Temas bíblicos
O Deus que conhece nossa história antes de nós
Uma leitura de Sl 139.1-18: o Deus que nos examina, nos acompanha em qualquer lugar e já sabia de nossos dias antes do primeiro.
12 minutos de leitura
Há uma parte da nossa história que ninguém viu. Os pensamentos que nunca dissemos em voz alta, as decisões tomadas de madrugada, os medos que escondemos até de quem dorme ao nosso lado. Há também a parte que nem nós vimos: os meses no ventre da mãe, os primeiros anos de que não guardamos lembrança. Cada pessoa carrega uma biografia que não conhece por inteiro.
O Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nasce exatamente desse ponto. É a oração de alguém que descobre que existe um leitor completo da sua vida — alguém que conhece cada página, inclusive as que ainda não foram escritas. E o salmo obriga a uma pergunta séria: ser conhecido assim é ameaça ou consolo? À primeira vista, pode soar como vigilância. O salmista, ao final, chama isso de maravilha. Este artigo percorre os versículos 1 a 18 para entender por quê.
Um salmo para ser orado, não apenas estudado
O título do salmo o atribui a Davi e o dirige ao mestre de música, o que indica seu uso no culto de Israel. O texto se organiza em quatro movimentos de seis versículos cada: o conhecimento de Deus (Sl 139.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a presença de Deus (Sl 139.7-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Deus como Criador da vida do salmista (Sl 139.13-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, por fim, uma oração intensa em que ele se coloca diante do juízo divino (Sl 139.19-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os três primeiros são o centro deste artigo; ao quarto voltaremos no fim.
A teologia chama esses temas de onisciência e onipresença, e com razão. Mas o salmista não fala sobre Deus — fala com Deus, do começo ao fim, em segunda pessoa. O conhecimento que Deus tem de nós não foi revelado para ser debatido à distância, e sim para ser recebido em oração.
Conhecido por inteiro
O salmo abre com o verbo hebraico chaqar, "sondar", "investigar a fundo". É o verbo usado para os homens que exploram uma terra antes de entrar nela (Jz 18.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para o rei que pesquisa um assunto até o fim (Pv 25.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo em seguida vem yada, "conhecer" — palavra que no hebraico vai além da informação e indica conhecimento por convivência, por relação. Deus não sabe a respeito do salmista como quem consulta um arquivo; Ele o conhece como quem esteve presente em cada momento.
E esse conhecimento desce ao mais comum da vida. Deus sabe quando o salmista se senta e quando se levanta, quando sai para o caminho e quando se deita para descansar (Sl 139.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Percebe de longe o que ele está pensando, e conhece a frase antes mesmo de ela chegar aos lábios (Sl 139.2,4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhuma rotina é pequena demais para esse olhar.
Depois vem uma imagem de envolvimento: Deus o rodeia por todos os lados e pousa a mão sobre ele (Sl 139.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O gesto pode ser lido como prisão ou como abrigo. Sua reação, porém, não é medo nem revolta: ele confessa que esse conhecimento está acima da sua capacidade de compreender (Sl 139.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não tenta dominar a doutrina; curva-se diante dela.
Por que isso consola
Todos nós somos conhecidos em parte: os colegas veem nossa competência; a família, nossos defeitos. Cada um enxerga um fragmento — e muitas vezes nos julga por ele. Diante de Deus, nenhum julgamento nasce de informação incompleta. Ele não se engana a nosso respeito: nem para pior, como quem só enxerga os erros, nem para melhor, como quem se recusa a ver as falhas.
Agostinho, nas Confissões (livro III), descreve essa experiência ao dizer que Deus lhe era mais interior do que o seu próprio íntimo. Diante dele, não precisamos manter personagem.
Não há para onde fugir — e não é preciso fugir
O segundo movimento começa com uma pergunta: para onde o salmista poderia ir, longe do Espírito de Deus e da sua presença (Sl 139.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? Ele então percorre os extremos do mundo que conhecia. Se subisse ao céu, Deus estaria lá; se descesse ao sheol — a morada dos mortos no pensamento hebraico —, Deus também estaria (Sl 139.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se partisse com a primeira luz da manhã e fosse morar no ponto mais distante do mar, ali mesmo a mão de Deus o conduziria e o seguraria (Sl 139.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Muitos na Bíblia tentaram fugir. Adão e Eva se esconderam entre as árvores do jardim (Gn 3.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jonas comprou passagem para Társis, na direção contrária à que Deus havia mandado (Jn 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Elias, exausto e com medo, entrou no deserto e depois numa caverna (1Rs 19.4-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em todos esses episódios, Deus encontra o fugitivo — não para destruí-lo, mas para chamá-lo de volta. A pergunta feita a Adão sobre onde ele estava não revelava falta de informação; era um convite a sair do esconderijo.
O salmista faz ainda uma última tentativa: imagina que a escuridão poderia escondê-lo (Sl 139.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E descobre que, para Deus, noite e dia não fazem diferença alguma (Sl 139.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para muita gente, a escuridão não é física. É a culpa que ninguém conhece, o luto que não passa, a depressão que tira a cor dos dias, o segredo que pesa. O salmo afirma que ali também Deus está. A noite que nos esconde de todos não nos esconde dele — nem nos afasta dele.
Uma palavra pastoral é necessária aqui. Quem atravessa noites assim precisa também de mãos humanas: amigos, a comunidade da igreja e, quando for o caso, acompanhamento médico e psicológico. A presença de Deus não dispensa esses cuidados; muitas vezes chega por meio deles.
Conhecido antes de nascer
No terceiro movimento, o salmista volta ao início da própria história — a uma fase anterior a qualquer memória. Ele afirma que Deus formou o seu interior, literalmente os seus "rins" (kilyot), que na linguagem hebraica designavam a sede das emoções e dos afetos mais profundos, e que o teceu no ventre da mãe (Sl 139.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gestação aparece como obra de artesão.
A imagem se aprofunda no versículo 15. O salmista diz que foi formado num lugar oculto, fora do alcance de qualquer olhar humano, e usa o verbo raqam, ligado ao bordado com fios de várias cores — o mesmo campo de palavras empregado para o trabalho artístico das cortinas do tabernáculo (Êx 26.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Diante disso, o salmista louva: reconhece que foi feito de modo admirável e que as obras de Deus são maravilhosas, e afirma ter plena consciência disso (Sl 139.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O louvor não nasce de autoestima inflada: o extraordinário é o Artesão.
O versículo 16 traz uma palavra que só aparece aqui em todo o Antigo Testamento: golem, a matéria ainda sem forma definida — o embrião. Deus via o salmista quando ele ainda nem tinha contorno. E mais: todos os seus dias já estavam registrados no livro de Deus antes que o primeiro deles começasse (Sl 139.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Essa convicção atravessa a Escritura. Deus diz a Jeremias que já o conhecia e o havia separado antes que fosse formado no ventre (Jr 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo afirma ter sido separado desde o ventre materno e chamado pela graça (Gl 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o mesmo Paulo ensina que os que estão em Cristo foram escolhidos antes da fundação do mundo e criados para boas obras que Deus preparou de antemão (Ef 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A consequência prática é profunda: o valor de uma pessoa não começa no que ela produz. Antes de qualquer conquista, antes até de ter nome, ela já era conhecida. Quem cresceu ouvindo que "não foi planejado", ou que chegou "na hora errada", pode encontrar aqui uma palavra de cura: os pais talvez não tenham planejado; Deus não foi surpreendido. Muitos cristãos veem também nesses versículos um fundamento para a dignidade da vida humana desde a gestação — leitura coerente com o texto, desde que se lembre que se trata de poesia de adoração, não de um manual de embriologia.
O que o livro dos dias não significa
Uma passagem tão forte pode ser mal lida:
- Não é fatalismo. O mesmo salmo termina com o salmista pedindo que Deus o examine e o conduza (Sl 139.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem acredita num destino cego não ora; quem confia num Pai, sim. A Escritura mantém juntas a soberania de Deus e a responsabilidade humana (Fp 2.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Não transforma todo sofrimento em castigo nem faz de Deus o autor do mal. Na história de José, o mal planejado pelos irmãos continuou sendo mal, ainda que Deus o tenha conduzido para o bem (Gn 50.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Jesus recusa a ideia de que toda doença seja punição por pecado (Jo 9.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Não autoriza a passividade. Saber que Deus conhece o caminho não dispensa ninguém de andar nele com sabedoria.
Pensamentos que não se podem contar
Nos versículos 17 e 18, o salmo faz uma virada delicada. Até aqui, o salmista falou do que Deus pensa e sabe a respeito dele. Agora ele contempla esses pensamentos e os chama de preciosos. Tenta somá-los e desiste: seriam mais numerosos que os grãos de areia (Sl 139.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que no início parecia vigilância revela-se cuidado. Os pensamentos de Deus sobre nós não são uma ficha de acusação; são atenção amorosa, incontável.
E o trecho termina com uma frase de repouso: ao despertar, o salmista ainda está com Deus (Sl 139.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pode ser o acordar de uma noite de sono. Alguns leitores cristãos, à luz da revelação posterior, enxergam aqui também um eco da esperança do despertar final (Dn 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — leitura possível, que deve ser feita com moderação. Em qualquer caso, nem o sono interrompe a presença de Deus.
Os versículos seguintes surpreendem: o salmista se indigna contra os violentos que se levantam contra Deus (Sl 139.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — uma honestidade que a oração bíblica não esconde. E então fecha retomando o verbo do começo: pede que Deus o examine, conheça suas inquietações, veja se há nele algum caminho que fere e o leve pelo caminho que permanece (Sl 139.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo que começou com uma constatação termina com um pedido: o conhecimento que poderia assustar tornou-se aquilo que ele mais deseja.
Em Cristo, conhecidos e amados
Tudo o que o Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) afirma sobre Deus ganha rosto em Jesus. Nos Evangelhos, Ele conhece as pessoas antes que elas se apresentem. Natanael fica espantado porque Jesus o tinha visto debaixo da figueira antes de qualquer encontro (Jo 1.47-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João registra que Jesus não precisava que ninguém lhe explicasse o ser humano, porque conhecia o que havia dentro de cada um (Jo 2.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O mais impressionante, porém, é o que Jesus faz com esse conhecimento. Diante da mulher samaritana, Ele revela que conhece toda a sua história afetiva — e não a expulsa; oferece-lhe água viva. Ela volta à cidade anunciando que encontrou alguém que conhecia a sua vida inteira (Jo 4.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 4.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ser plenamente conhecida não a destruiu; libertou-a.
Jesus se apresenta como o Bom Pastor que conhece as suas ovelhas e é conhecido por elas — e que dá a vida por elas (Jo 10.11,14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Pedro, depois de negá-lo três vezes, é perguntado três vezes se o ama, não tem argumento a oferecer além deste: Jesus sabe todas as coisas, e sabe que ele o ama (Jo 21.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo conhecimento que poderia condená-lo tornou-se o seu único refúgio.
A Carta aos Hebreus reúne as duas pontas. Primeiro afirma que nenhuma criatura está oculta diante de Deus e que tudo está exposto aos seus olhos (Hb 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo em seguida, apresenta Jesus como o sumo sacerdote que se compadece das nossas fraquezas, porque foi tentado em tudo, sem pecado — e, por isso, convida a nos aproximarmos com confiança (Hb 4.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Cristo, ser totalmente visto deixa de ser ameaça.
Timothy Keller, em O significado do casamento, observa que ser amado sem ser conhecido conforta pouco, e ser conhecido sem ser amado é o que mais tememos; ser plenamente conhecido e, ainda assim, verdadeiramente amado é o que mais se aproxima do amor de Deus. O evangelho é exatamente isso: Deus nos conhece melhor do que nós mesmos e, conhecendo-nos, entregou o Filho por nós (Rm 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Salmo 139 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz que não há lugar onde Deus não esteja; Paulo completa ensinando que nada, em nenhuma dimensão da existência, pode nos separar do amor de Deus em Cristo (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus confirma ao chamar Deus de Pai que conhece até o número dos fios de cabelo dos seus filhos (Mt 10.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ao prometer estar com os seus todos os dias (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O nome dado a Ele no nascimento, Emanuel, "Deus conosco", é a resposta definitiva à pergunta do salmista sobre para onde fugir (Mt 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que muda na vida de quem lê
- Você pode parar de se esconder. Diante de Deus não há personagem a sustentar. A confissão sincera não informa a Deus o que Ele não sabe; abre a porta para a graça que Ele já ofereceu (1Jo 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Seu valor não está em discussão. Você foi conhecido antes de produzir qualquer coisa. Isso liberta tanto do orgulho quanto do desprezo por si mesmo.
- Sua história tem um Autor maior que seus erros. Aquele que viu o primeiro dia também conhece o último.
- A noite não é ausência de Deus. Nas horas escuras, a oração honesta do salmista pode ser a sua — e a ajuda de irmãos e profissionais pode ser a forma como Deus se faz presente.
- Termine como o salmo termina. Peça que Deus examine seu coração e o conduza. O que era medo de ser visto pode se tornar a oração mais confiante da sua vida.
Paulo resume a esperança cristã dizendo que hoje conhecemos em parte, mas um dia conheceremos plenamente, assim como já somos plenamente conhecidos (1Co 13.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antes de conhecermos nossa própria história, Deus já a conhecia. E, em Cristo, a conhece por inteiro — e nos ama.
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