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Efésios · 49 de 66 · Novo Testamento

Efésios — Capítulo 3

Infográfico de “Efésios 3 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 6 partes: O preso que interrompe a própria oração; A administração da graça e o mistério revelado; O servo menor que o menor dos santos; A sabedoria variada de Deus diante dos poderes; De joelhos diante do Pai, pelo amor que ultrapassa o saber; A glória ao Deus que ultrapassa o pedido.

Título do capítulo: O mistério confiado a um prisioneiro
Gênero literário: Epístola — testemunho apostólico, oração e doxologia (a digressão sobre o ministério de Paulo e o mistério de Cristo; a segunda oração da carta; o louvor que fecha a primeira metade)
Número de versículos: 21

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. Nenhum versículo é transcrito; a oração dos vv. 14-19 e a doxologia dos vv. 20-21, muito conhecidas, são ditas deliberadamente com outras palavras. A apresentação da carta inteira (autoria, destinatários, lugar e data, Éfeso, estrutura e temas) está no estudo do capítulo 1, e este estudo a acompanha sem decidir a questão da autoria. A prisão de Paulo segue os estudos de Atos 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 28 deste acervo. Alguns pontos têm história nos manuscritos e são tratados na seção 1: a palavra "todos" no v. 9, a troca de oikonomia por koinōnia no mesmo versículo e o acréscimo no v. 14. As datas d.C. são aproximadas.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O capítulo na carta

O estudo do capítulo 1 apresenta Efésios por inteiro: a mais contemplativa das cartas atribuídas a Paulo, que nos capítulos 1–3 louva e explica o plano de Deus de reunir tudo em Cristo e nos capítulos 4–6 mostra a vida que lhe corresponde. O capítulo 1 começou com a grande bênção ao Pai (Ef 1.3-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e uma oração para que os leitores conhecessem a esperança, a herança e o poder que ressuscitou Cristo (Ef 1.15-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo 2 contou a passagem da morte à vida pela graça (Ef 2.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a reconciliação dos gentios, antes longe, com Israel e com Deus, num só corpo, numa só família, num só templo (Ef 2.11-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O capítulo 3 começa como se fosse orar de novo. A expressão toutou charin, por causa disso, abre o v. 1 e anuncia uma oração; mas, depois de dizer quem é (o preso por causa dos gentios), o autor interrompe a frase e só a retoma no v. 14, com as mesmas palavras. No meio, uma digressão sobre o ministério e o mistério (vv. 2-13): o nome dos gentios lembra a Paulo por que está preso, e ele precisa explicar. Depois vêm a segunda oração da carta (vv. 14-19) e uma doxologia (vv. 20-21) que fecha a primeira metade do livro. O capítulo 4 começará com um "portanto" e com o mesmo título de preso (Ef 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O preso e a prisão

O v. 1 chama Paulo de ho desmios, o preso, o homem em correntes, de Cristo Jesus, hyper hymōn tōn ethnōn, em favor dos gentios. A expressão tem duas camadas. Ele é preso de Cristo porque é por causa de Cristo, e sob o seu senhorio, que está acorrentado: não se vê como prisioneiro de Roma. E está preso em favor dos gentios num sentido muito concreto. Segundo o estudo de Atos 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Paulo foi agarrado no templo de Jerusalém porque o acusaram de ter levado para dentro gregos, por tê-lo visto na cidade com Trófimo, de Éfeso (At 21.27-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A acusação era falsa, mas o motivo da prisão foi justamente a convivência com gentios. Muitos intérpretes ligam esse episódio à barreira derrubada de Ef 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), como faz o estudo de Atos 21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com a cautela de não acusar ninguém.

Onde estava preso quem escreve? O estudo do capítulo 1 apresenta as opções. Se a carta é de Paulo, muitos pensam na prisão em Roma, por volta de 60–62, os dois anos de que fala o fim de Atos (At 28.30-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), coerente com o estudo de Atos 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); outros pensam em Cesareia, onde ficou detido dois anos (At 24.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou numa prisão em Éfeso, que Atos não menciona e que alguns supõem. Se a carta é de um discípulo que escreve em nome de Paulo, por volta de 80–90, a prisão é memória: o apóstolo martirizado é apresentado como o preso que deu a vida pelos gentios. Este estudo não decide; o sentido do capítulo vale nas duas leituras.

O que o capítulo pesa no debate da autoria

O v. 2 começa com ei ge ēkousate, se é que ouvistes: estranho para quem morou cerca de três anos em Éfeso (At 20.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que sustenta a hipótese da carta circular a igrejas da Ásia que não conheciam Paulo pessoalmente, ou, para outros, a de um autor posterior. O v. 5 chama os apóstolos e profetas de hagioi, santos, o que a alguns parece o olhar de uma geração que já venera os fundadores; outros respondem que hagioi é para Paulo o nome de todos os crentes (Ef 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 1.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que o v. 8 mostra uma humildade bem paulina. O ensino do capítulo não depende da escolha.

Mistério: a palavra e o ambiente

A palavra-chave do capítulo é mystērion, que aparece três vezes (vv. 3, 4, 9) e já apareceu em Ef 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). No mundo grego, os mistérios eram cultos de iniciação, como os de Elêusis ou os de Ísis, cujos ritos ficavam secretos para os de fora. O uso de Paulo vem de outro lugar: da tradição judaica em que Deus revela os seus planos escondidos. Em Daniel, o raz aramaico, que a antiga tradução grega verte por mystērion, é o desígnio de Deus sobre a história, que nenhum sábio alcança e que Deus dá a conhecer (Dn 2.18-19, 27-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 47); o estudo de Daniel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra como a palavra reaparece nos manuscritos do mar Morto para os desígnios ocultos de Deus. Em Paulo, o mistério não é um segredo para poucos, mas o plano escondido por séculos e agora aberto a todos pelo anúncio (Rm 16.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como lembra o estudo de Romanos 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Mistério, aqui, é o contrário de esoterismo: é notícia.

Éfeso, como mostra o estudo de Atos 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), era a cidade de Ártemis e tinha fama de magia: os convertidos queimaram em público os seus livros de fórmulas (At 19.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Clinton Arnold, em Ephesians: Power and Magic (1989), defendeu que esse ambiente, em que se temiam forças espirituais e se buscava controlá-las com encantamentos, explica a insistência da carta nos poderes (Ef 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.10; 6.12). A hipótese é discutida, mas ilumina o capítulo.

O texto dos manuscritos

O capítulo tem poucas questões de texto, e nenhuma muda o ensino. No v. 9, a palavra pantas, todos (trazer à luz para todos), falta em alguns testemunhos antigos, como o Sinaítico na mão original e o Alexandrino, e está no P46, no Vaticano e na maioria; sem ela, o verbo fica sem objeto pessoal (trazer à luz qual é a administração do mistério). Os editores se dividem; muitos a mantêm entre colchetes. Ainda no v. 9, manuscritos tardios trocaram oikonomia, administração, por koinōnia, comunhão, e foi essa a forma que passou às primeiras edições impressas do grego; alguns acrescentam também que Deus criou tudo por meio de Jesus Cristo. No v. 14, manuscritos posteriores completam o Pai com de nosso Senhor Jesus Cristo; o acréscimo falta no P46, no Sinaítico, no Alexandrino e no Vaticano, e a maioria dos editores o deixa de fora, como eco de Ef 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). No texto mais antigo, é simplesmente o Pai, o que prepara o jogo de palavras do v. 15.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Paulo começa a dizer que, por causa de tudo o que Deus fez, ele, o preso de Cristo Jesus pelos gentios… e a frase fica suspensa (v. 1). Os leitores devem ter ouvido falar da administração da graça de Deus que lhe foi confiada em benefício deles: por revelação, Deus lhe deu a conhecer o mistério, como ele já escreveu brevemente, de modo que, lendo, podem perceber a compreensão que ele tem do mistério de Cristo. Nas gerações passadas, esse mistério não foi dado a conhecer aos seres humanos como agora o Espírito o revelou aos santos apóstolos e profetas de Cristo: os gentios herdam junto, pertencem ao mesmo corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do evangelho (vv. 2-6).

Desse evangelho Paulo se tornou servidor, por dom da graça e pela eficácia do poder de Deus. A ele, que se põe abaixo do último dos santos, coube anunciar aos gentios a riqueza de Cristo, que ninguém rastreia até o fim, e trazer à luz o plano do mistério, escondido desde sempre no Deus que criou todas as coisas (vv. 7-9). Assim, por meio da igreja, a sabedoria variada de Deus se dá a conhecer agora aos poderes nas regiões celestiais, segundo o plano eterno realizado em Cristo Jesus, em quem, pela fé, os crentes se aproximam de Deus com franqueza e segurança. Por isso não devem desanimar com o que Paulo sofre por eles: é a glória deles (vv. 10-13).

Retomando a frase, Paulo diz que se põe de joelhos diante do Pai, que dá nome a toda linhagem, a do céu e a da terra. Pede que o Pai, conforme a riqueza da sua glória, os fortaleça com poder, pelo Espírito, no ser interior; que Cristo faça morada no coração deles pela fé; que, firmados no amor como árvore pela raiz e casa pelo alicerce, sejam capazes de compreender, junto com todos os santos, as dimensões que se abrem em todas as direções, e de conhecer o amor de Cristo, que vai além de todo conhecimento, até serem enchidos de toda a plenitude de Deus (vv. 14-19).

O capítulo termina em louvor. Àquele que, pelo poder que já age nos crentes, é capaz de fazer muito, muitíssimo mais do que tudo o que pedem ou imaginam, a ele a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações e por todos os séculos. Amém (vv. 20-21).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículo 1 — O preso que interrompe a própria oração

Toutou charin, por causa disso, olha para trás: para tudo o que o capítulo 2 contou, os gentios aproximados pelo sangue de Cristo e edificados com Israel no mesmo templo. Egō Paulos, eu, Paulo: o nome próprio com o pronome dá peso pessoal, como em 2Co 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Gl 5.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Cl 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Fm 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O título ho desmios tou Christou Iēsou reaparece em Ef 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e o autor se dirá embaixador em correntes em Ef 6.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Filemom usa a mesma linguagem (Fm 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 9).

A frase não tem verbo principal. Alguns intérpretes supõem um verbo subentendido (sou); a maioria vê aqui um anacoluto, a frase que muda de rumo, e encontra a continuação no v. 14, onde a mesma expressão é retomada. O efeito é humano: o autor começa a orar, lembra-se de que está preso por causa daqueles por quem ora e acha necessário dizer o que isso significa.

Versículos 2-6 — A administração da graça e o mistério revelado

O v. 2 apresenta o ministério com uma palavra da economia doméstica: oikonomia, a administração de uma casa, o encargo do oikonomos, o administrador ou mordomo que cuidava dos bens de um senhor. A palavra já apareceu em Ef 1.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), para o plano de Deus de reunir tudo em Cristo, e voltará no v. 9. Aqui é o encargo dado a Paulo: administrar tēs charitos tou theou, a graça de Deus, tēs dotheisēs moi eis hymas, que lhe foi dada tendo os leitores em vista. A graça não é só o favor que salva Paulo; é também a missão que lhe foi confiada, como em Rm 15.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e ele é administrador de algo que não lhe pertence (1Co 4.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.17; Cl 1.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 3 diz como isso aconteceu: kata apokalypsin, por revelação, ecoando Gl 1.12, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o Filho foi revelado a Paulo para que o anunciasse entre os gentios. O mystērion lhe foi dado a conhecer, kathōs proegrapsa en oligō, como escreveu antes em poucas palavras. A maioria entende que remete ao que a própria carta já disse (Ef 1.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.11-22). Por isso o v. 4 convida à leitura, feita em voz alta na assembleia: lendo, os destinatários podem perceber a synesis, a compreensão, que Paulo tem do mistério de Cristo.

O v. 5 faz um contraste de tempos. Em heterais geneais, nas outras gerações, o mistério não foi dado a conhecer tois huiois tōn anthrōpōn, expressão semítica para os seres humanos, hōs nyn, como agora foi revelado tois hagiois apostolois autou kai prophētais en pneumati, aos santos apóstolos e profetas dele, no Espírito. Duas observações. A primeira: o advérbio hōs, como, é comparativo. O Antigo Testamento anunciou muitas vezes a bênção das nações (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 49.6; 56.6-7), e Paulo cita esses textos em outras cartas (Rm 15.9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que não estava claro era o modo: que as nações entrariam como coerdeiras, sem se tornarem prosélitas, num só corpo com Israel, por meio do Messias crucificado. A segunda: os profetas aqui são, provavelmente, os profetas da igreja, nomeados depois dos apóstolos, como em Ef 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 4.11, e não os do Antigo Testamento. São o alicerce do templo de Ef 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) porque receberam e transmitiram essa revelação.

O v. 6 diz em que consiste o mistério, com três adjetivos compostos de syn, junto: os gentios são synklēronoma, herdeiros junto, syssōma, membros do mesmo corpo, e symmetocha tēs epangelias, participantes junto da promessa, en Christō Iēsou dia tou euangeliou, em Cristo Jesus, por meio do evangelho. Syssōmos não aparece antes na literatura grega conhecida; muitos pensam que foi criado para a ocasião, porque não havia palavra para algo tão novo. Junto com quem? O contexto responde: com Israel. O capítulo 2 disse que os gentios estavam longe da cidadania de Israel e das alianças da promessa (Ef 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que foram aproximados e passaram a ter cidadania com o povo santo (Ef 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A herança é a de Abraão, o corpo é o de Cristo, o Messias de Israel, e a promessa é a que Deus fez aos pais. Os gentios não tomam o lugar de ninguém: entram numa casa que já existia, como os ramos bravos enxertados na oliveira de Israel, onde a raiz carrega os ramos (Rm 11.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), segundo o estudo de Romanos 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O mistério amplia a família; não a troca.

Versículos 7-9 — O servo menor que o menor dos santos

No v. 7, Paulo se diz diakonos, servidor, do evangelho. A palavra vem do serviço à mesa e se tornou, no Novo Testamento, um nome do ministério; não carrega honra, mas encargo. Ele o recebeu kata tēn dōrean tēs charitos tou theou, segundo o presente da graça de Deus, kata tēn energeian tēs dynameōs autou, segundo a ação eficaz do seu poder. As palavras do poder são as de Ef 1.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o poder que ressuscitou Cristo fez do perseguidor de Damasco um servo (At 9.1-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ninguém se faz apóstolo; é feito. Em Mileto, diante dos anciãos de Éfeso, Paulo dizia que só queria terminar o serviço recebido do Senhor Jesus, o de testemunhar o evangelho da graça (At 20.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Atos 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

O v. 8 tem uma das palavras mais curiosas do Novo Testamento: elachistoterō, um comparativo construído sobre um superlativo, algo como mais mínimo, menor que o menor. Paulo se põe abaixo do último pantōn hagiōn, de todos os santos, não só dos apóstolos. Em 1Co 15.9, como mostra o estudo de 1 Coríntios 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), ele se dissera o menor dos apóstolos, indigno do nome por ter perseguido a igreja de Deus; em 1Tm 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), se dirá o primeiro entre os pecadores. Os que veem aqui um discípulo escrevendo acham que o exagero aumentou com a veneração; os que veem Paulo lembram que a humildade se aprofunda com os anos e que o perseguidor nunca esqueceu o que fora. Em qualquer leitura, a frase não é falsa modéstia: diz que a graça não foi dada a um mérito, mas a um devedor.

A tarefa é dupla. Primeiro, euangelisasthai, anunciar a boa notícia aos gentios, a missão de Paulo desde o chamado (At 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.21; 26.17-18; Gl 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.7-9). O conteúdo é to anexichniaston ploutos tou Christou, a riqueza de Cristo que não se pode rastrear. Anexichniastos vem de ichnos, pegada: é o que não deixa rastro para seguir até o fim, como os caminhos de Deus em Rm 11.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e, na antiga tradução grega, as obras de Deus em Jó (Jó 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.10). A riqueza de Cristo não é uma quantia que se esgote; quanto mais se anda nela, mais longe ela vai.

Segundo (v. 9), phōtisai, iluminar, trazer à luz. Com o pantas (todos), é iluminar a todos; sem ele, é trazer à luz o próprio plano, como se viu na seção 1. O que se ilumina é tis hē oikonomia tou mystēriou, como se executa o mistério, o plano que estava apokekrymmenou apo tōn aiōnōn, escondido desde os séculos, ou desde as eras, en tō theō tō ta panta ktisanti, em Deus, que criou todas as coisas. A menção da criação não é ornamento: o Deus que reúne judeus e gentios é o que fez todos os povos, e a salvação não é remendo na história, mas o desígnio que estava nele desde antes dela.

Versículos 10-13 — A sabedoria variada de Deus diante dos poderes

O v. 10 diz para que tudo isso: hina gnōristhē nyn, para que agora seja dada a conhecer, tais archais kai tais exousiais en tois epouraniois, aos principados e às autoridades nas regiões celestiais, dia tēs ekklēsias, por meio da igreja, hē polypoikilos sophia tou theou, a sabedoria muito variada de Deus. Polypoikilos era usado para tecidos bordados de muitas cores e para flores: uma sabedoria rica em matizes. Aqui, a variedade é a de um povo de judeus e gentios, de culturas e histórias diferentes, reunidos sem que nenhuma apague a outra.

Quem são os principados e as autoridades? A carta usa os mesmos nomes para os poderes sobre os quais Cristo foi posto (Ef 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para os adversários do combate espiritual (Ef 6.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e situa ambos en tois epouraniois, nas regiões celestiais, expressão própria de Efésios (Ef 1.3, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.6; 6.12) para a dimensão invisível da realidade, onde estão também os crentes com Cristo. As leituras são três. Para a maioria dos intérpretes antigos e muitos modernos, são seres espirituais reais, anjos fiéis e poderes rebeldes, aos quais Deus mostra na igreja o que eles não sabiam (1Pe 1.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz que os anjos desejam espiar as coisas do evangelho). Para outros, desde Hendrikus Berkhof, Cristo e os poderes (1953), e Walter Wink, nos anos 1980, os nomes designam também as estruturas, as instituições e as forças coletivas que governam a vida humana e podem se tornar opressoras. Muitos juntam as duas coisas: há realidades espirituais por trás das estruturas do mundo. Em nenhuma leitura o texto autoriza o sensacionalismo. Ele não manda a igreja falar com os poderes, mapeá-los nem atribuir-lhes as doenças e os problemas de cada um; diz que a própria existência da igreja reconciliada é a mensagem. Uma assembleia em que judeus e gentios, ricos e pobres, se sentam à mesma mesa anuncia às forças que dividem o mundo que o seu tempo acabou.

O v. 11 põe isso no plano de Deus: kata prothesin tōn aiōnōn, segundo o propósito das eras, ou o propósito eterno, hēn epoiēsen en tō Christō Iēsou tō kyriō hēmōn, que ele realizou em Cristo Jesus, o nosso Senhor. O verbo pode significar formou ou executou; muitos preferem executou, porque o contexto fala do que aconteceu na história: na cruz e na ressurreição, o plano deixou de ser intenção.

O v. 12 tira a consequência para os crentes: em Cristo echomen tēn parrēsian kai prosagōgēn en pepoithēsei, temos a franqueza e o acesso, com segurança. Parrēsia era a liberdade do cidadão de falar abertamente na assembleia; prosagōgē, que já apareceu em Ef 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), evocava a introdução de alguém à presença de um rei; pepoithēsis é a confiança firme. Tudo isso vem dia tēs pisteōs autou, pela fé nele, ou, para alguns, pela fidelidade dele, a mesma ambiguidade de pistis Christou que o estudo de Gálatas 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta. As duas leituras dizem que o acesso repousa em Cristo, não no mérito de quem se aproxima. Hebreus dirá o mesmo com imagens do santuário (Hb 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.19-22).

O v. 13 volta ao preso: dio aitoumai mē enkakein, por isso peço que não desanimeis. O verbo enkakeō é o de 2Co 4.1, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Paulo diz que ele mesmo não perde o ânimo, e o de Lc 18.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre orar sem esmorecer. O pedido pode ser a Deus, para que Paulo não desanime, ou aos leitores, para que não desanimem; a maioria prefere a segunda leitura, que combina com o fim do versículo. As thlipseis, tribulações, de Paulo são hyper hymōn, por eles, e são doxa hymōn, a glória deles. Como? Porque mostram o preço que o evangelho dos gentios custou e o valor que Deus lhes dá. Cl 1.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz algo próximo, com a ideia do que falta às aflições de Cristo pela igreja. A prisão não desmente a mensagem; é parte dela.

Versículos 14-19 — De joelhos diante do Pai, pelo amor que ultrapassa o saber

O v. 14 retoma o toutou charin do v. 1, e a oração enfim começa: kamptō ta gonata mou pros ton patera, literalmente curvo os joelhos voltado para o Pai. Os judeus costumavam orar de pé (1Sm 1.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 11.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 18.11, 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ajoelhar-se era gesto de súplica intensa ou de reverência especial, como Salomão na dedicação do templo (1Rs 8.54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Daniel no exílio (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Jesus no Getsêmani (Lc 22.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Estêvão ao morrer (At 7.60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o próprio Paulo na praia de Mileto, com os anciãos de Éfeso, e na de Tiro (At 20.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.5). As tradições guardam posturas diferentes, e todas cabem aqui: a católica ajoelha-se na adoração e na súplica; a ortodoxa faz prostrações e, seguindo um antigo cânon do Concílio de Niceia, ora de pé aos domingos e no tempo pascal, em sinal da ressurreição; as igrejas protestantes oram de pé, sentadas ou de joelhos, conforme o costume. O texto não faz do gesto uma lei; mostra um corpo que acompanha o coração.

O v. 15 traz um jogo de palavras que o português não reproduz: o Pai, patēr, é aquele ex hou pasa patria, de quem toda patria, toda família ou linhagem, en ouranois kai epi gēs, nos céus e na terra, onomazetai, recebe o nome. Patria é o grupo que descende de um pai, o clã, a casa paterna. As leituras são duas. A mais comum entende que todas as famílias, as dos anjos e as dos povos humanos, devem a Deus a existência e a identidade, porque dar nome, na Bíblia, é exercer autoridade e conferir identidade (Gn 2.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 147.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 40.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Parte da tradição latina e alguns intérpretes leram toda paternidade: toda paternidade verdadeira vem da paternidade de Deus, e não o contrário. Nas duas, Deus não é pai à imagem dos pais humanos; estes é que recebem dele o nome. No contexto, a ênfase é a unidade: judeus e gentios, de linhagens diferentes, têm um só Pai (Ef 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.6; Ml 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os pedidos se encadeiam. O primeiro (v. 16) é que o Pai dê, kata to ploutos tēs doxēs autou, segundo a riqueza da sua glória, que eles sejam dynamei krataiōthēnai, fortalecidos com poder, dia tou pneumatos autou, pelo seu Espírito, eis ton esō anthrōpon, no ser humano interior. O estudo de 2 Coríntios 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) explica que o interior não é uma alma separada do corpo, mas a pessoa inteira enquanto renovada por Deus, mesmo quando o exterior se desgasta (2Co 4.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 7.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A medida do pedido não é a necessidade de quem pede, mas a riqueza de quem dá.

O segundo (v. 17) é katoikēsai ton Christon dia tēs pisteōs en tais kardiais hymōn, que Cristo habite, pela fé, nos corações. Katoikeō é morar de modo estável, fixar residência, diferente de paroikeō, morar como estrangeiro de passagem; Ef 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) usou o substantivo dessa família, paroikoi, para a condição de que os gentios saíram. Os leitores já creem; pede-se que Cristo se sinta em casa neles e ocupe todos os cômodos. Jesus prometera que ele e o Pai fariam morada em quem guarda a sua palavra (Jo 14.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Espírito do v. 16 e o Cristo do v. 17 não são duas presenças concorrentes: onde o Espírito fortalece, é Cristo que habita (Rm 8.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Duas imagens fecham o v. 17: errizōmenoi, enraizados, palavra da agricultura, e tethemeliōmenoi, postos sobre alicerce, palavra da construção, ambos en agapē, no amor. As imagens da igreja que cresce e se edifica (Ef 2.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.16) se aplicam aqui ao amor, solo e fundamento.

O terceiro pedido (vv. 18-19) é que tenham força, exischysēte, para katalabesthai, apreender, syn pasin tois hagiois, junto com todos os santos, quais são as dimensões, quatro medidas, para os lados, para a frente, para o alto e para o fundo, e gnōnai, conhecer, tēn hyperballousan tēs gnōseōs agapēn tou Christou, o amor de Cristo que ultrapassa o conhecimento. O texto não diz de que são as medidas. A maioria entende que são as do próprio amor de Cristo, nomeado logo a seguir; outros pensam na sabedoria de Deus do v. 10, no templo de Ef 2.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), comparado à nova Jerusalém de medidas iguais em todas as direções (Ap 21.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou no plano de Deus em toda a sua extensão. Agostinho viu nas quatro medidas o desenho da cruz, com a trave, o madeiro, o alto e a parte fincada no chão; é leitura devocional, não exegese do contexto, mas aponta para o lugar em que esse amor ganhou medida visível. O estudo de Jó 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra que Zofar usou as mesmas quatro direções para medir a distância entre Deus e o ser humano; aqui, medem o amor que a encurtou (cf. Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Há um paradoxo deliberado: pedir que conheçam um amor que vai além do conhecimento. Não é contradição; é a diferença entre saber coisas sobre alguém e ser amado por ele. Numa cidade que admirava saberes reservados a iniciados, a gnōsis é superada por um amor que se conhece por experiência e nunca se esgota. E esse conhecimento é syn pasin tois hagiois, comunitário: cada crente vê uma parte do amor de Cristo, e a igreja inteira, de judeus e gentios, vê mais.

O alvo final (v. 19) é hina plērōthēte eis pan to plērōma tou theou: que sejam enchidos rumo a toda a plenitude de Deus. Plērōma apareceu em Ef 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde a igreja é a plenitude de Cristo, e voltará em Ef 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A preposição eis indica direção: não que o ser humano se torne Deus, mas que seja enchido até onde Deus quer dar. A tradição ortodoxa leu aqui a participação na vida divina pela graça (2Pe 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a theōsis; a católica e a protestante, a santificação e a comunhão plena com Deus. Todas concordam em que a plenitude vem de Deus e não apaga a criatura.

Versículos 20-21 — A glória ao Deus que ultrapassa o pedido

A doxologia começa com tō de dynamenō, àquele que pode. O que ele pode fazer é dito com uma acumulação: hyper panta, além de tudo, e hyperekperissou, advérbio que empilha duas preposições sobre a ideia de sobra, algo como muitíssimo além da medida, do que aitoumetha, pedimos, ē nooumen, ou concebemos. Os pedidos dos vv. 16-19 já eram enormes; o v. 20 diz que Deus vai além deles. E a medida é kata tēn dynamin tēn energoumenēn en hēmin, segundo o poder que age em nós: o poder de Ef 1.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não está só no céu, opera agora nos crentes. Não é promessa de que todo desejo será atendido; é a confissão de que Deus não se limita ao tamanho das nossas orações.

O v. 21 dá a glória en tē ekklēsia kai en Christō Iēsou, na igreja e em Cristo Jesus. A ordem surpreende: a igreja vem antes. Não por ser maior que Cristo, mas por ser o lugar onde a glória de Deus em Cristo se torna visível na história, unida à sua cabeça. Eis pasas tas geneas tou aiōnos tōn aiōnōn: por todas as gerações, da era das eras, fórmula que acumula o tempo humano e o tempo de Deus. O amēn final, palavra hebraica, é a assinatura da assembleia, que faz seu o louvor. Assim termina a primeira metade da carta: o que foi doutrina vira adoração, como em Rm 11.33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), antes de virar exortação.


✨ 4. Versículos-Chave

Ef 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O conteúdo do mistério: os gentios herdam com Israel, formam com ele um só corpo e participam da mesma promessa, em Cristo Jesus, por meio do evangelho. É a frase central do capítulo. Lida com Ef 2.12, 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Rm 11.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), diz que os gentios entram no povo de Deus, não que tomam o lugar de Israel; base da missão entre as nações e da recusa de toda divisão étnica na igreja.

Ef 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo se põe abaixo do último dos santos e diz que lhe foi dada a graça de anunciar aos gentios a riqueza de Cristo, que nenhum rastro esgota. O servo se faz pequeno, e o que ele anuncia não tem fim: espelho de todo ministério cristão.

Ef 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Por meio da igreja, a sabedoria variada de Deus é dada a conhecer aos poderes nas regiões celestiais. A igreja não é só destinatária da salvação; é a vitrine do plano de Deus diante de todas as forças, visíveis e invisíveis.

Ef 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Que Cristo habite pela fé no coração, que os crentes, firmados no amor, compreendam com todos os santos as dimensões desse amor e conheçam o amor de Cristo que vai além do conhecimento, até serem enchidos de toda a plenitude de Deus. É uma das orações mais rezadas da tradição cristã e o centro devocional da carta.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

O mistério de Cristo: um só povo de judeus e gentios. O capítulo dá nome ao que o capítulo 2 narrou. O plano escondido em Deus desde antes da criação é que, em Cristo, as nações sejam herdeiras ao lado de Israel, num só corpo e na mesma promessa. O Antigo Testamento anunciava a bênção dos povos; o evangelho revela o modo, o Messias crucificado e ressuscitado, e a medida, a igualdade de lugar na mesma casa. Esse mistério não anula a eleição de Israel, que continua amado por causa dos pais e cujos dons Deus não retira (Rm 11.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); amplia a família. Os cristãos discutem como Israel e a igreja se relacionam no plano de Deus, e há leituras diversas; mas toda teologia que use este capítulo para dizer que Deus rejeitou o povo judeu e o trocou pela igreja, na forma do desprezo, contradiz o próprio texto, que define os gentios pelo que recebem junto com Israel. Os estudos de Romanos 9–11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Gálatas lembram a recusa do desprezo nas declarações das igrejas, como a Nostra Aetate (n. 4), do Concílio Vaticano II, e documentos de várias igrejas protestantes. Este estudo os acompanha.

A graça que faz servos. Charis aparece três vezes (vv. 2, 7, 8). É o favor que salva e também o encargo que envia: Paulo é oikonomos e diakonos, administrador e servidor de algo que não é seu. O ministério cristão nasce da graça e se mede por ela, e por isso exclui a arrogância. O homem a quem foi confiado o mistério se põe abaixo do último dos santos.

A igreja diante dos poderes. Efésios dá à igreja uma importância que vai além da vida dos crentes: ela é o instrumento pelo qual Deus mostra a sua sabedoria às potências do universo. A igreja não vence os poderes com gritos, rituais ou estratégias espetaculares; vence-os existindo como comunidade reconciliada, em que as divisões que os poderes exploram perdem a força. A sua arma é a unidade, e o seu testemunho mais alto é a mesa comum.

A oração e a plenitude do amor. A segunda oração da carta pede força interior, a presença estável de Cristo, a compreensão comunitária de um amor sem medida e a plenitude de Deus. Para Efésios, conhecer a Deus é também orar a ele, e quem entende o mistério cai de joelhos.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Efésios 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está na Redenção consumada, no ponto em que o plano de Deus se revela por inteiro. Na Criação, Deus fez todos os povos e todas as famílias, e a todas deu nome (v. 15); o plano estava nele desde antes (v. 9). Com a Queda, a humanidade se dispersou e se dividiu (Gn 11.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os poderes passaram a dominar pela inimizade. Na Redenção em andamento, Deus escolheu Abraão para que nele fossem abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e prometeu, pelos profetas, que as nações viriam à luz de Sião (Is 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 60.3). Em Cristo, o mistério se abre: as nações entram como herdeiras com Israel, e o povo reconciliado mostra aos poderes a sabedoria de Deus. A Nova Criação é o horizonte da doxologia: glória por todas as gerações e pelas eras das eras, quando uma multidão de todos os povos estiver diante do trono e do Cordeiro (Ap 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — Cristo, o conteúdo do mistério

O capítulo fala do mistério de Cristo (v. 4). Isso quer dizer que o mistério não é uma ideia sobre judeus e gentios, mas uma pessoa. É en Christō Iēsou que os gentios herdam, pertencem e participam (v. 6); é a riqueza de Cristo que se anuncia (v. 8); é em Cristo Jesus que o plano eterno se realiza (v. 11); é nele que se tem acesso ao Pai (v. 12); é ele que habita o coração (v. 17); é o amor de Cristo que se procura conhecer (v. 19); é em Cristo Jesus que a glória se dá a Deus (v. 21). Cl 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) resume do mesmo modo: o mistério anunciado às nações é a presença de Cristo nelas, garantia da glória que virá; e Cl 2.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz que ele guarda em si toda a riqueza do saber de Deus. Paulo não anuncia um sistema; anuncia alguém.

Por isso a unidade da igreja não é um programa social: judeus e gentios não se tornam um só porque concordam em tudo, mas porque estão nele.

6.3 — Como o capítulo lê o Antigo Testamento

(a) A bênção das nações. A promessa a Abraão (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a peregrinação das nações a Sião (Is 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Servo feito luz para os povos (Is 49.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os estrangeiros acolhidos na casa de oração (Is 56.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a luz que atrai os reis (Is 60.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) mostram que a inclusão dos gentios não é novidade absoluta. Os estudos de Isaías 49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 56 e 60 seguem esse fio. O que Ef 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chama de escondido é o modo e a medida: não gentios convertidos em prosélitos e postos num átrio de fora, mas herdeiros do mesmo grau, por meio do Messias. Cumprimento parcial, nas conversões de estrangeiros como Rute (Rt 4.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); cumprimento pleno, na igreja de judeus e gentios; cumprimento futuro, quando as nações andarem na luz da cidade de Deus (Ap 21.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

(b) O mistério de Daniel. O Deus que, em Dn 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), revela o raz que nenhum sábio da Babilônia alcançava é o Deus que revela o mistério a Paulo. Em Daniel, o mistério era o reino que Deus levantaria sobre as ruínas dos impérios, a pedra que enche a terra (Dn 2.44-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); em Efésios, é o povo de todas as nações reunido sob Cristo, que está acima de todo principado (Ef 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O estudo de Daniel 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que Cristo é o próprio mistério de Deus revelado, e Ef 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o confirma.

(c) O Pai de toda família. Ml 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra que um só Deus é Pai e Criador de todos, para condenar a deslealdade entre irmãos. Ef 3.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) amplia a ideia: o Pai que dá nome a toda linhagem reúne em Cristo as famílias separadas.

6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo

O indicativo: o que Deus fez em Cristo. Deus realizou em Cristo o plano que tinha antes da criação (vv. 9, 11), revelou o mistério pelo Espírito (v. 5), fez os gentios herdeiros com Israel (v. 6), deu ao perseguidor a graça de servir (vv. 7-8), abriu a todos o acesso confiante ao Pai (v. 12) e age nos crentes com o poder que ressuscitou Cristo (v. 20).

O imperativo: como a igreja deve viver. O capítulo 3 quase não tem imperativos; o único pedido aos leitores é que não desanimem (v. 13). Mas o capítulo já desenha a vida que corresponde ao indicativo: ser uma comunidade em que a sabedoria de Deus se veja (v. 10), aproximar-se de Deus sem medo (v. 12), não perder o ânimo nos sofrimentos (v. 13), orar uns pelos outros com a ousadia de Paulo (vv. 14-19), crescer no amor junto com todos os santos (v. 18) e dar glória a Deus na igreja (v. 21). O imperativo nasce da oração: antes de dizer como viver, Paulo pede que Cristo habite neles.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Pregar Efésios 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é anunciar a quem se sente de fora que o plano eterno de Deus o incluía desde antes da criação. Os gentios de Éfeso viviam sem promessa e sem Deus (Ef 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o evangelho lhes disse que eram herdeiros da promessa feita a Abraão. Ninguém está longe demais para esse plano.

E é anunciar que essa inclusão tem um preço e um rosto. O preço foi pago por Cristo, cuja morte derrubou a inimizade, e, em escala menor, pelos que o anunciaram, como o preso que pede que não desanimem por causa dele. O rosto é o de Cristo, que quer morar no coração de cada um e cujo amor nenhuma medida alcança. Quem crê nele não precisa ficar à porta do palácio esperando licença: tem acesso, com confiança, ao Pai de toda família.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Na vida da igreja. A oração dos vv. 14-21 está entre as mais repetidas da tradição cristã, e muitas igrejas, de várias confissões, encerram o culto com a doxologia dos vv. 20-21 como bênção. O v. 10 inspirou, no século XX, a reflexão sobre a igreja como sinal diante das estruturas do mundo, e nos debates sobre a segregação racial a igreja dividida por raça foi vista por muitos como negação da sabedoria de Deus.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Ninguém é membro de segunda classe. O mistério revelado diz que os de fora entram como herdeiros do mesmo grau. Isso questiona igrejas em que o recém-chegado, o pobre, o negro, o migrante ou a pessoa com deficiência sentem que pertencem só até certo ponto. Os gentios de Éfeso não precisaram virar outra coisa para ter lugar. E o mesmo texto que acolhe os gentios lembra que eles entraram numa casa que tinha dono antes: a fé cristã honra o povo judeu e recusa toda forma de desprezo.

Ministério sem pedestal. O homem a quem Deus confiou o mistério se pôs abaixo do último dos santos. Igrejas que transformam pastores em celebridades, multiplicam títulos para impressionar ou usam a autoridade espiritual para controlar pessoas estão longe de Ef 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Quem serve a Cristo administra o que não lhe pertence, e quem foi ferido por líderes que se punham acima de todos pode encontrar aqui o retrato do que o ministério deveria ser.

A igreja reconciliada como resposta aos poderes. Diante da polarização, do racismo e do desprezo de classe, a igreja não precisa de espetáculos nem de pânico: a sua resposta mais forte (v. 10) é existir como comunidade em que inimigos se tornam irmãos. Isso também liberta do medo exagerado do invisível: Cristo está acima de todos os poderes, e o crente não precisa atribuir cada dificuldade a uma força oculta. Doença se trata com médico, sofrimento psíquico com cuidado profissional e acompanhamento pastoral, e tudo isso com oração.

Não desanimar. Paulo pede que os leitores não percam o ânimo por causa dos sofrimentos dele. Há crentes que se escandalizam quando um líder adoece, é perseguido ou passa por perdas, como se isso desmentisse a fé. O capítulo mostra o contrário: o preso de Efésios não escreveu do topo, mas da cadeia, e de lá saiu uma das orações mais luminosas da Escritura.

Orar grande, de joelhos. A oração dos vv. 14-19 não pede bens, sucesso nem conforto, embora nada disso seja proibido; pede força interior, a presença de Cristo, o amor e a plenitude de Deus. Ela ensina a orar pelos outros com pedidos maiores, e a doxologia garante que Deus vai ainda além. A postura do corpo, conforme a tradição de cada um, importa menos que a do coração diante do Pai.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Por que Paulo interrompe a oração do v. 1 e só a retoma no v. 14? O que a digressão dos vv. 2-13 acrescenta à oração?
  2. Segundo o v. 6, em que consiste o mistério? Por que é importante entender que os gentios são herdeiros junto com Israel, e não no lugar dele?
  3. Paulo se põe abaixo do último dos santos (v. 8). O que essa frase diz sobre a graça e sobre o ministério cristão? Que atitudes, nas nossas igrejas, a contradizem?
  4. Como a igreja pode mostrar a sabedoria variada de Deus aos poderes (v. 10) sem cair no sensacionalismo nem no medo? Que divisões, na sua comunidade, precisam ser vencidas para que esse testemunho apareça?
  5. O que significa pedir que Cristo habite no coração de quem já crê (v. 17)? Como o amor de Cristo, que vai além do conhecimento, pode ser conhecido junto com todos os santos?
  6. Para meditação e oração: ore os vv. 14-19 por alguém da sua igreja, pondo o nome da pessoa no lugar dos leitores. Termine com o louvor dos vv. 20-21 ao Deus que pode fazer muito além do que você pediu.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)
  • Christopher J. H. Wright — The Mission of God (IVP Academic, 2006)

Comentários de Efésios:

  • John Stott — A mensagem de Efésios (ABU, série A Bíblia Fala Hoje)
  • Francis Foulkes — Efésios: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Markus Barth — Ephesians (Anchor Bible, 2 vols., Doubleday, 1974)
  • Andrew T. Lincoln — Ephesians (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Peter T. O'Brien — The Letter to the Ephesians (Pillar New Testament Commentary, Eerdmans, 1999)
  • Harold W. Hoehner — Ephesians: An Exegetical Commentary (Baker Academic, 2002)
  • Frank Thielman — Ephesians (Baker Exegetical Commentary on the New Testament, 2010)
  • Ernest Best — Ephesians (International Critical Commentary, T&T Clark, 1998)

Os poderes e o ambiente de Éfeso:

  • Clinton E. Arnold — Ephesians: Power and Magic (Cambridge University Press, 1989)
  • Hendrikus Berkhof — Christ and the Powers (1953; tradução inglesa, Herald Press)
  • Walter Wink — Naming the Powers (Fortress, 1984)

Israel e a igreja:

  • Concílio Vaticano II — Declaração Nostra Aetate (1965), n. 4

Sabedoria para o Cotidiano
O plano que Deus guardava desde antes da criação foi confiado a um homem acorrentado, que se via abaixo do último dos santos, e o seu conteúdo é que ninguém em Cristo fica do lado de fora da casa. Quando você se sentir pequeno demais para servir, ou longe demais para pertencer, lembre-se de que a graça escolhe exatamente esses. E, antes de desanimar com o que pesa sobre você ou sobre quem você ama, ponha-se de joelhos diante do Pai de toda família e peça que Cristo more inteiro em você: o amor dele não cabe em nenhuma medida, e o Deus que o deu pode fazer muito mais do que você ousa pedir.

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