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Ezequiel · 26 de 66 · Antigo Testamento

Ezequiel — Bloco 12: O Rio que Cura e a Cidade onde o Senhor Está

Capítulos principais

Capítulos: Ezequiel 47–48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco

O livro de Ezequiel termina com duas imagens de vida e de pertencimento: um rio e uma cidade.

O rio brota de debaixo da soleira do templo onde a glória voltou a habitar (Ez 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Começa como um fio de água e, a cada mil côvados medidos, fica mais fundo, até se tornar uma torrente que não se pode atravessar a pé. Ele desce para o leste e chega ao Mar Morto, o lugar mais sem vida da terra de Israel, e cura as suas águas. Onde o rio passa, tudo vive: peixes em abundância, pescadores estendendo redes, árvores que dão fruto todos os meses e folhas que servem de remédio (Ez 47:1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Depois vem a terra. As fronteiras são traçadas, e a herança é dividida entre as doze tribos em faixas iguais, com uma surpresa: os estrangeiros que vivem no meio de Israel e ali geraram filhos receberão herança como se fossem nascidos na terra (Ez 47:13-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No centro do território fica a porção sagrada, com o santuário, os sacerdotes, os levitas, a cidade e o príncipe (Ez 48:1-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O livro termina descrevendo a cidade. Ela tem doze portas, cada uma com o nome de uma tribo, e recebe um novo nome: Javé-Shamá, que significa "o SENHOR está ali" (Ez 48:30-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A última palavra de Ezequiel é, portanto, presença. O livro começou com um sacerdote exilado vendo a glória junto a um canal estrangeiro (Ez 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), acompanhou a glória deixando o templo profanado (Ez 10–11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a viu voltar (Ez 43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora termina com uma cidade cuja identidade inteira é definida pelo fato de que Deus habita nela. A vida que flui do santuário cura a terra, e a presença de Deus no meio do povo é a herança final.

A natureza destes capítulos, se literais, simbólicos ou programáticos, foi apresentada no Bloco 10, na seção sobre as leituras interpretativas de Ez 40–48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e não será repetida aqui. Basta lembrar que este bloco contém alguns dos traços que mais favorecem uma leitura teológico-simbólica, como o crescimento impossível do rio e a divisão da terra em faixas que ignoram o relevo.

Versículos-chave do Livro estudado

Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia

Explicação teológica e bíblica

O rio que brota do santuário (Ez 47:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

O homem conduz o profeta de volta à entrada da casa, e Ezequiel vê água saindo de debaixo da soleira do templo, em direção ao oriente, porque a fachada do templo dava para o oriente. A água desce pelo lado sul do altar (Ez 47:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O profeta é levado para fora pela porta do norte e contorna até a porta exterior que dá para o oriente, e ali vê a água escorrendo do lado sul (Ez 47:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O termo hebraico usado sugere um filete, um gotejar quase imperceptível.

A fonte é importante. Na geografia de Jerusalém não há rio. Existia a fonte de Giom, no vale do Cedrom, mas nenhum curso de água nascia do monte do templo. O rio de Ezequiel não nasce de uma fonte natural; nasce do santuário, do lugar onde a glória habita. A vida que vai curar a terra procede da presença de Deus.

O homem, com o cordel de medir na mão, avança para o oriente e mede mil côvados, cerca de quinhentos metros, e faz o profeta atravessar a água, que chega aos tornozelos (Ez 47:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mede mais mil, e a água chega aos joelhos; mais mil, e chega à cintura (Ez 47:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mede ainda mais mil, e já é um rio que o profeta não consegue atravessar, porque as águas cresceram e só se pode passar a nado (Ez 47:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O crescimento é impossível na natureza. Rios crescem porque recebem afluentes, e este não recebe nenhum. Ele cresce por si mesmo à medida que se afasta da fonte. É um traço deliberado que aponta para uma realidade além da hidrografia. A vida que procede de Deus não diminui ao se espalhar, como os recursos humanos; ao contrário, aumenta.

Vida onde havia morte: o Mar Morto curado (Ez 47:6-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

O homem pergunta ao profeta se ele viu tudo aquilo e o leva de volta à margem do rio (Ez 47:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta convida à contemplação: não basta passar pela água, é preciso entender o que ela significa. Na margem, Ezequiel vê muitas árvores de um lado e do outro (Ez 47:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O homem explica o percurso do rio (Ez 47:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As águas saem para a região oriental, descem à Arabá, o vale do Jordão, e entram no mar, o mar das águas salgadas. Ali as águas do mar ficarão saudáveis. O verbo hebraico (rafa') é o mesmo usado para a cura de doenças. O Mar Morto será curado.

A imagem ganha toda a sua força quando se conhece o lugar. O Mar Morto fica a cerca de 430 metros abaixo do nível do mar, o ponto mais baixo da superfície terrestre, e as suas águas têm salinidade muito superior à dos oceanos. Nele não há peixes nem vida visível. É o símbolo geográfico da morte. Pois é exatamente ali que o rio de Deus chega, e o resultado é a vida.

Todo ser vivo que se move por onde o rio passar viverá. Haverá peixes em grande quantidade, porque as águas do mar serão curadas, e tudo viverá por onde o rio chegar (Ez 47:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Haverá pescadores ao longo da margem, de En-Gedi a En-Eglaim, e um lugar para estender redes. Os peixes serão de muitas espécies, como os do Mar Grande, o Mediterrâneo (Ez 47:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). En-Gedi é um oásis conhecido na margem ocidental do Mar Morto; a localização de En-Eglaim é incerta, talvez na ponta norte do mar. O detalhe dos pescadores é tocante: onde antes não havia nenhum trabalho possível, a vida que vem de Deus gera ocupação, sustento e comunidade.

Há porém uma ressalva (Ez 47:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os pântanos e os charcos não serão curados; ficarão reservados para o sal. O sal era indispensável para a vida e para o culto: conservava os alimentos e era acrescentado às ofertas como sinal da aliança (Lv 2:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 43:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ressalva mostra que a renovação não apaga toda diferença. Até o que permanece salgado tem lugar e função no plano de Deus.

O trecho termina com as árvores (Ez 47:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nas duas margens crescerão árvores frutíferas de toda espécie. As suas folhas não murcharão e o seu fruto não acabará. Darão fruto novo todos os meses, porque as suas águas saem do santuário. O fruto servirá de alimento, e as folhas, de remédio.

A imagem retoma o Sl 1:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jr 17:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o justo é a árvore plantada junto às águas, cuja folha não murcha. Também evoca o Éden, com o seu rio e a sua árvore da vida (Gn 2:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O jardim perdido é restaurado. A frequência mensal da colheita mostra uma fertilidade que já não depende das estações: a vida que procede do santuário é contínua.

As fronteiras da terra e a herança dos estrangeiros (Ez 47:13-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

Deus passa então à terra. Ela será repartida como herança entre as doze tribos de Israel, e José terá duas porções, para Efraim e Manassés, o que mantém o número doze, já que Levi não recebe território (Ez 47:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As porções serão iguais, cada um receberá tanto quanto o outro, porque Deus jurou dar aquela terra aos pais (Ez 47:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Gn 12:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15:18).

As fronteiras são traçadas em detalhe (Ez 47:15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e correspondem em grande parte às de Nm 34:1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O limite norte vai do Mar Grande pela região de Hamate, o leste segue o Jordão até o mar oriental, o sul vai de Tamar às águas de Meribá-Cades e ao ribeiro do Egito, e o oeste é o Mar Grande. Há uma diferença notável em relação à história: a Transjordânia, onde Rúben, Gade e metade de Manassés se haviam estabelecido (Nm 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Js 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), fica fora. Todas as tribos estarão a oeste do Jordão, na terra propriamente prometida.

Em seguida vem uma das determinações mais revolucionárias de todo o Antigo Testamento (Ez 47:21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A terra será repartida por sorte como herança para Israel e também para os estrangeiros (gerim) que residem no meio dele e geraram filhos ali. Eles serão como os naturais entre os filhos de Israel e receberão herança junto com as tribos. Em qualquer tribo em que o estrangeiro residir, ali lhe será dada a sua herança.

A Lei já mandava proteger, amar e tratar com justiça o estrangeiro (Lv 19:33-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 10:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas não lhe dava propriedade da terra, que pertencia às famílias de Israel. Ezequiel vai além: o estrangeiro que vive no meio do povo e lança raízes ali deixa de ser hóspede e se torna herdeiro. Depois da exclusão dos incircuncisos de coração do santuário (Ez 44:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aqui se vê o outro lado da moeda: quem se une ao povo de Deus é recebido nele plenamente. Isaías anuncia algo semelhante sobre os estrangeiros que se unem ao SENHOR (Is 56:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A nova partilha das tribos (Ez 48:1-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

O capítulo 48 distribui a terra. Ao contrário da partilha de Josué, que seguia a geografia, Ezequiel descreve treze faixas paralelas que vão de leste a oeste, do Jordão ao Mediterrâneo, uma para cada tribo e uma para a porção sagrada. A forma esquemática, que desconsidera montes, vales e desertos, é um dos indícios de que a visão comunica, antes de tudo, uma ordem teológica.

Três observações ajudam a perceber a teologia da partilha.

  1. O santuário está no centro, e a cidade está separada dele. Diferente da Jerusalém histórica, em que o templo ficava dentro da cidade e colado ao palácio, aqui o santuário está na área dos sacerdotes, e a cidade fica numa faixa à parte, chamada de uso comum (Ez 48:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É a aplicação, em escala territorial, da separação entre o santo e o comum (Ez 42:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e da correção de Ez 43:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
  2. As tribos são ordenadas pela proximidade ao santuário. As tribos descendentes das servas de Jacó, Dã, Aser, Naftali e Gade, ficam nas extremidades. Judá e Benjamim ficam imediatamente ao norte e ao sul da porção sagrada. Curiosamente, a posição deles é invertida em relação à história: na terra real, Judá ficava ao sul de Jerusalém e Benjamim ao norte. Daniel I. Block observa que a disposição reflete hierarquia de proximidade, e não uma reconstrução da geografia antiga.
  3. A cidade pertence a todo Israel. Os seus trabalhadores vêm de todas as tribos (Ez 48:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é mais a capital de uma tribo ou de uma dinastia, mas o centro comum de um povo reunido, coerente com a reunificação de Ez 37:15-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

As doze portas e o nome da cidade (Ez 48:30-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))

O livro termina com a descrição das saídas da cidade. Cada lado mede quatro mil e quinhentos côvados e tem três portas, cada uma com o nome de uma tribo de Israel (Ez 48:30-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)):

  • ao norte: Rúben, Judá e Levi;
  • ao oriente: José, Benjamim e Dã;
  • ao sul: Simeão, Issacar e Zebulom;
  • ao ocidente: Gade, Aser e Naftali.

Há uma diferença em relação à partilha da terra. Nas portas, Levi tem o seu nome e José aparece como uma só tribo; na terra, Levi não tem território e José recebe duas porções. A cidade, com as suas portas, representa os doze filhos de Jacó tal como nasceram, todos com acesso, nenhum excluído.

O perímetro total é de dezoito mil côvados, e o último versículo do livro anuncia que, daquele dia em diante, o nome da cidade será YHWH Shammah, "o SENHOR está ali" (Ez 48:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Ao longo de todos os capítulos 40 a 48, a cidade nunca é chamada de Jerusalém. O nome antigo, carregado de história de infidelidade, é substituído por um nome que descreve a sua essência. A identidade da cidade não é dada pela dinastia, pelo templo, pelas muralhas nem pela tradição, mas pelo fato de que Deus habita nela. Outros profetas também anunciaram novos nomes para Jerusalém (Is 62:2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 33:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o de Ezequiel é o mais simples e o mais profundo.

O fim do livro à luz do começo

O fechamento de Ezequiel ganha todo o seu peso quando lido à luz do começo. O livro abriu com os céus se abrindo sobre um sacerdote exilado junto a um canal da Babilônia, onde ele viu a glória de Deus fora da terra prometida (Ez 1:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Acompanhou a glória deixando o templo profanado (Ez 10–11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o lamento de um povo cuja esperança parecia ter perecido (Ez 37:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Termina com uma cidade cujo nome é a negação definitiva de toda ausência. O drama de Ezequiel é o drama da presença de Deus: revelada, perdida, prometida e, por fim, permanente.

Visão cristocêntrica

O rio da água da vida no Apocalipse. Esta é a conexão mais direta do bloco. A última visão da Bíblia retoma Ez 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de forma explícita. João vê o rio da água da vida, brilhante como cristal, saindo do trono de Deus e do Cordeiro e correndo pelo meio da praça da cidade. Dos dois lados do rio está a árvore da vida, que produz doze frutos, dando fruto todos os meses, e as suas folhas servem para curar as nações (Ap 22:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os paralelos são claros: o rio, as árvores nas duas margens, o fruto mensal, as folhas que curam. A diferença é reveladora: em Ezequiel o rio sai do santuário; no Apocalipse, sai do trono de Deus e do Cordeiro. A fonte da vida é o próprio Cristo, junto com o Pai.

As correntes do Espírito. No último dia da festa dos Tabernáculos, Jesus se pôs de pé e convidou quem tivesse sede a ir a ele e beber. Disse que, conforme a Escritura, correntes de vida fluiriam do interior de quem crê (Jo 7:37-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João explica que ele falava do Espírito que os que nele cressem haveriam de receber (Jo 7:39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo a Mishná (Sucá 4:9), durante essa festa os sacerdotes faziam uma libação diária de água tirada do tanque de Siloé e derramada no altar, rito que muitos associavam às águas que sairiam do templo nos últimos tempos. A "Escritura" a que Jesus se refere não é identificada com precisão, mas os comentaristas apontam Ez 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Zc 14:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Is 58:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como os textos mais prováveis. Discute-se também se os rios fluem do interior do crente ou do próprio Cristo. Em qualquer leitura, o rio que Ezequiel viu sair do templo flui agora de Jesus, o templo verdadeiro, e chega aos que creem pelo Espírito.

A água que sai do templo do corpo. Jesus falou do templo do seu corpo (Jo 2:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, quando o seu lado foi traspassado, saíram sangue e água (Jo 19:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes, desde a época patrística, viram nesse detalhe um eco do rio que sai do lado do templo em Ezequiel, já que a água de Ez 47:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) desce pelo lado sul da casa. É uma leitura temática, e não uma citação explícita. Mas é coerente com o modo como João apresenta Jesus como o templo de onde flui a vida.

A água que se torna fonte. À mulher samaritana, Jesus disse que quem bebesse da água que ele dá nunca mais teria sede, porque essa água se tornaria dentro dele uma fonte de vida eterna (Jo 4:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rio que cresce sem afluentes, à medida que se afasta da fonte, é imagem da vida que Cristo dá: não se esgota ao ser compartilhada, multiplica-se.

Pescadores de homens. Ezequiel viu pescadores estendendo redes num mar que antes não tinha vida (Ez 47:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus chamou pescadores e os fez pescadores de homens (Mc 1:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, a rede dos discípulos se encheu de cento e cinquenta e três grandes peixes sem se romper (Jo 21:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jerônimo, no seu comentário a Ezequiel 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), relacionou esse número a uma tradição dos naturalistas antigos segundo a qual haveria cento e cinquenta e três espécies de peixes, vendo nele um símbolo de todos os povos alcançados pelo evangelho. O estudioso J. A. Emerton (1958) chegou a propor uma ligação numérica entre os nomes En-Gedi e En-Eglaim e esse número. São leituras engenhosas e devem ser tratadas como hipóteses. O sentido seguro é que o evangelho leva vida e missão a lugares que pareciam mortos.

Estrangeiros feitos herdeiros. Os estrangeiros de Ez 47:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) recebem herança como os naturais. Paulo anuncia que, em Cristo, os que estavam sem esperança e sem Deus no mundo, estrangeiros às alianças da promessa, foram aproximados pelo seu sangue e se tornaram concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef 2:12-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se pertencem a Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3:28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A herança que Ezequiel estendeu aos estrangeiros residentes em Israel, o evangelho estende a todas as nações.

As doze portas e a cidade onde Deus habita. O Apocalipse retoma também a cidade de Ez 48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A nova Jerusalém tem doze portas com os nomes das doze tribos de Israel, três de cada lado, e doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (Ap 21:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo de Deus do Antigo e do Novo Testamento está reunido numa só cidade. E o que define essa cidade é exatamente o que define a de Ezequiel: a habitação de Deus com os homens (Ap 21:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não há templo nela, porque o Senhor Deus e o Cordeiro são o seu templo (Ap 21:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os seus servos verão o seu rosto (Ap 22:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Javé-Shamá e Emanuel. O nome final de Ezequiel, o SENHOR está ali, encontra o seu cumprimento mais pessoal no nome que o anjo dá ao Filho de Maria, Emanuel, Deus conosco (Mt 1:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Evangelho de Mateus começa com esse nome e termina com a promessa de Jesus de estar com os seus discípulos todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus também prometeu que ele e o Pai viriam e fariam morada em quem o ama (Jo 14:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A presença que Ezequiel viu concentrada numa cidade se tornou, em Cristo e pelo Espírito, presença no meio do seu povo, em toda parte.

Aplicações espirituais e práticas

A vida vem da presença de Deus. O rio não nasce de nenhuma fonte natural, mas do santuário (Ez 47:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A renovação de uma pessoa, de uma família, de uma igreja ou de uma comunidade não começa com programas ou estratégias, por melhores que sejam, mas com a presença de Deus. Antes de buscar soluções para o que está seco, vale perguntar se estamos perto da fonte.

Ir mais fundo. O profeta entrou na água até os tornozelos, depois até os joelhos, depois até a cintura, até não poder mais tocar o fundo (Ez 47:3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos cristãos vivem a fé à altura dos tornozelos: molham os pés, mas mantêm o controle. O convite do texto é avançar até o ponto em que já não se sustenta pela própria força e é levado pela correnteza. Essa entrega acontece aos poucos, mil côvados de cada vez.

Nenhum lugar é morto demais. O rio de Deus foi exatamente para o Mar Morto, e ali produziu vida (Ez 47:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há situações que parecem tão sem vida quanto aquele mar: um casamento esgotado, um vício antigo, uma comunidade abandonada, uma fé que secou. O texto não promete que tudo muda de imediato, mas afirma que não há lugar fora do alcance da vida que vem de Deus.

Dar fruto e curar. As árvores junto ao rio dão fruto todos os meses e as suas folhas servem de remédio (Ez 47:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A vida cristã madura não é apenas uma experiência interior, mas uma presença que alimenta e cura os outros. A igreja é chamada a ser, na sociedade, uma presença que sustenta os famintos, cura os feridos e oferece esperança, como fruto do Espírito (Gl 5:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Estrangeiros como herdeiros. A determinação de Ez 47:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) desafia toda forma de exclusão. Nas igrejas, ninguém deve ser tratado como membro de segunda categoria por causa da origem, da classe social ou do tempo de fé. Na sociedade, a forma como tratamos imigrantes, refugiados e recém-chegados é uma questão de fidelidade a um Deus que sempre amou o estrangeiro (Dt 10:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 25:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Equidade na partilha. Cada tribo recebeu uma porção igual (Ez 47:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A visão de Ezequiel não descreve uma sociedade sem diferenças, mas uma sociedade em que todos têm acesso à herança, em que ninguém é desapropriado (Ez 46:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e em que os recursos comuns sustentam os que trabalham para todos (Ez 48:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para quem tem responsabilidade sobre patrimônio, propriedade ou políticas públicas, o texto aponta para a justiça distributiva como expressão do caráter de Deus.

O melhor nome para um lugar. A cidade recebeu o nome de "o SENHOR está ali" (Ez 48:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse pode ser o desejo mais profundo para qualquer lar, igreja, empresa ou comunidade: não ser conhecido pela grandeza, pela tradição ou pelo sucesso, mas pela presença de Deus. A pergunta final de Ezequiel a cada leitor é se essa frase poderia ser escrita sobre a porta da sua casa e da sua vida.

Mensagem de reflexão

Sabedoria para o Cotidiano
O livro de Ezequiel começou com um exilado junto a um canal estrangeiro e termina com uma cidade cujo nome é "o SENHOR está ali". Entre um e outro há um rio que nasce de um filete sob a soleira do templo, cresce sem afluentes e leva vida ao lugar mais morto da terra. Esse rio flui hoje do trono de Deus e do Cordeiro e chega a quem crê em Cristo pelo Espírito. Não fique com a água nos tornozelos: entre mais fundo, deixe que a vida dele alcance também as suas partes mais secas, e viva de tal modo que, onde você estiver, os outros possam dizer que o Senhor está ali.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.