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Cotidiano

O segredo do contentamento

Preso e sem garantias, Paulo diz ter aprendido a viver em paz na falta e na fartura. O segredo não está no que se tem, mas em quem sustenta.

12 minutos de leitura

Quase todo mundo conhece a sensação: o salário aumenta, o carro é trocado, a casa fica maior — e, poucos meses depois, a inquietação volta. O que parecia ser "o suficiente" passa a ser o normal, e o coração já está olhando para a próxima coisa. Os psicólogos deram nome a isso: esteira hedônica, expressão associada ao estudo de Philip Brickman e Donald Campbell, publicado em 1971, que descreve como as pessoas tendem a se acostumar às conquistas e a voltar ao mesmo nível de satisfação de antes.

A Bíblia conhece esse problema muito antes da psicologia. E, numa carta curta escrita de dentro de uma prisão, o apóstolo Paulo faz uma afirmação que soa quase impossível: ele aprendeu a viver em paz seja qual for a situação em que se encontre (Fp 4.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não disse que sempre teve o que queria. Disse que aprendeu algo que o mantinha firme tanto quando faltava quanto quando sobrava. Que aprendizado é esse — e como ele pode chegar à vida de quem lê estas linhas?

Uma carta de alegria escrita na prisão

Filipenses é, provavelmente, a carta mais alegre de Paulo, e ele a escreve acorrentado. Logo no início, conta que sua prisão acabou servindo ao avanço do evangelho (Fp 1.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que sua vida inteira girava em torno de Cristo, a ponto de até a morte lhe parecer vantagem (Fp 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não havia garantia de saída: o julgamento poderia terminar em liberdade ou em execução (Fp 1.20-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A igreja de Filipos tinha uma história especial com o apóstolo. Ela nasceu, segundo o relato de Atos, quando Paulo e Silas foram açoitados, presos e, à meia-noite, estavam orando e cantando hinos na cela (At 16.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Anos depois, essa mesma igreja enviou a Paulo, por meio de Epafrodito, uma oferta para sustentá-lo na prisão (Fp 2.25-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

É nesse contexto que aparecem os versículos sobre o contentamento. Paulo está agradecendo o presente (Fp 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas toma cuidado para não soar como quem estava desesperado pela ajuda. Ele se alegra com o cuidado dos irmãos, porém deixa claro que sua paz não dependia daquela oferta (Fp 4.11, 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que ele valoriza é o fruto que a generosidade produz na vida deles, e não o dinheiro em si.

Em seguida, descreve sua experiência: já passou por dias de estômago vazio e por dias de mesa farta, conheceu a escassez e a sobra (Fp 4.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E conclui que tem força para atravessar todas essas situações por meio daquele que o fortalece (Fp 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Três palavras que abrem o texto

O grego original de Fp 4.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) guarda três termos que iluminam o que Paulo quis dizer.

Autarkēs: o que se basta

A palavra que costuma ser traduzida por "contente" é autarkēs (Fp 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era um termo querido dos filósofos estoicos, como Sêneca e Epicteto, que ensinavam a pessoa sábia a não depender de nada exterior: nem de riqueza, nem de saúde, nem da opinião alheia. O ideal estoico era a autossuficiência — o homem fechado em si mesmo, imperturbável.

Paulo usa a mesma palavra, mas muda completamente o seu centro. Ele não se basta a si mesmo; ele se basta em Cristo. O estoico se protege do mundo endurecendo o coração; o cristão encontra estabilidade porque está apoiado em alguém maior do que as circunstâncias. A diferença é decisiva: o estoicismo pede indiferença, o evangelho oferece confiança.

Memyēmai: iniciado num segredo

No versículo 12, Paulo diz que foi "iniciado" no segredo de viver bem tanto na fartura quanto na falta. O verbo é myeō, da mesma família de mystērion, vocabulário usado pelas religiões de mistério do mundo greco-romano, nas quais os adeptos passavam por rituais secretos para alcançar um conhecimento reservado.

Há aqui uma ironia fina. A "iniciação" de Paulo não aconteceu num templo, à luz de tochas, mas nos naufrágios, nos açoites, nas noites sem dormir, na fome e no frio que ele mesmo descreve em outra carta (2Co 11.23-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O segredo foi aprendido no caminho, não num ritual. E isso traz uma notícia boa para quem lê: contentamento não é temperamento, é aprendizado. Ninguém nasce com ele; todos podem ser ensinados.

Endynamoō: aquele que dá força

O versículo 13 usa o verbo endynamoō, "colocar força dentro", no particípio presente — algo como "aquele que continuamente me fortalece". É o mesmo verbo que Paulo usa ao agradecer a Cristo por tê-lo capacitado para o ministério (1Tm 1.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ao contar que, quando todos o abandonaram no tribunal, o Senhor esteve ao seu lado e o fortaleceu (2Tm 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A força não é de Paulo, nem é dada uma vez por todas: é recebida dia após dia, de uma pessoa.

O que este texto não promete

Poucos versículos da Bíblia são tão usados fora do lugar quanto Fp 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ele aparece em camisetas de atletas, em murais de academias, em mensagens de motivação antes de provas e de negócios, como se fosse a garantia de que, com fé suficiente, qualquer meta pessoal será alcançada.

O contexto mostra outra coisa. As "todas as coisas" de que Paulo fala são as situações que ele acabou de listar: ter pouco e ter muito, passar fome e estar saciado. A força que Cristo lhe dá é a força para permanecer fiel e em paz em qualquer uma delas — inclusive na derrota, na perda e na prisão. O versículo não promete vencer o campeonato; promete que Cristo sustenta quem perde o campeonato.

Também é importante dizer o que o contentamento bíblico não é:

Por fim, repare num detalhe: Paulo diz que precisou aprender a lidar também com a abundância. A fartura é uma prova tão real quanto a falta. O sábio de Provérbios pede a Deus que o poupe tanto da miséria, que poderia levá-lo a roubar, quanto da riqueza, que poderia levá-lo a esquecer do Senhor (Pv 30.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moisés já havia advertido Israel de que a prosperidade na terra prometida poderia endurecer o coração e apagar a memória de Deus (Dt 8.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O contentamento na história do povo de Deus

O ensino de Paulo não nasce do nada. Ele percorre toda a Escritura.

No deserto, Deus alimentou Israel com o maná, dado a cada manhã na medida da necessidade de cada um. Quem tentava guardar para o dia seguinte via a porção apodrecer (Êx 16.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era uma escola diária de confiança: o pão de amanhã viria amanhã. Pouco depois, porém, o povo se cansou do maná e passou a reclamar, com saudade das comidas do Egito — esquecendo que lá era escravo (Nm 11.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A murmuração é o contrário do contentamento: olha para o que falta e não enxerga o que foi dado.

Nos Salmos, Davi descreve uma alma que se acalmou diante de Deus como uma criança que, já crescida, descansa no colo da mãe sem exigir nada (Sl 131.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Salmo do pastor celebra uma vida em que, guiada por Deus, nada de essencial falta (Sl 23.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Eclesiastes, com seu realismo, observa que o apego ao dinheiro gera uma fome que nunca termina: quanto mais se tem, mais se quer (Ec 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a esteira hedônica descrita três mil anos antes.

No Novo Testamento, João Batista orienta os soldados que o procuram a não extorquir ninguém e a se satisfazerem com o seu soldo (Lc 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus adverte contra toda forma de ganância, porque a vida de alguém não se mede pela quantidade de bens que acumula, e conta a parábola do rico que construiu celeiros maiores sem saber que morreria naquela noite (Lc 12.15-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Paulo volta ao tema ao escrever a Timóteo: a vida piedosa, quando acompanhada de contentamento, é a verdadeira riqueza; quem tem alimento e roupa pode viver satisfeito, enquanto o desejo de enriquecer arrasta muitos para a ruína (1Tm 6.6-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a carta aos Hebreus resume tudo ao ligar o contentamento a uma promessa: viver longe do amor ao dinheiro, satisfeito com o que se tem, porque o próprio Deus garantiu que jamais abandonaria os seus (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), retomando Dt 31.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Note a lógica: na Escritura, o contentamento nunca se apoia na quantidade de coisas, mas na presença de Deus.

Caminhos para aprender o contentamento

Se contentamento é aprendizado, há caminhos práticos para trilhá-lo. O próprio capítulo 4 de Filipenses oferece vários.

  1. Transforme a preocupação em oração com gratidão. Pouco antes do nosso texto, Paulo orienta a levar tudo a Deus em oração, com ações de graças, e promete que a paz de Deus protegerá o coração e os pensamentos de quem está em Cristo (Fp 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um exercício simples: ao fim de cada dia, anote três coisas concretas pelas quais agradecer. A gratidão treina os olhos para ver o que já foi dado.

  2. Escolha aquilo em que você pensa. Paulo pede que a mente se ocupe com tudo o que é verdadeiro e bom (Fp 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hoje, isso inclui decidir quanto tempo passar rolando a tela e observando a vida editada dos outros. A comparação constante é uma das fábricas mais eficientes de insatisfação.

  3. Pratique a generosidade. Os filipenses não eram ricos — Paulo diz que eles deram mesmo em meio a grande pobreza (2Co 8.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) —, mas a oferta deles se tornou um sacrifício agradável a Deus (Fp 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem dá aprende, na prática, que a vida não está presa ao que possui. Jesus, segundo Paulo lembra aos presbíteros de Éfeso, ensinou que dar traz uma alegria maior do que a de receber (At 20.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

  4. Defina o que é "suficiente" antes que o desejo defina por você. Para uma família, pode ser estabelecer um padrão de vida e, quando a renda crescer, direcionar a diferença para poupança, generosidade e sustento dos que precisam, em vez de simplesmente aumentar o consumo.

  5. Aprenda com quem já foi provado. Paulo diz aos filipenses que imitem o que viram nele (Fp 4.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Conviver com cristãos mais velhos que passaram por perdas e permaneceram firmes ensina mais do que muitos livros.

  6. Leia sobre o tema com calma. Dois clássicos puritanos são preciosos aqui: A joia rara do contentamento cristão, de Jeremiah Burroughs (1648), e A arte do divino contentamento, de Thomas Watson. Burroughs define o contentamento cristão como uma disposição interior serena e cheia de graça, que se submete livremente — e até se alegra — ao governo sábio e paternal de Deus em cada situação. A definição é bonita justamente porque não fala de circunstâncias favoráveis, mas de confiança no Pai.

Cristo, o segredo revelado

Quando Paulo usa a linguagem do "mistério" em suas cartas, ele quase sempre aponta para a mesma realidade: Cristo. Aos colossenses, ele diz que o mistério guardado por gerações agora foi revelado, e que ele consiste na presença de Cristo na vida dos que creem, garantia da glória futura (Cl 1.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O segredo do contentamento não é uma técnica. É uma pessoa.

O próprio Jesus viveu o contentamento de forma perfeita. Deixou a riqueza que tinha e escolheu a pobreza para enriquecer os seus (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não tinha sequer um lugar fixo para dormir (Mt 8.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No deserto, com fome depois de quarenta dias, recusou transformar pedras em pão, lembrando que a vida depende da palavra de Deus, e não apenas do pão (Mt 4.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aos discípulos, explicou que o que o sustentava era cumprir a vontade do Pai (Jo 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E caminhou para a cruz olhando para a alegria que viria depois dela (Hb 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Paulo aprendeu esse segredo ao encontrar Cristo. Ele conta que trocou de bom grado tudo o que antes lhe dava prestígio e segurança, porque nada se compara ao valor de conhecer Cristo (Fp 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando alguém encontra o maior tesouro, as outras coisas voltam ao seu devido tamanho: continuam sendo boas, mas deixam de ser necessárias para a paz.

Há ainda uma ligação curiosa no próprio vocabulário do Novo Testamento. Quando Paulo implorou três vezes que Deus retirasse dele um sofrimento persistente, recebeu como resposta que a graça do Senhor era suficiente, e que o poder de Cristo se mostra por inteiro justamente na fraqueza humana (2Co 12.7-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo dessa resposta, arkeō, "bastar", pertence à mesma família de autarkēs. O contentamento cristão nasce exatamente aí: não de ter tudo, mas de descobrir que Cristo basta.

Talvez você esteja vivendo hoje um tempo de falta: desemprego, dívida, doença, solidão. Ou talvez um tempo de fartura que, curiosamente, não trouxe a paz que prometia. Em ambos os casos, o convite de Filipenses é o mesmo. Não se trata de fingir que está tudo bem, nem de esperar que as circunstâncias mudem para então descansar. Trata-se de aprender, um dia de cada vez, a apoiar-se naquele que fortalece por dentro. O mesmo Deus que supriu Paulo na prisão promete cuidar de tudo aquilo de que os seus precisam, a partir da riqueza gloriosa que há em Cristo (Fp 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse é o segredo — e ele está aberto a todos que quiserem aprendê-lo.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.