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Eclesiastes · 21 de 66 · Antigo Testamento

Eclesiastes — Capítulo 12

Infográfico de “Eclesiastes 12 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: Lembrar o Criador antes que a luz se apague; A casa que envelhece; O fio que se rompe e o sopro que retorna; O refrão que fecha o círculo; O mestre, os aguilhões e o único Pastor; O fim de tudo o que se ouviu.

Título do capítulo: Lembrar o Criador antes do anoitecer
Gênero literário: Poesia/Sabedoria (o poema final de Qohelet sobre a velhice e a morte, em imagens encadeadas — a luz que escurece, a casa em decadência, a lâmpada e o poço que se quebram —, seguido do refrão que fecha o livro e do epílogo do narrador, em prosa, que avalia a obra de Qohelet e resume o que cabe ao ser humano diante de Deus)
Número de versículos: 14

Nota de precisão: o capítulo conclui o poema iniciado em Ec 11.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e muitos comentaristas leem Ec 11.7–12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como uma unidade. A interpretação dos vv. 2-5 é das mais discutidas do livro: a leitura tradicional vê ali uma alegoria do corpo que envelhece (os braços, as pernas, os dentes, os olhos), mas há quem leia uma descrição literal de uma casa senhorial em decadência ou de um cortejo fúnebre, e quem perceba linguagem do fim do mundo aplicada à morte de cada pessoa; as identificações da leitura alegórica são antigas, mas nenhuma é segura. No v. 1, a palavra traduzida por "Criador" tem uma forma plural no hebraico, e há propostas de leitura alternativa. No v. 5, o fruto mencionado é provavelmente a alcaparra, embora o termo seja raro. No v. 11, a identidade do "um só Pastor" e o sentido exato da expressão que acompanha os aguilhões e os pregos são discutidos. Os vv. 9-14 falam de Qohelet na terceira pessoa, e os estudiosos divergem sobre se o epílogo é do próprio autor ou de um editor posterior. O estudo indica as opções quando pesam no sentido.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Eclesiastes chega ao fim do mesmo modo como começou: com uma voz que fala de Qohelet na terceira pessoa. Qohelet — "o que reúne", "o que fala à assembleia", de qahal — é o título do sábio cujas palavras ocupam quase todo o livro; a antiga tradução grega o chamou Ekklēsiastēs, e daí vem o nome português. A tradição o identificou com Salomão, o filho de Davi que reinou em Jerusalém (Ec 1.1, 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); muitos estudiosos, notando o hebraico tardio e o fato de que o nome de Salomão nunca aparece, entendem a figura do rei como uma persona literária. A questão continua em debate, e não é preciso resolvê-la para ouvir o livro.

O vocabulário de Eclesiastes é reconhecível. Hevel — vapor, sopro, bafo que some no ar — é a palavra-chave, e pode significar o fugaz, o inapreensível, o enigmático e, às vezes, o inútil; "vaidade", a tradução corrente em português, guarda só uma parte desse leque. "Debaixo do sol" é o horizonte da observação: a vida vista do chão. E, de tempos em tempos, volta o convite a comer, beber e alegrar-se como porção dada por Deus (Ec 2.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.18-20; 9.7-10), junto com a reverência a Deus (Ec 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.7; 8.12-13). No cânon, o livro é o contrapeso honesto de Provérbios: a sabedoria vale mais do que a loucura, mas o mundo não é uma máquina de recompensas.

O capítulo 12 tem duas partes muito diferentes. Os vv. 1-7 são o clímax poético do livro, o fim do poema começado em Ec 11.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): depois do convite à alegria da juventude, vem a lembrança do Criador e a descrição, em imagens densas, da velhice e da morte. Os vv. 8-14 são o fecho do livro inteiro. O v. 8 repete, quase igual, o lema de Ec 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), formando uma moldura. E os vv. 9-14, em prosa, avaliam a obra de Qohelet e concluem com a reverência, a obediência e o juízo.

O mundo das imagens é o de uma casa antiga: o moinho de pedra em que as mulheres moíam o grão todos os dias, sinal de vida doméstica (Ex 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); as janelas estreitas com treliças; as lâmpadas de óleo; os poços com roda ou polia; e, nos enterros, as carpideiras que percorriam as ruas (Jr 9.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 5.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A velhice, no antigo Oriente, era ao mesmo tempo honrada e temida. A Lei mandava levantar-se diante dos cabelos brancos (Lv 19.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Provérbios chama a cabeça grisalha de coroa (Pv 16.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a Escritura não esconde as perdas da idade: os olhos de Isaque escureceram (Gn 27.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Davi, já velho, não se aquecia (1Rs 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Barzilai, aos oitenta anos, recusou o convite do rei dizendo que já não distinguia sabores nem ouvia as vozes dos cantores e das cantoras (2Sm 19.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — confissão próxima das imagens do v. 4. Um texto egípcio antigo, a Instrução de Ptahhotep, abre com um lamento parecido sobre os olhos fracos, os ouvidos surdos e o corpo cansado do ancião.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O capítulo abre com um apelo ao jovem: que ele traga à memória o seu Criador enquanto ainda está na mocidade, antes que cheguem os anos difíceis, aqueles em que se confessa não ter mais gosto pela vida (v. 1). E isso antes que os astros percam o brilho e as nuvens tornem a fechar o céu logo depois da chuva (v. 2).

Segue a descrição da velhice com imagens de uma casa: guardas que tremem, homens robustos que se dobram, mulheres do moinho que interrompem o trabalho por terem ficado poucas, e as que espiavam pelas janelas agora na penumbra (v. 3). As portas que dão para a rua se fecham, o ruído do moinho diminui, a pessoa desperta com o primeiro pio de pássaro, e as vozes do canto se enfraquecem (v. 4). Os lugares altos passam a dar medo e o caminho se enche de sustos; a amendoeira floresce, o gafanhoto se arrasta, o apetite se perde — porque o ser humano está a caminho da sua morada de sempre, e os que choram os mortos já rondam pelas ruas (v. 5).

O poema termina com quatro imagens de ruptura, em dois pares: uma lâmpada que cai quando o seu cordão de prata se solta e a sua bacia de ouro se parte, e um poço cuja jarra se espatifa e cuja roda se desmancha (v. 6). O corpo se desfaz e retorna ao chão de que foi feito, e o alento regressa a Deus, de quem veio (v. 7).

O refrão do começo do livro retorna: tudo é um sopro, o sopro mais fugaz que há, diz Qohelet; tudo passa (v. 8).

O narrador então fala de Qohelet. Além de sábio, ele ensinou o povo, examinou, pesquisou e organizou muitos provérbios (v. 9). Procurou palavras que agradassem e escreveu com retidão palavras verdadeiras (v. 10). Os ditos dos sábios são comparados aos ferrões que tocam o gado e a pregos firmemente cravados, e o narrador diz que vêm de um único Pastor (v. 11). Ao filho, ele adverte contra ir além disso: escrever livros não tem fim, e o estudo sem medida esgota o corpo (v. 12). Ouvido tudo, o narrador resume a questão na reverência a Deus e na obediência às suas ordens, que definem a vocação de todo ser humano (v. 13), porque nenhuma ação, nem a mais secreta, boa ou má, escapará do juízo de Deus (v. 14).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-2 — Lembrar o Criador antes que a luz se apague
O v. 1 começa com um imperativo que retoma o "lembra-te" de Ec 11.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Zakhar, no hebraico bíblico, é mais do que recordar: é trazer à mente para agir, viver em lealdade a alguém. Israel era chamado a lembrar o Senhor que lhe dava forças (Dt 8.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, o objeto da lembrança é bor'eykha, "o teu Criador", particípio do verbo bara', o mesmo de Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A forma é plural no hebraico, o que muitos explicam como plural de majestade; outros propuseram ler uma palavra de som parecido, bor (cova) ou be'er (poço, fonte). Uma antiga leitura rabínica brincou justamente com essa semelhança: lembra-te da fonte de onde vieste, da cova para onde vais e do Criador diante de quem prestarás contas. A leitura "o teu Criador" é a mais simples e combina com o v. 7.

O tempo da lembrança é a mocidade (beḥurot), e o v. 1 o contrapõe a dois limites marcados pela expressão "antes que" ('ad 'asher lo'), que vai se repetir nos vv. 2 e 6 e estrutura o poema. O primeiro limite são os "dias maus" (yemê hara'ah), os anos em que a pessoa diz não ter mais ḥefets, prazer, gosto, interesse. São os dias difíceis, não os de pecado.

O v. 2 traduz essa velhice em linguagem cósmica: sol, luz, lua e estrelas perdem o brilho, e as nuvens regressam quando a chuva mal passou. A primeira imagem lembra a linguagem que os profetas usavam para o dia do Senhor, quando os astros perdem o brilho (Is 13.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aplicada ao indivíduo, ela sugere que a morte de cada pessoa é o fim de um mundo. A segunda imagem é tirada do inverno palestino: depois da chuva, em vez do céu limpo, as nuvens voltam. Na juventude, a tempestade passa e o sol reaparece; na velhice, uma dor sucede a outra sem trégua. A luz que, em Ec 11.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), era doce, agora escurece.

Versículos 3-5 — A casa que envelhece
O v. 3 começa com "no dia em que" e abre uma sequência de imagens tiradas de uma casa grande. Os guardas da casa (shomrê habbayit) tremem; os homens de força ('anshê haḥayil) se curvam; as que moem (haṭṭoḥanot) param por serem poucas; e as que olham pelas janelas (haro'ot ba'arubbot) se escurecem. A leitura alegórica tradicional, presente já em antigos comentários judaicos e cristãos, vê aqui o corpo: os braços e as mãos que tremem, as pernas que se curvam, os dentes que vão faltando e já não mastigam, os olhos que perdem a visão.

Mas o texto também pode ser lido literalmente, como o retrato de uma casa senhorial em decadência ou em luto: os servos tremem, os homens fortes se abatem, as servas que moem o grão param, as senhoras que espiam pelas treliças ficam na sombra. Alguns intérpretes modernos, entre eles Michael V. Fox, propõem que o poema descreve uma cena de funeral, em que a casa inteira se abala diante da morte. As duas leituras não precisam se excluir: o poema parece mover-se entre a casa real e o corpo como casa.

O v. 4 continua. As portas que dão para a rua (delatayim bashuq) se fecham; o ruído do moinho (qol haṭṭaḥanah) diminui; a pessoa se levanta com a voz do pássaro (qol hatsippor); e todas as filhas do canto (benot hashir) se abatem. Na leitura alegórica, as portas fechadas seriam os ouvidos ou os lábios, o moinho silencioso seria a mastigação enfraquecida, o despertar com o pássaro seria o sono leve dos idosos, que acordam ao primeiro pio, e as filhas do canto seriam a voz e a audição que se apagam.

O v. 5 acumula imagens. Há medo das alturas e sustos no caminho: a pessoa já não sobe ladeiras com confiança e teme cair na rua. A amendoeira floresce (yanets hashaqed): a flor da amendoeira, que se abre no fim do inverno, é branca, e a imagem é lida desde a antiguidade como os cabelos brancos. O gafanhoto se arrasta, ou se torna pesado (yistabbel heḥagav): o andar lento e rígido, ou a pessoa para quem até um gafanhoto pesa. E a alcaparra (ha'aviyonah) já não produz efeito: o fruto, conhecido no mundo antigo como estimulante do apetite e talvez do desejo, perde o poder. O apetite e a vitalidade se vão.

O versículo termina explicando tudo isso: porque o ser humano vai para a sua casa eterna (bêt 'olamo), e os que choram (hassofdim) rodeiam pela rua. "Casa eterna" é uma expressão antiga para o túmulo, usada também fora de Israel. A ironia é dolorosa: o poema começou com uma casa viva, cheia de guardas, servas e cantoras, e termina com a casa definitiva, a sepultura. Nas ruas, as carpideiras já se preparam. Qohelet descreve a velhice sem eufemismo e sem desprezo, com ternura na precisão.

Versículos 6-7 — O fio que se rompe e o sopro que retorna
O v. 6 retoma o "antes que" dos vv. 1-2 e o liga a quatro imagens de ruptura, organizadas em dois pares. O primeiro par: o cordão de prata (ḥevel hakkesef) se rompe, e a taça de ouro (gullat hazzahav) se quebra. A imagem mais provável é a de uma lâmpada de óleo, com uma bacia de ouro suspensa por um cordão de prata; quando o cordão se solta, a lâmpada cai, se parte, e a luz se apaga. O ouvido hebraico talvez percebesse a proximidade de som entre ḥevel, o cordão, e hevel, o sopro do livro inteiro. O segundo par: o cântaro (kad) se despedaça junto à fonte, e a roda (galgal) se parte sobre o poço (bor). A água deixa de ser tirada. Luz e água, as duas imagens mais elementares da vida, se perdem.

Os materiais são preciosos: prata e ouro. A vida que se quebra não é coisa barata. Qohelet não diz que a vida é hevel porque não vale nada; diz que é hevel porque é preciosa e frágil ao mesmo tempo.

O v. 7 é a conclusão do poema e uma das frases mais densas do livro. O pó (he'afar) retorna ao chão, à condição de antes, e o ruaḥ retorna ao Deus que o concedera. A primeira metade ecoa Gn 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a sentença dada a Adão: ele voltaria ao chão de onde fora tomado. A segunda ecoa Gn 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus forma o homem do pó e lhe sopra nas narinas o fôlego de vida (ali a palavra é neshamah; aqui, ruaḥ, mas o sentido é próximo). O Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz que, quando Deus retira o sopro das criaturas, elas morrem e voltam ao pó, e, quando ele envia o seu sopro, elas são criadas (Sl 104.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó fala do mesmo modo (Jó 34.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O versículo dialoga com Ec 3.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Qohelet perguntava quem sabe se o alento do ser humano sobe e o do animal desce à terra. Aqui ele não desenvolve uma doutrina da vida após a morte, mas afirma uma pertença: o alento não se perde no nada. Qohelet não diz o que acontece depois, mas diz para onde o sopro vai.

Versículo 8 — O refrão que fecha o círculo
O v. 8 repete, quase palavra por palavra, o lema de Ec 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): hevel havalim, diz Qohelet, tudo é hevel. A construção "sopro de sopros" é um superlativo hebraico, como "santo dos santos" ou "cântico dos cânticos": o sopro mais fugaz, a névoa mais completa. Aqui o nome Qohelet vem com artigo no hebraico, o que reforça que se trata de um título.

A repetição forma uma inclusio, uma moldura: o livro começa e termina com a mesma afirmação. Mas o leitor chega ao v. 8 depois de ouvir o poema da velhice e da morte, e agora o sentido de fugacidade é palpável. O refrão não é um grito de desespero, mas o diagnóstico sóbrio de quem olhou a vida de frente.

Versículos 9-12 — O mestre, os aguilhões e o único Pastor
Com o v. 9, a voz muda. Até aqui, com exceção de Ec 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Ec 7.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quem falava era Qohelet. Agora alguém fala sobre ele. O epílogo começa com "além disso" (weyoter): além de ser sábio, Qohelet ensinou conhecimento ao povo (limmad-da'at 'et-ha'am). Ele não guardou a sabedoria para si. Três verbos descrevem o seu método: 'izzen, que pode significar pesar, ponderar (de 'ozen, ouvido, como quem escuta com atenção); ḥiqqer, investigar a fundo; e tiqqen, ordenar, pôr em forma. Este último é o mesmo verbo de Ec 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Ec 7.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Qohelet constata que ninguém consegue endireitar o que é torto. Há uma ironia fina: ele não conseguiu endireitar o mundo, mas soube pôr em ordem os provérbios.

O v. 10 descreve o cuidado com a forma e com o conteúdo. Qohelet procurou palavras de prazer (divrê-ḥefets), palavras que agradassem, bem escolhidas, e escreveu com retidão (yosher) palavras de verdade ('emet). A beleza e a verdade andam juntas.

O v. 11 traz duas imagens. As palavras dos sábios são como aguilhões (dorvonot), as varas pontiagudas com que o lavrador tocava os bois (1Sm 13.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Elas ferem, incomodam, empurram para frente. E são como pregos bem cravados (masmerot netu'im): dão firmeza, fixam, sustentam. A expressão seguinte, ba'alê 'asuppot, é ambígua: pode designar os mestres das coleções, os que reúnem os ditos, ou as próprias coleções de ditos. O sentido geral se mantém: a sabedoria provoca e firma. A última frase é a mais significativa: elas foram dadas por um só Pastor (mero'eh 'eḥad). A maioria dos intérpretes vê aqui Deus, o Pastor de Israel (Gn 49.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 23.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 80.1). Outros pensam em Salomão ou num mestre humano. O epílogo afirma que as palavras dos sábios, inclusive as de Qohelet, com todo o seu desconforto, vêm em última instância de Deus.

O v. 12 adverte. "Além disso, meu filho" — a fórmula de Provérbios, do mestre ao discípulo (Pv 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.1) — "fica avisado". A produção de livros não tem termo, e o estudo sem medida (lahag, palavra que só aparece aqui) cansa o corpo. Não é uma condenação do estudo, que o próprio Qohelet praticou. É uma advertência contra o excesso, contra a busca infinita de mais saber que nunca chega a uma conclusão.

Versículos 13-14 — O fim de tudo o que se ouviu
O v. 13 abre com sof davar: o fim da questão, a conclusão. "Tudo foi ouvido" (hakkol nishma'). Depois de doze capítulos, o narrador resume. A reverência a Deus vem em primeiro lugar, com o verbo yera', "temer", que na Escritura indica a reverência obediente de quem reconhece a grandeza de Deus. Junto vem a obediência aos seus mandamentos (mitsvotav shemor). E a razão: porque isso é kol-ha'adam, literalmente "todo o ser humano". A expressão pode ser entendida como "o dever de todo ser humano", "o que cabe a todo ser humano", ou mesmo "isso é o que faz de alguém plenamente humano".

O temor de Deus não é novidade no fim do livro. Qohelet já o recomendara (Ec 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.7; 7.18; 8.12-13). O que o epílogo acrescenta é a menção explícita aos mandamentos, que liga a sabedoria de Qohelet à Lei de Israel, como fizera Deuteronômio (Dt 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.12-13).

O v. 14 dá a razão final: toda obra será levada por Deus ao juízo (bammishpat), inclusive tudo o que estiver oculto (kol-ne'lam), bom ou mau. O livro inteiro reclamou da injustiça debaixo do sol: o justo que perece, o ímpio que prospera, a corrupção nos tribunais (Ec 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.15; 8.14). Qohelet já afirmara que Deus julgará o justo e o ímpio (Ec 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.9). A vida debaixo do sol pode parecer hevel, mas não é indiferente aos olhos de Deus.

Na tradição judaica de leitura pública, costuma-se repetir o v. 13 depois do v. 14, para que o livro não termine com a palavra "mau". Mas o juízo, aqui, não é ameaça vazia: é a garantia de que a vida tem sentido e de que a história terá uma palavra final justa.


✨ 4. Versículos-Chave

Ec 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O chamado a lembrar o Criador nos dias da mocidade, antes que cheguem os anos sem gosto, é um dos versículos mais conhecidos do livro. Ele une a teologia da criação (Deus como bore', Criador) à urgência do tempo. A lembrança de que fala não é saudade nem memória vaga, mas fidelidade prática.

Ec 12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O corpo se desfaz no chão e o alento retorna a Deus, de quem veio. O versículo liga o fim do livro ao começo da Bíblia (Gn 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.19) e responde, em parte, à pergunta de Ec 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ele não desenvolve uma doutrina completa da vida após a morte, mas afirma que a vida humana vem de Deus e a ele retorna. O Novo Testamento, ao narrar a morte de Jesus, mostra-o confiando o seu espírito ao Pai (Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Estêvão, ao morrer, confia o seu ao Senhor Jesus (At 7.59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ec 12.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As palavras dos sábios são como aguilhões e pregos firmes, e vêm de um só Pastor. A Palavra fere para conduzir e firma para sustentar. Quando Cristo ressuscitado apareceu a Saulo no caminho de Damasco, falou dos aguilhões contra os quais ele resistia (At 26.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Novo Testamento apresenta Jesus como o bom Pastor (Jo 10.11, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o grande Pastor das ovelhas (Hb 13.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o Supremo Pastor (1Pe 5.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ec 12.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A conclusão do livro une a reverência e a obediência, vocação de todo ser humano, à certeza de que nenhuma obra, nem a oculta, ficará fora do juízo de Deus. Os dois versículos dão a última palavra sobre tudo o que Qohelet viu. Paulo dirá que Deus julgará o que está oculto nos homens por meio de Cristo Jesus (Rm 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que todos teremos de nos apresentar diante do tribunal de Cristo (2Co 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

Lembrar o Criador. O capítulo começa com um imperativo de memória. A memória, na Bíblia, é a base da fidelidade: Israel caía quando esquecia o Senhor (Dt 8.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jz 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para o jovem, lembrar o Criador é orientar a vida inteira a partir dele, antes que o tempo e as perdas o façam esquecer. O Novo Testamento traz a mesma exortação em forma cristológica: Paulo pede a Timóteo que guarde na memória o Cristo ressuscitado (2Tm 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus, na última ceia, deu o pão e o cálice como memorial de si mesmo (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A velhice e a morte sem disfarces. O poema dos vv. 2-7 é das descrições mais honestas da velhice em toda a literatura. A Escritura não esconde a morte, nem a trata como uma ilusão. Ela é o inimigo derradeiro a ser vencido (1Co 15.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a consequência do pecado (Rm 5.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ao mesmo tempo a passagem pela qual o alento volta para Deus. A fé bíblica não pede que se negue a dor da velhice nem o luto; pede que se encare a morte com verdade e com esperança. Deus promete carregar o seu povo até a velhice e os cabelos brancos (Is 46.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A Palavra que fere e que firma. As palavras dos sábios são aguilhões e pregos, vêm de um só Pastor e devem ser recebidas com seriedade, sem o excesso de quem nunca chega a uma conclusão. As palavras de Eclesiastes incomodam de propósito, e firmam o leitor na reverência a Deus. A Escritura toda tem esse caráter: forma e corrige quem a recebe (2Tm 3.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e alcança o íntimo (Hb 4.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O temor de Deus, a obediência e o juízo. A conclusão do livro não é a fuga do mundo nem a busca do prazer, mas a reverência, a obediência e a certeza do juízo. Isso não contradiz o refrão da alegria; completa-o. A alegria que Qohelet recomenda é vivida diante de Deus, e a vida inteira será avaliada por ele. O juízo final é, na Bíblia, motivo de temor, mas também de esperança: as injustiças que Qohelet viu debaixo do sol não ficarão sem resposta. O Novo Testamento afirma que esse juízo foi confiado ao Filho (Jo 5.22, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Eclesiastes 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fecha o livro olhando para o começo da Bíblia. O pó que volta à terra (v. 7) é a sentença de Gn 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); o alento que volta a Deus é o sopro de Gn 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O capítulo está, assim, entre a Criação e a Queda: o ser humano é criatura de Deus, recebeu dele a vida, e por causa do pecado está sujeito à morte. Paulo descreve a mesma condição ao dizer que a criação inteira foi submetida à mataiotēs — a palavra com que a antiga tradução grega verteu hevel em Eclesiastes, inclusive no refrão do v. 8 —, não por sua vontade, mas na esperança de ser libertada da corrupção e de participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus (Rm 8.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O capítulo também olha para a frente. O juízo do v. 14 aponta para a consumação da história, quando Deus porá tudo em ordem. E a Redenção em Cristo oferece a resposta que Qohelet não podia dar: a ressurreição. A Nova Criação promete o fim da morte e do luto (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a casa eterna deixará de ser o túmulo para ser o lugar onde Deus habita com o seu povo (Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O Criador lembrado tem um rosto

O v. 1 chama a lembrar o Criador. O Novo Testamento ensina que o Criador se fez conhecer plenamente em Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas foram feitas (Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lembrar o Criador, para o cristão, é lembrar aquele que assumiu a nossa humanidade e que, na véspera da sua morte, deu aos discípulos uma forma concreta de memória: o pão e o cálice, repetidos em sua lembrança (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Ceia do Senhor é, nesse sentido, a resposta cristã a Ec 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o Criador lembrado é também o Redentor que morreu e ressuscitou.

Paulo reforça isso ao pedir a Timóteo, um jovem, que guarde na memória o Cristo ressuscitado, da linhagem de Davi (2Tm 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A menção a Davi ecoa o título de Qohelet, "filho de Davi" (Ec 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O filho de Davi de Eclesiastes viu tudo debaixo do sol e concluiu que tudo é hevel. O Filho de Davi do evangelho venceu o hevel ao ressuscitar. Jesus mesmo afirmou que, nele, estava presente alguém que supera Salomão (Mt 12.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.3 — Cristo entrou no sopro e na morte

O poema dos vv. 2-7 descreve a velhice e a morte com uma precisão que pode assustar. O evangelho responde com uma pessoa: o Filho de Deus entrou na condição humana, com tudo o que ela tem de frágil. Ele não chegou à velhice: morreu ainda na força da idade. Mas experimentou a fadiga, a dor, a angústia diante da morte (Mc 14.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a própria morte. Hebreus explica por quê: ele assumiu a nossa natureza para desarmar, com a própria morte, o senhor da morte, e soltar os que passavam a vida presos ao pavor de morrer (Hb 2.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na cruz, Jesus fez o que Ec 12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve: confiou ao Pai o seu espírito (Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o seu corpo não voltou ao pó. Pedro, no Pentecostes, aplicou a Cristo a promessa do salmo de que o fiel de Deus não seria entregue à decomposição (At 2.27, 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 16.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo fez o mesmo em Antioquia da Pisídia (At 13.34-37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ciclo do pó que volta à terra foi rompido pela primeira vez. A ressurreição de Cristo é a primícia de uma colheita: assim como ele ressuscitou, os que estão nele ressuscitarão (1Co 15.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Isso responde ao "quem sabe?" de Ec 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Qohelet não sabia o que acontecia depois da morte; o evangelho anuncia que Cristo voltou dos mortos e prometeu que os seus estarão com ele. A casa eterna (v. 5), que para Qohelet era a sepultura, tornou-se, nas palavras de Jesus, a casa do Pai, com lugar para muitos, que ele mesmo foi preparar (Jo 14.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo compara o corpo atual a uma tenda provisória e promete, para quando ela for desmontada, uma morada duradoura preparada por Deus (2Co 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A casa que envelhece (vv. 3-4) não é a última casa.

É preciso dizer isso com sensibilidade pastoral. A esperança da ressurreição não apaga a dor da velhice nem o luto. Jesus derramou lágrimas junto ao túmulo de Lázaro (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mesmo sabendo que o ressuscitaria. O cristão pode chorar as perdas da idade e a morte de quem ama, sem vergonha. Mas chora como quem tem esperança (1Ts 4.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E pode envelhecer sabendo que, enquanto o corpo se desgasta, o interior é refeito a cada dia (2Co 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Cristo dará ao corpo frágil uma forma semelhante à do seu corpo ressurreto (Fp 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.4 — O único Pastor e as palavras que ferem e firmam

O v. 11 diz que as palavras dos sábios vêm de um só Pastor. No contexto original, o Pastor é muito provavelmente o próprio Deus, o Pastor de Israel (Sl 23.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 80.1). Mas a mesma expressão, ro'eh 'eḥad, aparece em Ezequiel, numa promessa messiânica: Deus promete pôr sobre as suas ovelhas um pastor único, ligado à figura de Davi, seu servo (Ez 34.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 37.24). E Jesus se apresentou como o bom Pastor, que entrega a vida pelas ovelhas e as reúne num único rebanho sob a sua guarda (Jo 10.11, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A leitura cristológica de Ec 12.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é a intenção primeira do texto, e deve ser feita com cautela. Mas há uma convergência canônica legítima: o Deus que, como Pastor, deu as palavras dos sábios é o mesmo que, no fim dos tempos, falou por meio do Filho (Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo é o Pastor que conduz com a palavra. E a imagem dos aguilhões aparece de modo notável na conversão de Paulo: o Cristo ressuscitado advertiu Saulo de que ele só se feria ao resistir ao aguilhão (At 26.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras de Eclesiastes, tão incômodas, são parte desse cuidado pastoral.

6.5 — O Evangelho no capítulo

O livro termina com a reverência a Deus, a obediência aos mandamentos e o juízo sobre toda obra. Para um leitor honesto, isso é ao mesmo tempo uma conclusão e um problema. Quem reverenciou a Deus perfeitamente? Quem guardou todos os seus mandamentos? Qohelet mesmo reconhecera que nenhum ser humano, por mais justo, deixa de pecar (Ec 7.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo retoma essa ideia ao mostrar que todos estão debaixo do pecado (Rm 3.10-12, 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se Deus trará a juízo toda obra, inclusive as escondidas, ninguém pode ficar de pé.

O evangelho anuncia que houve um homem que fez exatamente o que Ec 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pede. Jesus viveu em reverência perfeita ao Pai (Hb 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e guardou os seus mandamentos (Jo 15.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é, no sentido mais pleno, kol-ha'adam: o ser humano completo, o que Deus quis que o ser humano fosse. E esse homem tomou sobre si o juízo que os outros mereciam (Is 53.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juízo do v. 14 continua real, e Deus o exercerá por meio de Cristo Jesus (Rm 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas, para os que estão em Cristo, o Juiz é também aquele que já carregou a condenação deles (Rm 8.1, 33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E o hevel do v. 8? Paulo, no grande capítulo sobre a ressurreição, diz que, se Cristo não ressuscitou, a fé é mataia (1Co 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a palavra que corresponde ao hevel de Eclesiastes. Mas Cristo ressuscitou. Por isso, Paulo conclui o mesmo capítulo dizendo que o trabalho no Senhor não é vazio (1Co 15.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tudo o que Qohelet viu ser sopro debaixo do sol ganha, em Cristo, um sentido que o sol não alcança. O trabalho, a alegria, a juventude, a velhice e a morte deixam de ser hevel quando vividos no Senhor ressuscitado.

Pregar Ec 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é levar o ouvinte a olhar a morte de frente e a lembrar o Criador que se fez homem, morreu e ressuscitou: o jovem, enquanto há tempo; o idoso, enquanto a casa envelhece. Para quem está em Cristo, a última palavra não é o juízo, mas a vida.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Visão de conjunto: o livro de Eclesiastes

Com o capítulo 12, Eclesiastes termina, e vale olhar para o livro como um todo.

A moldura e a voz. O livro tem duas vozes. A de Qohelet, que fala em primeira pessoa quase o tempo todo, relatando o que viu, testou e concluiu. E a do narrador, que aparece no começo (Ec 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), uma vez no meio (Ec 7.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e no fim (Ec 12.8-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), apresentando Qohelet e avaliando a sua obra. Alguns estudiosos entendem que essa moldura é obra de um editor posterior, que quis tornar o livro aceitável; outros, que é parte da própria estratégia do autor, que fala por meio de uma personagem e depois a coloca em perspectiva. Em qualquer caso, o livro canônico inclui as duas vozes, e o leitor deve ouvi-las juntas.

A arquitetura. Uma divisão possível, entre várias propostas, é esta: o prólogo, com o lema e o poema sobre o ciclo da natureza (Ec 1.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a experiência do rei, que busca sentido na sabedoria, no prazer e nas obras (Ec 1.12–2.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a reflexão sobre o tempo, o trabalho, a injustiça e a riqueza (Ec 3.1–6.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); conselhos sapienciais e reflexões sobre os limites da sabedoria e a incerteza do futuro (Ec 7.1–11.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o poema final sobre a juventude, a velhice e a morte (Ec 11.7–12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e o epílogo (Ec 12.8-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O livro não segue uma lógica linear; avança em espiral, voltando aos mesmos temas com novos ângulos.

Os grandes temas. O hevel de tudo debaixo do sol; a busca de um proveito duradouro que o esforço humano não garante; a morte, que iguala sábios e tolos, ricos e pobres, pessoas e animais; a ignorância humana sobre o futuro e sobre a obra de Deus; a injustiça que não se corrige; o tempo, que tem a sua hora para cada coisa e não está nas mãos humanas (Ec 3.1-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, ao lado disso, o refrão da alegria, que recomenda receber como dom de Deus o pão, o vinho, o trabalho e o amor; e a reverência a Deus, que permeia o livro e o conclui.

Como ler Eclesiastes. O livro já foi lido como obra de um cético, de um pregador da alegria e de um crítico da sabedoria tradicional, corrigido pelo epílogo. A leitura mais fiel talvez seja a que mantém a tensão: Eclesiastes é honesto sobre a fragilidade da vida e os limites da sabedoria, e ao mesmo tempo confia em Deus, reconhece os seus dons e chama à reverência. Ao lado de Jó, ensina que há perguntas que a sabedoria humana não responde.

Eclesiastes na história. Na tradição judaica, o livro é um dos cinco rolos (Megillot), lido em muitas comunidades na Festa dos Tabernáculos; a Mishná registra uma discussão antiga sobre o seu lugar entre as Escrituras, e a aceitação prevaleceu. Entre os cristãos, Jerônimo escreveu um comentário sobre o livro, e Gregório de Nissa dedicou-lhe homilias. Durante séculos, Eclesiastes foi lido como um convite ao desprezo do mundo; outros intérpretes, entre eles Lutero, insistiram que o livro não condena as coisas criadas, mas ensina a usá-las com alegria e sem ansiedade, confiando a Deus o futuro.

Eclesiastes no Novo Testamento. O Novo Testamento não cita o livro de forma explícita, mas há ecos. A constatação de que ninguém está livre do pecado (Ec 7.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ressoa em Rm 3.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A mataiotēs a que a criação foi submetida (Rm 8.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é a palavra grega de hevel. Jesus, ao falar do vento de rumo ignorado (Jo 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ecoa Ec 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); e, ao dizer que nenhuma roupa de Salomão, no auge do esplendor, se compara às flores do campo (Mt 6.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), relativiza as riquezas como o livro faz. Tiago compara a vida a um vapor passageiro (Tg 4.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Cristo e o livro. A leitura cristã de Eclesiastes não transforma Qohelet em profeta de Cristo. Reconhece, porém, que o livro deixa perguntas abertas que só o evangelho responde. O que resta ao ser humano se tudo é hevel? Cristo, que entrou no sopro da vida humana, assumiu a sua fragilidade e a encheu de sentido. Quem sabe o que acontece depois da morte? Cristo, que voltou dos mortos. O que fazer com a injustiça que não se corrige? Cristo, o Juiz que porá cada coisa no lugar. Onde está o proveito do trabalho? No Senhor, em quem o trabalho não é vazio. Jesus se apresentou como alguém que excede Salomão em sabedoria (Mt 12.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Novo Testamento o anuncia como a sabedoria de Deus (1Co 1.24, 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem lê Eclesiastes à luz de Cristo não perde a honestidade do livro; ganha a esperança que o livro não podia dar.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Lembre-se do Criador agora. O v. 1 fala diretamente aos jovens, mas serve a todos. Muitos adiam a vida com Deus para quando tiverem mais tempo; o texto adverte que os dias difíceis virão. Lembrar o Criador, para o cristão, é viver a partir de Cristo hoje: na leitura da Palavra, na oração, na Ceia, nas decisões cotidianas.

Honre e cuide dos idosos. O poema dos vv. 2-5 descreve as perdas da velhice com ternura. Ele convida a olhar os idosos com compaixão e respeito: as mãos que tremem, as pernas que se curvam, os ouvidos que já não ouvem bem. A Lei mandava levantar-se diante dos cabelos brancos (Lv 19.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo pede que se trate o idoso como pai e a idosa como mãe (1Tm 5.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A igreja de Cristo deve ser um lugar onde os velhos são honrados, ouvidos e cuidados.

Envelheça com esperança. Para quem já vive os dias descritos nos vv. 2-5, o capítulo não oferece uma consolação barata. Reconhece as perdas. Mas o evangelho acrescenta uma esperança que Qohelet não conhecia: o Cristo que ressuscitou promete um corpo novo, e o Espírito renova por dentro enquanto o corpo se desgasta. O idoso cristão pode lamentar as perdas sem amargura, e esperar com confiança a casa que não envelhece.

Encare a morte com verdade. Nossa cultura esconde a morte: nos hospitais, nos eufemismos, na correria. Eclesiastes a encara de frente. Quem se lembra de que a vida é breve vive com mais gratidão e mais amor. O cristão pode falar da morte sem medo, porque ela foi vencida. E pode acompanhar os que estão morrendo e os que estão de luto com presença, verdade e esperança.

Receba a Palavra como aguilhão e prego, e viva diante de Deus. O v. 11 diz que as palavras dos sábios ferem e firmam. Numa época de excesso de informação, em que se consome conteúdo sem fim (v. 12), o cristão é chamado a receber a Escritura como palavra do Pastor: deixar que ela incomode, corrija e sustente. E a conclusão do livro (vv. 13-14) pede uma vida de reverência, obediência e consciência de que tudo será avaliado. Em Cristo, essa vida não nasce do medo, mas da gratidão de quem foi acolhido pelo Juiz que carregou o juízo.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. O v. 1 chama a lembrar o Criador nos dias da mocidade. O que significa "lembrar", no sentido bíblico? Como isso se aplica à sua fase de vida, seja ela qual for?
  2. O poema dos vv. 2-5 pode ser lido como uma alegoria do corpo que envelhece ou como a descrição de uma casa em luto. Que imagens mais o tocaram? O que elas ensinam sobre a fragilidade humana?
  3. O v. 7 descreve o destino do pó e o do alento. Compare com Gn 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Gn 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e At 2.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Como a ressurreição de Cristo muda o sentido desse versículo?
  4. O v. 11 compara as palavras dos sábios a aguilhões e pregos. Em que momento a Palavra de Deus o incomodou e o conduziu? Em que momento ela o firmou?
  5. A conclusão do livro (vv. 13-14) fala de reverência, obediência e juízo. Como o evangelho — Cristo, que obedeceu perfeitamente e carregou o juízo — transforma a maneira de receber essa conclusão?
  6. Para meditação e oração: pense em uma pessoa idosa que você conhece e ore por ela. Depois, entregue a Deus os seus próprios anos, os que já passaram e os que virão, e agradeça porque, em Cristo, a casa eterna não é o túmulo, mas a casa do Pai.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from Ecclesiastes (Eerdmans, 2010)
  • Zack Eswine — Recovering Eden: The Gospel According to Ecclesiastes (P&R, 2014)
  • Graeme Goldsworthy — Preaching the Whole Bible as Christian Scripture (IVP, 2000)

Comentários de Eclesiastes:

  • Derek Kidner — A Time to Mourn, and a Time to Dance (IVP, 1976; série de comentários de exposição bíblica)
  • Tremper Longman III — The Book of Ecclesiastes (NICOT, Eerdmans, 1998)
  • Craig G. Bartholomew — Ecclesiastes (Baker Commentary on the Old Testament Wisdom and Psalms, Baker Academic, 2009)
  • Roland E. Murphy — Ecclesiastes (Word Biblical Commentary, 1992)
  • Michael V. Fox — A Time to Tear Down and a Time to Build Up: A Rereading of Ecclesiastes (Eerdmans, 1999)
  • Iain Provan — Ecclesiastes, Song of Songs (Zondervan, 2001; série de comentários de aplicação)

Para a leitura pastoral e a sabedoria em Israel:

  • Philip Graham Ryken — Ecclesiastes: Why Everything Matters (Crossway, 2010)
  • Derek Kidner — The Wisdom of Proverbs, Job & Ecclesiastes (IVP, 1985)
  • Craig G. Bartholomew e Ryan P. O'Dowd — Old Testament Wisdom Literature: A Theological Introduction (IVP Academic, 2011)

Sabedoria para o Cotidiano
A luz vai escurecer, a casa vai envelhecer, o cordão de prata vai se romper — e é por isso que o tempo de lembrar o Criador é agora, não depois. Viva cada fase da vida, a juventude e a velhice, diante de Deus: com reverência, com obediência e sabendo que nada do que você faz, nem o mais escondido, é indiferente para ele. E quando a casa do corpo começar a ceder, não tema: o Criador que você lembra se fez homem, confiou o espírito ao Pai e ressuscitou, e nele a casa eterna não é o túmulo, mas a casa do Pai.

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