Cotidiano
Fazer bem aquilo que está em nossas mãos
O conselho de Eclesiastes para trabalhar com inteireza enquanto há vida — e a esperança em Cristo que dá a esse esforço um sentido que a morte não apaga.
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Segunda-feira de manhã. A planilha que ninguém vai elogiar, a louça que volta a se acumular, a aula para uma turma distraída, o relatório que provavelmente será lido na diagonal. Boa parte da vida acontece nesse território sem aplausos, e é justamente ali que surge a pergunta silenciosa: vale a pena fazer isso bem? Não bastaria fazer o suficiente para ninguém reclamar?
A Bíblia responde a essa pergunta num lugar inesperado: no livro mais cético e mais franco das Escrituras. Em Eclesiastes, o Pregador olha a vida sem maquiagem, reconhece a brevidade de tudo e, ainda assim, aconselha a fazer com toda a força aquilo que nos chega às mãos (Ec 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é um slogan motivacional. É a conclusão de alguém que encarou a morte de frente e decidiu que, justamente por isso, o presente merece ser vivido com inteireza.
Este artigo percorre esse conselho: o que ele significa no seu contexto, como ecoa no restante da Bíblia, o que ele não quer dizer e, sobretudo, como Jesus Cristo transforma o trabalho de cada dia em algo que não se perde.
O conselho do Pregador no seu contexto
Eclesiastes é narrado por Qohelet, palavra hebraica traduzida como "Pregador" ou "aquele que reúne a assembleia". O livro repete como refrão a palavra hevel, que literalmente significa "vapor", "sopro", "fôlego que se desfaz". Tudo debaixo do sol, diz ele, tem essa consistência: some como a respiração numa manhã fria (Ec 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ec 12.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O capítulo 9 é um dos mais duros do livro. O Pregador constata que justos e ímpios terminam do mesmo modo diante da morte (Ec 9.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que os mortos já não participam de nada do que acontece debaixo do sol (Ec 9.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É nesse cenário sombrio que vem, surpreendentemente, um convite à vida: comer o pão com alegria, beber o vinho com coração contente, vestir-se com dignidade, desfrutar a vida com a pessoa amada (Ec 9.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, logo em seguida, o conselho sobre o trabalho: tudo o que estiver ao alcance das mãos deve ser feito com toda a energia, porque no Sheol — a morada dos mortos — não há mais obra, planejamento, conhecimento ou sabedoria (Ec 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
"Com a tua força"
A expressão hebraica por trás desse conselho usa o termo koach, "força", "vigor", "capacidade". Não se trata de fazer além do que se pode, mas de empregar a força que se tem. O Pregador não pede heroísmo; pede inteireza. Fazer pela metade é desperdiçar a única ocasião em que aquela tarefa pode ser feita por você.
O trabalho como dom, não como fardo
Seria fácil ler o versículo como uma exortação ansiosa: "corra, que o tempo acaba". Mas o próprio Eclesiastes impede essa leitura. Várias vezes o livro afirma que comer, beber e encontrar satisfação no próprio trabalho é um presente que vem da mão de Deus (Ec 2.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ec 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ec 5.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O trabalho bem feito não é o preço para comprar sentido; é uma das formas de receber, com gratidão, o que Deus concede no tempo presente.
Há ainda um detalhe importante: logo depois, o Pregador observa que nem sempre o mais rápido vence a corrida nem o mais forte vence a batalha, porque o momento e as circunstâncias escapam ao controle humano (Ec 9.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ou seja, o conselho de fazer bem não vem acompanhado da promessa de sucesso garantido. O resultado não está em nossas mãos. O que está em nossas mãos é a qualidade e a fidelidade do que fazemos.
O trabalho bem feito ao longo da Escritura
Eclesiastes não está sozinho. Desde as primeiras páginas, a Bíblia apresenta o trabalho como parte da vocação humana, não como castigo.
Antes da queda, já havia trabalho
No Éden, Deus coloca o ser humano no jardim para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os verbos hebraicos são abad (trabalhar, servir) e shamar (guardar, cuidar) — os mesmos usados, mais tarde, para o serviço sacerdotal no santuário (Nm 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O trabalho, na origem, tem dignidade quase litúrgica. O que a queda introduz é o suor, o espinho e a frustração (Gn 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), não o trabalho em si.
Bezalel: o Espírito na oficina
Um dos textos mais bonitos sobre o tema está no Êxodo. Deus escolhe Bezalel e o enche do seu Espírito com sabedoria, entendimento e habilidade para trabalhar com ouro, prata, bronze, pedras e madeira na construção do tabernáculo (Êx 31.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 35.30-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a primeira vez que a Escritura descreve alguém cheio do Espírito de Deus — e o resultado é artesanato de excelência. A competência técnica, ali, é tratada como dom espiritual.
Rute, Neemias e o valor da diligência
Rute, a estrangeira viúva, conquista o respeito de Boaz pela constância com que trabalha no campo, quase sem descanso, desde a manhã (Rt 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Neemias e o povo reconstroem os muros de Jerusalém porque se dedicam de coração à obra, apesar de ameaças e zombarias, e concluem o trabalho em cinquenta e dois dias (Ne 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Provérbios observa que quem é hábil no que faz acaba servindo diante de reis, e não diante de gente obscura (Pv 22.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e contrasta repetidamente a mão diligente com a mão preguiçosa (Pv 10.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 13.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Nenhum desses textos promete riqueza a quem trabalha bem. O que eles mostram é que a fidelidade no trabalho comum tem peso diante de Deus e costuma frutificar na vida de outras pessoas.
O que este conselho não significa
Uma leitura apressada de Eclesiastes 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pode gerar distorções. Vale nomear algumas.
Não é perfeccionismo. Fazer bem não é fazer sem falhas. O perfeccionismo é, muitas vezes, uma forma de medo: medo de errar, de ser avaliado, de não ser suficiente. O Pregador fala de usar a força que se tem, não de alcançar um padrão impossível.
Não é idolatria do trabalho. O mesmo livro que manda trabalhar com vigor adverte contra quem se mata de trabalhar sem nunca perguntar para quem está se esforçando (Ec 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e afirma que é melhor uma mão cheia com tranquilidade do que as duas mãos cheias de canseira inútil (Ec 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 127 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra que é inútil madrugar e varar a noite em ansiedade, porque Deus concede o sustento aos que ama até enquanto dormem (Sl 127.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O descanso semanal, instituído desde a criação e dado como mandamento, é um limite santo ao trabalho (Gn 2.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 20.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Não é salvação pelas obras. Trabalhar bem não compra o favor de Deus. A salvação é dom da graça, recebido pela fé, e não resultado de esforço humano (Ef 2.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o versículo seguinte completa o quadro: fomos criados em Cristo para as boas obras que Deus preparou de antemão (Ef 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ordem importa: primeiro a graça, depois o trabalho como resposta.
Não é ativismo religioso. "O que está em nossas mãos" não se limita às atividades da igreja. Inclui a profissão, a casa, os estudos, o cuidado com os pais idosos, a conversa com o filho adolescente. Tudo isso faz parte do que Deus confiou a cada um.
O que Jesus ensina e faz
Se Eclesiastes deixa uma pergunta no ar — afinal, se tudo é sopro, para que serve o esforço? —, o Novo Testamento responde com uma pessoa.
O carpinteiro de Nazaré
Antes de pregar, curar ou ensinar publicamente, Jesus passou a maior parte da vida trabalhando com as mãos. Os conterrâneos o conheciam como tekton — palavra grega para o artesão que trabalha com madeira ou pedra (Mc 6.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 13.55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Filho de Deus santificou o trabalho comum vivendo-o durante anos, sem holofotes, numa aldeia pequena da Galileia. Isso diz algo sobre o valor que Deus dá às tarefas que ninguém aplaude.
A obra concluída
Na oração do capítulo 17 de João, Jesus diz ao Pai que o glorificou na terra ao completar a obra que lhe fora confiada (Jo 17.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, sua última palavra antes de entregar o espírito é tetelestai, termo grego que indica algo levado até o fim, plenamente realizado (Jo 19.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus é o modelo supremo de alguém que fez, com toda a força, aquilo que estava em suas mãos — e o que estava em suas mãos era a nossa redenção.
Fidelidade no pequeno
Nas parábolas, Jesus volta várias vezes ao tema. Na parábola dos talentos, o senhor elogia os servos que fizeram render o que receberam e repreende aquele que, por medo, enterrou o que lhe foi confiado (Mt 25.14-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ponto não é a quantidade recebida, mas a fidelidade com que cada um lidou com o que tinha. Em outro momento, Jesus ensina que quem é confiável nas coisas pequenas também o será nas grandes (Lc 16.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O cotidiano é o lugar onde o caráter se forma.
O destinatário verdadeiro do trabalho
Paulo leva esse ensino para dentro das casas e dos locais de trabalho. Escrevendo a pessoas que, em muitos casos, eram escravos sem nenhum reconhecimento social, ele orienta que façam tudo de coração, lembrando que estão servindo ao Senhor Cristo, e não apenas a patrões humanos, e que dele receberão a recompensa (Cl 3.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 6.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em outra carta, afirma que até comer e beber pode ser feito para a glória de Deus (1Co 10.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e aconselha os cristãos a viverem em paz, cuidando dos próprios afazeres e trabalhando com as próprias mãos, de modo a merecer o respeito dos de fora (1Ts 4.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Caminhos práticos para o dia a dia
À luz desses textos, algumas atitudes concretas ajudam a viver o conselho de Eclesiastes 9.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):
- Comece pelo que está à sua frente. Antes de sonhar com a grande obra, pergunte: o que Deus colocou hoje em minhas mãos? Um e-mail, uma aula, uma refeição, uma visita. A fidelidade começa no próximo passo, não no plano de cinco anos.
- Faça como se a tarefa fosse para Cristo — porque é. Quando o chefe não vê, quando o cliente não agradece, quando ninguém vai conferir, o trabalho continua tendo um destinatário (Cl 3.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso liberta tanto da preguiça quanto da busca ansiosa por aprovação.
- Separe o esforço do resultado. Você responde pela qualidade do que faz; o desfecho pertence a Deus (Ec 9.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 16.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso permite trabalhar com intensidade sem carregar o peso do controle.
- Respeite seus limites. Usar a força que se tem inclui reconhecer quando ela acabou. Descanso, sono e o dia de pausa fazem parte da obediência, não são concessões à fraqueza (Mc 6.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 127.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Não adie o que importa. O conselho do Pregador tem urgência: a vida é breve. A conversa difícil, o pedido de perdão, o projeto que você sabe que Deus colocou no seu coração não devem esperar indefinidamente (Tg 4.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Agradeça pelo trabalho. Eclesiastes insiste que encontrar satisfação no próprio esforço é dom de Deus (Ec 5.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gratidão transforma a rotina em lugar de encontro.
Uma palavra sobre o cansaço
Há quem leia este artigo exausto, sem forças para fazer mais nada bem feito. Se esse é o seu caso, ouça: "com a tua força" significa a força que você tem hoje, não a que tinha há dez anos nem a que os outros esperam de você. Em períodos de esgotamento, fazer bem pode significar simplesmente fazer o mínimo com honestidade e pedir ajuda. Quando o cansaço se prolonga, vira tristeza persistente ou tira o sentido da vida, procure um médico ou um psicólogo — isso não é falta de fé, é cuidado com o corpo que Deus lhe deu. E, se em algum momento surgirem pensamentos de desistir de viver, ligue para o CVV, no telefone 188, gratuito e disponível 24 horas.
Esperança em Cristo: nada do que se faz para ele se perde
Volte ao ponto de partida. O Pregador diz para fazer tudo com força porque a morte encerra todas as oportunidades. Do ponto de vista de quem vive apenas "debaixo do sol", o raciocínio é sóbrio e verdadeiro: um dia, tudo o que construímos será esquecido (Ec 2.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mas o Novo Testamento acrescenta algo que Eclesiastes apenas intuía. Depois de um capítulo inteiro sobre a ressurreição de Cristo e a ressurreição futura dos que lhe pertencem, Paulo tira uma conclusão prática surpreendente: por isso, permaneçam firmes e dediquem-se cada vez mais à obra do Senhor, sabendo que o esforço feito nele não é desperdiçado (1Co 15.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ressurreição muda o sentido do trabalho. Aquilo que, aos olhos do Pregador, era sopro, ganha, em Cristo, permanência.
O teólogo e escritor Timothy Keller, no livro Como integrar fé e trabalho, desenvolve essa ideia: o trabalho feito para Deus participa, de algum modo, da restauração que ele está realizando no mundo, e nada do que é feito em amor a ele é inútil. Muito antes, o monge carmelita Irmão Lourenço, que passou anos na cozinha de um mosteiro em Paris no século XVII, deixou registrado em cartas e conversas, reunidas em A prática da presença de Deus, que lavar panelas e preparar refeições podia ser vivido em comunhão tão real com Deus quanto a oração na capela.
É por isso que o cristão pode trabalhar com intensidade sem ansiedade. Não porque precisa provar algo, mas porque já foi aceito. Não porque o tempo está acabando e ele precisa deixar um legado, mas porque o seu trabalho está guardado nas mãos daquele que venceu a morte. Jesus completou a obra que o Pai lhe deu (Jo 17.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em resposta, nós fazemos com toda a força aquilo que ele coloca em nossas mãos — e descansamos, sabendo que a obra decisiva já foi feita por ele.
No fim do livro, o Pregador resume tudo: temer a Deus e guardar os seus mandamentos, porque Deus trará a julgamento toda obra, até a que está escondida (Ec 12.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que ninguém vê, Deus vê. A planilha da segunda-feira, a louça, a aula para a turma distraída — tudo pode ser oferecido a ele. E nada do que lhe é oferecido se perde.
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