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Sofrimento, esperança e a segurança do amor de Deus em Romanos 8

Paulo não nega a dor: ele a coloca diante da glória futura, do Espírito que intercede e de um amor do qual nada consegue nos arrancar.

12 minutos de leitura

Há perguntas que não nascem nos livros de teologia, mas na sala de espera de um hospital, no velório de alguém amado, na noite em que o dinheiro não fecha a conta. Onde está Deus quando dói? O sofrimento significa que ele se afastou? E, se ele me ama, por que a dor continua?

O apóstolo Paulo não escreveu a segunda metade de Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de um escritório confortável. Ele conhecia prisões, açoites, naufrágios, fome, frio e noites sem dormir (2Co 11.23-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, quando trata de sofrimento e esperança em Rm 8.18-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), não oferece frases de efeito. Oferece um raciocínio firme, honesto e profundamente consolador, que termina numa das afirmações mais seguras de toda a Escritura: o amor de Deus em Cristo não solta quem ele abraçou.

Atribui-se ao pastor pietista alemão Philipp Jakob Spener a comparação de que, se a Bíblia fosse um anel, Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) seria a pedra preciosa engastada nele.

Onde esta passagem se encaixa

Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma declaração de liberdade: nenhuma sentença de condenação pesa sobre quem está unido a Cristo Jesus (Rm 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida, Paulo descreve a vida guiada pelo Espírito Santo, que habita no cristão e o conduz (Rm 8.9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ponto alto vem quando ele afirma que esse mesmo Espírito nos leva a chamar Deus com a intimidade de filhos — Abba, palavra aramaica com que uma criança se dirigia ao próprio pai — e confirma, por dentro, que pertencemos à família de Deus (Rm 8.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O versículo seguinte, porém, introduz uma condição que muda tudo: os filhos são herdeiros junto com Cristo e participam da glória dele depois de participarem também dos seus sofrimentos (Rm 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ser filho de Deus, portanto, não é passaporte para uma vida sem dor. O caminho de Jesus passou pela cruz antes da ressurreição, e o caminho dos que lhe pertencem segue o mesmo traçado.

É exatamente aqui que começa a nossa passagem. Depois de dizer que o sofrimento faz parte da vida dos filhos, Paulo precisa mostrar como se vive com ele sem perder a fé.

A conta que Paulo faz: o peso da dor e o peso da glória

O primeiro movimento é uma espécie de cálculo. O verbo grego que Paulo usa em Rm 8.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), logizomai, vem da linguagem da contabilidade: "fazer as contas", "concluir depois de pesar". E o resultado da conta é este: os sofrimentos (pathēmata) da vida atual, colocados na balança ao lado da glória que Deus ainda vai manifestar nos seus filhos, simplesmente não têm peso comparável.

Repare no que Paulo não diz. Ele não afirma que o sofrimento é pequeno, ilusório ou que deve ser ignorado — quem escreve isso carregava cicatrizes no corpo. O argumento é de proporção: a dor é real, mas é temporária; a glória é real e é definitiva. Em outra carta, ele usa a mesma lógica: diante do que é eterno, a aflição de agora se mostra breve e leve, e isso só se percebe quando o olhar se fixa no que ainda não está à vista (2Co 4.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na prática, o cristão não precisa fingir que está tudo bem. O que muda é o horizonte: o sofrimento é verdadeiro, mas não tem a palavra final.

Uma criação inteira à espera

Paulo então amplia o quadro. Não é só o cristão que sofre: o mundo criado inteiro está à espera (Rm 8.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra grega é rara e muito visual — apokaradokia, algo como "esticar o pescoço para ver o que vem", a postura de quem aguarda na janela a chegada de alguém querido. A criação vive nessa expectativa pelo dia em que os filhos de Deus serão revelados.

Por que a criação espera? Porque foi submetida à frustração e ao desgaste, não por escolha própria, mas por decisão de Deus diante do pecado humano (Rm 8.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pano de fundo é Gn 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): depois da desobediência, até o chão é afetado, e o trabalho humano passa a ser marcado por espinhos, suor e morte (Gn 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Doenças, catástrofes e morte são sinais de um mundo ferido.

Mas essa submissão foi feita com esperança. A mesma criação que hoje se deteriora será libertada e participará da liberdade gloriosa dos filhos de Deus (Rm 8.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os profetas já anunciavam a criação de um mundo novo (Is 65.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o fim da Bíblia mostra Deus enxugando as lágrimas do seu povo e renovando tudo, num mundo em que a morte e o luto já não têm lugar (Ap 21.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Gemidos que anunciam um nascimento

Paulo descreve esse estado com uma imagem forte: a criação geme e sofre em conjunto, como uma mulher em trabalho de parto (Rm 8.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo systenazō significa justamente "gemer junto". E dor de parto é dor com propósito: dói porque algo está para nascer.

Os cristãos também gemem (Rm 8.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Eles já receberam o Espírito como a primeira parte de uma colheita maior — um adiantamento do que virá —, mas ainda aguardam a adoção completa, que inclui a redenção do corpo, isto é, a ressurreição. A fé não anestesia: ela ensina a gemer com esperança, e não com desespero.

Uma esperança que ainda não se vê

Em seguida, Paulo explica a natureza dessa esperança. A salvação foi recebida em esperança, e aquilo que já está diante dos olhos não precisa mais ser esperado (Rm 8.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso ela se vive com hypomonē, palavra grega que é mais do que paciência passiva: é a perseverança de quem permanece de pé debaixo de uma carga.

Na Bíblia, esperança (elpis) não é otimismo nem desejo vago, do tipo "tomara que dê certo". É certeza quanto ao que Deus prometeu, ainda que o cumprimento esteja no futuro. Ela não se apoia no tamanho da nossa fé, mas na fidelidade de quem fez a promessa (Hb 10.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Espírito que ora quando faltam palavras

Há momentos em que a dor é tão grande que não sabemos sequer o que pedir. Paulo afirma que o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza (Rm 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo grego synantilambanomai descreve alguém que segura a outra ponta de um peso para carregá-lo junto. É a mesma palavra que aparece quando Marta pede a Jesus que mande Maria ajudá-la no serviço da casa (Lc 10.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E o socorro do Espírito tem uma forma surpreendente: ele mesmo intercede por nós com gemidos que nenhuma linguagem consegue expressar (Rm 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus, que conhece o íntimo de cada pessoa, entende o que o Espírito pede, porque o Espírito pede em plena harmonia com a vontade de Deus (Rm 8.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Isso é consolo concreto. Quando a oração se reduz a um suspiro, a uma lágrima, a um nome repetido, ela não deixou de ser oração. A Escritura está cheia de orações assim: os salmos de lamento, em que o salmista pergunta por quanto tempo ainda terá de suportar o silêncio de Deus (Sl 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou o próprio Jesus no Getsêmani, tomado de angústia e prostrado diante do Pai (Mt 26.36-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Espírito não exige eloquência: ele leva o gemido ao Pai.

O bem que Deus está tecendo

Chegamos a Rm 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), um dos versículos mais citados — e mais mal compreendidos — da Bíblia. Paulo afirma que, para os que amam a Deus e foram chamados segundo o propósito dele, Deus coloca tudo o que acontece a serviço do bem. O verbo grego é synergeō, de onde vem a nossa palavra "sinergia": elementos diferentes trabalhando juntos para um mesmo resultado.

O que o versículo não promete

Ele não diz que tudo é bom. A morte de um filho, uma traição, uma doença degenerativa continuam sendo males, e a Bíblia os chama assim. O texto também não garante que, no fim, as coisas vão sair de acordo com os nossos planos, nem que Deus vai explicar cada sofrimento. E não ensina que a dor seja castigo — os amigos de Jó erraram justamente nesse ponto, e Deus os repreendeu (Jó 42.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que o versículo garante

Paulo define o "bem" logo em seguida: Deus destinou os seus a serem moldados à imagem do seu Filho, para que Jesus seja o primeiro de uma grande família de irmãos (Rm 8.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O bem final não é o conforto, mas a semelhança com Cristo — e, com ela, a glória.

A história de José ajuda a entender. Vendido pelos irmãos, escravizado e preso injustamente, ele termina dizendo a eles que o mal que planejaram Deus o transformou em bem, para preservar a vida de muita gente (Gn 50.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mal não deixa de ser mal; mas Deus não perde o governo da história.

Paulo encerra esse trecho com uma corrente de cinco elos que a teologia costuma chamar de presciência, predestinação, chamado, justificação e glorificação (Rm 8.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O detalhe é que o último elo, a glorificação, aparece no tempo passado, como se já tivesse acontecido. É a linguagem da certeza: aquilo que Deus começa, ele leva até o fim (Fp 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As perguntas de Paulo e a resposta da cruz

Na parte final (Rm 8.31-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o tom muda. Paulo deixa a exposição e passa a fazer perguntas, como um advogado que desafia o tribunal inteiro. A primeira resume tudo: se o próprio Deus está a nosso favor, que oposição poderá prevalecer? (Rm 8.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A prova maior: o Filho entregue

A resposta vem como um argumento do maior para o menor. Deus não reteve nem o próprio Filho, mas o entregou por todos nós; como, então, deixaria de nos dar, junto com ele, tudo o que precisamos? (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes percebem aqui um eco de Abraão, que não negou a Deus o seu filho Isaque (Gn 22.12,16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pode-se ver no monte Moriá uma sombra do Calvário — com uma diferença decisiva: Isaque foi poupado no último instante; Jesus, não.

Quando o sofrimento nos faz duvidar do amor de Deus, a Escritura não responde com uma explicação completa sobre a dor; ela aponta para a cruz. Ali está a prova histórica de que Deus não é indiferente ao sofrimento humano: ele mesmo entrou nele.

Ninguém pode condenar

Paulo pergunta, então, quem poderia levar acusação contra os escolhidos de Deus, se é o próprio Deus quem os declara justos (Rm 8.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E quem poderia condená-los, se Cristo morreu, ressuscitou, está à direita de Deus e intercede por eles (Rm 8.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? Note que há dois intercessores no capítulo: o Espírito, que ora dentro de nós (Rm 8.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Cristo, que ora por nós diante do Pai (Rm 8.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem sofre nunca ora sozinho.

Nada consegue separar

A última pergunta toca o sofrimento de frente: o que poderia nos afastar do amor de Cristo? Paulo enumera as aflições que ele mesmo conhecia — perseguição, aperto, falta de comida e de roupa, perigos e até a morte violenta (Rm 8.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — e recorre ao Sl 44.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), um lamento de gente fiel que sofre e se sente tratada como rebanho destinado ao abate (Rm 8.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Bíblia não esconde que os fiéis sofrem, às vezes justamente por serem fiéis.

Mas Paulo afirma que, no meio de tudo isso, a vitória é nossa, e com folga, por causa daquele que nos amou (Rm 8.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo hypernikaō sugere uma vitória mais do que completa. E repare: Paulo não diz que vencemos longe das aflições, mas dentro delas. A vitória não é a ausência da dor; é a permanência do amor no meio da dor.

Ele fecha com uma convicção pessoal: nada do que existe — os extremos da existência humana, os poderes do mundo espiritual, o tempo presente ou o futuro, o espaço em qualquer das suas dimensões, nenhuma outra realidade criada — tem força para nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A segurança do cristão não está na firmeza com que ele segura Deus, mas na firmeza com que Deus o segura (Jo 10.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Em Cristo, uma esperança que sustenta a vida

Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não termina com uma teoria sobre o sofrimento, mas com uma Pessoa. Cada movimento do texto converge para Cristo: sofremos com ele (Rm 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), somos moldados à sua imagem (Rm 8.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fomos alcançados pelo Filho entregue (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), somos defendidos por ele (Rm 8.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e guardados no amor de Deus que está nele (Rm 8.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A esperança cristã não é uma ideia; é a ressurreição de Jesus, primeiro fruto de uma colheita que ainda vai alcançar todos os seus (1Co 15.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O que isso muda na vida de quem sofre hoje?

O sofrimento pode tirar muitas coisas: a saúde, o sono, os planos, até pessoas que amamos. Mas, segundo Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), há uma coisa que ele não consegue tirar. Quem está em Cristo pode perder quase tudo neste mundo, menos o amor de Deus. E é dessa certeza que nasce uma esperança capaz de atravessar a noite até o dia em que Deus renovará a criação inteira.

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Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.