Ezequiel · 26 de 66 · Antigo Testamento
Ezequiel — Capítulo 25
Título do capítulo: Os vizinhos que aplaudiram a ruína
Gênero literário: Profecia (quatro oráculos breves contra as nações vizinhas de Judá, Amom, Moabe, Edom e a Filístia, cada um com a acusação introduzida por "porque", a sentença introduzida por "por isso" e o fecho com a fórmula de reconhecimento; abertura da coleção de oráculos às nações, Ez 25–32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
Número de versículos: 17
Nota de precisão: o capítulo não traz data própria. As falas que ele denuncia supõem o templo já profanado, a terra arrasada e Judá levado ao exílio (v. 3), e por isso a maioria dos estudiosos situa estes oráculos pouco depois da queda de Jerusalém, em 586 a.C. (alguns preferem 587 a.C.); outros pensam que o profeta fala do que já via como certo. Os anos a.C. deste estudo são aproximados. A localização exata de algumas cidades de Moabe (v. 9) é discutida, e as notícias sobre o destino posterior desses povos vêm de fontes antigas fora da Bíblia, tratadas com a devida cautela.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
A segunda parte do livro
Ezequiel, sacerdote levado à Babilônia em 597 a.C. com o rei Joaquim, profetizava aos exilados junto ao rio Quebar desde cerca de 593 a.C. (Ez 1.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo 24 terminou com o cerco de Jerusalém em andamento e com a promessa de que um fugitivo traria a notícia da queda (Ez 24.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o fugitivo só chega em Ez 33.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Entre os dois pontos, o livro põe oito capítulos de oráculos contra as nações (Ez 25–32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O arranjo é deliberado: enquanto Jerusalém arde, o leitor é levado a olhar ao redor e a perguntar o que Deus fará com os povos que assistiram à queda.
Os oráculos às nações eram um gênero conhecido dos profetas (Is 13–23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 46–51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 1–2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sf 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Raramente chegavam aos povos a que se dirigiam; quem os ouvia era Israel. Diziam ao povo de Deus que o seu Senhor não era um deus local, derrotado junto com a cidade, mas o juiz de todos os povos. A coleção de Ezequiel trata de sete nações: Amom, Moabe, Edom, a Filístia, Tiro, Sidom e o Egito. Tiro e o Egito recebem a maior parte do espaço (Ez 26–32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Babilônia não aparece. Em Isaías e Jeremias há oráculos longos contra ela (Is 13–14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 50–51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas Ezequiel a apresenta como a espada que Deus usa (Ez 21.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 30.24-25) e a ela entrega o Egito como pagamento pelo trabalho contra Tiro (Ez 29.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O capítulo 25 reúne os quatro vizinhos mais próximos, num movimento que contorna a terra de Judá: Amom, a nordeste, do outro lado do Jordão; Moabe, a leste do mar Morto; Edom, a sudeste, nas montanhas de Seir; e os filisteus, a oeste, no litoral. Os quatro oráculos são breves e têm a mesma forma: ya'an, porque, introduz o que a nação fez ou disse; laken, por isso, introduz o que Deus fará; e o fecho anuncia que saberão que ele é o SENHOR. É a forma do discurso de juízo dos profetas, condensada ao essencial.
Vizinhos e parentes
Três desses povos eram, segundo Gênesis, parentes de Israel: Amom e Moabe descendiam de Ló, sobrinho de Abraão (Gn 19.36-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Edom, de Esaú, irmão de Jacó (Gn 36.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Lei mandara Israel não hostilizá-los na caminhada para a terra (Dt 2.4-9, 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); depois, excluiu da assembleia os amonitas e os moabitas, que não tinham acolhido Israel com pão e água e tinham contratado Balaão para amaldiçoá-lo, e mandou não abominar o edomita, porque era irmão (Dt 23.3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os filisteus vinham do mar, e a Escritura os liga a Caftor, que muitos identificam com Creta (Am 9.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 47.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A história entre esses vizinhos e Israel foi de guerras, tributos e alianças de ocasião, desde os juízes e Davi (2Sm 8.2, 12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) até os dias de Acaz (2Cr 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os últimos anos de Judá
No fim do século VII e no começo do VI a.C., os vizinhos aparecem do lado errado repetidas vezes. Sob Jeoaquim, bandos de moabitas e amonitas se juntaram aos caldeus contra Judá (2Rs 24.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por volta de 594 a.C., embaixadores de Edom, Moabe, Amom, Tiro e Sidom estavam em Jerusalém, ao que tudo indica para conspirar contra a Babilônia (Jr 27.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas, na hora decisiva, Judá ficou só. Ezequiel descrevera Nabucodonosor numa encruzilhada, tirando a sorte entre o caminho de Rabá, a capital amonita, e o de Jerusalém; a sorte caiu sobre Jerusalém (Ez 21.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amom escapou naquele momento, e o livro registra a sua zombaria (Ez 21.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Depois da queda, Baalis, rei dos amonitas, esteve por trás do assassinato de Gedalias, o governador posto pelos babilônios (Jr 40.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 41.10, 15). Edom, por sua vez, ficou na memória do povo como o irmão que se alegrou com a ruína, apoiou a destruição e cortou a fuga dos sobreviventes (Sl 137.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ob 10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 4.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quanto aos filisteus, Nabucodonosor já tinha tomado Asquelom em 604 a.C., segundo as crônicas babilônicas, e as cidades da costa sobreviviam como vassalas da Babilônia.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
A palavra do SENHOR vem ao profeta, que recebe ordem de voltar o rosto para os amonitas e profetizar contra eles (vv. 1-2). Porque disseram "ah!", em tom de deboche, quando o santuário de Deus foi profanado, quando a terra de Israel foi arrasada e quando a casa de Judá foi para o exílio, Deus os entregará aos povos do oriente, que levantarão as suas tendas na terra deles e se alimentarão dos frutos e do leite que ela produz. Rabá se tornará lugar onde camelos pastam, e a terra dos amonitas, abrigo de rebanhos; e saberão que ele é o SENHOR (vv. 3-5). Porque aplaudiram, sapatearam e festejaram com desprezo profundo a desgraça da terra de Israel, Deus agirá contra eles: serão saqueados pelas nações e deixarão de existir como povo (vv. 6-7).
Porque Moabe, e Seir com ele, disseram que Judá não passava de um povo igual a qualquer outro, Deus deixará exposto o flanco de Moabe, a começar pelas cidades da fronteira que eram o orgulho da terra: Bete-Jesimote, Baal-Meom e Quiriataim. Ele entregará Moabe, junto com os amonitas, aos povos do oriente, de modo que de Amom não reste memória entre os povos, e julgará Moabe; e saberão que ele é o SENHOR (vv. 8-11).
Porque Edom agiu com vingança contra a casa de Judá e se tornou culpado ao vingar-se, Deus estenderá a mão contra Edom, eliminará dele gente e animais e o deixará em ruínas, de Temã até Dedã. Israel, o povo de Deus, será o instrumento da ira divina contra Edom, e os edomitas experimentarão a vingança que pertence a Deus (vv. 12-14).
Porque os filisteus foram vingativos, desprezaram Judá do fundo da alma e quiseram destruí-lo, por causa de uma hostilidade sem fim, Deus agirá contra eles, cortará os quereteus e acabará com o que sobrar do litoral. A punição será severa, com repreensões cheias de furor, e, quando ela vier, saberão que ele é o SENHOR (vv. 15-17).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-7 — Amom: o "ah!" diante do santuário e as palmas sobre a ruína
O profeta recebe a ordem de sim panekha, pôr o rosto contra os amonitas (v. 2), gesto que já fizera contra os montes de Israel (Ez 6.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e contra Jerusalém (Ez 21.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ezequiel está na Babilônia, longe de Rabá. Voltar o rosto é tomar posição: a palavra de Deus alcança quem está longe.
A acusação do v. 3 se concentra numa interjeição: he'ach, um "ah!" de satisfação maliciosa, o riso curto de quem vê o adversário cair. Os salmos a põem na boca dos inimigos que se divertem com a desgraça do justo (Sl 35.21, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 40.15), e Ezequiel a ouvirá também de Tiro (Ez 26.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e dos inimigos que cobiçam os montes de Israel (Ez 36.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O "ah!" de Amom recai sobre três coisas, e elas são o coração da identidade de Israel: o miqdash, santuário, profanado; a 'admat Yisra'el, terra de Israel, desolada; a beit Yehudah, casa de Judá, levada ao exílio. Templo, terra e povo. Amom ri da ruína de tudo aquilo que fazia de Israel o povo de Deus. Por isso a ofensa não é só contra Judá; é contra o Deus do santuário, que fala de miqdashi, o meu santuário.
A sentença dos vv. 4-5 tem uma ironia precisa. Amom, que se alegrou com Judá perdendo a terra, perderá a sua. Os bene-qedem, filhos do oriente, eram as tribos nômades do deserto a leste, que já aparecem com os midianitas invadindo a terra nos dias de Gideão (Jz 6.3, 33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e no oráculo de Jeremias sobre os árabes (Jr 49.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Eles armarão tirot, acampamentos de tendas, e mishkanim, moradas, no território de Amom e se sustentarão com o que a terra produz, os frutos e o leite. Rabá, a capital, será neweh gemallim, pastagem de camelos. A cidade que Davi cercou e tomou (2Sm 12.26-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que muitos séculos depois se chamaria Filadélfia, a atual Amã, é imaginada como um lugar onde os animais pastam entre as ruínas.
O segundo oráculo contra Amom (vv. 6-7) acrescenta gestos à interjeição: bater palmas, macha' yad, e bater os pés, raqa' beregel, com she'at benefesh, desprezo vindo da alma. Os mesmos gestos, em outro contexto, acompanham o lamento ou a indignação do profeta diante do pecado de Israel (Ez 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Deus bate as mãos contra o lucro injusto de Jerusalém (Ez 22.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, porém, são aplauso. Lamentações descreve os que passavam pelo caminho batendo palmas e balançando a cabeça diante da cidade destruída (Lm 2.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra she'at é forte, e volta no v. 15 e em Ez 36.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): é o desprezo que não se contenta em vencer, mas quer humilhar.
A sentença usa a linguagem da guerra santa invertida: Deus estende a mão, entrega como presa, corta, faz perecer. Mas o objetivo declarado é o mesmo dos oráculos contra Israel: que saibam que ele é o SENHOR. O juízo sobre as nações não é vingança de um deus nacional ferido; é a revelação do Deus de toda a terra.
Versículos 8-11 — Moabe e a negação da eleição
O pecado de Moabe é uma frase. Ele e Se'ir, as montanhas de Edom, mencionadas aqui de passagem, disseram que a casa de Judá era kekhol haggoyim, igual a qualquer outro povo (v. 8). A acusação parece branda perto das de Amom e Edom, mas é teológica. Dizer que Judá era um povo qualquer era negar a eleição: o seu Deus seria um deus como os outros, e a sua queda provava que o deus de Judá perdera a guerra, como perdiam os deuses dos vencidos. Moabe nega o que o próprio Balaão, contratado por um rei moabita, tivera de reconhecer séculos antes: Israel vivia separado e não entrava na conta dos outros povos (Nm 23.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Deuteronômio afirmara que nenhum outro povo tinha um Deus tão próximo nem leis tão justas (Dt 4.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há uma ironia dolorosa no contexto do livro. O próprio Israel quis ser igual aos outros: pediu um rei para não ser diferente dos vizinhos (1Sm 8.5, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os exilados diziam querer servir à madeira e à pedra como os outros povos, o que Deus afirma que nunca aconteceria (Ez 20.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moabe diz por zombaria o que Israel desejara por infidelidade. Deus responde a ambos que Judá não é um povo qualquer, não porque seja melhor, mas porque ele o escolheu.
A sentença do v. 9 diz que Deus abrirá o katef, o ombro, o flanco de Moabe, a partir das cidades da fronteira. O território ao norte do rio Arnom, onde ficavam as cidades citadas, era a faixa mais disputada entre Israel e Moabe, atribuída antes a Rúben (Nm 32.37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Js 13.17-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Bete-Jesimote ficava nas planícies de Moabe, junto ao Jordão, perto do lugar onde Israel acampou antes de entrar na terra (Nm 33.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Baal-Meom e Quiriataim ficavam no planalto. A Estela de Messa, inscrição do rei moabita do século IX a.C. que celebra a sua vitória sobre Israel, menciona a construção de Baal-Meom e de Quiriataim. O texto chama essas cidades de tsevi 'erets, o orgulho, o esplendor da terra. Abrir o flanco é deixar indefesa justamente a fronteira onde Moabe se sentia mais forte.
Os vv. 10-11 entregam Moabe, junto com Amom, aos povos do oriente, para que de Amom não reste memória entre os povos. Moabe também aparece em vários profetas (Is 15–16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 2.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sf 2.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Sofonias usa quase a mesma queixa: Moabe e Amom insultaram o povo de Deus e se engrandeceram contra o seu território (Sf 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 12-14 — Edom: a vingança tomada nas próprias mãos
Três vezes num só versículo aparece a raiz naqam, vingar (v. 12), e ela volta duas vezes no v. 14. Edom 'asot binqom, agiu com vingança, contra a casa de Judá, e vayye'shemu 'ashom, tornou-se gravemente culpado, ao vingar-se. Vingança de quê? Gênesis já conta o rancor de Esaú contra Jacó, que o fez planejar matá-lo (Gn 27.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois vieram séculos de domínio de Judá sobre Edom e de revoltas edomitas (2Sm 8.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 8.20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.7). Amós acusa Edom de perseguir o irmão com a espada e de guardar a ira para sempre (Am 1.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Jerusalém caiu, a velha conta foi cobrada. Obadias descreve Edom observando de longe, alegrando-se, saqueando e cortando a fuga dos sobreviventes nas encruzilhadas (Ob 10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o salmista lembra que os edomitas gritavam pela demolição de Jerusalém até os alicerces (Sl 137.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos historiadores pensam que, nessa época, os edomitas avançaram para o Negueve, no sul de Judá; alguns óstracos encontrados em Arade, do fim da monarquia, falam do perigo que vinha de Edom.
A palavra-chave do oráculo é decisiva. Na Lei, naqam não é, em primeiro lugar, o desabafo pessoal de quem foi ofendido; é a reparação da justiça, que pertence a Deus ou à autoridade que ele estabelece. A Lei proibia o israelita de se vingar do próximo ou guardar rancor (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o cântico de Moisés põe a vingança na boca de Deus: a ele pertence retribuir (Dt 32.35, 41, 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pecado de Edom é ter tomado nas próprias mãos o que pertencia a Deus. A sentença o mostra com clareza: no v. 14, Deus diz que porá a sua vingança, niqmati, sobre Edom. A vingança que Edom usurpou volta ao seu dono.
O v. 13 descreve a extensão do juízo: de Temã até Dedã. Temã era uma região de Edom, ligada a um neto de Esaú e famosa pela sabedoria (Gn 36.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 49.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 1.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Dedã, um oásis de comerciantes árabes, mais a sudeste, cujas caravanas passavam pela região (Is 21.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 49.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão abarca o território de ponta a ponta.
O v. 14 é singular em toda a coleção. Só aqui Deus diz que executará o juízo beyad 'ammi Yisra'el, pela mão do seu povo Israel. E só aqui a fórmula final muda: em vez de saberem que ele é o SENHOR, os edomitas conhecerão a sua vingança. O versículo pede leitura cuidadosa. Não é uma licença para Israel, ou para qualquer povo, fazer violência em nome de Deus; é o anúncio de que a ordem será invertida, e o irmão humilhado não ficará para sempre debaixo do irmão que o humilhou. O texto insiste que a ira é de Deus, e não do povo: Israel fará em Edom segundo a ira e o furor dele. Ezequiel voltará a Edom com um capítulo inteiro (Ez 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o porá no centro da promessa de restauração dos montes de Israel (Ez 36.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Parte dos edomitas se instalou no sul de Judá, na região que os gregos chamaram de Idumeia, e, no fim do século II a.C., segundo o historiador judeu Flávio Josefo, os governantes asmoneus de Judá a submeteram e impuseram a circuncisão aos seus habitantes. Muitos veem aí um cumprimento parcial do v. 14. A cautela é necessária: o texto não abençoa os métodos de nenhum governante, e a imposição de uma religião pela força não é o modo de Deus agir no evangelho.
Versículos 15-17 — A Filístia: a inimizade antiga e os que serão cortados
O último oráculo junta as acusações dos anteriores. Os filisteus agiram binqamah, com vingança, e se vingaram bishe'at benefesh, com o mesmo desprezo da alma que se viu em Amom, lemashchit, para destruir, movidos por 'eyvat 'olam, uma inimizade antiga, ou perpétua (v. 15). A mesma expressão será usada para Edom (Ez 35.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a hostilidade que atravessa gerações e se alimenta de si mesma. Entre filisteus e israelitas, ela vinha de Sansão, da arca capturada (1Sm 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), da morte de Saul em Gilboa (1Sm 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e das incursões do tempo de Acaz (2Cr 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amós acusa Gaza de vender populações inteiras como escravos a Edom (Am 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Joel denuncia os filisteus por terem vendido gente de Judá (Jl 3.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A sentença do v. 16 tem um jogo de palavras que o português não reproduz: vehikhratti 'et-kerethim, eu cortarei os quereteus. Karat é cortar, e os kerethim eram um grupo ligado aos filisteus, provavelmente de origem cretense, que aparece no Negueve (1Sm 30.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e em Sofonias (Sf 2.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Curiosamente, os quereteus também formavam, ao lado dos peleteus, a guarda pessoal de Davi (2Sm 8.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 16 acrescenta she'erit chof hayyam, o que sobrar do litoral, expressão que lembra Jeremias, que chama os filisteus de resto da ilha de Caftor (Jr 47.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 17 fala de neqamot gedolot, vinganças grandes, acompanhadas de tokhechot chemah, repreensões ardentes, e fecha com a fórmula de reconhecimento, ligada ao momento em que a vingança de Deus os alcançar. Os nomes de Gaza e Asdode continuaram no mapa, e voltarão a aparecer no Novo Testamento.
✨ 4. Versículos-Chave
Ez 25.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O "ah!" de Amom diante do santuário profanado, da terra arrasada e do povo exilado resume o pecado do capítulo: alegrar-se com a ruína do outro, sobretudo quando a ruína toca as coisas de Deus. Provérbios adverte contra quem se alegra com a queda do inimigo (Pv 24.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Obadias acusa Edom do mesmo riso (Ob 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na tradição cristã, o versículo é lido à luz de outro escárnio diante de outro templo, o dos que passavam diante da cruz (Mc 15.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ez 25.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A frase de Moabe, de que Judá era um povo igual a qualquer outro, nega a eleição de Israel e reduz o Deus de Israel a um deus derrotado. A resposta de Deus mostra que a eleição não depende do sucesso visível do povo: Judá caiu, mas o Deus de Judá continuava a ser o Senhor de Moabe. O Novo Testamento retoma o tema ao chamar a igreja de povo que Deus adquiriu para si e chamou da escuridão, encarregado de proclamar o que ele fez (1Pe 2.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ez 25.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Edom agiu com vingança, e Deus diz que porá sobre ele a sua própria vingança. O trecho ensina que a vingança usurpada pelo ser humano é pecado e que a justiça pertence a Deus (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo cita esse princípio para pedir aos cristãos que não se vinguem, mas deixem espaço para o juízo de Deus e respondam ao mal com o bem (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Ez 25.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O capítulo termina com a fórmula de reconhecimento, que aparece em cada oráculo. O alvo do juízo sobre as nações não é a destruição em si, mas que o Deus de Israel seja conhecido como o SENHOR de todos. Isaías anuncia o dia em que todos se ajoelharão diante dele e o reconhecerão (Is 45.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo aplica essa promessa a Jesus (Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O Deus de Israel é o Senhor das nações. No momento em que Jerusalém cai e tudo parece dizer que o deus de Judá perdeu, Ezequiel anuncia que esse mesmo Deus julga Amom, Moabe, Edom e a Filístia. A queda da cidade não foi derrota de Deus, mas juízo dele, e os vizinhos que riram estão sob a mesma mão. A Escritura afirma desde o começo que Deus fixou as fronteiras dos povos (Dt 32.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e conduziu os filisteus de Caftor como conduziu Israel do Egito (Am 9.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo dirá em Atenas que Deus determinou os tempos e os lugares de cada povo e agora chama todos ao arrependimento (At 17.26-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O pecado do escárnio. O que une os quatro oráculos é a atitude diante da ruína do outro: o riso, as palmas, o desprezo, a vingança, a inimizade que não acaba. A Escritura trata o prazer com a desgraça alheia como pecado grave: zombar do pobre é ofender quem o criou, e festejar a desgraça de alguém atrai castigo (Pv 17.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jó afirma, entre as provas da sua integridade, que não se alegrou com a ruína de quem o odiava (Jó 31.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Obadias resume o princípio: o que Edom fez será feito a ele (Ob 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus o formula em termos gerais: o critério que alguém aplica aos outros será aplicado a ele (Mt 7.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A vingança pertence a Deus. Edom e os filisteus tomaram a vingança nas próprias mãos, e Deus a retoma como sua. A Lei proíbe a vingança pessoal (Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), os salmos levam a Deus o clamor por justiça em vez de executá-la (Sl 94.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Novo Testamento manda deixar a retribuição com Deus (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isso não diminui a seriedade do mal; garante que nenhum mal ficará sem resposta, e que a resposta virá de quem julga com justiça.
O conhecimento de Deus entre os povos. A fórmula de reconhecimento, que fecha cada oráculo, mostra o propósito de Deus na história: que os povos saibam quem ele é. Em Ezequiel, isso vem primeiro pelo juízo; mas o livro também anuncia que as nações conhecerão o SENHOR quando ele se mostrar santo na restauração do seu povo (Ez 36.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 37.28). A promessa feita a Abraão, de que a bênção alcançaria por meio dele todos os clãs do mundo (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), não foi revogada pelos oráculos de juízo.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
Ezequiel 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está na Redenção em andamento, num ponto em que a história de Israel e a das nações se cruzam de modo doloroso. A promessa a Abraão tinha dois lados: Deus abençoaria quem abençoasse a descendência de Abraão e amaldiçoaria quem a desprezasse, e por meio dela a bênção chegaria a todos os clãs do mundo (Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo mostra o primeiro lado: os povos que desprezaram Judá na hora da queda receberão o juízo. Mas o arco da Escritura não para aí. Paulo diz que a Escritura, prevendo que Deus aceitaria os gentios pela fé, já levara a Abraão a boa notícia ao prometer a bênção dos povos (Gl 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e essa bênção chega em Cristo, a descendência de Abraão. O capítulo, que revela o problema humano no riso diante da ruína do outro e na vingança tomada nas próprias mãos, prepara o leitor para ver o juízo e a bênção das nações reunidos no Filho, e a Nova Criação com gente de todos os povos diante do trono (Ap 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — O "ah!" diante do templo e o escárnio no Calvário
Ezequiel 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é profecia sobre Jesus, e Amom não é tipo de ninguém. Mas o Novo Testamento narra uma cena que o leitor de Ezequiel não consegue ler sem lembrar este capítulo.
Amom disse o seu "ah!" quando o santuário de Deus foi profanado (v. 3), e os que passavam por Jerusalém bateram palmas e balançaram a cabeça diante da cidade em ruínas (Lm 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Calvário, Marcos conta que os que passavam diante da cruz balançavam a cabeça e insultavam Jesus com uma exclamação de deboche, lembrando a sua palavra sobre destruir o templo e reconstruí-lo em três dias (Mc 15.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O gesto é o do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que os que veem o justo sofrer zombam dele e meneiam a cabeça (Sl 22.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mais uma vez, o escárnio se volta contra um templo arruinado, agora o templo do corpo de Cristo (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A diferença está na resposta. Os oráculos de Ezequiel anunciam o juízo de Deus sobre os que riram. Jesus, objeto de um escárnio maior que o de Jerusalém, pediu ao Pai perdão para os que o crucificavam, alegando a ignorância deles (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro lembra que ele não devolveu as ofensas nem ameaçou quem o fazia sofrer, mas deixou a sua causa nas mãos do Juiz justo (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É exatamente o que faltou a Edom e aos filisteus: em vez de tomar a vingança, Jesus a entregou a Deus. E foi além: ofereceu o perdão aos que o desprezavam.
6.3 — O juízo sobre os vizinhos: a profecia em quatro níveis
(a) O contexto histórico imediato. Depois da queda de Jerusalém, por volta de 586 a.C., os vizinhos de Judá se alegram, zombam, saqueiam e se vingam. Amom ri do templo profanado; Moabe diz que Judá é um povo qualquer; Edom e os filisteus cobram velhas contas.
(b) A aplicação a Israel e Judá no seu tempo. Para os exilados, o capítulo era um consolo duro. O Deus que permitira a queda não estava derrotado nem indiferente: ele via o riso dos vizinhos e responderia. A mensagem também os chamava a não confundir a sua dor com um direito de vingança: o juízo seria de Deus, segundo a ira dele, e não segundo o rancor deles. E desmentia a frase de Moabe: Judá não era um povo qualquer, porque o seu Deus continuava sendo o Senhor de todas elas.
(c) O cumprimento parcial histórico. Josefo conta que, cinco anos depois da queda de Jerusalém, no vigésimo terceiro ano de Nabucodonosor, o rei babilônio fez guerra contra Amom e Moabe; Jeremias registra uma deportação de judeus nesse mesmo ano (Jr 52.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A notícia não pode ser conferida em detalhe, mas combina com o quadro. Amom e Moabe desapareceram como nações nos séculos seguintes, embora um amonita, Tobias, ainda se oponha a Neemias (Ne 2.10, 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os árabes do deserto ocuparam boa parte das suas terras. Edom declinou no século VI a.C., e muitos historiadores relacionam o seu fim com as campanhas do rei babilônico Nabonido; Malaquias já fala da terra de Esaú devastada (Ml 1.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os nabateus tomaram as suas montanhas. As cidades filisteias, já feridas por Nabucodonosor, perderam a identidade própria sob persas e gregos. A palavra não caiu no vazio, mas esses fatos não esgotam o capítulo, cuja fórmula final aponta para o conhecimento do SENHOR entre os povos.
(d) O cumprimento pleno em Cristo. O Novo Testamento mostra Cristo como o juiz das nações. Jesus disse que o Pai lhe confiou o julgamento (Jo 5.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, quando vier na sua glória, todos os povos serão reunidos diante dele (Mt 25.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo anunciou em Atenas o dia fixado por Deus para julgar o mundo pelo homem que ressuscitou (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juízo sobre o escárnio e a crueldade, que Ezequiel anunciou a quatro vizinhos, é estendido a toda a humanidade e posto nas mãos do Crucificado.
Mas o mesmo Novo Testamento abre uma porta que Ezequiel 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não mostra. Amós, depois de oráculos contra os mesmos vizinhos, prometera que Deus reconstruiria a casa arruinada de Davi, comparada a uma cabana desabada, e que ela possuiria o resto de Edom e as nações sobre as quais o nome do SENHOR fosse proclamado (Am 9.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando a igreja de Jerusalém discutiu a entrada dos gentios, Tiago citou essa profecia na forma da antiga tradução grega, que, no lugar do resto de Edom, fala do restante da humanidade que buscaria o Senhor (At 15.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Edom, o irmão inimigo, tornou-se figura das nações chamadas a Cristo. E os evangelhos registram que gente da Idumeia estava entre as multidões que vinham ouvir Jesus (Mc 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há uma ironia na história: Herodes, o Grande, rei de família idumeia, tentou matar o menino Jesus (Mt 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, ainda assim, idumeus vieram a ele.
O mesmo vale para os outros. Rute, a moabita, que a Lei excluiria da assembleia, entrou pela graça na linhagem de Davi e aparece na genealogia de Jesus (Rt 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.13-17; Mt 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zacarias anunciara que um resto dos filisteus seria como um clã em Judá (Zc 9.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Atos mostra Filipe no caminho de Gaza, batizando o etíope, e depois anunciando o evangelho em Azoto, a antiga Asdode, e nas cidades da costa (At 8.26-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juízo de Ez 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é real, mas, em Cristo, os povos que estavam debaixo dele são chamados a passar para o lado da bênção.
Uma cautela: Amom, Moabe, Edom e a Filístia de Ezequiel eram povos antigos, que desapareceram como nações. O capítulo não fala de países ou povos modernos que vivem hoje nas mesmas regiões, e não deve ser usado para justificar hostilidades atuais, nem lido como código de acontecimentos do fim dos tempos.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
O fogo que Jesus não fez descer. Quando uma aldeia samaritana recusou receber Jesus, Tiago e João perguntaram se deveriam pedir fogo do céu para consumi-la, e Jesus os repreendeu (Lc 9.51-56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os discípulos falavam como quem lê os oráculos às nações como licença para a vingança. Jesus mostra que o tempo do seu ministério é o da misericórdia oferecida, e que o juízo pertence a Deus, no tempo dele. No sermão do monte, ele mandou amar os inimigos e orar pelos perseguidores, para que os discípulos se parecessem com o Pai, que manda o sol e a chuva também sobre quem não o merece (Mt 5.43-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A vingança de Deus caiu sobre o Filho. Ezequiel diz que Deus retoma a vingança que Edom usurpou. Na cruz, Deus não abandonou a sua justiça; ele a cumpriu de um modo que nenhum profeta previu. Paulo diz que Deus apresentou Cristo como sacrifício de expiação, demonstrando que é justo ao mesmo tempo em que declara justo quem confia em Jesus (Rm 3.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juízo que o pecado merecia, inclusive o pecado do escárnio e da vingança, foi suportado pelo próprio Filho. Por isso o cristão pode largar a vingança sem fingir que o mal não importa: o mal importa tanto que custou a cruz.
O escarnecido que se tornou Senhor. A fórmula de Ezequiel, de que saberão que ele é o SENHOR, recebe em Cristo uma forma surpreendente. Paulo diz que, por ter descido até a morte de cruz, Jesus foi elevado por Deus à mais alta posição e recebeu um nome sem igual, para que todas as criaturas se curvem diante dele e o reconheçam como Senhor, para a glória do Pai (Fp 2.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aplicando a ele a promessa de Is 45.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Deus que as nações conhecerão é o Deus revelado no Crucificado, aquele de quem os passantes riram.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar Ezequiel 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de modo que leve a Cristo exige honestidade com o juízo e cuidado com a violência. O capítulo diz que Deus vê o riso diante da ruína alheia, o desprezo pelo que é de Deus, a vingança tomada nas próprias mãos, a inimizade que passa de geração em geração, e que nada disso fica sem resposta. O leitor não está fora do capítulo: também ri da queda de quem o feriu, também guarda contas antigas, também se acha no direito de cobrar.
O evangelho diz que o próprio Filho de Deus foi alvo desse riso, que ele não respondeu com vingança, e que na cruz a justiça de Deus caiu sobre ele para que os escarnecedores pudessem ser perdoados. Os vizinhos de Judá estavam debaixo do juízo; em Cristo, gente de Edom, de Moabe e da Filístia é chamada para a mesa. A boa notícia não é que o mal não importa, mas que há perdão para quem dele se arrepende, e que a vingança pode ser entregue a Deus, porque ele julga com justiça e salva pela graça.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Gn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a promessa a Abraão, com a maldição sobre quem o despreza e a bênção destinada a todos os povos, anunciada como evangelho.
- Gn 19.36-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 36.1; Dt 2.4-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 23.3-7 — a origem de Amom, Moabe e Edom e a relação deles com Israel na Lei.
- Am 1.6–2.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 15–16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 47–49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sf 2.4-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os mesmos vizinhos nos outros profetas.
- Ob 10-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 137.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 2.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.21-22 — o riso de Edom e dos que passavam diante da ruína de Jerusalém.
- Ez 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 36.2-5 — Edom e os inimigos de Israel retomados no anúncio da restauração.
- Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a vingança que pertence a Deus e a ordem de responder ao mal com o bem.
- Mc 15.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 22.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o escárnio diante da cruz e a resposta de Jesus.
- Am 9.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 15.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 3.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o resto de Edom e o restante da humanidade chamados ao Senhor; idumeus entre os que vinham a Jesus.
- Rt 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 1.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 9.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 8.26-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a moabita na genealogia de Cristo, o resto dos filisteus incorporado a Judá e o evangelho em Gaza e Azoto.
- Fp 2.9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 45.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — todos os povos diante do Senhor.
Na história da interpretação, os oráculos às nações foram lidos pela igreja antiga muitas vezes como figuras dos inimigos espirituais do povo de Deus. Hoje se valoriza mais o seu sentido histórico, e a leitura cristã os lê à luz da cruz, onde o juízo de Deus e o seu amor pelos inimigos aparecem juntos.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Não rir da queda de ninguém. O pecado de Amom é antigo e muito atual. Nas redes, nas disputas políticas, nas brigas de família ou de igreja, é fácil celebrar o tropeço de quem pensa diferente ou de quem nos feriu. Provérbios adverte que Deus vê isso com desagrado (Pv 24.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O discípulo de Cristo, que foi alvo do riso no Calvário e respondeu com perdão, é chamado a chorar com quem cai, e não a aplaudir.
Entregar a Deus a justiça que ainda não veio. O capítulo não diz que o mal sofrido por Judá era pequeno; diz que a resposta pertence a Deus. Quem foi ferido pode levar a Deus, com franqueza, o clamor por justiça, como fazem os salmos, e buscar os caminhos legítimos de reparação, sem tomar a vingança nas próprias mãos. A cruz garante que o mal importa e que Deus julgará com justiça; por isso o cristão pode largar a vingança sem fingir que nada aconteceu.
Desfazer as inimizades antigas. A inimizade perpétua dos filisteus e o rancor de Edom mostram como o ódio passa de geração em geração. Muitas famílias, comunidades e povos vivem presos a contas de séculos. Paulo diz que Cristo, pela cruz, pôs abaixo a barreira de hostilidade que separava os povos e fez deles um só (Ef 2.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O evangelho é a única força capaz de encerrar uma inimizade que parecia eterna.
Não viver como um povo qualquer. A frase de Moabe é uma tentação também para a igreja: viver de tal modo que o mundo possa dizer, com razão, que ela não difere de nenhum outro grupo. A igreja não é melhor que os outros, mas pertence a Cristo, e é chamada a uma vida que mostre isso, não por orgulho, mas por gratidão.
Ver os vizinhos como destinatários do evangelho. Os povos de Ez 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) estavam debaixo do juízo, e o Novo Testamento os mostra alcançados pela graça. Ninguém está longe demais. Quem hoje parece inimigo pode ser, amanhã, irmão em Cristo, e a oração da igreja deve incluir também esses.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Os quatro oráculos acusam as nações mais pelo que disseram e sentiram diante da ruína de Judá do que pelo que fizeram em batalha. Por que a atitude interior diante da desgraça alheia é tão grave para Deus?
- Moabe disse que Judá não passava de um povo igual aos outros (v. 8). Em que sentido o povo de Deus é diferente dos outros, e em que sentido não é? Como 1Pe 2.9-10 ajuda a responder?
- Edom tomou a vingança nas próprias mãos, e Deus diz que porá sobre ele a sua vingança. Como Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) aplica esse princípio à vida cristã? Há alguma conta antiga que você precisa entregar a Deus?
- Compare o riso de Amom diante do santuário (v. 3) com o escárnio diante da cruz (Mc 15.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com a resposta de Jesus (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que essa comparação revela sobre o coração de Cristo?
- Como a citação de Am 9.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em At 15.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a presença de Rute na genealogia de Jesus e a pregação de Filipe em Azoto mudam a maneira de ler os oráculos de juízo contra as nações?
- Para meditação e oração: traga à memória alguém cuja queda você teria vontade de celebrar. Peça a Cristo, que foi alvo do riso e respondeu com perdão, que transforme esse sentimento, e ore por essa pessoa.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Christopher J. H. Wright — A missão de Deus (Vida Nova) / The Mission of God (IVP Academic, 2006)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Miroslav Volf — Exclusion and Embrace (Abingdon, 1996), sobre perdão, justiça e reconciliação entre inimigos
- Erich Zenger — A God of Vengeance? Understanding the Psalms of Divine Wrath (Westminster John Knox, 1996)
Comentários de Ezequiel:
- John B. Taylor — Ezequiel: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Daniel I. Block — The Book of Ezekiel, Chapters 25–48 (NICOT, Eerdmans, 1998)
- Moshe Greenberg — Ezekiel 21–37 (Anchor Bible, Doubleday, 1997)
- Walther Zimmerli — Ezekiel 2 (série Hermeneia, Fortress, 1983)
- Leslie C. Allen — Ezekiel 20–48 (Word Biblical Commentary, 1990)
- Christopher J. H. Wright — The Message of Ezekiel (série de comentários The Bible Speaks Today, IVP, 2001)
Contexto histórico:
- IVP Bible Background Commentary: Old Testament (Walton, Matthews e Chavalas)
Sabedoria para o Cotidiano
Os vizinhos de Judá não empunharam a espada que derrubou Jerusalém; bastou-lhes rir, bater palmas e cobrar velhas contas, e Deus chamou isso pelo nome. Quando alguém que o feriu cair, não aplauda: o Deus que vê o coração julga também o riso. Entregue a ele a justiça que você não conseguiu, e desfaça as inimizades que vêm passando de pai para filho. O Cristo que foi escarnecido diante da cruz respondeu com perdão, e é por ele que gente de todos os povos, até os antigos inimigos, é chamada para a mesma mesa.
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