Isaías · 23 de 66 · Antigo Testamento
Isaías — Capítulo 65
Título do capítulo: A mão estendida e a nova criação
Gênero literário: Profecia (resposta divina ao lamento de Is 63.7–64.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): acusação contra um povo idólatra, oráculo de juízo e de salvação que separa servos e rebeldes, e anúncio poético de novos céus, nova terra e uma Jerusalém de alegria)
Número de versículos: 25
Nota de precisão: o capítulo tem a mesma numeração no hebraico impresso e nas Bíblias em português. Três pontos de leitura são discutidos e tratados no lugar próprio: se os vv. 1-2 falam só de Israel ou também das nações, como os aplica Paulo (Rm 10.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o sentido exato de algumas práticas religiosas condenadas nos vv. 3-5 e 11; e o modo de entender o v. 20, em que ainda se fala de morte dentro da promessa de renovação. O v. 25 retoma, de forma abreviada, a profecia de paz de Is 11.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O livro de Isaías reúne a palavra do profeta Isaías, filho de Amoz, que profetizou em Jerusalém nos reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, no século VIII a.C. (Is 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lido em três grandes partes, vai da ameaça assíria (caps. 1–39) ao consolo dos exilados na Babilônia (caps. 40–55) e à comunidade que tenta recomeçar em Jerusalém (caps. 56–66). Os capítulos 65 e 66 encerram essa última parte e o livro.
A autoria desta parte é discutida. A posição tradicional, judaica e cristã, entende que Isaías de Jerusalém falou profeticamente a gerações futuras; alguns dos seus defensores notam que os cultos dos vv. 3-5 e 11 lembram as práticas do tempo de Manassés, neto de Ezequias (2Rs 21.2-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos, porém, atribuem os capítulos 56–66 a profetas posteriores ao retorno, herdeiros da tradição de Isaías, e situam estes capítulos nas tensões da comunidade restaurada, no fim do século VI a.C. As duas posições têm defensores sérios. O Novo Testamento cita estes versículos sob o nome do profeta: Paulo diz que é Isaías quem ousa falar dos que acharam a Deus sem procurá-lo (Rm 10.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João atribui ao mesmo profeta textos das várias partes do livro (Jo 12.38-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O capítulo é, antes de tudo, uma resposta. A oração de Is 63.7–64.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) terminou perguntando se Deus continuaria calado (Is 64.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus fala, e a primeira coisa que diz desfaz a premissa da pergunta: não foi ele quem se escondeu; esteve disponível o tempo todo, e o povo é que não o procurou (vv. 1-2). Há ecos verbais claros. A oração perguntava se Deus ficaria calado; Deus responde que não vai se calar, mas para fazer justiça (v. 6). A oração dizia que ninguém invocava o nome de Deus (Is 64.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Deus responde que foi ele quem chamou sem obter resposta (v. 12).
A resposta faz uma distinção que a oração não fazia. O orante falava por todo o povo; Deus separa, dentro de Israel, os rebeldes, que praticam cultos pagãos, e os 'avadim, os servos, os escolhidos, os que o buscam. A palavra servos, no plural, é característica desta última parte. Nos capítulos 40–53, o Servo aparece no singular, como figura que sofre e carrega o pecado de muitos; depois do capítulo 53, o livro fala dos servos do SENHOR (Is 54.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 56.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 63.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 66.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos veem nisso uma linha teológica: o Servo gera servos, uma descendência (Is 53.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O pano de fundo dos vv. 3-5 e 11 são cultos populares da região: sacrifícios em jardins sagrados, consultas aos mortos, carne de porco, mesas postas a divindades da sorte e do destino. Alguns detalhes são obscuros, mas o quadro é claro: gente do povo de Deus misturava a fé de Israel com práticas que a Lei proibia (Lv 11.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 18.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O fim do capítulo, por sua vez, abre o horizonte mais amplo do livro: Deus anuncia novos céus e nova terra (v. 17), expressão que aparece aqui pela primeira vez na Bíblia e voltará em Is 66.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em 2Pe 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e em Ap 21.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). É o ponto de chegada de um livro que começou chamando o céu e a terra como testemunhas da rebeldia de Israel (Is 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
Deus diz que se deixou consultar por gente que não lhe fazia perguntas e encontrar por quem não o procurava; a uma nação que não invocava o seu nome, disse duas vezes que estava ali (v. 1). Passou o dia inteiro de mãos estendidas para um povo teimoso, guiado pelas próprias ideias (v. 2). Esse povo o provoca de frente: sacrifica em jardins e queima incenso sobre tijolos (v. 3), senta-se entre as sepulturas, passa a noite em lugares escondidos e come carne de porco (v. 4), e ainda manda os outros se afastarem, por se julgar santo demais para eles. Para Deus, essa gente é fumaça que irrita as narinas, um fogo aceso sem trégua (v. 5). Está tudo registrado; Deus não ficará calado, mas cobrará por inteiro as culpas deles e as dos pais, que queimaram incenso nos montes (vv. 6-7).
Mas Deus não destruirá tudo. Como não se joga fora o cacho de uvas em que ainda há suco bom, Deus poupará o povo por amor dos seus servos (v. 8). De Jacó e de Judá sairá gente para herdar os montes de Deus (v. 9), e a terra, da planície de Sarom ao vale de Acor, será pasto e descanso para o povo que o buscou (v. 10).
Aos que abandonaram o SENHOR e põem a mesa para Gad e Meni, deuses da sorte e do destino (v. 11), Deus destina a espada, porque o chamado dele ficou sem resposta (v. 12). Haverá dois destinos: para os servos, mesa farta, bebida, alegria e canto; para os rebeldes, fome, sede, vergonha e gritos de dor (vv. 13-14). O nome dos rebeldes servirá de fórmula de maldição, e os servos receberão outro nome; quem pedir bênção ou fizer juramento o fará pelo Deus do amém, porque as angústias antigas foram esquecidas (vv. 15-16).
Deus anuncia que está criando novos céus e nova terra, e o passado não voltará à mente (v. 17). Ele faz de Jerusalém uma alegria e se alegra nela, e ali o choro e o grito de socorro deixarão de ser ouvidos (vv. 18-19). Não haverá bebê que viva poucos dias nem velho que não complete os seus anos; morrer aos cem será morrer jovem (v. 20). As casas e as vinhas serão de quem as levantou e plantou, os dias do povo serão longos como os de uma árvore, o trabalho não se perderá, e os filhos não nascerão para a tragédia (vv. 21-23). Deus responderá antes do chamado (v. 24). O lobo e o cordeiro partilharão o pasto, o leão se contentará com palha, o pó será o alimento da serpente, e no monte santo não haverá violência nem destruição (v. 25).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — Achado por quem não o procurava
O v. 1 usa duas formas verbais do tipo que os gramáticos chamam de tolerativas: nidrashti, eu me deixei consultar, e nimtse'ti, eu me deixei achar. O verbo darash, buscar, consultar, é o termo técnico para ir a Deus em busca de orientação (Gn 25.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Rs 22.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em seguida vem a dupla hinneni, hinneni, eis-me aqui, a palavra com que Abraão, Moisés e Samuel responderam ao chamado de Deus (Gn 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 3.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui é Deus quem a diz, duas vezes, a uma nação que não invocava o seu nome. A situação se inverte: é Deus quem se apresenta, e ninguém responde.
O v. 2 completa a imagem. Deus estendeu as mãos, perasti yaday, o dia inteiro. É o gesto de quem chama e acolhe. O povo a quem as mãos se estendem é sorer, rebelde, teimoso, a palavra usada para o filho obstinado que não obedece aos pais (Dt 21.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para os príncipes de Jerusalém no primeiro capítulo (Is 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele anda por um caminho que não é bom, atrás dos próprios maḥshavot, pensamentos ou planos, a mesma palavra de Is 55.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Deus dizia que os pensamentos dele não são os nossos.
A quem se referem esses versículos? No contexto imediato, a resposta mais natural é: a Israel. A oração do capítulo anterior dizia que Deus se escondera; Deus responde que estava ali, e foi Israel quem não o procurou. A frase sobre a nação que não invocava o nome de Deus pode ser lida, com a vocalização do hebraico tradicional, como nação que não era chamada pelo nome de Deus; o povo rebelde se comportava como se não pertencesse a ele, exatamente como o orante confessara (Is 63.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo, porém, lê o v. 1 de outro modo. Em Rm 10.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), seguindo a antiga tradução grega, aplica o primeiro versículo aos gentios, que encontraram a Deus sem procurá-lo, e o segundo a Israel, a quem Deus estendeu as mãos o dia todo. A leitura não é arbitrária: apoia-se no movimento do próprio livro, que termina com as nações vindo ver a glória de Deus (Is 66.18-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na experiência da igreja, em que os de fora entravam enquanto muitos de Israel resistiam.
Versículos 3-7 — Um culto que é fumaça no nariz de Deus
Os vv. 3-5 descrevem o povo rebelde com uma lista de práticas. Ele provoca a Deus 'al-panay, na minha cara, sem cessar. Oferece sacrifícios nos gannot, jardins, provavelmente bosques sagrados ligados a cultos de fertilidade, já condenados em Is 1.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Queima incenso sobre levenim, tijolos, talvez altares improvisados, contrários à Lei, que pedia altares de terra ou de pedra bruta (Êx 20.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou telhados usados para o culto (Jr 19.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 4 fala dos que se sentam nos qevarim, sepulcros, e passam a noite em netsurim, lugares escondidos ou guardados. A maior parte dos estudiosos vê aqui práticas de consulta aos mortos ou de incubação, quando se dormia num lugar sagrado esperando um sonho revelador; a antiga tradução grega acrescenta que dormiam nas cavernas por causa de sonhos. A consulta aos mortos era proibida (Dt 18.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o próprio Isaías já perguntara por que alguém consultaria os mortos em favor dos vivos (Is 8.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo menciona ainda carne de porco e um caldo de piggulim, coisas impuras ou estragadas. O porco era proibido na Lei (Lv 11.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 14.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e há indícios de que era usado em alguns cultos pagãos da região.
Alguns estudiosos notam que a narrativa de Marcos sobre o homem possesso de Gerasa reúne vários desses elementos: um homem que vivia entre os sepulcros, numa terra de gentios, perto de uma grande manada de porcos (Mc 5.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se há eco intencional, Jesus aparece ali como quem vai ao lugar mais impuro descrito por Isaías e liberta quem estava preso nele.
O v. 5 traz a ironia mais fina do trecho. Os que praticam esses cultos dizem aos outros que fiquem longe, que não se aproximem, porque eles são santos demais. O verbo qedashtikha é difícil, e alguns entendem que eles temiam transmitir a sua santidade a quem os tocasse, como se a santidade fosse contagiosa (Ez 44.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em qualquer leitura, a ironia é a mesma: os mais impuros se julgam os mais santos. Deus responde que essa gente é 'ashan, fumaça que incomoda as narinas, e fogo que não dá trégua.
Os vv. 6-7 trazem a sentença. Está escrito diante de Deus, como num registro de tribunal (Ml 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E Deus diz lo' 'eḥesheh, não vou ficar calado. É a resposta direta à pergunta de Is 64.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que usava o mesmo verbo. O orante perguntava se Deus ficaria em silêncio; Deus responde que não, mas o seu falar começa pelo juízo. Ele shillamti, vai pagar, retribuir por inteiro, 'al-ḥeqam, no colo deles, a imagem de quem recebe a medida transbordando na dobra da roupa (Lc 6.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A culpa é a deles e a dos pais, que queimaram incenso nos montes e afrontaram a Deus nas colinas, os lugares altos que os profetas tantas vezes condenaram (Os 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 3.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A geração presente não é punida pelo pecado dos pais, mas por ter continuado nele.
Versículos 8-10 — O cacho que ainda guarda vinho
O v. 8 abre com koh 'amar YHWH, assim diz o SENHOR, e muda de tom. A imagem vem da vindima. Quando se encontra tirosh, suco novo, num 'eshkol, cacho, alguém diz que não se deve destruí-lo, porque há berakhah, bênção, nele. A frase 'al-tashḥitehu, não o destruas, aparece como indicação no título de quatro salmos (Sl 57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e muitos estudiosos supõem que fosse o começo de uma canção da colheita conhecida no tempo. Seja como for, a imagem é clara: um cacho pode parecer estragado, com muitos bagos ruins, mas, se ainda houver suco bom, não se joga fora.
Isaías já usara a imagem da vinha para Israel: no cântico do capítulo 5, Deus esperava uvas boas e recebeu uvas bravas (Is 5.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui a vinha não é destruída por inteiro, por causa dos servos. É o tema do remanescente, que percorre o livro desde o primeiro capítulo (Is 1.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o capítulo 6, com o toco que fica da árvore cortada (Is 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 9 renova a promessa da terra para o remanescente: uma zera', descendência, de Jacó, um yoresh, herdeiro, de Judá, e os beḥirim, escolhidos, morando nos montes de Deus.
O v. 10 dá dois nomes geográficos. Sarom é a planície fértil junto ao Mediterrâneo, a oeste; o vale de Acor fica a leste, nas proximidades de Jericó. Os dois juntos podem indicar a terra inteira, de um extremo ao outro. O vale de Acor tem uma história: foi ali que Acã foi apedrejado por ter tomado o que estava consagrado à destruição (Js 7.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o nome significa perturbação. Oseias já prometera que Deus faria desse vale uma porta de esperança (Os 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías retoma a promessa: o lugar da maldição vira pasto de descanso, para o povo que buscou a Deus, 'asher derashuni, o mesmo verbo do v. 1.
Versículos 11-16 — Duas mesas, dois destinos, dois nomes
O v. 11 volta aos rebeldes e os descreve como os que abandonam o SENHOR e esquecem o monte santo. Eles preparam uma mesa para Gad e enchem taças de vinho misturado para Meni. Gad é o nome de uma divindade da boa sorte, conhecida em inscrições e em nomes de lugares da região (Js 11.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) menciona Baal-Gade); Meni parece ser uma divindade do destino, da partilha que cabe a cada um. Pouco se sabe desses cultos, mas o sentido é claro: o povo apostava na sorte e no destino.
O v. 12 traz um jogo de palavras. Os que serviam Meni, o destino, serão destinados, maniti, do mesmo verbo, à espada. O destino que eles cultuavam se volta contra eles. E a razão é a mesma do v. 2: o chamado de Deus ficou sem resposta, e a sua palavra, sem ouvintes. A frase reaparecerá quase igual em Is 66.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Eles fizeram o ra', o mal, aos olhos de Deus e escolheram o que não lhe agrada. A palavra escolher é importante: eles escolheram, e Deus confirma a escolha.
Os vv. 13-14 trazem uma série de contrastes introduzidos por hinneh, eis que: comida, bebida, alegria e canto de um lado; fome, sede, vergonha e gemido do outro. O padrão lembra as bênçãos e maldições da aliança (Dt 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e as bem-aventuranças e ais de Jesus em Lucas (Lc 6.20-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesa de Gad e Meni produz fome; a mesa de Deus sacia.
O v. 15 diz que o nome dos rebeldes ficará como shevu'ah, fórmula de juramento ou de maldição, na boca dos escolhidos. Já os servos receberão shem 'aḥer, outro nome. O livro já prometera um novo nome a Sião (Is 62.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse promete um novo nome aos vencedores (Ap 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 3.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns intérpretes antigos ligaram essa promessa ao nome de cristãos, dado aos discípulos em Antioquia (At 11.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a ligação é possível como aplicação, mas não é o que o texto diz diretamente.
O v. 16 traz uma expressão única no Antigo Testamento: 'elohe 'amen, o Deus do amém. Quem pedir bênção ou fizer juramento na terra o fará por esse Deus. 'Amen vem da raiz 'aman, ser firme, digno de confiança; é a palavra com que o povo confirmava uma bênção ou uma maldição (Dt 27.15-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Chamar Deus de Deus do amém é dizer que ele é o Deus que cumpre, em quem as palavras se confirmam. O motivo é que as tsarot, angústias, de antes foram esquecidas e estão escondidas dos olhos de Deus. É o oposto do v. 6: lá, as culpas dos rebeldes estavam escritas diante de Deus; aqui, as angústias dos servos estão escondidas dos seus olhos.
Versículos 17-19 — O Criador de novos céus e de uma cidade alegre
O v. 17 é o centro do capítulo e um dos textos mais importantes do livro. Deus diz hineni bore', eis-me criando. O verbo é bara', o de Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), reservado na Bíblia à ação de Deus. O particípio indica uma ação que já começou e está em curso. O objeto é shamayim ḥadashim wa'arets ḥadashah, céus novos e terra nova. O céu e a terra que testemunharam a rebelião em Is 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) serão refeitos.
A segunda parte do versículo diz que as ri'shonot, as coisas primeiras, não serão lembradas nem ta'alenah 'al-lev, subirão ao coração. A segunda parte do livro já mandara não ficar preso às coisas antigas, porque Deus estava fazendo algo novo (Is 43.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e aqui a novidade chega à criação inteira. A expressão de não subir ao coração é a que muitos estudiosos reconhecem na citação de Paulo em 1Co 2.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), combinada com Is 64.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Como entender os novos céus e a nova terra? O texto usa a linguagem da criação para falar de uma renovação total, que alcança não só Israel, mas o próprio mundo. Ao mesmo tempo, o que segue (vv. 18-25) descreve essa novidade com imagens da vida conhecida: cidade, casas, vinhas, crianças, animais. A profecia fala do futuro com as palavras do presente: não é uma descrição técnica do fim, mas um retrato poético de um mundo curado.
Os vv. 18-19 colocam Jerusalém no centro dessa nova criação. Deus cria Jerusalém como gilah, alegria, e o seu povo como masos, regozijo. E o próprio Deus se alegra: wegalti biyrushalayim, eu me alegrarei em Jerusalém. E então a promessa: o som do choro, qol bekhi, e o do grito de socorro, qol ze'aqah, deixarão de ser ouvidos nela. A palavra ze'aqah é o grito de socorro do oprimido, da mesma família do clamor que subiu do Egito (Êx 3.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e do grito que, em Is 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Deus ouviu em vez da justiça que esperava. A cidade onde o pobre gritava será a cidade onde ninguém precisa gritar. O Apocalipse retomará a promessa, ao mostrar Deus secando as lágrimas dos seus e pondo fim à morte, ao luto e à dor (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 25.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 20-25 — Vida longa, trabalho fecundo e um monte em paz
O v. 20 descreve a longevidade. Não haverá mais 'ul yamim, bebê de poucos dias, nem velho que não complete os seus dias. Quem morrer aos cem anos morrerá na'ar, jovem; e o ḥote', pecador, ou, segundo outra leitura, quem não chegar aos cem, será considerado amaldiçoado. O versículo é discutido porque ainda fala de morte e de pecado. Leitores de linha pré-milenista entendem que descreve um reino terreno anterior à consumação final, em que a morte ainda existe; muitos outros intérpretes entendem que o profeta usa a linguagem da vida conhecida para dizer, de modo poético, que a fragilidade e a morte prematura serão vencidas. Na Bíblia, uma vida longa é sinal de bênção (Êx 20.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 91.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Zacarias também imagina velhos e crianças nas praças de Jerusalém (Zc 8.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías amplia a imagem até o máximo que o leitor da época podia conceber; o Apocalipse dará o passo seguinte, anunciando que a morte não existirá mais (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 21-22 descrevem o trabalho. Quem levantar uma casa vai morar nela, e quem plantar uma vinha vai provar das uvas. A promessa inverte as maldições da aliança, que diziam que o infiel construiria e outro moraria, plantaria e outro colheria (Dt 28.30, 38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que se cumpriram na invasão e no exílio. Amós já prometera o mesmo para a restauração (Am 9.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Miqueias falara de cada um sentado debaixo da sua videira (Mq 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dias como os da árvore sugerem longevidade e estabilidade, e os escolhidos yevallu, aproveitarão até o fim, desgastarão pelo uso, o trabalho das suas mãos.
O v. 23 retoma o trabalho e a família. O trabalho não será lariq, vazio, e o nascimento dos filhos não será labbehalah, para o terror, a calamidade súbita. A maldição de Gn 3.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tinha atingido justamente essas duas áreas: o trabalho penoso e a dor de gerar filhos. A nova criação cura as duas. Eles serão zera' berukhe YHWH, descendência dos abençoados do SENHOR.
O v. 24 é uma das promessas mais ternas do livro. Deus responde antes do chamado e escuta enquanto as palavras ainda estão sendo ditas. É o oposto exato do v. 12, onde Deus chamava e ninguém respondia, e da oração do capítulo 64, que terminava com o silêncio. Jesus dirá que o Pai conhece as nossas necessidades antes de qualquer pedido (Mt 6.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 25 fecha o capítulo com a paz entre os animais. O lobo e o cordeiro partilharão o pasto; o leão comerá palha como o boi. A frase é um resumo de Is 11.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde a paz entre os animais acompanha o reinado do rebento de Jessé, e a frase final, que afasta do monte santo toda violência e destruição, é a mesma de Is 11.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Mas há um acréscimo: o pó será o alimento da serpente. A frase retoma a sentença de Gn 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que a serpente foi condenada a rastejar e comer pó. No mundo renovado, toda a criação vive em paz, mas a serpente, figura do mal desde o jardim, continua sob a sentença. A paz da nova criação não é uma trégua com o mal; é a vitória sobre ele.
✨ 4. Versículos-Chave
Is 65.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus se deixa achar por quem não o buscava e passa o dia de braços abertos para um povo teimoso. Os dois versículos mostram a iniciativa da graça e a paciência de Deus com a resistência humana. Paulo os cita em Rm 10.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), aplicando o primeiro aos gentios e o segundo a Israel, para mostrar que a graça alcança os de fora e que Deus não desistiu do seu povo. Já no século II, Justino Mártir via nas mãos estendidas do v. 2 uma figura de Cristo com os braços abertos na cruz; a leitura é devocional, mas fiel ao coração do texto: em Jesus, Deus estendeu as mãos de um modo que ninguém poderia esperar.
Is 65.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Deus do amém é o Deus em quem as palavras se cumprem. O Apocalipse dá esse título a Cristo, que se apresenta à igreja de Laodiceia como o Amém, a testemunha em quem se pode confiar por inteiro (Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo diz que em Cristo Deus confirma cada uma das suas promessas, e que é por meio dele que a Igreja responde com o seu amém (2Co 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus do amém tem um rosto.
Is 65.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O anúncio dos novos céus e da nova terra é o horizonte final da profecia bíblica. Pedro diz que os crentes aguardam, apoiados na promessa de Deus, novos céus e nova terra, um mundo em que a justiça estará em casa (2Pe 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João vê, no fim do Apocalipse, o novo céu e a nova terra, e a nova Jerusalém descendo de Deus (Ap 21.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A promessa não fala de fuga do mundo, mas de um mundo refeito pelo seu Criador.
Is 65.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O lobo e o cordeiro em paz, o leão comendo palha e a serpente sob a sentença retomam Is 11.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Gn 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A paz da nova criação é a paz do reinado do Messias, e a vitória sobre a serpente lembra a promessa do jardim (Gn 3.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo promete que Deus, que dá a paz, logo porá Satanás sob os pés dos crentes (Rm 16.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A graça que toma a iniciativa. Deus não espera que o povo o procure; ele se apresenta, diz eis-me aqui, estende as mãos. O tema percorre toda a Bíblia, desde o Deus que procura Adão no jardim (Gn 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) até o pastor que sai atrás da ovelha perdida (Lc 15.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo usa este capítulo para mostrar que a salvação dos gentios não nasce do esforço deles, mas da iniciativa de Deus. Jesus diz ter vindo procurar e resgatar os que estavam perdidos (Lc 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A separação entre servos e rebeldes. O capítulo não trata Israel como um bloco. Dentro do povo, há os que buscam a Deus e os que o abandonam, e o destino de cada grupo é diferente. O tema do remanescente fiel, presente desde o primeiro capítulo, chega aqui ao seu ponto mais claro. Paulo o retoma ao falar de um remanescente escolhido pela graça (Rm 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus ensina que não basta chamá-lo de Senhor para entrar no reino (Mt 7.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A nova criação. O anúncio dos novos céus e da nova terra é o ponto final da esperança do livro. A salvação não é só individual nem só nacional; alcança o cosmos. O Novo Testamento afirma que essa nova criação já começou na ressurreição de Cristo e na vida dos que estão nele (2Co 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e será consumada quando a própria criação ficar livre da decadência a que hoje está presa (Rm 8.19-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A alegria de Deus. O v. 19 diz que o próprio Deus se alegrará em Jerusalém. A Bíblia não apresenta Deus como indiferente ao seu povo; ele se alegra com ele, como o noivo com a noiva (Is 62.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e como quem canta de alegria (Sf 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus fala da alegria no céu por um pecador que se arrepende (Lc 15.7, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A nova criação é a festa de Deus com o seu povo.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
Isaías 65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) abrange quase todo o arco redentor. Mostra a Queda ainda em ação no povo de Deus, com idolatria, cultos pagãos e falsa santidade. Mostra a Redenção em andamento, na graça que alcança quem não buscava e no remanescente preservado. E aponta, como poucos textos do Antigo Testamento, para a Nova Criação: novos céus, nova terra, uma cidade sem choro, um monte sem violência. O capítulo liga a primeira página da Bíblia, com o céu e a terra, a serpente e o trabalho amaldiçoado, à última, com o novo céu e a nova terra e a cidade de Deus.
6.2 — Tipologias: Jerusalém, o Éden e o monte santo
Jerusalém. A cidade que Deus cria como alegria (v. 18) é a Jerusalém histórica e, ao mesmo tempo, mais do que ela. No Novo Testamento, essa cidade é chamada de Jerusalém do alto, mãe dos crentes (Gl 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cidade do Deus vivo a que os crentes já chegaram em Cristo (Hb 12.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e nova Jerusalém que desce do céu (Ap 21.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Jerusalém terrena foi figura; a cidade de Deus em Cristo é a realidade.
O Éden restaurado. O capítulo inverte as maldições de Gn 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o trabalho não será em vão, os filhos não nascerão para a desgraça, a serpente fica no pó, a vida se prolonga. A nova criação é um Éden refeito, e o Apocalipse fecha a Bíblia com a árvore da vida e o fim de toda maldição (Ap 22.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cristo, o novo Adão (Rm 5.12-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é quem desfaz a maldição do primeiro.
O monte santo. O monte de Deus, onde nada faz mal (v. 25), é Sião, o lugar do templo. Hebreus diz que os crentes já chegaram ao monte Sião, à reunião festiva dos anjos e à igreja dos primogênitos (Hb 12.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), porque em Jesus o acesso a Deus foi aberto.
6.3 — Promessas e cumprimentos: os quatro níveis da leitura
(a) O contexto histórico imediato. O capítulo responde a um povo que se queixava do silêncio de Deus. Diz que Deus estava disponível e o povo é que não o buscou; denuncia práticas pagãs; separa os servos fiéis dos rebeldes; e anuncia uma renovação que vai além de tudo o que o povo conhecia.
(b) A aplicação a Israel no seu tempo. Para os primeiros leitores, era um chamado a abandonar os cultos da sorte e dos mortos e a buscar a Deus, com a promessa de que o remanescente fiel herdaria a terra e veria a alegria de Jerusalém.
(c) O cumprimento parcial histórico. Depois do exílio, a idolatria aberta diminuiu muito em Judá, e houve uma comunidade fiel que reconstruiu o templo e os muros. Mas a Jerusalém sem choro, a vida longa, o trabalho sem frustração e a paz entre os animais não se realizaram. A cidade continuou sob domínio estrangeiro, e o povo continuou dividido.
(d) O cumprimento pleno em Cristo. Em Jesus, Deus estende as mãos de modo definitivo. Ele chama os de fora, como os gentios que encontraram a Deus sem procurá-lo (Rm 10.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e chora sobre Jerusalém, a quem quis reunir como a galinha reúne os pintinhos (Mt 23.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é o Amém de Deus (Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em quem as promessas se confirmam (2Co 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A sua ressurreição é o começo da nova criação: Paulo diz que a união com Cristo faz da pessoa uma criação nova, com o velho deixado para trás (2Co 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A plenitude ainda é futura: os novos céus e a nova terra serão revelados quando Cristo voltar (2Pe 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Igreja vive entre o já da ressurreição e o ainda não da consumação.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
As mãos estendidas. O v. 2 mostra Deus estendendo as mãos o dia inteiro para um povo rebelde. Nos Evangelhos, Jesus estende as mãos para tocar leprosos (Mc 1.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), abençoar crianças (Mc 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), levantar a filha de Jairo (Mc 5.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e salvar Pedro que afundava (Mt 14.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, as mãos ficam abertas e pregadas, e ali a paciência de Deus com os rebeldes chega ao extremo. Jesus pede perdão por quem o crucificava (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Aquele que vai aos sepulcros. Os rebeldes do v. 4 sentavam-se entre os túmulos para consultar os mortos. Jesus vai aos túmulos para vencer a morte: liberta o homem de Gerasa que vivia entre os sepulcros (Mc 5.1-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), chama Lázaro para fora da sepultura (Jo 11.43-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e deixa vazio o próprio túmulo (Mc 16.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem procura vida entre os mortos encontra, no túmulo vazio, a notícia de que ele ressuscitou (Lc 24.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A falsa santidade desmascarada. O v. 5 condena os que se acham santos demais para se aproximar dos outros. Jesus faz o contrário: senta-se à mesa com pecadores e cobradores de impostos (Mc 2.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e conta a parábola do fariseu que se julgava melhor que o publicano (Lc 18.9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A santidade de Jesus não se afasta dos impuros; ela os alcança e os purifica.
A mesa de Deus. O capítulo opõe a mesa de Gad e Meni, que leva à fome, à mesa de Deus, onde os servos comem e bebem (v. 13). Jesus se apresenta como o pão da vida, que sacia de vez a fome e a sede de quem se achega a ele (Jo 6.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na ceia, ele dá o pão e o cálice da nova aliança (Lc 22.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e promete voltar a beber do vinho quando o reino de Deus chegar (Mc 14.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O banquete da nova criação é a mesa do Cordeiro (Ap 19.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O novo nome. Os servos recebem outro nome (v. 15). Em Cristo, os que creem recebem o nome de filhos de Deus (Jo 1.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Jo 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse promete um nome novo escrito numa pedra branca (Ap 2.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar Isaías 65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz de Cristo é começar pela graça que chega primeiro. Deus se deixa achar por quem não o procurava, diz eis-me aqui a quem não o chamava e estende as mãos o dia inteiro a quem lhe dá as costas. Em Jesus, essas mãos foram pregadas numa cruz, e a paciência de Deus com os rebeldes ganhou a sua expressão máxima.
O capítulo também é sério: há os que recusam o chamado, preferem a mesa da sorte e do destino e escolhem o que Deus reprova. A escolha tem consequências, e Deus a respeita. Mas o horizonte do capítulo é a alegria: novos céus, nova terra, uma cidade sem choro, o trabalho que dá fruto, o Deus que responde antes do pedido. Essa nova criação começou na ressurreição de Jesus, e todo aquele que está nele já faz parte dela. O convite do evangelho é responder às mãos estendidas e entrar, desde agora, na alegria do que Deus está criando.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Rm 10.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo cita os vv. 1-2, aplicando o primeiro aos gentios e o segundo a Israel.
- Is 64.7, 12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a oração a que este capítulo responde: ninguém invocava o nome de Deus, e o orante perguntava se Deus se calaria.
- Dt 18.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 11.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 8.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as práticas proibidas que os vv. 3-5 denunciam.
- Mc 5.1-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o homem que vivia entre os sepulcros, numa terra com porcos, libertado por Jesus.
- Is 5.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a vinha e o remanescente fiel.
- Js 7.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o vale de Acor transformado em porta de esperança.
- Dt 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 6.20-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as bênçãos e maldições da aliança e as bem-aventuranças e ais de Jesus.
- Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo, o Amém de Deus.
- Gn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 43.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Pe 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a criação e a nova criação.
- Is 25.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o fim do choro e da morte.
- Dt 28.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 9.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 15.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o trabalho que não é em vão.
- Is 11.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gn 3.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 16.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a paz do monte santo e a serpente vencida.
- Mt 6.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Pai que conhece as necessidades antes do pedido, eco do v. 24.
Na teologia cristã, este capítulo e o seguinte são textos centrais da esperança num mundo renovado, e não numa fuga do mundo, como insistem autores como N. T. Wright.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Responder às mãos estendidas. O capítulo começa com Deus disponível e o povo distraído. Muitas vezes nos queixamos do silêncio de Deus quando, na verdade, não o temos buscado. Em Cristo, as mãos de Deus continuam estendidas. A resposta começa com coisas simples: voltar à oração, à leitura da Escritura, à comunhão com a igreja.
Abandonar a mesa da sorte e do destino. Os rebeldes punham a mesa para Gad e Meni, a sorte e o destino. Hoje os nomes mudaram: horóscopos, apostas, superstições, a busca de controle sobre o futuro por caminhos que não passam por Deus. O cristão é chamado a confiar no Deus do amém, que cumpre a palavra, e não na sorte. Em Cristo, o futuro não é um sorteio; é uma promessa.
Desconfiar da própria santidade. O v. 5 condena os que se acham santos demais para os outros. A tentação continua viva em comunidades religiosas. A santidade de Cristo nos ensina o contrário: aproximar-se dos impuros, comer com pecadores, tocar os que todos evitam. Quem foi alcançado pela graça não tem do que se gabar.
Trabalhar com esperança. O v. 23 promete que o trabalho não será em vão. Paulo, depois de falar da ressurreição, conclui que o trabalho no Senhor não é vão (1Co 15.58 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que é feito em Cristo, ainda que pareça pequeno ou frustrado, tem lugar na nova criação. Isso dá sentido ao trabalho cotidiano e ânimo para continuar quando os resultados não aparecem.
Viver como cidadão da nova criação. Se Deus está criando novos céus e nova terra, o cristão já vive como quem pertence a esse mundo: cuida da criação, busca a justiça, promove a paz, consola os que choram. Não para construir o reino com as próprias mãos, mas como sinal do que Deus está fazendo em Cristo.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- A oração do capítulo 64 perguntava se Deus ficaria calado. Como os vv. 1-2 respondem a essa pergunta? O que isso ensina sobre os momentos em que sentimos Deus distante?
- Paulo aplica o v. 1 aos gentios e o v. 2 a Israel (Rm 10.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como essa leitura se relaciona com o contexto do livro de Isaías?
- Quais são hoje as mesas de Gad e Meni, as formas de confiar na sorte e no destino em vez de confiar em Deus?
- O v. 16 fala do Deus do amém, e o Apocalipse chama Cristo de o Amém (Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que significa dizer que Jesus é o sim de Deus a todas as promessas?
- Como os vv. 17-25 descrevem a nova criação? Que diferença faz, para a sua vida e para o seu trabalho, saber que Deus não vai descartar o mundo, mas renová-lo?
- Para meditação e oração: leia o v. 24 devagar. Agradeça a Deus porque, em Cristo, ele ouve antes que você termine de falar, e entregue a ele as angústias que você deseja ver esquecidas na nova criação.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- N. T. Wright — Surpreendido pela esperança (Ultimato) / Surprised by Hope (HarperOne, 2008)
- J. Richard Middleton — A New Heaven and a New Earth: Reclaiming Biblical Eschatology (Baker Academic, 2014)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo a Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
Comentários de Isaías:
- John N. Oswalt — The Book of Isaiah, Chapters 40–66 (NICOT, Eerdmans, 1998)
- J. Alec Motyer — Isaías: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica) / The Prophecy of Isaiah (IVP, 1993)
- Brevard S. Childs — Isaiah (Old Testament Library, Westminster John Knox, 2001)
- Joseph Blenkinsopp — Isaiah 56–66 (Anchor Bible, Doubleday, 2003), representante da leitura crítica
- Barry G. Webb — The Message of Isaiah (série de comentários The Bible Speaks Today, IVP, 1996)
Sobre Paulo e Isaías:
- J. Ross Wagner — Heralds of the Good News: Isaiah and Paul in Concert in the Letter to the Romans (Brill, 2002)
Sabedoria para o Cotidiano
Isaías 65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que, quando parece que Deus se calou, muitas vezes é ele quem está de braços abertos e nós é que não o procuramos. Em Cristo, essas mãos foram pregadas numa cruz e continuam estendidas. Deixe de pôr a mesa para a sorte e para o destino e confie no Deus do amém, que cumpre o que promete. O trabalho feito nele não se perde, as lágrimas de agora não serão a última palavra, e o mundo que Deus está criando já começou na manhã da ressurreição.
Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?
Pergunte ao Farol