Isaías · 23 de 66 · Antigo Testamento
Isaías — Capítulo 57
Título do capítulo: O Deus alto que mora com os humildes
Gênero literário: Profecia (lamento pelo justo que morre sem que ninguém perceba, acusação judicial contra a idolatria descrita como adultério, oráculo de salvação com a ordem de preparar o caminho, palavra de cura e de paz aos distantes e aos próximos, e o refrão que nega a paz aos perversos)
Número de versículos: 21
Nota de precisão: o capítulo 57 tem a mesma numeração no hebraico impresso e nas Bíblias em português. Os vv. 3-13 estão entre os mais difíceis do livro: várias palavras são raras, algumas expressões parecem eufemismos ligados a práticas sexuais e a cultos aos mortos, e no v. 9 a mesma palavra hebraica pode designar um rei estrangeiro ou o deus Moloque. As traduções divergem bastante. O estudo indica as leituras possíveis e evita afirmar mais do que o texto permite.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O livro de Isaías reúne a palavra do profeta Isaías, filho de Amoz, que atuou em Jerusalém nos reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, na segunda metade do século VIII a.C. (Is 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em todas as suas partes, Deus é o Santo de Israel, e este capítulo toca a raiz do título ao dizer que o nome de Deus é Santo (v. 15). O livro costuma ser lido em três blocos: 1–39, no tempo assírio; 40–55, para os exilados; 56–66, para a comunidade que retornou. A tradição judaica e a cristã leram o conjunto como obra do profeta de Jerusalém, que falou pelo Espírito a gerações futuras; muitos estudiosos, desde o fim do século XVIII, atribuem os capítulos 40–55 a um profeta do exílio e, desde Bernhard Duhm, os capítulos 56–66 a um círculo posterior ao retorno. As duas posições têm defensores competentes, como Oswalt e Motyer de um lado e Westermann e Blenkinsopp de outro, e nenhuma precisa ser desqualificada. O Novo Testamento cita as várias partes sob o nome de Isaías, e João une textos dos capítulos 53 e 6 numa só passagem (Jo 12.38-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O capítulo 57 apresenta um problema histórico particular. A idolatria que ele descreve, com sacrifícios de crianças nos vales, ritos debaixo das árvores frondosas, altares nos montes e cultos ligados aos mortos, lembra de perto o tempo dos reis de Judá antes do exílio, sobretudo os reinados de Acaz e de Manassés. De Acaz se diz que fez passar o filho pelo fogo (2Rs 16.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); de Manassés, que fez o mesmo, praticou a adivinhação, consultou médiuns e encheu Jerusalém de sangue inocente (2Rs 21.6, 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, alguns estudiosos entendem que os vv. 3-13 conservam uma palavra do tempo da monarquia, retomada depois; outros pensam que essas práticas voltaram a florescer entre os que ficaram na terra durante o exílio ou na comunidade do pós-exílio, misturada com a população local. Os defensores da autoria de Isaías leem nele a apostasia do tempo do profeta. Em qualquer hipótese, o texto descreve uma tentação permanente de Israel (Jr 2.20-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 16.15-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O sacrifício de crianças é o aspecto mais sombrio e deve ser tratado com sobriedade. A Lei o proíbe de forma absoluta e o liga ao nome de Moloque (Lv 18.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 20.2-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O vale de Ben-Hinom, ao sul de Jerusalém, com o lugar chamado Tofete, ficou marcado por essas práticas, e Josias o profanou para que ninguém mais fizesse passar ali um filho ou uma filha pelo fogo (2Rs 23.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeremias diz que tal coisa nunca entrou no pensamento de Deus (Jr 7.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 19.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os estudiosos discutem se Moloque era uma divindade ou o nome técnico de um tipo de sacrifício; a Escritura, porém, é clara no essencial: matar crianças em nome de qualquer deus é abominação para o Deus de Israel.
O capítulo continua a unidade começada em Is 56.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Lá, os vigias e pastores dormiam e se embriagavam; aqui, enquanto eles dormem, o justo morre sem que ninguém perceba, e o povo se entrega aos ídolos. Mas o capítulo se abre, a partir do v. 14, para uma das declarações mais belas do livro sobre a santidade e a humildade de Deus, e se fecha com o refrão que já encerrara o capítulo 48, negando a paz aos perversos (Is 48.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Comentaristas antigos, como Franz Delitzsch, observaram que esse refrão divide os capítulos 40–66 em três blocos de nove capítulos, encerrados em Is 48.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), aqui no v. 21 e, de forma mais grave, no último versículo do livro (Is 66.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
A morte leva o justo, e a cidade segue indiferente; os fiéis desaparecem um a um, sem que alguém perceba que estão sendo poupados da desgraça que se aproxima. Para eles, a morte é entrada na paz, e quem seguiu um caminho reto repousa no seu leito final (vv. 1-2).
Então Deus chama ao tribunal a geração idólatra, que ele trata como filha de uma praticante de feitiçaria, nascida de adultério e prostituição. Pergunta de quem estão rindo, com a boca escancarada e a língua de fora; eles mesmos são fruto da rebelião e da falsidade. Ardem de paixão junto aos grandes carvalhos, à sombra de cada árvore viçosa, e imolam crianças nos vales, entre as fendas das rochas (vv. 3-5). Escolheram como herança as pedras lisas do leito do riacho; derramaram diante delas bebidas e apresentaram ofertas de cereal. Deus pergunta se deveria aceitar isso em paz (v. 6).
A nação, retratada como esposa infiel, instala a sua cama no alto de um monte e sobe até lá para sacrificar; esconde o seu sinal de lembrança por trás da porta da casa. Longe do marido, expõe o leito, amplia-o, faz acertos com os amantes e se entrega a eles (vv. 7-8). Leva azeite e muitos perfumes ao rei, despacha emissários a terras distantes e chega a descer ao reino dos mortos (v. 9). A estrada longa a esgota, mas ela se recusa a admitir que tudo é em vão; encontra sempre um resto de energia para prosseguir (v. 10).
Deus pergunta quem lhe causou tanto medo a ponto de levá-la a mentir e a esquecê-lo por completo. Teria sido o longo silêncio dele que a fez perder o temor? Ele vai pôr à vista a justiça de que ela se gaba e as suas obras, e nada disso lhe servirá (vv. 11-12). Quando ela gritar por socorro, que a sua coleção de ídolos a salve: basta uma lufada de vento para levá-los embora. Quem busca abrigo em Deus, porém, receberá a terra como herança e terá lugar no monte santo dele (v. 13).
Uma voz manda então aterrar e nivelar a estrada e remover dela tudo o que faça o povo de Deus tropeçar (v. 14). E Deus se apresenta: ele é o alto e elevado, cuja morada não tem fim e cujo nome é Santo. Habita nas alturas santas, mas faz morada também junto de quem foi triturado pela vida e se curvou por dentro, para devolver ânimo aos humildes e vida aos que estão em pedaços (v. 15). A disputa dele com o povo não será sem fim, nem a sua ira durará para sempre, porque a criatura que ele mesmo animou com o seu sopro acabaria sucumbindo (v. 16).
A ganância do povo provocou a ira de Deus, que o castigou e lhe ocultou o rosto; mas o povo seguiu teimoso pelo rumo que o próprio coração escolhia (v. 17). Deus observou esse rumo e, ainda assim, decide curá-lo, guiá-lo e devolver o consolo a ele e aos que estão de luto com ele (v. 18). É Deus quem faz nascer nos lábios a palavra de louvor: paz plena, oferecida aos distantes e aos próximos, com a promessa de cura (v. 19). Os perversos, por sua vez, são como mar revolto, incapaz de descanso, que traz do fundo lama e sujeira (v. 20). A paz, declara o Deus do profeta, não alcança os perversos (v. 21).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — O justo que morre sem que ninguém perceba
O capítulo começa com uma constatação dolorosa: hatstsaddiq 'avad, o justo perece, we'en 'ish sam 'al-lev, e não há quem ponha isso no coração. A expressão, que significa levar a sério, voltará no v. 11. O paralelo fala dos 'anshe-ḥesed, os homens de amor leal, os fiéis, que são ne'esafim, recolhidos. O verbo 'asaf é o mesmo da fórmula com que a Bíblia descreve a morte dos patriarcas, reunidos ao seu povo (Gn 25.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 49.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A segunda metade do v. 1 dá a explicação que ninguém percebe: ki-mippene hara'ah ne'esaf hatstsaddiq, é de diante do mal que o justo é recolhido. A frase pode ser lida de duas maneiras. A palavra ra'ah pode indicar a calamidade que vem, o juízo que cairá sobre o povo, e então Deus estaria poupando o justo de ver o desastre, como prometera ao rei Josias que seria reunido aos pais em paz e não veria o mal que viria sobre Jerusalém (2Rs 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ou pode indicar a maldade reinante, e então o justo é tirado do meio de uma sociedade perversa. As duas leituras se aproximam: a morte do justo não é sinal de abandono, mas de cuidado.
O v. 2 confirma: yavo' shalom, ele entra na paz. O justo que morre yanuḥu 'al-mishkevotam, descansa nos seus leitos, isto é, nos túmulos, e é descrito como holekh nekhoḥo, quem anda em retidão, em linha reta. O capítulo termina negando a paz aos perversos (v. 21); começa afirmando que o justo, mesmo na morte, entra nela. E a palavra mishkav, leito, voltará nos vv. 7-8 com sentido oposto: o do adultério espiritual.
Versículos 3-6 — Os filhos da feiticeira e as pedras do vale
O v. 3 muda bruscamente de tom: we'attem qirvu-henah, mas vós, aproximai-vos aqui. É a convocação de um tribunal. Os acusados são chamados de bene 'onenah, filhos da feiticeira, de uma mulher que pratica a adivinhação, e zera' mena'ef watizneh, descendência do adúltero e da prostituta. A linguagem é dura de propósito: a aliança era um casamento, e a idolatria, adultério (Os 2.2-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 3.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No v. 4, eles tit'annagu, zombam, com gestos de deboche, talvez dos justos e, por meio deles, de Deus; mas são eles os yilde-fesha', filhos da rebelião.
O v. 5 descreve os ritos. Eles hannehamim, se inflamam, se aquecem, ba'elim, junto aos grandes carvalhos ou terebintos, ou, segundo outra leitura possível, junto aos deuses. A expressão taḥat kol-'ets ra'anan, debaixo de toda árvore frondosa, é fórmula conhecida para os cultos de fertilidade de Canaã, condenados desde Deuteronômio (Dt 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e repetidos pelos profetas (Jr 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E então vem o crime mais grave: shoḥate hayeladim bannehalim, os que sacrificam crianças nos vales, nas fendas dos rochedos. O verbo shaḥat é o de imolar uma vítima; o texto não descreve o rito, apenas o nomeia.
O v. 6 é um dos mais difíceis do capítulo. O hebraico faz um jogo de palavras: beḥalleqe-naḥal ḥelqekh, entre as pedras lisas do vale está a tua porção. A raiz ḥlq dá tanto liso quanto porção, parte da herança. A herança de Israel devia ser o próprio Deus (Nm 18.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 16.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas o povo escolheu as pedras do riacho, talvez objetos de culto. Alguns estudiosos propõem, por comparação com outras línguas semíticas, que a palavra designe os mortos do vale, e que o texto aluda a um culto aos antepassados. A frase seguinte insiste: hem hem goralekh, são elas a tua sorte. A pergunta final, ha'al 'elleh 'ennaḥem, pode ser lida como deveria eu consolar-me com isso, ou deveria eu desistir do castigo por causa disso. O verbo naḥam é o mesmo do consolo que abriu o capítulo 40 (Is 40.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não pode consolar-se com o que o povo lhe oferece no lugar de si mesmo.
Versículos 7-10 — O leito no monte alto e a viagem até o mundo dos mortos
Os vv. 7-8 desenvolvem a imagem da mulher adúltera. Ela pôs o seu mishkav, leito, 'al har-gavoah wenissa', sobre um monte alto e elevado. A expressão precisa ser notada: nissa', elevado, é a palavra que aparecerá no v. 15 para descrever o próprio Deus. O povo procura a altura no lugar errado: sobe aos montes dos ídolos, quando o verdadeiramente alto e elevado está disposto a descer até os humildes. Os altares nos lugares altos foram uma praga constante na história de Israel e Judá (1Rs 14.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 17.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 8 diz que ela pôs o seu zikkaron, memorial, atrás da porta e do batente. A palavra pode indicar um objeto de culto pagão, talvez um amuleto ou um símbolo; mas é impossível não notar o contraste com Deuteronômio, que mandava escrever as palavras da Lei nos batentes das portas, para que fossem lembradas (Dt 6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 11.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde devia estar a palavra de Deus, ficou o sinal dos ídolos. O resto do versículo usa linguagem sexual explícita. A última expressão, yad ḥazit, contemplaste a mão, é entendida por muitos como eufemismo para a nudez. A linguagem é chocante de propósito, como em Ezequiel 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 23: o profeta quer que o povo sinta a vergonha da traição.
O v. 9 é ambíguo. A mulher tashuri lammelekh, foi ao rei, ou, com outra vocalização, a Moloque, com azeite e perfumes. Se a leitura for rei, o texto falaria das alianças políticas com potências estrangeiras, que os profetas também condenavam como infidelidade, porque eram busca de segurança fora de Deus (Is 30.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 31.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 7.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se a leitura for Moloque, a acusação se liga ao sacrifício de crianças do v. 5. Em todo caso, ela mandou tsirayikh, os seus mensageiros, para longe e tashpili 'ad-she'ol, desceu até o she'ol, o mundo dos mortos. A frase pode ser hipérbole ou aludir à consulta aos mortos, que a Lei proibia (Dt 18.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Isaías já condenara (Is 8.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 10 traz uma observação psicológica aguda. A mulher se yaga'at, cansou, berov darkekh, com a extensão do seu caminho, mas não disse no'ash, é inútil, não há esperança. Em vez de reconhecer o fracasso, ela ḥayyat yadekh matsa't, encontrou vida para a sua mão, isto é, renovou as forças, e por isso não desfaleceu. A idolatria cansa, mas o idólatra insiste. Jeremias usa a mesma palavra num quadro parecido (Jr 2.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O contraste com o fim do capítulo 40 é fino: lá, os que esperam no SENHOR trocam a força gasta pela dele (Is 40.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aqui, o povo renova a força para continuar fugindo de Deus.
Versículos 11-13 — O silêncio de Deus e os ídolos levados pelo vento
O v. 11 pergunta de quem o povo teve medo, da'agt watir'i, a ponto de mentir, de não se lembrar de Deus e de não pô-lo no coração, a mesma expressão do v. 1. O medo de outros poderes fez o povo esquecer o único que devia ser temido (Is 8.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A segunda pergunta é surpreendente: halo' 'ani maḥsheh ume'olam, não é porque eu me calei, e há muito tempo, que tu não me temes? A paciência de Deus foi lida como indiferença, como no Salmo 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que o silêncio divino leva o perverso a imaginar Deus semelhante a si (Sl 50.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 12 é irônico: Deus vai anunciar a tsedaqah, a justiça, do povo, e as suas obras, e elas de nada servirão. O v. 13 completa a ironia: quando o povo clamar, que os seus qibbutsim, a coleção de ídolos que juntou, o salvem. O vento, ruaḥ, os levará a todos; um sopro, hevel, os arrebatará. A palavra hevel é a do Eclesiastes: vapor, quase nada.
Mas o versículo termina com uma virada. Wehaḥoseh vi, mas quem se refugia em mim, yinḥal-'erets, herdará a terra, weyirash har-qodshi, e possuirá o meu monte santo. O verbo ḥasah, refugiar-se, é o dos salmos de confiança (Sl 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 34.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A herança, que o povo idólatra procurou nas pedras do vale (v. 6), é dada a quem se abriga em Deus. E o monte santo, onde os estrangeiros fiéis são recebidos (Is 56.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é contraposto ao monte alto e elevado onde a mulher infiel armou o seu leito (v. 7).
Versículos 14-21 — O Santo que mora com os esmagados e a paz aos distantes e próximos
O v. 14 começa com uma voz anônima, como as do capítulo 40: sollu-sollu, aterrai, aterrai, pannu-darekh, preparai o caminho, harimu mikhshol, tirai o tropeço do caminho do meu povo. A ordem retoma Is 40.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e antecipa Is 62.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); aqui o caminho é do povo, e o obstáculo é o pecado descrito nos vv. 3-13.
O v. 15 é o coração do capítulo. Deus se apresenta como ram wenissa', alto e elevado, shokhen 'ad, que habita a eternidade, que mora para sempre, e cujo nome é qadosh, Santo. A expressão ram wenissa' tem uma história no livro. Ela descreve o Senhor no trono, na visão do capítulo 6 (Is 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); volta, com os mesmos dois verbos e um terceiro que reforça a altura, na abertura do último cântico do Servo (Is 52.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aparece aqui para o próprio Deus; e apareceu, com ironia, no v. 7, para o monte dos ídolos. Muitos estudiosos, entre eles Richard Bauckham, observaram que essa combinação de palavras liga a exaltação do Servo à majestade do próprio Deus, e que o Novo Testamento, sobretudo o Evangelho de João, parece ler as passagens juntas. A observação pede cautela, porque as palavras também são comuns, mas a concentração delas em pontos decisivos do livro é significativa.
Então vem o paradoxo. Esse Deus mora marom weqadosh, no lugar alto e santo, we'et-dakka' ushefal-ruaḥ, e também com quem está esmagado e rebaixado de espírito. O verbo shakhan, habitar, morar, é o da presença de Deus no tabernáculo, o mishkan (Êx 25.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 29.45-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra dakka' descreve o que foi triturado, moído, reduzido a pó; é da mesma família da palavra usada para o Servo, moído por causa das nossas culpas (Is 53.5, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E shefal-ruaḥ é o de espírito abaixado, o contrário do orgulhoso. A finalidade dessa morada é lehaḥayot, dar vida, reanimar, o espírito dos humildes e o coração dos esmagados. A santidade de Deus, que no capítulo 6 fez o profeta clamar que estava perdido (Is 6.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aqui se inclina para levantar quem está no pó. Os salmos dizem que Deus não despreza a oferta de um interior partido e humilhado (Sl 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que se aproxima de quem está com o coração em pedaços (Sl 34.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o fim do livro mostrará o Deus que tem o céu por trono voltando os olhos para o humilde, ferido por dentro, que reverencia a sua palavra (Is 66.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
No v. 16, Deus não 'ariv, contenderá, para sempre, nem ficará irado eternamente, porque o ruaḥ, o espírito, desfaleceria diante dele, e as neshamot, os fôlegos de vida, que ele mesmo fez. A palavra neshamah é a do sopro de vida que Deus pôs nas narinas do ser humano (Gn 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Criador conhece a fragilidade da criatura, e o Salmo 103 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) diz o mesmo: a repreensão de Deus tem fim, porque ele conhece o barro de que somos feitos (Sl 103.9, 14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 17 relembra a história. Por causa da 'awon bits'o, a culpa da sua ganância, a mesma palavra para o lucro desonesto dos pastores de Is 56.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Deus se irou, feriu o povo, escondeu o rosto. Mas o povo continuou shovav, rebelde, desviado, no caminho do seu coração. O v. 18 é, por isso, pura graça: derakhaw ra'iti, vi os seus caminhos, we'erpa'ehu, e o curarei. Deus não espera o arrependimento perfeito para curar. Jeremias, falando aos filhos shovavim, e Oseias, no fim do seu livro, fazem a mesma promessa de curar a infidelidade de um povo desviado (Jr 3.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 14.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus também o conduzirá e devolverá niḥumim, consolações, a ele e la'avelaw, aos seus que estão de luto. O consolo do capítulo 40 volta e prepara o do capítulo 61, dirigido aos enlutados de Sião (Is 61.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 19 apresenta Deus como bore' niv sefatayim, criador do fruto dos lábios. O verbo é bara', o da criação. O fruto dos lábios pode ser o louvor dos curados ou a própria palavra de paz que Deus faz brotar. Hebreus usará a mesma imagem do fruto dos lábios para o louvor oferecido a Deus por meio de Cristo (Hb 13.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), na esteira de Oseias (Os 14.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o conteúdo dessa palavra criada é shalom shalom, paz, paz, a repetição que no hebraico indica plenitude, como em Is 26.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), laraḥoq welaqqarov, ao que está longe e ao que está perto. No contexto imediato, os longe podem ser os exilados ainda dispersos e os perto, os que já estão em Jerusalém; ou os longe podem ser os que se afastaram de Deus, e os perto, os que permaneceram fiéis. Depois de Is 56.3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é difícil não incluir os estrangeiros entre os distantes. A promessa termina repetindo: urefa'tiw, e eu o curarei.
Os vv. 20-21 encerram com o contraste. Os resha'im, os perversos, são kayyam nigrash, como o mar agitado, revolvido, ki hashqet lo' yukhal, porque não consegue ficar quieto, e as suas águas lançam refesh watit, lama e lodo. O mar era, para Israel, imagem do caos; o perverso traz dentro de si uma inquietação que revolve a sujeira do fundo. E a última palavra repete o refrão de Is 48.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a negação da paz, 'en shalom, dirigida laresha'im, aos perversos, com a assinatura do meu Deus. A paz oferecida a longe e a perto não é automática. Quem recusa o Deus que cura permanece no mar revolto.
✨ 4. Versículos-Chave
Is 57.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O justo que morre sem que ninguém perceba é recolhido de diante do mal e entra na paz. O Apocalipse declara felizes os que morrem unidos ao Senhor, porque encontram repouso do seu labor (Ap 14.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo fala da morte como partida para a presença de Cristo, algo incomparavelmente melhor (Fp 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Is 57.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Deus alto e elevado, que mora na eternidade e cujo nome é Santo, mora também com o esmagado e humilde de espírito, para lhe dar vida. É uma das sínteses mais perfeitas da Bíblia sobre a transcendência e a proximidade de Deus. Encontra a sua expressão máxima em Cristo, o Filho eterno que desceu até a cruz (Fp 2.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que, apresentando-se com mansidão e humildade, ofereceu alívio aos sobrecarregados (Mt 11.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As bem-aventuranças de quem se reconhece pobre diante de Deus e de quem chora ecoam este versículo e o v. 18 (Mt 5.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Is 57.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A paz anunciada em dobro aos que estão longe e aos que estão perto é retomada por Paulo para descrever a obra de Cristo, que reconciliou judeus e gentios com Deus num só corpo, por meio da cruz, e veio anunciar paz aos distantes e aos próximos (Ef 2.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, no dia de Pentecostes, estende a promessa do Espírito aos que estão longe (At 2.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Is 57.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O refrão que nega a paz aos perversos fecha a segunda seção dos capítulos 40–66. Ele não contradiz o v. 19: a paz é dom recebido por quem se volta para Deus, não estado garantido a quem o rejeita. Judas compara os falsos mestres às ondas revoltas do mar, numa provável alusão ao v. 20 (Jd 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A idolatria como infidelidade conjugal. O capítulo descreve a idolatria com a linguagem do adultério, porque a aliança é um casamento. O povo que devia pertencer só a Deus procura outros amantes: deuses da fertilidade, potências estrangeiras, os mortos. O tema percorre os profetas e chega ao Novo Testamento, em que a Igreja é a noiva de Cristo (2Co 11.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 5.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a amizade com o mundo é chamada de infidelidade a Deus (Tg 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A idolatria não é só erro intelectual; é traição de um amor.
A transcendência e a condescendência de Deus. O Deus de Isaías é o Santo, alto e elevado, e ao mesmo tempo o que mora com os esmagados. A santidade de Deus não o afasta dos humildes; afasta-o dos orgulhosos. É o tema do cântico de Maria, que celebra o Deus que inverte as posições, rebaixando os poderosos e erguendo os pequenos (Lc 1.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e de Tiago e Pedro, que recorrem a Provérbios para dizer que Deus se põe contra os arrogantes e favorece os humildes (Tg 4.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 5.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 3.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A graça que cura antes da conversão perfeita. Deus vê os caminhos tortos do povo e decide curá-lo. A iniciativa é dele. É a mesma lógica do evangelho, em que Cristo morre em favor de quem não tinha força nem piedade (Rm 5.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A cura vem antes, e a conversão é fruto dela, não condição.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
Isaías 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra a Queda em toda a sua feiura dentro do próprio povo de Deus: o justo morre sem que ninguém perceba, as crianças são sacrificadas, a aliança é traída como um casamento. A volta do exílio, cumprimento parcial das promessas, não curou o coração humano. É a Redenção em andamento num ponto de tensão: Deus prometeu salvação, mas o povo continua no caminho do próprio coração.
O capítulo aponta para a Redenção consumada no Deus alto que, em Cristo, se faz um de nós e é ele mesmo esmagado, e na paz aos distantes e aos próximos, que Paulo liga à cruz. E aponta para a Nova Criação, quando o mar, imagem do caos e da inquietação, já não existirá (Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Deus morará com o seu povo para sempre (Ap 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Tipologias: o justo recolhido e o Santo que habita
O justo que morre sem que ninguém o considere. O v. 1 não é profecia direta sobre o Messias. Mas a figura do justo que perece numa sociedade indiferente atravessa a Escritura, de Abel aos profetas (Mt 23.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e encontra em Jesus a sua forma máxima. Pedro e Estêvão chamam Jesus de o Justo, entregue e morto por aqueles que deviam reconhecê-lo (At 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 7.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Servo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) também foi levado com violência, e quase ninguém, entre os seus contemporâneos, percebeu que ele morria pela culpa do povo (Is 53.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns Pais da Igreja, como Justino Mártir, aplicaram Is 57.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à morte de Cristo. A leitura é possível como eco, desde que não se esqueça que o texto fala primeiro dos justos do tempo do profeta.
A morada de Deus. O verbo shakhan do v. 15 é o da presença de Deus no tabernáculo, no meio do povo. O Evangelho de João usa um verbo grego da mesma família de sentido, skēnoō, armar tenda, para dizer que a Palavra eterna assumiu a condição humana e armou a sua tenda no meio da humanidade (Jo 1.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O tabernáculo era sombra; Cristo é a morada definitiva de Deus entre os homens.
6.3 — Promessas e cumprimentos: os quatro níveis da leitura
(a) O contexto histórico imediato. O capítulo denuncia a idolatria de parte do povo, com sacrifícios de crianças, ritos de fertilidade, cultos aos mortos e alianças estrangeiras, e consola os justos e os humildes.
(b) A aplicação a Israel no seu tempo. Para os ouvintes, era um chamado a abandonar os ídolos e a se refugiar em Deus, e um consolo: o Deus santo morava com os esmagados.
(c) O cumprimento parcial histórico. A comunidade do retorno aprendeu, aos poucos, a rejeitar a idolatria grosseira, e o judaísmo dos séculos seguintes resistiu até a morte aos cultos gregos impostos no tempo dos macabeus. Mas a cura do coração não veio: Malaquias ainda denunciava sacerdotes negligentes e um povo infiel (Ml 1.6-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ml 2.10-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os Evangelhos mostram líderes religiosos que, como os vigias de Is 56.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), não reconheceram o tempo da visitação de Deus (Lc 19.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
(d) O cumprimento pleno em Cristo. O Novo Testamento cita ou alude a este capítulo em três pontos.
O primeiro e mais claro é a paz aos que estão longe e aos que estão perto. Em Efésios, Paulo escreve a cristãos de origem gentia, que antes viviam fora do povo de Israel, alheios às promessas das alianças, sem a esperança e sem o conhecimento do Deus verdadeiro (Ef 2.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora, em Cristo, a distância foi vencida, e o preço da aproximação foi o sangue dele. Paulo identifica a paz com a própria pessoa de Cristo, que fez de judeus e gentios um só povo e pôs fim à hostilidade entre eles. E então, combinando Is 57.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) com Is 52.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), diz que Cristo veio e anunciou a boa notícia da paz aos distantes e aos próximos (Ef 2.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os longe são os gentios; os perto, os judeus. A promessa de Isaías, que talvez pensasse primeiro nos exilados dispersos e nos que estavam em Jerusalém, ganha em Cristo a sua amplitude total.
O segundo é o Pentecostes. Pedro encerra o seu discurso estendendo a promessa do Espírito aos ouvintes, aos filhos deles e também aos distantes que Deus vier a chamar (At 2.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão retoma Is 57.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jl 2.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O terceiro é o v. 15, que ilumina a pessoa de Cristo. O Deus alto e elevado de Is 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é aquele cuja glória Isaías viu, segundo João, ao falar de Jesus (Jo 12.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Servo de Is 52.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) recebe os mesmos termos de altura. E o Deus de Is 57.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), alto e elevado, mora com os esmagados. Em Jesus, essas três linhas se encontram: ele é o Senhor do trono de Isaías 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Servo exaltado de Isaías 52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Deus que desce até os humildes de Isaías 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). E João fala da cruz como o momento em que o Filho do Homem é erguido e glorificado (Jo 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Altíssimo que mora com os esmagados é, em Cristo, o Altíssimo que se deixou esmagar.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
O Santo que se fez humilde. A carta aos Filipenses descreve o movimento de Cristo como uma descida e uma subida: ele, que partilhava a natureza de Deus, não tratou essa igualdade como algo a ser retido, abriu mão da sua glória, tomou a condição de escravo e de ser humano e obedeceu até a morte mais vergonhosa, a da cruz; em resposta, Deus o elevou acima de tudo (Fp 2.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o v. 15 narrado como história. O Deus que mora no alto e com os humildes, em Cristo, desceu ao lugar mais baixo, para levantar os que estavam no pó.
O esmagado que reanima os esmagados. A palavra dakka' do v. 15 é da família do verbo usado para o Servo moído pelas nossas culpas (Is 53.5, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus promete morar com os esmagados; em Cristo, ele próprio foi esmagado. Por isso pode reanimar o espírito dos humildes: não como alguém que olha de longe, mas como quem passou pela mesma dor. Hebreus apresenta Jesus como o sumo sacerdote capaz de sentir as nossas fraquezas, porque passou por toda espécie de prova sem jamais pecar (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O médico dos que não têm cura. O v. 18 diz que Deus viu os caminhos tortos do povo e decidiu curá-lo. Jesus se compara a um médico cuja clientela são os enfermos e declara que a sua missão é chamar os pecadores (Mc 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, retomando Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), liga a cura dos crentes às feridas sofridas por Cristo (1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O Senhor que acalma o mar. O perverso é como o mar agitado, que não pode sossegar. Nos Evangelhos, uma ordem de Jesus faz cessar o vento e aquieta as águas no meio da tempestade (Mc 4.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O episódio não interpreta Is 57.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mas a imagem ajuda: quem aquieta o mar pode aquietar o coração inquieto. Ele mesmo prometeu aos discípulos a sua própria paz, de outra natureza que a oferecida pelo mundo (Jo 14.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, depois da ressurreição, saudou-os com a paz (Jo 20.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
Isaías 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra o pior do coração humano e o melhor do coração de Deus. O povo traiu a aliança como uma esposa infiel, sacrificou os filhos, buscou socorro nos mortos e nos impérios, e, mesmo cansado, não quis admitir que o caminho era inútil. Deus, porém, vê esses caminhos e decide curar. O Santo que mora no alto mora também com os esmagados, para lhes dar vida.
Pregar este capítulo à luz de Cristo é anunciar que o Deus alto e elevado desceu em Jesus até o lugar mais baixo, foi esmagado na cruz e ressuscitou para reanimar os que estão no pó. A paz que ele cria alcança os distantes e os próximos, o religioso cansado e o idólatra arrependido. Mas a paz não é imposta: quem recusa o médico continua como mar agitado. O convite é deixar de correr atrás dos ídolos que cansam e se refugiar naquele que dá a terra e o monte santo como herança.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Ef 2.11-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a paz aos que estão longe e aos que estão perto, cumprida na reconciliação de judeus e gentios em Cristo.
- Is 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 52.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 12.38-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a linguagem do alto e elevado, ligada ao trono, ao Servo exaltado e à glória de Jesus.
- Fp 2.6-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 11.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 5.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a humildade de Cristo e as bem-aventuranças dos humildes e dos que choram.
- Sl 34.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 66.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 18.9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus perto dos quebrantados e o publicano justificado.
- Sl 103.9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 3.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 14.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Deus que não guarda a ira para sempre e cura a infidelidade.
- Lv 18.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 16.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 21.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 23.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 7.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a proibição e a história do sacrifício de crianças.
- Os 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 3.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Tg 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a idolatria como adultério contra o Deus da aliança.
- Ap 14.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 1.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o descanso dos justos que morrem.
- Is 48.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 66.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jd 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o refrão sobre os perversos e a imagem do mar agitado.
- Hb 13.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 14.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o fruto dos lábios como louvor a Deus.
No ciclo de leituras da sinagoga, uma parte do capítulo, a partir do v. 14, abre a leitura profética do Dia da Expiação, com o capítulo 58, sobre o jejum verdadeiro.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Perceber a morte dos justos e a dor dos esquecidos. O capítulo começa denunciando uma sociedade em que o justo morre e ninguém se importa. A indiferença de hoje produz o mesmo esquecimento: idosos que morrem sozinhos, vítimas que ninguém lamenta. Seguir Cristo, que viu a viúva e o leproso, é pôr no coração quem a sociedade não vê; e, para quem chora alguém fiel, o justo entra na paz.
Proteger as crianças. O sacrifício de crianças nos vales parece distante, mas toda cultura tem ídolos que sacrificam os pequenos: o abandono, a exploração, a violência, o descaso com a infância em nome do dinheiro ou do sucesso. Jesus pôs uma criança no meio dos discípulos e fez uma advertência severa a quem levasse um desses pequenos a cair (Mt 18.2-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A comunidade cristã deve ser lugar de proteção, e não de risco, para as crianças.
Admitir que o caminho dos ídolos é inútil. O v. 10 mostra o povo cansado, mas sem coragem de dizer que tudo era em vão. Muitos vivem assim, exaustos de correr atrás de dinheiro ou aprovação, mas renovando as forças para continuar. O evangelho convida a reconhecer o fracasso, não para o desespero, mas para a cura que Deus oferece a quem se volta para ele.
Aproximar-se do Santo pela humildade. O v. 15 ensina onde Deus mora: no alto e com os esmagados. A religião orgulhosa, que sobe aos montes elevados para se mostrar, não o encontra. O caminho até ele é o da humildade e da contrição, que Cristo percorreu primeiro. Quem está esmagado não precisa se esconder de Deus, porque é exatamente ali que ele promete morar.
Ser portador da paz aos que estão longe e aos que estão perto. A paz que Deus cria em Cristo não é privilégio de um grupo. A Igreja é chamada a anunciá-la aos de dentro e aos de fora e a reconciliar quem a história ou a política separaram; e quem a recebeu pode descansar no Cristo que acalma tempestades.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O v. 1 denuncia a indiferença diante da morte do justo. Quem são, hoje, as pessoas cuja vida e morte passam sem ser notadas, e o que significaria pô-las no coração?
- Os vv. 3-10 descrevem a idolatria como adultério. Que ídolos disputam hoje o amor que pertence só a Deus?
- O v. 10 mostra um povo cansado que não quis admitir que o seu caminho era inútil. Em que área da sua vida você precisa reconhecer isso diante de Deus?
- Releia Is 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Is 52.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Is 57.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O que a ligação entre o Deus alto e elevado, o Servo exaltado e o Deus que mora com os esmagados revela sobre a pessoa de Jesus?
- Paulo aplica Is 57.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) a judeus e gentios reconciliados em Cristo (Ef 2.13-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem são hoje, na sua realidade, os distantes e os próximos que essa paz precisa alcançar?
- Para meditação e oração: se você se sente esmagado e sem forças, leia devagar o v. 15 e agradeça porque o Deus santo prometeu morar exatamente aí; peça a Cristo, que foi esmagado por você, que reanime o seu espírito.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Richard Bauckham — Jesus and the God of Israel (Eerdmans, 2008)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo a Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007)
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
Comentários de Isaías:
- John N. Oswalt — The Book of Isaiah, Chapters 40–66 (NICOT, Eerdmans, 1998)
- J. Alec Motyer — Isaías: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica) / The Prophecy of Isaiah (IVP, 1993)
- Joseph Blenkinsopp — Isaiah 56–66 (Anchor Bible, Doubleday, 2003)
- Claus Westermann — Isaiah 40–66 (Old Testament Library, Westminster, 1969)
- Brevard S. Childs — Isaiah (Old Testament Library, Westminster John Knox, 2001)
- Franz Delitzsch — Biblical Commentary on the Prophecies of Isaiah (T&T Clark, edição inglesa do século XIX; reimpressões posteriores)
Sobre a unidade e a formação do livro:
- H. G. M. Williamson — The Book Called Isaiah (Oxford, 1994)
Pano de fundo:
- IVP Bible Background Commentary: Old Testament
Sabedoria para o Cotidiano
Isaías 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra um povo que subiu aos montes altos para buscar socorro nos ídolos, cansou-se e, mesmo assim, não quis admitir que o caminho era inútil; e mostra um Deus que, sendo alto e santo, prefere morar com os esmagados para lhes devolver a vida. Não gaste as forças tentando manter de pé o que um sopro pode levar: reconheça o cansaço, desça do monte do orgulho e procure o Santo onde ele prometeu estar, junto de quem se humilha. Em Cristo, o Altíssimo desceu até a cruz e foi esmagado por nós, e a paz que ele cria alcança os que estão longe e os que estão perto; só o coração que o recusa continua como o mar que não sabe descansar.
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