Atos · 44 de 66 · Novo Testamento
Atos — Capítulo 27
Título do capítulo: A promessa que atravessa a tempestade
Gênero literário: Narrativa histórica (historiografia antiga: relato de viagem marítima e de naufrágio contado na primeira pessoa do plural; a partida de Cesareia sob a guarda do centurião Júlio, a troca de navio em Mirra, a parada em Bons Portos e o conselho recusado, o vento Euroaquilão e os catorze dias à deriva, a visão do anjo e a promessa, a fuga frustrada dos marinheiros, o pão partido diante de todos e o encalhe, com as duzentas e setenta e seis pessoas salvas em terra)
Número de versículos: 44
Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. O capítulo está inteiro numa das passagens em que o narrador fala em nós (At 27.1–28.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a apresentação do livro (autoria, data, gênero, estrutura) está no estudo do capítulo 1. Três pontos de texto são tratados no lugar próprio: o nome do vento no v. 14, a forma do nome da ilha no v. 16 e o número de pessoas a bordo no v. 37. Datas, distâncias e identificações de lugares são aproximadas.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
Depois de dois anos em Cesareia
Os capítulos anteriores deixaram Paulo preso em Cesareia, a capital romana da Judeia, à beira do Mediterrâneo. Ele fora detido no templo de Jerusalém (At 21.27-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), defendera-se diante do povo, do Sinédrio e de dois governadores, e ficara dois anos sob a guarda de Félix (At 24.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Festo assumiu o governo e pensou em mandá-lo julgar em Jerusalém, Paulo, cidadão romano, apelou para o imperador (At 25.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei Agripa II, depois de ouvi-lo, comentou que o preso poderia ter sido solto se não tivesse apelado (At 26.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O apelo estava feito, e o caminho era Roma.
Esse caminho tinha sido desejado e prometido. Em Éfeso, Paulo decidira que, depois de Jerusalém, precisava ver Roma (At 19.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); escrevendo aos romanos, falara do desejo antigo de visitá-los (Rm 1.10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.22-29). E, na noite seguinte ao tumulto no Sinédrio, o Senhor se pusera ao lado dele para dizer que, assim como dera testemunho em Jerusalém, daria também em Roma (At 23.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo pedira para chegar com alegria; chegaria acorrentado, depois de um naufrágio. A promessa de At 23.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a corda que atravessa todo o capítulo 27: o mar vai fazer de tudo para desmenti-la, e não conseguirá.
A data mais provável fica em torno de 59 d.C. A troca de Félix por Festo costuma ser situada por volta de 59–60, com margem de um ou dois anos; a viagem começou no fim do verão ou no começo do outono do mesmo ano, o inverno foi passado em Malta, e Paulo chegou a Roma na primavera seguinte. São datas aproximadas, que dependem de âncoras externas discutidas.
O nós de novo e os companheiros de viagem
No v. 1, a narrativa volta à primeira pessoa do plural, e assim seguirá até a chegada a Roma (At 28.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a mais longa das passagens em nós (as outras são At 16.10-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 20.5–21.18). A tradição, desde Irineu, vê aí o próprio Lucas, que teria acompanhado Paulo; o estudo de Lucas 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta essa leitura e as outras, como a de um diário usado como fonte ou a de um recurso literário. Seja como for, o capítulo tem o peso do pormenor vivido: o nome do centurião, o dia da partida de cada porto, a profundidade das sondagens, as quatro âncoras lançadas da popa.
Com Paulo viaja também Aristarco, macedônio de Tessalônica (v. 2), que estivera com ele no tumulto de Éfeso e na viagem da coleta (At 19.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.4). Numa carta da prisão, Paulo o chamará de companheiro de cativeiro (Cl 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Fm 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se sabe a que título os dois embarcaram, se como passageiros ou, segundo uma hipótese de W. M. Ramsay, como servos do preso; o texto não diz.
Júlio e a coorte Augusta
Paulo e outros presos são entregues a um centurião chamado Júlio, da coorte Augusta (v. 1), em grego speira Sebastē. Inscrições atestam uma unidade auxiliar com esse título na Síria e regiões vizinhas no século I, mas a identificação exata é discutida. Júlio aparece sempre com crédito: trata Paulo com bondade (v. 3), aceita o aviso dele contra a fuga dos marinheiros (vv. 31-32) e impede a matança dos presos para salvá-lo (v. 43). Como o centurião de Cafarnaum (Lc 7.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é um oficial pagão que trata com respeito o que não compreende por inteiro.
O navio, o trigo e o calendário do mar
O primeiro navio é de Adramítio (v. 2), porto da Mísia, no noroeste da Ásia Menor, e faria escalas pela costa da província da Ásia. Em Mirra, na Lícia, o centurião encontra um navio de Alexandria que segue para a Itália (v. 6). O v. 38 mostra que a carga era trigo. O Egito era um dos celeiros de Roma, e os grandes cargueiros de grãos faziam um caminho que parece estranho no mapa, mas obedecia aos ventos: em vez de ir direto para o oeste, subiam de Alexandria para o norte, até a costa da Lícia, e dali seguiam para o oeste, passando por Creta. Suetônio conta que o imperador Cláudio ofereceu garantias contra as perdas por tempestade a quem transportasse trigo para Roma, sinal de que o abastecimento da cidade justificava riscos. Não se sabe se este navio servia ao abastecimento oficial; muitos pensam que sim, o que explicaria a presença do centurião a bordo.
O v. 9 dá o dado do calendário: a navegação já era perigosa, porque até o Jejum tinha passado. O Jejum é o Dia da Expiação, o Yom Kippur, no décimo dia do sétimo mês (Lv 16.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.27-32), que cai entre setembro e outubro. Lucas data a viagem pelo calendário de Israel. Os antigos sabiam que o Mediterrâneo mudava de humor no outono. Vegécio, escritor militar romano bem posterior, do fim do século IV, registra que a navegação era considerada arriscada de meados de setembro a meados de novembro e praticamente suspensa de novembro a março; a regra não era lei, mas prudência herdada. Se a viagem foi em 59, cálculos de estudiosos põem o Jejum no começo de outubro.
Um relato de mar entre a precisão e a arte
Poucos textos antigos descrevem uma tempestade com tanto vocabulário náutico: a vela de proa, os lemes amarrados, os cabos passados sob o casco, as sondagens em braças. Em 1848, James Smith, um escocês com longa experiência de vela, publicou um estudo sobre a viagem e o naufrágio de Paulo; conferindo ventos, correntes e a deriva provável de um navio daquele porte, concluiu que ele levaria cerca de treze dias para ir de Cauda à costa de Malta, o que concorda com a décima quarta noite do v. 27. Ramsay e C. J. Hemer reforçaram a impressão de um relato de testemunha.
Outros lembram que naufrágios eram tema querido da literatura antiga, da Odisseia aos romances gregos, e que Lucas escreve com arte; Vernon Robbins chegou a propor que o nós fosse uma convenção dos relatos de viagem por mar, proposta muito criticada. As duas observações não se excluem. O capítulo tem a precisão de quem esteve lá e a forma de quem sabe contar; e o que Lucas quer contar não é a habilidade dos marinheiros, mas a fidelidade de Deus à palavra dada.
A geografia da viagem
Sidom fica cerca de cem quilômetros ao norte de Cesareia (v. 3). Os ventos de oeste e noroeste, comuns no verão, explicam a rota por trás de Chipre e ao longo da Cilícia e da Panfília até Mirra (vv. 4-5). Cnido fica na ponta sudoeste da Ásia Menor; Salmone, no extremo leste de Creta (v. 7). Uma pequena baía da costa sul de Creta guarda até hoje um nome equivalente a Bons Portos, e ruínas próximas são identificadas com Laseia (v. 8); a identificação é provável.
O plano era chegar a Fenice, porto de Creta mais a oeste, a cerca de setenta quilômetros, voltado, diz o texto, para os lados do sudoeste e do noroeste (v. 12). A expressão é discutida, e o lugar também: propõem-se a baía de Lutró e outra próxima, na costa sudoeste. O vento arrasta o navio para o sul de uma ilhota chamada Cauda (v. 16), a atual Gavdos; muitos manuscritos trazem a forma Clauda, e outros, Cauda. A Sirte (v. 17) é o nome dos bancos de areia do golfo diante da costa da Líbia, temidos pelos navegantes porque engoliam navios longe de qualquer porto. E o mar de Ádria (v. 27), para os antigos, não era só o atual mar Adriático: o nome cobria a parte central do Mediterrâneo entre a Grécia, a Itália, a Sicília e a África.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
Decidida a viagem para a Itália, Paulo e outros presos são entregues ao centurião Júlio, da coorte Augusta, e embarcam num navio de Adramítio, com Aristarco. Em Sidom, Júlio deixa Paulo visitar os amigos. Com ventos contrários, chegam a Mirra, onde o centurião os põe num navio de Alexandria a caminho da Itália; avançam devagar e alcançam com dificuldade Bons Portos, no sul de Creta (vv. 1-8).
Muito tempo se passara, e a navegação já era perigosa, porque o Jejum tinha passado. Paulo os adverte de que seguir viagem traria dano e grande perda, para a carga, para o navio e para a vida de todos. O centurião confia mais no piloto e no dono do navio. Como o porto não era bom para o inverno, a maioria decide tentar chegar a Fenice, outro porto de Creta, e invernar ali (vv. 9-12).
Começa a soprar um vento sul brando, e eles, achando que tinham o que queriam, levantam âncora e costeiam Creta. Pouco depois desce da ilha um vento violento, chamado Euroaquilão, que pega o navio; sem poder enfrentá-lo, deixam-se levar. Ao abrigo da ilhota de Cauda, conseguem com esforço recolher o bote, passam cabos por baixo do casco para cingi-lo e, com medo de encalhar na Sirte, baixam o equipamento e seguem à deriva. No dia seguinte começam a lançar a carga ao mar; no terceiro, jogam com as próprias mãos o aparelho do navio. Durante muitos dias não se veem nem sol nem estrelas, a tempestade não dá trégua, e toda esperança de salvação se vai (vv. 13-20).
Havia muito tempo que ninguém comia. Paulo se põe de pé no meio deles e lembra que deviam tê-lo ouvido em Creta; mas agora os exorta à coragem: ninguém perderá a vida, só o navio se perderá. Naquela noite, um anjo do Deus a quem ele pertence e a quem serve esteve junto dele e lhe disse que não tivesse medo, porque ele precisava comparecer diante de César, e Deus lhe dera de presente a vida de todos os que navegavam com ele. Paulo crê que será como lhe foi dito; mas terão de encalhar em alguma ilha (vv. 21-26).
Na décima quarta noite, ainda levados pelo mar de Ádria, por volta da meia-noite os marinheiros suspeitam de terra próxima. Sondam e encontram vinte braças; pouco adiante, quinze. Com medo de bater nas rochas, lançam quatro âncoras da popa e anseiam pelo dia. Os marinheiros tentam fugir no bote, a pretexto de lançar âncoras da proa; Paulo avisa o centurião e os soldados de que, se aqueles homens não ficarem no navio, eles não poderão ser salvos. Os soldados cortam as cordas do bote e o deixam cair (vv. 27-32).
Antes do amanhecer, Paulo insiste com todos para que comam: é o décimo quarto dia de espera sem comida; o alimento é necessário para que sobrevivam, e ninguém sofrerá dano algum. Ele toma o pão, dá graças a Deus diante de todos, parte-o e começa a comer. Todos se animam e comem também. Eram duzentas e setenta e seis pessoas a bordo. Saciados, aliviam o navio lançando o trigo ao mar (vv. 33-38).
Com o dia, não reconhecem a terra, mas avistam uma enseada com praia e resolvem, se possível, encalhar o navio ali. Soltam as âncoras, desamarram os lemes, içam a vela da proa e rumam para a praia. Batem num lugar onde dois mares se encontram, e o navio encalha: a proa fica cravada, imóvel, e a popa se desfaz com a força das ondas. Os soldados decidem matar os presos para que nenhum fuja a nado, mas o centurião, querendo salvar Paulo, os impede. Manda que os que sabem nadar se lancem primeiro e alcancem a terra, e que os outros os sigam em tábuas ou em destroços do navio. E assim todos chegam salvos à terra (vv. 39-44).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-8 — Contra o vento, de Cesareia a Bons Portos
A primeira frase tem um verbo passivo discreto: quando foi decidido, ekrithē, que navegássemos para a Itália (v. 1). Quem decidiu foram as autoridades romanas; o leitor de Atos sabe que, por trás delas, havia outra decisão, a do Senhor que prometera Roma (At 23.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo é entregue com heteroi desmōtai, outros presos, a um centurião. Lucas não esconde a condição do apóstolo: viaja como prisioneiro, entre prisioneiros.
O navio de Adramítio (v. 2) ia pela costa, de porto em porto. A primeira escala é Sidom (v. 3), e ali aparece o primeiro gesto de Júlio: philanthrōpōs, com humanidade, deixa Paulo ir aos amigos e epimeleias tychein, receber os cuidados deles. Os amigos são, muito provavelmente, cristãos; a igreja já chegara à Fenícia desde a dispersão que se seguiu à morte de Estêvão (At 11.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Atos, a palavra viaja antes do apóstolo, e ele a encontra pelo caminho.
Os vv. 4-8 têm o ritmo de uma viagem difícil, e Lucas o marca com as palavras. Os ventos são enantioi, contrários (v. 4). Navegam bradyploountes, devagar, por muitos dias (v. 7), e chegam molis, a custo, diante de Cnido; costeiam Creta de novo molis, a duras penas (v. 8). O leitor sente a lentidão antes de ouvir falar de perigo. Bons Portos (v. 8), com o nome tão animador, era só uma enseada aberta, imprópria para o inverno.
Versículos 9-12 — O conselho do prisioneiro e a decisão da maioria
Hikanou de chronou diagenomenou: tinha passado bastante tempo (v. 9). A navegação já era episphalēs, arriscada, porque o Jejum tinha passado. Paulo, que já sofrera três naufrágios antes deste e passara uma noite e um dia em alto-mar (2Co 11.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), parēnei, aconselhava. O conselho do v. 10 é de bom senso, não uma revelação: ele diz perceber, theōrō, que a viagem terminaria em hybris e zēmia, dano e perda, da carga, do navio e das vidas. A previsão se cumprirá quase toda; só a perda das vidas não acontecerá, e por intervenção de Deus (vv. 22-24). Paulo não fala como quem sabe tudo; fala como quem tem olhos abertos e coragem de dizer o que vê.
Contra ele estão os entendidos (v. 11): o kybernētēs, o piloto que conduzia o navio, e o nauklēros, o dono ou armador, que tinha interesse direto em levar a carga a tempo. O centurião, com autoridade sobre os presos e talvez sobre a viagem, confia mais neles do que no preso. É compreensível. E a decisão final é tomada por hoi pleiones, a maioria (v. 12), porque Bons Portos era aneuthetou, impróprio para invernar. Querem só alcançar Fenice, um porto melhor, não muito distante. A decisão razoável, técnica e majoritária é a errada. Lucas não faz sermão; deixa a tempestade comentar.
Versículos 13-20 — O Euroaquilão e a esperança que se apaga
O engano começa com uma brisa. Sopra hypopneusantos notou, um vento sul suave (v. 13), exatamente o que precisavam para contornar o cabo e cruzar o golfo até Fenice. Acham que já têm o que queriam, levantam âncora e vão rente à costa. Met' ou poly, não muito depois (v. 14), desce de Creta, das montanhas, um anemos typhōnikos, um vento de turbilhão, chamado Eurakylōn. O nome mistura o grego Euros, o vento do leste, e o latim Aquilo, o do norte: um nordeste, na língua de porto, meio grega, meio latina, dos marinheiros. Manuscritos mais tardios trazem outra forma do nome, que parece ser uma tentativa de corrigir a palavra estranha.
O navio é synarpasthentos, agarrado (v. 15), e não consegue antophthalmein, olhar de frente, o vento; a palavra é a do navio que não consegue pôr a proa contra ele. Deixam-se levar. O v. 16 traz de novo o nós, agora com esforço físico: a custo conseguimos recolher o bote. O bote, skaphē, ia rebocado e, cheio de água, podia arrebentar-se contra o casco; o narrador parece ter puxado a corda com os outros. Então (v. 17) usam boētheiai, recursos de emergência, e cingem o navio por baixo, hypozōnnyntes: passam cabos ao redor do casco para segurar as tábuas. Como exatamente se fazia isso é discutido, mas a ideia é clara: o navio começava a ceder. Com medo de serem jogados na Sirte, chalasantes to skeuos, baixam o aparelho, talvez uma âncora flutuante para frear a deriva, talvez parte da vela; e vão sendo levados.
Os vv. 18-19 mostram o desespero crescente pelas perdas voluntárias. No segundo dia, lançam carga ao mar, como os marinheiros de Jonas (Jn 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No terceiro, autocheires, com as próprias mãos, jogam fora o aparelho do navio, cordas, vergas, tudo o que não fosse indispensável. A previsão de Paulo começa a se cumprir: perda da carga, perda do navio.
O v. 20 é o fundo do poço. Por muitos dias, nem sol nem estrelas. Para quem se guiava pelo céu, isso significava não saber onde se estava. E Lucas escreve uma frase de rara franqueza: loipon periēreito elpis pasa tou sōzesthai hēmas, toda esperança de que fôssemos salvos ia sendo arrancada. O imperfeito mostra a esperança sendo tirada aos poucos. E o narrador se inclui: o autor de dois livros cheios de esperança confessa que também a perdeu. A Bíblia não exige que os fiéis finjam.
Versículos 21-26 — De pé no meio deles: o anjo e a promessa
Pollēs te asitias hyparchousēs: havia muito tempo que não comiam (v. 21). Não é jejum religioso, mas o que acontece num navio em tempestade: enjoo, comida molhada, medo. Statheis ho Paulos en mesō autōn, Paulo se põe de pé no meio deles, como Pedro diante dos irmãos e da multidão (At 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.14) e como o próprio Paulo no Areópago (At 17.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O prisioneiro toma a palavra.
Começa lembrando o conselho recusado: deviam tê-lo ouvido e não ter saído de Creta, e teriam evitado o dano e a perda (v. 21). Não é vaidade: Paulo acertou uma vez e agora vai dizer algo que ninguém pode verificar. E diz (v. 22): euthymein, que recobrem a coragem, porque não haverá perda de nenhuma vida entre eles, só do navio. A previsão do v. 10 é corrigida por uma palavra que não vem do bom senso.
A fonte da nova palavra está nos vv. 23-24. Naquela noite, pôs-se junto dele um anjo enviado pelo Deus ao qual Paulo pertence e a quem presta culto. Paulo apresenta o seu Deus diante de pagãos com duas expressões: hou eimi, de quem sou, a quem pertenço; e hō latreuō, a quem presto culto. A ordem importa: primeiro o pertencer, depois o servir. Jonas, no navio da tempestade, também confessara o Deus que fez o mar e a terra firme, mas fugia dele (Jn 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo confessa o mesmo Senhor e está exatamente onde ele o quer.
A mensagem do anjo tem três partes. Mē phobou, a ordem de deixar o medo, que tantas vezes precede, na Bíblia, as intervenções de Deus (Lc 1.13, 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.10; At 18.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Kaisari se dei parastēnai: é necessário que Paulo compareça diante de César. O dei, o é preciso do desígnio de Deus, que atravessa Lucas e Atos, garante que o navio não afundará com ele antes de Roma. E kecharistai soi ho theos pantas tous pleontas meta sou: Deus lhe deu de presente todos os que navegam com ele. O verbo charizomai é da família de charis, graça; muitos comentaristas, como F. F. Bruce, deduzem que Paulo vinha orando pelos companheiros de viagem e recebeu deles a vida como resposta. Duzentas e setenta e cinco pessoas são poupadas por causa de um. O Antigo Testamento conhecia isso: Deus abençoou a casa de Potifar por causa de José (Gn 39.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Abraão perguntou se a cidade seria poupada por causa de dez justos (Gn 18.23-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Paulo conclui (v. 25) com a mesma exortação à coragem, porque ele crê em Deus, pisteuō gar tō theō, que será exatamente como lhe foi dito. Mas acrescenta (v. 26), com o mesmo dei: terão de ser lançados sobre alguma ilha. A promessa não elimina o naufrágio; atravessa-o.
Versículos 27-32 — A décima quarta noite e o bote cortado
A décima quarta noite (v. 27) é contada a partir da saída de Bons Portos. O navio continua diapheromenōn, levado de um lado para outro, no mar de Ádria. Por volta da meia-noite, os marinheiros hypenooun, suspeitavam, que alguma terra se aproximava. Talvez ouvissem a arrebentação. Sondam (v. 28): vinte braças, cerca de trinta e sete metros; um pouco adiante, quinze, cerca de vinte e oito. O fundo sobe. Com medo de bater em tracheis topous, lugares ásperos, rochas, lançam quatro âncoras da popa (v. 29). Lançadas da popa, mantinham a proa voltada para a terra, pronta para o encalhe. E ēuchonto hēmeran genesthai: desejavam, ou oravam, que o dia viesse. O verbo serve para as duas coisas, e a ambiguidade é bela: homens que talvez nunca tivessem orado ao Deus de Paulo esperam a manhã como quem pede.
Os vv. 30-32 contam uma traição. Os marinheiros tentam fugir do navio e baixam o bote ao mar prophasei, a pretexto, de lançar âncoras da proa. Os que conheciam o mar se salvariam e deixariam os outros sem ninguém que soubesse manobrar o navio na hora do encalhe. Paulo percebe e fala ao centurião e aos soldados (v. 31): se aqueles homens não ficarem no navio, os outros não poderão ser salvos.
O versículo é precioso para entender como Lucas pensa a providência. Deus prometera a vida de todos (v. 24); Paulo cria nisso (v. 25); e, mesmo assim, diz que sem os marinheiros não haverá salvação. A promessa não dispensa os meios; ela os inclui. A soberania de Deus não torna inútil a responsabilidade humana, e a fé não autoriza a negligência. Desta vez, os soldados ouvem o prisioneiro (v. 32): cortam as cordas do bote e o deixam cair. O gesto é drástico, e terá consequência: sem o bote, a única saída será lançar o navio contra a praia. Todos estão agora no mesmo barco, sem saída de emergência.
Versículos 33-38 — O pão partido diante de todos
Achri de hou hēmera ēmellen ginesthai: enquanto o dia não vinha (v. 33), Paulo insiste com todos para que comam. Fala do décimo quarto dia que passaram prosdokōntes, em expectativa angustiada, asitoi, sem comer, sem tomar nada.
O v. 34 junta o cuidado do corpo e a linguagem da salvação. Comer, diz Paulo, é pros tēs hymeteras sōtērias, para a salvação deles; aqui a palavra tem o sentido concreto de sobrevivência, mas o leitor de Lucas ouve mais. E a garantia vem numa imagem proverbial, a do cabelo da cabeça que não se perde. A expressão, que já servia para dizer proteção completa no Antigo Testamento (1Sm 14.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), foi usada por Jesus ao prometer cuidado aos discípulos perseguidos (Lc 12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.18). Paulo a aplica a pagãos num navio.
Vem então o gesto (v. 35). Lucas o descreve com quatro verbos: Paulo labōn arton, toma o pão; eucharistēsen tō theō enōpion pantōn, dá graças a Deus diante de todos; klasas, parte-o; e ērxato esthiein, começa a comer. O leitor de Lucas reconhece a sequência: é a da multiplicação dos pães (Lc 9.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), da última ceia (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de Emaús (Lc 24.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a igreja de Atos se reunia para partir o pão (At 2.42, 46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.7, 11). Seria uma ceia do Senhor no meio da tempestade? A maioria dos intérpretes, de tradições diversas, pensa que não: os que comem são em grande parte pagãos, que nada sabem do sentido cristão da mesa; o que Paulo faz é a bênção que todo judeu piedoso dizia antes de comer, e ele dá o exemplo para que os outros comam. Alguns veem nos verbos uma intenção eucarística, ao menos para os cristãos presentes. Sem forçar nenhuma das leituras, é difícil não perceber que Lucas escolheu as palavras de propósito: o Deus que deu o pão no deserto e se deu a conhecer ao partir o pão é aquele em cujo nome um prisioneiro alimenta duzentas e setenta e cinco pessoas à beira do naufrágio.
O efeito é imediato (v. 36): todos ficam euthymoi, animados, a mesma raiz das exortações dos vv. 22 e 25, e comem também. A coragem que a palavra não tinha conseguido dar inteiramente, o pão partido completa.
O v. 37 dá o número dos que estavam a bordo: duzentas e setenta e seis pessoas. O Códice Vaticano traz cerca de setenta e seis, e poucos testemunhos trazem duzentas e setenta e cinco ou números vizinhos. A diferença pode ter nascido da forma de escrever números com letras gregas; a maioria dos estudiosos prefere duzentas e setenta e seis. O número não é exagerado para um cargueiro de grãos: Josefo conta, na sua autobiografia, que viajou para Roma alguns anos depois num navio com cerca de seiscentas pessoas, que naufragou no mesmo mar de Ádria; segundo ele, apenas uns oitenta se salvaram. Aqui, nenhum se perderá. O número exato prepara a contagem da praia: nenhum faltará.
Saciados (v. 38), aliviam o navio lançando o trigo ao mar. A carga, o interesse que pesou na decisão do v. 11, vai para a água, para que o navio flutue mais alto e chegue mais perto da praia.
Versículos 39-44 — O navio partido e todos salvos em terra
Com o dia (v. 39), não reconhecem a terra. Avistam um kolpon, uma enseada, com aigialon, praia de areia, e decidem, se possível, lançar o navio sobre ela. A tradição maltesa situa o lugar na baía hoje chamada de São Paulo, no nordeste da ilha; as discussões sobre o lugar do naufrágio estão no estudo do capítulo 28.
A manobra final é descrita com perícia (v. 40): soltam as âncoras e as deixam no mar; desamarram os pēdalia, os dois lemes laterais que os navios antigos tinham, presos durante a tempestade; içam o artemōn, a vela de proa, ao vento; e rumam para a praia. Mas, antes da praia, caem num topon dithalassōn (v. 41), um lugar entre dois mares: talvez um banco de areia entre duas correntes, talvez um canal entre uma ilhota e a costa. O navio encalha. A proa se crava e fica imóvel; a popa elyeto, ia se desfazendo, sob a violência das ondas. Paulo dissera que o navio se perderia (v. 22). Perdeu-se diante dos olhos de todos.
Então vem o último perigo, e não vem do mar (v. 42). Os soldados resolvem matar os presos, para que nenhum fuja a nado. A lógica é a do sistema: o guarda respondia com a própria pessoa pelo preso que fugisse (At 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.27). Paulo, que acabara de salvar o navio inteiro, estava entre os que seriam mortos.
O centurião (v. 43), boulomenos diasōsai ton Paulon, querendo salvar Paulo, impede o plano. Lucas diz o motivo com franqueza: não foi por amor aos presos em geral, mas por causa de Paulo. E, por causa de Paulo, os outros presos também vivem: a graça do v. 24 alcança até os que não tinham nenhuma razão para esperá-la. Júlio dá a ordem: os que sabem nadar se lançam primeiro e chegam à terra; os demais (v. 44) seguem epi sanisin, sobre tábuas, ou epi tinōn tōn apo tou ploiou, sobre coisas do navio. A expressão grega é ambígua e pode significar também sobre alguns dos que estavam no navio: os que não sabiam nadar teriam ido amparados pelos que sabiam. As duas imagens são possíveis, e a segunda é bonita demais para ser descartada.
O capítulo termina com uma frase que é um cumprimento: kai houtōs egeneto pantas diasōthēnai epi tēn gēn, todos, sem exceção, chegam a salvo em terra. O verbo diasōzō, salvar através de, levar a salvo, aparece duas vezes nos últimos versículos (vv. 43-44) e voltará em At 28.1, 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ninguém se perdeu. Aconteceu como fora dito.
✨ 4. Versículos-Chave
At 27.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Nem sol nem estrelas por muitos dias, e toda esperança indo embora, inclusive a do narrador. O versículo dá voz ao desespero sem envergonhá-lo. É dentro dessa noite, e não depois dela, que a palavra de Deus chegará. A Escritura sabe que os fiéis também chegam ao fim das forças (2Co 1.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
At 27.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O anjo do Deus a quem Paulo pertence e a quem serve: não temer, comparecer diante de César, e a vida de todos dada de presente. Os três elementos resumem a teologia do capítulo: a presença de Deus no meio da tempestade, o desígnio que não falha (o dei) e a graça que alcança muito além do círculo dos fiéis.
At 27.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Se os marinheiros não ficarem, ninguém se salvará. A promessa de Deus não dispensa os meios humanos nem a responsabilidade de cada um. O versículo é um pequeno tratado sobre providência e ação.
At 27.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pão tomado, a ação de graças diante de todos, o pão partido e comido. Num navio de pagãos, à beira do naufrágio, um prisioneiro dá graças a Deus em público e devolve aos outros a coragem de viver. As palavras ecoam as refeições de Jesus em Lucas, sem que a cena precise ser lida como sacramento.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A providência que atravessa, e não evita, a tempestade. Deus prometera Roma (At 23.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a promessa se cumpre; mas o caminho passa por um vento que ninguém controla, catorze dias de escuridão, a perda da carga e do navio. Lucas não conta um Deus que poupa os seus de todo perigo, nem um Deus ausente, mas um Senhor que fala no meio da noite e conduz através. O vocabulário do dei, é preciso (vv. 24, 26), mostra que a tempestade não tem a última palavra. Como Paulo escreverá, nada separa os que são de Cristo do seu amor, nem perigo nem espada (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A salvação dada a todos por causa de um. O vocabulário da salvação percorre o capítulo: a esperança de ser salvos (v. 20), não poder ser salvos (v. 31), comer para a salvação (v. 34), salvar Paulo (v. 43), todos salvos em terra (v. 44). É salvação física, do naufrágio, e Lucas não a confunde com a salvação eterna; mas a usa como sinal. Duzentas e setenta e cinco pessoas são poupadas por causa de um homem que pertence a Deus, e um centurião poupa os presos por causa de Paulo. O leitor cristão pensa naquele por cuja causa a misericórdia alcança muitos que nada fizeram para merecê-la.
O prisioneiro que se torna guia. No começo, Paulo é um preso entre presos, cujo conselho é desprezado em favor do piloto, do dono e da maioria. No fim, é ele quem anima, quem impede a fuga, quem faz comer, e é por causa dele que os presos não são mortos. Sem cargo algum, a autoridade passa a quem ouve a Deus e se importa com os outros (Lc 22.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Fé e prudência, promessa e meios. Paulo aconselha com bom senso (v. 10), recebe e anuncia uma promessa (vv. 23-25), impede a fuga dos marinheiros (v. 31), manda comer (v. 34). Não há conflito entre crer e agir com sabedoria.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
Atos narra o tempo entre a ascensão e a volta de Cristo: a Redenção consumada em Jesus anunciada às nações pelo Espírito, a caminho da Nova Criação. O capítulo 27 mostra esse anúncio indo para o centro do mundo romano por um caminho de água e de vento. Desde o princípio, o mar é na Bíblia o lugar do caos que Deus ordena (Gn 1.2, 9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na visão final ele já não existirá (Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre um extremo e outro, os servos de Deus ainda atravessam tempestades, e a criação ainda geme (Rm 8.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mas o Senhor do mar já se revelou. A Queda aparece no interesse que pesa mais do que a prudência, na fuga dos marinheiros e na lógica fria dos soldados; a graça aparece num prisioneiro que dá graças e numa vida dada de presente a todos.
6.2 — O Senhor elevado que governa a missão
Atos começa dizendo que o primeiro livro contou o que Jesus começou a fazer e a ensinar (At 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o segundo conta o que ele continua a fazer, elevado à direita do Pai, pelo Espírito e por meio dos seus. No capítulo 27, Jesus não é nomeado, mas está por trás de tudo. Foi o Senhor quem prometeu a Paulo que daria testemunho em Roma (At 23.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e é a essa promessa que o anjo dá forma no meio da tempestade (v. 24). Foi o Senhor quem, no caminho de Damasco, chamou Paulo para levar o seu nome diante de nações e de reis (At 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); comparecer diante de César é o cumprimento desse chamado. A missão não depende do tempo bom, da habilidade do piloto ou da boa vontade dos soldados; depende da palavra do Senhor que a governa.
O Senhor cuida dos seus mensageiros sem tirá-los do perigo. Jesus avisara que os discípulos seriam levados a governadores e reis por causa do seu nome, para dar testemunho (Lc 21.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e prometera guardá-los (Lc 21.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo estende a promessa aos companheiros de viagem (v. 34).
6.3 — Como o capítulo lê as Escrituras: Jonas, os salmos e o mar
O capítulo não traz discurso nem citação, mas está cheio de ecos que muitos leitores notam. O primeiro é Jonas. Há um navio, uma tempestade enviada ou permitida por Deus, a carga lançada ao mar, marinheiros pagãos aterrados, e um homem de Deus que confessa o Senhor diante deles (Jn 1.4-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As diferenças falam ainda mais: Jonas fugia de Deus, Paulo vai aonde Deus o manda; Jonas dormia no porão, Paulo vela e anima; Jonas precisou ser lançado ao mar para que os outros se salvassem, e a presença de Paulo a bordo é a razão de todos se salvarem. Em acordo com o estudo de Jonas 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a confissão do profeta era correta e vazia de obediência; a de Paulo, que se sabe propriedade do Senhor e o serve, é a mesma fé com a vida inteira dentro dela.
O segundo eco é o Salmo 107 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que descreve os que descem ao mar em navios, sacudidos até o desespero, e o Senhor que os tira da angústia e os leva ao porto desejado (Sl 107.23-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O terceiro são as tempestades dos Evangelhos. Em acordo com os estudos de Marcos 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 6, Jesus dormia no barco porque confiava no Pai, e bastou uma palavra para calar o mar; andou sobre as águas e apresentou-se aos discípulos assustados (Mc 4.35-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.45-52; Lc 8.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Atos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o mar não se cala. A diferença é instrutiva: no tempo da igreja, o Senhor nem sempre acalma a tempestade, mas nunca deixa de falar dentro dela. A promessa de Isaías ao povo que atravessa as águas, de que elas não o submergirão (Is 43.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), se cumpre não como calmaria, mas como travessia.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando o capítulo
Três traços de Cristo brilham, refletidos, na figura de Paulo, que não é Cristo, mas o serve.
O primeiro é a salvação de muitos por causa de um. Paulo não morre por ninguém; mas a vida dos companheiros é dada por causa dele. O leitor cristão sabe que a salvação verdadeira veio por aquele que, como um Jonas maior, desceu às profundezas da morte para que os outros vivessem (Mt 12.40-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e cuja obediência alcançou muitos que nada tinham de justos (Rm 5.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O segundo é o pão dado com ação de graças. Os gestos do v. 35 são os de Jesus. A refeição não é a ceia, mas faz lembrar o Senhor que alimentou multidões no deserto e se deu a conhecer ao partir o pão. Em Atos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o servo de Jesus come com soldados, marinheiros e presos: a mesa de Cristo sempre teve lugar para os de fora.
O terceiro é a presença no meio da noite. Os discípulos perguntaram, no barco, se Jesus não se importava de morrerem (Mc 4.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Atos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando toda esperança se foi, o Deus a quem Paulo pertence manda o seu mensageiro. O Cristo elevado não está longe dos seus; está à direita do Pai, e de lá governa a história que passa por navios, ventos e decisões de centuriões.
6.5 — O Evangelho no capítulo, e o que ele pede da igreja de hoje
Pregar Atos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é anunciar que a palavra de Cristo é mais firme do que o mar: ele cumpre o que promete, nem sempre poupando os seus da tempestade, mas levando-os através dela. A esperança cristã não é o otimismo da brisa sul do v. 13, que engana; é a confiança de quem crê em Deus, que será como ele disse (v. 25), mesmo sem sol e sem estrelas. Hebreus chamará essa esperança de âncora da alma, firme e segura (Hb 6.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O capítulo pede da igreja de hoje que esteja no navio com os outros. Paulo não se isola dos pagãos a bordo: aconselha, intercede, anima, come com eles, impede uma injustiça. A presença de um cristão fiel pode ser bênção para todos os que estão na mesma embarcação, numa empresa, numa cidade, num país em crise. E pede também a humildade de reconhecer que a salvação de todos não é obra do cristão: foi Deus quem deu a vida dos companheiros de presente, e foi um centurião pagão quem salvou os presos.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- At 19.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.11; 25.11-12; Rm 1.10-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.22-29 — o desejo de Roma, a promessa do Senhor e o apelo a César: o fio que o capítulo leva adiante.
- Jn 1.4-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a tempestade, a carga lançada, os marinheiros e o homem de Deus que confessa o Criador do mar, em acordo com o estudo de Jonas 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Sl 107.23-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os navegantes no desespero e o Senhor que os conduz ao porto desejado.
- Mc 4.35-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.45-52; Lc 8.22-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus e o mar, em acordo com os estudos de Marcos 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 6.
- Lc 9.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.19; 24.30; At 2.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.11 — os gestos do pão tomado, abençoado, partido e dado.
- Lc 12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.18; 1Sm 14.45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a imagem do cabelo que não se perde, sinal do cuidado de Deus.
- Gn 18.23-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 39.5 — a misericórdia e a bênção que alcançam muitos por causa de um.
- 2Co 11.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os naufrágios anteriores de Paulo e os perigos no mar, no relato do próprio apóstolo.
- At 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.27 — a responsabilidade dos guardas pelos presos, que explica o plano dos soldados.
- Is 43.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 6.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as águas que não submergem, a esperança como âncora e o amor de que nada separa.
Orações e hinos pelos que estão no mar, em muitas tradições cristãs, retomam a confiança deste capítulo e do Salmo 107 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Para quem perdeu toda esperança. Lucas escreveu que a esperança de ser salvos ia sendo arrancada, e se incluiu nessa frase. Há noites assim, longas, sem sol e sem estrelas: uma doença que não cede, uma dívida que cresce, um luto que não termina, um casamento que se desfaz. O capítulo não manda fingir coragem; mostra que a palavra de Deus chegou justamente nessa noite, e que ela chegou por meio de alguém que se pôs de pé no meio dos outros. Se a sua esperança se foi, procure quem possa ficar de pé ao seu lado: a sua igreja, um amigo, um profissional. E, se a tempestade já o levou a pensar em tirar a própria vida, não fique sozinho com esse pensamento: ligue para o CVV, no número 188, a qualquer hora. O Senhor que mandou o seu anjo à noite não abandona os que já não veem saída.
Ouvir a voz que tem razão, mesmo quando é a menor. O conselho de Paulo foi vencido pelo piloto, pelo dono do navio e pela maioria. Nem sempre a opinião técnica, o interesse econômico ou o voto da maioria acertam. Em empresas, famílias e igrejas, vale perguntar quem está sendo calado porque não tem cargo, e se a decisão que parece razoável não está sendo empurrada por uma brisa enganosa. Para o cristão, a pergunta decisiva é se estamos ouvindo o Senhor que fala por meios humildes.
Confiar na promessa sem cortar os meios. Paulo creu que ninguém morreria e, por isso mesmo, impediu a fuga dos marinheiros e mandou todos comerem. A fé não dispensa o médico, o planejamento, o trabalho, a prudência; usa tudo isso com gratidão. Quem diz confiar em Deus e abandona os meios que ele deu não está crendo mais; está desobedecendo de outro jeito.
Dar graças em público, no meio do medo. O gesto mais simples de Paulo foi tomar o pão e agradecer a Deus diante de todos. Não fez discurso; comeu e convidou a comer. Há momentos em que o testemunho mais eloquente é uma oração de gratidão feita com naturalidade num ambiente hostil ou aflito, e a mesa partilhada com quem está com medo.
Ser bênção para todos a bordo. O centurião poupou os presos por causa de Paulo, e Deus deu de presente a Paulo a vida dos companheiros. O cristão não vive para salvar a própria pele; vive no meio dos outros, intercedendo por eles, servindo-os, defendendo-os. Num mundo que separa os bons dos maus para eliminar os segundos, como queriam os soldados, a presença de Cristo nos seus produz misericórdia para muitos.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Releia os vv. 9-12. Que fatores levaram à decisão de deixar Bons Portos? Em que situações você já viu uma decisão razoável e majoritária se mostrar errada?
- Lucas confessa que até a esperança dele se foi (v. 20). O que muda na sua leitura da Bíblia saber que os autores dela também passaram por noites assim?
- Paulo crê na promessa de que todos se salvarão (v. 25) e, mesmo assim, diz que sem os marinheiros ninguém se salvará (v. 31). Como você entende a relação entre a promessa de Deus e a responsabilidade humana?
- Compare Atos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com Jn 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e com Mc 4.35-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O que cada tempestade revela sobre Deus, sobre o seu servo e sobre os que estão no barco?
- De que modo a presença de Paulo foi bênção para todos a bordo? Em que lugares você está no mesmo barco que pessoas que não conhecem a Cristo?
- Para meditação e oração: pense na sua tempestade de agora. Ore, como os marinheiros, pelo dia que ainda não veio, e peça ao Senhor a palavra que dá ânimo e o pão que dá forças para atravessar.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)
- Robert C. Tannehill — The Narrative Unity of Luke-Acts, vol. 2: The Acts of the Apostles (Fortress, 1990)
- Christopher J. H. Wright — A missão de Deus (Vida Nova) / The Mission of God (IVP Academic, 2006)
Comentários de Atos:
- John Stott — A mensagem de Atos (ABU Editora, série A Bíblia Fala Hoje)
- I. Howard Marshall — Atos: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- F. F. Bruce — The Book of the Acts (NICNT, Eerdmans, ed. revista, 1988)
- Darrell L. Bock — Acts (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker, 2007)
- Craig S. Keener — Acts: An Exegetical Commentary (4 vols., Baker Academic, 2012–2015)
- Joseph A. Fitzmyer — The Acts of the Apostles (Anchor Bible, Doubleday, 1998)
Sobre a viagem e o naufrágio:
- James Smith — The Voyage and Shipwreck of St. Paul (1848; várias edições revistas)
- W. M. Ramsay — St. Paul the Traveller and the Roman Citizen (1895)
- Colin J. Hemer — The Book of Acts in the Setting of Hellenistic History (Mohr Siebeck, 1989)
- Brian Rapske — The Book of Acts and Paul in Roman Custody (Eerdmans, 1994)
Sobre o texto dos manuscritos:
- Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2ª ed., 1994)
Sabedoria para o Cotidiano
Atos 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa com uma brisa enganosa e termina com tábuas na praia: nada saiu como os homens planejaram, e tudo saiu como Deus tinha dito. A promessa não poupou Paulo do vento, da escuridão nem do navio partido, mas o levou através de tudo isso, e com ele todos os que estavam a bordo. Quando o sol e as estrelas sumirem, não finja força: fique perto de quem pertence a Deus, coma o pão que lhe oferecem com ação de graças, não corte os meios que o Senhor pôs ao seu alcance e espere o dia. Quem disse que você chegaria é fiel, e a palavra dele é mais firme do que o mar.
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