Cotidiano
Quando todos se vão: a solidão de Jesus e a nossa
Na véspera da cruz, Jesus anuncia que os amigos vão abandoná-lo — e mostra onde encontrar paz quando a gente fica sozinho.
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Há um tipo de solidão que dói mais do que as outras: a de quem foi deixado. Não é o silêncio escolhido de um fim de tarde, nem a casa vazia depois que os filhos cresceram e seguiram a vida. É o telefone que parou de tocar depois da demissão, o grupo de amigos que sumiu quando veio a doença, o cônjuge que foi embora, os irmãos de igreja que se afastaram depois de um conflito. É descobrir, na hora mais difícil, que as pessoas com quem você contava não ficaram.
Jesus conheceu essa dor por dentro. Na última noite antes da cruz, depois de horas de conversa com os discípulos, ele anuncia sem rodeios que a hora estava chegando — e, na verdade, já tinha chegado — em que cada um deles fugiria para o seu lado e o deixaria sozinho. E, na mesma frase, acrescenta que não estaria só, porque o Pai estava com ele (Jo 16.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Logo depois, explica por que lhes dizia tudo aquilo: para que, nele, tivessem paz, mesmo num mundo que lhes traria aflição; e os chama à coragem, porque ele já havia vencido o mundo (Jo 16.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
São dois versículos curtos. Mas, para quem está atravessando um abandono, eles dizem quase tudo o que precisa ser dito.
A última noite e uma pergunta incômoda
Os capítulos 13 a 17 de João registram a despedida de Jesus. Ele lava os pés dos discípulos, anuncia a traição de Judas e a negação de Pedro, fala da casa do Pai, promete o Espírito Santo, usa a imagem da videira e dos ramos e, no fim, ora pelos seus (Jo 13–17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É uma conversa longa, cheia de ternura e de avisos.
Pouco antes dos versículos que nos ocupam, os discípulos fazem uma declaração confiante: agora, sim, entendiam tudo; agora tinham certeza de que ele viera de Deus (Jo 16.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta de Jesus é desconcertante. Ele pergunta se eles realmente creem agora — como quem conhece o peso de uma frase dita com entusiasmo — e anuncia a dispersão que viria em poucas horas (Jo 16.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Não há ironia cruel aqui, nem desprezo. Há realismo. Jesus sabe do que é feito o coração humano (Jo 2.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os outros evangelhos mostram que ele ligou aquela fuga a uma profecia de Zacarias sobre o pastor ferido e as ovelhas espalhadas (Zc 13.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E foi exatamente o que aconteceu: quando os soldados o prenderam no jardim, todos o abandonaram e fugiram (Mc 14.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, que tinha jurado ir com ele até a morte, negou três vezes que o conhecia (Jo 13.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.15-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O detalhe importa: quem abandona Jesus não são inimigos, mas amigos. Gente que andou com ele por três anos, comeu à mesa com ele, viu os milagres. É por isso que esse texto fala tão de perto a quem foi deixado por alguém próximo. O abandono que mais machuca quase nunca vem de longe.
Jesus sabe e, ainda assim, ama
O que mais impressiona na cena é a ordem dos fatos. Jesus anuncia a fuga dos discípulos antes de ela acontecer — e continua com eles. Não os expulsa da mesa, não retira as promessas, não encerra a conversa com uma acusação. Pelo contrário: depois de anunciar o abandono, ele lhes oferece paz (Jo 16.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, em seguida, ora por eles ao Pai, pedindo que sejam guardados e que estejam unidos (Jo 17.9-11,15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
João tinha avisado, no início dessa longa noite, que Jesus amou os seus até o fim (Jo 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O fim inclui a fuga deles. O amor de Jesus não depende da fidelidade de quem ele ama.
E a história não termina na fuga. Depois da ressurreição, Jesus procura Pedro à beira do lago e, com três perguntas sobre o amor, refaz o caminho das três negações — não para humilhá-lo, mas para devolver-lhe a missão (Jo 21.15-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos que se espalharam naquela noite foram reunidos de novo por aquele que eles deixaram.
Para quem foi abandonado, isso traz uma consolação e um desafio. A consolação: Jesus entende, por experiência própria, a dor de ser deixado por quem se ama. O desafio: ele não deixou que essa dor endurecesse o seu coração.
A companhia que ninguém pode tirar
A frase central de Jo 16.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem duas partes, e a segunda muda o sentido da primeira. Os discípulos o deixariam sozinho; mas ele não estaria só, porque o Pai estava com ele.
Jesus já tinha dito algo parecido antes: aquele que o enviou estava com ele e não o havia deixado sozinho, porque ele fazia sempre o que agradava ao Pai (Jo 8.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A comunhão entre o Filho e o Pai era o chão firme debaixo dos seus pés, e nenhuma deserção humana podia tirá-lo dali.
Isso não quer dizer que o abandono dos amigos não lhe doesse. No Getsêmani, ele pediu a Pedro, Tiago e João que vigiassem com ele, e os encontrou dormindo três vezes (Mt 26.36-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus quis companhia humana na hora da angústia — e não a teve. A presença do Pai não anulou a dor da ausência dos amigos; sustentou-o dentro dela.
E o grito na cruz?
Quem lê os evangelhos com atenção logo pergunta: se o Pai estava com ele, por que Jesus, na cruz, clama as palavras de abertura do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), perguntando por que Deus o havia desamparado (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
Aqui estamos diante de um dos mistérios mais profundos da fé, e convém falar com humildade. A tradição cristã, de modo geral, entende que na cruz Jesus experimentou o peso do pecado que carregava em nosso lugar — o afastamento de Deus que nós merecíamos (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao mesmo tempo, a Trindade não se desfez: o Filho continuou sendo o Filho amado. Vale notar que o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que começa com o grito de abandono, termina com a certeza de que Deus não desprezou o aflito nem escondeu dele o rosto, mas o ouviu (Sl 22.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E as últimas palavras de Jesus em Lucas são de entrega confiante nas mãos do Pai (Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Pode-se ver nisso o seguinte: Jesus atravessou a forma mais radical de solidão para que nenhum dos seus precisasse atravessá-la sozinho.
Paz em meio à aflição
O versículo 33 dá a razão de toda a conversa: Jesus disse aquelas coisas para que os discípulos tivessem paz nele. Repare nos dois lugares que ele contrapõe: em mim e no mundo. No mundo, haverá aflição. Nele, haverá paz. Os dois convivem.
A palavra grega traduzida por aflição é thlipsis, que traz a ideia de pressão, aperto, de algo que esmaga. Jesus não promete aos discípulos uma vida sem aperto. Promete que o aperto não terá a última palavra.
Em seguida vem o chamado à coragem — no grego, tharseō, "ter ânimo", "não perder o fôlego". É a mesma palavra que Jesus usa com o paralítico, com a mulher que tocou a sua roupa e com os discípulos apavorados no barco (Mt 9.2,22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 14.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é um "seja forte" dito a quem já não aguenta. É um convite a se apoiar em outro.
E o fundamento da coragem: ele venceu o mundo. O verbo nikaō, "vencer", aparece aqui num tempo que, no grego, indica uma ação já consumada, com efeito que permanece. Jesus fala da vitória antes da cruz, como coisa feita. Horas antes de ser preso, abandonado e crucificado, ele não fala como derrotado. João retoma essa ideia em sua primeira carta: quem nasceu de Deus participa dessa vitória pela fé (1Jo 5.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A paz de que Jesus fala, portanto, não é a ausência de problemas, nem um estado de ânimo que depende de as pessoas ficarem. É a paz de quem sabe que o resultado final já está garantido por outro.
Outros que foram deixados
A Escritura não esconde a solidão dos que seguiram a Deus. Ela a registra com franqueza.
Elias, depois da vitória no monte Carmelo, fugiu para o deserto, sentou-se debaixo de uma árvore e pediu para morrer. Disse a Deus que tinha sobrado só ele. Deus primeiro cuidou do seu corpo — comida e descanso —, depois falou com ele e, por fim, mostrou que havia sete mil que não tinham se dobrado a Baal. Elias não estava tão sozinho quanto pensava (1Rs 19.1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Davi, escondido numa caverna, lamentou que ninguém se importava com ele e que não havia refúgio (Sl 142.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em outro salmo, afirma que, mesmo se pai e mãe o abandonassem, o Senhor o acolheria (Sl 27.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Paulo, preso em Roma no fim da vida, escreveu a Timóteo que Demas o tinha deixado por amor a este mundo e que, na sua primeira defesa no tribunal, ninguém ficou ao seu lado. Mas acrescentou que o Senhor esteve com ele e lhe deu forças — e pediu que nada daquilo fosse cobrado de quem o abandonou (2Tm 4.10,16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os três mostram a mesma coisa: a solidão não é sinal de que a fé falhou. Pode ser o lugar onde a fé descobre o que realmente a sustenta.
Caminhos para quem se sente sozinho
A solidão não é só um assunto espiritual. Um relatório da Organização Mundial da Saúde publicado em 2025 estimou que cerca de uma em cada seis pessoas no mundo convive com ela, e a tratou como questão de saúde pública. Alguns passos, à luz do que vimos:
- Diga a Deus o que está sentindo, com as palavras que tiver. Os salmos de lamento ensinam que a oração honesta não é falta de fé. O salmista convida a derramar o coração diante de Deus, que é refúgio (Sl 62.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus mesmo orou com angústia no Getsêmani (Mc 14.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Não confunda o abandono das pessoas com o abandono de Deus. A promessa de que ele não deixará os seus continua de pé, mesmo quando todos os outros saíram (Hb 13.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 31.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Cuide do corpo. Antes de qualquer conversa, Deus deu a Elias pão, água e sono (1Rs 19.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Às vezes o primeiro passo espiritual é comer, dormir e sair de casa.
- Procure a comunidade, mesmo com receio. A fé cristã não foi pensada para ser vivida isolada; a carta aos Hebreus insiste em não abandonar os encontros e em animar uns aos outros (Hb 10.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dietrich Bonhoeffer, em Vida em comunhão, escrito em tempos de perseguição, lembra que a simples presença física de outros cristãos é uma graça que não devemos tratar como garantida.
- Trabalhe o perdão, sem negar a dor. Paulo pediu que o abandono não fosse cobrado de quem o deixou (2Tm 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Perdoar não exige fingir que não doeu, nem reatar com quem fez mal; exige, com o tempo, entregar a Deus o direito de cobrar.
- Seja presença para alguém. Quem conhece a dor de ser deixado sabe como uma visita, uma ligação ou uma mensagem fazem diferença. Chorar com os que choram é parte da vida cristã (Rm 12.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Busque ajuda profissional quando a solidão se prolongar. Isolamento prolongado pode vir acompanhado de depressão e ansiedade, que pedem cuidado médico e psicológico. A fé não substitui esse cuidado, e procurá-lo não é sinal de fé fraca. Se surgirem pensamentos de tirar a própria vida, procure ajuda imediata: o CVV atende pelo telefone 188, de graça, 24 horas por dia.
Esperança em Cristo: ele ficou só para que você não fique
Jesus não leu Jo 16.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de longe. Ele viveu cada palavra. Foi deixado pelos amigos, levado sozinho diante dos tribunais, crucificado entre estranhos. E é justamente por ter passado por isso que pode estar com quem passa.
Na mesma noite, ele prometeu que não deixaria os seus desamparados, como órfãos, mas viria até eles (Jo 14.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que o Espírito Santo estaria com eles para sempre (Jo 14.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, despediu-se com a promessa de estar com os seus todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Paulo, que conheceu bem o abandono, afirma que nada — nem aflição, nem perseguição, nem morte, nem coisa alguma em toda a criação — pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Pode ser que as pessoas tenham ido embora. Pode ser que a casa esteja silenciosa e que o telefone continue sem tocar. A fé cristã não pede que você finja que isso não dói. Ela aponta para alguém que conhece essa dor por dentro, que venceu o que parecia ser a derrota final e que diz, a quem está do lado de cá da aflição: tenha coragem — você não está sozinho.
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