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Grandeza segundo Jesus

Um pedido por lugares de honra vira lição em Mateus 20: no Reino, grande é quem serve, como o Filho que deu a vida pelos outros.

11 minutos de leitura

Todo mundo quer ser alguém. Na empresa, na família, na igreja e até nas redes sociais, a pergunta sobre quem é o mais importante nunca sai de cena — às vezes dita em voz alta, quase sempre em silêncio. Os discípulos de Jesus não eram diferentes. Andaram com ele por três anos, viram milagres, ouviram parábolas, e ainda assim discutiam posição, cargo e prestígio.

Mateus registra um desses momentos com uma franqueza que chega a constranger (Mt 20.20-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a resposta de Jesus, em poucas frases, vira de cabeça para baixo tudo o que o mundo entende por grandeza. Não se trata de uma dica de liderança nem de um conselho de boas maneiras: é uma descrição de como funciona o Reino de Deus — e de quem é o próprio Rei.

Um pedido no momento errado

O contexto torna a cena ainda mais desconcertante. Jesus está subindo para Jerusalém e acaba de anunciar, pela terceira vez, o que o espera lá: será entregue aos líderes religiosos, condenado à morte, humilhado pelos gentios, açoitado, crucificado — e ressuscitará ao terceiro dia (Mt 20.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o anúncio mais detalhado da paixão em todo o Evangelho de Mateus.

Logo em seguida, a mãe de Tiago e João, os filhos de Zebedeu, se aproxima com os dois, ajoelha-se e faz um pedido: que, quando o Reino de Jesus chegar, os seus filhos ocupem os dois lugares de honra, um de cada lado do trono (Mt 20.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Comparando as listas das mulheres junto à cruz (Mt 27.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), muitos estudiosos identificam essa mãe com Salomé — uma inferência razoável, embora o texto não a nomeie.

Marcos conta o mesmo episódio pondo o pedido na boca dos próprios irmãos (Mc 10.35-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas versões não se contradizem: a mãe fala, mas a ambição é dos três. Tanto que Jesus não responde a ela, e sim a eles.

O contraste é gritante. Jesus fala de cruz; eles pensam em trono. Jesus anuncia que vai perder tudo; eles calculam o que vão ganhar. Não é falta de fé — eles creem de verdade que Jesus vai reinar. O problema é que imaginam o Reino com a planta baixa dos reinos deste mundo: um palácio, um rei no centro e ministros disputando a cadeira mais próxima.

O cálice que eles não conheciam

Jesus não repreende com dureza. Diz simplesmente que eles não sabem o que estão pedindo e faz uma pergunta: são capazes de beber o cálice que ele está prestes a beber? (Mt 20.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No Antigo Testamento, o cálice (no grego da Septuaginta e do Novo Testamento, potērion) é com frequência imagem do juízo de Deus que alguém precisa beber até o fim (Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Poucos dias depois, no Getsêmani, Jesus pedirá ao Pai que, se possível, afaste dele esse cálice — e, em seguida, se entregará à vontade do Pai (Mt 26.39,42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O caminho para a glória que os irmãos desejavam passava por esse cálice.

Eles respondem que sim, que podem (Mt 20.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Respondem rápido demais. E, no entanto, Jesus confirma que de fato vão partilhar do seu sofrimento (Mt 20.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tiago será o primeiro dos Doze a morrer como mártir, executado à espada por Herodes Agripa (At 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João viverá longos anos e, segundo o próprio Apocalipse, estará exilado na ilha de Patmos por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus (Ap 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mas os lugares de honra, acrescenta Jesus, não são dele para distribuir como favor: pertencem àqueles para quem o Pai os preparou (Mt 20.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Grandeza no Reino não se negocia, não se pede por indicação e não se conquista por pressão de família.

A ironia da cruz

Há uma ironia que Mateus deixa para o leitor perceber. Quando Jesus enfim for proclamado rei — com a acusação "Rei dos judeus" pregada acima da cabeça —, haverá, sim, dois homens ao seu lado, um à direita e outro à esquerda. Mas serão dois criminosos crucificados com ele (Mt 27.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os irmãos pediram os lugares ao lado do trono sem saber que o trono de Jesus, naquela hora, seria uma cruz.

A indignação dos dez e o modelo dos poderosos

Os outros dez discípulos ficam indignados com os dois irmãos (Mt 20.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Seria bonito pensar que se indignaram por zelo espiritual. Mas a sequência sugere outra coisa: eles se irritaram porque Tiago e João tentaram chegar primeiro. A mesma ambição estava em todos. Não é à toa que, na própria noite da última ceia, a discussão sobre quem seria o maior volta à mesa (Lc 22.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jesus então chama os doze e põe diante deles um retrato que qualquer pessoa reconhece. Os governantes das nações dominam os povos, e os grandes fazem pesar sobre eles a sua autoridade (Mt 20.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os verbos gregos ajudam a ver a força da descrição: katakyrieuō indica exercer senhorio de cima para baixo, subjugar; katexousiazō, impor a autoridade, fazer o poder ser sentido.

É o modelo de sempre: grandeza medida pelo número de pessoas que obedecem a você, pela distância entre você e os de baixo, pelo quanto os outros existem para servi-lo. O Antigo Testamento conhece bem esse modelo e seus estragos. Quando Israel pede um rei, Samuel avisa: o rei tomará os filhos, as filhas, os campos e o melhor do povo para si (1Sm 8.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O episódio de Roboão é um retrato perfeito. Ao assumir o trono, ele ouve dois conselhos. Os anciãos lhe dizem que, se ele se puser a serviço do povo naquele dia, o povo o servirá para sempre; os jovens da sua geração o empurram para a mão pesada. Roboão escolhe a dureza — e o reino se divide (1Rs 12.6-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muito antes de Jesus, a Escritura já mostrava que o poder que esmaga acaba se destruindo.

No Reino, a escada está de cabeça para baixo

Jesus, então, diz a frase que muda tudo: entre os seus discípulos, não pode ser assim (Mt 20.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é um conselho para ser assim um pouco menos; é uma proibição do próprio modelo. E Jesus propõe o oposto: quem deseja ser grande deve tornar-se servidor dos outros; quem deseja ser o primeiro deve tornar-se escravo deles (Mt 20.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As duas palavras gregas aqui não são sinônimas, e a progressão importa:

Termo gregoSentido básicoO que acrescenta
diakonosservidor, quem atende à mesaserviço prestado, ajuda concreta
doulosescravo, servo que pertence a outrorenúncia de direitos, disponibilidade total

O desejo de ser grande não é condenado em si mesmo. Jesus não diz que é pecado querer ser grande; ele redefine o que grandeza significa e indica o único caminho até ela. O impulso de "ser alguém" é redirecionado: deixa de ser subir sobre os outros e passa a ser descer em direção a eles.

Essa inversão atravessa os Evangelhos. Quando os discípulos discutem quem é o maior, Jesus põe uma criança no meio deles e diz que acolhê-la é acolhê-lo (Mc 9.33-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os últimos serão primeiros, e os primeiros, últimos (Mt 20.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — justamente a frase que encerra a parábola dos trabalhadores da vinha, contada pouco antes do nosso episódio. E na ceia Jesus pergunta quem é maior, o que está à mesa ou o que serve — e se apresenta como aquele que serve (Lc 22.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Grandeza que não precisa de plateia

Esse serviço não é encenação. Pouco antes, Jesus havia criticado quem pratica a justiça para ser visto (Mt 6.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e logo adiante condenará quem ama os primeiros lugares nos banquetes e os títulos honrosos nas praças (Mt 23.5-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A grandeza do Reino aparece muitas vezes onde ninguém está olhando: no cuidado com um doente, na paciência com um filho difícil, no trabalho bem feito que ninguém elogia.

O que esta grandeza não é

O ensino de Jesus é simples, mas pode ser distorcido. Alguns equívocos comuns:

A ideia de liderança servidora ganhou espaço no mundo corporativo, sobretudo a partir do ensaio de Robert K. Greenleaf, The Servant as Leader (1970). É bom que boas práticas de gestão reconheçam o valor de servir à equipe. Mas a lição de Mateus 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) vai além de um estilo de gestão: ela nasce de uma Pessoa, e não de um método.

O Filho do Homem que serve e dá a vida

O ensino não termina numa regra. Termina num retrato. Jesus diz que ele próprio, o Filho do Homem, não veio para ser servido, mas para servir e entregar a sua vida como resgate por muitos (Mt 20.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Toda a lição se apoia nisso.

O título "Filho do Homem" evoca a visão de Daniel, em que alguém semelhante a um filho de homem recebe do Ancião de Dias domínio eterno, e todos os povos o servem (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse é o personagem mais glorioso de todo o Antigo Testamento — e é ele que se apresenta como servo. Quem tinha todo o direito de ser servido escolhe servir.

O resgate por muitos

A palavra grega lytron, "resgate", designava o preço pago para libertar um escravo ou um prisioneiro. Jesus descreve a própria morte assim: um preço pago para libertar outros. E a expressão "por muitos" lembra o Servo sofredor de Isaías, que carrega o pecado de muitos e intercede pelos transgressores (Is 53.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A grandeza de Jesus não é apenas um exemplo de humildade; é um ato de salvação. Ele não serve só lavando pés — serve morrendo em nosso lugar.

Por isso a ordem vem depois do dom. Antes de ser chamado a servir, o discípulo é alguém que foi servido por Cristo até a cruz. Paulo amarra as duas coisas: os cristãos devem ter entre si o mesmo modo de pensar de Cristo, que, sendo Deus, não se apegou à sua posição, esvaziou-se, assumiu a forma de servo e foi obediente até a morte de cruz — e por isso foi exaltado pelo Pai (Fp 2.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O caminho de Jesus é exatamente o que ele ensinou: descer para ser elevado, não por estratégia, mas por amor.

E na vida de quem lê

Isso muda coisas concretas:

  1. No trabalho: a pergunta deixa de ser apenas "quem manda aqui?" e passa a ser também "a quem eu sirvo com o que faço?". Um gestor que conhece a equipe pelo nome, assume os próprios erros e dá crédito a quem fez o trabalho está mais perto de Mateus 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) do que muitos discursos sobre propósito.
  2. Na família: o pai ou a mãe que usa a autoridade para formar, proteger e acolher, e não para impor a própria vontade, reflete o modelo de Jesus. Maridos são chamados a amar como Cristo amou a igreja, entregando-se por ela (Ef 5.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  3. Na igreja: cargos e funções existem para edificar o corpo, não para dar status (Ef 4.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo se apresentava como servo dos coríntios por amor de Jesus (2Co 4.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  4. No coração: vale perguntar com honestidade onde você está pedindo, como os filhos de Zebedeu, um lugar ao lado do trono — reconhecimento, influência, a última palavra — enquanto Jesus o convida para a mesa onde ele mesmo serve.

Tiago e João pediram um lugar de honra e receberam um cálice. Ainda assim, não saíram perdendo. Aprenderam, com o tempo, que estar perto de Jesus significa estar onde ele está — e ele está entre os que servem. A grandeza que ele oferece não depende de cargo, aplauso ou posição. Depende de olhar para o Filho do Homem que deu a vida por muitos, receber o que ele fez e, a partir daí, aprender a servir também.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.