Cotidiano
É possível agradecer em todas as circunstâncias?
Paulo pediu gratidão a uma igreja perseguida e enlutada. Entenda a diferença entre agradecer pelo mal e agradecer em meio a ele — e por que isso só se sustenta em Cristo.
12 minutos de leitura
Há dias em que agradecer é fácil: o exame veio normal, o filho conseguiu o emprego, a conta fechou no azul. E há dias em que a simples sugestão de agradecer soa quase como ofensa. Como dar graças no velório de quem se ama, na demissão inesperada, no diagnóstico que mudou os planos da família?
A pergunta é honesta, e a Bíblia não foge dela. No fim da primeira carta aos tessalonicenses, Paulo reúne três orientações curtas e encadeadas: alegrar-se continuamente, orar sem parar e agradecer em qualquer situação, porque essa é a vontade de Deus para quem está em Cristo Jesus (1Ts 5.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lidas às pressas, parecem um convite a sorrir para tudo. Lidas no contexto, revelam algo muito mais sólido — e muito mais humano.
Uma orientação escrita para uma igreja ferida
Os tessalonicenses não formavam uma comunidade confortável. A igreja nasceu em meio a tumulto: Paulo pregou na sinagoga da cidade por algumas semanas, uma multidão foi incitada contra ele, a casa de Jasom foi invadida, e o apóstolo precisou partir às pressas, de noite, para Bereia (At 17.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os que ficaram receberam a mensagem em meio a muita aflição (1Ts 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e sofreram nas mãos dos próprios conterrâneos (1Ts 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo temia tanto que a perseguição abalasse a fé deles que enviou Timóteo para fortalecê-los, lembrando que já os havia prevenido sobre as tribulações (1Ts 3.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Havia também o luto. Alguns irmãos tinham morrido, e a igreja se perguntava o que seria deles na volta do Senhor. Paulo responde que os cristãos se entristecem, sim, mas com uma tristeza diferente, sustentada pela esperança de que Deus trará com Jesus os que morreram unidos a ele (1Ts 4.13-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há ainda um detalhe biográfico que muda tudo. Pouco antes de chegar a Tessalônica, Paulo e Silas tinham sido açoitados e presos em Filipos — e, à meia-noite, com os pés presos no tronco, oravam e cantavam a Deus (At 16.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem pede gratidão aos tessalonicenses não é um pregador que nunca sofreu. É alguém que aprendeu a agradecer dentro de uma cela.
Isso transforma a leitura de 1Ts 5.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A orientação não foi dirigida a pessoas a quem tudo ia bem, mas a uma igreja perseguida e enlutada.
Em tudo, não por tudo
O ponto decisivo está numa pequena expressão grega: en panti, "em tudo", "em toda situação". Paulo não diz que o cristão deve agradecer pela perseguição, pela morte ou pela injustiça, como se fossem bens em si mesmos. Diz que, dentro de qualquer circunstância, há motivo para gratidão — porque Deus continua presente, continua fiel e continua agindo.
A diferença é enorme. Agradecer pelo câncer seria chamar de bom aquilo que a Bíblia trata como fruto de um mundo ferido pelo pecado; a própria morte é apresentada como inimiga a ser vencida (1Co 15.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agradecer no câncer é reconhecer que, mesmo ali, Deus não se retirou: há cuidado, há pessoas, há a promessa de que ele faz todas as coisas cooperarem para o bem dos que o amam (Rm 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Repare: o texto não afirma que todas as coisas são boas, mas que Deus trabalha nelas e por meio delas.
Em Ef 5.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Paulo fala em agradecer a Deus em todo tempo e a respeito de tudo. A expressão é mais ampla e deve ser lida à luz do conjunto da Escritura: a gratidão se dirige ao governo bondoso de Deus sobre todas as coisas, não à maldade em si.
Gratidão é resposta à graça
O verbo usado por Paulo é eucharisteō, da mesma família de charis, "graça". A gratidão cristã é a resposta à graça: não nasce da avaliação das circunstâncias, mas da consciência do que Deus já deu. Por isso Paulo une as três orientações. A alegria constante, a oração adialeiptōs — "sem interrupção", "de modo contínuo" — e a gratidão em toda situação são a mesma postura vista de três ângulos: uma vida voltada para Deus, que não depende do humor do dia.
E o final da frase é crucial: essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus. A gratidão não é cobrada de quem está sozinho no mundo, mas de quem está unido a Cristo. Sem ele, a ordem seria um fardo; com ele, torna-se possível.
Gratidão com lágrimas no Antigo Testamento
Muito antes de Paulo, o povo de Deus já conhecia essa gratidão que não espera o fim da tempestade.
Jó perdeu bens, servos e filhos em um único dia. Rasgou o manto, raspou a cabeça, prostrou-se no chão — gestos de luto profundo — e adorou, bendizendo o nome do Senhor (Jó 1.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não fingiu que nada tinha acontecido; o livro inteiro registra seus protestos e perguntas. Mas a dor e a adoração conviveram no mesmo homem.
Daniel, ao saber do decreto que proibia dirigir pedidos a qualquer deus além do rei, foi para casa, abriu as janelas voltadas para Jerusalém e continuou ajoelhando-se três vezes por dia para orar e agradecer, como sempre fizera (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sua gratidão não esperou o desfecho da cova dos leões.
Habacuque descreve um cenário de colapso completo — figueiras sem flor, videiras sem fruto, campos sem colheita, currais vazios — e, ainda assim, decide alegrar-se no Deus que o salva e que lhe dá firmeza para seguir caminhando (Hc 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Note o tipo de movimento: é uma decisão de fé, não uma emoção espontânea.
Os salmos de lamento seguem o mesmo percurso. Muitos começam com perguntas duras — até quando, Senhor? por que me esqueceste? — e terminam em confiança e louvor (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 42–43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Saltério tem a honestidade de incluir até um salmo que termina na escuridão, sem resolução (Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Bíblia dá voz à dor antes de abrir espaço para a gratidão.
A oferta de gratidão
A lei de Moisés previa uma oferta específica de gratidão, a todah, apresentada junto com o sacrifício de comunhão (Lv 7.11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra hebraica abrange tanto "ação de graças" quanto "confissão": agradecer é declarar diante de todos o que Deus fez. O salmista que esteve à beira da morte promete apresentá-la em público, no templo (Sl 116.3,17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jonas, ainda no ventre do peixe e sem saber como sairia dali, já promete oferecer a Deus um sacrifício acompanhado de cânticos de gratidão (Jn 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A Carta aos Hebreus retoma essa ideia e a aplica à igreja: por meio de Jesus, o cristão oferece a Deus o louvor como oferta contínua (Hb 13.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus deu graças na noite em que foi traído
Jesus agradece ao Pai em momentos surpreendentes. Agradece logo depois de lamentar a incredulidade de cidades que viram seus milagres e não se arrependeram (Mt 11.20-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agradece diante do túmulo de Lázaro, antes de ver o amigo sair dele (Jo 11.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agradece pelos poucos pães que alimentariam uma multidão (Jo 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mas o momento mais impressionante é outro. Na noite em que seria traído por um dos seus, negado por outro e abandonado por quase todos, Jesus tomou o pão e deu graças (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele sabia o que o esperava. Sabia que aquele pão representava o próprio corpo, prestes a ser entregue. E agradeceu. Não por acaso, a igreja antiga passou a chamar a Ceia do Senhor de eucaristia, "ação de graças".
Ao mesmo tempo, os Evangelhos mostram que essa gratidão não fez de Jesus alguém insensível. Ele chorou junto ao túmulo de Lázaro (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Getsêmani, confessou aos discípulos uma tristeza tão funda que parecia esmagá-lo e pediu ao Pai que, se fosse possível, o cálice fosse afastado (Mt 26.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); orou em agonia (Lc 22.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, clamou com as palavras do Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), perguntando por que fora abandonado (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em Jesus, gratidão e lamento não se anulam. Ele agradeceu e chorou, deu graças e agonizou. Esse é o modelo: não uma gratidão que nega a dor, mas uma confiança que atravessa a dor.
O que a gratidão bíblica não exige de você
Por ser mal compreendida, essa orientação já foi usada para ferir. Alguns esclarecimentos são necessários.
Não exige negar a dor. A Escritura ensina a alegrar-se com quem se alegra e a chorar com quem chora (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dizer a alguém em luto "agradeça a Deus" pode ser cruel. Primeiro se chora junto; a gratidão vem no tempo certo, muitas vezes descoberta pela própria pessoa.
Não exige chamar o mal de bem. A injustiça, a violência e o abuso continuam sendo maus. Os profetas denunciavam justamente quem invertia os nomes do bem e do mal (Is 5.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agradecer em meio a uma situação de abuso jamais significa aceitar permanecer nela. Gratidão não é conformismo.
Não é pensamento positivo. A cultura do "tudo vai dar certo" promete o que a Bíblia não promete. Paulo não garante aos tessalonicenses o fim da perseguição; garante a presença de Deus e a esperança da ressurreição. A gratidão cristã não depende de final feliz nesta vida.
Não substitui cuidado. Em quadros de depressão, ansiedade intensa ou luto prolongado, a dificuldade de sentir gratidão não é falta de fé. Buscar médico, psicólogo e o apoio da comunidade da igreja é sabedoria, não fraqueza. Se houver pensamentos de tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente — o CVV atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
Caminhos para aprender a agradecer
Paulo afirmou ter aprendido a viver contente tanto na fartura quanto na escassez (Fp 4.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gratidão se aprende. Alguns passos ajudam nesse aprendizado:
- Comece pelo lamento honesto. Leve a Deus a dor como ela é, usando os salmos como roteiro e abrindo o coração diante dele (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 62.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gratidão que pula o lamento costuma ser frágil.
- Troque o "por" pelo "em". Pergunte: o que, nesta situação, ainda é motivo de gratidão? A presença de alguém, um dia de trégua, uma palavra recebida, a promessa de que Deus não abandona os seus (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Exercite a memória. O salmista fala consigo mesmo e se obriga a recordar o bem que Deus já fez — o perdão, a cura, o resgate, o cuidado (Sl 103.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um caderno, uma anotação no celular ou uma conversa à mesa no fim do dia podem treinar o olhar.
- Ore com gratidão, não só depois dela. Paulo une pedido e ação de graças: as preocupações são entregues a Deus acompanhadas de gratidão, e uma paz que a razão não consegue explicar passa a guardar o coração e a mente (Fp 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Agradeça em comunidade. As orientações de 1Ts 5.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) estão no plural, dirigidas à igreja. Cantar juntos, partilhar testemunhos e participar da Ceia sustentam a gratidão quando a de um falha (Cl 3.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Agradeça a pessoas. Paulo começa quase todas as cartas agradecendo a Deus pelos irmãos (1Ts 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 1.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dizer "obrigado" a quem cuida de você também é uma forma de reconhecer a mão de Deus.
O que a história e a pesquisa mostram
A história da igreja guarda testemunhos dessa gratidão em tempos sombrios. Segundo os relatos históricos, o pastor luterano Martin Rinkart, na cidade alemã de Eilenburg, atravessou a Guerra dos Trinta Anos e uma epidemia devastadora, conduzindo um número enorme de sepultamentos — entre eles o da própria esposa. É desse contexto que vem seu hino Nun danket alle Gott ("Agora todos agradeçam a Deus"), cantado até hoje em igrejas do mundo inteiro.
Fora da teologia, a psicologia também se interessou pelo tema. Estudos conduzidos pelos pesquisadores Robert Emmons e Michael McCullough, publicados em 2003, associaram o hábito de registrar motivos de gratidão a maior bem-estar e otimismo. Os dados são interessantes, mas a gratidão bíblica não é técnica de bem-estar: ela tem um destinatário, Deus, e um fundamento, a graça.
A gratidão que nasce da cruz e da ressurreição
Volte ao final da frase de Paulo: essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus. É Cristo quem torna a gratidão possível em qualquer circunstância, por pelo menos três razões.
Primeiro, porque o maior presente já foi dado. Se Deus não poupou o próprio Filho, mas o entregou por nós, não há situação em que ele tenha deixado de ser bom para conosco (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo chega a agradecer pelo presente de Deus que nenhuma palavra consegue descrever (2Co 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mesmo quando todo o resto falta, esse presente permanece.
Segundo, porque nada pode separar o cristão do amor de Deus em Cristo — nem angústia, nem perseguição, nem fome, nem a própria morte (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As circunstâncias podem levar quase tudo; isso elas não levam.
Terceiro, porque a última palavra é a ressurreição. A mesma carta que pede gratidão anuncia que os que morreram em Cristo ressuscitarão e que os seus estarão para sempre com o Senhor (1Ts 4.14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Paulo encerra seu grande capítulo sobre a ressurreição agradecendo a Deus pela vitória sobre a morte, concedida por meio de Jesus (1Co 15.54-57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gratidão cristã olha para o túmulo vazio antes de olhar para as circunstâncias.
Então, é possível agradecer em todas as circunstâncias? Pela força da vontade, talvez não. Em Cristo, sim — não porque tudo seja bom, mas porque ele é bom em tudo. Jesus deu graças com o pão nas mãos na noite mais escura da história, e é dele que vem a capacidade de fazer o mesmo. Às vezes, a gratidão será um cântico; outras vezes, apenas um sussurro entre lágrimas. Os dois chegam ao Pai.
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