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Cotidiano

O sofrimento pode produzir alguma coisa boa?

Em Romanos 5, Paulo mostra como a dor atravessada com Deus pode gerar perseverança, caráter e uma esperança que se sustenta.

12 minutos de leitura

Quem já passou uma noite inteira num corredor de hospital, recebeu um diagnóstico que virou os planos do avesso, enterrou alguém amado ou viu ruir em poucos meses o trabalho de muitos anos conhece a pergunta, mesmo que nunca a tenha dito em voz alta: isso serve para alguma coisa? Ou a dor é só perda, um buraco no caminho que convém esquecer o quanto antes?

A pergunta é legítima, e a Bíblia não a trata com desdém. Um dos textos mais densos sobre o assunto está em Rm 5.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Em poucas linhas, Paulo descreve uma espécie de corrente: o sofrimento, vivido diante de Deus, gera uma coisa, que gera outra, que termina numa esperança firme. Não é frase de calendário nem conselho de autoajuda. É o argumento de um homem que foi açoitado, apedrejado, preso, que naufragou e passou fome e frio por causa do Evangelho (2Co 11.23-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele sabia do que estava falando.

Antes da dor, a paz com Deus

O trecho começa antes do versículo 3, e isso faz toda a diferença. Paulo acabou de dizer que quem foi justificado pela fé tem paz com Deus por meio de Jesus Cristo, entrou na graça e agora vive firmado nela, com a alegria de esperar a glória de Deus (Rm 5.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Só depois disso ele acrescenta: e não apenas isso — também nas tribulações há motivo para essa mesma confiança (Rm 5.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A ordem importa. O sofrimento, aqui, não é um caminho para conquistar a aceitação de Deus, nem uma taxa que se paga para merecer o seu favor. É algo que acontece a quem já foi aceito. Por isso a dor não pode ser lida como prova de que Deus abandonou você. Mais adiante, na mesma carta, Paulo lista angústia, perseguição, fome, perigo e espada e conclui que nada disso é capaz de separar quem está em Cristo do amor de Deus (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os primeiros leitores precisavam ouvir isso. A comunidade cristã de Roma era pequena, misturada e vulnerável. Poucos anos antes, o imperador Cláudio havia expulsado os judeus da cidade (At 18.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, segundo o historiador romano Tácito, cerca de sete anos depois da carta os cristãos seriam perseguidos com crueldade sob Nero. Paulo não escrevia para gente confortável.

A corrente que Paulo descreve

Gloriar-se no meio do aperto, não por causa dele

O verbo que Paulo usa é kauchaomai, "gloriar-se", "ter motivo de orgulho e confiança". É a mesma palavra que ele aplica à esperança da glória (Rm 5.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, logo depois, ao próprio Deus (Rm 5.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O detalhe decisivo está na preposição: ele se gloria nas tribulações — no meio delas — e não pelas tribulações, como se a dor fosse desejável em si. Não há aqui nenhum gosto pelo sofrimento.

A palavra para tribulação é thlipsis, derivada de um verbo que significa "apertar", "comprimir", "espremer". É a sensação de estar sem espaço, pressionado por todos os lados. Jesus usou a mesma palavra ao avisar os discípulos de que, no mundo, eles passariam por aflições — e acrescentou que podiam ter ânimo, porque ele havia vencido o mundo (Jo 16.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E repare no fundamento que Paulo dá: ele se gloria sabendo algo (Rm 5.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A alegria cristã na dor não nasce de um sentimento, que vai e volta; nasce de um conhecimento sobre o que Deus é capaz de fazer com aquilo que nos aperta.

Do aperto à perseverança

O primeiro elo é a perseverança. O termo grego hypomonē une "debaixo" e "permanecer": é a capacidade de ficar debaixo do peso sem largá-lo nem fugir. Não se trata de resignação passiva, de quem cruza os braços e espera o pior, mas de firmeza ativa, de quem continua de pé e continua confiando.

Ninguém aprende perseverança em dias fáceis. Assim como a resistência de um corredor só se forma quando ele corre sob esforço, a perseverança da fé só aparece quando há algo a suportar. Tiago diz o mesmo: a fé posta à prova produz perseverança, e a perseverança, quando chega ao fim do seu trabalho, deixa a pessoa madura e inteira (Tg 1.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Da perseverança ao caráter provado

O segundo elo é dokimē, palavra difícil de traduzir com um só termo: é a qualidade de algo que foi testado e aprovado. O adjetivo da mesma família era usado para metais e moedas que haviam passado pela prova e se mostraram genuínos. Pedro usa essa imagem ao comparar a fé ao ouro que passa pelo fogo e sai mais valioso do que o próprio ouro (1Pe 1.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na prática, é aquilo que você descobre que é real na sua fé quando os apoios de fora desaparecem. Muita gente só soube que confiava em Deus — e não apenas na saúde, no emprego ou na conta bancária — quando perdeu a saúde, o emprego ou o dinheiro e viu que ainda estava de pé.

Do caráter à esperança

O terceiro elo é a esperança, elpis. Na Bíblia, esperança não é otimismo nem a torcida para que as coisas melhorem: é a expectativa confiante daquilo que Deus prometeu. Há algo bonito na estrutura do texto. Paulo começou falando da esperança da glória (Rm 5.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, depois de atravessar a tribulação, volta a ela (Rm 5.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É um círculo — mas a esperança do fim não é igual à do começo. Antes era uma convicção recebida; agora é uma convicção testada, que passou pelo fogo e continuou de pé.

Uma esperança que não deixa ninguém na mão

Por fim, Paulo garante que essa esperança não envergonha (Rm 5.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo kataischynō descreve a vergonha de quem confiou em alguém e foi deixado na mão. A esperança cristã não termina assim.

O motivo é o ponto mais importante do texto: a garantia não está no sofrimento, nem na nossa força para suportá-lo, mas no amor de Deus. Paulo diz que esse amor já foi derramado no coração de quem crê pelo Espírito Santo, que lhe foi dado. O verbo grego ekkechytai está num tempo que indica uma ação passada cujo efeito continua: o amor foi derramado e permanece transbordando. E Paulo não deixa esse amor abstrato. Logo em seguida, ele o prova com a cruz: Cristo morreu por nós quando ainda éramos fracos, ímpios e pecadores (Rm 5.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que Paulo não está dizendo

Um texto tão forte é facilmente mal usado. Por isso vale dizer com clareza o que ele não ensina.

Gente que atravessou o fogo

A Bíblia está cheia de pessoas que viveram essa corrente antes de Paulo escrevê-la. José foi vendido pelos irmãos, caluniado e esquecido na prisão. Anos depois, ao reencontrá-los, reconheceu que Deus havia conduzido para o bem aquilo que eles planejaram para o mal, a fim de preservar muitas vidas (Gn 50.15-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó perdeu filhos, bens e saúde, e no fim não recebeu uma explicação: recebeu o próprio Deus, a quem antes conhecia de ouvir falar e agora conhecia de perto (Jó 38–42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 42.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Paulo pediu três vezes que Deus lhe tirasse uma fraqueza que o atormentava. A resposta foi que a graça de Deus lhe bastava e que o poder divino se mostra completo justamente na fraqueza (2Co 12.7-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E ele descobriu ainda outro fruto do sofrimento: quem foi consolado por Deus na aflição passa a ser capaz de consolar outros que sofrem (2Co 1.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Fora das Escrituras, o tema também foi pensado com seriedade. O psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, observou em Em busca de sentido que os prisioneiros que encontravam um propósito resistiam melhor ao horror dos campos; ele cita Nietzsche: quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como. Nos anos 1990, os psicólogos Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun cunharam a expressão "crescimento pós-traumático" para descrever mudanças positivas que muitas pessoas relatam depois de crises graves, como relações mais profundas, maior valor dado à vida e amadurecimento espiritual. Os próprios pesquisadores insistem que isso não acontece com todos nem anula a dor.

C. S. Lewis, em O problema do sofrimento, escreveu que Deus nos sussurra em nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita em nossas dores — que são o seu megafone para despertar um mundo surdo. Anos depois, ao perder a esposa, ele escreveu A anatomia de uma dor, um diário honesto e às vezes desesperado. Os dois livros juntos lembram que a teologia certa não dispensa as lágrimas.

Caminhos práticos para o tempo da dor

Romanos 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é uma fórmula para acelerar o fim do sofrimento, mas oferece direção para atravessá-lo. Alguns passos concretos:

  1. Diga a verdade a Deus. Ore com as suas palavras, inclusive as de queixa. Os salmos de lamento mostram que levar a dor a Deus já é um ato de fé (Sl 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  2. Não atravesse sozinho. Procure a comunidade da igreja, amigos de confiança, um pastor. Carregar os fardos uns dos outros é parte do que significa seguir Cristo (Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  3. Busque ajuda profissional sem culpa. Fé e cuidado médico ou psicológico não competem. Ansiedade, depressão e luto prolongado merecem acompanhamento de quem estudou para isso. Se a dor chegar a pensamentos de tirar a própria vida, ligue para o CVV, no telefone 188, gratuito, 24 horas por dia.
  4. Troque às vezes o "por quê?" pelo "o quê?". Nem sempre teremos a explicação do sofrimento. Mas podemos perguntar o que Deus deseja formar em nós no meio dele: perseverança, caráter, esperança.
  5. Lembre-se do que você sabe quando não sente. Nos dias em que a emoção falha, apoie-se no que Deus prometeu: que ele age em todas as coisas para o bem dos que o amam (Rm 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que a sua misericórdia se renova a cada manhã (Lm 3.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  6. Deixe a sua dor virar consolo. Quando a ferida começar a cicatrizar, ela pode se tornar ponte para alguém que está onde você esteve (2Co 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Em Cristo, a dor não tem a última palavra

O cristianismo não oferece uma explicação do sofrimento vista de longe. Oferece um Deus que entrou nele. Jesus conheceu a angústia a ponto de dizer, no Getsêmani, que sua alma estava triste até a morte e de pedir ao Pai que, se possível, o cálice passasse (Mt 26.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías já havia descrito o Servo que conheceria a dor de perto e a carregaria em nosso lugar (Is 53.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus diz que o Filho aprendeu a obediência por meio do que sofreu (Hb 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, por ter sido provado em tudo, pode se compadecer das nossas fraquezas (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na cruz, a corrente de Romanos 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) atingiu o seu ponto máximo. O pior crime da história — a execução do único inocente — tornou-se, nas mãos de Deus, o caminho da salvação (At 2.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a ressurreição é a garantia de que a esperança cristã não é ilusão: o sofrimento de Cristo terminou num túmulo vazio, e o nosso, nele, também caminha para lá. Por isso Paulo pode afirmar que as aflições do presente nem se comparam à glória que será revelada (Rm 8.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que o peso da glória futura supera de longe o peso da dor atual (2Co 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Então, o sofrimento pode produzir alguma coisa boa? Pode — não porque a dor seja boa, mas porque Deus é bom e não desperdiça nada do que entregamos a ele. Nas mãos de Cristo, aquilo que nos aperta pode nos firmar, aquilo que nos prova pode nos revelar, e aquilo que parecia o fim pode se tornar o começo de uma esperança que não deixa ninguém na mão. Se você está no meio do aperto agora, não precisa entender tudo para dar o próximo passo. Basta saber, como Paulo sabia, que o amor de Deus já chegou até você — e que ele não vai embora.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.