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Cotidiano

Quando Jesus parece dormir durante nossa tempestade

Marcos 4.35-41 e a noite em que os discípulos acharam que Jesus não se importava — e descobriram quem estava no barco com eles.

12 minutos de leitura

Há noites em que a vida vira de uma hora para outra. O exame que volta com um resultado que ninguém esperava. A demissão comunicada numa reunião de quinze minutos. O filho que não atende o telefone. A conta que não fecha, o casamento que range, o luto que chega sem aviso. E, no meio disso, uma oração feita com toda a força — seguida de um silêncio que parece não ter fim.

Quem vive algo assim conhece a pergunta que sobe do peito, às vezes envergonhada, às vezes indignada: Senhor, onde o Senhor está? Será que não se importa? Muitos cristãos guardam essa pergunta para si, com medo de que ela soe como falta de fé. O Evangelho de Marcos, porém, a coloca em plena luz, na boca dos próprios discípulos, dentro de um barco que estava afundando. E é justamente ali, nessa pergunta crua, que começa uma das revelações mais profundas sobre quem é Jesus.

Uma travessia que o próprio Jesus propôs

O episódio acontece no fim de um dia longo. Jesus havia passado horas ensinando a multidão à beira do mar da Galileia, sentado num barco, por meio de parábolas — o semeador, a candeia, a semente que cresce sozinha, o grão de mostarda (Mc 4.1-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao entardecer, é ele quem toma a iniciativa: propõe aos discípulos atravessar para o lado oposto do lago (Mc 4.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Eles deixam a multidão e o levam no barco, do jeito em que estava, e outros barcos seguem junto (Mc 4.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Esse detalhe costuma passar despercebido, mas é decisivo: a tempestade não veio porque os discípulos desobedeceram. Eles estavam exatamente onde Jesus mandou estar, fazendo exatamente o que ele pediu. Isso desmonta logo de saída uma ideia muito difundida — a de que toda dificuldade é sinal de que saímos da vontade de Deus. Às vezes, a tempestade nos encontra no meio da obediência.

Marcos descreve o que veio a seguir com uma expressão forte: uma lailaps megalē, um grande turbilhão de vento (Mc 4.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As ondas passavam por cima do barco, que já estava se enchendo de água. Segundo os estudiosos da geografia da região, o mar da Galileia fica cerca de duzentos metros abaixo do nível do mar e é cercado por colinas e vales estreitos; o ar frio que desce das alturas pode provocar, de repente, ventanias violentas sobre a água. Vários dos discípulos eram pescadores experientes, criados naquele lago (Mc 1.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se eles se apavoraram, não era exagero: o perigo era real.

O sono de Jesus: descaso ou confiança?

É aqui que o relato surpreende. Enquanto o barco enche de água, Jesus está na parte de trás da embarcação, dormindo, com a cabeça apoiada numa almofada (Mc 4.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marcos é o único evangelista a registrar a almofada — um detalhe de testemunha ocular, que a tradição antiga associa às lembranças de Pedro.

Esse sono diz pelo menos duas coisas.

Ele era plenamente humano

Jesus estava exausto depois de um dia inteiro de ensino. Ele sentiu cansaço, fome e sede como qualquer um de nós (Jo 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 4.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A carta aos Hebreus insiste nisso: temos um sumo sacerdote que conhece por dentro as nossas fraquezas (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Jesus que dorme no barco não é uma figura distante; é alguém que sabe o que é chegar ao fim do dia sem forças.

Ele confiava plenamente no Pai

O sono, na Escritura, também pode ser um sinal de paz. Davi descreve a tranquilidade de quem se deita e dorme porque sabe que é o Senhor quem guarda a sua vida (Sl 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus dorme no meio da tempestade não por descuido, mas porque descansa inteiramente nas mãos do Pai.

O contraste com Jonas

Há outro homem na Bíblia que dormiu num barco durante uma tempestade: o profeta Jonas (Jn 1.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o contraste é total. Jonas dormia fugindo de Deus; a tempestade veio por causa dele, e os marinheiros o acordaram para que clamasse ao seu Deus. Jesus dorme em obediência; e, quando é acordado, não precisa pedir a ninguém que acalme o mar — ele mesmo o acalma. Não por acaso, Jesus diria mais tarde que diante deles estava alguém maior do que Jonas (Mt 12.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A pergunta que os discípulos não conseguiram calar

Desesperados, os discípulos acordam Jesus. Chamam-no de Mestre — didaskale — e lhe fazem uma pergunta que soa quase como uma acusação: será que ele não se importava com o fato de que estavam morrendo? (Mc 4.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Vale notar como os outros evangelhos registram a mesma cena. Mateus e Lucas trazem o pedido de socorro de forma mais suave, como um clamor por salvação (Mt 8.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 8.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marcos preserva a versão mais áspera, com a dúvida sobre o cuidado de Jesus. E isso é um presente para nós: a Bíblia não esconde a fragilidade dos discípulos — e, portanto, não esconde a nossa.

Essa pergunta tem raízes antigas. Nos salmos, o povo de Deus mais de uma vez chama o Senhor a "despertar", como se ele estivesse dormindo enquanto os seus sofriam (Sl 44.23-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Davi pergunta até quando Deus esconderia o rosto (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o salmo 88 termina sem nenhuma resolução, mergulhado na escuridão (Sl 88.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Escritura dá ao crente palavras para o lamento. Levar a Deus a nossa dúvida não é falta de fé — é fé que ainda não desistiu de falar com ele.

Repare também no que Jesus não faz: ele não repreende os discípulos por o terem acordado. Eles fizeram a coisa certa ao ir até ele. A pergunta que ele lhes fará depois é sobre outra coisa.

O vento se cala, e o medo muda de endereço

Jesus se levanta, repreende o vento e ordena ao mar que fique em silêncio (Mc 4.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo usado para o mar, phimoō, significa "amordaçar", "fazer calar" — o mesmo que Marcos usa quando Jesus manda calar um espírito impuro na sinagoga de Cafarnaum (Mc 1.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O vento para, e vem o que Marcos chama de galēnē megalē, uma grande calmaria.

Só então Jesus se volta para os discípulos e lhes pergunta por que estavam tão amedrontados, e se ainda não tinham fé (Mc 4.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra grega para o medo deles, deilos, indica covardia, um medo que paralisa. Jesus não lhes nega a emoção; ele os convida a examinar em quem estavam apoiados.

O final do relato tem uma ironia preciosa. Marcos começou com uma grande tempestade, passou por uma grande calmaria e termina com um grande temor — phobos megas (Mc 4.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos tinham tido medo do mar; agora têm medo de quem acabou de acalmá-lo. E comentam uns com os outros, assombrados: que homem é esse, capaz de dar ordens ao vento e às ondas e ser atendido?

A pergunta não fica sem resposta para quem conhece o Antigo Testamento. Era o próprio Deus quem dominava a fúria do mar e acalmava suas ondas (Sl 89.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 65.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Era ele quem tinha posto limites às águas desde a criação (Jó 38.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o salmo 107 descreve marinheiros em perigo que clamam ao Senhor no meio da tempestade, e ele transforma o temporal em calmaria e os conduz ao porto que buscavam (Sl 107.23-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No barco da Galileia, os discípulos assistem a esse salmo acontecer diante dos seus olhos — e quem o realiza é o homem que estava dormindo na almofada.

Paulo diria mais tarde que em Cristo todas as coisas foram criadas e nele todas subsistem (Cl 1.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O vento obedece porque reconhece a voz do seu Criador.

O que esta passagem não promete

Marcos 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos textos mais consoladores dos Evangelhos, mas é preciso lê-lo com honestidade, para não transformá-lo naquilo que ele não é.

  • Não promete que a tempestade não virá. Ela veio — e veio para quem obedecia. O próprio Paulo, servo fiel, enfrentou três naufrágios e passou uma noite e um dia em alto-mar (2Co 11.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e, a caminho de Roma, viveu outra tempestade que durou dias (At 27.13-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Não promete que toda tempestade se acalma na hora. Às vezes Deus acalma o mar; às vezes ele sustenta o barco no meio das ondas. Em At 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o navio se perdeu, mas ninguém morreu. O livramento nem sempre tem a forma que esperamos.
  • Não ensina que o sofrimento é culpa da sua pouca fé. A pergunta de Jesus sobre a fé dos discípulos veio depois de acalmar a tempestade, e não como condição para isso. Ele os salvou com a fé pequena que tinham.
  • Não manda engolir a dor em silêncio. Os discípulos gritaram — e foram atendidos.

Uma palavra importante a quem atravessa uma tempestade interior: ansiedade intensa, depressão, crises de pânico e luto prolongado são realidades que também pedem cuidado médico e psicológico. Procurar um profissional não é falta de fé; é usar os meios que Deus coloca ao nosso alcance, assim como ninguém se envergonha de tomar remédio para uma infecção. Fale também com seu pastor e com irmãos de confiança. E, se em algum momento passar pela sua cabeça a ideia de tirar a própria vida, ligue agora para o CVV, no número 188 — a ligação é gratuita e o atendimento funciona 24 horas por dia.

Caminhos para atravessar a noite no barco

À luz do texto, alguns passos concretos podem ajudar quem está no meio da tempestade:

  1. Lembre quem propôs a travessia. Se você está onde Deus o colocou — no trabalho, na família, no ministério —, a tempestade não anula o chamado. Aquele que propôs a travessia já sabia do vento antes de você embarcar.
  2. Ore com honestidade. Diga a Deus exatamente o que sente, inclusive o medo de que ele não se importe. Pedro, que estava naquele barco, escreveria anos depois que podemos descarregar em Deus todo o peso que nos aflige, pois ele se ocupa de nós (1Pe 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Paulo ensina a levar cada necessidade a Deus em oração, com gratidão, e fala de uma paz que vai além da nossa compreensão e protege o íntimo de quem crê (Fp 4.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  3. Lembre que ele está no barco. O sono de Jesus não era ausência. Ele nunca prometeu poupar-nos da tempestade, mas prometeu sua presença contínua até o fim (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e garantiu que jamais nos deixaria (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  4. Faça memória. Asafe, em plena angústia, decidiu recordar as obras antigas de Deus (Sl 77.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Escreva as tempestades que o Senhor já atravessou com você. A memória da fidelidade de ontem sustenta a fé de hoje.
  5. Não reme sozinho. Havia outros barcos com Jesus naquela noite (Mc 4.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e havia doze homens no mesmo barco. A fé cristã é vivida em comunidade, e ajudar o irmão a levar o seu peso é viver a lei de Cristo (Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  6. Volte o seu temor para o lugar certo. O ponto final do relato não é o mar calmo, mas a pergunta sobre a identidade de Jesus. Quanto mais você conhece Jesus, menor fica o tamanho relativo da tempestade.

Agostinho, num de seus sermões sobre essa passagem, aplicou a cena ao coração do crente: quando somos sacudidos pelas ondas da ofensa, da cobiça ou do medo, é como se Cristo estivesse adormecido em nós, porque nos esquecemos dele; acordá-lo é trazer à memória quem ele é e o que ele disse. É uma leitura devocional, não o sentido principal do texto, mas toca num ponto verdadeiro: muitas vezes quem precisa despertar não é Jesus, é a nossa lembrança dele.

A tempestade maior que ele atravessou por nós

A história do barco aponta para uma noite ainda mais escura. Semanas antes da cruz, no Getsêmani, os papéis se invertem: agora são os discípulos que dormem, e Jesus quem vigia, sozinho, em angústia mortal (Mc 14.32-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele pede que fiquem acordados com ele — e eles não conseguem.

Na cruz, Jesus enfrenta a tempestade de que nenhum de nós sairia vivo. E ali é ele quem faz a pergunta que os discípulos tinham feito no barco, em forma de grito: pergunta ao Pai por que tinha sido abandonado (Mc 15.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos, no barco, pensaram que Jesus não se importava; Jesus, na cruz, experimentou de fato o desamparo, para que os que confiam nele nunca sejam abandonados. Ele entrou no silêncio de Deus para que o silêncio nunca fosse a última palavra para nós.

Por isso Paulo pode afirmar que nenhuma aflição, nenhum perigo, nem a própria morte, nem qualquer outra realidade criada consegue afastar de nós o amor de Deus revelado em Cristo (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E por isso a ressurreição é a grande calmaria definitiva: o túmulo vazio é a prova de que nem o mar mais fundo de todos, a morte, resiste à voz de Jesus.

Marcos registra que, depois daquela noite, o barco chegou à outra margem (Mc 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A travessia que Jesus propôs foi concluída — não sem vento, não sem medo, mas com ele a bordo. Se hoje você está no meio da sua tempestade, e Jesus parece dormir, lembre-se: ele não está ausente, não está indiferente e não perdeu o controle. Ele está no barco. E quem está com ele chega ao outro lado.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.