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O perigo de esquecer aquilo que recebemos: o Salmo 103

Davi convoca a própria alma a não esquecer o que Deus fez — e mostra por que a memória da graça protege contra a ingratidão e o orgulho.

12 minutos de leitura

Temos uma memória curiosa. Guardamos com precisão a palavra dura que ouvimos há dez anos, a injustiça no trabalho, a decepção com um amigo. Mas o socorro que chegou na hora certa, a doença que passou, a porta que se abriu quando tudo parecia fechado — isso se apaga com rapidez espantosa. Uma semana depois, a bênção já virou rotina; um mês depois, parece que sempre foi nossa.

O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nasce exatamente desse perigo. Antes de falar com Deus, Davi fala consigo mesmo. Ele dá uma ordem à própria alma: que ela louve o Senhor e não deixe cair no esquecimento nada do que recebeu (Sl 103.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo em seguida, enumera o que Deus fez (Sl 103.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É um dos textos mais luminosos da Escritura — e também um diagnóstico do coração humano, que tende a esquecer justamente aquilo que mais deveria lembrar.

Um salmo que começa com uma ordem à própria alma

O verbo que abre o salmo é o hebraico barak, "bendizer". Na maior parte da Bíblia, é Deus quem abençoa as pessoas (Gn 12.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 6.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui o movimento se inverte: o ser humano devolve a Deus o reconhecimento. Bendizer a Deus é declarar, com a vida e com a boca, quem ele é e o que ele fez.

O destinatário da ordem é a nefesh, palavra que nossas traduções costumam verter por "alma", mas que no hebraico indica a pessoa inteira, o ser vivo com seus desejos, emoções e fôlego. E Davi não se contenta com uma parte de si, um canto do coração reservado ao domingo: convoca o ser inteiro (Sl 103.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Há algo de profundamente realista nisso. Davi não espera sentir vontade de louvar para então louvar. Ele sabe que a alma, deixada a si mesma, escorrega para a queixa, para a distração ou para a autossuficiência. Por isso fala consigo mesmo, como faz em outros salmos quando interroga a própria tristeza (Sl 42.5,11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A gratidão bíblica não é só um sentimento espontâneo; é também uma disciplina, uma decisão de olhar para trás com honestidade.

O salmo termina como começou: depois de convocar anjos, exércitos celestes e todas as obras de Deus a bendizê-lo, Davi volta à própria alma (Sl 103.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O louvor que se expande até o céu começa e termina no coração de uma pessoa que decidiu não esquecer.

O que significa esquecer na Bíblia

O verbo hebraico para "esquecer" é shakach. Na Escritura, esquecer raramente é um simples lapso de memória, como quem perde a chave do carro. É viver como se aquilo não tivesse acontecido; é deixar que um fato deixe de governar a vida. Do mesmo modo, o verbo oposto, zakar, "lembrar", quase sempre envolve ação. Quando a Bíblia diz que Deus se lembrou de Noé, a consequência imediata é que as águas começam a baixar (Gn 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando ele se lembra da aliança com Abraão, Isaque e Jacó, começa a libertação do Egito (Êx 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A palavra que Davi usa para aquilo que não se deve esquecer é gemul: os tratos, os atos, aquilo que Deus fez em favor dele. São intervenções concretas, datadas, pessoais. Quem esquece o que recebeu passa a viver como se fosse a fonte do próprio bem — e essa é a semente do orgulho.

A lista dos benefícios

Os versículos 3 a 5 formam uma sequência de cinco ações de Deus, todas no particípio hebraico, como quem descreve não um gesto isolado, mas o modo habitual de Deus agir. A ordem não é casual.

O perdão vem primeiro

O primeiro item da lista é o perdão de todas as culpas (Sl 103.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Davi, que conheceu de perto o peso do próprio pecado (2Sm 12.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), coloca o perdão no topo. Antes da saúde, antes da segurança, antes da prosperidade, está a reconciliação com Deus. Mais adiante, o salmo amplia essa verdade: Deus não nos trata segundo o que nossas faltas mereceriam, e afasta de nós as transgressões tanto quanto o nascente dista do poente — uma distância que não se pode medir (Sl 103.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Quem esquece que foi perdoado logo se torna duro com os outros. Jesus contou a história do servo que teve uma dívida impagável cancelada e, minutos depois, apertou o pescoço de um colega por uma quantia pequena (Mt 18.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O problema dele era falta de memória.

A cura

O segundo benefício é a cura das enfermidades (Sl 103.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui é preciso honestidade, porque o versículo costuma ser usado como promessa de cura garantida a todo crente, a qualquer momento. O próprio Novo Testamento não autoriza essa leitura: Paulo deixou Trófimo doente em Mileto (2Tm 4.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Epafrodito quase morreu (Fp 2.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio apóstolo pediu três vezes que Deus lhe tirasse uma fraqueza que permaneceu (2Co 12.7-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que Davi celebra é que toda cura vem de Deus — pelo próprio corpo, pelo remédio, pelo médico ou de modo extraordinário — e que Deus é, em última instância, aquele que restaura. A cura completa ainda está por vir: na ressurreição, o corpo frágil será revestido de incorruptibilidade, e não haverá mais dor (1Co 15.42-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lembrar as curas recebidas é confiar que o Deus que já cuidou continuará cuidando.

O resgate da morte

O terceiro benefício é o resgate da vida da sepultura (Sl 103.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra hebraica shachat designa a cova, o lugar da corrupção e da morte. O verbo usado é ga'al, o mesmo do parente resgatador, aquele que pagava o preço para libertar um familiar (Rt 4.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus age como o parente próximo que não deixa os seus perdidos.

Amor fiel e compaixão

O quarto benefício é que Deus cerca a vida do salmista de chesed e rachamim, em linguagem que lembra a honra dada a um rei (Sl 103.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Chesed é o amor leal da aliança, que permanece mesmo quando o outro falha. Rachamim vem de rechem, "ventre materno": é a compaixão visceral de uma mãe pelo filho. O salmo voltará a essas palavras ao descrever Deus como um pai que se compadece dos filhos, porque sabe que somos feitos de pó (Sl 103.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Fartura e renovação

Por fim, Deus sacia a vida com o que é bom, e as forças se renovam, numa comparação com o vigor da águia (Sl 103.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesma imagem aparece em Isaías para falar dos que esperam no Senhor e recebem força nova quando já pareciam esgotados (Is 40.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Do perdão à renovação, nada da existência humana fica fora do cuidado de Deus.

Como Israel esqueceu — e por que esquecemos também

O alerta de Davi não é abstrato. A história de Israel é, em boa parte, a história de um povo que esqueceu. Moisés já havia advertido: o maior risco não estaria no deserto, quando o povo dependia do maná a cada manhã, mas na terra boa, depois de comer, construir casas e ver o rebanho crescer. Seria então que o coração se exaltaria, e o povo diria que tudo aquilo era fruto da própria força (Dt 8.10-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 6.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Foi o que aconteceu. Depois da morte de Gideão, os israelitas não se lembraram do Senhor que os havia livrado dos inimigos (Jz 8.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) relata como o povo se esqueceu das maravilhas que Deus fizera no Egito (Sl 78.11,42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Salmo 106 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) repete o mesmo diagnóstico: depressa esqueceram as obras de Deus (Sl 106.7,13,21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Oseias resume o ciclo em poucas palavras: o povo foi saciado, o coração se encheu de orgulho, e por isso esqueceu a Deus (Os 13.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os mecanismos do esquecimento continuam os mesmos:

  • A fartura, que nos faz atribuir à própria competência aquilo que foi dádiva (Dt 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • O costume, que transforma milagre em paisagem.
  • A comparação, que nos faz olhar para o que falta e não para o que foi dado.
  • O sofrimento presente, que pode encobrir todo o bem passado, como uma nuvem que esconde o sol sem apagá-lo.

No Evangelho de Lucas, dez homens com lepra pedem misericórdia a Jesus e são curados no caminho. Apenas um volta para agradecer — e era samaritano. Jesus pergunta pelos outros nove (Lc 17.11-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O esquecimento atinge, sobretudo, quem recebeu muito. Paulo chega a apontar a falta de gratidão como uma das raízes do afastamento humano de Deus (Rm 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os remédios que Deus deu contra o esquecimento

Deus conhece a fragilidade da nossa memória e, por isso, deu ao seu povo instrumentos de lembrança. A Páscoa foi instituída como memorial perpétuo da libertação (Êx 12.14,26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As doze pedras retiradas do Jordão deveriam provocar a pergunta dos filhos e a resposta dos pais (Js 4.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras de Deus deveriam estar no coração, nas conversas da casa e até nos umbrais das portas (Dt 6.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fé bíblica é, em grande medida, uma fé que lembra.

Caminhos práticos para uma memória agradecida

O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é só um texto para ser admirado; é um exercício para ser repetido. Alguns caminhos, à luz da Escritura:

  1. Fale com a sua alma. Davi não esperou o ânimo chegar. Em dias de frieza, vale fazer o mesmo: dizer a si mesmo, em voz alta se preciso, que é hora de lembrar o que Deus já fez (Sl 103.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 42.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  2. Seja concreto. Davi não disse apenas "Deus é bom"; listou perdão, cura, resgate, amor, fartura. Escreva os seus benefícios com nome, data e lugar. Na psicologia, pesquisas como a de Robert Emmons e Michael McCullough (2003), em que participantes registravam regularmente motivos de gratidão, associaram essa prática a maior sensação de bem-estar. A ciência não fundamenta a gratidão cristã, mas a confirma.
  3. Comece pelo perdão. Na ordem do salmo, a reconciliação com Deus vem antes de tudo. Se a sua lista de gratidão só tem conquistas materiais, ela ainda está incompleta.
  4. Lembre em comunidade. O louvor bíblico é contado aos outros: o salmista convida quem teme a Deus a ouvir o que ele fez por sua alma (Sl 66.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  5. Crie os seus marcos. Como as pedras do Jordão, um caderno, uma data celebrada em família ou um objeto guardado podem ajudar os filhos a perguntar — e você a contar (Js 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  6. Agradeça também na dor. Paulo orienta a dar graças em todas as circunstâncias, não necessariamente por todas elas (1Ts 5.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó, depois de perder quase tudo, usou o mesmo verbo do Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para bendizer o nome do Senhor (Jó 1.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Habacuque decidiu alegrar-se em Deus mesmo com a figueira sem fruto e o curral vazio (Hc 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Uma observação importante: gratidão não é negação da dor. A mesma Bíblia que traz o Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) traz salmos inteiros de lamento (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lembrar os benefícios não exige fingir que tudo está bem; exige apenas não deixar que a dor de hoje apague a fidelidade de ontem. Se o peso que você carrega for grande demais — tristeza persistente, ansiedade que não cede —, procurar ajuda médica e psicológica e o cuidado da comunidade da igreja também é uma forma de receber o socorro de Deus.

Em Cristo, a memória que nos sustenta

O Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ecoa a revelação de Deus a Moisés no Sinai: compassivo, cheio de graça, paciente e rico em amor fiel (Sl 103.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para o leitor cristão, cada benefício da lista encontra em Jesus Cristo a sua expressão mais plena.

O perdão que encabeça o salmo tem um preço revelado na cruz: em Cristo temos a redenção pelo seu sangue e o perdão dos pecados (Ef 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A distância entre o nascente e o poente, de que fala Davi, ganha forma concreta no Calvário.

A cura, Isaías a ligou ao servo sofredor, ferido em nosso lugar (Is 53.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus viu essa profecia começar a cumprir-se nas curas de Jesus (Mt 8.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro aplica a mesma passagem à cura mais profunda, a do pecado (1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O resgate da sepultura encontra seu cumprimento na ressurreição. Pedro, no Pentecostes, mostra que Deus não deixou o seu Santo ver a corrupção (At 2.24-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Porque Cristo saiu do túmulo, a cova não tem mais a última palavra sobre os que nele creem (1Co 15.20-22,54-57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O amor fiel e a compaixão tomaram rosto humano. João apresenta Jesus como a plenitude da graça e da verdade de Deus entre nós (Jo 1.14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os evangelhos mostram Jesus movido de compaixão diante das multidões cansadas (Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E há algo ainda mais tocante. Sabendo que esquecemos, Jesus deu à sua igreja um memorial. Na noite em que foi traído, tomou o pão e o cálice e pediu que os discípulos fizessem aquilo em memória dele (Lc 22.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.23-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Ceia do Senhor é, entre outras coisas, o remédio de Cristo contra o nosso esquecimento: a cada celebração, a igreja volta ao centro de tudo o que recebeu.

Não é por acaso que Paulo abre a carta aos Efésios com um grande "bendito seja Deus", seguido de uma lista do que recebemos em Cristo — escolha, adoção, redenção, perdão, o selo do Espírito (Ef 1.3-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cantado à luz da cruz e da ressurreição. O Catecismo de Heidelberg, documento da Reforma de 1563, organiza toda a vida cristã em três partes: a miséria humana, a redenção em Cristo e a gratidão. A gratidão não é um apêndice da fé; é a resposta natural de quem lembrou o que recebeu. Jesus disse que quem foi muito perdoado ama muito (Lc 7.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O perigo de esquecer é real, e nenhum de nós está imune a ele. Mas a ordem de Davi continua disponível para cada manhã: chame a sua alma pelo nome, abra a lista e comece pelo perdão. Quem lembra o que recebeu em Cristo descobre que o louvor deixa de ser obrigação e se torna o modo mais verdadeiro de viver.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.