Cotidiano
Como suportar as imperfeições das pessoas
Em Colossenses, Paulo mostra que conviver com gente imperfeita é vestir o caráter de Cristo e perdoar como fomos perdoados.
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Todo mundo conhece alguém difícil. O colega que interrompe sempre, o parente que repete a mesma crítica em todo almoço de domingo, o irmão da igreja que promete e não cumpre, o cônjuge que deixa a toalha molhada na cama pela milésima vez. Nenhuma dessas coisas é uma tragédia. Mas, somadas, dia após dia, elas desgastam. E o desgaste costuma ser silencioso: um suspiro, um comentário atravessado, uma distância que cresce sem que ninguém a decida.
A Bíblia é surpreendentemente realista sobre isso. Ela não descreve a comunidade cristã como um lugar de pessoas prontas, mas como uma família de gente em obras. E, numa carta curta escrita a uma igreja pequena, o apóstolo Paulo dedica duas frases densas a essa questão: como viver bem ao lado de pessoas que nos irritam, nos decepcionam e, às vezes, nos ferem (Cl 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Quando a convivência cansa
Antes de olhar para o texto, vale reconhecer algo honesto: a irritação com os defeitos alheios raramente é só sobre o outro. Ela revela também o que esperamos das pessoas e o que achamos que merecemos delas. Quanto mais alto o pedestal em que colocamos alguém — um líder, um pai, um amigo próximo —, maior a queda quando ele se mostra humano.
O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, que viveu em comunidade cristã num dos períodos mais sombrios da Alemanha nazista, observa em Vida em comunhão que a decepção com os irmãos é uma etapa necessária. Segundo ele, quem ama mais a imagem ideal de comunidade que construiu na cabeça do que as pessoas reais que Deus colocou ao seu lado acaba se tornando acusador delas — e destrói a comunhão que diz desejar. A frustração, para Bonhoeffer, é o momento em que o sonho dá lugar à realidade, e a realidade é o único lugar onde a graça de fato trabalha.
Isso muda a pergunta. Em vez de "como faço essa pessoa mudar?", a Escritura nos leva a perguntar: "quem eu preciso ser para conviver com ela à maneira de Cristo?".
O que Paulo escreve aos colossenses
A carta aos Colossenses foi escrita a uma igreja da Ásia Menor que Paulo não fundou pessoalmente. Os dois primeiros capítulos exaltam Cristo acima de tudo: ele é a imagem do Deus invisível, aquele por meio de quem tudo foi criado e em quem tudo se mantém (Cl 1.15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O terceiro capítulo tira as consequências práticas disso. Se você foi ressuscitado com Cristo, sua vida inteira passa a ser orientada por ele (Cl 3.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Vestidos por quem nos escolheu
Paulo usa uma imagem do guarda-roupa. Primeiro, manda despir as peças velhas — a ira, a maledicência, a mentira (Cl 3.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois, manda vestir as novas (Cl 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo grego é endyō, "vestir", "pôr sobre si" — o mesmo que ele usa para falar do novo ser humano que vai sendo renovado à imagem do Criador (Cl 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mas há um detalhe decisivo: antes de dizer o que os cristãos devem vestir, Paulo lembra quem eles já são. São pessoas escolhidas por Deus, separadas para ele e amadas por ele (Cl 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem importa. A paciência com os outros não é o preço para ser aceito por Deus; é a roupa de quem já foi aceito. Quem vive inseguro do amor de Deus tende a exigir dos outros a perfeição que não encontra em si. Quem descansa nesse amor tem espaço interior para acolher a imperfeição alheia.
Cinco peças de uma mesma roupa
Paulo lista cinco virtudes, e cada palavra grega tem nuance própria:
- Compaixão (splanchna oiktirmou): literalmente, "entranhas de misericórdia". Para os antigos, as entranhas eram a sede das emoções profundas. É a capacidade de ser tocado por dentro pela condição do outro.
- Bondade (chrēstotēs): a disposição de ser útil, gentil, agradável no trato. É a bondade que se vê no gesto prático.
- Humildade (tapeinophrosynē): pensar de si com sobriedade. Curiosamente, no mundo greco-romano a palavra soava como fraqueza; o cristianismo a transformou em virtude, a partir do exemplo de Cristo que se esvaziou (Fp 2.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Mansidão (praütēs): força sob controle. Não é passividade; é a firmeza que não precisa ferir para se impor. Jesus se descreve assim (Mt 11.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Paciência (makrothymia): literalmente, "ânimo longo", o contrário do pavio curto. É a palavra usada para descrever o próprio Deus, que demora a se irar (Êx 34.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Note que nenhuma dessas virtudes faz sentido sozinha. Todas são relacionais. Ninguém é paciente numa ilha deserta. A lista inteira pressupõe gente por perto — e gente imperfeita.
Suportar e perdoar
Em seguida, Paulo usa dois verbos que resumem tudo (Cl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O primeiro é anechomai: aguentar, tolerar, sustentar o peso de alguém. É um verbo sem romantismo. Não diz "achar encantador", diz "carregar". O segundo é charizomai: perdoar, mas com a raiz de charis, graça. Perdoar, aqui, é tratar o outro com uma generosidade que ele não conquistou.
E Paulo não imagina uma igreja sem atritos. Ele supõe que haverá motivos reais de queixa de uns contra os outros (Cl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem não é fingir que não há problema; é saber o que fazer quando ele aparece. E a resposta vem com uma medida e um motivo: o perdão que recebemos do Senhor é o modelo do perdão que oferecemos.
Logo depois, o apóstolo acrescenta o amor como aquilo que mantém todas as virtudes unidas, como um cinto que prende a roupa inteira (Cl 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e pede que a paz de Cristo seja o árbitro dentro do coração (Cl 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Suportar o outro, portanto, não é esforço solitário de força de vontade: é fruto de uma vida em que Cristo governa.
Gente imperfeita em toda a Escritura
A Bíblia está cheia de convivências difíceis, e quase nenhuma é resolvida com facilidade.
Moisés passou quarenta anos conduzindo um povo que reclamava da comida, da água e do próprio líder (Nm 11.1-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele chegou a pedir a Deus que lhe tirasse a vida, tamanho o peso. A resposta de Deus não foi tirá-lo da função, mas repartir o fardo com setenta anciãos (Nm 11.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Às vezes, suportar o outro passa por aceitar ajuda.
Paulo e Barnabé, companheiros de missão, tiveram um desentendimento tão forte por causa de João Marcos — que os abandonara numa viagem anterior — que se separaram (At 15.36-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Bíblia não esconde o conflito. Mas o fim da história é bonito: anos depois, o mesmo Marcos aparece ao lado de Paulo, recomendado à igreja de Colossos (Cl 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo o descreve como alguém útil para o ministério (2Tm 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imperfeição de ontem não precisa ser a sentença definitiva sobre alguém.
Na igreja de Filipos, duas mulheres que haviam lutado ao lado de Paulo pelo evangelho, Evódia e Síntique, estavam em desacordo. Paulo não toma partido nem as expõe ao ridículo: pede que cheguem a um mesmo sentir no Senhor e convoca um irmão para ajudá-las (Fp 4.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E há os próprios discípulos de Jesus. Discutiam sobre quem era o maior, até na noite da última ceia (Lc 22.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dormiram quando ele pediu vigilância (Mt 26.40-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro o negou três vezes (Lc 22.54-62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tomé duvidou (Jo 20.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus conviveu três anos com esse grupo, conhecendo cada falha — e os amou até o fim (Jo 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que suportar não significa
Aqui é preciso cuidado, porque a palavra "suportar" já foi usada para justificar muita injustiça.
Suportar não é aceitar abuso. A Escritura nunca pede que alguém permaneça calado diante da violência, da humilhação sistemática ou da exploração. O mesmo Paulo que pede paciência denunciou com firmeza quem agia mal (Gl 2.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Jesus ensinou um caminho de confronto amoroso quando um irmão peca: falar a sós, depois com testemunhas, depois com a comunidade (Mt 18.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se você vive uma situação de violência, procure ajuda: a Polícia atende pelo 190, e a Central de Atendimento à Mulher, pelo 180. Se a dor estiver trazendo pensamentos de tirar a própria vida, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188.
Suportar não é concordar com tudo. Tolerar a fraqueza de alguém não significa aprovar o erro. Os cristãos mais maduros são chamados a carregar os fardos dos mais frágeis e a restaurá-los com mansidão — o que supõe reconhecer que algo precisa ser restaurado (Gl 6.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Suportar não é engolir em silêncio até explodir. Ressentimento acumulado não é paciência; é uma conta que um dia será cobrada com juros. A Bíblia recomenda não deixar o sol se pôr sobre a ira (Ef 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Às vezes, a forma mais amorosa de suportar alguém é ter uma conversa franca.
Perdoar não é esquecer nem confiar automaticamente. O perdão solta a dívida; a confiança se reconstrói com o tempo. José perdoou os irmãos, mas antes os testou para saber se haviam mudado (Gn 42–45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Caminhos práticos para a convivência
Com o texto de Colossenses como bússola, alguns passos concretos ajudam no dia a dia:
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Comece por você. Jesus usa uma imagem propositalmente exagerada: alguém tentando tirar uma partícula do olho do irmão enquanto carrega uma viga no próprio (Mt 7.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antes de catalogar os defeitos alheios, pergunte quais dos seus as pessoas próximas suportam em silêncio.
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Separe defeito de pecado. Muito do que nos irrita é jeito, temperamento, cultura de família: a pessoa lenta, a falante, a desorganizada. Isso pede paciência, não correção. Já a mentira, a crueldade e a injustiça pedem conversa. Misturar as duas coisas nos faz tolerar o que deveríamos confrontar e confrontar o que deveríamos tolerar.
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Deixe passar o que pode passar. Provérbios afirma que é sinal de sabedoria saber ignorar uma ofensa (Pv 19.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nem toda falha merece um debate. Escolher as batalhas é uma forma de amor.
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Fale com o outro, não sobre o outro. A maledicência foi uma das roupas velhas que Paulo mandou tirar (Cl 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Reclamar de alguém para terceiros alivia por um minuto e envenena a relação por anos.
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Ore pela pessoa difícil. Não para que Deus "dê um jeito nela", mas por ela, pelo bem dela. Jesus mandou orar até pelos que perseguem (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É difícil manter o desprezo por alguém que você apresenta a Deus todos os dias com sinceridade.
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Lembre-se do tempo. Pessoas mudam devagar — você também. Marcos levou anos para se tornar útil a Paulo. Paciência, makrothymia, é exatamente isto: ânimo para o longo prazo.
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Não carregue sozinho. Assim como Moisés recebeu ajuda, procure conselho de pessoas maduras, do pastor, da comunidade. Em conflitos familiares profundos, um terapeuta ou um mediador pode ser instrumento de Deus — buscar ajuda profissional não é falta de fé.
C. S. Lewis, em Cristianismo puro e simples, comenta que todos acham o perdão uma ideia linda até o dia em que têm alguém para perdoar. E sugere começar pelo mais próximo e pelo mais simples — o parente, o colega, a ofensa da semana passada — em vez de pensar logo nos casos extremos. O hábito do perdão, como qualquer hábito, se forma nas pequenas coisas.
Em Cristo, quem foi suportado aprende a suportar
No fim, o argumento de Paulo é simples e desconcertante: perdoe como o Senhor perdoou você (Cl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não diz "perdoe quem merece" nem "perdoe se a pessoa mudar". A medida não é o outro; é Cristo.
E como Cristo nos tratou? Ele nos amou quando ainda éramos fracos e inimigos (Rm 5.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Suportou nossa lentidão, nossas recaídas, nossas promessas quebradas. Na cruz, pediu perdão para os que o crucificavam (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, foi ao encontro de Pedro — o amigo que o negara — e, em vez de cobrar, perguntou três vezes se ele o amava e lhe devolveu a missão (Jo 21.15-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo resume o mesmo princípio em outra carta: acolham uns aos outros, assim como Cristo acolheu vocês, para a glória de Deus (Rm 15.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Quando entendemos quanto fomos suportados, a imperfeição do outro muda de tamanho. Ela não deixa de existir, nem deixa de doer. Mas passa a ser vista ao lado da paciência infinita que Deus teve conosco. É daí que vem a força para vestir, de novo a cada manhã, a compaixão, a bondade, a humildade, a mansidão e a paciência.
Suportar as imperfeições das pessoas, no fim das contas, não é um exercício de resignação. É uma forma de participar do jeito como Deus trata o mundo. Cada vez que você escolhe não revidar, conversar em vez de murmurar, esperar em vez de desistir, a comunidade imperfeita em que você vive se parece um pouco mais com aquele que a escolheu e a ama. E você descobre, com alegria, que também é suportado — pelos irmãos e, acima de tudo, por Cristo.
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