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Cotidiano

Dez receberam, mas apenas um voltou para agradecer

Dez leprosos foram curados por Jesus e só um voltou: o que a gratidão revela sobre a fé e como ela muda a maneira de viver cada dia.

12 minutos de leitura

Quase todo mundo já viveu a cena dos dois lados. De um lado, você ajudou alguém num momento difícil — emprestou dinheiro, passou a madrugada no hospital, fez a ligação que abriu uma porta — e depois veio o silêncio. Ninguém ligou para contar como tudo terminou. Do outro lado, se formos honestos, também conhecemos o esquecimento: quantas vezes pedimos a Deus com urgência, recebemos o que pedimos e seguimos a vida sem voltar para agradecer?

Lucas registra um episódio curto que coloca esse esquecimento diante dos nossos olhos. Dez homens recebem exatamente o mesmo milagre; apenas um volta. E a pergunta de Jesus sobre o paradeiro dos outros nove atravessa os séculos e chega à nossa rotina (Lc 17.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A cena que Lucas registra

Jesus está a caminho de Jerusalém, uma viagem que Lucas apresenta como decisiva desde o início (Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e passa pela região de fronteira entre Samaria e Galileia. Ao entrar num povoado, dez homens doentes de lepra vão ao seu encontro. Eles param a distância, como a Lei exigia de quem tinha essa doença, e gritam pedindo compaixão (Lc 17.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Para entender o peso desse grito, é preciso lembrar o que a lepra significava. A palavra hebraica tsara'at, traduzida para o grego como lepra, abrangia diversas doenças de pele, e a Lei determinava que o doente vivesse fora do acampamento, com roupas rasgadas e cabelo desgrenhado, avisando a todos que era impuro (Lv 13.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se tratava só de dor física: era o afastamento da família, do trabalho, da sinagoga e do templo. O leproso estava vivo, mas fora da vida.

Jesus não os toca nem pronuncia uma palavra de cura. Ele apenas os manda apresentar-se aos sacerdotes (Lc 17.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O detalhe é importante: o sacerdote era quem examinava e declarava purificado alguém que já tinha sido curado, conforme o ritual descrito na Lei (Lv 14.1-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus, portanto, manda que façam o caminho de quem está curado enquanto ainda estão doentes. É uma ordem que só se cumpre com confiança. E foi no caminho, obedecendo, que os dez ficaram limpos.

Há ainda um pormenor que Lucas guarda para o fim: no grupo havia pelo menos um samaritano. Judeus e samaritanos viviam em hostilidade antiga e evitavam qualquer convivência (Jo 4.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A doença tinha unido, à margem, quem a história havia separado.

Um volta, nove seguem

Um dos dez, ao perceber que estava curado, dá meia-volta. Ele glorifica a Deus em alta voz — a mesma voz que pouco antes gritava por compaixão agora se levanta em louvor —, cai com o rosto em terra aos pés de Jesus e lhe agradece. E então Lucas acrescenta, como quem vira a chave da história: esse homem era samaritano (Lc 17.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Vale ser justo com os outros nove. Eles não eram perversos nem desobedientes; ao contrário, estavam cumprindo exatamente o que Jesus havia mandado. Talvez pretendessem agradecer depois, quando tudo se acalmasse. O problema não foi a desobediência. Foi que, obtido o benefício, a história deles com Jesus terminou ali. O presente satisfez; quem deu o presente se tornou dispensável.

O que as palavras do texto revelam

O vocabulário de Lucas ajuda a perceber a profundidade do episódio. No pedido de Jesus e na cura dos dez, aparece o verbo katharizō, "purificar", "tornar limpo" (Lc 17.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando o samaritano percebe o que lhe aconteceu, Lucas usa iaomai, "curar" (Lc 17.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O gesto dele aos pés de Jesus é descrito com eucharisteō, "dar graças" — a raiz da palavra eucaristia, que a igreja depois usaria para a Ceia do Senhor (Lc 17.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, no fim, Jesus o manda erguer-se e seguir o caminho, dizendo-lhe que foi a confiança dele que o levou à salvação; o verbo é sōzō, "salvar", "pôr a salvo" (Lc 17.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O verbo sōzō também pode significar a cura do corpo, e por isso é preciso cautela. Ainda assim, muitos comentaristas observam que Lucas parece marcar uma diferença: os dez foram limpos, mas só a um deles Jesus dirige essa palavra final. Os nove receberam a cura da pele; o samaritano recebeu, além dela, um encontro restaurado com Deus.

Outra palavra chama a atenção. Jesus se refere ao samaritano como allogenēs, "de outra raça", "estrangeiro" (Lc 17.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo a arqueologia, esse mesmo termo aparece na inscrição de pedra encontrada no século XIX que, no templo de Jerusalém, proibia os estrangeiros de ultrapassar a barreira do pátio externo sob pena de morte. Aquele a quem o templo fechava as portas foi justamente quem voltou para adorar aos pés de Jesus.

Esquecer quem deu: um padrão antigo

A ingratidão dos nove não é novidade na Escritura. Antes de Israel entrar na terra prometida, Moisés adverte o povo com insistência: quando comerem e ficarem satisfeitos, quando construírem boas casas e os rebanhos crescerem, cuidado para não se esquecerem do Senhor e não atribuírem a prosperidade à própria força (Dt 8.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O perigo, segundo Moisés, não estava na escassez, mas na fartura.

A história confirma a advertência. O mesmo povo libertado do Egito por sinais extraordinários reclama no deserto e chega a sentir saudade da comida da escravidão (Êx 16.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 11.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Davi conhecia essa tendência no próprio coração: por isso, num dos seus salmos, ele conversa com a própria alma e a convoca a bendizer ao Senhor e a não esquecer nenhum dos seus benefícios — o perdão, a cura, o resgate da morte, o cuidado (Sl 103.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Paulo vai à raiz do problema. Ao descrever o afastamento da humanidade em relação a Deus, ele aponta que as pessoas conheciam a Deus, mas se recusaram a honrá-lo e a agradecer-lhe — e daí veio o escurecimento do coração (Rm 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na leitura do apóstolo, a ingratidão não é um defeito de etiqueta: é o primeiro passo do esquecimento de Deus.

Naamã, o estrangeiro que voltou

O episódio de Lucas 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ecoa uma história do Antigo Testamento. Naamã, general sírio e leproso, é enviado pelo profeta Eliseu para se lavar sete vezes no Jordão. Ele resiste, mas acaba obedecendo, e é curado no próprio ato de obedecer. Depois, volta até o profeta e confessa que não há Deus em toda a terra senão o Deus de Israel (2Rs 5.1-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O próprio Jesus havia lembrado Naamã na sinagoga de Nazaré, observando que, entre tantos leprosos em Israel, foi um estrangeiro o purificado — e a plateia reagiu com fúria (Lc 4.27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Lucas 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a cena se repete: entre os curados, quem volta é o estrangeiro.

O que Jesus ensina com suas perguntas

Diante do samaritano, Jesus faz três perguntas seguidas: se não tinham sido dez os purificados, onde estavam os outros nove e se nenhum deles havia voltado para dar glória a Deus, a não ser aquele estrangeiro (Lc 17.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não há nelas o ressentimento de quem se sentiu desprezado. Há o lamento de quem sabe o que os nove perderam.

As perguntas revelam que a gratidão é a resposta natural à graça. O teólogo suíço Karl Barth, na sua Dogmática Eclesiástica, comparou a relação entre graça e gratidão à da voz e do eco: uma chama a outra. A gratidão não é pagamento — ninguém tem como pagar a Deus —, mas o reconhecimento de que se recebeu de graça.

Jesus ilustra isso em outro momento do Evangelho de Lucas. Na casa de um fariseu, uma mulher conhecida como pecadora lava os pés de Jesus com lágrimas, e ele explica que o amor dela é do tamanho do perdão que recebeu (Lc 7.36-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gratidão cresce na medida em que se percebe o tamanho do presente. Os nove talvez não tenham voltado porque, curados, logo passaram a achar a saúde algo normal.

Jesus também dá graças

O próprio Jesus vive aquilo que pede. Antes de multiplicar os pães, ele dá graças (Jo 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante do túmulo de Lázaro, antes de chamar o amigo para fora, agradece ao Pai por tê-lo ouvido (Jo 11.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, na noite em que seria traído, ao partir o pão com os discípulos, ele também dá graças (Lc 22.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Esse último gesto é impressionante. A gratidão de Jesus não dependia de circunstâncias favoráveis: ele agradeceu na véspera da cruz. Isso desmonta a ideia de que só se agradece quando tudo vai bem.

Nós e os nove

É fácil ler a história do lado do samaritano. Mas a maioria de nós se parece mais com os nove. A saúde volta depois de uma cirurgia, o emprego chega, o filho atravessa a fase difícil, a oração é respondida — e em poucas semanas aquilo vira o novo normal. Psicólogos chamam esse fenômeno de adaptação hedônica: a tendência de nos acostumarmos rapidamente com o que é bom, até deixarmos de notá-lo.

A Escritura dá outro nome a isso: esquecimento. E o remédio que ela propõe não é um sentimento espontâneo, mas uma prática — voltar.

Caminhos práticos para voltar

A gratidão cristã não é uma técnica de bem-estar, embora faça bem. É um modo de reconhecer quem Deus é. Ainda assim, ela se cultiva com hábitos concretos.

  • Volte enquanto ainda lembra. Quando uma oração for respondida, pare antes de seguir adiante e agradeça. Paulo orienta que os pedidos a Deus venham acompanhados de ação de graças (Fp 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem agradece pelo que já recebeu ora com outra confiança pelo que ainda espera.
  • Dê nome às bênçãos. Davi não agradece de forma genérica: ele enumera os benefícios (Sl 103.2-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Experimente anotar, uma vez por semana, coisas concretas pelas quais você é grato. Na psicologia, os estudos de Robert Emmons e Michael McCullough (2003) indicaram que participantes que registravam regularmente motivos de gratidão relatavam mais otimismo e bem-estar do que os grupos de comparação.
  • Agradeça em voz alta. O samaritano não voltou em silêncio; ele louvou publicamente. Os salmos convidam os resgatados a contar o que Deus fez por eles (Sl 107.1-2,8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Conte na sua família, no seu grupo da igreja, a um amigo.
  • Agradeça também às pessoas. Paulo abre várias cartas agradecendo a Deus pelos irmãos (Fp 1.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pense em quem esteve ao seu lado num momento difícil e nunca soube o quanto isso importou. Uma mensagem hoje pode ser a sua volta.
  • Agradeça em meio à dor, não pela dor. Paulo pede que se dê graças em todas as circunstâncias (1Ts 5.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e não que se agradeça pelo mal em si. A Bíblia tem espaço para o lamento: boa parte dos salmos é choro diante de Deus. Gratidão não é fingir que está tudo bem; é reconhecer que Deus continua presente no meio do que não está bem. Se você atravessa luto, depressão ou ansiedade intensa, a gratidão não é uma obrigação de sorrir — e buscar ajuda médica e psicológica, ao lado da sua comunidade de fé, também é cuidado de Deus com você.
  • Lembre-se de onde você estava. Paulo recorda aos cristãos de origem não judaica que eles viviam distantes das promessas, sem esperança verdadeira e sem conhecer o Deus vivo, e foram trazidos para perto pelo sangue de Cristo (Ef 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Todo cristão é, em alguma medida, o samaritano: alguém de fora que foi trazido para dentro.
  • Viva a Ceia como agradecimento. Cada vez que a igreja participa da Ceia do Senhor, repete o gesto de Jesus que deu graças e partiu o pão (1Co 11.23-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É uma volta coletiva aos pés de quem nos curou.

Esperança em Cristo: a cura que leva de volta a ele

O samaritano voltou e encontrou mais do que pele limpa. Encontrou Jesus. Os nove foram ao templo, como era seu direito; ele, a quem o templo fechava as portas, encontrou em Jesus o lugar da adoração. Pode-se ver aqui um sinal do que o Evangelho de João diz com clareza: a adoração verdadeira já não depende de um monte ou de um prédio, mas de um encontro com Deus que o Espírito torna possível e que se apoia na verdade (Jo 4.21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E há algo mais. Jesus estava a caminho de Jerusalém. Lá, aquele que mandou os leprosos de volta à comunidade seria levado para fora da cidade. A carta aos Hebreus faz essa ligação: assim como os corpos dos animais do sacrifício eram queimados fora do acampamento, Jesus sofreu fora da porta da cidade, para santificar o povo com o próprio sangue, e nos chama a sair ao seu encontro (Hb 13.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O excluído assumiu o lugar dos excluídos. Ele renunciou a tudo o que tinha para que nós recebêssemos tudo (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por isso Paulo, depois de falar de generosidade, termina com uma exclamação de gratidão pelo presente de Deus, tão grande que as palavras não dão conta de descrevê-lo (2Co 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E orienta que tudo o que fizermos, em palavra ou ação, seja feito sob a autoridade de Jesus e sempre com gratidão a Deus por meio de Cristo (Cl 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na visão do Apocalipse, a ação de graças faz parte do louvor eterno diante do trono (Ap 7.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a gratidão não é um intervalo da vida cristã, é o seu destino.

A pergunta de Jesus continua no ar: onde estão os outros nove? A boa notícia é que a história ainda não terminou para quem está lendo. Talvez você tenha recebido muito e seguido em frente sem olhar para trás. O caminho de volta continua aberto — e aos pés de Jesus não espera um cobrador, mas alguém que se alegra em ver você voltar.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.