Pular para o conteúdo
Farol Bíblico
Início

← Todos os artigos

Cotidiano

Por que sofremos hoje com problemas que talvez nunca aconteçam?

À luz de Mateus 6, por que a mente antecipa o pior e como Jesus ensina a viver o dia de hoje debaixo do cuidado do Pai.

· 12 minutos de leitura

São três da manhã e você está acordado. Nada aconteceu — ainda. Mas a sua cabeça já ensaiou a conversa difícil com o chefe, já abriu o envelope com o resultado ruim do exame, já viu as contas vencerem sem dinheiro para pagá-las, já imaginou o telefone tocando com a notícia de um acidente na estrada. O coração dispara como se tudo fosse real. Quando amanhece, nenhuma dessas cenas se cumpriu. Mesmo assim, você levanta cansado, como quem atravessou uma tempestade inteira.

Esse é um dos sofrimentos mais comuns e mais silenciosos da vida: sofrer por antecipação. É como pagar, todos os dias, os juros de uma dívida que talvez nunca seja cobrada. E Jesus, no Sermão do Monte, dedica um trecho inteiro a essa experiência tão humana (Mt 6.25-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não fala para envergonhar quem se preocupa, mas para mostrar onde o coração preocupado pode, enfim, descansar.

Quando a mente passa a morar no amanhã

A capacidade de antecipar o futuro é um presente de Deus. É ela que nos faz guardar recursos, prevenir riscos, preparar os filhos para a vida. A própria Escritura elogia a formiga que se organiza no verão para não passar necessidade no inverno (Pv 6.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e José, no Egito, foi usado por Deus justamente porque planejou os anos de fartura pensando nos anos de fome (Gn 41.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O problema começa quando a imaginação deixa de preparar o futuro e passa a sofrer o futuro. A mente ansiosa não pergunta "o que posso fazer?", mas "e se acontecer o pior?" — e responde sempre com a pior versão possível. O amanhã deixa de ser um tempo aberto, nas mãos de Deus, e vira uma tela onde projetamos todos os nossos medos.

Essa experiência é antiga. O filósofo romano Sêneca, contemporâneo dos apóstolos, já escrevia a um amigo:

"Há mais coisas que nos assustam do que coisas que nos esmagam; sofremos mais na imaginação do que na realidade." (Sêneca, Cartas a Lucílio, carta 13)

A pesquisa contemporânea confirma a intuição. Num estudo publicado em 2020 na revista científica Behavior Therapy, os psicólogos Lucas LaFreniere e Michelle Newman pediram a pessoas com transtorno de ansiedade generalizada que anotassem suas preocupações durante alguns dias e, depois, conferissem quais delas tinham de fato acontecido. Cerca de nove em cada dez não se cumpriram. E, entre as que se cumpriram, muitas foram enfrentadas melhor do que a pessoa havia imaginado.

Boa parte do que nos tira o sono nunca chega, mas o corpo e a alma pagam o preço como se tivesse chegado. É aqui que as palavras de Jesus ganham força.

O que Jesus ensina no Sermão do Monte

O trecho de Mt 6.25-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma conexão que muitas vezes passa despercebida. Logo antes, Jesus afirma que é impossível entregar a lealdade do coração, ao mesmo tempo, a Deus e ao dinheiro (Mt 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E então diz: por isso, não vivam ansiosos. A preocupação, para Jesus, não é apenas um problema emocional; é também uma questão de a quem confiamos o nosso futuro.

Uma preocupação que divide por dentro

A palavra grega que Jesus usa é merimnaō, "preocupar-se", "andar ansioso". Ela aparece seis vezes nesses dez versículos — é o fio que costura o texto inteiro. Muitos comentaristas associam o termo à ideia de estar dividido, puxado em direções opostas, e, mesmo que essa ligação de origem seja discutida, a imagem descreve bem a experiência: o corpo está no presente, mas a mente está espalhada em mil futuros possíveis.

O mesmo verbo aparece quando Jesus fala com Marta, ocupada e agitada com muitas tarefas, enquanto Maria estava sentada aos pés dele (Lc 10.41-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E também na explicação da parábola do semeador, quando Jesus diz que as preocupações desta vida podem sufocar a Palavra como espinhos sufocam a planta (Mc 4.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ansiedade não apenas cansa: ela rouba espaço do que é essencial.

Olhe para os pássaros e para as flores

Jesus não responde à ansiedade com um sermão abstrato. Ele manda olhar. O verbo usado para os pássaros (emblepō) significa fixar os olhos com atenção, e o usado para as flores (katamanthanō) significa aprender observando com cuidado. É quase um exercício: pare, levante os olhos e repare.

Os pássaros não plantam, não colhem, não têm armazéns — e o Pai do céu os alimenta (Mt 6.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é elogio à preguiça — o pássaro trabalha o dia inteiro —, mas ele não carrega a angústia do amanhã e, mesmo assim, é sustentado. Depois, Jesus aponta para as flores do campo, que não tecem roupa nenhuma e, ainda assim, são vestidas com uma beleza maior do que a de Salomão em todo o seu esplendor real (Mt 6.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, se Deus cuida assim de uma erva que hoje está no campo e amanhã vira lenha no forno, quanto mais cuidará de você (Mt 6.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?

É um raciocínio do menor para o maior, comum entre os mestres judeus. O argumento não é "pense positivo", mas "lembre quem é o seu Pai e quanto você vale para ele".

No meio disso, Jesus faz uma pergunta desconcertante: qual de vocês, por mais que se preocupe, consegue acrescentar um pouco que seja ao tempo da própria vida (Mt 6.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? A preocupação promete controle, mas não entrega nada. Ela não acrescenta uma hora sequer — apenas subtrai a paz das horas que já temos.

Fé pequena, não fé nenhuma

Jesus chama seus ouvintes de oligopistoi, "gente de fé pequena" (Mt 6.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É uma expressão que ele usa outras vezes com os próprios discípulos: no barco durante a tempestade (Mt 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com Pedro afundando na água (Mt 14.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), quando eles se preocupam por terem esquecido o pão (Mt 16.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é uma palavra dirigida a incrédulos, mas a pessoas que creem e, mesmo assim, se esquecem.

A raiz do problema aparece em seguida: quem não conhece a Deus vive em função de comida, bebida e roupa, enquanto o discípulo tem um Pai celeste que já conhece cada uma das suas necessidades (Mt 6.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ansiedade, muitas vezes, é viver como órfão tendo um Pai.

Primeiro o Reino

Então vem o centro do texto: colocar o Reino de Deus e a justiça que vem dele no topo das prioridades, e confiar que o necessário será acrescentado (Mt 6.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso não é uma promessa de prosperidade garantida. O mesmo Paulo que confiava em Deus conheceu a fome e a escassez (Fp 4.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A promessa é outra: o Pai não abandona os seus, e aquilo de que realmente precisamos para cumprir a vontade dele não nos faltará.

Quando o Reino ocupa o primeiro lugar, o resto volta ao seu tamanho real. As contas, o emprego, a saúde continuam importantes, mas deixam de ser deuses que exigem a nossa paz como sacrifício.

Cada dia com o seu próprio peso

O trecho termina com uma frase de enorme realismo: Jesus manda deixar o amanhã cuidar de si mesmo, porque cada dia já chega com a sua própria carga de aflições (Mt 6.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra grega para essas dificuldades é kakia, "mal", "aflição".

Jesus não promete dias sem problemas. Ele reconhece que cada dia tem a sua cota. O que ele proíbe é somar ao peso de hoje o peso de amanhã — e, pior, o peso de um amanhã que talvez nem exista.

Isso ecoa a história do maná no deserto: Deus dava o alimento do dia, e o que o povo tentava guardar para o dia seguinte apodrecia (Êx 16.4,19-20). E ecoa também a oração que Jesus ensina poucos versículos antes, no mesmo capítulo, quando nos manda pedir o pão de hoje (Mt 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A graça de Deus é entregue em porções diárias. O profeta Jeremias, em meio às ruínas de Jerusalém, lembra que a misericórdia do Senhor se renova a cada manhã (Lm 3.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ninguém recebe hoje a graça para o problema de amanhã — e nem precisa.

A Escritura não esconde a angústia

Seria um erro ler Mateus 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como se Jesus condenasse toda emoção de medo ou aflição. A própria Bíblia está cheia de gente angustiada — e Deus não a despreza.

Elias, depois de uma grande vitória, foge apavorado com a ameaça de Jezabel e pede para morrer debaixo de uma árvore no deserto. A resposta de Deus não começa com repreensão: ele dá sono, comida e água, duas vezes, e só depois fala com o profeta (1Rs 19.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Davi, perseguido, confessa que gostaria de ter asas para fugir para longe, e termina o salmo convidando a entregar o fardo ao Senhor, que sustenta o justo (Sl 55.6-8,22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O próprio Jesus, no Getsêmani, diz aos discípulos que sua alma está tomada por uma tristeza mortal, e ora três vezes ao Pai, em agonia (Mt 26.37-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não tinha pecado algum — e, ainda assim, sentiu angústia. Sentir medo não é pecado. A questão é para onde levamos esse medo.

Até o apóstolo Paulo usa o substantivo merimna para falar da preocupação que carregava diariamente por todas as igrejas (2Co 11.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há, portanto, um cuidado responsável, que nasce do amor e se transforma em ação e oração. E há a ansiedade que tenta ocupar o lugar de Deus, querendo controlar o que não está em nossas mãos. É contra esta que Jesus fala.

O que este texto não significa

Não é uma proibição de planejar. Jesus mesmo ensina que quem vai construir uma torre precisa sentar e calcular o custo antes (Lc 14.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Fazer orçamento, poupar, buscar prevenção médica, organizar a agenda — tudo isso é sabedoria. A diferença está entre planejar o amanhã e viver atormentado por ele.

Não é um diagnóstico espiritual de quem sofre de ansiedade. O transtorno de ansiedade, os ataques de pânico e a depressão são condições de saúde reais, com componentes físicos, emocionais e espirituais. Ter um desses quadros não significa que a sua fé seja menor do que a de outros cristãos. A fé não substitui o cuidado médico e psicológico — e buscar esse cuidado é um ato de responsabilidade, não de incredulidade. Se a preocupação está paralisando a sua vida, procure um médico, um psicólogo, e converse com a liderança da sua igreja. E se em algum momento surgirem pensamentos de morte ou de tirar a própria vida, ligue para o CVV, no telefone 188: a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas.

Não é uma promessa de que o temido nunca acontecerá. Às vezes, o diagnóstico vem. Às vezes, o emprego é perdido. Jesus não diz que nada de ruim acontecerá; diz que cada dia terá a sua porção, e que o Pai estará presente nela. Se o dia difícil chegar, a graça para aquele dia chegará com ele.

Caminhos práticos para quem sofre por antecipação

À luz desses textos, alguns passos concretos podem ajudar:

  1. Pergunte: isto é de hoje ou de amanhã? Diante de cada preocupação, veja se há algo a fazer hoje. Se houver, faça — telefone, organize, peça ajuda. Se não houver, reconheça que aquilo ainda não chegou e devolva-o, em oração, a quem cuida do amanhã.
  2. Transforme a preocupação em oração específica. Paulo orienta a não viver ansioso, mas a apresentar a Deus os pedidos com oração, súplica e gratidão; e afirma que uma paz que a lógica não consegue explicar guardará o coração e a mente em Cristo Jesus (Fp 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dê nome ao medo diante de Deus.
  3. Entregue o peso, literalmente. Pedro convida a despejar sobre Deus o peso inteiro das nossas ansiedades, com a certeza de que ele se importa conosco (1Pe 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo grego é epiriptō, "jogar sobre", o mesmo usado quando os discípulos jogam suas capas sobre o jumentinho em que Jesus entraria em Jerusalém (Lc 19.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é empurrar de leve; é tirar o peso das costas.
  4. Cuide do corpo. O cuidado de Deus com Elias começou com sono e comida (1Rs 19.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Noites mal dormidas, excesso de estímulos e falta de descanso alimentam a mente ansiosa.
  5. Não carregue sozinho. A Escritura nos manda levar os fardos uns dos outros (Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Conte a alguém de confiança o que está pesando.

Esperança em Cristo: o amanhã já tem dono

Jesus não é apenas o mestre que ensina a não viver ansioso; ele é aquele que viveu em plena confiança no Pai. Dormiu no barco durante a tempestade enquanto os discípulos entravam em pânico (Mc 4.37-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, diferente de nós, ele enfrentou um futuro terrível que sabia que viria: anunciou várias vezes a própria cruz (Mt 16.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 20.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e caminhou para ela entregue à vontade do Pai.

Na cruz, Cristo enfrentou o pior futuro que poderia nos alcançar — a condenação e a separação de Deus — para que esse futuro nunca seja o nosso. Por isso Paulo argumenta do maior para o menor: se Deus chegou a entregar o próprio Filho por nós, não há razão para imaginar que nos negará o restante (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E nenhuma força, nem do tempo atual nem do que ainda virá, consegue romper o amor de Deus revelado em Cristo (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

É isso que muda a forma de olhar para o amanhã. O futuro não é uma tela em branco para os nossos medos; ele está nas mãos de um Pai que prometeu jamais desamparar os seus (Hb 13.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e de um Salvador que garantiu a sua presença com os discípulos em cada dia, até a consumação da história (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O último capítulo também já está escrito: Deus habitará com o seu povo, consolará cada tristeza e porá fim à morte, ao luto e ao sofrimento (Ap 21.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Então, na próxima vez em que você acordar às três da manhã com a mente correndo para cenários que talvez nunca aconteçam, lembre-se: o amanhã já tem dono. Hoje você tem um Pai, tem o pão do dia e tem graça suficiente para a porção de hoje. O resto pode esperar — nas mãos de quem cuida dos pássaros, veste as flores e entregou o próprio Filho por você.

← Todos os artigos↑ Voltar ao topo

Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.