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Cotidiano

Existe limite para perdoar?

A pergunta de Pedro, a resposta de Jesus e a parábola da dívida impagável: o que o perdão exige, o que ele não exige e onde encontra forças.

11 minutos de leitura

Há feridas que voltam. O marido que promete mudar e repete a mesma grosseria. O irmão que pede dinheiro emprestado pela quarta vez e de novo não devolve. O colega que, mais uma vez, leva o crédito pelo seu trabalho. A amiga que pede desculpas com sinceridade e, meses depois, faz tudo outra vez. Em algum momento, quase todo mundo se pergunta: até quando eu preciso perdoar? Não existe um ponto em que basta?

A pergunta é honesta, e não é nova. Foi exatamente o que Pedro perguntou a Jesus, e a resposta que recebeu continua desconcertante. Este artigo percorre esse diálogo e a parábola que o acompanha (Mt 18.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), para entender três coisas: por que Jesus recusa uma contagem, o que o perdão realmente pede de nós — e o que ele não pede — e de onde vem a força para perdoar quando a ferida se repete.

A pergunta de Pedro e a resposta que desarma a conta

Pedro não era mesquinho ao perguntar. Ao propor perdoar o irmão até sete vezes, ele provavelmente se achava generoso. Segundo a tradição rabínica registrada mais tarde no Talmude, havia mestres que recomendavam perdoar a mesma ofensa três vezes, apoiados na forma como Deus suporta as transgressões das nações nos oráculos de Amós (Am 1–2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sete era mais que o dobro — e o número da plenitude.

Jesus responde multiplicando: não sete, mas hebdomēkontakis hepta (Mt 18.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão grega pode ser lida como setenta e sete vezes ou como setenta vezes sete, ou seja, 490. Os estudiosos se dividem, e a diferença importa pouco, porque o ponto não é a aritmética. Ninguém anota 490 ofensas numa caderneta. Jesus está dizendo que o perdão não funciona por cota.

Há um detalhe que enriquece a resposta. O número setenta e sete aparece no início da Bíblia, na boca de Lameque, descendente de Caim, que se gaba de vingar-se setenta e sete vezes de quem o ferir (Gn 4.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vingança humana, entregue a si mesma, cresce sem freio. Jesus inverte a escalada: onde Lameque multiplicava a vingança, o discípulo multiplica o perdão. O mesmo número que media o tamanho do rancor passa a medir o tamanho da misericórdia.

Lucas registra um ensino paralelo, ainda mais cotidiano: se alguém pecar contra você sete vezes no mesmo dia e voltar sete vezes arrependido, você deve perdoar (Lc 17.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A reação dos discípulos é reveladora: eles pedem que o Senhor lhes aumente a fé (Lc 17.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Perceberam que isso não se faz com força de vontade.

A parábola da dívida que ninguém pagaria

Para explicar por que o perdão não tem teto, Jesus conta uma história (Mt 18.23-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um rei decide acertar as contas com seus servos, e um deles lhe deve dez mil talentos.

O valor é deliberadamente absurdo. Um talento equivalia a cerca de seis mil denários, e um denário era o pagamento de um dia de trabalho de um diarista (Mt 20.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dez mil talentos somam algo como sessenta milhões de dias de trabalho — mais de cento e sessenta mil anos de salário. Em grego, myria, "dez mil", era o maior número com nome próprio; a ideia equivale ao nosso "uma dívida astronômica". Os ouvintes de Jesus entenderam: aquele homem jamais pagaria.

O servo cai de joelhos e promete pagar tudo — uma promessa impossível. O rei, movido de compaixão, faz muito mais do que conceder prazo: cancela a dívida inteira (Mt 18.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo usado é aphiēmi, "soltar", "deixar ir", o mesmo que o Novo Testamento usa para o perdão dos pecados.

Então a cena muda. O servo perdoado sai e encontra um companheiro que lhe deve cem denários — uns três ou quatro meses de trabalho. Não é pouco dinheiro, e Jesus não trata a ofensa do outro como irrelevante. Mas, comparada à dívida cancelada, é quase nada. O primeiro servo agarra o companheiro, que lhe faz o mesmo pedido de paciência que ele próprio fizera ao rei, e manda prendê-lo até que pague (Mt 18.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os outros servos, indignados, contam tudo ao rei. O senhor chama o servo de volta, lembra-lhe o tamanho do perdão recebido e pergunta se ele não deveria ter tido a mesma misericórdia do companheiro. E o entrega aos carcereiros (Mt 18.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus conclui: assim fará o Pai celeste com quem não perdoar o irmão sinceramente, de dentro do coração (Mt 18.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que a parábola ensina

A lição central é de proporção. O problema do servo não foi cobrar uma dívida real; foi esquecer de onde tinha vindo. Quem perdeu de vista os dez mil talentos que lhe foram perdoados passa a ver os cem denários do outro como a coisa mais importante do mundo.

Isso explica por que Jesus não aceita um limite. O perdão cristão não começa na ofensa que recebemos, mas no perdão que recebemos. A medida não é o quanto o outro merece, e sim o quanto nós fomos perdoados. A mesma lógica aparece na oração que Jesus ensinou, em que pedimos perdão das nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos devedores, seguida de um alerta explícito (Mt 6.12,14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Uma advertência séria, não uma barganha

O final da parábola assusta, e deve assustar. Mas ele não ensina que o perdão de Deus se compra com o nosso perdão aos outros. A ordem da história é clara: o rei perdoa primeiro, sem condição prévia. A incapacidade de perdoar revela que o servo não deixou o perdão recebido transformá-lo. Ele recebeu a graça como um alívio financeiro, não como uma mudança de coração. O perdão que oferecemos não é o preço da graça; é o sinal de que ela chegou.

O que perdoar não significa

Boa parte da angústia em torno desse texto vem de confundir o perdão com outras coisas. A Escritura, lida no conjunto, ajuda a distinguir.

Perdoar não é fingir que nada aconteceu. O rei da parábola não diz que a dívida era pequena; ele a calcula e então a cancela. Perdoar exige nomear a ofensa. Por isso, logo antes da pergunta de Pedro, Jesus ensina a procurar quem errou e conversar com ele, primeiro a sós, depois com testemunhas, depois com a comunidade (Mt 18.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Perdão e confronto caminham juntos.

Perdoar não é o mesmo que reconciliar. O perdão depende de quem foi ferido; a reconciliação depende dos dois. Paulo reconhece esse limite quando pede que vivamos em paz com todos, na medida em que isso depender de nós (Rm 12.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É possível perdoar alguém que não se arrependeu e, mesmo assim, a relação não ser restaurada. José perdoou os irmãos, mas antes os provou para saber se haviam mudado (Gn 42–45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Perdoar não é devolver a confiança de imediato. O perdão pode ser concedido num instante; a confiança é reconstruída com o tempo e com fatos. Perdoar quem desviou dinheiro da empresa não obriga você a lhe entregar o caixa no dia seguinte.

Perdoar não anula a justiça nem as consequências. O perdão abre mão da vingança pessoal, não da verdade. Paulo manda não retribuir o mal com o mal e deixar a ira nas mãos de Deus (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — e, no capítulo seguinte, reconhece que as autoridades existem para coibir o mal (Rm 13.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma vítima pode perdoar e, ainda assim, denunciar um crime.

Perdoar não é permanecer em perigo. Esse ponto precisa ser dito com toda a clareza. Mateus 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) jamais foi um mandamento para que alguém continue exposto à violência física, psicológica ou sexual. Você pode perdoar um agressor e, ao mesmo tempo, sair de casa, buscar proteção e pedir ajuda. Se você vive uma situação de violência, procure a polícia (telefone 190) ou a Central de Atendimento à Mulher (telefone 180), e converse com pessoas de confiança e com a liderança da sua igreja. Se a dor chegou ao ponto de você pensar em tirar a própria vida, ligue para o CVV, no telefone 188, gratuito e disponível 24 horas.

Perdoar não é esquecer. A memória não obedece a decretos. Quando a Bíblia diz que Deus não se lembra mais dos nossos pecados (Is 43.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 31.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), quer dizer que ele não os usa mais contra nós. É isso que o perdão humano também faz: a lembrança pode voltar, mas deixa de ser usada como arma.

Por que perdoar tantas vezes é tão difícil

Quem já tentou sabe: perdoar uma vez é difícil; perdoar a mesma pessoa pela mesma coisa é muito mais. Há um cansaço legítimo nisso. Sentimos que o perdão repetido nos faz de bobos e estimula o erro.

C. S. Lewis observou, em Cristianismo puro e simples, que todos acham o perdão uma ideia bonita até terem, de fato, alguém a perdoar. A honestidade dele ajuda: perdoar não é natural. Por isso o perdão bíblico raramente é um evento único; costuma ser um processo. A pessoa decide perdoar, e no dia seguinte a raiva volta. Isso não significa que o perdão falhou. Significa que é preciso renovar a decisão — e talvez seja esse o sentido mais profundo dos setenta vezes sete: não apenas perdoar muitas ofensas, mas perdoar muitas vezes a mesma ofensa, dentro de nós, até que ela perca o poder.

O alerta de Dietrich Bonhoeffer, em Discipulado, contra a "graça barata" — o perdão oferecido sem arrependimento e sem mudança de vida — ajuda a manter o equilíbrio. O perdão generoso de Jesus não é tolerância com o pecado. Ele perdoa sem limite e, ao mesmo tempo, chama ao arrependimento (Lc 17.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Perdoar sem limite não é concordar sem limite.

Caminhos práticos para quem precisa perdoar de novo

À luz desses textos, alguns passos podem ajudar:

  1. Comece pela própria dívida. Antes de olhar para os cem denários, olhe para os dez mil talentos. A oração de Davi depois do seu pecado (Sl 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a lembrança de quanto você mesmo já foi perdoado mudam a proporção do conflito.
  2. Nomeie a ofensa com precisão. Escreva, se preciso, o que aconteceu e o que lhe custou. Não dá para cancelar uma dívida cujo valor você se recusa a olhar.
  3. Entregue a vingança, não a verdade. Diga a Deus que você abre mão de fazer o outro pagar. Isso não exige calar sobre o que aconteceu.
  4. Separe perdão, confiança e convivência. Decida perdoar; avalie com sabedoria quanto de confiança devolver e em que ritmo; estabeleça limites quando a relação for prejudicial.
  5. Converse, quando for seguro. O caminho de Mt 18.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma conversa a sós, franca e sem humilhar ninguém.
  6. Repita a decisão quantas vezes a ferida voltar. Quando a raiva reaparecer, não conclua que você não perdoou. Perdoe outra vez.
  7. Ore pelo outro. Jesus manda orar até pelos que nos perseguem (Mt 5.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É difícil odiar por muito tempo alguém por quem você ora com sinceridade.
  8. Busque ajuda. Feridas profundas — traições, abusos, perdas — muitas vezes precisam de acompanhamento pastoral e também de um psicólogo. Buscar esse cuidado não é falta de fé.

Em Cristo, o perdão que não se esgota

A parábola de Mt 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aponta, no fim, para algo maior do que um rei generoso. Aponta para o Deus que se revela compassivo e cheio de amor fiel (Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que lança os nossos pecados nas profundezas do mar (Mq 7.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e os afasta de nós tanto quanto o oriente está do ocidente (Sl 103.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Esse perdão tem um custo, e quem o pagou foi o próprio Cristo. A dívida impagável não foi simplesmente apagada com uma canetada; ela foi assumida na cruz. Paulo descreve Deus cancelando o registro de dívida que pesava contra nós e pregando-o na cruz (Cl 2.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o próprio Jesus, pendurado no madeiro, pediu ao Pai perdão para quem o crucificava (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali está o rei da parábola, não apenas abrindo mão do que lhe deviam, mas pagando com a própria vida.

É por isso que o Novo Testamento liga o nosso perdão ao dele. Paulo pede que sejamos bondosos e compassivos, perdoando-nos uns aos outros como Deus nos perdoou em Cristo (Ef 4.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que suportemos uns aos outros, perdoando as queixas, assim como o Senhor nos perdoou (Cl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O "como" é a medida e também a fonte. Não perdoamos para ser perdoados; perdoamos porque fomos — e porque, em Cristo, a reserva de perdão de onde tiramos nunca se esgota.

Então, existe limite para perdoar? Para a vingança, para a confiança cega e para a convivência com o perigo, sim: há limites, e a Escritura os reconhece. Para o perdão em si — a decisão de não cobrar a dívida, de não devolver o mal, de entregar a causa a Deus — Jesus não estabelece teto. Não porque o perdão seja fácil, mas porque o perdão que recebemos dele também não teve.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.