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Ezequiel · 26 de 66 · Antigo Testamento

Ezequiel — Capítulo 23

Infográfico de “Ezequiel 23 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 7 partes: Duas irmãs, uma mãe e a infidelidade desde o Egito; Oolá e o brilho da Assíria; Oolibá, que viu e fez pior; Os amantes que se tornam juízes; O cálice da irmã, profundo e de boca larga; O santuário profanado no mesmo dia; A sentença dos justos e o fim da infâmia.

Título do capítulo: Duas irmãs e o cálice amargo
Gênero literário: Profecia (alegoria profética em prosa sobre duas irmãs, Oolá e Oolibá, que representam Samaria e Jerusalém; segue-se a sentença contra a mais nova, um breve poema do cálice em versos e, no fim, um processo judicial contra as duas, encerrado com a fórmula de reconhecimento)
Número de versículos: 49

Nota de precisão: o capítulo não traz data própria; vem entre a consulta dos anciãos no sétimo ano do exílio de Joaquim (Ez 20.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por volta de 591 a.C.) e o início do cerco de Jerusalém, no nono ano (Ez 24.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por volta de 588 a.C.), e é lido como palavra anterior à queda da cidade. É o irmão do capítulo 16: a mesma metáfora da aliança como casamento, agora voltada sobretudo para as alianças políticas. As imagens são as mais cruas do livro; o estudo explica o sentido da metáfora sem reproduzi-las nem detalhá-las. O significado dos nomes Oolá e Oolibá é discutido, e há passagens de texto difícil (vv. 24, 42 e 43). Os anos a.C. são aproximados. A numeração das Bíblias em português coincide, neste capítulo, com a do texto hebraico.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

O profeta e o livro

Ezequiel, filho de Buzi, era sacerdote (Ez 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e foi levado para a Babilônia em 597 a.C., na deportação do rei Joaquim (2Rs 24.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Junto ao rio Quebar, foi chamado no quinto ano do exílio do rei, por volta de 593 a.C. (Ez 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o trigésimo ano de Ez 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) segue sem explicação segura. A última data do livro cai por volta de 571 a.C. (Ez 29.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os capítulos 1–24 anunciam o juízo sobre Jerusalém; os capítulos 25–32 se dirigem às nações; os capítulos 33–48 falam da restauração, depois que a notícia da queda chega ao exílio (Ez 33.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo traz as duas marcas do livro: o título ben-'adam, filho do homem, dado ao profeta mais de noventa vezes (vv. 2, 36), e a fórmula do reconhecimento de que ele é o SENHOR (v. 49). Contemporâneo de Jeremias, Ezequiel dizia aos deportados o que o outro dizia em Jerusalém: não há salvação na aliança com o faraó (Jr 37.5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 17.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O momento do capítulo

Os capítulos 20 a 24 formam o último bloco antes do cerco: o 20 relê a história de Israel como rebeldia desde o Egito; o 21 traz a espada de Deus desembainhada; o 22 enumera os crimes da cidade sanguinária; o 23 conta a história política dos dois reinos; o 24 marca o dia em que o cerco começou. Os exilados perguntavam se Jerusalém ainda escaparia. A resposta do capítulo é que ela viu o fim da irmã do Norte e fez pior; por isso beberá o mesmo cálice.

O pano de fundo das alianças

A alegoria cobre mais de dois séculos de política. O reino do Norte viveu à sombra da Assíria: os anais assírios registram o tributo de Jeú a Salmanaser III, por volta de 841 a.C., gravado no chamado Obelisco Negro; Menaém pagou mil talentos de prata a Pul (2Rs 15.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e Oseias, o último rei, passou da vassalagem assíria à busca de So, rei do Egito, o que provocou a queda de Samaria em 722 a.C. (2Rs 17.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O profeta Oseias comparara Efraim a uma pomba desorientada, que voava ora para o Egito, ora para a Assíria (Os 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 12.1).

Judá fez o mesmo caminho, com mais tempo para aprender. Acaz comprou o socorro de Tiglate-Pileser com os tesouros do templo (2Rs 16.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Ezequias acolheu com honras os mensageiros da Babilônia (2Rs 20.12-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jeoaquim, posto no trono pelo faraó Neco (2Rs 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), tornou-se vassalo de Nabucodonosor e se rebelou (2Rs 24.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Zedequias jurou fidelidade à Babilônia e rompeu o juramento, contando com o Egito (2Rs 24.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 17.13-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma das cartas de Laquis, dos últimos anos do reino, menciona um comandante de Judá que desceu ao Egito, e muitos a leem como sinal dessas negociações.

Para os profetas, a aliança com um império não era só cálculo. O vassalo jurava pelos deuses do suserano e recebia os seus costumes. A Lei proibia o rei de levar o povo de volta ao Egito em busca de cavalos (Dt 17.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Isaías condenou os que desciam ao Egito para confiar nos carros sem olhar para o Santo de Israel (Is 31.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso a política aparece aqui como infidelidade conjugal. A imagem das duas irmãs também não é nova: Jeremias falara de Israel, a infiel, e de Judá, a irmã traiçoeira que viu a outra ser despedida e não temeu (Jr 3.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Ezequiel a usara no capítulo 16 (Ez 16.46-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Uma palavra antes de ler

Convém dizer com franqueza: este é o capítulo mais difícil de Ezequiel, e talvez um dos mais difíceis da Bíblia. A linguagem sexual é crua, mais do que no capítulo 16, e a violência da sentença recai sobre duas mulheres. Muitos leitores, e sobretudo muitas leitoras que sofreram abuso, se ferem com estas linhas. Essa dor não é exagero nem falta de fé, e merece ser acolhida antes de qualquer explicação.

Três coisas ajudam a ler com fidelidade. As mulheres do capítulo são cidades, com os seus reis, conselheiros, sacerdotes e soldados, quase todos homens, responsáveis pelas alianças, pelos altares e pelos sacrifícios. A crueza tinha um alvo: os exilados se orgulhavam de Jerusalém, e o profeta quis chocá-los até que vissem a vergonha da cidade como sua. E a sentença descreve o que os exércitos fariam com Samaria e Jerusalém, não o que um marido possa fazer com a esposa. Nenhum texto bíblico autoriza um homem a ferir uma mulher, e o Novo Testamento manda o marido amar a esposa como Cristo amou a igreja e se entregou por ela, sem aspereza alguma (Ef 5.25-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Usar este capítulo para justificar qualquer violência é lê-lo contra o seu propósito. Como no estudo do capítulo 16, este estudo explica o sentido da metáfora e deixa de lado o detalhe das imagens.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

Deus fala ao profeta de duas irmãs, filhas da mesma mãe, que se prostituíram no Egito desde a juventude: Oolá, a mais velha, que é Samaria, e Oolibá, a mais nova, que é Jerusalém. As duas passaram a pertencer a Deus e tiveram filhos e filhas (vv. 1-4).

Oolá foi infiel enquanto pertencia a Deus: encantou-se com os assírios, governadores e cavaleiros vestidos de púrpura, e se contaminou com os ídolos deles, sem largar os costumes do Egito. Deus a entregou nas mãos desses mesmos amantes, que a humilharam, levaram os seus filhos e a mataram; o seu fim tornou-se conhecido entre as mulheres (vv. 5-10).

Oolibá viu tudo e se corrompeu mais. Desejou os assírios; depois, ao ver caldeus pintados na parede, com ar de oficiais, mandou mensageiros à Caldeia. Os babilônios vieram, e logo ela se enojou deles; então Deus se afastou dela como da irmã. E ela, em vez de voltar, retornou aos amantes do Egito da sua juventude (vv. 11-21).

Deus levantará contra ela os amantes de quem se enojou: babilônios, caldeus, Pecode, Soa e Coa, e os assírios, com carros e armas. Entregará a eles o julgamento, e eles a julgarão segundo os seus costumes, com a crueldade das guerras antigas: os filhos levados, o resto queimado, as joias tomadas. Assim Deus fará cessar a infidelidade que vinha do Egito, porque ela se contaminou com os ídolos das nações (vv. 22-30).

Por ter andado no caminho da irmã, Jerusalém receberá o cálice dela: profundo e de boca larga, cheio de embriaguez e de dor, cálice de espanto e de desolação, que beberá até o fim. Porque esqueceu Deus e lhe deu as costas, carregará a sua infâmia (vv. 31-35).

Por fim, Deus chama o profeta a julgar as duas. Adulteraram com os ídolos e têm sangue nas mãos: ofereceram-lhes os filhos que tinham gerado para Deus e, no mesmo dia, entraram no santuário e o profanaram, e profanaram os sábados. Mandaram buscar homens de longe e puseram sobre a mesa o incenso e o azeite de Deus. Homens justos as julgarão como adúlteras e homicidas; uma assembleia virá contra elas, e as suas casas serão queimadas. Assim Deus fará cessar a infâmia da terra, e elas saberão que ele é o Senhor DEUS (vv. 36-49).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Versículos 1-4 — Duas irmãs, uma mãe e a infidelidade desde o Egito
As duas mulheres são filhas de uma só mãe (v. 2): Israel e Judá vinham do mesmo povo, tirado do Egito pela mesma mão. E o v. 3 é duro: a infidelidade não começou na época dos reis, mas no Egito, ainda na juventude. Ezequiel dissera o mesmo sem metáfora: o povo não quis lançar fora os ídolos do Egito (Ez 20.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Js 24.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o bezerro de ouro mostrou que o Egito saíra do coração menos depressa que dos pés (Êx 32.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para o profeta, não há idade de ouro a que voltar; desde o começo, tudo dependeu da paciência de Deus.

O v. 4 dá os nomes. Oolá, 'oholah, e Oolibá, 'oholivah, vêm de 'ohel, tenda. A explicação mais repetida é que Oolá significa algo como a sua tenda, ou a mulher da tenda, e Oolibá, a minha tenda está nela. É preciso cautela: a grafia hebraica de Oolá não traz o sinal que marcaria com segurança o sentido de a sua tenda, e o texto não explica os nomes. Muitos entendem que a tenda é o santuário: Samaria teria a sua própria, um culto erguido à parte desde Jeroboão (1Rs 12.26-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jerusalém guardaria a de Deus, o templo. Outros lembram as tendas dos altares idólatras (Ez 16.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se o jogo de palavras for esse, a ironia é forte: a irmã que tinha em si a tenda de Deus foi a que mais o traiu.

A mais velha, gedolah, que pode ser também a maior, é Samaria, reino mais extenso. A alegoria não se ocupa da lei que proibia tomar duas irmãs (Lv 18.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): quer dizer apenas que os dois reinos pertenciam ao mesmo Deus e lhe deram gerações de um povo que era dele.

Versículos 5-10 — Oolá e o brilho da Assíria
O v. 5 diz que Oolá foi infiel taḥtay, debaixo de mim, enquanto ainda pertencia a Deus. O verbo que domina a seção é 'agav, desejar com paixão, raro fora deste capítulo. O que seduz Samaria é o brilho do império: os assírios vestidos de tekhelet, púrpura azulada, tecido caro; paḥot usganim, governadores e prefeitos, títulos da administração imperial; baḥure ḥemed, jovens atraentes, cavaleiros montados (vv. 5-6). É a sedução do poder e da força militar. Para um pequeno reino entre impérios, aquilo parecia segurança.

O v. 7 liga a política ao culto: Oolá se contaminou com os gillulim de todos aqueles a quem desejou. Gillulim, palavra preferida de Ezequiel para os ídolos, é ligada por muitos a uma raiz que lembra esterco: um termo de desprezo. A aliança com a Assíria trazia os deuses da Assíria. E o v. 8 lembra a raiz: ela não largou o que trazia do Egito.

Os vv. 9-10 dão a sentença, já cumprida quando Ezequiel fala. Deus entregou Oolá aos amantes que ela desejara; o texto descreve a humilhação pública da cidade e o fim dos seus filhos, levados ou mortos, como aconteceu a Samaria em 722 a.C. (2Rs 17.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela se tornou shem, um nome, entre as mulheres: um caso que todos comentavam. A irmã mais nova teve esse exemplo diante dos olhos por mais de um século.

Versículos 11-21 — Oolibá, que viu e fez pior
O v. 11 é o centro moral do capítulo: Oolibá viu, wattere', e mesmo assim se corrompeu mais do que a irmã. Ver o juízo de outro e não aprender é pecado agravado. Jeremias tinha dito o mesmo com outras palavras (Jr 3.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 12-13 repetem o desejo pela Assíria quase com as palavras dos vv. 5-6, e a repetição é proposital: Jerusalém imitou a irmã ponto por ponto. Acaz foi ao encontro de Tiglate-Pileser em Damasco e de lá mandou o modelo de um altar estrangeiro, que tomou o lugar do altar do templo (2Rs 16.10-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Manassés, segundo Crônicas, foi levado preso por comandantes assírios (2Cr 33.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas, diz o v. 13, seguiram um só caminho.

Nos vv. 14-15 entra a Babilônia, e a sedução agora é pela imagem. Oolibá vê caldeus pintados na parede com shashar, vermelhão, com cintos e turbantes, todos com ar de shalishim, oficiais. O vermelhão é a tinta com que Jeoaquim pintara o seu palácio (Jr 22.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os palácios da Mesopotâmia eram famosos pelos painéis que exaltavam reis e guerreiros. Não se sabe se o profeta pensa em pinturas reais; o sentido é claro: Jerusalém se apaixonou por uma propaganda e desejou o que viu pintado antes de conhecer a realidade.

O v. 16 diz que ela mandou mensageiros à Caldeia; pode-se pensar na embaixada acolhida por Ezequias (2Rs 20.12-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e nos contatos dos últimos reis com a Babilônia (Jr 29.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.59). O v. 17 chega ao desfecho depressa: os babilônios vieram, e logo ela se enojou deles. O verbo yaqa', afastar-se com repulsa, descreve a desilusão. Jeoaquim serviu três anos e se rebelou (2Rs 24.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Zedequias jurou e rompeu (2Rs 24.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A paixão política acaba em ressentimento, e o ressentimento leva a outra paixão.

O v. 18 traz a frase mais triste da seção: Deus se afastou dela, como se afastara da irmã, e o verbo é o mesmo, ou muito próximo, do v. 17. Mas não é um afastamento sem dor. Ezequiel dissera, no capítulo 6, que Deus se sentia ferido pelo coração infiel do seu povo (Ez 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os vv. 19-21 fecham o círculo: em vez de voltar para Deus, Oolibá voltou ao Egito, lembrando-se da juventude. O v. 20 descreve essa volta com uma imagem propositalmente grosseira, que este estudo não reproduz; ela mostra a que ponto chegou o desvario de quem trocou a aliança com Deus pela força militar do faraó, a aposta da corte de Zedequias (Ez 17.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 37.5-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Egito, de onde Deus a tirara, tornou-se o lugar para onde ela queria voltar (v. 21).

Versículos 22-30 — Os amantes que se tornam juízes
A sentença começa com uma inversão: Deus levantará contra Oolibá os amantes de quem ela se enojou (v. 22). O v. 23 dá a lista: babilônios, caldeus, Pecode, Soa e Coa, e os assírios. Pecode aparece também em Jr 50.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e costuma ser identificado com um povo arameu do sul da Mesopotâmia; Soa e Coa são de identificação incerta, talvez povos a leste do Tigre. Os assírios, que já não eram império, talvez estejam ali como lembrança de que todos os antigos amantes estarão presentes. O texto repete, com ironia, as palavras de admiração dos vv. 6 e 12: o que encantava agora ameaça.

O v. 24 tem uma palavra de sentido incerto, hotsen, talvez um tipo de arma ou de carro, e depois uma frase de grande peso: Deus porá o julgamento diante deles, e eles a julgarão segundo os seus próprios costumes, bemishpetehem. Jerusalém quis viver segundo os modos da Babilônia; será julgada segundo os modos da Babilônia. A história mostra a cena: Zedequias foi capturado e levado a Ribla, onde Nabucodonosor o sentenciou (2Rs 25.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 25 diz que Deus porá contra ela o seu qin'ah, o zelo ciumento, e que eles agirão com fúria. O que segue descreve as práticas cruéis dos exércitos antigos contra cidades vencidas e a perda dos filhos e filhas, levados ou consumidos pelo fogo; o v. 26 fala do saque das vestes e das joias, os sinais de dignidade arrancados. O texto não quer ser bonito: diz, com a crueza da guerra, o que esperava Jerusalém.

O v. 27 dá o propósito: Deus fará cessar a zimmah, a infâmia, palavra que se repete no capítulo, e a prostituição que vinha do Egito. O juízo quer acabar com a idolatria. Os vv. 28-29 repetem a entrega aos que ela odeia, que a deixarão despojada do fruto do seu trabalho, e o v. 30 diz o motivo sem metáfora: ela se prostituiu atrás das nações e se contaminou com os seus ídolos.

Versículos 31-35 — O cálice da irmã, profundo e de boca larga
Jerusalém andou no caminho de Samaria; por isso Deus porá na mão dela o kos, o cálice da irmã (v. 31). Os vv. 32-34 formam um pequeno poema, que muitas edições dispõem em versos. O cálice é profundo e largo, cabe muito, e a cidade se tornará motivo de zombaria (v. 32). Está cheio de embriaguez e de yagon, aflição; é kos shammah ushmamah, cálice de espanto e de desolação, o cálice de Samaria, shomron (v. 33). Muitos notam o eco sonoro entre shammah, shemamah e shomron: o próprio nome da irmã soa como devastação.

A imagem do cálice da ira é das mais fortes do Antigo Testamento. Deus tem na mão um cálice que os ímpios bebem até a borra (Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jerusalém bebeu da mão dele o cálice que a fez cambalear (Is 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jeremias o passou, em visão, às nações, a começar por Jerusalém (Jr 25.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Beber o cálice é receber por inteiro a consequência do juízo.

O v. 34 leva a imagem ao limite: ela beberá e esgotará o cálice, roerá os cacos e ferirá a si mesma, porque Deus falou. É o retrato do desespero de quem já não tem nada a defender. Lamentações mostra a cidade nesse estado depois da queda, sentada sozinha, sem consolo (Lm 1.1-2, 8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 35 traz a acusação mais profunda do capítulo, sem nenhuma metáfora: ela esqueceu Deus e o deixou para trás, fora da vista, como quem se livra de alguma coisa jogando-a às costas. A expressão aparece também em 1Rs 14.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e em Ne 9.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Por isso carregará, nasa', a sua infâmia.

Versículos 36-44 — O santuário profanado no mesmo dia
O v. 36 abre uma cena de tribunal: Deus pergunta ao profeta se julgará Oolá e Oolibá e o manda declarar as to'evot, as abominações, das duas. A acusação já não é só política. Elas adulteraram com os ídolos e têm sangue nas mãos: ofereceram-lhes como alimento os filhos que tinham gerado para Deus (v. 37). A Lei proibia essa prática com toda a força (Lv 18.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.2-5; Dt 18.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas Acaz e Manassés a seguiram (2Rs 16.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.6), e Jeremias a denunciou no vale de Ben-Hinom (Jr 7.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ezequiel já o fizera (Ez 16.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.31).

Os vv. 38-39 acrescentam o que choca ainda mais: no mesmo dia em que sacrificavam os filhos aos ídolos, entravam no santuário de Deus e o profanavam, e profanavam os sábados, sinal da aliança (Ez 20.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeremias vira o mesmo à porta do templo: gente que roubava, matava e servia a Baal e depois vinha pôr-se diante de Deus, achando-se segura (Jr 7.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e Ezequiel vira as abominações dentro do próprio templo (Ez 8.5-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A religião dupla é a pior de todas.

Os vv. 40-41 mostram as irmãs mandando buscar homens de longe e preparando-se para recebê-los, com banho, pintura e adornos, um divã suntuoso e uma mesa posta, sobre a qual estavam o incenso e o azeite de Deus. Muitos entendem que se trata de recepções a embaixadores estrangeiros, com banquetes também religiosos. O detalhe decisivo é o último: como no capítulo 16 (Ez 16.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a infidelidade usa os dons de Deus para honrar outros.

Os vv. 42-44 têm texto difícil. O v. 42 fala de uma multidão despreocupada e de homens vindos do deserto; a palavra do texto hebraico tradicional pode ser lida como sabeus ou como bêbados, e as traduções se dividem. O v. 43 tem uma construção obscura, reconstruída de modos diferentes pelos estudiosos. O sentido geral é que, mesmo esgotadas, as duas continuavam a receber os amantes (v. 44).

Versículos 45-49 — A sentença dos justos e o fim da infâmia
O v. 45 diz que 'anashim tsaddiqim, homens justos, julgarão as duas segundo a sentença das adúlteras e das que derramam sangue. Não é elogio à moral dos babilônios: a palavra indica que o julgamento corresponderá ao direito, ainda que os executores não sejam justos. Os dois crimes do v. 37 eram punidos com a morte pela Lei (Lv 20.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o sacrifício de filhos a Moloque, com o apedrejamento pelo povo da terra (Lv 20.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por isso os vv. 46-47 falam de uma qahal, uma assembleia, que virá contra elas, de pedras e espadas, da perda dos filhos e do incêndio das casas. A imagem junta a linguagem do tribunal com a da guerra. Na história, quem executou a sentença foram os exércitos que destruíram Samaria e Jerusalém (2Rs 25.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 48 precisa de cuidado. Deus diz que fará cessar a infâmia da terra e que todas as mulheres serão advertidas para não imitar as irmãs. No contexto da alegoria, as mulheres são as cidades e as nações vizinhas, as mesmas que no capítulo 16 assistiam ao juízo de Jerusalém (Ez 16.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o alvo é a idolatria, e não o comportamento das mulheres. É preciso dizê-lo com clareza, porque o versículo já foi usado para intimidar mulheres, e esse uso não tem apoio no texto.

O v. 49 fecha o capítulo: elas carregarão o peso dos pecados com os ídolos e saberão que ele é 'Adonay YHWH, o Senhor DEUS. Diferentemente do capítulo 16, este não termina com promessa: antes do cerco, não era hora de consolo. A esperança virá depois da queda, e então as duas irmãs, Efraim e Judá, serão reunidas num só povo, governado pelo novo Davi (Ez 37.15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✨ 4. Versículos-Chave

Ez 23.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Oolibá viu o fim da irmã e fez pior. Quem tem diante dos olhos o exemplo do juízo e não aprende responde por mais. Paulo dirá que o que aconteceu a Israel no deserto foi escrito como advertência para nós e logo manda fugir da idolatria (1Co 10.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ez 23.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cálice da irmã passa à mão de Jerusalém, que o beberá até o fim. É uma das passagens centrais da tradição do cálice da ira, ao lado de Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Is 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jr 25.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Jesus assumirá essa imagem no Getsêmani, ao pedir que o cálice fosse afastado, se possível, e ao submeter-se em seguida à vontade do Pai (Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ez 23.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Esquecer Deus e deixá-lo para trás é a raiz do capítulo: não um ato isolado, mas uma direção de vida. Jesus pôs à frente de todos os mandamentos o amor a Deus com a vida inteira (Mt 22.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Tiago chama de adultério a amizade com o mundo que toma o lugar de Deus (Tg 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ez 23.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O sacrifício dos filhos e o culto no templo no mesmo dia. Para Deus, o culto não santifica a vida; é a vida que revela o que vale o culto. Jesus retomou Jr 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao purificar o templo (Mc 11.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), denunciando o mesmo divórcio entre o lugar santo e a vida.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A confiança como questão de aliança. Buscar segurança fora de Deus é infidelidade, mesmo quando parece só prudência política. O salmista põe de um lado a confiança nos carros e nos cavalos e, do outro, a lembrança do nome do SENHOR (Sl 20.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jesus ensinou que é impossível dividir a lealdade entre dois senhores (Mt 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ídolo, no capítulo, tem rosto de império; hoje tem outros rostos, mas a pergunta é a mesma: em quem descansamos?

O pecado que não aprende com o juízo. O agravante de Oolibá é ter visto. A história dos que caíram foi escrita para ensinar (Rm 15.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 10.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e quanto mais se sabe, mais se responde (Lc 12.47-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo mostra também o círculo do desejo: encanto, decepção, repulsa e nova paixão, sem nunca voltar para Deus.

O cálice da ira. O juízo não é capricho: é a entrega às consequências do caminho escolhido. Os amantes viram juízes, os costumes desejados viram tribunal, a irmã que caiu passa adiante o seu cálice. Mas o cálice está na mão de Deus, e ele decide quem o bebe. Isaías anunciará que Deus o tiraria da mão de Jerusalém (Is 51.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), promessa que só se entende plenamente no Getsêmani.

O zelo do Deus que ama. O qin'ah do v. 25 é o zelo do amor ferido, o do Deus que no Sinai se chamou zeloso (Êx 20.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 34.14). O juízo nasce do amor traído, não da indiferença. E o silêncio do fim do capítulo não é a última palavra: Ezequiel anunciará as duas irmãs reunidas (Ez 37.15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o santuário de Deus no meio delas para sempre (Ez 37.26-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Ezequiel 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no ponto mais baixo da Redenção em andamento. A aliança do Êxodo foi quebrada pelos dois reinos, do Egito às vésperas do exílio. É a Queda repetida em escala de nação: o desejo pelo que parece bom aos olhos (Gn 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a desilusão e a fuga de Deus. O capítulo termina sem promessa e deixa aberta a pergunta da história de Israel: se o povo de Deus, com a Lei, o templo e os profetas, voltou sempre ao Egito, quem será fiel? A resposta não virá de uma terceira irmã, mas de um Esposo fiel, que bebe o cálice que as irmãs mereciam e forma, delas e das nações, uma só noiva. A Nova Criação fecha o arco: a cidade santa desce do céu como noiva enfeitada para as bodas, e Deus faz do meio do seu povo a sua morada (Ap 21.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.2 — O cálice que passou de mão em mão e chegou ao Filho

A imagem central do capítulo é o cálice que passa de Samaria a Jerusalém (vv. 31-34). Na Escritura, esse cálice continua passando: de Jerusalém às nações (Jr 25.15-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a Edom (Lm 4.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), à Babilônia (Hab 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ninguém parece capaz de interromper a corrente.

Até que o cálice chega às mãos de Jesus. Ele pergunta a Tiago e a João se podem beber o cálice que ele vai beber (Mc 10.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Getsêmani, chama o Pai de Aba, pede que, se possível, aquele cálice passe, e se entrega à vontade do Pai (Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Pedro saca a espada, Jesus o detém e diz que não deixará de beber o cálice que o Pai lhe deu (Jo 18.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). À luz dos profetas, esse cálice não é só dor física nem só a morte: é o cálice da ira de Deus contra o pecado, o de Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Is 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jr 25.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Ez 23.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), cheio de espanto e de desolação. A angústia do Getsêmani só se mede quando se sabe o que havia nele.

A diferença é total. Oolibá recebeu o cálice por ter andado no caminho da irmã; Jesus o recebeu sem nunca ter andado nesse caminho, e o bebeu pelos pecados dos outros. Paulo diz que Deus tratou como pecado, em nosso favor, aquele que nunca pecou (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que por meio dele os que creem são livrados da ira (Rm 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 1.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

E a promessa de Isaías se cumpre de um modo que nenhum profeta poderia prever. Deus disse que tiraria o cálice da mão de Jerusalém e que ela não o beberia mais (Is 51.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele o tirou da mão da cidade e o pôs na mão do Filho, em Jerusalém, numa noite de Páscoa. Na mesa do Senhor, o cálice que os discípulos recebem é o da comunhão com o sangue de Cristo e da aliança nova (1Co 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo tira daí a lição de Ezequiel: quem bebe o cálice do Senhor não pode beber o dos ídolos (1Co 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Um cuidado necessário: o Novo Testamento não cita Ezequiel 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nos relatos da paixão. A ligação é de teologia bíblica: Jesus assumiu a imagem do cálice, que vem da tradição profética, e Ez 23.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos textos centrais dessa tradição.

6.3 — O juízo das duas irmãs em quatro níveis

(a) O contexto histórico imediato. Por volta de 591-588 a.C., Jerusalém aposta no Egito contra a Babilônia. Ezequiel, entre os exilados, anuncia que essa aposta é a repetição do caminho de Samaria e terminará do mesmo jeito.

(b) A aplicação a Judá no seu tempo. Para os exilados, que esperavam a sobrevivência de Jerusalém, o capítulo tirava a última ilusão: o templo não protegeria a cidade que o profanava (vv. 38-39), e a aliança com o faraó não a salvaria. O chamado implícito era parar de olhar para o Egito e olhar para Deus.

(c) O cumprimento parcial histórico. Em 586 a.C. (alguns preferem 587 a.C.), os babilônios tomaram Jerusalém, queimaram o templo e as casas e levaram o povo (2Rs 25.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Zedequias foi sentenciado em Ribla (2Rs 25.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como o v. 24 deixara entrever. O propósito dos vv. 27 e 48 também se cumpriu em parte: muitos estudiosos notam que a comunidade que voltou do exílio não recaiu no culto aos ídolos como antes, embora tivesse outros pecados (Ne 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

(d) O cumprimento pleno em Cristo. Em Cristo, o cálice das irmãs é bebido por quem não o merecia, e as duas irmãs são reunidas, como prometera Ez 37.15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Samaria, a mais velha, foi alcançada por Jesus junto ao poço de Jacó, numa conversa sobre a água viva e sobre uma adoração que já não depende de um monte nem de outro (Jo 4.7-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e foi o primeiro campo da pregação apostólica fora da Judeia (At 8.5-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus falou de outras ovelhas, de fora daquele curral, que ele também traria (Jo 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo diz que Cristo pôs abaixo a parede de inimizade entre judeus e gentios e formou dos dois uma nova humanidade (Ef 2.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.4 — O Esposo fiel e a tenda verdadeira

O capítulo fala de duas esposas infiéis; o Novo Testamento, de um Esposo fiel. Jesus se apresentou como o noivo (Mc 2.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo temia que os coríntios, prometidos a Cristo, se desviassem dessa lealdade (2Co 11.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Ef 5.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Esposo não exige a fidelidade da noiva antes de amá-la: entrega-se por ela, a purifica e a apresenta a si mesmo sem mancha. Em Ezequiel 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), as mulheres são despojadas das joias; no Apocalipse, a noiva recebe de presente uma veste de linho fino e brilhante (Ap 19.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A fidelidade de Cristo não depende da nossa, porque ele não pode desmentir o que é (2Tm 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os nomes das irmãs também apontam, com cautela, para Cristo. Se Oolibá quer dizer a minha tenda está nela, o pecado de Jerusalém foi ter a tenda de Deus e trocá-la pelos ídolos. João, ao falar da vinda do Verbo à condição humana, usa o verbo skēnoō, de skēnē, tenda: em Jesus, a presença de Deus montou acampamento na nossa humanidade (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ele chamou o próprio corpo de templo (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No fim, a mesma palavra skēnē anuncia que Deus faz do meio do seu povo a sua morada (Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É um eco de teologia bíblica, não um ensino do Novo Testamento sobre Ezequiel 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e não deve ser forçado.

Há ainda uma cena que conversa com o v. 45, onde homens justos julgam as adúlteras. Num trecho que falta nos manuscritos mais antigos do Evangelho de João, mas que a igreja recebeu e lê, acusadores trazem a Jesus uma mulher surpreendida em adultério. Ele propõe que começasse o apedrejamento quem não tivesse pecado, e eles saem, um a um: nenhum se achou justo o bastante. O único justo ali não a condenou e a mandou viver sem voltar ao pecado (Jo 8.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A justiça não foi negada; foi assumida por ele, que levaria na cruz a sentença que as pedras pretendiam executar.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Ezequiel 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) termina sem esperança, e a pregação cristã não deve apressar-se a escondê-lo. O capítulo diz a verdade sobre o coração humano: viu o juízo dos outros e não aprendeu; usou os dons de Deus para honrar os ídolos; frequentou o templo no mesmo dia em que sacrificava os filhos; esqueceu Deus e o deixou para trás. E diz a verdade sobre o cálice: ele é profundo, de boca larga, cabe muito, e alguém terá de bebê-lo.

O evangelho entra exatamente aqui. O cálice que Jerusalém mereceu, e que nós merecemos, foi posto na mão de Jesus, e ele não o recusou. Pregar este capítulo à luz de Cristo é levar o ouvinte a reconhecer que também andou no caminho da irmã e a ouvir que o Esposo fiel bebeu o seu cálice até o fim, para lhe dar o cálice da comunhão. Por isso, sobre quem está unido a Cristo, a sentença de condenação já não pesa (Rm 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Na história da leitura, o capítulo foi pouco usado no culto público; em nossos dias, as críticas à violência da metáfora conjugal têm ajudado a igreja a lê-lo com mais cuidado e a recusar qualquer uso dele contra as mulheres.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Perguntar em quem descansamos. Samaria e Jerusalém foram seduzidas por uniformes, cavalos e títulos. Os nossos impérios se chamam dinheiro, carreira, influência, aprovação, a força de um grupo político; nada disso é mau em si, mas tudo pode ocupar o lugar de Deus. Quando o medo aperta, para onde corremos? Cristo, que recusou os reinos do mundo oferecidos em troca de adoração (Mt 4.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), nos ensina a pôr o reino de Deus acima de todas as outras seguranças (Mt 6.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Desconfiar das imagens pintadas na parede. Oolibá se apaixonou por figuras pintadas antes de conhecer a realidade (vv. 14-16). Vivemos cercados de imagens que vendem prestígio, beleza e segurança. O desejo moldado por propaganda acaba, como no v. 17, em decepção. Quem conhece o Cristo verdadeiro aprende a examinar o que deseja.

Aprender com a queda dos outros. O pecado agravado de Oolibá foi ver e não aprender (v. 11). A história da igreja e a nossa própria história estão cheias de advertências. Paulo adverte que a sensação de firmeza é justamente a hora de vigiar (1Co 10.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ver a queda de um irmão deve produzir humildade, oração e vigilância, nunca desprezo.

Recusar a vida dupla. No mesmo dia, sacrifício aos ídolos e culto no templo (vv. 38-39). A fé que separa o domingo da segunda-feira, a oração das decisões, o louvor do modo como tratamos a família e os pobres, repete esse pecado. O cálice do Senhor e o cálice dos ídolos não cabem na mesma mão (1Co 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ler o texto com cuidado e proteger quem sofre. Este capítulo não pode ser usado para justificar nenhuma forma de violência, em casa ou fora dela, nem para controlar ou intimidar mulheres. Se você vive uma situação de violência, a fé não pede que você se cale: procure ajuda, fale com alguém de confiança e com a liderança da sua igreja, e, no Brasil, ligue para a Central de Atendimento à Mulher, no 180, ou para a polícia, no 190, em caso de emergência. O Esposo que se pôs entre a mulher acusada e as pedras não quer ninguém ferido em nome dele.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Por que o capítulo diz que a infidelidade das irmãs começou no Egito (vv. 3, 8, 19)? O que isso ensina sobre a história do povo de Deus e sobre a nossa?
  2. O que seduziu Samaria e Jerusalém nos assírios e nos babilônios (vv. 6, 12, 14-15)? Que imagens de poder e segurança mais atraem você ou a sua comunidade?
  3. Oolibá viu o fim da irmã e fez pior (v. 11). Que advertências você tem visto sem levar a sério?
  4. Onde a vida dupla dos vv. 38-39 pode estar se instalando na sua rotina?
  5. Como o cálice de Ez 23.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ajuda a entender a oração de Jesus no Getsêmani (Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a palavra dele a Pedro (Jo 18.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))?
  6. Como uma igreja pode ler este capítulo com fidelidade e, ao mesmo tempo, acolher quem sofreu violência?
  7. Para meditação e oração: leia Is 51.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Agradeça a Jesus por ter tomado na mão o cálice que você merecia, e peça que ele afaste o seu coração dos ídolos que ainda o atraem.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Raymond C. Ortlund Jr. — God's Unfaithful Wife: A Biblical Theology of Spiritual Adultery (série New Studies in Biblical Theology, IVP/Apollos)
  • Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
  • Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
  • O. Palmer Robertson — O Cristo dos pactos (Cultura Cristã) / The Christ of the Covenants (P&R, 1980)

Comentários de Ezequiel:

  • John B. Taylor — Ezequiel: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • Daniel I. Block — The Book of Ezekiel, Chapters 1–24 (NICOT, Eerdmans, 1997)
  • Moshe Greenberg — Ezekiel 21–37 (Anchor Bible, Doubleday, 1997)
  • Walther Zimmerli — Ezekiel 1 (série Hermeneia, Fortress, 1979)
  • Leslie C. Allen — Ezekiel 20–48 (Word Biblical Commentary, 1990)
  • Christopher J. H. Wright — The Message of Ezekiel (série de comentários The Bible Speaks Today, IVP, 2001)

Sobre a metáfora conjugal e a sua leitura hoje:

  • Renita J. Weems — Battered Love: Marriage, Sex, and Violence in the Hebrew Prophets (Fortress, 1995), leitura crítica que ajuda a ouvir as objeções de muitos leitores.

Sabedoria para o Cotidiano
Samaria e Jerusalém não caíram de repente: foram atraídas, uma aliança depois da outra, por promessas de força que tinham o brilho de uniformes e de pinturas na parede. Observe o que encanta os seus olhos e para onde você corre quando o medo aperta, e aprenda com a queda dos outros antes que ela seja a sua. Não divida o coração entre o culto e os ídolos. E quando a consciência lhe mostrar o cálice que você mereceu, lembre-se de que Jesus já o bebeu até o fim, para que você recebesse, do Esposo fiel, o cálice da comunhão.

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