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Cotidiano

Pessoas que nos tornam melhores

Um provérbio compara a amizade ao atrito que amola uma lâmina: como pessoas certas, com franqueza e amor, nos moldam à imagem de Cristo.

11 minutos de leitura

Pense nas pessoas que marcaram a sua vida para o bem. Talvez um professor que enxergou em você algo que nem você via. Um amigo que teve coragem de dizer uma verdade difícil na hora certa. Um irmão da igreja que orou com você numa madrugada ruim. Ninguém se torna quem é sozinho: somos formados, para melhor ou para pior, pelas pessoas com quem caminhamos.

A Bíblia leva isso a sério. Em Provérbios, um único versículo resume a ideia com uma imagem do trabalho manual: assim como uma lâmina de metal fica afiada quando é esfregada contra outra, uma pessoa é aprimorada pelo convívio com o seu companheiro (Pv 27.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é uma frase de efeito sobre "boas vibrações". É uma observação sábia, e exigente, sobre como Deus usa gente para formar gente.

O que o provérbio realmente diz

A imagem do afiar

No hebraico, o verbo é chadad, "afiar", "tornar cortante". O provérbio usa a mesma raiz duas vezes: o metal afia o metal, e a pessoa afia o seu próximo. A palavra para o companheiro é rea, termo amplo que inclui o amigo, o vizinho e o próximo que a Lei manda amar (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o objeto do afiar, literalmente, é o "rosto" (panim) do outro: a sua presença, o seu caráter, a pessoa inteira diante dos demais.

Três coisas chamam a atenção nessa imagem:

  • Afiar exige contato. Duas lâminas guardadas em gavetas diferentes nunca se aprimoram. Crescimento mútuo pede proximidade real, não apenas contatos numa lista.
  • Afiar envolve atrito. Há faíscas, ruído, desgaste. Relações que nos melhoram nem sempre são confortáveis.
  • Afiar tem propósito. Ninguém amola uma faca para estragá-la, mas para que ela cumpra a sua função. O atrito saudável busca o bem do outro.

O contexto de Provérbios 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)

O versículo não está solto. O capítulo inteiro fala de relações. Ali se lê que a repreensão franca vale mais que um amor que nunca se manifesta, e que as feridas causadas por um amigo leal merecem mais confiança do que os agrados de quem não quer o nosso bem (Pv 27.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O conselho sincero de um amigo é comparado a perfume que alegra o coração (Pv 27.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há também a advertência de não abandonar o amigo, nem o amigo da família (Pv 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, pouco depois, outra imagem: assim como a água reflete o rosto, o coração revela a pessoa (Pv 27.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ou seja: o provérbio do afiar fala de amizades em que há verdade, conselho, lealdade e franqueza. Não de convivência superficial.

O que a Escritura mostra

A Bíblia está cheia de pessoas que foram afiadas por outras. Alguns exemplos ajudam a ver as várias formas desse cuidado.

Jônatas e Davi: o amigo que fortalece

Jônatas, filho do rei Saul, tinha todos os motivos humanos para ver em Davi um rival ao trono. Em vez disso, firmou com ele uma aliança de amizade (1Sm 18.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Davi fugia de Saul pelo deserto, Jônatas foi encontrá-lo e o fortaleceu em Deus, lembrando-o das promessas que o Senhor lhe fizera (1Sm 23.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Repare: ele não apenas consolou Davi, mas apontou para Deus. Há amigos que só nos acalmam; há amigos que nos devolvem a fé.

Natã e Davi: o amigo que confronta

Anos depois, o mesmo Davi cometeu adultério com Bate-Seba e tramou a morte de Urias. Deus enviou o profeta Natã, que contou uma história sobre um rico que tomou a única ovelha de um pobre. Davi se indignou com o rico, e Natã revelou que aquela era a história dele (2Sm 12.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O confronto foi duro, mas levou Davi ao arrependimento (2Sm 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Natã correu riscos para dizer a verdade. Esse é o atrito que salva.

Jetro e Moisés: o conselho que poupa

Moisés julgava sozinho todas as causas do povo, da manhã à noite. Seu sogro, Jetro, observou e foi direto: aquilo não era bom, e ele acabaria esgotado. Sugeriu dividir o trabalho com homens capazes e tementes a Deus, e Moisés ouviu (Êx 18.13-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Às vezes, a pessoa que nos melhora é a que enxerga de fora o que, de dentro, já não percebemos.

Barnabé, Priscila e Áquila: os que abrem caminho

Depois da conversão de Paulo, os discípulos em Jerusalém tinham medo dele. Foi Barnabé quem o apresentou aos apóstolos e garantiu a sua história (At 9.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mais tarde, Priscila e Áquila ouviram Apolo, um pregador eloquente que conhecia apenas parte do caminho, e, em vez de expô-lo em público, o receberam em casa e lhe explicaram com mais precisão o caminho de Deus (At 18.24-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Correção com discrição e respeito: Apolo saiu dali mais útil ao Reino.

O outro lado: companhias que nos pioram

A Escritura também é honesta sobre o efeito contrário. Quem anda com sábios se torna sábio, e quem se junta aos insensatos acaba prejudicado (Pv 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo adverte que as más companhias corrompem os bons costumes (1Co 15.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o rei Roboão é o retrato do conselheiro errado: desprezou a orientação dos mais velhos, seguiu os amigos de juventude que lhe disseram o que ele queria ouvir, e dividiu o reino (1Rs 12.6-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O provérbio do afiar funciona nos dois sentidos: a lâmina também pode ser estragada pelo contato errado.

O que Jesus ensina e faz

Ele formou pessoas pela convivência

Quando Jesus escolheu os Doze, o primeiro propósito declarado foi que estivessem com ele, e depois fossem enviados (Mc 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antes da missão, a convivência. Os discípulos foram afiados à mesa, nas estradas, nas tempestades, nos erros e nas correções. Jesus também os enviou de dois em dois (Lc 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Eclesiastes já ensinava que dois são melhores do que um, porque, se um cair, o outro o levanta (Ec 4.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ele chamou os discípulos de amigos

Na última ceia, Jesus disse que já não os chamava de servos, mas de amigos, porque lhes tinha revelado o que ouvira do Pai; e declarou que não há amor maior do que dar a vida pelos amigos (Jo 15.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A amizade com Cristo não é sentimental: é marcada pela verdade compartilhada e pelo sacrifício.

Ele afiou Pedro com verdade e graça

Nenhum discípulo passou por tanto atrito quanto Pedro. Jesus o repreendeu com firmeza quando ele tentou desviá-lo da cruz (Mt 16.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Avisou que ele o negaria, e no mesmo momento disse que tinha orado para que a sua fé não falhasse, e que, depois de restaurado, ele fortalecesse os irmãos (Lc 22.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, à beira do lago, Jesus perguntou três vezes se Pedro o amava, e três vezes lhe confiou o cuidado das ovelhas (Jo 21.15-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Repare no padrão: confronto sem humilhação, verdade sem abandono, correção que termina em missão. É assim que Cristo afia os seus.

Ele também buscou companhia

No Getsêmani, Jesus levou Pedro, Tiago e João mais para perto e pediu que vigiassem com ele em sua angústia (Mt 26.36-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Filho de Deus, em sua plena humanidade, não quis atravessar sozinho a hora mais escura. Se ele valorizou a presença de amigos, nós não somos autossuficientes.

Pessoas que afiam, não que ferem

Uma imagem forte como a do afiar pode ser mal usada. Por isso, vale dizer o que o provérbio não significa.

  • Não é licença para crítica constante. Há quem chame de "franqueza" o hábito de apontar defeitos o tempo todo. O Novo Testamento pede que a verdade seja dita em amor (Ef 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que quem corrige o faça com mansidão, olhando para si mesmo (Gl 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Não é suportar relações abusivas. Atrito que aprimora é diferente de violência, manipulação ou humilhação. A própria Escritura manda não fazer amizade com quem vive em fúria, para não aprender os seus caminhos (Pv 22.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se você vive uma relação que o diminui, buscar proteção e ajuda é sabedoria, não falta de fé.
  • Não é usar as pessoas. O provérbio fala de duas lâminas: ambos saem melhores. Relação em que só um lado cresce, à custa do outro, não é o que a Bíblia descreve.
  • Não substitui a obra de Deus. Pessoas são instrumentos; quem transforma o coração é o Espírito Santo (2Co 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhum amigo, mentor ou cônjuge pode ocupar o lugar de Deus na sua vida.

O que a experiência humana confirma é antigo e consistente. C. S. Lewis, em Os quatro amores, observa que a amizade nasce quando alguém diz a outro, com espanto, algo como: "Você também? Pensei que eu fosse o único." É do reconhecimento mútuo que nasce o companheirismo. E Dietrich Bonhoeffer, em Vida em comunhão, lembra que o primeiro serviço que devemos uns aos outros na comunhão é ouvir. Antes de afiar alguém, é preciso conhecê-lo. Fora do campo da fé, o conhecido Estudo de Desenvolvimento Adulto da Universidade Harvard, acompanhado por décadas, aponta a qualidade dos relacionamentos próximos como um dos fatores mais ligados à saúde e ao bem-estar ao longo da vida. Fomos feitos para a comunhão.

Caminhos práticos

Como viver isso no dia a dia? Algumas sugestões, à luz dos textos:

  1. Faça um inventário honesto. Quem são as pessoas mais próximas de você? Elas o aproximam ou o afastam de Cristo? Você sai das conversas com elas mais firme ou mais amargo (Pv 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
  2. Busque ao menos um amigo de verdade. Não um público, mas alguém a quem você dê permissão para dizer: "isso não está certo". Ore por essa pessoa e dê o primeiro passo.
  3. Aceite a correção sem se defender de imediato. Quando alguém de confiança apontar algo, agradeça e leve à oração antes de responder. Davi ouviu Natã; Moisés ouviu Jetro.
  4. Seja você também quem afia. Encoraje, ore, pergunte como o outro está de verdade. O autor de Hebreus pede que pensemos em como estimular uns aos outros ao amor e às boas obras, sem abandonar a reunião da igreja (Hb 10.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  5. Corrija em particular e com mansidão. Siga o exemplo de Priscila e Áquila: casa, mesa, respeito (At 18.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 18.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  6. Confesse e ore com alguém. Tiago liga a confissão mútua e a oração uns pelos outros à cura (Tg 5.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pecado guardado em segredo cresce; trazido à luz numa amizade fiel, perde força.
  7. Invista na comunidade. Pequenos grupos, discipulado, serviço juntos. A vida cristã do Novo Testamento é sempre no plural: "uns aos outros" aparece dezenas de vezes nas cartas (Rm 12.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 5.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  8. Cuide das amizades antigas. O mesmo capítulo do provérbio adverte contra abandonar o amigo de longa data (Pv 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um telefonema, uma visita, uma mensagem sincera podem restaurar o que o tempo desgastou.

E se você se sente sozinho agora, sem ninguém para caminhar junto, saiba que isso não é falta de fé nem sinal de que Deus o esqueceu. Elias também achou que tinha ficado só, e Deus lhe mostrou que havia outros fiéis e lhe deu um companheiro, Eliseu (1Rs 19.14-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Peça a Deus pessoas certas, e procure uma igreja onde possa ser conhecido. Se a solidão vier acompanhada de tristeza profunda, procure também ajuda profissional; e, se houver pensamentos de tirar a própria vida, ligue para o CVV, no telefone 188, gratuito e disponível 24 horas.

Cristo, o amigo que nos faz semelhantes a ele

No fim, o provérbio do afiar aponta para algo maior do que a boa convivência. O alvo de Deus para os seus é que sejam conformados à imagem do seu Filho (Rm 8.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As pessoas que nos tornam melhores são instrumentos desse propósito: cada correção amorosa, cada encorajamento, cada oração feita em nosso favor é uma ferramenta nas mãos de Deus para tirar o que não presta e revelar em nós o rosto de Cristo.

E há um amigo que nos afia como nenhum outro. Jesus nos conhece por inteiro e não desiste de nós. Ele confronta o nosso pecado, mas antes deu a vida por nós (Rm 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele corrige como um pai que ama (Hb 12.5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele intercede por nós quando falhamos, como intercedeu por Pedro (Lc 22.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E quem começou essa boa obra promete completá-la (Fp 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por isso, as melhores amizades cristãs são as que funcionam como espelhos apontados para ele. O amigo que nos torna melhores não quer que fiquemos parecidos com ele, mas com Cristo. Paulo podia dizer aos coríntios que o imitassem porque ele mesmo imitava a Cristo (1Co 11.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Talvez hoje seja o dia de agradecer a Deus por alguém que o afiou. Talvez seja o dia de procurar esse alguém. E talvez seja o dia de você ser, para outra pessoa, a lâmina amiga que, com verdade e amor, a ajuda a ser mais parecida com Jesus.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.