Cotidiano
Como seguir em frente sem permanecer prisioneiro do passado
O que Paulo ensina em Filipenses 3 sobre culpa, mágoas e glórias antigas, e como Cristo liberta a memória para a vida avançar.
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Há pessoas que vivem no presente com o corpo e no passado com a alma. Acordam, trabalham, conversam, mas a cabeça volta sempre ao mesmo lugar: o erro que não se apaga, a palavra que feriu, o casamento que acabou, o negócio que quebrou, a oportunidade que passou. Outras ficam presas a um passado bom — os anos em que tudo dava certo, o cargo, a saúde, o reconhecimento — e medem o presente por ele, sempre com a sensação de perda.
Nos dois casos, a memória deixou de ser um arquivo e virou uma cela. A Bíblia leva isso a sério. Ela não manda ninguém fingir que nada aconteceu, mas mostra um caminho em que o passado é olhado de frente, entregue a Deus e, enfim, deixa de dar as ordens. Um dos textos mais claros sobre isso está numa carta escrita de dentro de uma prisão: Filipenses 3.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O homem que tinha muito para lembrar
Para entender o que Paulo diz, é preciso saber quem ele era. No mesmo capítulo, ele apresenta o próprio currículo religioso: circuncidado no tempo certo, da tribo de Benjamim, de família hebraica tradicional, fariseu rigoroso, zeloso a ponto de perseguir a igreja, irrepreensível no cumprimento da lei (Fp 3.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era um passado de prestígio.
Mas era também um passado de culpa. O mesmo zelo que lhe dava orgulho o levou a aprovar a morte de Estêvão e a arrastar cristãos para a prisão (At 7.58–8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 26.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Anos depois, Paulo ainda se lembra disso: coloca-se no topo da lista dos pecadores salvos por Cristo (1Tm 1.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se vê como o último da fila entre os apóstolos, justamente porque perseguiu a igreja (1Co 15.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Paulo, portanto, carregava dois tipos de passado que costumam aprisionar as pessoas: a glória e a vergonha. E é a esse homem que Deus dá a palavra sobre seguir em frente.
O que Paulo quis dizer com esquecer
Em Fp 3.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Paulo admite com franqueza que ainda não chegou aonde precisa chegar. Em seguida, resume a vida numa única determinação, descrita com três movimentos.
O primeiro é o verbo grego epilanthanomai, "esquecer", "deixar de lado", "não levar mais em conta". Não se trata de amnésia. Paulo continua lembrando o que fez — acabamos de ver isso em 1 Timóteo e em 1 Coríntios. Esquecer, aqui, é deixar de permitir que o passado defina quem ele é e para onde vai. É a diferença entre lembrar de uma coisa e morar nela.
O segundo é epekteinomai, "estender-se adiante": a imagem do corredor que inclina o corpo para a frente nos últimos metros da pista, como quem já está alcançando a linha de chegada com o peito.
O terceiro é diōkō, "perseguir com empenho", a mesma palavra que Paulo usou poucos versículos antes para descrever como perseguia a igreja (Fp 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A energia que antes servia à violência agora serve a Cristo. O passado não foi apagado; foi redirecionado.
E há um alvo: o skopos, a marca para onde o atleta olha, e o brabeion, o prêmio entregue ao vencedor, ligado ao chamado que vem do alto, de Deus, em Cristo Jesus (Fp 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O detalhe que muda tudo
Há uma frase anterior que costuma passar despercebida. Paulo diz que avança porque ele mesmo foi primeiro alcançado por Cristo (Fp 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo é katalambanō, "agarrar", "tomar posse". Paulo não sai do passado pela força de vontade. Ele sai porque alguém o segurou primeiro — no caminho de Damasco, Cristo o tomou para si (At 9.1-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seguir em frente, na fé cristã, não começa com um esforço heroico de autossuperação, mas com a descoberta de que já fomos alcançados.
Note ainda o que Paulo faz com a glória antiga. Tudo aquilo que antes era lucro ele passou a tratar como prejuízo, diante do valor de conhecer Cristo, e usa uma palavra forte, skybala, "refugo", "lixo" (Fp 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O passado de sucesso, quando vira fundamento da identidade, aprisiona tanto quanto o passado de fracasso.
Três passados que prendem
A Escritura mostra pelo menos três maneiras de ficar preso ao que já passou.
A culpa pelo que fizemos
É o passado de Paulo perseguidor, de Davi depois de Bate-Seba, de Pedro depois da negação. Davi descreve, no Sl 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o que o pecado escondido fazia com ele: o corpo definhava, a força secava, como uma terra no calor do verão (Sl 32.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A culpa não confessada pesa no corpo e na alma. O alívio só chega quando ele deixa de esconder e confessa (Sl 32.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A mágoa pelo que nos fizeram
É o passado de José, vendido pelos irmãos e esquecido na prisão (Gn 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 40.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando, já no Egito, nasce seu primeiro filho, José lhe dá o nome de Manassés, num jogo de palavras com o verbo hebraico nashah, "fazer esquecer": Deus o fizera superar o sofrimento e a saudade da casa do pai (Gn 41.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso não significa que José tenha apagado a história — ele a reencontra anos depois, chora, conversa, testa os irmãos (Gn 42–45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a ferida já não governava o seu coração. No fim, ele consegue dizer que o mal que os irmãos planejaram, Deus o conduziu para um bom propósito (Gn 50.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A saudade do que perdemos
É o passado de Israel no deserto. Livre da escravidão, o povo passa a lembrar do Egito com uma nostalgia seletiva: recorda o peixe, os pepinos e as cebolas, e esquece o chicote (Nm 11.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 16.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A saudade idealizada fazia o povo querer voltar para a escravidão. A mulher de Ló é o retrato mais trágico disso: olha para trás, para a cidade que estava deixando, e fica parada para sempre (Gn 19.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus a usa como advertência a quem se apega ao que precisa largar (Lc 17.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e diz que quem põe a mão no arado e fica olhando para trás não está apto para o Reino (Lc 9.62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Pelo profeta Isaías, Deus fala a um povo que remoía as libertações antigas, como se o melhor já tivesse passado: ele pede que não fiquem presos aos acontecimentos de antes, porque está fazendo algo novo, que já começa a aparecer, até abrindo caminho no deserto (Is 43.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que Jesus faz com o passado das pessoas
Nos Evangelhos, Jesus nunca trata o passado de alguém como se não existisse, mas também nunca o deixa ter a última palavra.
Zaqueu tinha um passado de exploração. Jesus se convida para a casa dele antes de qualquer reparação, e é nesse encontro que Zaqueu decide devolver o que havia tirado (Lc 19.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A graça veio primeiro; a mudança veio em seguida. A mulher que entra na casa do fariseu, conhecida na cidade pelo seu passado, ouve de Jesus que seus pecados estão perdoados e que pode ir em paz (Lc 7.36-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O caso mais comovente é o de Pedro. Na noite da prisão, ele nega Jesus três vezes; Jesus se volta e olha para ele, e Pedro sai chorando amargamente (Lc 22.54-62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, o anjo manda avisar os discípulos — e cita Pedro pelo nome (Mc 16.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Às margens do lago, junto a um fogo de brasas, como aquele em que se aquecera ao negar o Mestre (Jo 18.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Pedro ouve Jesus perguntar três vezes se ele o ama, e a cada resposta recebe a missão de cuidar do rebanho (Jo 21.9-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não apaga a negação; ele a cura no mesmo cenário em que ela aconteceu, e devolve a Pedro um futuro.
O Novo Testamento explica o que está por trás dessas cenas. Quem está unido a Cristo é nova criação: a vida antiga perdeu o direito de definir quem ele é (2Co 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para quem está em Cristo, a sentença foi retirada (Rm 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Antigo Testamento já anunciava isso com imagens fortes: Deus afasta de nós as nossas transgressões a uma distância que não se mede (Sl 103.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e atira os nossos pecados ao fundo do oceano (Mq 7.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na nova aliança, Deus promete não trazer mais à memória os pecados do seu povo (Jr 31.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se Deus decidiu não usar o nosso passado contra nós, não temos o direito de continuar usando-o contra nós mesmos.
Caminhos práticos para sair da cela
Seguir em frente não acontece num dia. É um processo, e a Escritura oferece passos concretos.
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Dê nome ao que aconteceu. Não se sai de um lugar que não se reconhece. Os salmos de lamento mostram que é possível levar a Deus a dor sem retoque: Davi fala da traição de um amigo próximo (Sl 55.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Jeremias chora a ruína da sua cidade (Lm 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Escreva, ore, converse com alguém de confiança. O silêncio costuma alimentar o passado.
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Confesse o que é seu e receba o perdão. Se a cela é feita de culpa, o caminho é a confissão, não a autopunição. Deus é fiel e justo para perdoar e purificar quem confessa (1Jo 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando possível e prudente, repare o dano, como Zaqueu fez. Remorso que não leva a Deus apenas consome; tristeza que leva ao arrependimento liberta e não deixa remorso (2Co 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Perdoe o que lhe fizeram — sem negar a ferida. Perdoar não é dizer que não doeu, nem que o outro tinha razão, nem voltar automaticamente a confiar. É abrir mão do direito de cobrar e entregar o caso a Deus, que julga com justiça (Rm 12.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 4.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Corrie ten Boom, holandesa que perdeu a irmã num campo de concentração nazista, conta em seu livro Andarilha do Senhor (Tramp for the Lord) que, anos depois da guerra, um ex-guarda do campo de Ravensbrück estendeu-lhe a mão pedindo perdão; ela relata que não sentiu nada além de frieza, orou pedindo ajuda e só então conseguiu estender a mão de volta. O perdão começou como decisão e obediência; o sentimento veio depois.
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Lembre com propósito. A Bíblia não condena a memória — ela a educa. Deus mandou Israel levantar um memorial de pedras no Jordão, para que as gerações seguintes lembrassem do que ele fez (Js 4.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há um jeito de lembrar que aprisiona (remoer, culpar, idealizar) e outro que fortalece (agradecer, aprender, testemunhar). Paulo lembrava do seu passado para glorificar a graça, não para se condenar (1Tm 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Fixe o olhar no alvo. Ninguém corre olhando para trás. A carta aos Hebreus convida a largar o peso e o pecado que atrapalham e a correr com perseverança, mantendo o olhar em Jesus, que começa e leva a fé até o fim (Hb 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando a mente voltar ao passado, traga-a de volta ao que é verdadeiro, justo e digno de louvor (Fp 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Não caminhe sozinho. A comunidade da igreja existe também para isso: carregar os fardos uns dos outros (Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e confessar as faltas uns aos outros para que haja cura (Tg 5.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Uma palavra necessária
Há passados que deixam marcas que vão além da força de vontade e até além de uma boa conversa: abusos, violência, perdas traumáticas, quadros de ansiedade e depressão. Nesses casos, buscar um psicólogo ou um médico não é falta de fé; é cuidado com a vida que Deus deu. A fé e o tratamento caminham juntos. E se o peso do passado trouxer pensamentos de desistir da vida, procure ajuda imediatamente: o CVV atende pelo telefone 188, de graça, 24 horas por dia.
Esperança em Cristo: o futuro tem nome
O alvo de Paulo não era uma ideia vaga de futuro melhor. Era uma pessoa. Ele queria conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição, e participar dos seus sofrimentos (Fp 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E sabia aonde o caminho termina: a nossa cidadania está nos céus, de onde aguardamos o Senhor Jesus, que transformará este corpo frágil para ser semelhante ao seu corpo glorioso (Fp 3.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
É por isso que o cristão pode seguir em frente. Não porque o passado tenha sido pequeno, mas porque o futuro é maior. A cruz cuidou da culpa; a ressurreição abriu o caminho; a volta de Cristo garante o fim da história. Quem foi alcançado por ele não precisa voltar para a cela, ainda que a porta ainda pareça entreaberta em alguns dias.
E há mais um consolo: Paulo não escreve como quem já chegou, mas como quem está a caminho (Fp 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Você também não precisa ter resolvido tudo hoje. Basta dar o próximo passo, com os olhos em Cristo, confiando que Deus não abandona pela metade a obra que começou em você (Fp 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O passado conta a história de onde você esteve. Em Cristo, ele não tem mais o direito de dizer quem você será.
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