Temas bíblicos
O perigo de esquecer aquilo que recebemos: o Salmo 103
Davi convoca a própria alma a não esquecer o que Deus fez — e mostra por que a memória da graça protege contra a ingratidão e o orgulho.
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Temos uma memória curiosa. Guardamos com precisão a palavra dura que ouvimos há dez anos, a injustiça no trabalho, a decepção com um amigo. Mas o socorro que chegou na hora certa, a doença que passou, a porta que se abriu quando tudo parecia fechado — isso se apaga com rapidez espantosa. Uma semana depois, a bênção já virou rotina; um mês depois, parece que sempre foi nossa.
O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nasce exatamente desse perigo. Antes de falar com Deus, Davi fala consigo mesmo. Ele dá uma ordem à própria alma: que ela louve o Senhor e não deixe cair no esquecimento nada do que recebeu (Sl 103.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo em seguida, enumera o que Deus fez (Sl 103.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É um dos textos mais luminosos da Escritura — e também um diagnóstico do coração humano, que tende a esquecer justamente aquilo que mais deveria lembrar.
Um salmo que começa com uma ordem à própria alma
O verbo que abre o salmo é o hebraico barak, "bendizer". Na maior parte da Bíblia, é Deus quem abençoa as pessoas (Gn 12.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 6.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui o movimento se inverte: o ser humano devolve a Deus o reconhecimento. Bendizer a Deus é declarar, com a vida e com a boca, quem ele é e o que ele fez.
O destinatário da ordem é a nefesh, palavra que nossas traduções costumam verter por "alma", mas que no hebraico indica a pessoa inteira, o ser vivo com seus desejos, emoções e fôlego. E Davi não se contenta com uma parte de si, um canto do coração reservado ao domingo: convoca o ser inteiro (Sl 103.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há algo de profundamente realista nisso. Davi não espera sentir vontade de louvar para então louvar. Ele sabe que a alma, deixada a si mesma, escorrega para a queixa, para a distração ou para a autossuficiência. Por isso fala consigo mesmo, como faz em outros salmos quando interroga a própria tristeza (Sl 42.5,11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gratidão bíblica não é só um sentimento espontâneo; é também uma disciplina, uma decisão de olhar para trás com honestidade.
O salmo termina como começou: depois de convocar anjos, exércitos celestes e todas as obras de Deus a bendizê-lo, Davi volta à própria alma (Sl 103.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O louvor que se expande até o céu começa e termina no coração de uma pessoa que decidiu não esquecer.
O que significa esquecer na Bíblia
O verbo hebraico para "esquecer" é shakach. Na Escritura, esquecer raramente é um simples lapso de memória, como quem perde a chave do carro. É viver como se aquilo não tivesse acontecido; é deixar que um fato deixe de governar a vida. Do mesmo modo, o verbo oposto, zakar, "lembrar", quase sempre envolve ação. Quando a Bíblia diz que Deus se lembrou de Noé, a consequência imediata é que as águas começam a baixar (Gn 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando ele se lembra da aliança com Abraão, Isaque e Jacó, começa a libertação do Egito (Êx 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A palavra que Davi usa para aquilo que não se deve esquecer é gemul: os tratos, os atos, aquilo que Deus fez em favor dele. São intervenções concretas, datadas, pessoais. Quem esquece o que recebeu passa a viver como se fosse a fonte do próprio bem — e essa é a semente do orgulho.
A lista dos benefícios
Os versículos 3 a 5 formam uma sequência de cinco ações de Deus, todas no particípio hebraico, como quem descreve não um gesto isolado, mas o modo habitual de Deus agir. A ordem não é casual.
O perdão vem primeiro
O primeiro item da lista é o perdão de todas as culpas (Sl 103.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Davi, que conheceu de perto o peso do próprio pecado (2Sm 12.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), coloca o perdão no topo. Antes da saúde, antes da segurança, antes da prosperidade, está a reconciliação com Deus. Mais adiante, o salmo amplia essa verdade: Deus não nos trata segundo o que nossas faltas mereceriam, e afasta de nós as transgressões tanto quanto o nascente dista do poente — uma distância que não se pode medir (Sl 103.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Quem esquece que foi perdoado logo se torna duro com os outros. Jesus contou a história do servo que teve uma dívida impagável cancelada e, minutos depois, apertou o pescoço de um colega por uma quantia pequena (Mt 18.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O problema dele era falta de memória.
A cura
O segundo benefício é a cura das enfermidades (Sl 103.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui é preciso honestidade, porque o versículo costuma ser usado como promessa de cura garantida a todo crente, a qualquer momento. O próprio Novo Testamento não autoriza essa leitura: Paulo deixou Trófimo doente em Mileto (2Tm 4.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Epafrodito quase morreu (Fp 2.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio apóstolo pediu três vezes que Deus lhe tirasse uma fraqueza que permaneceu (2Co 12.7-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O que Davi celebra é que toda cura vem de Deus — pelo próprio corpo, pelo remédio, pelo médico ou de modo extraordinário — e que Deus é, em última instância, aquele que restaura. A cura completa ainda está por vir: na ressurreição, o corpo frágil será revestido de incorruptibilidade, e não haverá mais dor (1Co 15.42-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lembrar as curas recebidas é confiar que o Deus que já cuidou continuará cuidando.
O resgate da morte
O terceiro benefício é o resgate da vida da sepultura (Sl 103.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra hebraica shachat designa a cova, o lugar da corrupção e da morte. O verbo usado é ga'al, o mesmo do parente resgatador, aquele que pagava o preço para libertar um familiar (Rt 4.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus age como o parente próximo que não deixa os seus perdidos.
Amor fiel e compaixão
O quarto benefício é que Deus cerca a vida do salmista de chesed e rachamim, em linguagem que lembra a honra dada a um rei (Sl 103.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Chesed é o amor leal da aliança, que permanece mesmo quando o outro falha. Rachamim vem de rechem, "ventre materno": é a compaixão visceral de uma mãe pelo filho. O salmo voltará a essas palavras ao descrever Deus como um pai que se compadece dos filhos, porque sabe que somos feitos de pó (Sl 103.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Fartura e renovação
Por fim, Deus sacia a vida com o que é bom, e as forças se renovam, numa comparação com o vigor da águia (Sl 103.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesma imagem aparece em Isaías para falar dos que esperam no Senhor e recebem força nova quando já pareciam esgotados (Is 40.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Do perdão à renovação, nada da existência humana fica fora do cuidado de Deus.
Como Israel esqueceu — e por que esquecemos também
O alerta de Davi não é abstrato. A história de Israel é, em boa parte, a história de um povo que esqueceu. Moisés já havia advertido: o maior risco não estaria no deserto, quando o povo dependia do maná a cada manhã, mas na terra boa, depois de comer, construir casas e ver o rebanho crescer. Seria então que o coração se exaltaria, e o povo diria que tudo aquilo era fruto da própria força (Dt 8.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 6.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Foi o que aconteceu. Depois da morte de Gideão, os israelitas não se lembraram do Senhor que os havia livrado dos inimigos (Jz 8.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) relata como o povo se esqueceu das maravilhas que Deus fizera no Egito (Sl 78.11,42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Salmo 106 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) repete o mesmo diagnóstico: depressa esqueceram as obras de Deus (Sl 106.7,13,21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Oseias resume o ciclo em poucas palavras: o povo foi saciado, o coração se encheu de orgulho, e por isso esqueceu a Deus (Os 13.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os mecanismos do esquecimento continuam os mesmos:
- A fartura, que nos faz atribuir à própria competência aquilo que foi dádiva (Dt 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O costume, que transforma milagre em paisagem.
- A comparação, que nos faz olhar para o que falta e não para o que foi dado.
- O sofrimento presente, que pode encobrir todo o bem passado, como uma nuvem que esconde o sol sem apagá-lo.
No Evangelho de Lucas, dez homens com lepra pedem misericórdia a Jesus e são curados no caminho. Apenas um volta para agradecer — e era samaritano. Jesus pergunta pelos outros nove (Lc 17.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O esquecimento atinge, sobretudo, quem recebeu muito. Paulo chega a apontar a falta de gratidão como uma das raízes do afastamento humano de Deus (Rm 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os remédios que Deus deu contra o esquecimento
Deus conhece a fragilidade da nossa memória e, por isso, deu ao seu povo instrumentos de lembrança. A Páscoa foi instituída como memorial perpétuo da libertação (Êx 12.14,26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As doze pedras retiradas do Jordão deveriam provocar a pergunta dos filhos e a resposta dos pais (Js 4.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras de Deus deveriam estar no coração, nas conversas da casa e até nos umbrais das portas (Dt 6.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fé bíblica é, em grande medida, uma fé que lembra.
Caminhos práticos para uma memória agradecida
O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é só um texto para ser admirado; é um exercício para ser repetido. Alguns caminhos, à luz da Escritura:
- Fale com a sua alma. Davi não esperou o ânimo chegar. Em dias de frieza, vale fazer o mesmo: dizer a si mesmo, em voz alta se preciso, que é hora de lembrar o que Deus já fez (Sl 103.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 42.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Seja concreto. Davi não disse apenas "Deus é bom"; listou perdão, cura, resgate, amor, fartura. Escreva os seus benefícios com nome, data e lugar. Na psicologia, pesquisas como a de Robert Emmons e Michael McCullough (2003), em que participantes registravam regularmente motivos de gratidão, associaram essa prática a maior sensação de bem-estar. A ciência não fundamenta a gratidão cristã, mas a confirma.
- Comece pelo perdão. Na ordem do salmo, a reconciliação com Deus vem antes de tudo. Se a sua lista de gratidão só tem conquistas materiais, ela ainda está incompleta.
- Lembre em comunidade. O louvor bíblico é contado aos outros: o salmista convida quem teme a Deus a ouvir o que ele fez por sua alma (Sl 66.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Crie os seus marcos. Como as pedras do Jordão, um caderno, uma data celebrada em família ou um objeto guardado podem ajudar os filhos a perguntar — e você a contar (Js 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Agradeça também na dor. Paulo orienta a dar graças em todas as circunstâncias, não necessariamente por todas elas (1Ts 5.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó, depois de perder quase tudo, usou o mesmo verbo do Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para bendizer o nome do Senhor (Jó 1.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Habacuque decidiu alegrar-se em Deus mesmo com a figueira sem fruto e o curral vazio (Hc 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Uma observação importante: gratidão não é negação da dor. A mesma Bíblia que traz o Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) traz salmos inteiros de lamento (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lembrar os benefícios não exige fingir que tudo está bem; exige apenas não deixar que a dor de hoje apague a fidelidade de ontem. Se o peso que você carrega for grande demais — tristeza persistente, ansiedade que não cede —, procurar ajuda médica e psicológica e o cuidado da comunidade da igreja também é uma forma de receber o socorro de Deus.
Em Cristo, a memória que nos sustenta
O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ecoa a revelação de Deus a Moisés no Sinai: compassivo, cheio de graça, paciente e rico em amor fiel (Sl 103.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para o leitor cristão, cada benefício da lista encontra em Jesus Cristo a sua expressão mais plena.
O perdão que encabeça o salmo tem um preço revelado na cruz: em Cristo temos a redenção pelo seu sangue e o perdão dos pecados (Ef 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A distância entre o nascente e o poente, de que fala Davi, ganha forma concreta no Calvário.
A cura, Isaías a ligou ao servo sofredor, ferido em nosso lugar (Is 53.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus viu essa profecia começar a cumprir-se nas curas de Jesus (Mt 8.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro aplica a mesma passagem à cura mais profunda, a do pecado (1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O resgate da sepultura encontra seu cumprimento na ressurreição. Pedro, no Pentecostes, mostra que Deus não deixou o seu Santo ver a corrupção (At 2.24-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Porque Cristo saiu do túmulo, a cova não tem mais a última palavra sobre os que nele creem (1Co 15.20-22,54-57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O amor fiel e a compaixão tomaram rosto humano. João apresenta Jesus como a plenitude da graça e da verdade de Deus entre nós (Jo 1.14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os evangelhos mostram Jesus movido de compaixão diante das multidões cansadas (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E há algo ainda mais tocante. Sabendo que esquecemos, Jesus deu à sua igreja um memorial. Na noite em que foi traído, tomou o pão e o cálice e pediu que os discípulos fizessem aquilo em memória dele (Lc 22.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.23-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Ceia do Senhor é, entre outras coisas, o remédio de Cristo contra o nosso esquecimento: a cada celebração, a igreja volta ao centro de tudo o que recebeu.
Não é por acaso que Paulo abre a carta aos Efésios com um grande "bendito seja Deus", seguido de uma lista do que recebemos em Cristo — escolha, adoção, redenção, perdão, o selo do Espírito (Ef 1.3-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cantado à luz da cruz e da ressurreição. O Catecismo de Heidelberg, documento da Reforma de 1563, organiza toda a vida cristã em três partes: a miséria humana, a redenção em Cristo e a gratidão. A gratidão não é um apêndice da fé; é a resposta natural de quem lembrou o que recebeu. Jesus disse que quem foi muito perdoado ama muito (Lc 7.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O perigo de esquecer é real, e nenhum de nós está imune a ele. Mas a ordem de Davi continua disponível para cada manhã: chame a sua alma pelo nome, abra a lista e comece pelo perdão. Quem lembra o que recebeu em Cristo descobre que o louvor deixa de ser obrigação e se torna o modo mais verdadeiro de viver.
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