Cotidiano
Quando nos sentimos abandonados
Do clamor de Davi no Salmo 27 ao grito de Jesus na cruz: o que a Bíblia diz a quem se sente deixado para trás.
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Há um tipo de dor que não aparece em exames. É a sensação de ter ficado para trás: o pai que foi embora e nunca mais ligou, a mãe que não soube amar, o casamento que terminou com uma mala na porta, os amigos que sumiram quando a doença chegou, a igreja que não percebeu a sua ausência. Às vezes não houve uma ruptura dramática, só um silêncio que foi crescendo até virar distância. E, junto com a solidão, vem uma pergunta mais funda e mais assustadora: se até essas pessoas me deixaram, será que Deus também não me deixou?
A Bíblia não foge dessa pergunta. Ela não trata o abandono como fraqueza de quem tem pouca fé, nem oferece frases prontas para calar a dor. Ao contrário: dá voz a quem se sente deixado, registra o lamento sem censura e, no centro de tudo, mostra um Deus que entrou pessoalmente na experiência do abandono para que nenhum dos seus fosse deixado para sempre. Este artigo percorre esse caminho, a partir de um versículo que tem sustentado gerações de cristãos: o Salmo 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O que Davi afirma no Salmo 27
O Salmo 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem duas metades que parecem vir de momentos diferentes. Na primeira, Davi fala com uma confiança quase desafiadora: o Senhor é a sua luz e a sua salvação, e nem um exército acampado ao redor o faria tremer (Sl 27.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele deseja uma única coisa — morar na casa do Senhor e contemplar a sua beleza — e sabe que no dia mau será escondido no abrigo de Deus (Sl 27.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
De repente, o tom muda. A partir do versículo 7, o salmista implora para ser ouvido, pede que Deus não esconda dele o rosto, não o rejeite, não o desampare (Sl 27.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesma pessoa que cantava vitória agora suplica. Essa oscilação é preciosa: mostra que a fé verdadeira não é uma linha reta de serenidade, mas uma confiança que convive com o medo e volta a Deus justamente quando o medo aperta.
É nesse ponto, no meio da súplica, que aparece a afirmação do versículo 10. Davi considera a hipótese mais dolorosa que um ser humano pode imaginar — ser deixado pelo próprio pai e pela própria mãe — e declara que, mesmo então, não ficaria sem lar, porque o Senhor o recolheria (Sl 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O verbo que muda tudo
O verbo hebraico usado aqui é asaf, que significa "reunir", "recolher", "trazer para dentro". É a palavra usada para o agricultor que recolhe a colheita para o celeiro e para quem acolhe um viajante sob o próprio teto. Não descreve um Deus que observa de longe a criança abandonada na estrada, mas um Deus que a apanha, a leva para dentro de casa e fecha a porta para protegê-la.
Repare também no que o versículo não diz. Ele não promete que os pais nunca falharão, nem que as pessoas mais próximas nunca vão embora. A Escritura é realista sobre a fragilidade dos laços humanos. O que ela garante é outra coisa: quando o último vínculo humano se rompe, ainda resta um vínculo que não se rompe. O abandono pelos homens é possível; o abandono definitivo por Deus, para quem se refugia nele, não é.
O profeta Isaías leva a mesma imagem ainda mais longe. Diante de Sião, que se queixava de ter sido esquecida, Deus pergunta se uma mãe poderia esquecer a criança que amamenta — e responde que, mesmo que isso acontecesse, ele não se esqueceria do seu povo, cujo nome traz gravado nas palmas das mãos (Is 49.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O amor de Deus é medido acima do mais forte amor humano que conhecemos.
Outros que se sentiram deixados para trás
Davi não está sozinho. A Bíblia está cheia de pessoas que conheceram o abandono por dentro, e a maneira como Deus as encontra diz muito sobre como ele nos encontra.
Agar, a mulher que ninguém via
Agar era uma serva estrangeira, usada para resolver o problema de outros e depois expulsa. Duas vezes ela foge ou é mandada para o deserto, a segunda delas com o filho pequeno, quando a água acaba e ela se afasta para não vê-lo morrer (Gn 16.6-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 21.14-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nas duas ocasiões, Deus vai ao encontro dela. Na primeira, Agar dá a Deus um nome que nenhum outro personagem da Bíblia havia dado: o Deus que vê (Gn 16.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mulher invisível para todos descobre que nunca foi invisível para ele.
José, vendido pelos irmãos
José foi traído pelos próprios irmãos, vendido como escravo e esquecido na prisão por quem prometera lembrar-se dele (Gn 37.23-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 40.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ainda assim, o relato repete, como um refrão, que o Senhor estava com José (Gn 39.2,21,23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A presença de Deus não o livrou imediatamente da cova nem do cárcere, mas acompanhou-o em cada um desses lugares.
Elias, exausto debaixo da árvore
Depois de uma grande vitória, Elias foge, senta-se sozinho no deserto e pede para morrer, convencido de que só ele restara fiel (1Rs 19.3-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não o repreende. Primeiro o deixa dormir e manda alimentá-lo; depois fala com ele de forma serena e, por fim, corrige a sua percepção: havia milhares que não tinham se dobrado à idolatria, e Elias ganharia um companheiro, Eliseu (1Rs 19.5-8,15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sentimento de estar completamente só era real, mas não correspondia a toda a realidade.
Paulo, sozinho no tribunal
No fim da vida, preso em Roma, Paulo conta a Timóteo que na sua primeira defesa ninguém ficou ao seu lado — todos o deixaram. Mas acrescenta que o Senhor esteve com ele e lhe deu forças (2Tm 4.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O apóstolo não esconde a mágoa, mas também não permite que ela tenha a última palavra.
Essas histórias têm um padrão: Deus não poupa os seus do abandono humano, mas se faz presente justamente nele. E, muitas vezes, depois de sustentar a pessoa sozinho, ele a devolve à companhia de outros.
Jesus, o abandonado por excelência
Se o tema parasse em Davi, Agar, José, Elias e Paulo, já seria consolador. Mas o Evangelho vai mais fundo. Aquele que acolhe os abandonados quis, ele mesmo, ser abandonado.
Jesus foi rejeitado pela sua cidade (Lc 4.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), incompreendido pela própria família (Mc 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, na hora decisiva, deixado por todos os discípulos, que fugiram quando ele foi preso (Mt 26.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, o mais próximo, negou conhecê-lo três vezes (Lc 22.54-62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus havia anunciado essa hora: os seus o deixariam sozinho, mas ele não estaria só, porque o Pai estava com ele (Jo 16.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Então, na cruz, acontece algo que ultrapassa qualquer abandono humano. Jesus clama em alta voz as palavras iniciais do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o grande salmo do justo que se sente desamparado por Deus (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali, o Filho carregava o pecado do mundo e experimentava, em nosso lugar, a separação que o pecado produz. Paulo resume o mistério dizendo que aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há quem leia esse clamor como sinal de desespero sem fé. Mas quem conhece o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sabe como ele termina: em louvor, com a certeza de que Deus não desprezou o aflito nem escondeu dele o rosto (Sl 22.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não perdeu a confiança; ele levou o abandono até o fim para quebrá-lo por dentro.
É aqui que o Salmo 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ganha a sua profundidade máxima. Davi podia dizer que o Senhor o recolheria porque, séculos depois, o próprio Filho seria deixado do lado de fora — fora da cidade, fora da companhia dos amigos, sob o peso do juízo (Hb 13.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele foi excluído para que nós fôssemos recolhidos. Por isso Jesus pôde prometer aos discípulos que não os deixaria órfãos, mas viria até eles (Jo 14.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e terminar o Evangelho de Mateus garantindo a sua presença todos os dias, até o fim (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sentir-se abandonado não é o mesmo que ser abandonado
Essa distinção é libertadora. O sentimento de abandono é real e merece ser levado a sério; não é falta de fé chorar a ausência de alguém, nem perguntar a Deus onde ele está. Os salmos de lamento fazem exatamente isso (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 88 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a Bíblia afirma que, para quem está em Cristo, o sentimento não define a realidade. A carta aos Hebreus retoma a promessa feita a Josué e a aplica a todo cristão: Deus não nos deixará nem nos desamparará (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 31.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Você pode sentir-se só e, ao mesmo tempo, estar sendo carregado.
Caminhos práticos para quem se sente deixado
A fé não transforma a dor do abandono em mágica. Mas oferece caminhos concretos, que a própria Escritura ilustra.
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Dê nome à ferida diante de Deus. O Salmo 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não esconde o medo de ser rejeitado; ele o coloca em oração. Escreva, se ajudar, o que aconteceu e como você se sente. O lamento honesto não afasta você de Deus — é uma forma de se aproximar dele.
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Distinga a rejeição das pessoas do seu valor diante de Deus. Quem foi deixado tende a concluir que merecia ser deixado. A Escritura diz outra coisa: em Cristo, você foi adotado como filho e recebeu o Espírito que o faz chamar Deus de Pai (Rm 8.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 4.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O seu valor não foi definido por quem foi embora.
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Cuide do corpo, como Deus cuidou de Elias. Antes de qualquer conversa, Elias dormiu e comeu (1Rs 19.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sono, alimentação e descanso não são detalhes espirituais menores; fazem parte do cuidado de Deus.
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Deixe que a igreja seja família. O salmista diz que Deus faz o solitário morar em família (Sl 68.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus prometeu que quem deixasse casa e parentes por causa dele encontraria, já nesta vida, novos irmãos, mães e filhos (Mc 10.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Procure uma comunidade, um pequeno grupo, um pastor ou um amigo de fé. Às vezes, o acolhimento de Deus chega com rosto humano.
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Busque ajuda profissional sem culpa. O abandono, sobretudo na infância, pode deixar marcas profundas: dificuldade de confiar, medo de vínculos, tristeza persistente, depressão. Procurar um psicólogo ou um médico não é sinal de fé fraca, mas de sabedoria e cuidado. A graça de Deus também age por meio de profissionais.
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Se a dor ficou insuportável, peça ajuda agora. Se você tem pensado que seria melhor não estar mais aqui, não enfrente isso sozinho. Ligue para o CVV — Centro de Valorização da Vida, pelo telefone 188, gratuito e disponível 24 horas — e conte a alguém de confiança o que está sentindo.
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Com o tempo, torne-se abrigo para outros. Quem foi recolhido por Deus aprende a recolher. Tiago lembra que a religião pura inclui visitar os órfãos e as viúvas na sua aflição (Tg 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A sua experiência de abandono pode, um dia, transformar-se em sensibilidade para perceber quem está sozinho ao seu lado.
Esperança em Cristo: ninguém pode arrancar você das mãos dele
Agostinho abre as suas Confissões reconhecendo que Deus nos fez para si e que o nosso coração vive inquieto até descansar nele. Essa inquietação fica mais aguda quando as pessoas em quem buscávamos descanso nos falham. O abandono humano, por mais doloroso, pode se tornar o lugar onde descobrimos que existe um amor que não depende da constância dos outros.
Jesus se apresentou como o Bom Pastor que conhece as suas ovelhas pelo nome, dá a vida por elas e garante que ninguém as arrancará da sua mão — nem da mão do Pai (Jo 10.11,14,27-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, depois de enumerar tudo o que poderia nos separar do amor de Deus — tribulação, angústia, perseguição, perigo, morte, vida, poderes presentes e futuros —, conclui que nada disso será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A lista inclui, por certo, o pai que partiu, a mãe que não soube amar, o amigo que traiu.
O Salmo 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina com um convite: esperar no Senhor, ter ânimo e deixar que o coração se fortaleça (Sl 27.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é um convite para fingir que a dor não existe, mas para atravessá-la com os olhos postos em quem prometeu nunca ir embora. Talvez você ainda não sinta essa presença. Ela não depende do seu sentimento para ser verdadeira. Aquele que foi deixado sozinho na cruz para que você fosse recolhido não vai abandonar agora quem ele comprou com o próprio sangue.
Se as portas humanas se fecharam, há uma porta que continua aberta. E, do lado de dentro, há um Pai que reconhece você de longe e corre para recebê-lo (Lc 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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