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Daniel · 27 de 66 · Antigo Testamento

Daniel — Resumo do livro

Daniel — Diante de Nabucodonosor, Daniel interpreta o sonho da grande estátua. A figura que se desfaz sob o impacto da pedra representa a passagem dos reinos humanos e a permanência do reino estabelecido por Deus.
Daniel — Diante de Nabucodonosor, Daniel interpreta o sonho da grande estátua. A figura que se desfaz sob o impacto da pedra representa a passagem dos reinos humanos e a permanência do reino estabelecido por Deus.

Daniel é o livro de quem permaneceu fiel longe de casa e viu, por trás do trono dos impérios, o trono de Deus. Suas páginas alternam cenas de corte na Babilônia e na Pérsia, onde jovens judeus arriscam a vida por lealdade ao Senhor, com visões de feras, chifres, anjos e reinos que sobem e caem. As duas metades contam a mesma história por ângulos diferentes: os reinos humanos são reais, poderosos e às vezes brutais, mas têm prazo; o Reino de Deus não tem.

Por isso o livro fala com particular força a quem vive como minoria num mundo que não partilha sua fé. Não oferece fuga nem ingenuidade. Oferece uma convicção que atravessa cada capítulo, formulada pelo próprio texto como refrão: o Altíssimo governa sobre os reinos dos homens e os dá a quem quer (Dn 4.17, 25, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O grande eixo do livro é o contraste entre os reinos deste mundo e o Reino eterno de Deus, que será entregue a um "filho de homem" vindo com as nuvens do céu.

1. Contexto e Autor

O livro começa no terceiro ano do rei Jeoaquim de Judá, quando Nabucodonosor sitiou Jerusalém e levou para a Babilônia parte dos utensílios do templo e jovens da nobreza judaica (Dn 1.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), por volta de 605 a.C. Jeremias fala do "quarto ano" de Jeoaquim para a mesma época (Jr 25.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), diferença geralmente explicada pelos dois sistemas de contagem de reinado, o babilônico e o judaíta. Entre os deportados estavam Daniel, cujo nome significa "Deus é meu juiz", e seus companheiros Hananias, Misael e Azarias, que receberam nomes babilônicos: Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Daniel atravessa todo o período do exílio, serve sob reis babilônicos e persas e permanece em cena até o terceiro ano de Ciro, por volta de 536 a.C. (Dn 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.1).

O livro tem duas particularidades que o distinguem no Antigo Testamento. A primeira é a língua: começa em hebraico, passa ao aramaico em Dn 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a língua internacional do império, e volta ao hebraico em Dn 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A segunda é a forma: os capítulos 1–6 são narrativas em terceira pessoa, e os capítulos 7–12 são visões relatadas em primeira pessoa. A divisão linguística não coincide com a divisão literária, e essa sobreposição costura as duas metades. Estudiosos observaram também que a seção aramaica (Dn 2–7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) forma um quiasmo: os capítulos 2 e 7 tratam dos quatro reinos, os capítulos 3 e 6 narram livramentos da morte, e os capítulos 4 e 5 mostram o juízo de Deus sobre reis orgulhosos.

No cânon hebraico, Daniel está entre os Escritos (Ketuvim), não entre os Profetas; nas Bíblias cristãs, figura entre os profetas maiores, e o próprio Jesus o chama de "o profeta" (Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As tradições católica e ortodoxa incluem ainda trechos gregos preservados na Septuaginta: a oração de Azarias e o cântico dos três jovens no capítulo 3, e as narrativas de Susana e de Bel e o Dragão. As igrejas protestantes, seguindo o texto hebraico-aramaico, os consideram apócrifos.

A datação é o ponto mais debatido do livro. A posição tradicional, judaica e cristã, atribui o conteúdo a Daniel no século VI a.C. Desde o filósofo pagão Porfírio, no século III d.C., cuja crítica foi respondida por Jerônimo em seu comentário a Daniel, e de forma sistemática a partir do século XIX, muitos estudiosos datam a redação final por volta de 167–164 a.C., sob a perseguição de Antíoco IV Epífanes, sobretudo pela precisão histórica do capítulo 11. Essa é a posição de John J. Collins (Hermeneia, 1993). Comentaristas como Joyce Baldwin (Tyndale, 1978), Stephen R. Miller (NAC, 1994) e Tremper Longman III (NIVAC, 1999) defendem a origem no período exílico, apontando, entre outros dados, a presença de vários manuscritos de Daniel em Qumran e o conhecimento que o livro tem de Belsazar. Esse rei, ignorado por historiadores gregos e antes considerado invenção, aparece em inscrições cuneiformes, como o Cilindro de Nabonido, como filho de Nabonido e governante em Babilônia durante a longa ausência do pai em Tema. Isso explica por que Belsazar só pode oferecer a Daniel o posto de terceiro no reino (Dn 5.16, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o primeiro e o segundo estavam ocupados.

O movimento geral do livro vai do palácio de Nabucodonosor ao fim dos tempos: começa com jovens cativos numa escola imperial e termina com a promessa de ressurreição e com Daniel descansando à espera da sua herança no fim dos dias (Dn 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

2. Propósito e Mensagem Central

Daniel responde a uma pergunta que o exílio tornara insuportável: se os deuses da Babilônia venceram, quem governa a história? O livro abre com uma frase que já é a resposta: foi o Senhor quem entregou Jeoaquim nas mãos de Nabucodonosor (Dn 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A derrota de Judá não foi derrota de Deus.

A partir daí, o livro mostra o Deus de Israel como Senhor dos tempos e das épocas, que remove reis e estabelece reis e revela o que está oculto (Dn 2.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra aramaica raz, "mistério", é central nesse capítulo: o futuro é um segredo que só Deus conhece e que ele revela a quem quer. Os sábios da Babilônia fracassam; o servo do Deus do céu interpreta.

Revela também o que acontece ao poder humano quando se absolutiza. Nabucodonosor ergue uma estátua de ouro e exige adoração; é humilhado até viver como animal e só recupera a razão quando levanta os olhos ao céu. Belsazar profana os utensílios do templo e morre na mesma noite. As visões de Daniel mostram os impérios como feras que saem do mar, símbolo do caos, enquanto o reino de Deus é dado a alguém com rosto humano. Os reinos deste mundo desumanizam; o Reino de Deus restaura a humanidade.

Por fim, o livro sustenta a fidelidade em tempo de pressão. Daniel e seus companheiros não se isolam da Babilônia: estudam sua literatura, servem em seu governo, procuram o bem da cidade. Mas há linhas que não cruzam: comida consagrada aos ídolos, adoração à estátua, interrupção da oração. A mensagem é que é possível servir num império sem se curvar a ele.

A fórmula-linha do livro pode ser assim: exílio → fidelidade sob pressão → soberania de Deus revelada → reinos humanos julgados → sofrimento dos santos → vinda do Filho do Homem → Reino eterno → ressurreição.

3. Principais Temas

A soberania de Deus sobre a história. É o tema que organiza o livro. Deus dá o reino a Nabucodonosor (Dn 2.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), tira-o dele e o restitui (Dn 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), pesa Belsazar e o acha em falta (Dn 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), estabelece prazos para os impérios e para a própria perseguição (Dn 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.14; 12.7). Os títulos divinos preferidos do livro reforçam isso: o Altíssimo, o Deus do céu, o Ancião de Dias.

Fidelidade em terra estrangeira. Os jovens de Daniel 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aprendem a língua e a literatura dos caldeus, mas recusam a comida do rei, provavelmente por estar ligada ao culto idólatra ou por ser um meio de vinculação total à mesa real. Os três amigos recusam a estátua (Dn 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Daniel não interrompe suas orações diante de Jerusalém, com as janelas abertas, mesmo sabendo do decreto (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fidelidade no livro é concreta, visível e muitas vezes custosa.

Orgulho e humilhação dos poderosos. Nabucodonosor, ao contemplar a Babilônia como obra do seu poder e para a sua glória, perde a razão (Dn 4.30-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Belsazar, que conhecia essa história, repete o erro com mais arrogância (Dn 5.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O livro ensina que Deus é capaz de humilhar os que andam na soberba (Dn 4.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o juízo sobre Belsazar é resumido em três palavras aramaicas escritas na parede: mene, "contado", tekel, "pesado", peres, "dividido", este último com um jogo de palavras com "Pérsia" (Dn 5.25-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Reinos humanos e o Reino de Deus. A estátua de Daniel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e as feras de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descrevem uma sucessão de impérios que culmina não num império melhor, mas num Reino de outra natureza: uma pedra cortada sem auxílio de mãos que se torna um monte e enche a terra (Dn 2.34-35, 44-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), um reino dado ao Filho do Homem e aos santos do Altíssimo, que jamais passará (Dn 7.14, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Sofrimento dos santos e vitória final. As visões anunciam um poder que fala contra o Altíssimo, persegue os santos e tenta mudar os tempos e a lei (Dn 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que suprime o sacrifício diário e profana o santuário (Dn 8.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.31). O sofrimento é real e tem duração; a vitória é certa e definitiva. Os sábios, os maskilim, ensinarão a muitos e alguns cairão pela espada, mas esse sofrimento os purifica (Dn 11.33-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Oração e confissão. Daniel ora três vezes ao dia (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), busca a Deus com os companheiros diante do perigo (Dn 2.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, ao ler Jeremias, faz uma das grandes orações penitenciais das Escrituras (Dn 9.4-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em que se inclui entre os culpados e apela não à justiça do povo, mas às grandes misericórdias de Deus.

O mundo invisível. Daniel é o primeiro livro da Bíblia a nomear anjos: Gabriel (Dn 8.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.21) e Miguel, apresentado como um dos primeiros príncipes e protetor do povo de Deus (Dn 10.13, 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 12.1). O capítulo 10 revela conflitos espirituais ligados aos "príncipes" da Pérsia e da Grécia, sugerindo que a história visível tem uma dimensão oculta.

Ressurreição e juízo final. Daniel 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a declaração mais clara do Antigo Testamento sobre a ressurreição corporal de justos e injustos, uns para a vida eterna e outros para vergonha eterna.

4. Síntese Narrativa ou Doutrinária

Daniel 1–6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Fiéis na corte dos impérios

A escola da Babilônia (Dn 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jovens judeus de boa linhagem são selecionados para três anos de formação na língua e na literatura dos caldeus, com provisão diária da mesa real. Daniel decide não se contaminar com essa comida e propõe ao responsável um teste de dez dias com legumes e água. Ao fim do prazo, os quatro estão mais saudáveis que os demais. Deus lhes dá conhecimento e inteligência, e a Daniel entendimento de visões e sonhos. Diante do rei, são achados dez vezes superiores aos magos e encantadores do reino (Dn 1.17-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A estátua e a pedra (Dn 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nabucodonosor tem um sonho que o perturba e exige que os sábios lhe digam não só a interpretação, mas o próprio sonho, sob pena de morte. Eles respondem que nenhum homem pode fazer isso, apenas os deuses, que não habitam com os mortais (Dn 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), confissão que prepara o contraste. Daniel pede tempo, ora com os amigos e recebe a revelação de noite; sua primeira reação é um hino de louvor (Dn 2.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sonho era uma grande estátua: cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, pernas de ferro, pés de ferro misturado com barro. Uma pedra, cortada sem mãos humanas, atinge os pés, a estátua inteira vira palha ao vento, e a pedra se torna um grande monte que enche a terra. A cabeça de ouro é o próprio Nabucodonosor; seguem-se reinos inferiores; nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que nunca será destruído (Dn 2.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura tradicional identifica os quatro reinos com Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma; muitos estudiosos críticos propõem Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. O rei cai diante de Daniel e reconhece que o Deus dele é Deus dos deuses (Dn 2.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A fornalha (Dn 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nabucodonosor ergue uma estátua de ouro de sessenta côvados na planície de Dura e ordena que todos a adorem ao som da música. Sadraque, Mesaque e Abede-Nego se recusam. Diante do rei, afirmam que Deus pode livrá-los e que, mesmo que não o faça, não servirão aos seus deuses (Dn 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): uma fé que não depende do resultado. Lançados numa fornalha aquecida sete vezes mais, andam soltos no meio do fogo, e o rei vê um quarto homem com aparência semelhante a um filho dos deuses (Dn 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Saem sem cheiro de fumaça, e o rei bendiz o Deus que enviou o seu anjo (Dn 3.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A árvore cortada (Dn 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo tem a forma de um decreto do próprio Nabucodonosor, em primeira pessoa. Ele sonha com uma árvore imensa que abriga todas as criaturas e é derrubada por ordem de um vigilante celestial, restando o toco preso com cadeias. Daniel interpreta com evidente pesar e aconselha o rei a romper com seus pecados praticando a justiça e a misericórdia com os pobres (Dn 4.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um ano depois, enquanto o rei se vangloria da grande Babilônia, a sentença cai: ele é afastado dos homens e vive como animal do campo por "sete tempos". Ao fim, levanta os olhos ao céu, recupera o entendimento e louva o Rei do céu, cujas obras são verdade (Dn 4.34-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Um texto encontrado em Qumran, a chamada Oração de Nabonido (4Q242), narra uma aflição de sete anos sofrida pelo rei Nabonido em Tema, o que mostra que histórias desse tipo circulavam no ambiente judaico; a relação entre os dois relatos continua debatida.

A escrita na parede (Dn 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Belsazar oferece um banquete a mil nobres e, embriagado, manda trazer os utensílios de ouro e prata tirados do templo de Jerusalém para beber neles em louvor aos deuses de ouro e pedra. Uma mão aparece e escreve na parede. Ninguém consegue ler até que a rainha, provavelmente a rainha-mãe, lembra-se de Daniel. O velho profeta recusa os presentes, recorda ao rei a humilhação de Nabucodonosor e lê a sentença. Naquela mesma noite Belsazar é morto, e o reino passa a Dario, o medo (Dn 5.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Historicamente, a Babilônia caiu diante das forças de Ciro em 539 a.C., como registra a Crônica de Nabonido. A identidade de Dario, o medo, é uma das questões abertas do livro: foi identificado com Gubaru, governador nomeado por Ciro, com o próprio Ciro sob outro título, entre outras propostas.

A cova dos leões (Dn 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel, já idoso, é tão distinto entre os administradores que os rivais não acham nele falta alguma, a não ser no que diz respeito à lei do seu Deus (Dn 6.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Convencem o rei a assinar um decreto irrevogável proibindo orações a qualquer deus ou homem por trinta dias, exceto ao rei. Daniel continua orando como antes. O rei, que o estima, tenta livrá-lo até o pôr do sol e não consegue. Daniel é lançado aos leões, e a cova é fechada com uma pedra selada com o anel do rei e dos nobres (Dn 6.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). De madrugada, o rei corre à cova e encontra Daniel vivo: Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões. Os acusadores recebem a sentença que haviam preparado, e Dario decreta que em todo o reino se tema o Deus de Daniel, cujo reino não será destruído (Dn 6.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Daniel 7–12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As visões do fim

As quatro feras e o Filho do Homem (Dn 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No primeiro ano de Belsazar, portanto cronologicamente antes dos capítulos 5 e 6, Daniel vê os quatro ventos agitando o grande mar e quatro feras subindo dele: um leão com asas de águia, um urso com três costelas na boca, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças, e uma quarta fera terrível, diferente de todas, com dentes de ferro e dez chifres. Entre os chifres surge um chifre pequeno, com olhos humanos e boca que fala com arrogância. Então a cena muda para o céu: tronos são postos, o Ancião de Dias se assenta, com vestes brancas como a neve e cabelos como lã pura, num trono de chamas; milhares o servem, o tribunal se instala e os livros são abertos (Dn 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fera é morta. E, com as nuvens do céu, vem alguém semelhante a um filho de homem (em aramaico, kevar 'enash), que se aproxima do Ancião de Dias e recebe domínio, glória e reino, para que todos os povos o sirvam; seu domínio é eterno (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo aramaico traduzido por "servir" (pelaḥ) é, no restante do livro, usado para o culto prestado a Deus (Dn 3.12, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.16), detalhe que sublinha a dignidade dessa figura. A interpretação diz que os santos do Altíssimo receberão o reino, depois de o chifre fazer guerra contra eles por "um tempo, tempos e metade de um tempo" (Dn 7.18, 25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O carneiro e o bode (Dn 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O hebraico retorna. No terceiro ano de Belsazar, em Susã, junto ao rio Ulai, Daniel vê um carneiro de dois chifres derrubado por um bode vindo do ocidente sem tocar o chão, com um chifre notável entre os olhos. O grande chifre se quebra, e em seu lugar surgem quatro; de um deles sai um chifre pequeno que cresce em direção ao sul, ao oriente e à terra gloriosa, desafia o príncipe do exército celeste, suprime o sacrifício contínuo e derruba o santuário. Uma voz anuncia que isso durará duas mil e trezentas tardes e manhãs (Dn 8.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Gabriel interpreta de modo explícito: o carneiro são os reis da Média e da Pérsia; o bode, o rei da Grécia (Dn 8.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura quase unânime vê aqui Alexandre, o Grande, a divisão do seu império entre quatro sucessores e, no chifre pequeno, Antíoco IV Epífanes, que em 167 a.C. profanou o templo de Jerusalém e proibiu a prática do judaísmo (cf. 1 Macabeus 1). Daniel fica doente e perturbado com a visão (Dn 8.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A oração e as setenta semanas (Dn 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No primeiro ano de Dario, Daniel entende, lendo Jeremias, que a desolação de Jerusalém duraria setenta anos (Jr 25.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 29.10). Em vez de simplesmente esperar o prazo, ele jejua e ora. Sua oração é uma confissão coletiva profunda: reconhece a justiça de Deus no exílio, assume a culpa do povo e dos pais, e pede restauração por amor do nome do Senhor e da cidade que leva o seu nome (Dn 9.4-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Enquanto ainda ora, na hora da oferta da tarde, Gabriel chega com uma revelação: setenta "semanas" (shavu'im, literalmente "setes", geralmente entendidos como períodos de sete anos) estão determinadas para acabar com a transgressão, pôr fim ao pecado, expiar a iniquidade, trazer a justiça eterna, selar visão e profecia e ungir o Santo dos Santos (Dn 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Até um ungido, um príncipe, passarão sete e sessenta e duas semanas; depois disso o ungido será eliminado e nada lhe restará; o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário; haverá uma aliança por uma semana e a cessação do sacrifício (Dn 9.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É um dos textos mais discutidos das Escrituras, e as leituras serão apresentadas na Seção 5.

O mensageiro e a guerra nos céus (Dn 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No terceiro ano de Ciro, após três semanas de luto e jejum, Daniel está junto ao grande rio Tigre e vê um homem vestido de linho, com cinto de ouro fino, corpo como berilo, rosto como relâmpago, olhos como tochas e voz como o ruído de uma multidão (Dn 10.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel perde as forças e cai. O mensageiro explica que foi enviado desde o primeiro dia da oração, mas o príncipe do reino da Pérsia lhe resistiu vinte e um dias, até que Miguel veio ajudá-lo (Dn 10.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo fortalece Daniel três vezes com um toque, e prepara a revelação final.

Reis do norte e do sul (Dn 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo descreve com riqueza impressionante as guerras entre os "reis do sul", os Ptolomeus do Egito, e os "reis do norte", os Selêucidas da Síria, após a morte de Alexandre: alianças matrimoniais, invasões, traições. A partir de Dn 11.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), aparece um homem desprezível que toma o reino por intrigas, identificado quase unanimemente com Antíoco IV. Ele profana o santuário, suprime o sacrifício contínuo e estabelece a abominação desoladora (shiqquts meshomem; Dn 11.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), expressão que 1 Macabeus 1.54 aplica ao altar pagão erguido no templo em 167 a.C. Diante dele, o povo que conhece o seu Deus se fortalece e age, e os sábios instruem a muitos (Dn 11.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A partir de Dn 11.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a descrição do rei que se exalta acima de todo deus parece ultrapassar Antíoco, e muitos intérpretes, desde Jerônimo, veem ali a figura do inimigo final de Deus.

Ressurreição e o selo do livro (Dn 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Naquele tempo Miguel se levantará, e haverá uma angústia como nunca houve, mas será salvo o povo cujo nome está escrito no livro. Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha e o desprezo eterno (Dn 12.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os sábios brilharão como o firmamento, e os que conduzem muitos à justiça, como as estrelas para sempre (Dn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel recebe a ordem de selar o livro até o tempo do fim. Duas figuras junto ao rio perguntam até quando, e a resposta volta ao "tempo, tempos e metade de um tempo", acrescentando os números de mil duzentos e noventa e mil trezentos e trinta e cinco dias (Dn 12.7, 11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel não entende e pergunta de novo. A resposta final não resolve o enigma; confia-lhe uma promessa pessoal: vá até o fim, descanse, e se levantará para receber a sua herança no fim dos dias (Dn 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

5. Conexão Cristocêntrica

Nenhum livro do Antigo Testamento moldou tanto a maneira como Jesus falou de si mesmo quanto Daniel.

O Filho do Homem que recebe o Reino

"Filho do Homem" é a autodesignação mais frequente de Jesus nos Evangelhos, e a fonte decisiva é Daniel 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O ponto culminante aparece no julgamento diante do sinédrio. Perguntado pelo sumo sacerdote se era o Cristo, Jesus responde afirmativamente e anuncia que verão o Filho do Homem assentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu (Mc 14.61-62 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), unindo Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O sumo sacerdote rasga as vestes e o acusa de blasfêmia, porque entendeu a reivindicação: Jesus se identificava com a figura que partilha o domínio de Deus. No fim de Mateus, o Ressuscitado declara ter recebido toda a autoridade no céu e na terra e envia os discípulos a todas as nações (Mt 28.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), linguagem que ecoa a entrega de domínio a todos os povos em Dn 7.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Na visão inaugural do Apocalipse, João vê alguém semelhante a filho de homem cujos cabelos são brancos como lã (Ap 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): os traços do Ancião de Dias e do Filho do Homem se fundem numa só pessoa.

A pedra que enche a terra

A pedra cortada sem mãos humanas, que destrói a estátua e cresce até encher o mundo, é imagem do Reino que não depende do poder humano. Jesus inicia seu ministério anunciando que o tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo (Mc 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na parábola dos lavradores, depois de citar o Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sobre a pedra rejeitada que se tornou pedra angular, acrescenta que aquele sobre quem ela cair será esmagado (Lc 20.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), alusão reconhecida por muitos comentaristas a Daniel 2.34-35, 44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Reino anunciado por Daniel começou pequeno, como pedra, numa província periférica do Império Romano, e cresce até a consumação.

O ungido que é eliminado

As setenta semanas de Daniel 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) falam de um ungido, um príncipe, que seria eliminado e ficaria sem nada, num contexto de expiação da iniquidade e de justiça eterna. A leitura messiânica, majoritária na tradição cristã desde os Pais da Igreja e mantida por comentaristas como E. J. Young e Stephen Miller, calcula as semanas a partir de um decreto persa de reconstrução de Jerusalém, seja o de Ciro, seja um dos decretos de Artaxerxes (Ed 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e vê seu cumprimento no ministério e na morte de Jesus, seguidos da destruição de Jerusalém em 70 d.C. A leitura dispensacionalista aceita a referência a Cristo nas 69 semanas, mas situa a septuagésima semana no fim dos tempos. A leitura crítica identifica o ungido com o sumo sacerdote Onias III, assassinado por volta de 171 a.C., e o príncipe que há de vir com Antíoco IV. Mesmo quem adota leituras diferentes quanto à cronologia reconhece que os seis propósitos de Dn 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobretudo pôr fim ao pecado, expiar a iniquidade e trazer justiça eterna, só encontram realização plena na obra de Cristo (Hb 9.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.12-14).

O inocente selado na cova

Daniel é condenado por uma lei que não podia ser revogada, lançado numa cova, fechada com uma pedra e selada com o anel do rei, e sai vivo de madrugada. Sem forçar a tipologia, a correspondência com a paixão é evidente: Jesus, inocente, é condenado, sepultado num túmulo fechado com uma pedra que as autoridades mandam selar (Mt 27.66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no primeiro dia da semana, bem de madrugada, o túmulo está vazio. Há também uma diferença decisiva: Daniel foi poupado da morte; Cristo passou por ela e a venceu.

O quarto homem no fogo

A figura vista no meio da fornalha é chamada pelo rei de semelhante a um filho dos deuses e, depois, de anjo enviado por Deus (Dn 3.25, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns Pais da Igreja viram ali uma manifestação do Filho antes da encarnação; outros preferiram a leitura angélica. Em qualquer caso, a cena ensina uma verdade que em Cristo se torna plena: Deus não livra os seus apenas de fora, mas entra com eles no fogo. A promessa de Isaías de que o fogo não queimaria os que pertencem ao Senhor (Is 43.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ganha corpo aqui e encontra seu cumprimento em Emanuel, o Deus conosco.

O homem vestido de linho

A figura gloriosa de Daniel 10.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) reaparece quase traço por traço na visão de Cristo ressurreto em Apocalipse 1.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): veste, cinto de ouro, olhos como chama, voz como muitas águas. João reconhece em Jesus o mensageiro celestial diante de quem Daniel perdeu as forças, e reage da mesma forma, caindo como morto, até ser tocado e fortalecido (Dn 10.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ressurreição e glória

A promessa de que os que dormem no pó despertarão (Dn 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é retomada por Jesus quando anuncia que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão, uns para a ressurreição da vida, outros para a do juízo (Jo 5.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os justos que brilharão como o sol no Reino do Pai (Mt 13.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ecoam os sábios de Dn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). E a ressurreição de Cristo, primícias dos que dormem (1Co 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é o penhor de que a promessa final feita a Daniel se cumprirá.

6. Relação entre Antigo e Novo Testamento

Daniel está ligado de forma explícita a Jeremias: é a leitura dos setenta anos de Jr 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 29 que provoca a oração e a revelação do capítulo 9, um exemplo precioso de profeta que interpreta outro profeta. A oração de Daniel também ecoa as orações penitenciais de Esdras 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Neemias 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e a teologia de Levítico 26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Deuteronômio 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que previam exílio pela infidelidade e restauração pela confissão. Ezequiel menciona um Daniel como modelo de justiça e sabedoria (Ez 14.14, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 28.3); a grafia hebraica é ligeiramente diferente, e há discussão sobre se é o mesmo personagem ou uma figura antiga conhecida da tradição. A história de José, sábio hebreu que interpreta sonhos na corte estrangeira depois que os sábios locais fracassam (Gn 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é o paralelo narrativo mais próximo de Daniel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Entre os dois Testamentos, Daniel foi decisivo para a resistência judaica sob Antíoco. A rededicação do templo em 164 a.C., depois da profanação anunciada em Dn 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 11, deu origem à festa da Dedicação (1Mc 4.52-59), a mesma festa em que Jesus, caminhando no templo, se declara um com o Pai (Jo 10.22-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No Novo Testamento, além do uso de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pelos Evangelhos, Jesus cita a abominação desoladora de que falou o profeta Daniel ao anunciar a destruição de Jerusalém e os sinais do fim (Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 13.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aplicando-a a uma profanação futura, o que mostra que ele via em Daniel um padrão que se repete e se intensifica. Paulo descreve o homem da iniquidade que se exalta sobre tudo o que se chama Deus e se assenta no santuário (2Ts 2.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com linguagem próxima de Dn 11.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Hebreus lembra os que, pela fé, fecharam a boca de leões e apagaram a força do fogo (Hb 11.33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Apocalipse é o grande herdeiro de Daniel. A besta que sobe do mar reúne traços de leopardo, urso e leão e tem dez chifres (Ap 13.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fundindo as quatro feras de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) numa só; os quarenta e dois meses e o "tempo, tempos e metade de um tempo" retomam o período de Dn 7.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 12.7 (Ap 12.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.5); os livros abertos diante do trono (Ap 20.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ecoam Dn 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); o Reino que é entregue ao Senhor e ao seu Cristo (Ap 11.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) cumpre Dn 2.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 7.14. Há um contraste deliberado: Daniel recebe a ordem de selar o livro até o tempo do fim (Dn 12.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); João recebe a ordem de não selar as palavras da profecia, porque o tempo está próximo (Ap 22.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que para Daniel era futuro distante, para a Igreja se tornou presente com a vinda de Cristo.

7. Aplicação Espiritual e Teológica

Daniel oferece um roteiro para viver a fé como minoria. Os jovens hebreus não se trancam num gueto nem se dissolvem na cultura dominante. Estudam, trabalham com excelência, servem a reis pagãos e buscam o bem da cidade, como Jeremias havia orientado os exilados (Jr 29.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas decidem cedo, ainda na juventude, onde estão os limites (Dn 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa decisão antecipada é que os sustenta quando a pressão aumenta. A lição vale para o profissional cristão num ambiente competitivo, para o estudante num meio hostil à fé, para qualquer pessoa cuja integridade é testada em pequenas concessões antes de ser testada em grandes.

O livro também ensina que a fidelidade não é negociada pelo resultado. A resposta dos três amigos, dizendo que Deus pode livrá-los e que, mesmo que não o faça, não se curvarão, é uma das expressões mais maduras de fé nas Escrituras. Não é fé no livramento; é fé em Deus. Quem segue a Cristo aprende a mesma coisa na cruz: a obediência do Filho não foi recompensada com a fuga da morte, mas com a ressurreição do outro lado dela.

Daniel desafia ainda a vida de oração. O costume de orar três vezes ao dia não surge no dia do decreto; já existia, e por isso o decreto não o altera (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hábitos espirituais formados em tempos tranquilos são o que resta de pé em tempos de crise. E a oração do capítulo 9 ensina que a esperança bíblica não gera passividade: quem entende as promessas de Deus ora mais, confessa mais e se identifica com os pecados do seu povo em vez de se colocar acima deles.

Para quem exerce poder, o livro é uma advertência sóbria. Nabucodonosor perdeu a razão no momento exato em que atribuiu a si mesmo a grandeza da Babilônia, e Belsazar foi pesado e achado em falta no meio da festa. Toda autoridade, numa empresa, num governo, numa família ou numa igreja, é delegada e será pesada. O conselho de Daniel ao rei continua atual: romper com o pecado praticando a justiça e sendo misericordioso com os pobres (Dn 4.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por fim, Daniel devolve perspectiva a quem sofre. As feras são assustadoras, os chifres falam alto, os santos são perseguidos. Mas a visão muda de cenário e mostra um trono que não foi abalado, um tribunal que se reúne e um Filho do Homem que recebe o Reino. A história não está sem direção. O último versículo do livro é pessoal: Daniel não entende todos os números, mas recebe a promessa de descansar e levantar-se para a sua herança. É o que o livro oferece a cada crente: nem sempre a explicação do calendário, sempre a certeza do desfecho.

A mensagem de Daniel, à luz de Cristo, pode ser resumida assim: os reinos deste mundo passam, pesados na balança de Deus; o Reino do Filho do Homem, que venceu a morte, permanece para sempre, e os que lhe são fiéis, mesmo na Babilônia, herdarão esse Reino com ele.


Palavra para a caminhada
Daniel ensina que é possível servir com excelência em qualquer Babilônia sem entregar a ela o coração, desde que as decisões de fidelidade sejam tomadas antes da hora da prova. Quando o poder dos homens parecer absoluto e as feras falarem alto, levante os olhos, como Nabucodonosor precisou aprender, e lembre-se de que há um trono acima de todos os tronos. Ore com constância, mesmo quando isso custar caro, e não condicione sua fidelidade ao livramento: o Filho do Homem já recebeu o Reino, e quem caminha com ele descansará e se levantará para a sua herança no fim dos dias.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.