Jeremias · 24 de 66 · Antigo Testamento
Jeremias — Capítulo 25
Título do capítulo: Setenta anos e o cálice da ira
Gênero literário: Profecia (oráculo datado em prosa, com retrospectiva do ministério, acusação e sentença; ato simbólico ou visão do cálice, com a lista das nações que devem bebê-lo; oráculos poéticos de juízo universal e lamento sobre os pastores)
Número de versículos: 38
Nota de precisão: o capítulo é datado do quarto ano de Jeoaquim, que o próprio texto faz coincidir com o primeiro ano de Nabucodonosor, por volta de 605 a.C. Os anos a.C. são aproximados e podem variar um ano conforme o sistema de contagem. É aqui que as duas formas antigas do livro mais se afastam: na antiga tradução grega, depois de Jr 25.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) vêm os oráculos às nações, que no texto hebraico e nas Bíblias em português estão nos capítulos 46–51, e a seção do cálice (vv. 15-38) aparece depois deles. Este estudo segue a numeração das Bíblias em português e apresenta as duas formas como testemunhas antigas e respeitáveis do livro.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O ano que mudou o mapa
Jeremias, filho de Hilquias, sacerdote de Anatote, foi chamado no décimo terceiro ano de Josias, por volta de 627/626 a.C. (Jr 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No capítulo 25, ele já pregava havia vinte e três anos.
Em 609 a.C., Josias morrera em Megido diante do faraó Neco, e o Egito pusera no trono Jeoaquim (2Rs 23.29-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em 605 a.C., o príncipe herdeiro da Babilônia, Nabucodonosor, derrotou o exército egípcio em Carquemis, junto ao Eufrates, batalha que Jeremias data justamente no quarto ano de Jeoaquim (Jr 46.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As crônicas babilônicas registram a vitória e contam que, no mesmo verão, chegou a notícia da morte do pai, Nabopolassar; Nabucodonosor voltou às pressas à Babilônia e foi entronizado ainda em 605 a.C. Começava um reinado de quarenta e três anos, até 562 a.C.
O v. 1 registra esse encontro de calendários: o quarto ano de Jeoaquim é o primeiro de Nabucodonosor. É um dos raros sincronismos do livro com o calendário babilônico (cf. Jr 32.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 52.12), e mostra que a palavra é dada no momento exato em que a Babilônia assume o domínio da região. Daniel situa uma primeira ida de Nabucodonosor a Jerusalém no terceiro ano de Jeoaquim (Dn 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a diferença costuma ser explicada por sistemas diferentes de contar os anos de reinado, um que não conta o ano da subida ao trono e outro que conta.
O mesmo quarto ano de Jeoaquim é o ano em que Deus mandou Jeremias escrever num rolo todas as palavras recebidas desde os dias de Josias (Jr 36.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o ano da palavra a Baruque (Jr 45.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos pensam que os vv. 1-13 resumem aquele primeiro rolo, que Jeoaquim lançaria ao fogo; a hipótese é plausível, mas o texto não a confirma.
O fim de uma grande parte do livro
O capítulo 25 fecha a primeira grande parte de Jeremias (capítulos 1–25), dedicada sobretudo aos oráculos contra Judá e Jerusalém. E faz isso olhando para trás, para o capítulo 1. Lá, o profeta foi constituído sobre nações e reinos (Jr 1.5, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aqui, ele faz as nações beberem o cálice. Lá, Deus anunciou que convocaria as famílias dos reinos do norte (Jr 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aqui, convoca as famílias do norte com Nabucodonosor à frente (v. 9). Lá, a acusação era adorar as obras das próprias mãos (Jr 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); aqui, a mesma expressão se repete três vezes (vv. 6, 7, 14). O capítulo é um balanço do ministério e uma ponte para os oráculos às nações.
As duas formas do livro neste capítulo
No texto hebraico tradicional, seguido pelas Bíblias em português, o capítulo corre sem interrupção do v. 1 ao v. 38, e os oráculos contra as nações estão nos capítulos 46–51, numa ordem que começa pelo Egito e termina na Babilônia. Na antiga tradução grega, segundo as edições críticas mais usadas, a menção do v. 13 de que Jeremias profetizou contra as nações funciona como título, e logo vêm os oráculos, em outra ordem, que começa por Elão. O v. 14 não aparece nessa forma, e a seção do cálice vem depois dos oráculos, como o seu fecho.
Há ainda diferenças menores. Na forma grega que nos chegou, várias menções explícitas a Nabucodonosor e ao rei da Babilônia neste capítulo não aparecem, inclusive o título de servo de Deus no v. 9, e falta a frase sobre o rei de Sesaque no v. 26.
Como avaliar isso? Fragmentos de Jeremias achados em Qumran mostram que as duas formas circulavam em hebraico antes da era cristã. Muitos estudiosos, como Emanuel Tov, entendem que a forma mais curta representa uma edição anterior e que a mais longa é uma edição ampliada, que tornou explícitos nomes e datas; outros preferem explicações mais complexas. Nenhuma das duas desqualifica a outra. Ambas trazem a mesma mensagem: Deus julga Judá por meio da Babilônia, julga as nações e, por fim, julga a própria Babilônia. No hebraico, a lista das nações do cálice começa pelo Egito e termina na Babilônia, como os capítulos 46–51.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
No quarto ano de Jeoaquim, primeiro de Nabucodonosor, a palavra vem a Jeremias acerca de todo o povo de Judá (vv. 1-2). Ele lembra que, durante vinte e três anos, desde o décimo terceiro ano de Josias, transmitiu sem descanso a palavra do SENHOR, e Deus mandou também os seus servos, os profetas, com a mesma insistência. A mensagem era sempre a mesma: que cada um deixasse o mau caminho, para continuar na terra dada aos pais, e não seguisse outros deuses nem provocasse a Deus com as obras das suas mãos. Mas o povo não ouviu e provocou a Deus, para o próprio mal (vv. 3-7).
Por isso o SENHOR dos Exércitos mandará buscar as famílias do norte e Nabucodonosor, rei da Babilônia, a quem chama de seu servo, contra aquela terra e as nações vizinhas. Elas serão consagradas à destruição; cessarão nelas os sons da alegria e das festas de casamento, o ruído do moinho e a luz das lamparinas; e servirão ao rei da Babilônia setenta anos. Completado esse tempo, Deus castigará a Babilônia pela sua iniquidade e trará sobre ela tudo o que está escrito neste livro contra as nações; também ela será escravizada, e Deus lhe retribuirá segundo as suas obras (vv. 8-14).
Então o SENHOR manda Jeremias tomar da sua mão o cálice com o vinho da sua ira e dá-lo a beber às nações, que cambalearão e perderão o juízo diante da espada. Jeremias o dá a beber a Jerusalém e às cidades de Judá, ao faraó do Egito, aos povos vizinhos — filisteus, Edom, Moabe, Amom, Tiro e Sidom —, às tribos do deserto, a Elão e à Média, a todos os reinos da terra; e, depois de todos, ao rei de Sesaque (vv. 15-26).
As nações beberão até cair, e, se recusarem, beberão assim mesmo: se Deus começa o castigo pela cidade que leva o seu nome, nenhuma outra ficará impune (vv. 27-29).
O capítulo termina em poesia. O SENHOR ruge do alto contra o seu próprio pasto e dá o grito dos que pisam as uvas; ele abriu um processo contra as nações e entra em julgamento com toda a humanidade, entregando os ímpios à espada; uma tempestade se levanta dos confins, e os mortos ficam sem lamento nem sepultura (vv. 30-33). Os pastores do povo são chamados a gemer, porque não há fuga para eles; como um leão que deixa o esconderijo, Deus devasta as pastagens, e a terra fica desolada (vv. 34-38).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-7 — Vinte e três anos de palavra sem resposta
A perícope é um sermão em prosa, de estilo semelhante ao de Deuteronômio e ao do sermão do templo (Jr 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que mais chama a atenção é a insistência de Deus. A expressão hebraica hashkem wedabber, literalmente madrugar e falar, aparece no v. 3 para o profeta e, na forma madrugar e enviar, no v. 4 para os profetas que Deus mandou. É uma das marcas de Jeremias (Jr 7.13, 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 26.5; 35.14-15; 44.4) e descreve alguém que se levanta cedo, todos os dias, para cumprir uma tarefa urgente.
Os vinte e três anos (v. 3) vão do décimo terceiro ano de Josias ao quarto de Jeoaquim, contados de modo inclusivo. O verbo shama', ouvir, aparece quatro vezes em forma negativa nos vv. 3-8. No hebraico bíblico, ouvir inclui obedecer; não ouvir é recusar.
O v. 5 resume a pregação de todos os profetas com um jogo de sons que o português não reproduz: shuvu, voltem, e shevu, habitem. Quem volta para Deus permanece na terra. O v. 6 nomeia o pecado central, seguir outros deuses, e repete a promessa condicional: se não provocassem a Deus, ele não lhes faria mal.
O v. 7 fecha com uma frase dura e lúcida: o povo provocou a Deus com as obras das próprias mãos, para o seu próprio mal. O pecado não fere a Deus como um golpe que o diminui; destrói quem o comete. A palavra ra', mal, atravessa o capítulo: o mau caminho (v. 5), o mal que Deus não faria (v. 6), o mal que o povo fez a si mesmo (v. 7), o mal que sai de nação em nação (v. 32).
Versículos 8-14 — Nabucodonosor, servo de Deus, e os setenta anos
O lakhen, portanto, do v. 8 marca a passagem da acusação para a sentença. Deus vai mandar buscar as famílias do norte e Nabucodonosor, e lhe dá um título surpreendente: 'avdi, meu servo. O título volta em Jr 27.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 43.10. É o mesmo título dado a Moisés, a Davi e ao Servo de Isaías. Aplicado ao rei pagão que destruiria Jerusalém, ele não é elogio. Diz que Nabucodonosor, sem saber, cumpria uma tarefa determinada por Deus. Isaías dirá algo semelhante de Ciro, chamado pastor e ungido de Deus (Is 44.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 45.1). O Deus de Israel governa os impérios e os usa, sem que isso inocente a crueldade deles, como o v. 12 mostrará.
O verbo do v. 9 é hecherim, consagrar à destruição, o vocabulário do cherem da conquista (Js 6.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que antes se aplicava às cidades de Canaã agora se aplica a Judá.
O v. 10 descreve a desolação pelo silêncio. Somem os sons da alegria e as vozes dos noivos, o ruído das pedras de moer e a luz das lamparinas. São os sinais mais simples de uma casa habitada: casamento, pão de cada dia, luz à noite. Jeremias já usara a imagem (Jr 7.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.9) e a inverterá na promessa de restauração, quando as vozes do noivo e da noiva voltarem a soar nas ruas vazias de Jerusalém (Jr 33.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 11-12 trazem os setenta anos. A terra ficará desolada, e as nações servirão ao rei da Babilônia setenta anos. Depois, Deus castigará a própria Babilônia. O número reaparece na carta aos exilados (Jr 29.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é retomado pelo Cronista, que o liga aos sábados que a terra não tinha descansado (2Cr 36.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Lv 26.34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), por Esdras, que vê na volta sob Ciro o cumprimento da palavra de Jeremias (Ed 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), por Zacarias (Zc 1.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.5) e por Daniel, que medita sobre ele ao ler os escritos do profeta (Dn 9.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Como contar os setenta anos? Há várias maneiras, e convém apresentá-las com cautela. Uma conta do domínio babilônico sobre a região, iniciado por volta de 609-605 a.C., à queda da Babilônia diante de Ciro, em 539 a.C., o que dá cerca de setenta anos; é a leitura que mais se aproxima do v. 11, que fala das nações servindo ao rei da Babilônia. Outra conta da primeira deportação, em 605 a.C., à volta sob Ciro, por volta de 538 a.C. Outra ainda vai da destruição do templo, em 586 a.C., à dedicação do segundo templo, por volta de 516/515 a.C., o que corresponde à pergunta de Zacarias. E muitos lembram que setenta anos é a medida de uma vida inteira (Sl 90.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o tempo de três gerações (cf. Jr 27.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de modo que o número pode ser ao mesmo tempo aproximado e simbólico. Uma inscrição do rei assírio Esar-Hadom fala de setenta anos de desolação decretados pelos deuses para a Babilônia, o que sugere que o número era uma medida tradicional de juízo no mundo antigo. O texto bíblico não faz cálculos; afirma que o juízo tem um limite fixado por Deus.
O v. 12 é decisivo para entender o juízo em Jeremias. O instrumento de Deus não fica impune. Completados os setenta anos, Deus castigará o rei da Babilônia e a sua nação pela sua iniquidade, 'awonam. Nabucodonosor é servo na execução do juízo, mas responde pela sua própria violência. A Babilônia caiu em 539 a.C., quase sem resistência, diante de Ciro; a ruína permanente anunciada se deu aos poucos, ao longo de séculos, até a cidade ficar deserta. A linguagem profética olha para o desfecho, não para a data de cada etapa.
O v. 13 fala de todas as palavras escritas neste livro, que Jeremias profetizou contra todas as nações. É uma rara referência, dentro do próprio livro, a um texto escrito. No hebraico, aponta adiante para os oráculos contra a Babilônia (Jr 50–51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que o profeta mandará ler na própria Babilônia e lançar no Eufrates (Jr 51.60-64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 14 fecha com a lei da retribuição: os que escravizaram serão escravizados, e Deus pagará segundo as obras das suas mãos. A expressão obras das mãos, que no v. 6 designava os ídolos, aqui designa os atos da Babilônia. O que cada um faz volta sobre si.
Versículos 15-26 — O cálice passado de mão em mão
A segunda parte do capítulo começa com uma ordem: tomar da mão de Deus o kos hayyayin hachemah, o cálice do vinho da ira, e dá-lo a beber a todas as nações. A imagem do cálice do juízo é antiga e frequente: Deus tem na mão um cálice que os ímpios da terra bebem até a borra (Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jerusalém bebeu da mão de Deus o cálice que a fez cambalear (Is 51.17, 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Ezequiel fala do cálice de Samaria passado a Jerusalém (Ez 23.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Habacuque o vê passado à Babilônia (Hab 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lamentações e Obadias o anunciam a Edom (Lm 4.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ob 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeremias já usara a imagem dos jarros cheios de vinho (Jr 13.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 16 descreve o efeito: as nações bebem, cambaleiam e perdem o juízo, por causa da espada. O vinho não é a causa real do colapso; é a imagem dele. A embriaguez descreve a desorientação dos povos diante da guerra, quando os reis tomam decisões insensatas e caminham para a ruína como bêbados.
Teria Jeremias realmente passado um cálice a embaixadores? Sob Zedequias, ele entregou aos mensageiros de reinos vizinhos um recado acompanhado das cangas (Jr 27.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas a lista do capítulo 25 inclui todos os reinos da terra. A maioria entende a cena como visão ou ato simbólico narrado, em que o profeta cumpre a sua comissão sobre as nações (Jr 1.5, 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A lista dos vv. 18-26 começa por Jerusalém (v. 18). O juízo começa em casa. A expressão como acontece hoje, no fim do v. 18, sugere a muitos estudiosos que a redação final do texto conhecia já a destruição da cidade; outros a entendem como uma antecipação do que começava a acontecer. Em seguida vem o Egito, a grande potência rival (v. 19). O v. 20 menciona o 'erev, termo que pode designar povos misturados ou estrangeiros que viviam no Egito ou na região; e os reis de Uz, terra de Jó (Jó 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), associada por Lamentações a Edom (Lm 4.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Das cidades filisteias, aparecem Ascalom, Gaza, Ecrom e o que restou de Asdode; Gate não é mencionada, talvez por já não ter importância.
Os vv. 21-22 percorrem os vizinhos de Judá: Edom, Moabe e Amom, a leste e ao sul; Tiro e Sidom, as cidades fenícias da costa, e as terras do outro lado do mar, provavelmente as ilhas e colônias do Mediterrâneo. Os vv. 23-24 vão para o deserto da Arábia: Dedã, Tema e Buz, nomes ligados nas genealogias a descendentes de Abraão e de Naor (Gn 22.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25.3, 15), e os que cortam os cantos do cabelo, costume de povos do deserto que a lei de Israel proibia (Lv 19.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Jr 9.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 49.32). O v. 25 menciona Zinri, de identificação incerta (alguns a ligam a Zinrã, filho de Abraão e Quetura, Gn 25.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Elão, a leste da Babilônia, e a Média, o povo que, com os persas, derrubaria a Babilônia (Is 13.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 51.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 26 amplia o horizonte a todos os reis do norte e a todos os reinos da face da terra, e termina com uma frase enigmática: depois deles, beberá o rei de Sesaque. Sheshakh é, quase com certeza, uma forma cifrada de Babel, a Babilônia, segundo um procedimento conhecido como atbash, em que a primeira letra do alfabeto hebraico é trocada pela última, a segunda pela penúltima, e assim por diante. Aplicado a Babel, o método produz Sesaque. A mesma cifra aparece em Jr 51.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Sesaque está em paralelo com Babilônia, e outra semelhante em Jr 51.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que esconde o nome dos caldeus. Por que cifrar um nome que o próprio capítulo menciona abertamente (vv. 1, 9, 11, 12)? Não se sabe. Não parece ter sido para esconder, já que o nome está à vista. Alguns pensam num jogo literário de escribas; outros, num acréscimo posterior. O sentido, porém, é claro: a Babilônia, que passava o cálice às nações, será a última a bebê-lo.
Versículos 27-29 — Nenhuma nação recusará o cálice
O v. 27 traz a ordem em cinco verbos que descrevem a queda de um bêbado: beber, embriagar-se, vomitar, cair e não se levantar. A imagem é deliberadamente humilhante.
O v. 28 imagina a recusa: e se as nações não quiserem beber? A resposta é seca: beberão. Não há fuga do juízo de Deus pela recusa em aceitá-lo.
O v. 29 dá a razão, e é um dos versículos mais importantes do capítulo. Deus começa a trazer o mal sobre a cidade sobre a qual o seu nome é invocado, isto é, Jerusalém, a cidade do templo. Se ele não poupa o seu próprio povo, como as outras nações escapariam? O juízo começa pela casa de Deus, ideia que Ezequiel expressa ao ver o castigo começar pelo santuário (Ez 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que Pedro retomará (1Pe 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta não exalta Jerusalém; mostra que a proximidade de Deus aumenta a responsabilidade, e que ninguém está fora do alcance da sua justiça.
Versículos 30-33 — O rugido do alto e o processo contra toda carne
A partir do v. 30, o texto volta à poesia. O SENHOR ruge, yish'ag, do alto. A imagem do Deus que ruge vem de Amós e de Joel, onde ele ruge de Sião (Am 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui ele ruge do alto, da sua santa morada, e contra o seu próprio pasto, naweh, palavra que designa a pastagem e a morada do rebanho; muitos entendem que se refere à terra de Judá ou a Jerusalém. O Deus que pastoreava o rebanho ruge agora contra o seu próprio pasto.
O mesmo versículo traz outra imagem: Deus dá o hedad, o grito ritmado dos que pisam as uvas no lagar. Era um som de festa, da colheita da vindima (cf. Jr 48.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui é o grito de guerra. A imagem do lagar como juízo volta em Isaías, onde Deus pisa sozinho as nações no lagar (Is 63.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no Apocalipse (Ap 14.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19.15).
O v. 31 usa linguagem de tribunal. O estrondo chega aos confins da terra, porque o SENHOR tem um riv, um processo, contra as nações; ele entra em julgamento com kol basar, toda carne, isto é, toda a humanidade. E o versículo acrescenta uma qualificação: os ímpios, os resha'im, ele os entrega à espada. O juízo não é arbitrário nem indiscriminado; é sentença contra a culpa.
Os vv. 32-33 trazem a imagem da tempestade e a cena do campo de batalha. O mal sai de nação em nação como um vendaval que vem dos confins da terra (cf. Jr 23.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 30.23). Os mortos ficam espalhados, sem lamento, sem quem os recolha, sem sepultura, como esterco sobre a terra (cf. Jr 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.4). A descrição é terrível e precisa ser lida com sobriedade. O profeta não celebra a matança; ele a anuncia com o peso de quem sabe o que é a guerra, e o faz para que o povo leve a sério o pecado e a justiça de Deus. A falta de sepultura, no mundo antigo, era a desonra extrema.
Versículos 34-38 — Os pastores que gemem e o leão que deixa o esconderijo
A última estrofe se dirige aos ro'im, os pastores, e aos 'addire hatso'n, os poderosos do rebanho. No vocabulário dos profetas, os pastores são os governantes. Jeremias já tinha pronunciado um ai contra os pastores que dispersavam o rebanho (Jr 23.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora eles são chamados a gemer e a rolar no pó, gestos de luto, porque chegou o dia da sua matança e da sua dispersão. No v. 34, a frase final compara a sua queda à de um vaso precioso que se despedaça; a forma grega que nos chegou lê aqui algo como carneiros escolhidos, o que mantém a imagem do rebanho.
Os vv. 35-37 insistem que não há fuga para os pastores. Ouve-se o grito deles, porque o SENHOR devasta os seus pastos, e as pastagens tranquilas são silenciadas diante do ardor da ira de Deus. Os que deviam cuidar do rebanho perdem tudo, e com eles o rebanho.
O v. 38 fecha o capítulo com a imagem do leão que abandona o seu esconderijo. Em Jeremias, o leão às vezes é o destruidor que vem do norte (Jr 4.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e às vezes é o próprio Deus (Jr 49.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 50.44). O texto hebraico fala da fúria do opressor; muitos manuscritos e versões antigas leem a espada do opressor, como em Jr 46.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 50.16. A ambiguidade é instrutiva: o leão é Deus, e a sua ira chega por meio da espada babilônica.
✨ 4. Versículos-Chave
Jr 25.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus enviou os seus servos, os profetas, madrugando e insistindo, e a mensagem era sempre a mesma: voltem do mau caminho e permaneçam na terra. O centro da pregação profética não é a ameaça, mas o chamado à conversão. Jesus retoma esse padrão na parábola dos lavradores, em que o dono da vinha manda servo após servo, e por fim o próprio filho (Mc 12.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jr 25.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os setenta anos de serviço à Babilônia e o castigo posterior da própria Babilônia. O versículo mostra que o juízo tem limite e que Deus governa o tempo da história. Exilados, o Cronista, Esdras, Zacarias e Daniel se apoiaram nele.
Jr 25.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cálice do vinho da ira posto na mão do profeta para as nações. A imagem atravessa a Escritura e chega ao Novo Testamento por dois caminhos: o Apocalipse a usa para o juízo final sobre a Babilônia e sobre os que adoram a besta (Ap 14.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.19), e Jesus a assume para si mesmo no Getsêmani, quando pede ao Pai que, se possível, afaste dele aquele cálice, e se submete à vontade do Pai (Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jr 25.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus começa o juízo pela cidade que leva o seu nome. O versículo estabelece um princípio que atravessa a Bíblia: a proximidade de Deus não é privilégio que isenta, mas responsabilidade que expõe. Pedro o retomará ao dizer que o juízo começa pela casa de Deus (1Pe 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A paciência de Deus e a recusa humana. O juízo não veio de repente nem sem aviso. Pedro explicará que o que parece demora do Senhor é paciência, porque ele deseja o arrependimento de todos, e não a sua perdição (2Pe 3.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas a paciência tem limite. Quem recusa ouvir por tempo demais acaba ouvindo a sentença.
Deus governa a história das nações. Nabucodonosor é chamado servo de Deus; as nações servem ao rei da Babilônia pelo tempo que Deus fixou; e a Babilônia será castigada quando Deus quiser. Daniel, que viveu na corte de Nabucodonosor, ouvirá que o Altíssimo governa os reinos humanos (Dn 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse governo não torna os impérios inocentes: o instrumento de Deus será julgado pela sua própria iniquidade (v. 12).
O juízo universal começa pela casa de Deus. O cálice passa por Jerusalém antes de passar pelas nações, e a última a beber é a Babilônia. Ninguém está acima do juízo, nem o povo da aliança nem o império que parecia invencível. O Deus de Israel é o juiz de toda carne (v. 31). Paulo anunciou em Atenas que o mundo inteiro será julgado com justiça por um homem escolhido por Deus, e que a ressurreição dele é a garantia disso (At 17.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A retribuição segundo as obras. O v. 14 resume um princípio que percorre a Escritura: Deus retribui segundo as obras das mãos. A Babilônia que escravizou será escravizada. Paulo dirá que Deus retribuirá a cada um segundo o que fez (Rm 2.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse retoma a linguagem de Jeremias ao anunciar que a Babilônia receberá em dobro o que deu a beber (Ap 18.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
Jeremias 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está na Redenção em andamento, no ponto em que o exílio se torna inevitável. O problema humano aparece em escala dupla: o povo da aliança que não ouve, e as nações que se embriagam de poder e violência.
Mas o capítulo também aponta para além do juízo. Os setenta anos têm fim; a Babilônia não terá a última palavra. O horizonte universal do cálice e do processo contra toda carne prepara o leitor para uma pergunta que o Antigo Testamento não responde por inteiro: se todos devem beber o cálice, haverá alguém que o beba em lugar dos outros? É no Novo Testamento que essa pergunta recebe resposta.
6.2 — O cálice que Jesus aceitou beber
Quando Tiago e João pedem lugares de honra no seu reino, Jesus pergunta se eles podem beber o cálice que ele vai beber (Mc 10.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Getsêmani, ele ora ao Pai, chamando-o de Aba, pedindo que, se for possível, afaste dele aquele cálice, e em seguida se submete à vontade do Pai (Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 26.39, 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando Pedro tenta defendê-lo com a espada, Jesus o detém, dizendo que vai beber o cálice que o Pai lhe deu (Jo 18.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Que cálice é esse? À luz dos profetas, não é apenas o sofrimento físico. É o cálice da ira de Deus contra o pecado, o cálice de Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), de Is 51.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Jr 25.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A angústia do Getsêmani só se entende quando se percebe o que havia dentro dele. O cálice que passava de nação em nação, a começar por Jerusalém, chega às mãos do Filho, em Jerusalém, e ele o aceita.
Isso muda o sentido do capítulo. Em Jr 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), as nações não podem recusar o cálice (v. 28). Em Cristo, o Filho, que não precisava bebê-lo, escolhe bebê-lo. Paulo dirá que Deus, por meio da morte de Cristo, nos livra da ira (Rm 5.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Jesus livra os seus da ira futura (1Ts 1.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na mesa do Senhor, o cálice que o crente recebe não é mais o da ira, mas o cálice da ação de graças e da comunhão com Cristo (1Co 10.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ligado por Jesus à nova aliança no seu sangue (Lc 22.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Convém distinguir: Jeremias 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não é uma profecia direta da paixão. O Novo Testamento não cita este capítulo nos relatos do Getsêmani. Mas a imagem do cálice que Jesus usa vem dessa tradição profética, e Jr 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um dos seus textos centrais. A conexão não é alegoria; é a teologia bíblica do cálice, que Jesus mesmo assume.
6.3 — A profecia em quatro níveis: de Carquemis ao juízo final
(a) O contexto histórico imediato. Em 605 a.C., Nabucodonosor vence o Egito em Carquemis e sobe ao trono. Jeremias, depois de vinte e três anos de pregação sem resposta, anuncia que Judá e os povos vizinhos servirão à Babilônia, e que a própria Babilônia será julgada depois.
(b) A aplicação a Judá no seu tempo. A palavra chamava Judá a aceitar a disciplina e a parar de resistir. Jeremias insistiria nisso sob Jeoaquim e sob Zedequias (Jr 27.6-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para os exilados, os setenta anos significavam paciência e esperança: o exílio teria fim (Jr 29.10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
(c) O cumprimento parcial histórico. Judá foi submetido, Jerusalém destruída em 586 a.C., e os povos vizinhos sofreram as campanhas babilônicas. Em 539 a.C., a Babilônia caiu diante de Ciro, e em 538 a.C. os judeus receberam permissão para voltar (Ed 1.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Cronista e Esdras viram nisso o cumprimento da palavra de Jeremias (2Cr 36.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas esse cumprimento não esgotou a profecia. Daniel, lendo os setenta anos, recebeu a revelação de setenta semanas (Dn 9.24-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sinal de que o fim do exílio político não era ainda a redenção completa. As leituras desse texto são muitas; muitos cristãos o relacionam com a vinda do Messias.
(d) O cumprimento pleno em Cristo. O fim verdadeiro do exílio e a vitória sobre a Babilônia acontecem em Cristo. Mateus estrutura a genealogia de Jesus em três etapas, e a última vai da deportação para a Babilônia até o Cristo (Mt 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus bebe o cálice da ira para que o seu povo não o beba. O processo contra toda carne (v. 31) é confiado a ele: o Pai entregou ao Filho todo o julgamento (Jo 5.22, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Apocalipse retoma Jeremias para descrever a queda final da Babilônia, símbolo de todo poder humano que se opõe a Deus, com as mesmas imagens de Jr 25.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o moinho parado, a lamparina apagada, as festas de casamento extintas (Ap 18.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Leão da tribo de Judá, que vence, é o Cordeiro que foi morto (Ap 5.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Uma cautela: o texto não autoriza identificar Sesaque, a Babilônia ou as nações da lista com países ou potências modernas. A Babilônia do Apocalipse é um símbolo teológico que retoma a de Jeremias, e não um código para o mapa político de hoje.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
O Filho enviado depois dos servos. Os vv. 3-4 descrevem Deus enviando os profetas sem cessar. Jesus contou a parábola dos lavradores da vinha, em que o dono manda servo após servo, todos maltratados, e por fim envia o filho amado, que é morto (Mc 12.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Hebreus abre dizendo que a longa série de mensagens enviadas pelos profetas culminou na palavra dada no Filho (Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus lamentou sobre Jerusalém, que rejeitava os enviados de Deus (Mt 23.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A paciência que Jeremias descreve tem o seu ponto máximo no envio do Filho.
O Senhor da história. Nabucodonosor foi chamado servo de Deus sem conhecê-lo. Diante de Pilatos, Jesus lembrou que o poder do governador vinha de cima (Jo 19.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a igreja reconheceu que Herodes, Pilatos e os povos, ao se unirem contra Jesus, cumpriram sem saber o propósito de Deus (At 4.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo Deus que governou a Babilônia governou a cruz.
O juízo que começa pela casa de Deus. Jeremias anuncia que o juízo começa por Jerusalém. No Calvário, o juízo de Deus sobre o pecado caiu sobre o Filho, fora dos muros da cidade. Ele é o verdadeiro templo (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e foi nele que o juízo começou.
O Pastor que não foge. Os pastores de Judá gemem e não têm por onde fugir. Jeremias anunciou que Deus levantaria pastores fiéis e um Renovo justo da casa de Davi (Jr 23.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus se apresenta como o pastor verdadeiro, que entrega a própria vida pelo rebanho, ao contrário do empregado que abandona as ovelhas quando vê o lobo (Jo 10.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não foge da matança; entrega-se a ela pelas ovelhas.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar Jeremias 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de modo que leve a Cristo exige coragem para falar do juízo: Deus falou muitas vezes, o povo não ouviu, e ninguém pode recusar o cálice.
E é aí que o evangelho brilha. Há alguém que bebeu o cálice voluntariamente. No Getsêmani, o Filho de Deus aceitou o cálice que cabia a Jerusalém, às nações e a cada um de nós, e o bebeu até o fim na cruz. Por isso o cálice que ele oferece à sua igreja é outro: o da nova aliança e da comunhão. Quem ouve Jeremias 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz de Cristo descobre que não precisa beber a ira, porque ela já foi bebida. Mas descobre também que a paciência de Deus, que madruga para chamar, ainda chama hoje. Voltar enquanto ele chama é a única resposta sábia.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Jr 1.5, 10, 15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o profeta às nações, as famílias do norte e as obras das mãos, retomados no capítulo como balanço do ministério.
- Jr 29.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 36.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ed 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 9.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 1.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os setenta anos lidos e relidos na Escritura.
- Jr 46–51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os oráculos contra as nações, anunciados no v. 13 e, na antiga tradução grega, postos logo depois dele.
- Sl 75.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 51.17-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 23.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hab 2.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o cálice da ira na tradição profética.
- Mc 10.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.36; Jo 18.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o cálice que Jesus aceita beber.
- Ap 14.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.19; 18.6, 21-23 — o cálice da ira e a queda da Babilônia no Apocalipse, com as imagens de Jr 25.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Am 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 3.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o rugido do SENHOR, retomado no v. 30.
- Is 63.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o lagar da ira, eco do grito dos que pisam as uvas.
- Ez 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o juízo que começa pela casa de Deus.
- Mc 12.1-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os servos enviados e, por fim, o Filho.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Perseverar na fidelidade quando não há resposta. Jeremias pregou vinte e três anos sem ver o povo mudar. Pais que oram por filhos e cristãos que testemunham sem fruto aparente podem aprender com ele: a medida do serviço é a fidelidade. Cristo, rejeitado pelo próprio povo, é o modelo e a força de quem persevera.
Levar a sério a paciência de Deus. Deus madrugou para chamar. Hoje ele ainda chama por meio da sua palavra. A paciência dele é oportunidade, não indiferença. Adiar a conversão porque Deus é paciente é usar contra ele a sua própria bondade (Rm 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Confiar no Deus que governa a história. Notícias de guerras e crises assustam, mas Deus fixa limites para o poder humano, como fixou os setenta anos da Babilônia. Quem está em Cristo pode viver sem desespero, sabendo que o Cordeiro governa a história.
Não confundir privilégio com imunidade. O juízo começa pela casa de Deus. Fazer parte de uma igreja, de uma família cristã ou de uma tradição religiosa não isenta ninguém. A proximidade com as coisas de Deus aumenta a responsabilidade.
Receber com gratidão o cálice da comunhão. Cada vez que a igreja celebra a ceia, ela recebe o cálice que Cristo transformou. O que era ira se tornou comunhão, porque ele bebeu o que nos cabia. Isso pede gratidão, reverência e uma vida que corresponda a essa graça.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Jeremias pregou vinte e três anos sem que o povo ouvisse (v. 3). O que sustenta alguém num ministério sem resultados visíveis?
- Nabucodonosor é chamado servo de Deus (v. 9) e mesmo assim será castigado (v. 12). Como o capítulo combina o governo de Deus sobre a história com a responsabilidade humana?
- As diferentes maneiras de contar os setenta anos mudam a mensagem central do texto? O que essa mensagem ensina sobre o modo como Deus cumpre as suas promessas?
- Por que o juízo começa por Jerusalém (vv. 18, 29)? O que isso diz sobre a responsabilidade de quem conhece a Deus?
- Como a imagem do cálice em Jeremias 25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ajuda a entender a oração de Jesus no Getsêmani (Mc 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o cálice da ceia?
- Para meditação e oração: contemple Jesus no Getsêmani, aceitando beber o cálice que cabia a toda a humanidade. Agradeça a ele por isso e entregue-lhe as áreas da sua vida em que você ainda resiste a ouvir o chamado de Deus.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Graeme Goldsworthy — Pregando toda a Bíblia como Escritura cristã (Cultura Cristã) / Preaching the Whole Bible as Christian Scripture (IVP, 2000)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)
Comentários de Jeremias:
- R. K. Harrison — Jeremias e Lamentações: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- J. A. Thompson — The Book of Jeremiah (NICOT, Eerdmans, 1980)
- William L. Holladay — Jeremiah 1 (série Hermeneia, Fortress, 1986)
- Jack R. Lundbom — Jeremiah 21–36 (Anchor Bible, Doubleday, 2004)
- Peter C. Craigie, Page H. Kelley e Joel F. Drinkard Jr. — Jeremiah 1–25 (Word Biblical Commentary, 1991)
- Walter Brueggemann — A Commentary on Jeremiah: Exile and Homecoming (Eerdmans, 1998)
- Christopher J. H. Wright — The Message of Jeremiah (série de comentários The Bible Speaks Today, IVP, 2014)
Sobre as duas formas do texto e o contexto histórico:
- Emanuel Tov — Textual Criticism of the Hebrew Bible (Fortress), seção sobre as edições de Jeremias
- IVP Bible Background Commentary: Old Testament (Walton, Matthews e Chavalas)
- Iain Provan, V. Philips Long e Tremper Longman III — A Biblical History of Israel (Westminster John Knox, 2003)
Sabedoria para o Cotidiano
Deus madrugou durante vinte e três anos para chamar o seu povo, e o povo não ouviu; por isso o cálice da ira passou por Jerusalém e pelas nações. Não confunda a paciência de Deus com indiferença, nem o privilégio de estar perto dele com imunidade. Os impérios passam e o tempo de cada um tem limite fixado pelo Senhor. Mas há uma notícia maior do que o juízo: no Getsêmani, Jesus tomou nas mãos o cálice que era nosso e o bebeu até o fim. Volte para ele enquanto ele chama, e receba no lugar da ira o cálice da comunhão.
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