Cotidiano
O difícil exercício de esperar em Deus
O Salmo 37 ensina a confiar quando a resposta demora: entregar o caminho, aquietar o coração e não arder por dentro diante da injustiça.
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Há esperas que cabem numa fila de banco. E há outras que ocupam anos: o resultado de um exame, uma vaga de emprego que não chega, um filho que se afastou da fé, um casamento que não se resolve, uma oração repetida tantas vezes que já parece não ter mais palavras.
O que torna a espera tão difícil não é só a demora. É a sensação de que tudo depende de nós e, ao mesmo tempo, de que nada está ao nosso alcance. É olhar para o lado e ver quem age sem escrúpulos prosperar com rapidez, enquanto quem procura viver com retidão continua parado na mesma porta. Foi exatamente para esse tipo de coração inquieto que Davi escreveu o Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e no centro dele estão três versículos que funcionam como um pequeno manual da espera (Sl 37.5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Um salmo escrito para quem se irrita com a demora
O Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um salmo de sabedoria, composto em forma de acróstico: cada pequena estrofe começa com uma letra do alfabeto hebraico, em sequência. Não é um grito de angústia no meio da crise, como tantos salmos de lamento; é a reflexão serena de alguém que já viveu bastante. O próprio salmista escreve na velhice, olhando para trás e testemunhando o cuidado de Deus com os seus ao longo de toda uma vida (Sl 37.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O problema que o salmo enfrenta aparece logo na abertura: a tentação de se inflamar por causa dos que fazem o mal e parecem se dar bem (Sl 37.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo hebraico ali é charah, que tem a ideia de "arder", "esquentar-se". É a imagem de uma brasa interior que vai consumindo quem a carrega. O salmo voltará a essa palavra mais duas vezes (Sl 37.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como quem insiste: o maior risco da espera não é a demora em si, mas o que ela pode fazer dentro de nós.
Três atitudes de quem espera bem
Rolar o caminho sobre Deus
O primeiro movimento é entregar o próprio caminho ao Senhor e confiar nele (Sl 37.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo hebraico traduzido por "entregar" é galal, que significa literalmente "rolar". É a palavra usada para rolar uma pedra pesada (Gn 29.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imagem é muito concreta: há cargas que não conseguimos carregar nos braços. A única coisa que se pode fazer com elas é empurrá-las, rolá-las, para cima de alguém mais forte.
"Caminho", na linguagem bíblica, é a vida inteira em movimento: decisões, rumos, projetos, preocupações. Rolar o caminho sobre Deus não significa parar de caminhar, mas parar de fingir que o peso é nosso. E o versículo associa essa entrega à confiança, expressa pelo verbo batach, que traz a ideia de apoiar-se com segurança, de estar firme porque se está encostado em algo sólido. A promessa que acompanha a entrega é que Deus mesmo agirá (Sl 37.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Repare que o texto não diz quando, nem como. Diz apenas quem agirá. A espera bíblica não se apoia num prazo, mas numa pessoa.
Aquietar-se diante dele
O segundo movimento é ainda mais desafiador: aquietar-se diante de Deus e esperar por ele com paciência (Sl 37.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui aparecem dois termos preciosos. O primeiro é dom, que significa "ficar em silêncio", "calar-se", "ficar imóvel". É o silêncio de quem parou de discutir com Deus, de quem desistiu de convencê-lo de que o próprio plano é melhor. Não é um silêncio vazio, mas um silêncio de confiança, como o de uma criança que, depois de chorar, descansa no colo da mãe (Sl 131.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O segundo termo vem da raiz chul e, na forma usada no versículo, carrega a ideia de esperar com intensidade, quase com dor, como alguém que se contorce. A Bíblia não romantiza a espera. Ela reconhece que esperar dói, que há algo de laborioso e sofrido nela. A mesma raiz descreve, em outros textos, as dores de parto: é uma dor fecunda, que gera algo.
Juntos, os dois termos formam um quadro honesto: a espera de quem confia é quieta, porque não se debate contra Deus, e intensa, porque continua aguardando a ação dele.
Não arder por dentro
O terceiro movimento é negativo: não se inflamar por causa de quem prospera por caminhos tortos, nem de quem leva adiante os seus planos maldosos (Sl 37.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo charah volta aqui. E logo em seguida o salmista acrescenta que essa irritação só conduz ao mal (Sl 37.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Isso é profundamente realista. Quem espera muito tempo é tentado a comparar. A comparação gera ressentimento, o ressentimento gera amargura, e a amargura acaba empurrando para atalhos: "se os outros conseguem assim, por que eu não?". O salmo lembra que a prosperidade do injusto passa depressa, como o capim que o calor resseca (Sl 37.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que a modesta porção de quem vive com retidão supera a fartura acumulada por quem vive sem Deus (Sl 37.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Entre o rolar e o aquietar, há ainda uma promessa: Deus fará a retidão de quem confia aparecer com toda a clareza, como a luz plena do dia (Sl 37.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A justiça pode demorar a ser vista, mas não ficará escondida para sempre.
Os que esperaram antes de nós
A Bíblia está cheia de gente que conheceu longas esperas. Ninguém delas foi poupado da demora; todas foram sustentadas nela.
Abraão recebeu a promessa de uma descendência quando já tinha 75 anos (Gn 12.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Isaque nasceu quando ele tinha 100 (Gn 21.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foram cerca de 25 anos entre a promessa e o cumprimento. Nesse intervalo houve fé genuína (Gn 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e também tentativas de "ajudar" Deus por conta própria, como no episódio com Agar (Gn 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
José foi vendido pelos irmãos aos 17 anos (Gn 37.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e só foi elevado a governador do Egito aos 30 (Gn 41.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Treze anos de escravidão, injustiça e prisão. E, no entanto, anos depois, conseguiu olhar para trás e reconhecer que Deus havia conduzido tudo para o bem (Gn 50.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Davi, o autor do salmo, foi ungido rei ainda jovem (1Sm 16.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas passou anos fugindo de Saul, escondido em cavernas e no deserto, antes de reinar (2Sm 5.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por duas vezes teve a chance de matar Saul e encurtar a espera, e por duas vezes recusou fazê-lo (1Sm 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Simeão e Ana, no início do Evangelho de Lucas, representam todo o povo que aguardava a restauração de Israel. Simeão havia recebido a promessa de que veria o Cristo antes de morrer; Ana, viúva havia décadas, servia no templo dia e noite. Os dois esperaram a vida inteira e foram recompensados com um bebê nos braços (Lc 2.25-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus também conheceu a espera
O centro da fé cristã não é um Deus que exige paciência de longe, mas um Deus que entrou no tempo e esperou conosco. Jesus viveu cerca de trinta anos em quase anonimato antes de iniciar o seu ministério (Lc 3.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mais de uma vez deixou claro que o seu tempo ainda não era aquele (Jo 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 7.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Um dos episódios mais desconcertantes é o de Lázaro. Ao receber a notícia de que o amigo estava doente, Jesus permaneceu mais dois dias onde estava (Jo 11.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto faz questão de dizer que ele amava Marta, Maria e Lázaro (Jo 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — a demora não era falta de amor. Quando chegou, Lázaro já estava morto havia quatro dias, e as irmãs expressaram a dor de quem esperou e não foi atendido no tempo desejado (Jo 11.21,32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus se comoveu com elas até as lágrimas (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, em seguida, fez algo maior do que uma cura: devolveu Lázaro à vida (Jo 11.43-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A demora de Deus não era indiferença; era o preparo de uma resposta maior.
No Getsêmani, Jesus viveu a espera mais angustiante de todas. Pediu ao Pai que, havendo outro caminho, o livrasse do sofrimento que se aproximava, mas pôs a própria vontade debaixo da vontade do Pai (Lc 22.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali vemos, em perfeição, o "rolar o caminho" do Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): não a ausência de angústia, mas a entrega no meio dela.
O apóstolo Pedro descreve a paixão de Cristo de um modo que ecoa o salmo: Jesus não devolveu ofensa por ofensa nem ameaçou quem o fazia sofrer; confiou a sua causa ao Pai, o juiz perfeitamente justo (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não ardeu por dentro contra os seus agressores. Confiou que o Pai faria brilhar a sua justiça — e o Pai o fez, na ressurreição (At 2.24,32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há ainda um elo direto entre o Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o ensino de Jesus. O salmo garante aos humildes e pacientes a posse da terra (Sl 37.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus retoma essa promessa nas bem-aventuranças do Sermão do Monte (Mt 5.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mansidão de que ambos falam não é fraqueza; é a força de quem não precisa tomar à força o que Deus prometeu dar.
O que a espera bíblica não é
Esperar não é ficar parado. O mesmo salmo que manda aquietar-se manda também praticar o bem, permanecer onde Deus o colocou e viver com lealdade (Sl 37.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tiago usa a imagem do agricultor que aguarda a chuva: ele espera, mas antes semeou e depois continuará cuidando da lavoura (Tg 5.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Esperar não é resignação fatalista. Não se trata de dizer "tanto faz, o que tiver de ser será". A espera bíblica é ativa, cheia de oração e de expectativa. Jesus contou a parábola da viúva insistente justamente para ensinar a persistir na oração sem esmorecer (Lc 18.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Esperar não é receber garantia de que tudo sairá como queremos. O salmo promete que Deus agirá e que a justiça aparecerá, mas não promete que cada desejo nosso será atendido do modo que imaginamos. A própria lista dos heróis da fé em Hebreus inclui gente que morreu sem ver o cumprimento das promessas, mas sem deixar de confiar nelas (Hb 11.13,39-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A esperança cristã é maior que a solução imediata de um problema.
Esperar não é negar a dor. Quem lê os salmos sabe que é possível confiar e, ao mesmo tempo, perguntar a Deus quanto tempo mais durará o seu silêncio (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se a espera está trazendo angústia persistente, insônia, perda de prazer nas coisas ou sinais de ansiedade intensa, procurar um médico ou um psicólogo não é falta de fé — é um modo de cuidar do corpo e da mente que Deus lhe deu. E a comunidade da igreja existe também para ajudar a carregar o peso de quem está cansado (Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Caminhos práticos para atravessar a espera
À luz do Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e do restante da Escritura, alguns passos concretos podem ajudar quem está numa sala de espera da vida:
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Dê nome ao que você está esperando. Diante de Deus, em oração, descreva com honestidade aquilo que aguarda e o que teme. Paulo ensina a apresentar a Deus os pedidos com gratidão, em vez de deixar a ansiedade governar (Fp 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro convida a lançar sobre Deus toda a ansiedade, porque ele cuida de nós (1Pe 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Faça a entrega um hábito, não um evento. Rolar o caminho sobre Deus raramente é algo que se faz uma vez só. Muitas vezes a carga volta para os nossos ombros na manhã seguinte. Entregue de novo. E de novo.
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Pratique o silêncio. O dom do salmo pode virar disciplina: alguns minutos por dia sem argumentar, sem planejar, sem pedir — apenas reconhecendo, diante dele, que é ele quem governa a história (Sl 46.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O silêncio é escola de confiança.
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Vigie a comparação. Quando perceber o coração esquentando por causa do sucesso alheio, lembre-se do charah do salmo e da advertência de que essa irritação conduz ao mal (Sl 37.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Continue fazendo o bem. Não deixe que a espera paralise o serviço, a generosidade e as responsabilidades do dia (Sl 37.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Releia a sua própria história. Davi escreve como alguém que olha para trás e vê a fidelidade de Deus (Sl 37.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Anote as vezes em que Deus agiu na sua vida. A memória das esperas passadas sustenta a espera presente (Lm 3.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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Não espere sozinho. Compartilhe com irmãos de confiança, com o seu pastor, com a família. A fé cristã é vivida em comunidade, e o encorajamento mútuo é um meio que Deus usa para nos fortalecer na perseverança (Hb 10.24-25,36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Esperança em Cristo: a espera que tem fim
Toda espera cristã acontece entre duas vindas de Cristo. Ele já veio, morreu e ressuscitou — e isso garante que Deus cumpre o que promete. E ele virá de novo, para renovar toda a criação e enxugar definitivamente o choro dos seus (Ap 21.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo descreve a própria criação aguardando ansiosamente esse dia, como quem sofre dores de parto (Rm 8.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — de novo a imagem da espera intensa e fecunda que encontramos no Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Por isso a esperança cristã não se apoia na probabilidade de as coisas melhorarem, mas na fidelidade de quem já venceu a morte. Paulo lembra que a esperança, por natureza, se dirige ao que ainda não está diante dos olhos — e é por isso que ela pede perseverança (Rm 8.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E ele acrescenta que o Espírito nos ajuda nessa fraqueza, intercedendo por nós quando nem sabemos o que pedir (Rm 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Se hoje você está numa espera difícil, o convite do Salmo 37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) continua de pé: role sobre Deus aquilo que você não consegue carregar, aquiete o coração diante dele e não deixe que a brasa da comparação consuma a sua alma. Jesus, que conheceu a angústia da espera no Getsêmani e confiou a sua causa ao Pai, está com você na sala de espera. E ele não chega atrasado — chega no tempo em que a sua resposta será maior do que o seu pedido.
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