Filipenses · 50 de 66 · Novo Testamento
Filipenses — Bloco 4: O Hino de Cristo: Do Esvaziamento à Exaltação
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Capítulos principais: Capítulos e versículos: Filipenses 2:5-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
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Tema central do bloco: depois de pedir unidade, humildade e atenção ao interesse do outro (Fp 2:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Paulo apresenta o fundamento e o modelo dessa exigência: a mente de Cristo Jesus. Em sete versículos, ele narra a história inteira do Filho em forma de uma grande curva. Primeiro vem a descida: aquele que existia na forma de Deus e era igual a Deus não usou essa condição em benefício próprio, mas se esvaziou, assumiu a forma de servo, tornou-se humano e se humilhou em obediência até a morte, e morte de cruz. Depois vem a subida: por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo nome, para que toda a criação se dobre diante de Jesus e confesse que ele é Senhor, para a glória de Deus Pai. Este bloco é o coração teológico da carta e uma das passagens cristológicas mais importantes de toda a Bíblia. Nele se encontram, em poucas linhas, a preexistência de Cristo, sua divindade, a encarnação, a obediência, a cruz, a ressurreição implícita na exaltação, o senhorio universal e a consumação da história. Ao mesmo tempo, Paulo não o escreve como tratado abstrato: ele o apresenta como padrão de vida para uma igreja ameaçada pela ambição egoísta e pela vanglória.
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Versículos-chave do Livro estudado:
- Filipenses 2:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A exortação a ter, entre os crentes, a mesma disposição de mente que houve em Cristo Jesus.
- Filipenses 2:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo, existindo na forma de Deus, não considerou a igualdade com Deus algo a ser usado em proveito próprio.
- Filipenses 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ele se esvaziou a si mesmo, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante aos seres humanos.
- Filipenses 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Reconhecido em figura humana, humilhou-se, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.
- Filipenses 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Por isso, Deus o exaltou soberanamente e lhe concedeu o nome que está acima de todo nome.
- Filipenses 2:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Diante do nome de Jesus, todo joelho se dobrará no céu, na terra e debaixo da terra, e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai.
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Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia:
- Gênesis 3:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A tentação de Adão e Eva de serem como Deus; contraste com o Cristo que, sendo igual a Deus, não se apegou a essa igualdade.
- Isaías 52:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Servo do Senhor será exaltado e elevado; a mesma trajetória de humilhação e exaltação.
- Isaías 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Servo entrega sua vida até a morte e é contado com os transgressores; possível eco do esvaziamento até a morte.
- Isaías 45:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor jura que todo joelho se dobrará diante dele e toda língua lhe fará juramento; texto aplicado a Jesus em Fp 2:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Deuteronômio 21:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O pendurado no madeiro como maldito; pano de fundo da vergonha da cruz.
- João 1:1-3, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Verbo que estava com Deus e era Deus se fez carne e habitou entre nós.
- João 13:3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus, sabendo que viera de Deus e voltaria para Deus, despe-se, toma a toalha e lava os pés dos discípulos; o hino em forma de gesto.
- João 17:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus pede ao Pai a glória que tinha junto dele antes que o mundo existisse.
- 2 Coríntios 8:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Sendo rico, Cristo se fez pobre por amor de nós, para que nos tornássemos ricos.
- Marcos 10:45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos.
- Romanos 5:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pela obediência de um só, muitos serão constituídos justos; contraste com a desobediência de Adão.
- Gálatas 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo se fez maldição por nós, pois maldito é todo aquele pendurado no madeiro.
- Hebreus 5:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Embora fosse Filho, aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu.
- Hebreus 12:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.
- Atos 2:32-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus ressuscitou e exaltou Jesus, fazendo-o Senhor e Cristo.
- Efésios 1:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo exaltado acima de todo principado, autoridade, poder e de todo nome.
- Romanos 10:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Confessar com a boca que Jesus é Senhor e crer que Deus o ressuscitou é o caminho da salvação.
- 1 Coríntios 12:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ninguém pode reconhecer que Jesus é Senhor senão pelo Espírito Santo.
- Apocalipse 5:9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Toda criatura no céu, na terra e debaixo da terra adora o Cordeiro que foi morto.
- Lucas 14:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.
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Explicação teológica e bíblica:
A mente de Cristo como modelo (Fp 2:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo de transição liga o hino diretamente à exortação anterior. Paulo pede que os filipenses tenham entre si a mesma disposição (phroneite, outra vez o verbo-chave da carta) que houve em Cristo Jesus. Há um debate clássico sobre o sentido exato da frase. Na leitura ética, a mais antiga e difundida, Cristo é apresentado como exemplo a ser imitado: tenham a mente que Cristo teve. Na leitura chamada querigmática, defendida no século XX por Ernst Käsemann, a frase significaria algo como "pensem entre vocês de modo coerente com o fato de estarem em Cristo", e o hino descreveria a obra salvadora de Cristo mais do que um modelo moral. Comentaristas recentes, como Gordon Fee e Peter O'Brien, mostram que as duas dimensões não se excluem. O hino narra uma obra única e irrepetível de salvação, e, justamente por isso, a disposição de Cristo se torna o padrão da comunidade que vive "em Cristo". A ética cristã não é imitação de um herói distante, mas reprodução, pela graça, da vida daquele a quem os crentes estão unidos.
Hino antigo ou composição de Paulo? Desde o estudo de Ernst Lohmeyer (1928), muitos estudiosos entendem Fp 2:6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como um hino cristão primitivo, possivelmente anterior a Paulo, que o apóstolo teria incorporado à carta. A hipótese ganhou força com a obra de Ralph P. Martin, Carmen Christi (1967; edições revistas posteriormente com o título A Hymn of Christ). O texto tem linguagem solene, ritmo marcado, paralelismos e vocabulário raro em Paulo, o que sustenta essa leitura. Outros, como Gordon Fee, preferem falar de prosa exaltada composta pelo próprio Paulo para este contexto, e observam que ele encaixa perfeitamente no vocabulário e no argumento da carta. A decisão não altera o essencial: seja hino da igreja primitiva, seja composição do apóstolo, o texto mostra que, poucas décadas após a crucificação, os cristãos já confessavam e celebravam Jesus em termos divinos. A estrutura em duas partes é clara. Nos versículos 6 a 8, Cristo é o sujeito das ações e desce. Nos versículos 9 a 11, Deus é o sujeito e o exalta. O ponto mais baixo da curva é a morte de cruz.
A preexistência e a igualdade com Deus (Fp 2:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O hino começa antes da encarnação. Cristo existia (hyparchōn, verbo que indica condição permanente) na forma de Deus (morphē theou). No grego, morphē não designa aparência superficial, mas a forma que expressa a natureza real de algo. A mesma palavra será usada em seguida para a "forma de servo": assim como ele foi verdadeiramente servo, era verdadeiramente Deus. O texto acrescenta que ele possuía a igualdade com Deus (to einai isa theō).
A frase central, porém, contém uma das palavras mais discutidas do Novo Testamento: harpagmos. Ela aparece somente aqui em toda a Bíblia grega, e sua tradução determina o sentido do versículo. As três principais leituras são:
- algo a ser arrebatado — Cristo não tentou tomar uma igualdade que ainda não tinha. Essa leitura é difícil de conciliar com a afirmação de que ele já existia na forma de Deus;
- algo a ser retido com avidez — Cristo possuía a igualdade, mas não se agarrou a ela; abriu mão de suas prerrogativas;
- algo a ser explorado em benefício próprio — Cristo possuía a igualdade, mas não a considerou uma vantagem a ser usada para si mesmo. Essa leitura, defendida por Roy Hoover (Harvard Theological Review, 1971) e desenvolvida por N. T. Wright (The Climax of the Covenant, 1991), tem hoje ampla aceitação.
A terceira leitura tem uma consequência teológica profunda. O esvaziamento não seria um abandono da condição divina, mas a revelação de como Deus é. Ser igual a Deus, para Cristo, não significou agarrar, dominar ou usar poder em benefício próprio, mas dar-se. A divindade se mostra exatamente no serviço.
Muitos estudiosos percebem também um contraste com Adão. Em Gênesis 3:5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o primeiro casal, criado à imagem de Deus, quis ser como Deus e tentou tomar o que não lhe pertencia. Cristo, que era igual a Deus, recusou-se a usar essa igualdade para si. Onde Adão desobedeceu e foi rebaixado, Cristo obedeceu e foi exaltado (Rm 5:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). James Dunn (Christology in the Making, 1980) chegou a propor que o hino seria apenas uma cristologia adâmica, sem afirmação de preexistência. A maioria dos comentaristas, porém, entende que o contraste com Adão está presente sem anular a preexistência, claramente indicada pela sequência do texto: quem "se torna" humano em Fp 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) existia antes de se tornar humano.
O esvaziamento: tomando a forma de servo (Fp 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo central é ekenōsen: Cristo esvaziou a si mesmo. Daí vem o termo teológico kenosis. A pergunta inevitável é: de que ele se esvaziou? No século XIX, as chamadas teorias kenóticas, associadas a teólogos como Gottfried Thomasius, propuseram que o Filho teria renunciado a atributos divinos como onipotência, onisciência e onipresença durante a encarnação. A tradição cristã clássica, porém, expressa no Concílio de Calcedônia (451 d.C.), afirma que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em duas naturezas, sem confusão e sem divisão. Nessa leitura, o próprio texto responde à pergunta. O esvaziamento é explicado pelos particípios que o seguem: ele se esvaziou tomando a forma de servo e tornando-se semelhante aos homens. O esvaziamento não foi subtração da divindade, mas acréscimo da humanidade e renúncia ao uso de sua glória e de seus privilégios. Escritores da igreja antiga, como Agostinho, expressaram essa ideia dizendo que o Filho assumiu a forma de servo sem perder a forma de Deus.
Três expressões descrevem a encarnação. Ele assumiu a forma de servo (morphē doulou), não apenas de ser humano, mas de escravo, a condição social mais baixa do mundo antigo. Tornou-se em semelhança (homoiōma) dos seres humanos, verdadeiramente humano, embora sem pecado. E foi reconhecido em figura (schēma) humana, isto é, quem o via enxergava um homem comum. Alguns estudiosos, como Joachim Jeremias, perceberam aqui um eco de Isaías 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde o Servo do Senhor derrama sua vida até a morte. A conexão é plausível e enriquece a leitura, mas não é explícita no texto.
A humilhação e a obediência até a cruz (Fp 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A descida não para na encarnação. Já humano, Cristo humilhou-se a si mesmo (etapeinōsen). É o mesmo radical da humildade pedida em Fp 2:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): aquilo que a igreja deve praticar foi primeiro vivido por Cristo. A humilhação toma a forma de obediência até a morte. O Filho não morreu como vítima passiva, mas como quem obedece ao Pai até o fim (Hb 5:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 14:36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o hino acrescenta, como quem não consegue avançar sem sublinhar o escândalo: e morte de cruz.
Para os leitores de Filipos, essa expressão era chocante. A crucificação era a forma de execução mais vergonhosa do mundo romano, reservada sobretudo a escravos, rebeldes e criminosos de classes baixas. Cidadãos romanos, em regra, eram poupados dela. Cícero, em seu discurso em defesa de Rabírio, chega a dizer que até o nome da cruz deveria ficar longe dos cidadãos romanos, de seus pensamentos, olhos e ouvidos. Numa colônia orgulhosa de sua cidadania, anunciar que o Senhor havia morrido crucificado era anunciar a humilhação extrema. Para os judeus, além disso, morrer pendurado num madeiro era sinal de maldição (Dt 21:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que Paulo interpreta em Gálatas 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como Cristo carregando a maldição em favor dos pecadores. O ponto mais baixo da curva é, portanto, o lugar mais distante possível da glória. E é exatamente ali que o hino faz sua virada.
A exaltação e o nome acima de todo nome (Fp 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo começa com por isso (dio). A exaltação é a resposta de Deus à obediência do Filho. Agora Deus é o sujeito das ações. Ele exaltou soberanamente Cristo. O verbo hyperypsoō, "superexaltar", só aparece aqui no Novo Testamento e indica uma exaltação ao mais alto grau possível. Embora o hino não mencione a ressurreição de forma explícita, ela está pressuposta: a exaltação inclui ressurreição, ascensão e entronização à direita de Deus (At 2:32-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 1:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A trajetória ecoa Isaías 52:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde o Servo humilhado é exaltado e elevado, e confirma o princípio ensinado por Jesus de que quem se humilha será exaltado (Lc 14:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Deus também lhe concedeu graciosamente (echarisato) o nome que está acima de todo nome. No mundo bíblico, o nome expressa identidade, autoridade e dignidade. Os versículos seguintes revelam qual é esse nome: Senhor (Kyrios). Na Septuaginta, Kyrios é a palavra usada para traduzir o nome sagrado de Deus, YHWH. O nome acima de todo nome é, portanto, o próprio nome do Deus de Israel.
O senhorio universal de Jesus (Fp 2:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A conclusão do hino tem uma ousadia impressionante. Paulo aplica a Jesus um dos textos mais monoteístas do Antigo Testamento. Em Isaías 45:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Senhor declara que não há outro Deus além dele e jura que diante dele todo joelho se dobrará e toda língua fará juramento. Em Filipenses, é diante do nome de Jesus que todo joelho se dobra, e toda língua confessa que Jesus Cristo é Senhor. Richard Bauckham (Jesus and the God of Israel, 2008) chama esse fenômeno de monoteísmo cristológico: os primeiros cristãos, sem abandonar a fé em um só Deus, incluíram Jesus na identidade única do Deus de Israel. O texto não apresenta um segundo deus ao lado do Pai, mas o Filho compartilhando o nome e a adoração devidos somente a Deus.
A abrangência é total: no céu, na terra e debaixo da terra. A expressão cobre toda a criação, incluindo seres celestiais, os vivos e os mortos ou as potestades do mundo inferior. A confissão final, Jesus Cristo é Senhor, era uma das mais antigas declarações de fé da igreja (Rm 10:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1 Co 12:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Filipos, ela tinha também peso político. Numa colônia romana, o título Kyrios era aplicado ao imperador, e a lealdade a César era dever cívico. Confessar Jesus como Senhor implicava reconhecer uma autoridade acima de todas as outras, inclusive acima de César.
Duas observações completam a leitura. Primeira: a exaltação de Jesus é para a glória de Deus Pai. Não há rivalidade entre o Pai e o Filho; a honra dada ao Filho glorifica o Pai. Segunda: o texto afirma que toda língua confessará. Alguns leram aqui uma salvação universal de todos os seres. A maioria dos intérpretes, porém, entende que o texto descreve o reconhecimento universal do senhorio de Cristo no fim da história: para alguns, confissão de fé e adoração; para outros, reconhecimento inevitável de uma verdade que rejeitaram. O texto afirma com clareza a universalidade do reconhecimento, mas não resolve sozinho a questão da salvação de todos, que deve ser lida à luz do conjunto da Escritura.
Contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia. Na carta, o hino é a chave que dá sentido a todo o resto. A humildade pedida em Fp 2:3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os exemplos de Timóteo e Epafrodito em Fp 2:19-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a renúncia de Paulo em Fp 3:7-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e a esperança de transformação em Fp 3:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) são variações da mesma história: descida em amor, seguida de exaltação por Deus. No conjunto da Bíblia, o hino resume a história da redenção. Ele responde à queda de Adão, cumpre a trajetória do Servo de Isaías, revela o Deus de Israel em Jesus e antecipa a adoração universal do Cordeiro em Apocalipse 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Poucas passagens condensam tanto do evangelho em tão poucas palavras.
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Visão cristocêntrica: este é um bloco em que a conexão com Cristo não é apenas direta, mas total: todo o texto é sobre Cristo. Ele revela, em sequência, a preexistência do Filho (Fp 2:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sua divindade e igualdade com Deus (Fp 2:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a encarnação (Fp 2:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sua humanidade verdadeira na condição de servo (Fp 2:7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a obediência perfeita (Fp 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a morte de cruz (Fp 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a exaltação que pressupõe ressurreição e ascensão (Fp 2:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o senhorio universal que será reconhecido no fim da história (Fp 2:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O hino também ilumina passagens dos Evangelhos. Em João 13:3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus, sabendo de onde viera e para onde ia, despe-se, toma a toalha e lava os pés dos discípulos: é o hino em forma de gesto. Em Marcos 10:45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus define sua missão como servir e dar a vida. O hino mostra, por fim, que a grandeza de Deus se revela na doação, e não na dominação. Cristo é o centro deste bloco não como tema entre outros, mas como a própria definição de quem Deus é e de como a igreja deve viver.
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Aplicações espirituais e práticas:
- Adorar a Cristo pelo que ele é e pelo que fez. Antes de ser modelo ético, o hino é confissão e adoração. A primeira resposta adequada é reconhecer, com a igreja de todos os tempos, que Jesus Cristo é Senhor. Isso pode ser vivido na leitura meditativa do texto, na oração e no culto, lembrando que o Filho eterno desceu até a cruz por amor. Uma fé que entende o hino não trata Jesus apenas como mestre de moral, mas como Deus que se deu.
- Usar posição e privilégio para servir. Cristo não considerou sua igualdade com Deus algo a ser explorado em benefício próprio. Toda posição de vantagem — autoridade numa empresa, conhecimento técnico, recursos financeiros, influência na igreja ou na família — pode ser usada para dominar ou para servir. O hino desafia líderes, empresários, professores e pais a perguntar: como posso usar aquilo que tenho para o bem de quem depende de mim? Um gestor que usa sua posição para desenvolver a equipe, e não apenas para garantir o próprio status, reflete a mente de Cristo.
- Obedecer a Deus mesmo quando o caminho desce. Cristo foi obediente até a morte. Há momentos em que a obediência a Deus implica perdas: abrir mão de uma oportunidade antiética, aceitar uma posição menos visível, permanecer fiel num casamento difícil, servir sem reconhecimento. O hino ensina que a descida em obediência não é o fim da história. Deus tem a última palavra, e ela é exaltação, ainda que não necessariamente nesta vida nem nos termos que esperamos.
- Recusar a busca de glória vazia. O contraste entre a kenodoxia, glória vazia, e o esvaziamento de Cristo oferece um critério para a vida diária. Em tempos de exposição constante, métricas de visibilidade e disputa por reconhecimento, o cristão é chamado a deixar que Deus cuide de sua honra. Isso liberta da ansiedade de provar o próprio valor e permite servir com alegria, mesmo sem aplausos.
- Viver sob o senhorio de Cristo em todas as áreas. Confessar que Jesus é Senhor significa reconhecer que nenhum outro poder — o mercado, o Estado, a opinião pública, a carreira ou o próprio ego — tem a última palavra. Na prática, isso orienta decisões de consciência, escolhas de consumo, relações de trabalho e posicionamentos públicos. Também traz consolo: se todo joelho se dobrará diante de Jesus, nenhuma injustiça, nenhum poder opressor e nenhum sofrimento presente é definitivo.
Sabedoria para o Cotidiano
O caminho de Cristo começou no lugar mais alto e desceu até o mais baixo — não por fraqueza, mas por amor —, e foi justamente esse caminho que Deus coroou com o nome acima de todo nome. Quando a vida lhe oferecer a escolha entre agarrar-se ao que é seu e usá-lo para servir, lembre-se de que a grandeza, segundo Deus, se mede pela doação. Desça em obediência sem medo: quem segue o Servo crucificado não está perdendo, está trilhando o único caminho que termina na exaltação dada por Deus.