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Colossenses · 51 de 66 · Novo Testamento

Colossenses — Capítulo 1

Infográfico de “Colossenses 1 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: O apóstolo, o irmão e os santos de Colossos; O evangelho que dá fruto no mundo e em Colossos; Oração por sabedoria e o novo êxodo; O hino do Filho, primeiro na criação e na ressurreição; Reconciliados para permanecer firmes; O sofrimento do apóstolo e o mistério revelado.

Título do capítulo: O Filho amado, rosto do Deus invisível
Gênero literário: Epístola — ação de graças, oração e hino cristológico (a saudação de Paulo e Timóteo; a gratidão pelo evangelho que dá fruto em Colossos e no mundo; a oração por um conhecimento que vira vida e o resgate do domínio das trevas; o hino do Filho, primeiro na criação e na ressurreição, em quem mora a plenitude e por quem tudo é reconciliado; os colossenses chamados a permanecer; o sofrimento do apóstolo e o mistério revelado aos gentios; abertura da carta)
Número de versículos: 29

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. A seção 1 apresenta a carta inteira, e os estudos dos outros capítulos remetem a ela; as grandes questões aparecem aqui em linhas gerais e são tratadas nos capítulos que as contêm. Os pontos de texto deste capítulo (vv. 2, 7, 12, 14 e 22) são tratados na seção 3, sem mudar a numeração. Nenhum versículo é transcrito; todos são parafraseados, e o hino dos vv. 15-20 não é reproduzido verso a verso: é apresentado por partes, com o grego e com palavras próprias. As datas antigas são aproximadas.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Uma carta para uma cidade pequena

Colossos ficava na Frígia, no vale do rio Lico, dentro da província romana da Ásia, a pouco mais de quinze quilômetros de Laodiceia; do outro lado do vale estava Hierápolis, com as suas águas termais. As três cidades aparecem juntas na carta (Cl 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.13, 15-16). Heródoto e Xenofonte, séculos antes, falam de Colossos como cidade grande e próspera, e ela vivia da lã; mas a estrada principal passou a favorecer Laodiceia, e no tempo de Paulo Colossos era uma cidade menor, que o geógrafo Estrabão põe entre as cidadezinhas da região. J. B. Lightfoot, em 1875, chamou-a de a menos importante das cidades a que Paulo escreveu. O sítio ainda foi pouco escavado.

O vale tremia. Tácito registra que, por volta de 60, Laodiceia foi arrasada por um terremoto e se reconstruiu sem ajuda de Roma; cronistas cristãos posteriores, como Orósio, no século V, incluem Colossos entre as cidades derrubadas no tempo de Nero. Não se sabe se falam do mesmo abalo nem quanto Colossos sofreu, e a carta não diz nada a respeito.

Havia judeus na região havia séculos: Josefo conta que Antíoco III, por volta de 200 a.C., transferiu duas mil famílias judias da Mesopotâmia para a Lídia e a Frígia. A igreja de Colossos, porém, parece ter sido sobretudo de gentios, que antes estavam longe de Deus (Cl 1.21, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e mortos na incircuncisão (Cl 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Epafras, o fundador

Paulo não fundou essa igreja nem a visitou: inclui os colossenses entre os que não o conheciam pessoalmente (Cl 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem levou o evangelho a Colossos foi Epafras, colossense (Cl 4.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com quem os leitores aprenderam (Cl 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele trabalhou também por Laodiceia e Hierápolis (Cl 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e está com Paulo quando a carta é escrita, companheiro de prisão segundo Fm 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Como mostra o estudo de Atos 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), isso combina com os anos em que Paulo ensinava em Éfeso e a palavra se espalhava pela província inteira (At 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): Éfeso era o centro de uma rede, e colaboradores como Epafras levavam a mensagem às cidades do interior.

Quem escreve: as duas posições

A carta se apresenta como de Paulo, apóstolo por vontade de Deus, com Timóteo, o irmão (Cl 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e termina com uma saudação do próprio punho (Cl 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Assim a leu a Igreja antiga: Irineu, Tertuliano e Clemente de Alexandria a citam como de Paulo, e Marcião a tinha na sua coleção. Assim a leem hoje muitos estudiosos, como J. B. Lightfoot, F. F. Bruce, Peter O'Brien, N. T. Wright e Douglas Moo.

Desde meados do século XIX, muitos outros a consideram obra de um discípulo de Paulo, escrita em nome dele, como Eduard Lohse e boa parte da crítica alemã. As razões: o estilo, de frases longas encadeadas por relativos e particípios, com sinônimos empilhados; o vocabulário, com dezenas de palavras ausentes das cartas indiscutidas; a cristologia cósmica; a igreja como corpo universal de que Cristo é a cabeça (Cl 1.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), quando em 1 Coríntios e Romanos o corpo era a comunidade local; e a escatologia, com os crentes já ressuscitados com Cristo (Cl 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.1), quando Romanos fala dessa ressurreição no futuro (Rm 6.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre as duas posições, alguns, como Eduard Schweizer e James Dunn, propõem que Timóteo redigiu a carta com Paulo vivo e preso, com o seu acordo e a sua assinatura.

Os que defendem a autoria de Paulo respondem que o estilo muda com o assunto e com o secretário, que a cristologia da carta já está em germe em 1Co 8.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Fp 2.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e que a ressurreição com Cristo, aqui, ainda espera a manifestação futura (Cl 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E têm um argumento forte: os nomes. A carta compartilha com o bilhete a Filemom, que quase todos aceitam como de Paulo, o co-remetente Timóteo (Fm 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Onésimo (Cl 4.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fm 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Arquipo (Cl 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fm 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Epafras (Cl 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.12; Fm 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Aristarco, Marcos, Lucas e Demas (Cl 4.10, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fm 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um discípulo escrevendo depois teria de copiar esse quadro com cuidado de falsário; uma carta escrita junto com Filemom o teria naturalmente. Há estudiosos sérios dos dois lados, e a carta é Escritura em qualquer hipótese. Como fez com Efésios, este acervo não decide; nos estudos, o autor é chamado de Paulo, como a carta se apresenta.

Quando e de onde

Se a carta é de Paulo, foi escrita numa prisão (Cl 4.3, 10, 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a mesma de Filemom (Fm 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 9-10). Como mostram os estudos de Filipenses 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Efésios 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), há três candidatas: Roma, por volta de 60–62, nos dois anos de custódia de At 28.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Éfeso, por volta de 54–55, numa prisão que Atos não narra, mas que a distância curta até Colossos tornaria plausível para as viagens de Onésimo e Epafras; e Cesareia, por volta de 57–59 (At 24.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se é obra de um discípulo, costuma ser datada por volta de 70–80. A leitura da carta não depende da resposta.

As cartas irmãs: Efésios e Filemom

Cerca de um terço do texto de Colossenses tem paralelo em Efésios: a redenção e o perdão (Cl 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o corpo que cresce a partir da cabeça (Cl 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o velho e o novo ser humano (Cl 3.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 4.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os salmos, hinos e cânticos (Cl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 5.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o código doméstico (Cl 3.18–4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 5.21–6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras sobre Tíquico, o portador, são quase idênticas (Cl 4.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 6.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A maioria entende que Colossenses veio primeiro e que Efésios desenvolve o seu material para um público mais amplo; alguns propõem o contrário, ou as duas na mesma ocasião. Filemom viaja com elas: com Tíquico vai Onésimo (Cl 4.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o escravo em favor de quem Paulo escreve a Filemom.

A carta de Laodiceia

Paulo pede que a carta seja lida também em Laodiceia e que os colossenses leiam a que viria de lá (Cl 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa carta se perdeu, a não ser que seja Efésios, que em manuscritos antigos não tem destinatário e que Marcião chamava de carta aos laodicenses, como mostra o estudo de Efésios 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); é hipótese, não certeza. Circulou depois um texto latino breve com esse título, feito de frases de outras cartas, sobretudo de Filipenses, que a Igreja não recebeu como Escritura.

O que ameaçava a igreja

A carta não dá nome aos adversários, mas o capítulo 2 deixa entrever o que se oferecia aos colossenses: uma philosophia apoiada em tradição humana e nos stoicheia tou kosmou (Cl 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); regras sobre comida e bebida, festas, luas novas e sábados (Cl 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o culto dos anjos e visões (Cl 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); um rigor com o corpo (Cl 2.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As hipóteses vão de um misticismo judaico de tipo apocalíptico a um sincretismo frígio com elementos judaicos, pagãos e populares, e Morna Hooker chegou a perguntar, em 1973, se havia mesmo falsos mestres organizados. O estudo do capítulo 2 trata disso. O remédio da carta não é outra lista de práticas, mas Cristo, e por isso ela começa pelo hino.

A arquitetura da carta

Os grandes temas

A supremacia e a suficiência de Cristo, em quem mora a plērōma, a plenitude (1.19; 2.9-10); a reconciliação de todas as coisas pela cruz (1.20); o mystērion revelado aos gentios (1.26-27); a liberdade diante de regras humanas impostas como caminho para Deus (2.16-23); a vida escondida com Cristo (3.1-4); a nova humanidade renovada segundo a imagem do Criador, em que as divisões de povo, religião e classe perdem o poder de separar (3.10-11).

Sem antijudaísmo

O capítulo 2 critica regras de comida, festas e sábados impostas como condição de pertença, e a carta foi lida às vezes como desprezo pelo judaísmo. Não é o que ela diz. As festas foram dadas por Deus a Israel (Lv 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o problema era julgar os irmãos por elas (Cl 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como em Romanos 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Gálatas 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Neste capítulo, a linguagem da herança, do resgate e do Reino vem das Escrituras de Israel, e o mistério revelado é a entrada dos gentios na esperança de Israel, não a expulsão de Israel dela. A leitura que faz de Colossenses uma arma contra os judeus foi recusada pelo Concílio Vaticano II, na Nostra Aetate (1965, n. 4), e por declarações de várias igrejas protestantes; estes estudos a recusam também.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Paulo, enviado de Cristo Jesus porque Deus quis, escreve com Timóteo aos santos e irmãos fiéis em Cristo que vivem em Colossos e lhes deseja graça e paz da parte de Deus, o Pai (vv. 1-2).

Ele agradece a Deus sempre que ora por eles, desde que soube da sua fé em Cristo e do seu amor por todo o povo de Deus, que nascem da esperança guardada nos céus. Dela ouviram quando a mensagem verdadeira chegou até eles, a mesma boa notícia que dá fruto e cresce no mundo inteiro. Quem a ensinou foi Epafras, companheiro querido e ministro fiel, que contou a Paulo o amor que o Espírito despertou neles (vv. 3-8).

Por isso Paulo não para de orar: que Deus os encha do conhecimento da sua vontade, para que vivam de modo digno do Senhor, deem fruto, cresçam, sejam fortalecidos para a perseverança e a paciência com alegria, e agradeçam ao Pai, que os habilitou a ter parte na herança do povo santo, no reino da luz. Ele nos arrancou do domínio das trevas e nos levou para o Reino do Filho que ama, em quem temos o resgate, o perdão dos pecados (vv. 9-14).

Vem o hino: o Filho torna visível o Deus que ninguém vê e tem a primazia sobre a criação, porque tudo, visível e invisível, foi feito nele, por ele e para ele; existe antes de tudo e mantém tudo coeso. É a cabeça da igreja, seu corpo, e o primeiro a nascer dentre os mortos, para ser o primeiro em tudo; nele quis morar toda a plenitude, e por ele Deus reconcilia consigo todas as coisas, fazendo a paz pelo sangue da cruz (vv. 15-20).

Os colossenses, antes estranhos e hostis a Deus, foram reconciliados pela morte de Cristo no seu corpo humano, para serem apresentados santos e sem acusação, desde que permaneçam firmes na fé e na esperança do evangelho que Paulo serve (vv. 21-23). O apóstolo se alegra no que sofre por eles e completa no próprio corpo o que falta às aflições de Cristo pela igreja. Serve ao mistério escondido por gerações e agora revelado: Cristo presente nos gentios, penhor da glória que virá. É a ele que anuncia, ensinando cada pessoa para apresentá-la madura em Cristo, com a energia que Cristo lhe dá (vv. 24-29).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-2 — O apóstolo, o irmão e os santos de Colossos

Paulos apostolos Christou Iēsou dia thelēmatos theou (v. 1): Paulo é apóstolo porque Deus quis, não por delegação de uma igreja, e isso pesa numa carta a quem não o conhecia. Timotheos ho adelphos está com ele, como em 2 Coríntios, Filipenses e Filemom, e a carta passa logo ao "nós" (vv. 3, 9). Os destinatários (v. 2) são hagioi kai pistoi adelphoi: santos, separados para Deus como Israel (Êx 19.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e irmãos fiéis. Vivem en Kolossais e en Christō, dois endereços, e o segundo dá sentido ao primeiro.

A saudação une charis e eirēnē, graça e paz, e no texto mais provável nomeia só o Pai. Muitos manuscritos, entre eles alguns importantes, acrescentam o Senhor Jesus Cristo, como nas outras cartas; o Vaticano e vários outros não o trazem, e a maioria entende que o acréscimo veio da fórmula costumeira. Nenhuma doutrina depende disso: o hino logo dirá quem é o Filho.

Versículos 3-8 — O evangelho que dá fruto no mundo e em Colossos

Eucharistoumen (v. 3): damos graças. Três palavras se reúnem nos vv. 4-5: a pistis em Cristo Jesus, a agapē por todos os santos e a elpis guardada nos céus, com uma ordem própria: a fé e o amor existem dia tēn elpida, por causa da esperança. Ela é apokeimenēn, posta de lado, como um depósito que espera o dono, e isso prepara a vida guardada com Cristo de Cl 3.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Eles a conheceram en tō logō tēs alētheias tou euangeliou, na mensagem verdadeira: antes de qualquer polêmica, Paulo lembra que os colossenses já receberam a verdade, e não uma versão preliminar à espera de complemento.

O v. 6 traz dois particípios que voltarão no v. 10: karpophoroumenon kai auxanomenon, dando fruto e crescendo, os verbos da bênção da criação (Gn 1.22, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O evangelho os realiza en panti tō kosmō, no mundo inteiro: é hipérbole de quem vê a mensagem correr pelas estradas do império, e diz que o que chegou a Colossos não é seita local.

Quem a trouxe foi Epafras (v. 7), agapētos syndoulos, companheiro querido no serviço; syndoulos é palavra de escravo, e Paulo se põe ao lado dele na mesma condição. É pistos diakonos tou Christou: o que os colossenses aprenderam com ele não precisa de correção nem de acréscimo. Os manuscritos mais antigos, como o P46, o Sinaítico na mão original, o Alexandrino e o Vaticano, dizem que ele serve hyper hēmōn, por nós, como representante de Paulo; muitos outros trazem hyper hymōn, por vocês. Foi ele quem contou o amor deles en pneumati, no Espírito (v. 8), a única menção explícita ao Espírito Santo na carta.

Versículos 9-14 — Oração por sabedoria e o novo êxodo

A oração pede hina plērōthēte tēn epignōsin tou thelēmatos autou (v. 9): que sejam cheios do conhecimento pleno da vontade de Deus. Plēroō, encher, é da família de plērōma, a plenitude dos vv. 19 e 2.9-10: os colossenses não precisam buscá-la em outro lugar. E epignōsis é o conhecimento que reconhece e assimila, não o saber reservado a iniciados. Vem en pasē sophia kai synesei pneumatikē, com a sabedoria e o discernimento que o Espírito dá, as palavras de Is 11.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) para o Espírito que repousaria sobre o rebento de Jessé, como mostra o estudo de Isaías 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

O conhecimento tem destino prático (v. 10): peripatēsai axiōs tou kyriou, caminhar de modo digno do Senhor, buscando em tudo o que lhe dá prazer. Seguem particípios: dando fruto em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus, sendo fortalecidos segundo a força da glória dele (v. 11). A força não é para façanhas, mas eis pasan hypomonēn kai makrothymian meta charas: para a perseverança que aguenta as circunstâncias e a paciência que aguenta as pessoas, com alegria. É uma oração realista, para uma igreja pequena e pressionada.

A ação de graças do v. 12 abre palavras do êxodo e da terra prometida. O Pai hikanōsanti, tornou aptos, para tēn merida tou klērou tōn hagiōn en tō phōti: a parte na herança do povo santo, no reino da luz. Meris e klēros são as palavras da partilha de Canaã entre as tribos (Js 14–19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e da porção dos levitas, cuja herança era o próprio Senhor (Dt 10.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os manuscritos variam: o Sinaítico e o Vaticano dizem que o Pai habilitou vocês, muitos outros dizem nós, e alguns trazem chamou em vez de habilitou. O sentido não muda.

O v. 13 diz como: Deus errysato hēmas ek tēs exousias tou skotous, arrancou-nos da autoridade das trevas, com o verbo que a antiga tradução grega usa para a promessa de livrar Israel do Egito (Êx 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E metestēsen, transferiu-nos, para o Reino tou huiou tēs agapēs autou, do Filho que ele ama. Methistēmi era palavra das deportações de populações inteiras, como a dos judeus levados à Frígia; Deus faz o contrário de um império, levando o seu povo da escravidão para a sua própria terra. O Filho amado lembra a voz do batismo (Mc 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o rei que Deus chama de filho (Sl 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Sm 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os verbos estão no passado: o Reino já começou.

O v. 14 fecha o êxodo: em Cristo echomen tēn apolytrōsin, tēn aphesin tōn hamartiōn, temos o resgate, que é o perdão dos pecados. Apolytrōsis é a palavra do escravo libertado e, na memória de Israel, da saída do Egito (Dt 7.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Explicá-la pelo perdão importa diante de uma "filosofia" que talvez prometesse vitória sobre os poderes por outros meios: o domínio das trevas se quebra onde o pecado é perdoado. Manuscritos posteriores acrescentam aqui pelo seu sangue, vindo de Ef 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); os mais antigos não o têm, e o sangue aparece no v. 20.

Versículos 15-20 — O hino do Filho, primeiro na criação e na ressurreição

Os vv. 15-20 começam com hos estin, ele é, como o hino de Fp 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e têm ritmo próprio, palavras raras e repetições estudadas. Desde Eduard Norden, em 1913, muitos os leem como hino que as igrejas já cantavam, citado e talvez adaptado; vários pensam que as palavras a igreja (v. 18) e pelo sangue da cruz (v. 20) foram acrescentadas, pondo o hino cósmico no chão da história. Outros, como N. T. Wright, num estudo de 1990, defendem composição do próprio autor. Seja qual for a origem, poucas décadas depois da cruz os cristãos cantavam Jesus como mediador da criação.

A estrutura é amplamente reconhecida: duas estrofes, uma sobre a criação (vv. 15-16) e outra sobre a nova criação (vv. 18b-20), com uma ponte (vv. 17-18a). As duas abrem com hos estin, chamam o Filho de prōtotokos, explicam com hoti en autō, porque nele, e falam de ta panta, todas as coisas, di' autou, por meio dele, no céu e na terra. O Cristo da criação e o da cruz é o mesmo.

A primeira estrofe (vv. 15-16). Ele é eikōn tou theou tou aoratou. Eikōn não é cópia apagada; é a imagem que torna presente e visível o que representa. Dois panos de fundo se cruzam. Um é Gn 1.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o ser humano feito à imagem de Deus: Cristo é a imagem plena (2Co 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os crentes serão renovados segundo ela (Cl 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 8.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O outro é a Sabedoria, presente com Deus antes dos abismos e dos montes (Pv 8.22-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que o livro da Sabedoria chama de reflexo da luz eterna e imagem da bondade de Deus (Sabedoria 7.25-26); Fílon de Alexandria chamava o logos de imagem de Deus. Como mostra o estudo de Provérbios 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a leitura é tipológica: o poema personificava a sabedoria de Deus, e o hino diz que ela se mostrou como pessoa. O mesmo estudo lembra a tese de C. F. Burney (1926), que via no hino uma meditação sobre o bereshit de Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz do re'shit de Pv 8.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); nem todos aceitam os detalhes, mas o parentesco é amplamente notado.

Ele é prōtotokos pasēs ktiseōs, e a palavra pede cuidado. Pode parecer que o Filho seja o primeiro dos seres criados, e no século IV os arianos usaram o versículo assim, junto com Pv 8.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) na antiga tradução grega. Mas prōtotokos tinha na Bíblia sentido de posição, não só de ordem de nascimento. Israel é o primogênito de Deus (Êx 4.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), não o primeiro povo a existir; no Sl 89.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Deus promete fazer de Davi, o caçula de Jessé, o seu primogênito, o mais alto entre os reis da terra: título de primazia e de herança. E o próprio hino explica a palavra: ele é primogênito hoti en autō ektisthē ta panta, porque nele todas as coisas foram criadas. Quem é a razão da criação de tudo não pode ser uma das coisas criadas; por isso a maioria lê o genitivo como relação, sobre toda a criação, e não como parte dela. O Concílio de Niceia, em 325, confessou o Filho gerado, não criado, da mesma substância que o Pai, e Atanásio distinguiu o Unigênito, que diz a relação eterna com o Pai, do Primogênito, que diz a relação com a criação, à qual o Filho veio e da qual se fez irmão. Lembrar esse debate não é polemizar com ninguém de hoje: é ver como a Igreja leu o hino inteiro, e não uma palavra isolada.

O v. 16 desdobra o ta panta: o que está nos céus e na terra, ta horata kai ta aorata, e entre o invisível thronoi, kyriotētes, archai, exousiai, nomes que a literatura judaica da época dava a categorias de anjos e poderes. Se em Colossos alguém ensinava a reverenciar anjos e potências (Cl 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o hino responde que todos foram criados no Filho; como no estudo de Efésios 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), não descreve a natureza deles, põe todos abaixo de Cristo. A estrofe termina com o perfeito ektistai, foi criado e assim permanece, e com três preposições: en autō, nele; di' autou, por meio dele; eis auton, para ele. A última vai além da tradição da Sabedoria, que nunca disse que o mundo existe para ela: o Filho é a finalidade da criação, como em 1Co 8.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), segundo o estudo de 1 Coríntios 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

A ponte (vv. 17-18a). Autos estin pro pantōn: ele existe antes de tudo, em tempo e em dignidade. Ta panta en autō synestēken: tudo se mantém coeso nele. Synistēmi era palavra da filosofia para o que dá coesão ao universo, e o livro do Eclesiástico (43.26) diz algo parecido da palavra de Deus. O Filho não é um arquiteto que deixou a obra; nele o mundo continua de pé (Hb 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E vem hē kephalē tou sōmatos tēs ekklēsias: Cristo é a cabeça, e o corpo é a igreja. Alguns pensam que o hino original falava do corpo do universo, imagem conhecida dos estoicos, e que o autor acrescentou a igreja; no texto final, o corpo de que Cristo é cabeça, primazia e fonte de vida (Cl 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é a comunidade dos que creem.

A segunda estrofe (vv. 18b-20). Hos estin archē: ele é o começo, palavra que em Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Pv 8.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) se liga à criação e em Gn 49.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Dt 21.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao primogênito, começo da força do pai. É prōtotokos ek tōn nekrōn: não o primeiro a voltar à vida, como Lázaro, mas o primeiro a entrar na vida da ressurreição, que os outros seguirão (1Co 15.20, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O primogênito da criação é o da nova criação, hina genētai en pasin autos prōteuōn, para ocupar o primeiro posto em tudo; prōteuō só aparece aqui no Novo Testamento.

O v. 19 dá a razão: en autō eudokēsen pan to plērōma katoikēsai. Toda a plenitude quis morar nele, ou Deus quis que ela morasse nele; o sujeito é discutido, o sentido é o mesmo, e Cl 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o esclarece: nele mora, em forma corporal, a plenitude do que Deus é. Katoikeō indica morada permanente, e eudokeō ecoa o salmo em que Deus escolhe com agrado o monte para habitar (Sl 68.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o que Sião e o Templo eram para Israel, Cristo é em pessoa. Plērōma não tem aqui o sentido técnico que os gnósticos do século II lhe dariam, o mundo divino das emanações; se em Colossos alguém sugeria que a plenitude se repartia entre anjos e potências, o hino afirma que ela inteira está em Cristo.

O v. 20 diz o propósito: di' autou apokatallaxai ta panta eis auton, reconciliar por meio dele todas as coisas, para ele, eirēnopoiēsas dia tou haimatos tou staurou autou, fazendo a paz pelo sangue da cruz, as coisas da terra e as do céu. Apokatallassō só aparece aqui, no v. 22 e em Ef 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), como lembra o estudo de Efésios 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Eirēnopoieō soaria a ouvidos do império como a paz de Roma, imposta pelas legiões; o hino anuncia outra paz, feita não pelo sangue dos vencidos, mas pelo do próprio Rei, numa cruz romana.

Que quer dizer reconciliar todas as coisas? As leituras são várias, e convém apresentá-las sem decidir pelo leitor. Muitos entendem a restauração da criação inteira, que aguarda a libertação (Rm 8.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a cruz alcança não só as almas, mas o mundo que Deus fez. Outros, como F. F. Bruce e Peter O'Brien, falam também de pacificação: os poderes hostis não se tornam amigos, mas são vencidos e postos em ordem sob Cristo (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há ainda a esperança, sustentada por alguns desde Orígenes e Gregório de Nissa até teólogos modernos como Jürgen Moltmann, de que no fim todos serão reconciliados com Deus. As igrejas, em sua maioria, não adotaram essa leitura, e um concílio em Constantinopla, em 553, condenou proposições atribuídas aos seguidores de Orígenes; o Novo Testamento anuncia o juízo (Cl 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 2.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o v. 23 pede que os colossenses permaneçam na fé. Todas concordam no essencial: nada no céu ou na terra fica fora do alcance da cruz.

Versículos 21-23 — Reconciliados para permanecer firmes

Kai hymas (v. 21): e vocês. O hino desce do cosmos para a cidade. Os colossenses eram apēllotriōmenoi, alheados, e echthroi tē dianoia, hostis no modo de pensar, como as obras más mostravam: a inimizade começa na mente e se exprime na vida. Nyni de (v. 22), mas agora: Deus os reconciliou en tō sōmati tēs sarkos autou dia tou thanatou, no corpo humano de Cristo, pela morte. Contra quem desprezasse o corpo, a reconciliação aconteceu numa carne verdadeira, que morreu. O P46 e o Vaticano trazem o passivo, vocês foram reconciliados, forma mais áspera que muitos julgam original e que os copistas teriam alisado.

A finalidade é parastēsai hymas diante dele hagious kai amōmous kai anenklētous: santos, sem mancha, sem acusação. Amōmos é a palavra dos animais sem defeito oferecidos no altar (Lv 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e anenklētos, a do réu sem denúncia; o que se apresenta é obra de Deus, não mérito dos colossenses. O v. 23 acrescenta a condição: ei ge epimenete tē pistei, contanto que permaneçam na fé, tethemeliōmenoi kai hedraioi, alicerçados e firmes, sem se deixar arrastar da esperança do evangelho. Não é ameaça, é a lógica da carta: quem tem a plenitude em Cristo não precisa trocá-la por outra coisa. As tradições leem a condição de modos diferentes, entre a segurança da salvação e a responsabilidade da perseverança, como mostra o estudo de Romanos 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); todas concordam que a perseverança é sustentada por Deus e vivida pelo crente. O evangelho é o mesmo anunciado sob o céu inteiro, e Paulo se tornou o seu diakonos, palavra que liga o v. 23 ao v. 25.

Versículos 24-29 — O sofrimento do apóstolo e o mistério revelado

Nyn chairō en tois pathēmasin hyper hymōn (v. 24): agora me alegro nos sofrimentos por vocês. E Paulo diz antanaplēroō ta hysterēmata tōn thlipseōn tou Christou en tē sarki mou: completa, por sua vez, no próprio corpo, o que falta às aflições de Cristo, em favor do corpo dele, a igreja.

O versículo não pode significar que a cruz foi insuficiente: a carta dirá que Deus cancelou na cruz a dívida inteira e venceu os poderes (Cl 2.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o v. 22 acaba de pôr a reconciliação na morte de Cristo. Os estudiosos lembram que thlipsis, aflição, nunca é usada no Novo Testamento para o sofrimento redentor da cruz. As leituras principais não se excluem. Na primeira, os sofrimentos da igreja são do próprio Cristo, porque ela é o seu corpo: o ressuscitado pergunta a Saulo por que o persegue (At 9.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e quem sofre por ele participa das suas aflições (2Co 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na segunda, muitos lembram a esperança judaica de uma medida de aflições a cumprir antes do fim (Dn 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 13.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como os mártires do Apocalipse que esperam completar o seu número (Ap 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): Paulo assumiria uma parte dessa medida, poupando os irmãos. Na terceira, a ênfase é a união do apóstolo com Cristo na missão: o preço de levar o evangelho aos gentios. A tradição católica leu aqui o sofrimento oferecido em união com Cristo, como na carta Salvifici Doloris, de João Paulo II (1984), que fala de um sofrimento redentor no sentido de unido ao de Cristo e frutuoso para a igreja, não como acréscimo ao preço pago na cruz; a leitura protestante insiste nas aflições do ministério, sem ideia de mérito. As duas concordam em que a cruz basta.

O versículo também não faz do sofrimento um bem em si. Paulo se alegra porque a sua dor serve aos outros, não porque sofrer seja bonito. E ninguém pode usá-lo para convencer uma vítima de violência, em casa, no trabalho ou na igreja, a suportar o abuso como participação nas aflições de Cristo. Cristo sofreu para libertar, não para que alguém continue preso.

Paulo serve à igreja kata tēn oikonomian tou theou (v. 25), a tarefa que Deus lhe confiou, plērōsai ton logon tou theou, levar a palavra de Deus à sua plenitude, anunciando-a por inteiro e até os gentios (Rm 15.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa palavra é o mystērion (v. 26), escondido por séculos e gerações e agora manifestado ao povo santo. Não é um rito secreto como os dos cultos de mistério, nem saber para poucos; é um segredo de Deus revelado a todos, como em Dn 2.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Rm 16.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Ef 3.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

O conteúdo vem no v. 27: Deus quis mostrar a riqueza gloriosa desse mistério en tois ethnesin, entre as nações, e ele é Christos en hymin, hē elpis tēs doxēs: Cristo presente em vocês, e nele a esperança de participar da glória. En hymin pode ser no íntimo de cada um ou no meio da comunidade, e talvez a carta queira as duas coisas. O espanto é que os gentios entraram: os profetas esperavam que as nações viessem à luz de Israel (Is 49.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 60.1-3), e em Cristo isso aconteceu sem que eles precisassem se tornar judeus. Os gentios entram na esperança de Israel, não tomam o seu lugar; a glória que esperam é a prometida a Israel, e o Messias de Israel está neles como penhor dela (Cl 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Hon hēmeis katangellomen (v. 28): é a ele que anunciamos, nouthetountes, aconselhando, e didaskontes, ensinando, panta anthrōpon, cada pessoa, para apresentar cada pessoa teleion en Christō, madura em Cristo. "Cada pessoa" aparece três vezes no versículo, e teleios era também palavra dos cultos de mistério para os iniciados de grau superior. Paulo recusa a elite espiritual: a maturidade é para todos e se alcança em Cristo, não além dele. O v. 29 fecha com o esforço do apóstolo: kopiō, canso-me no trabalho, agōnizomenos, lutando como um atleta, kata tēn energeian autou, com a energia de Cristo que age nele. O trabalho é de Paulo; a força, de Cristo.


✨ 4. Versículos-Chave

Cl 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Pai arrancou os crentes do domínio das trevas e os levou para o Reino do Filho amado, em quem há resgate e perdão. É o êxodo relido em Cristo: a libertação do pecado já aconteceu.

Cl 1.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Filho torna visível o Deus invisível, tem a primazia sobre a criação, é origem, mediador e finalidade de tudo e mantém tudo coeso. Com Jo 1.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Hb 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), estes versículos sustentaram a confissão de Niceia e a convicção de que o mundo tem sentido porque tem centro.

Cl 1.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Toda a plenitude mora em Cristo, e por ele Deus reconcilia todas as coisas pelo sangue da cruz. Se tudo está em Cristo, nada falta a quem está nele, e a cruz é o caminho da paz para o mundo.

Cl 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O mistério revelado é Cristo presente nos gentios, penhor da glória futura: o Messias de Israel habita gente que estava longe.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A supremacia e a suficiência de Cristo. O hino responde à pergunta da carta inteira: falta alguma coisa a quem tem Cristo? Se ele é a imagem de Deus, mediador e finalidade da criação, vencedor da morte e morada da plenitude, nenhum anjo, potência ou técnica espiritual pode acrescentar algo ao que está nele. O capítulo 2 tirará a consequência: nele os crentes foram cheios (Cl 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A reconciliação, pessoal e cósmica. O mesmo verbo serve para todas as coisas (v. 20) e para os colossenses (vv. 21-22). O que Deus faz no mundo inteiro começa numa cidade pequena da Frígia, e o meio é sempre a cruz. Daí, com cuidado e sem anacronismo, uma palavra sobre a criação: se tudo foi feito para Cristo e por ele será reconciliado, o mundo material não é descartável, e cuidar dele faz parte da fé.

O mistério revelado às nações. O plano escondido por gerações é Cristo entre os gentios, que entram na esperança de Israel sem apagá-la.

O conhecimento que vira vida. A carta valoriza o conhecimento de Deus que dá fruto em boas obras, paciência e gratidão (vv. 9-12). Contra o saber secreto de iniciados, propõe a sabedoria que o Espírito dá a todos e que se reconhece pelo modo de andar.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Colossenses 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) percorre o arco inteiro. A Criação está nos vv. 15-17: tudo foi feito no Filho, por ele e para ele, a imagem de que Gn 1.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala. A Queda aparece no domínio das trevas (v. 13), nos pecados que precisam de perdão (v. 14), na criação a reconciliar (v. 20) e nos colossenses hostis a Deus (v. 21). A Redenção em andamento está no êxodo, na herança, no Filho davídico e no mistério guardado pelos séculos (vv. 12-13, 26). A Redenção consumada está no sangue da cruz e no primogênito dentre os mortos (vv. 18, 20, 22). E a Nova Criação, na herança no reino da luz, na reconciliação de tudo e na esperança da glória (vv. 12, 20, 27).

6.2 — A imagem verdadeira: Adão e a Sabedoria

O hino lê duas figuras do Antigo Testamento à luz de Cristo. Adão foi feito à imagem de Deus para representá-lo e cuidar do mundo (Gn 1.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Cristo é a imagem plena, e nele se vê o que o ser humano deveria ser, por isso a vida nova é renovação segundo essa imagem (Cl 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Sabedoria de Pv 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) estava com Deus antes da criação; como mostra o estudo de Provérbios 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a tipologia não é identidade simples, e o poema não pretendia definir a natureza do Filho. Mas a figura preparou a linguagem, e o hino a ultrapassa: o Filho é também o fim para o qual tudo foi criado, e o que morreu na cruz para reconciliar o que fez. Nenhum poeta de Israel teria imaginado isso.

6.3 — O novo êxodo e o Filho de Davi

Os vv. 12-14 contam a salvação com as palavras do êxodo: livrar, resgatar, transferir, herança, porção. O Deus que tirou Israel do Egito e lhe deu a terra em partilha tira agora o seu povo das trevas e lhe dá parte na herança da luz. O Filho amado lembra o filho davídico a quem Deus prometeu ser pai (2Sm 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o primogênito do hino, o Davi do Sl 89.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Cristo é o libertador maior que Moisés e o rei prometido a Davi, e o seu Reino já começou.

6.4 — Indicativo e imperativo: a obra de Cristo e a vida que dela nasce

O capítulo é quase todo indicativo: Deus habilitou, arrancou, transferiu, reconciliou, revelou; em Cristo tudo foi criado e se sustenta, a plenitude mora, a paz foi feita. O imperativo vem em forma de oração e de condição: caminhar de modo digno do Senhor, dar fruto, ser paciente, agradecer (vv. 10-12), permanecer na fé (v. 23). Os imperativos da carta virão no capítulo 3, e virão daqui: porque a vida está escondida com Cristo, os crentes podem buscar o que é do alto (Cl 3.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a advertência do capítulo 2 é a aplicação do hino: se a plenitude está em Cristo, nenhuma filosofia pode vender o que falta.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar Colossenses 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é anunciar que o Deus que ninguém vê tem um rosto, o de Jesus. É dizer que o mundo não é acaso nem prisão, porque foi feito por ele e para ele, e que as forças que assustam são criaturas abaixo dele. É dizer a quem se sente estranho a Deus que a paz foi feita pelo sangue da cruz, e que ser reconciliado não depende de alcançar um grau espiritual superior, mas de ouvir, crer e permanecer. E é dizer a quem estava longe que o próprio Cristo vem morar nele, como penhor da glória.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Nada falta a quem tem Cristo. Há sempre alguém oferecendo algo a mais: um curso que revela segredos, uma experiência obrigatória, um círculo de iniciados, uma técnica que garante a vitória espiritual. Toda a plenitude mora em Cristo. Estudar, crescer e buscar disciplina é bom; o perigo é ouvir que o que você recebeu no evangelho foi só o começo, e que o essencial está com outro mestre.

Sem medo das forças invisíveis. Tronos, senhorios, governos e autoridades foram criados no Filho e estão abaixo dele. Quem vive assustado com maldições ou forças ocultas pertence ao Senhor de todas elas. E essa fé não dispensa o médico, o psicólogo nem o tratamento.

Orar como Paulo ora. Ele pede para uma igreja pequena conhecimento que vire vida, força para a paciência e alegria para agradecer. Não pede facilidades; pede o que faz durar. É uma boa oração para filhos, amigos e pastores, nos dias comuns.

O sofrimento não é bom em si. O v. 24 consola quem sofre por servir a Cristo e aos irmãos: essa dor não é desperdiçada. Mas não autoriza ninguém a procurar a dor nem a pedir que alguém suporte violência em nome da fé. Quem está em perigo deve buscar proteção, e a igreja deve ser lugar de amparo, não de pressão.

Cada pessoa, sem elite. Paulo quer apresentar cada pessoa madura em Cristo. Na igreja não há crentes de primeira e de segunda classe; a maturidade se mede pelo fruto, pela paciência e pela gratidão, não por experiências extraordinárias.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Paulo diz que a fé e o amor dos colossenses nascem da esperança guardada em Deus (vv. 4-5). Como essa esperança muda a maneira de crer e de amar hoje?
  2. Os vv. 12-14 usam a linguagem do êxodo. Do que Cristo o libertou, e para onde ele o transferiu?
  3. Por que prōtotokos, no v. 15, não faz do Filho uma criatura? Como o v. 16 ajuda a entender a palavra?
  4. O hino diz que tudo foi criado para Cristo e se mantém nele (vv. 16-17). Que diferença isso faz para a forma como você vê o trabalho, a natureza e a própria vida?
  5. Que propostas de "algo a mais" você já ouviu na vida cristã? Como a plenitude que mora em Cristo (v. 19) ajuda a avaliá-las?
  6. Para meditação e oração: leia devagar os vv. 9-12 e faça deles uma oração por alguém que você ama, pedindo para essa pessoa conhecimento que vire vida, paciência com alegria e um coração agradecido.

📚 10. Para Aprofundamento

Comentários de Colossenses:

  • J. B. Lightfoot — Saint Paul's Epistles to the Colossians and to Philemon (Macmillan, 1875)
  • Eduard Lohse — Colossians and Philemon (Hermeneia, Fortress, 1971; original alemão de 1968)
  • Peter T. O'Brien — Colossians, Philemon (Word Biblical Commentary, 1982)
  • F. F. Bruce — The Epistles to the Colossians, to Philemon, and to the Ephesians (New International Commentary on the New Testament, Eerdmans, 1984)
  • N. T. Wright — Colossenses e Filemom: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica) / Colossians and Philemon (Tyndale, 1986)
  • Markus Barth e Helmut Blanke — Colossians (Anchor Bible, Doubleday, 1994)
  • James D. G. Dunn — The Epistles to the Colossians and to Philemon (New International Greek Testament Commentary, Eerdmans, 1996)
  • Douglas J. Moo — The Letters to the Colossians and to Philemon (Pillar, Eerdmans, 2008)
  • R. C. Lucas — A mensagem de Colossenses e Filemom (ABU, série A Bíblia Fala Hoje)

O hino, a cidade e o texto:

  • N. T. Wright — "Poetry and Theology in Colossians 1.15-20", New Testament Studies 36 (1990)
  • C. F. Burney — "Christ as the ARXH of Creation", Journal of Theological Studies 27 (1926)
  • Clinton E. Arnold — The Colossian Syncretism (Mohr Siebeck, 1995)
  • Morna D. Hooker — "Were There False Teachers in Colossae?" (1973)
  • Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedades Bíblicas Unidas, 2.ª ed., 1994)

Niceia, o sofrimento e o povo judeu:

  • Atanásio de Alexandria — Discursos contra os arianos
  • João Paulo II — Salvifici Doloris (1984)
  • Concílio Vaticano II — Nostra Aetate (1965), n. 4

Sabedoria para o Cotidiano
O Deus que ninguém vê mostrou o rosto em Jesus, e tudo o que existe, das estrelas às forças que você não enxerga, foi feito por ele e para ele e se mantém de pé nele. Por isso não corra atrás de quem promete o que falta: em Cristo mora a plenitude, e quem está nele já foi tirado das trevas e recebido no Reino do Filho amado. Peça a Deus, para hoje, um conhecimento que vire passos, paciência com as pessoas e um coração que agradece.

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Colossenses — Capítulo 1 · Farol Bíblico