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Cotidiano

Existe hora certa para cada coisa? O que ensina Eclesiastes 3

Os catorze pares de Eclesiastes 3 mostram que a vida tem estações, que Deus governa o relógio e que, em Cristo, nenhum tempo é perdido.

· 12 minutos de leitura

Você já teve a sensação de estar fora do tempo? O amigo que se casou cedo enquanto você continua sozinho; o projeto que não decola enquanto o dos outros prospera; a perda que chegou antes da hora; a alegria que demora a vir. Em algum momento, quase todo mundo faz a pergunta: existe uma hora certa para cada coisa — e, se existe, quem a define?

Poucas páginas da Bíblia tocaram tanto essa pergunta quanto o começo de Eclesiastes 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O poema dos tempos (Ec 3.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) virou leitura de velórios, casamentos e formaturas, e chegou até a música popular: nos anos 1960, o cantor americano Pete Seeger musicou o trecho, e a gravação da banda The Byrds levou o texto bíblico às paradas de sucesso. Mas, lido dentro do livro a que pertence, o poema diz algo mais profundo — e mais consolador — do que o conselho de que cada coisa tem a sua vez.

Quem fala e de que tempo ele fala

Eclesiastes é a voz de Qohelet, palavra hebraica ligada à ideia de reunir a assembleia: o pregador, o mestre que fala ao povo reunido. Ele se apresenta como filho de Davi e rei em Jerusalém (Ec 1.1,12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tradição judaica e cristã associou o livro a Salomão; muitos estudiosos hoje entendem que o autor assume a figura salomônica como recurso literário, para examinar a vida a partir de quem teve tudo. De um modo ou de outro, o livro olha o mundo tachat hashshemesh, "debaixo do sol" — a vida como aparece a quem observa apenas deste lado do horizonte.

A palavra que atravessa o livro é hevel. As traduções costumam vertê-la por "vaidade", mas o sentido básico é vapor, sopro, fôlego (Ec 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): algo real, que se vê, e que no entanto escapa entre os dedos. É com esse pano de fundo que o capítulo 3 fala do tempo.

Logo no primeiro versículo aparecem duas palavras. Zeman indica um tempo marcado, uma data fixada. 'Et é o tempo como ocasião, o momento que convém para algo — e ela se repete, em ritmo quase hipnótico, ao longo dos oito versículos. A terceira palavra importante é chefets: assunto, desejo, empreendimento, tudo aquilo que alguém pode querer ou fazer. O sentido da abertura é amplo: não há atividade humana que fique fora do calendário (Ec 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Catorze pares que abarcam a vida inteira

Depois da frase de abertura, o poema alinha catorze pares de opostos (Ec 3.2-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Eles vão do nascimento à morte, do plantio à colheita, da ferida à cura, da demolição à construção, do choro ao riso, do luto à dança, do abraço à distância, da busca à perda, do silêncio à palavra, do amor ao ódio, da guerra à paz.

A totalidade dita em pares

Os estudiosos chamam esse recurso de merismo: nomear os dois extremos para indicar tudo o que está entre eles. A Bíblia faz isso desde a primeira linha, quando diz que Deus criou os céus e a terra para dizer que criou tudo (Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Eclesiastes 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), nascimento e morte não são apenas dois eventos; são as margens de toda a existência. Muitos comentaristas observam também que catorze é duas vezes sete — o número que, na Escritura, costuma sugerir plenitude.

Repare ainda no arco do poema: ele começa com a vida de uma pessoa, que nasce e morre, e termina com a vida das nações, que fazem guerra e paz. E a última palavra é shalom. Não parece casual que o poema dos tempos se feche na paz.

Alguns pares são enigmáticos. O de espalhar e juntar pedras, por exemplo, foi entendido como limpar o campo para o plantio e reunir material para construir; uma antiga interpretação rabínica o leu em sentido conjugal, ao lado do par sobre o abraço. Não há certeza, e a honestidade pede que se diga isso. O sentido geral, porém, é claro: a vida humana se move em estações, e nenhuma delas é a vida inteira.

O que o poema não diz

Três equívocos aparecem com frequência.

  • Não é fatalismo. Qohelet não diz que tudo o que acontece é moralmente bom. O par que fala de matar não é licença para a violência: o poema descreve o que acontece num mundo marcado pela queda, e o restante da Escritura julga o que é justo e o que não é (Êx 20.13; Rm 13.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Não é uma técnica para acertar o momento perfeito. O texto não oferece fórmula para descobrir a hora ideal de investir, casar ou mudar de cidade. Ele faz o contrário: lembra que o calendário não está todo em nossas mãos.
  • Não diz que a dor é inútil. Choro e luto estão no poema ao lado da dança e do riso. A Bíblia não pede que você finja alegria em tempo de luto, nem que se envergonhe da alegria depois dele.

Saber o tempo ou aceitar o tempo?

Há duas maneiras de ler o poema, e as duas têm apoio. A primeira é a da sabedoria prática: o sábio é quem discerne o momento oportuno. Provérbios elogia a palavra dita na hora certa (Pv 15.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 25.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Eclesiastes afirma que o coração sábio sabe reconhecer o tempo e o modo de agir (Ec 8.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há tempo de falar e tempo de se calar — e quem confunde os dois machuca os outros.

A segunda leitura nasce dos versículos que vêm logo depois do poema, e ela muda o tom. Qohelet pergunta que proveito real — yitron, o "saldo" que sobra — tem quem se cansa trabalhando (Ec 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E responde com uma das frases mais densas do livro: Deus fez cada coisa bela, yafeh, no tempo apropriado; pôs no coração humano o senso de 'olam, de eternidade, de algo que ultrapassa o momento; e, ainda assim, o ser humano não consegue abarcar a obra de Deus do começo ao fim (Ec 3.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Aqui está o centro do capítulo. Nós vivemos dentro do tempo, mas fomos feitos com uma saudade do que está além dele. Vemos o fragmento, não o desenho inteiro. Agostinho sentiu esse mesmo limite quando refletiu sobre o tempo nas Confissões (livro XI): se ninguém lhe perguntava o que era o tempo, ele sabia; se queria explicá-lo a alguém, já não sabia. C. S. Lewis, em Cristianismo puro e simples, argumentou na mesma direção: se encontramos em nós um desejo que nada neste mundo satisfaz, a explicação mais provável é que fomos feitos para outro mundo.

Por isso, a resposta de Qohelet não é ansiosa. Ele conclui que o melhor é alegrar-se, fazer o bem, comer, beber e encontrar satisfação no trabalho — e reconhecer tudo isso como dom de Deus (Ec 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E acrescenta que o que Deus faz permanece, sem que se possa acrescentar ou tirar, para que o ser humano aprenda a temê-lo (Ec 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mais adiante, admite que ninguém conhece a própria hora e que o acaso alcança a todos (Ec 9.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As duas leituras se completam. Quem é sábio procura discernir o tempo — e quem é ainda mais sábio sabe que não domina o relógio. Não por acaso, o comentarista britânico Derek Kidner deu ao seu estudo de Eclesiastes o título A Time to Mourn and a Time to Dance ("um tempo de chorar e um tempo de dançar", na série The Bible Speaks Today): o livro aprende a viver as estações, não a controlá-las.

Jesus e a hora certa

O Novo Testamento retoma a pergunta e lhe dá um centro. O grego tem palavras próprias: chronos, o tempo que passa; kairos, a ocasião decisiva; hōra, a hora. Vale uma cautela: o linguista James Barr, em Biblical Words for Time (1962), mostrou que a oposição rígida entre chronos e kairos é muitas vezes exagerada nos sermões. O que importa não é a palavra isolada, mas o que os textos dizem.

E eles dizem que a história tem um momento para o qual tudo convergia. Paulo afirma que Deus enviou o seu Filho quando chegou a plenitude do tempo (Gl 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus abre seu ministério anunciando que o tempo se cumpriu e que o Reino de Deus está próximo (Mc 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Cristo morreu pelos ímpios no tempo oportuno, kata kairon (Rm 5.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No Evangelho de João, a palavra é hōra. Jesus fala de uma hora que ainda não havia chegado (Jo 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 7.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 8.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), até o momento em que declara que ela chegou — a hora da cruz, que é também a hora da glória (Jo 12.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 17.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não se adianta nem se atrasa. Quando recebe a notícia de que Lázaro está doente, espera mais dois dias (Jo 11.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Marta lamenta a ausência dele (Jo 11.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para os de fora, era atraso; para o Pai, era o tempo de uma glória maior (Jo 11.4,40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jesus viveu as estações do poema

O mais comovente é que Jesus não atravessou os tempos de Eclesiastes de longe. Ele chorou junto ao túmulo do amigo (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e sobre Jerusalém (Lc 19.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e também exultou de alegria no Espírito (Lc 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Houve tempo de se retirar sozinho para orar (Mc 1.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 5.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e tempo de se entregar às multidões. Houve tempo de falar com autoridade (Mt 7.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e tempo de silêncio diante de Pilatos (Mc 15.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E houve, sobretudo, o tempo de morrer — seguido pelo de viver outra vez, que nenhum poema humano poderia prever.

Na cruz e na ressurreição, o primeiro par do poema é virado do avesso. A morte, que parecia ser a última palavra de toda vida debaixo do sol, foi vencida (1Co 15.54-57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que para Qohelet era a fronteira final tornou-se, em Cristo, uma passagem.

Caminhos para viver as estações

Se a vida tem estações e Deus governa o calendário, algumas atitudes concretas decorrem do texto.

  1. Dê nome à estação em que você está. Luto, plantio, espera, colheita, reconstrução. Nomear o momento ajuda a não exigir de si o que pertence a outra estação — e a não desprezar o que esta estação permite.
  2. Pare de comparar calendários. O tempo de Deus para a vida de outra pessoa não é a régua da sua. Paulo lembra que comparar-se com os outros é falta de entendimento (2Co 10.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  3. Viva bem o presente. Qohelet chama de dom de Deus a alegria simples do pão, do trabalho e da companhia (Ec 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ec 9.7-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo pede que os cristãos aproveitem as oportunidades — o verbo grego exagorazō sugere "resgatar", "comprar de volta" a ocasião (Ef 5.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 4.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  4. Peça sabedoria para contar os dias. O salmo de Moisés pede a Deus que ensine o povo a medir a brevidade da vida, para ganhar um coração sábio (Sl 90.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Tiago garante que Deus dá sabedoria a quem a pede (Tg 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  5. Entregue o que você não controla. Davi coloca nas mãos de Deus o curso inteiro da sua vida (Sl 31.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tiago adverte contra os planos feitos como se o amanhã nos pertencesse e ensina a submetê-los à vontade do Senhor (Tg 4.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  6. Chore com quem chora — e deixe que chorem com você. Paulo pede que a igreja acompanhe o irmão tanto na alegria quanto nas lágrimas (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se o luto ou a tristeza se prolongam a ponto de paralisar a vida, buscar ajuda médica e psicológica não é falta de fé; é cuidado com o corpo e a mente que Deus deu. E, se em algum momento surgirem pensamentos de tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente: o CVV atende pelo telefone 188, de graça, 24 horas por dia.
  7. Espere sem desistir. Paulo encoraja a não se cansar de fazer o bem, porque a colheita vem no tempo próprio (Gl 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o profeta Habacuque ouviu que a visão de Deus tem prazo marcado e não falhará, ainda que pareça demorar (Hc 2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Esperança em Cristo, o Senhor de todos os tempos

Eclesiastes termina chamando o leitor a temer a Deus e guardar os seus mandamentos, porque toda obra será trazida a juízo (Ec 12.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Qohelet viu a beleza de cada coisa em seu tempo, mas confessou que não conseguia enxergar o desenho inteiro. O Novo Testamento abre a cortina: o propósito de Deus, a ser realizado quando os tempos chegarem à plenitude, é reunir todas as coisas em Cristo, as do céu e as da terra (Ef 1.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O fio que Qohelet não via tem um nome.

Isso muda a maneira de atravessar cada estação. O tempo de chorar não é o fim da história: Jesus prometeu aos discípulos que a tristeza deles seria transformada em alegria, como a dor do parto dá lugar à alegria do nascimento (Jo 16.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo chama as aflições presentes de leves e passageiras diante da glória que elas preparam (2Co 4.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a última página da Bíblia mostra Deus enxugando toda lágrima, num mundo em que a morte, o luto e a dor já não existem (Ap 21.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os tempos de lamento têm prazo; o tempo da festa, não.

Enquanto isso, Jesus Cristo permanece o mesmo, ontem, hoje e para sempre (Hb 13.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As estações mudam; ele não. É por isso que o cristão pode viver o choro sem desespero e a alegria sem medo de perdê-la.

E há um tempo que não convém adiar. Retomando o profeta Isaías, Paulo afirma que o momento favorável, o dia da salvação, é o presente (2Co 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 49.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Existe, sim, hora certa para cada coisa. Para se voltar a Cristo, a hora certa é agora.

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