas ovelhas.
Quando o caminho desce
Então chega o versículo 4, o coração do salmo. O termo hebraico usado para o vale é tsalmavet, que indica uma escuridão profunda, densa, do tipo que lembra a morte. É a mesma palavra que aparece na boca de Jó para descrever a terra das trevas (Jó 10.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se trata apenas do momento final da vida: é qualquer lugar em que a luz some e o perigo parece próximo.
Repare em três coisas.
Primeiro, o salmista atravessa o vale. O caminho passa por ele, não termina nele. O vale é real, mas não é o destino.
Segundo, o medo é vencido por uma presença, não por uma explicação. O salmo não diz por que existe o vale, nem quanto tempo ele vai durar. Diz apenas que o mal não terá a palavra final, e dá a razão: Deus está ali.
Terceiro, e mais bonito: até aqui o salmista falava de Deus, na terceira pessoa. No vale, ele passa a falar com Deus, na segunda pessoa. A escuridão, que poderia afastá-lo, aproxima-o. Nos dias claros, falamos sobre Deus; nos dias escuros, aprendemos a falar com ele.
O salmo menciona ainda dois instrumentos do pastor: o shevet, um bastão curto e pesado, usado para afastar predadores, e a mish'enet, o cajado longo, de apoio, usado para guiar, amparar e puxar a ovelha de volta ao caminho. Um protege, o outro conduz. E é isso que consola a ovelha: saber que o pastor está armado contra o que a ameaça e atento ao rumo que ela toma.
Uma mesa posta diante do perigo
Nos versículos 5 e 6, a imagem muda. Agora Deus é o anfitrião que prepara um banquete para o salmista, e o faz enquanto os adversários ainda estão por perto (Sl 23.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os inimigos não desapareceram; mas já não decidem nada. No Oriente antigo, receber alguém à mesa e ungir sua cabeça com óleo era sinal de honra e de proteção: o hóspede ficava sob a responsabilidade da casa.
O último versículo fecha com uma inversão surpreendente. Em vez de ser perseguido por inimigos, o salmista diz que o bem de Deus e o seu chesed, o amor leal da aliança, vão correr atrás dele todos os dias (Sl 23.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo hebraico radaf costuma descrever uma perseguição em batalha. Aqui, quem persegue é a graça. E a caminhada termina num lar: morar na presença de Deus para sempre.
Outros que atravessaram vales
O Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é um texto isolado. A Bíblia está cheia de gente que passou pela escuridão e não foi abandonada nela.
Elias, logo depois de uma vitória enorme, foge com medo, senta-se debaixo de uma árvore no deserto e pede para morrer. Deus não o repreende: manda-o dormir, alimenta-o duas vezes e só depois fala com ele, com delicadeza (1Rs 19.3-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cuidado com o corpo vem antes do sermão.
Jó perde bens, filhos e saúde, e discute com Deus de modo franco, às vezes áspero. No fim, Deus não lhe dá uma explicação completa do sofrimento, mas se revela a ele, e Jó descobre que conhecer Deus vale mais do que entender tudo (Jó 38.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 42.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Davi escreveu salmos de lamento em que pergunta até quando Deus vai esconder o rosto (Sl 13.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Salmo 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), atribuído aos filhos de Corá, o salmista conversa com a própria alma abatida (Sl 42.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fé bíblica tem lugar para a queixa honesta.
Paulo confessa que, na Ásia, chegou ao ponto de não ver saída nem para a própria vida, e que isso o ensinou a confiar no Deus que ressuscita os mortos (2Co 1.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em outra carta, descreve-se como alguém pressionado de todos os lados, mas não esmagado; perplexo, mas não desesperado; derrubado, mas não destruído (2Co 4.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nenhum deles saiu do vale por esforço próprio. Todos saíram acompanhados.
O que Jesus ensina e faz: o Bom Pastor
Mil anos depois de Davi, Jesus olha para as multidões e sente compaixão, porque estavam cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, no Evangelho de João, ele assume para si o título que o Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dava ao Senhor: ele é o Bom Pastor, aquele que conhece as suas ovelhas pelo nome, é conhecido por elas e entrega a própria vida por elas (Jo 10.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diferentemente do empregado que foge quando o lobo aparece, ele fica. Mais: ele garante que nenhuma força consegue tirar as ovelhas do seu cuidado, nem do cuidado do Pai (Jo 10.27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A parábola da ovelha perdida mostra o mesmo coração: o pastor deixa as noventa e nove para procurar a única que se perdeu, e volta para casa carregando-a nos ombros, com alegria (Lc 15.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem está no vale às vezes se sente justamente essa ovelha, a que ficou para trás. Jesus diz que é por ela que o pastor sai.
Mas o ponto mais profundo é outro. Jesus não apenas acompanha as ovelhas no vale: ele entrou no vale mais escuro de todos. No Getsêmani, admite aos discípulos uma angústia que o esmaga e cai com o rosto em terra pedindo ao Pai que, se possível, o afaste daquele cálice, entregando-se, porém, à vontade dele (Mt 26.36-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, clama com as palavras de abertura do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) enquanto suporta, em nosso lugar, o juízo pelos nossos pecados (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seu sofrimento foi real, sem que se rompesse a unidade entre o Pai e o Filho. O Pastor suportou esse desamparo para que suas ovelhas nunca fossem abandonadas à condenação.
Por isso a Carta aos Hebreus diz que temos um sumo sacerdote capaz de se compadecer das nossas fraquezas, porque foi provado em tudo, sem pecado (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Deus prometeu não nos deixar nem nos abandonar (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E é por isso que o mesmo livro o chama de grande Pastor das ovelhas, trazido de volta dentre os mortos (Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro completa: nós andávamos desgarrados e agora voltamos ao Pastor e guardião das nossas almas (1Pe 2.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), lido à luz do Novo Testamento, deixa de ser só a confissão de Davi e passa a ser a experiência de quem pertence a Cristo. O pastor do salmo tem rosto, nome e cicatrizes.
Caminhos práticos para atravessar o vale
A confiança não é um botão que se aperta. É um caminho que se percorre, às vezes um passo por dia. Algumas práticas, à luz dos textos, podem ajudar:
- Ore com o próprio Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Leia-o devagar, um versículo por dia, e transforme cada frase em conversa com Deus: "Senhor, hoje o que me falta é…", "Hoje o vale se chama…". Repare que o salmista passa a falar com Deus no meio da escuridão; você pode fazer o mesmo.
- Permita-se lamentar. Os salmos de lamento (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) mostram que chorar diante de Deus não é falta de fé, é fé que ainda fala. Dizer a Deus "isto dói" é mais honesto, e mais bíblico, do que sorrir por obrigação.
- Cuide do corpo, como Deus cuidou de Elias. Sono, alimentação, movimento e pausa não são detalhes menores na vida espiritual (1Rs 19.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Às vezes o passo mais santo do dia é dormir.
- Não atravesse sozinho. A ovelha isolada é a mais vulnerável. Procure sua igreja, um pastor, irmãos de confiança, e deixe que ajudem a carregar o peso (Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ec 4.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Busque ajuda profissional sem culpa. Fé e cuidado médico e psicológico não competem. Ansiedade, depressão e luto prolongado são realidades de saúde que merecem tratamento; procurar um médico ou um psicólogo é usar os recursos que Deus colocou ao seu alcance, não sinal de pouca fé.
- Lembre-se do caminho já percorrido. O salmista de outro texto, em plena crise, decide recordar os feitos antigos de Deus (Sl 77.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Anote, se puder, as vezes em que você foi sustentado. A memória da fidelidade de Deus é o cajado que ampara no presente.
- Dê o próximo passo, só o próximo. O salmo fala em caminhar pelo vale, não em vencê-lo de uma vez. Obedecer hoje, orar hoje, levantar hoje: isso basta para hoje (Mt 6.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E, se o vale ficou tão escuro que surgem pensamentos de tirar a própria vida, não espere: procure ajuda imediatamente. O CVV, Centro de Valorização da Vida, atende pelo telefone 188, de graça, 24 horas por dia. Falar com alguém é um ato de coragem, e a sua vida importa para Deus e para as pessoas ao seu redor.
O vale não é o destino
O Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não termina no vale. Termina numa casa. A última imagem não é a da escuridão, mas a de uma presença que dura para sempre (Sl 23.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É essa direção que sustenta a confiança: quem anda com o Bom Pastor pode não saber o tamanho do vale, mas sabe onde a estrada termina.
Paulo, que conheceu prisões, naufrágios e perdas, afirma que nem tribulação, nem angústia, nem morte, nem nada em toda a criação consegue nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus prometeu ir preparar um lugar e voltar para buscar os seus (Jo 14.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a visão final da Bíblia mostra o Cordeiro, no centro do trono, pastoreando o seu povo e conduzindo-o às fontes da vida, enquanto Deus mesmo põe fim a todo choro (Ap 7.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pastor do Salmo 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Cordeiro do Apocalipse são a mesma pessoa.
Isso não torna o vale menos escuro. A dor continua sendo dor, o luto continua pesando, a espera continua longa. Mas muda o sentido da caminhada. Você não está perdido no escuro: está sendo conduzido através dele. O amor leal de Deus vem atrás de você, mesmo quando você não consegue enxergá-lo. E quem começou a obra em você vai levá-la até o fim (Fp 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Se hoje você está no vale, talvez não consiga dizer muita coisa. Diga, então, apenas o que o salmista disse quando a luz faltou: fale com ele. O Bom Pastor conhece o caminho, conhece o vale e conhece você pelo nome.
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