Cotidiano
Muitos conhecidos, poucos amigos
Num tempo de contatos sem fim, Provérbios separa a multidão de companheiros do amigo que permanece — e Jesus mostra como ser esse amigo.
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Você talvez tenha centenas de contatos no celular, alguns milhares de seguidores e grupos de mensagens que não param de vibrar. E, ainda assim, quando a notícia difícil chega — o exame alterado, a demissão, o casamento em crise —, talvez não saiba bem a quem ligar às duas da manhã. A experiência é comum e não precisa vir acompanhada de vergonha: ter muitos conhecidos e poucos amigos é uma das marcas do nosso tempo.
A Bíblia conhece essa diferença há cerca de três mil anos. Um provérbio curto, da coleção atribuída a Salomão, coloca lado a lado a multidão de companheiros e o amigo que fica (Pv 18.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Este artigo percorre esse contraste: o que o provérbio diz, como a Escritura retrata amizades verdadeiras e falsas, o que Jesus ensina e faz, e que passos concretos ajudam a sair da superfície para a profundidade.
O que o provérbio realmente diz
Pv 18.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem duas metades, e cada uma usa uma palavra diferente para "amigo".
A primeira fala de quem vive cercado de companheiros. O termo hebraico é rea', uma palavra ampla: vizinho, colega, alguém com quem se convive. O verbo que vem em seguida foi entendido de mais de uma forma, e as traduções em português refletem isso — algumas falam em sair perdendo ou ir à ruína; outras, em alegrar-se com os amigos. Boa parte dos comentaristas aproxima o verbo da raiz ra'a', "quebrar", "despedaçar", e nota um jogo de sons entre rea' (companheiro) e esse verbo. O sentido mais provável é este: a quantidade de companheiros não protege ninguém e pode até deixar a pessoa em pedaços quando a crise chega e todos somem.
A segunda metade troca de palavra. Já não é rea', mas 'ohev, particípio do verbo "amar": literalmente, "aquele que ama". E esse amigo faz algo — ele se apega. O verbo é dabaq, o mesmo usado quando o homem se une à mulher (Gn 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e quando Rute se agarra a Noemi em vez de voltar para casa (Rt 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O provérbio afirma que a lealdade desse amigo vai além até da de um parente de sangue.
O contraste, portanto, não é entre ter amigos e não ter. É entre dois tipos de vínculo: o da convivência, que se multiplica com facilidade, e o do amor que se apega, que é raro e custa caro. O provérbio não condena os conhecidos — a vida comum é feita deles, e a Escritura valoriza a boa vizinhança e a hospitalidade (Pv 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele só avisa que não se deve confundir uma coisa com a outra.
Uma sabedoria que a experiência confirma
Fora da Bíblia, a mesma intuição aparece com frequência. Aristóteles, na Ética a Nicômaco (livros VIII e IX), distingue as amizades nascidas da utilidade e do prazer, que acabam quando a vantagem acaba, da amizade entre pessoas que querem o bem uma da outra — e observa que esta é rara e não pode ser estendida a muitos.
A pesquisa moderna caminha no mesmo sentido. O antropólogo britânico Robin Dunbar propôs que uma pessoa consegue manter em torno de 150 relações estáveis, mas que o círculo mais íntimo costuma ter cerca de cinco. O Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard, que acompanha participantes desde 1938 e hoje é dirigido pelo psiquiatra Robert Waldinger, aponta a qualidade dos relacionamentos próximos como um dos fatores mais fortemente ligados à saúde e à felicidade na velhice. E em 2023 o principal órgão de saúde pública dos Estados Unidos publicou um alerta tratando a solidão como problema de saúde coletiva. A Escritura não precisa dessas confirmações, mas elas mostram que o provérbio descreve algo real.
Amizades que a Escritura guarda
A Bíblia não define a amizade num tratado; ela a mostra em histórias.
Davi e Jônatas. O filho do rei se afeiçoa ao jovem pastor logo depois da vitória sobre Golias, firma com ele uma aliança e lhe entrega o manto, a espada e o arco — os sinais da própria posição (1Sm 18.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois, arrisca a relação com o pai para proteger o amigo (1Sm 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Jônatas morre, Davi o lamenta como a uma perda sem igual (2Sm 1.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, anos mais tarde, procura um descendente dele para lhe fazer o bem, recebendo Mefibosete à sua mesa (2Sm 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É uma amizade com compromisso, custo e fidelidade que sobrevive à morte.
Rute e Noemi. Uma viúva estrangeira se recusa a abandonar a sogra, também viúva e amargurada, e decide partilhar com ela o povo, a terra, a fé e até o lugar da sepultura (Rt 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não havia vantagem nenhuma em ficar. Por isso mesmo, era amizade.
Os amigos de Jó. Eles começam bem: viajam para consolá-lo e se sentam com ele sete dias em silêncio, porque viam que a dor era grande demais (Jó 2.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O problema vem quando abrem a boca para explicar o sofrimento, e Deus, ao final, reprova o que disseram (Jó 42.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A lição atravessa os séculos: nas horas escuras, a presença vale mais que a explicação.
O que Provérbios ensina. O amigo verdadeiro ama em todo tempo, e o irmão existe para a hora da angústia (Pv 17.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As feridas de quem ama são confiáveis, ao contrário dos beijos de quem odeia (Pv 27.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Assim como o ferro afia o ferro, uma pessoa aperfeiçoa a outra (Pv 27.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Eclesiastes completa: dois são melhores que um, porque, se um cair, o outro o levanta (Ec 4.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A amizade de ocasião. O mesmo livro é realista sobre o outro lado. A riqueza atrai companhias, e a pobreza as afasta — até os parentes evitam o pobre (Pv 19.4,6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os salmos registram a dor de ser traído justamente por quem partilhava a mesa e a casa de oração (Sl 41.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 55.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Paulo no fim da vida. O apóstolo que fundou igrejas e conheceu centenas de pessoas escreve da prisão que Demas o abandonou e que, na primeira defesa diante do tribunal, ninguém ficou ao seu lado (2Tm 4.10,16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas Lucas permanecia com ele (2Tm 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Onesíforo, sem se envergonhar das correntes, procurou-o por Roma até encontrá-lo (2Tm 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Até Paulo terminou a vida com muitos conhecidos e poucos amigos — e esses poucos fizeram toda a diferença.
O que Jesus ensina e faz
Ele tinha círculos
Os Evangelhos mostram Jesus cercado de multidões, mas não íntimo de todos da mesma forma. Havia os setenta e dois enviados em missão (Lc 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os Doze, escolhidos antes de tudo para estarem com ele (Mc 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os três que testemunharam momentos que os outros não viram — Pedro, Tiago e João (Mc 5.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 9.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e a casa de Betânia, onde Marta, Maria e Lázaro eram amados por ele de modo especial (Jo 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus amava a multidão, mas cultivava a amizade com intenção. Isso liberta quem se culpa por não ser próximo de todo mundo: nem o Filho de Deus foi.
Ele chama de amigos
Na última ceia, Jesus diz que não há amor maior que entregar a vida pelos amigos, e que já não chama os discípulos de servos, mas de amigos, porque lhes revelou tudo o que ouviu do Pai (Jo 15.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amizade, para ele, é intimidade partilhada e entrega da própria vida. Os adversários o acusaram de ser amigo de cobradores de impostos e pecadores (Mt 11.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a acusação, sem querer, virou um retrato fiel.
Ele chora com o amigo
Diante do túmulo de Lázaro, Jesus chora, e os presentes entendem o quanto ele o amava (Jo 11.35-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele sabia que ressuscitaria o amigo minutos depois e, mesmo assim, não pulou a dor. A amizade de Jesus não é fria nem apressada.
Ele conheceu o abandono
Nenhuma página mostra melhor o contraste de Pv 18.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) do que a noite da prisão. No Getsêmani, Jesus pede a Pedro, Tiago e João que vigiem com ele, e os encontra dormindo (Mt 26.38-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Judas o entrega com um beijo, e Jesus ainda o chama de amigo (Mt 26.49-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois, todos os discípulos fogem (Mt 26.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus aplica a si o salmo do amigo íntimo que se volta contra ele (Jo 13.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 41.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As multidões que o aclamaram dias antes desapareceram. Ele viveu, no extremo, a experiência de muitos conhecidos e quase nenhum amigo.
Ele restaura
E, no entanto, não desistiu dos amigos que falharam. Depois da ressurreição, à beira do mar, Jesus pergunta três vezes a Pedro se ele o ama — uma pergunta para cada negação — e o devolve à missão (Jo 21.15-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A amizade de Cristo não depende do nosso desempenho; ela sobrevive às nossas fugas.
Caminhos práticos
Sair da superfície para a profundidade não acontece por acaso. Alguns passos, à luz dos textos:
- Faça um inventário honesto, sem se acusar. Pergunte quem, de fato, você procuraria numa crise, e quem procuraria você. A resposta pode doer, mas é o ponto de partida.
- Escolha poucos e invista tempo. Jesus escolheu Doze e três. Um estudo de Jeffrey Hall, da Universidade do Kansas, publicado em 2018, estimou que uma amizade próxima exige bem mais de cem horas de convivência para se formar. Amizade não se terceiriza a curtidas.
- Seja o amigo antes de esperar por um. Trate os outros como você gostaria de ser tratado (Lc 6.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ligue, convide, apareça. Quase sempre o outro também está esperando alguém dar o primeiro passo.
- Aceite e ofereça franqueza. O amigo que afia é o que às vezes incomoda (Pv 27.6,17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem só ouve elogios tem plateia, não amigos.
- Esteja presente nas horas difíceis. Lembre-se dos sete dias de silêncio dos amigos de Jó. Chorar com os que choram (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) muitas vezes dispensa palavras.
- Perdoe e repare. Amizades longas atravessam ofensas. Quem cobre a falta busca o amor; quem a espalha separa os amigos (Pv 17.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Use a igreja como lugar de vínculos, não só de eventos. A comunidade de Atos partilhava a mesa, a oração e a vida (At 2.42-47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a carta aos Hebreus exorta a não abandonar os encontros, para estimular uns aos outros (Hb 10.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um grupo pequeno, uma equipe de serviço, uma refeição depois do culto podem ser a porta.
- Se a solidão pesar demais, peça ajuda. Solidão prolongada pode se transformar em tristeza profunda ou depressão. Buscar um psicólogo ou um médico não é falta de fé — é cuidado com a vida que Deus deu. Se em algum momento surgirem pensamentos de desistir de viver, ligue para o CVV, no telefone 188, gratuito, 24 horas por dia.
O amigo que não vai embora
O provérbio fala de um amigo cuja lealdade supera a de um irmão. Muitos leitores cristãos, ao longo dos séculos, viram nessa figura um retrato de Cristo — e, embora o Novo Testamento não cite o versículo para isso, a ligação tem apoio no que ele mesmo diz e faz. Jesus não se chama apenas de Senhor; ele se faz irmão dos que salva (Hb 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e chama de amigos os que o seguem (Jo 15.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ele é o amigo que ficou quando todos fugiram e que foi à cruz por amigos que o tinham abandonado. Prometeu não deixar nem desamparar os seus (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e estar com eles todos os dias, até o fim (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, que conheceu o abandono no tribunal, escreve na mesma carta que o Senhor esteve ao seu lado e o fortaleceu quando ninguém ficou (2Tm 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e afirma em outra que nada — nem angústia, nem perseguição, nem morte — pode nos separar do amor de Deus em Cristo (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Essa amizade não substitui os amigos humanos; ela é a fonte deles. Amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o mandamento que acompanha o título de amigos é amar uns aos outros como ele nos amou (Jo 15.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem é acolhido por Cristo aprende a acolher, e a igreja, no seu melhor, é exatamente isto: uma comunidade de pessoas que deixaram de ser apenas conhecidas.
Se hoje você tem muitos contatos e poucos amigos, não comece pelo que falta. Comece por quem já se aproximou de você sem esperar nada em troca. A partir dele, dê o primeiro passo em direção a alguém — e talvez você descubra que, para outra pessoa, o amigo que permanece é você.
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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.