Jó · 18 de 66 · Antigo Testamento
Jó — Bloco 9: O Senhor Responde do Redemoinho
Capítulos principais
Capítulos e versículos: Jó 38:1–42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):6.
Tema central do bloco
Depois de trinta e cinco capítulos de lamentos, debates, acusações e silêncio divino, Deus fala. O Senhor responde a Jó do meio do redemoinho (Jó 38:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Reaparece aqui o nome pessoal de Deus, YHWH, que estava praticamente ausente desde o prólogo. É o clímax do livro, e ele surpreende todas as expectativas.
Deus não explica a Jó a cena celestial do prólogo. Não menciona o acusador, não aponta pecados ocultos em Jó, como os amigos queriam, e não se defende diante do tribunal, como Jó exigia. Em vez disso, faz perguntas, mais de setenta. Leva Jó numa viagem pela criação: dos alicerces da terra às estrelas, do mar às fontes do abismo, da neve e do relâmpago aos animais selvagens que vivem longe de qualquer olhar humano. No segundo discurso, apresenta duas criaturas colossais, Beemote e Leviatã, que nenhum ser humano consegue dominar, mas que estão sob o governo do seu Criador.
Jó responde duas vezes. Na primeira (Jó 40:3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), põe a mão sobre a boca e decide não falar mais. Na segunda (Jó 42:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), reconhece que Deus pode tudo, admite ter falado de coisas maravilhosas demais para ele e faz a confissão que resume o livro: antes conhecia Deus só de ouvir falar, mas agora os seus olhos o veem. A resposta de Deus ao sofrimento de Jó não é uma explicação, e sim uma presença. Não é uma teoria, e sim um encontro. E esse encontro transforma Jó, sem negar a sua integridade.
Versículos-chave do Livro estudado
- Jó 38:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor responde a Jó do meio do redemoinho.
- Jó 38:2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta quem é esse que escurece o seu desígnio com palavras sem conhecimento e manda Jó cingir-se como homem para responder-lhe.
- Jó 38:4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta onde Jó estava quando Ele lançou os fundamentos da terra, enquanto as estrelas da manhã cantavam juntas e os filhos de Deus rejubilavam.
- Jó 38:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus encerrou o mar com portas quando ele irrompeu do ventre, envolveu-o com nuvens e trevas como faixas e fixou-lhe um limite que suas ondas não ultrapassam.
- Jó 38:12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta se Jó alguma vez deu ordens à manhã ou mostrou à aurora o seu lugar.
- Jó 38:16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta se Jó penetrou nas fontes do mar, viu as portas da morte ou compreendeu a vastidão da terra.
- Jó 38:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta a Jó onde moram a luz e as trevas e, com ironia, observa que ele certamente sabe, pois já tinha nascido então.
- Jó 38:22-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus fala dos depósitos da neve e do granizo e da chuva que Ele envia sobre a terra desabitada, e pergunta quem gera o orvalho e o gelo.
- Jó 38:31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta se Jó pode atar as Plêiades, soltar as cordas do Órion ou conduzir as constelações.
- Jó 38:39-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus provê presa para o leão e alimento para os filhotes do corvo que clamam a Ele.
- Jó 39:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus conhece o tempo em que parem as cabras montesas e as corças.
- Jó 39:5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus deu liberdade ao jumento selvagem, que despreza o tumulto da cidade.
- Jó 39:9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta se o boi selvagem aceitaria servir Jó e puxar o seu arado.
- Jó 39:13-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A avestruz abandona os ovos e não tem sabedoria, mas quando corre ri-se do cavalo e do cavaleiro.
- Jó 39:19-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cavalo de guerra salta como gafanhoto, ri-se do medo e anseia pela batalha.
- Jó 39:26-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O falcão e a águia voam alto por ordem de Deus, e onde há mortos, ali a águia está.
- Jó 40:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta se quem contende com o Todo-Poderoso ainda quer discutir.
- Jó 40:3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jó reconhece que é insignificante, põe a mão sobre a boca e decide não falar mais.
- Jó 40:7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta a Jó se ele anularia o juízo divino e condenaria a Deus para se justificar.
- Jó 40:9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus desafia Jó a revestir-se de majestade e abater os soberbos e os ímpios; se o fizesse, sua própria mão poderia salvá-lo.
- Jó 40:15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus apresenta o Beemote, feito por Ele como fez Jó, a primeira das obras de Deus, que só o seu Criador pode enfrentar.
- Jó 41:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus pergunta se Jó poderia pescar o Leviatã com anzol, fazer aliança com ele ou brincar com ele como com um pássaro.
- Jó 41:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ninguém ousa provocar o Leviatã; quem, então, poderia ficar de pé diante de Deus? Quem primeiro deu a Deus para que Ele devolva? Tudo o que há debaixo do céu lhe pertence.
- Jó 41:12-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus descreve a força terrível do Leviatã, que não tem igual na terra e é rei sobre todos os soberbos.
- Jó 42:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jó reconhece que Deus pode tudo e que nenhum dos seus planos pode ser frustrado.
- Jó 42:3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jó retoma as perguntas de Deus e admite ter falado de coisas maravilhosas demais para ele, que não compreendia.
- Jó 42:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jó confessa que conhecia Deus só de ouvir falar, mas agora os seus olhos o veem.
- Jó 42:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jó se retrata e se arrepende sobre o pó e a cinza.
Versículos relacionados em outros capítulos ou Livros da Bíblia
- Jó 1:6-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2:1-6 — A cena celestial do prólogo, que Deus não revela a Jó nos seus discursos.
- Jó 9:16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13:21-22; 23:3-7; 31:35 — Jó desejava encontrar Deus e receber resposta, e temia ser esmagado pela tempestade.
- Jó 29:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os príncipes punham a mão sobre a boca diante de Jó; agora Jó põe a mão sobre a boca diante de Deus.
- Jó 30:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A expressão "pó e cinza" liga a humilhação de Jó à sua resposta final.
- Jó 42:7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Logo após a resposta de Jó, Deus declara que Jó falou dele com retidão.
- Salmo 104:24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmista celebra a sabedoria de Deus na criação e o Leviatã que Ele formou para brincar no mar.
- Salmo 147:8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus dá alimento aos animais e aos filhotes dos corvos que clamam.
- Salmo 74:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Isaías 27:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus esmaga as cabeças do Leviatã e vencerá a serpente tortuosa.
- Provérbios 8:27-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A sabedoria estava presente quando Deus estabeleceu os céus e se alegrava na sua obra.
- Isaías 40:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O profeta pergunta quem mediu as águas com a mão e quem instruiu o Senhor.
- Romanos 11:33-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Paulo cita Jó 41:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) numa doxologia à sabedoria insondável de Deus.
- João 1:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Colossenses 1:16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hebreus 1:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Todas as coisas foram criadas por meio do Filho.
- João 17:5,24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Filho tinha glória junto ao Pai e era amado antes da fundação do mundo.
- Marcos 4:39-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus repreende o vento e o mar, e os discípulos perguntam quem é Ele.
- Lucas 12:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus convida a considerar os corvos, que Deus alimenta.
- Mateus 24:28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus usa uma imagem semelhante à de Jó 39:30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): onde está o cadáver, ali se ajuntam as aves de rapina.
- Colossenses 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Apocalipse 20:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cristo despoja os poderes, e a antiga serpente é amarrada.
- Romanos 3:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Toda boca se cala diante de Deus.
- João 1:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1 João 1:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Filho revelou o Pai, e os apóstolos anunciaram o que viram com os olhos e tocaram com as mãos.
- 1 Coríntios 13:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Agora vemos em enigma; depois veremos face a face.
- Mateus 17:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Da nuvem, a voz do Pai manda ouvir o Filho amado.
Explicação teológica e bíblica
Deus vem (Jó 38:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A primeira coisa a notar é o simples fato de que Deus fala. Jó desejara isso desesperadamente: saber onde encontrar Deus (Jó 23:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), apresentar-lhe sua causa (Jó 13:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ouvir a sua resposta (Jó 31:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora o Senhor responde a ele, a Jó, e não aos amigos. E o nome usado pelo narrador é YHWH, o nome pessoal do Deus da aliança, praticamente ausente dos diálogos poéticos. O Deus que parecia oculto e silencioso se revela pessoalmente.
A resposta vem "do meio do redemoinho" (se'arah), a tempestade descrita por Eliú. Na Escritura, a tempestade é um cenário frequente das manifestações de Deus (Êx 19:16-19; Sl 18:7-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 1:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Na 1:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há aqui uma ironia: Jó temera que Deus o esmagasse com uma tempestade (Jó 9:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus de fato vem na tempestade, mas não para esmagá-lo, e sim para falar com ele.
As primeiras palavras de Deus são um desafio. Quem é esse que escurece o 'etsah de Deus (o seu desígnio, o seu plano, a sua ordem no governo do mundo) com palavras sem conhecimento (Jó 38:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? Deus manda Jó cingir os lombos como um homem, isto é, preparar-se como para um combate. Deus fará perguntas, e Jó deverá responder (Jó 38:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó quis interrogar a Deus; agora é Deus quem interroga Jó. Os papéis do tribunal se invertem.
O primeiro discurso: a sabedoria de Deus na criação (Jó 38:4–40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):2). O primeiro discurso divino é uma das obras-primas da poesia universal. O crítico literário Robert Alter destaca, em The Art of Biblical Poetry (1985), a força e a grandiosidade dessas imagens. O discurso se organiza em duas grandes partes: o cosmos (Jó 38:4-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e os animais (Jó 38:39–39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):30).
Deus começa pelos fundamentos da terra (Jó 38:4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde estava Jó quando Deus os lançou? Quem fixou suas medidas, estendeu sobre ela o cordel, assentou suas bases e colocou sua pedra angular? A linguagem é a da construção de um edifício. E o momento da conclusão é descrito como uma festa: as estrelas da manhã cantavam juntas, e todos os filhos de Deus rejubilavam. A criação não é apresentada como um mecanismo frio, e sim como uma obra celebrada com alegria.
A pergunta "onde estavas tu?" estabelece o ponto de partida de todo o discurso. Jó não estava presente quando o mundo foi criado. Não viu seus fundamentos nem conhece seu projeto. Como, então, poderia julgar o modo como Deus o governa? A pergunta não humilha Jó por humilhar; ela recoloca a perspectiva. O ser humano vê apenas uma parte minúscula da história, como quem assiste a um único fotograma de um filme e pretende julgar o enredo inteiro.
Segue-se uma imagem surpreendente sobre o mar (Jó 38:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No imaginário antigo, o mar representava o caos, a força indomável que ameaçava a ordem do mundo. Deus descreve o mar como um recém-nascido que irrompe do ventre. Deus o envolve com nuvens como roupa e com trevas espessas como faixas de bebê. E lhe fixa um limite: o mar pode chegar até certo ponto, e não além; ali as suas ondas orgulhosas se detêm. O caos, que as mitologias antigas apresentavam como um monstro a ser combatido pelos deuses, aparece aqui como um bebê envolto em faixas pelo Criador. Deus não precisa lutar contra o caos; Ele o contém com a facilidade de quem cuida de uma criança.
Deus continua com perguntas sobre a manhã e a aurora (Jó 38:12-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó alguma vez deu ordens ao dia ou mostrou à aurora o seu lugar, para que ela tomasse a terra pelas bordas e sacudisse dela os ímpios? A luz da manhã revela o que as trevas escondiam e interrompe as obras dos malfeitores. Deus pergunta ainda se Jó penetrou nas fontes do mar, andou pelos recessos do abismo, viu as portas da morte e compreendeu a vastidão da terra (Jó 38:16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, com ironia, se Jó conhece o caminho para a morada da luz e o lugar das trevas. Certamente sabe, pois já tinha nascido então, e o número dos seus dias é grande (Jó 38:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O tom não é cruel. É o de um pai que, com humor, leva o filho a reconhecer os limites do seu conhecimento.
Deus fala então dos fenômenos atmosféricos (Jó 38:22-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): os depósitos da neve e do granizo, o caminho por onde se reparte a luz, os canais abertos para as chuvas torrenciais e o caminho do relâmpago. Há aqui uma observação decisiva. Deus envia chuva sobre a terra onde não há ninguém, sobre o deserto onde não habita ser humano algum, para saciar a terra desolada e fazer brotar a erva (Jó 38:26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O governo de Deus não é antropocêntrico. Deus cuida de lugares e criaturas que não têm nenhuma utilidade para o ser humano e que ninguém jamais verá. A criação não existe apenas para servir à humanidade; ela tem valor diante de Deus em si mesma.
O discurso se volta para os céus (Jó 38:31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó pode atar as cadeias das Plêiades ou soltar as cordas do Órion? Pode conduzir as constelações no seu tempo ou guiar a Ursa com seus filhos? Conhece as leis dos céus? E pergunta ainda se Jó pode levantar a voz às nuvens para que o cubram de água ou mandar os relâmpagos, que lhe respondam prontos (Jó 38:34-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A segunda parte do discurso é dedicada aos animais (Jó 38:39–39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):30). É notável que todos os animais mencionados sejam selvagens, criaturas que vivem fora do domínio humano:
- O leão e o corvo (Jó 38:39-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó pode caçar a presa para a leoa? Quem prepara o alimento do corvo quando seus filhotes clamam a Deus e vagueiam sem ter o que comer? Deus alimenta até o corvo, ave considerada impura pela lei (Lv 11:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- As cabras montesas e as corças (Jó 39:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus conhece o tempo em que dão à luz nas montanhas, lugares onde nenhum ser humano as observa.
- O jumento selvagem (Jó 39:5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus o deixou livre e deu-lhe o deserto por casa. Ele ri do tumulto da cidade e não ouve os gritos do condutor.
- O boi selvagem (Jó 39:9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aceitaria servir a Jó, passar a noite no seu estábulo, puxar o seu arado?
- A avestruz (Jó 39:13-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O retrato é bem-humorado. A avestruz bate as asas alegremente, mas deixa os ovos na terra, esquecendo que um pé pode esmagá-los. Trata os filhotes com dureza, porque Deus a privou de sabedoria. E, no entanto, quando se levanta para correr, ri-se do cavalo e do cavaleiro. Deus parece deleitar-se com as excentricidades das suas criaturas.
- O cavalo de guerra (Jó 39:19-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi Jó quem lhe deu força e revestiu seu pescoço de crina? O cavalo salta como o gafanhoto, seu relincho é temível, escarva a terra, alegra-se na força, ri-se do medo, não recua diante da espada e, ao som da trombeta, fareja a batalha de longe.
- O falcão e a águia (Jó 39:26-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É pela sabedoria de Jó que o falcão alça voo e estende as asas para o sul? É por ordem de Jó que a águia sobe e faz seu ninho nas alturas? De lá ela avista a presa, seus filhotes bebem sangue, e onde há mortos, ali ela está.
Essa galeria de animais tem uma mensagem profunda. O mundo que Deus criou e sustenta é muito maior, mais selvagem, mais livre e mais misterioso do que o mundo organizado em torno das necessidades humanas. Deus cuida de criaturas que o ser humano não domina, não usa e não compreende. E o faz com prazer, com atenção aos detalhes e até com humor. Gustavo Gutiérrez vê nesses discursos a revelação da gratuidade de Deus: o mundo não é governado pela lógica da retribuição, da troca e da utilidade, e sim pelo amor livre e generoso do Criador. Essa é a resposta mais profunda à pergunta do prólogo sobre a piedade "de graça": o Deus que cria e cuida gratuitamente convida o ser humano a amá-lo gratuitamente.
O primeiro discurso termina com uma pergunta direta: quem contende com o Todo-Poderoso ainda quer discutir? Quem acusa a Deus, que responda (Jó 40:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A primeira resposta de Jó: a mão sobre a boca (Jó 40:3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó responde brevemente. Reconhece que é insignificante. O termo hebraico qalloti significa literalmente "sou leve", sem peso, em contraste com a "glória" de Deus (kavod), cuja raiz significa "peso". Pergunta o que poderia responder e põe a mão sobre a boca. Falou uma vez e não responderá; duas vezes, e não prosseguirá.
O gesto tem uma ironia comovente. No capítulo 29, Jó recordava que os príncipes punham a mão sobre a boca quando ele chegava à porta da cidade (Jó 29:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Agora é Jó quem põe a mão sobre a boca diante de Deus. Mas essa primeira resposta ainda não é a transformação completa. É silêncio, não é ainda compreensão. Por isso Deus fala uma segunda vez.
O segundo discurso: a justiça de Deus e os monstros sob seu domínio (Jó 40:6–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):34). Deus repete o desafio (Jó 40:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e faz a pergunta central do livro: Jó anularia o juízo de Deus? Condenaria a Deus para justificar a si mesmo (Jó 40:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? Este é o ponto preciso em que Jó errou. Ele não errou ao afirmar sua inocência, que Deus reconheceu desde o prólogo. Errou ao concluir que, se ele era inocente, então Deus era injusto. Deus não nega que Jó seja justo; nega que, para Jó ser justo, Deus tenha de ser injusto. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: Jó é inocente, e Deus é justo, ainda que Jó não compreenda como.
Deus faz então um desafio (Jó 40:9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Tem Jó um braço como o de Deus? Pode trovejar com uma voz como a dele? Então, que se revista de majestade e esplendor, derrame o furor da sua ira, olhe para todo soberbo e o abata, esmague os ímpios no lugar onde estão e os esconda juntos no pó. Se Jó conseguir fazer isso, o próprio Deus reconhecerá que a mão direita de Jó pode salvá-lo. O desafio mostra que governar o mundo com justiça, abatendo todo orgulho e toda maldade, é uma tarefa que só Deus pode realizar. Jó exigia que Deus fizesse justiça imediatamente; Deus lhe mostra que ele não tem ideia da complexidade dessa tarefa.
Deus apresenta então duas criaturas extraordinárias.
O Beemote (Jó 40:15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus pede que Jó contemple o Beemote, que Ele fez assim como fez a Jó. O nome é uma forma intensiva do plural hebraico behemah, "animal", algo como "a besta por excelência". É descrito como um animal de força imensa: come erva como o boi, tem força nos lombos, sua cauda se move como um cedro, seus ossos são como tubos de bronze. É chamado de "a primeira das obras de Deus" (Jó 40:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e só o seu Criador pode aproximar dele a espada. Vive tranquilo entre os lótus e os juncos, e não se assusta mesmo quando o rio transborda contra a sua boca.
O Leviatã (Jó 41:1-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); no texto hebraico, Jó 40:25–41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba):26). A descrição do Leviatã é a mais longa de todo o discurso. Deus pergunta se Jó poderia pescá-lo com anzol, prender sua língua com uma corda ou passar um gancho pelo seu nariz (Jó 41:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Leviatã faria súplicas a Jó, falaria com ele brandamente, faria aliança para ser seu servo para sempre (Jó 41:3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? Jó brincaria com ele como com um pássaro ou o amarraria para as suas meninas (Jó 41:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))? Quem ousa pôr a mão sobre ele nunca mais o fará (Jó 41:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Se ninguém é tão ousado a ponto de provocá-lo, quem poderia ficar de pé diante de Deus? Quem primeiro deu algo a Deus para que Ele tenha de lhe devolver? Tudo o que há debaixo do céu pertence a Deus (Jó 41:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo cita esse último versículo em Romanos 11:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), numa doxologia à graça soberana de Deus.
Segue-se uma descrição impressionante do Leviatã (Jó 41:12-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sua couraça é impenetrável, com escamas cerradas como escudos, tão unidas que nem o ar passa entre elas. Seus espirros lançam clarões, seus olhos são como os raios da aurora. De sua boca saem tochas de fogo, e de suas narinas, fumaça. Seu hálito acende brasas. Em seu pescoço reside a força, e diante dele salta o terror. Seu coração é duro como pedra. Quando se levanta, os valentes se atemorizam. Espadas, lanças e dardos são inúteis contra ele: o ferro é como palha, e o bronze, como madeira podre. Ele faz o abismo ferver como uma panela e deixa atrás de si um rastro brilhante. Não há na terra nada semelhante a ele, criatura feita sem medo. Ele olha com desprezo tudo o que é alto e é rei sobre todos os filhos do orgulho.
A identidade dessas criaturas é debatida. Há três linhas principais de interpretação:
- Naturalista. Beemote seria o hipopótamo, ou talvez o elefante, e Leviatã seria o crocodilo, animais reais descritos com hipérbole poética. As referências ao rio, aos lótus e aos juncos favorecem essa leitura no caso do Beemote.
- Mitopoética. Os dois seriam figuras simbólicas do caos, conhecidas das literaturas do antigo Oriente. Nos textos de Ugarit, por exemplo, aparece Lotã, uma serpente marinha de várias cabeças. A Bíblia usa o Leviatã como imagem das forças caóticas vencidas por Deus (Sl 74:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 27:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Combinada. Animais reais seriam descritos de modo a evocar as forças do caos que o ser humano não pode controlar.
Qualquer que seja a identificação, a mensagem é clara. Existem no mundo forças poderosas, perigosas e incontroláveis pelo ser humano, que simbolizam o caos, a violência e o mal. Jó não pode dominá-las. Mas elas são criaturas de Deus, feitas por Ele e sujeitas ao seu governo. O Salmo 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chega a dizer que Deus formou o Leviatã para brincar no mar (Sl 104:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que aterroriza o ser humano é, para Deus, uma criatura sob controle. Há também uma sutileza importante: o Leviatã é chamado "rei sobre todos os filhos do orgulho" (Jó 41:34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Só Deus pode abater o orgulho, e o Leviatã, símbolo máximo da força orgulhosa, permanece sob o domínio do Criador.
A segunda resposta de Jó: do ouvir ao ver (Jó 42:1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta final de Jó é o ponto culminante do livro. Jó reconhece que Deus pode tudo e que nenhum dos seus planos pode ser frustrado (Jó 42:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois cita as palavras de Deus. Retoma a pergunta sobre quem escurece o desígnio divino sem conhecimento e admite que falou do que não entendia, de coisas maravilhosas demais para ele, que não conhecia (Jó 42:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Jó 38:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Retoma ainda o desafio divino, "eu perguntarei, e tu me responderás" (Jó 42:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); cf. Jó 38:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 40:7), agora não como desafio a Deus, e sim como disposição de aprender.
E então vem a confissão central: Jó conhecia Deus só de ouvir falar, mas agora os seus olhos o veem (Jó 42:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A diferença entre "ouvir" e "ver" é a diferença entre o conhecimento indireto, recebido pela tradição, pelos ensinamentos e pelos discursos dos outros, e o conhecimento direto, pessoal, experimentado no encontro. Jó sempre foi piedoso e temente a Deus. Mas agora conhece a Deus de uma forma nova. O sofrimento, que parecia afastá-lo de Deus, tornou-se o caminho para um encontro mais profundo.
A última frase de Jó (Jó 42:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é uma das mais difíceis de traduzir de todo o livro. Muitas versões dizem que Jó se abomina e se arrepende no pó e na cinza. O texto hebraico, porém, admite várias leituras:
- O verbo ma'as, geralmente traduzido por "abominar-se", não tem objeto expresso. Pode significar "rejeito", "retiro", "retrato-me", isto é, Jó retira suas palavras e sua acusação contra Deus.
- O verbo nicham, traduzido por "arrepender-se", pode significar "consolar-se", "mudar de ideia" ou "desistir".
- A expressão 'al 'afar wa'efer pode significar "no pó e na cinza", como lugar de penitência, ou "a respeito do pó e da cinza", isto é, a respeito da condição humana mortal ou do luto em que Jó estava sentado.
Por isso, o versículo pode ser entendido de modos diferentes: como arrependimento penitencial; como retratação das palavras precipitadas; ou como consolo e mudança de perspectiva sobre a própria condição de criatura. Uma leitura cuidadosa deve considerar dois pontos. Jó não confessa os pecados de que os amigos o acusavam, e logo em seguida Deus declara que Jó falou dele com retidão (Jó 42:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O "arrependimento" de Jó não é, portanto, confissão de maldade moral. É uma reorientação: Jó abandona a postura de quem exige que Deus preste contas e aceita, em adoração, a condição de criatura diante do Criador. A expressão "pó e cinza" retoma Jó 30:19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde descrevia sua humilhação, e evoca Abraão diante de Deus (Gn 18:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o reconhecimento humilde de quem o ser humano é diante de quem Deus é.
O que Deus não disse. Tão importante quanto o que Deus disse é o que Ele não disse:
- Deus não revelou a Jó a cena celestial do prólogo.
- Não mencionou o acusador.
- Não explicou por que Jó sofreu.
- Não acusou Jó de pecado algum, confirmando que os amigos estavam errados.
- Não defendeu a teologia da retribuição.
Deus também não deu a Jó uma teoria do sofrimento. Deu-lhe algo diferente: Ele mesmo. G. K. Chesterton, em sua introdução ao livro de Jó (1907), observou que Deus responde às perguntas de Jó com outras perguntas, e que os enigmas de Deus satisfazem mais do que as soluções dos homens. A resposta de Deus não resolve o problema intelectual do sofrimento, mas resolve o problema existencial de Jó, que era a ausência de Deus. Jó queria uma explicação; recebeu uma revelação. Queria um veredito; recebeu um encontro.
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia. Os discursos divinos são o clímax teológico do livro. Eles corrigem tanto os amigos quanto Jó. Os amigos erraram ao reduzir o governo de Deus à fórmula da retribuição. Jó errou ao julgar Deus a partir da sua perspectiva limitada. Os discursos revelam um Deus soberano, sábio, livre e generoso, que governa um universo muito maior e mais complexo do que o ser humano pode compreender, e que contém as forças do caos sem ser ameaçado por elas. Na Bíblia como um todo, estes capítulos dialogam com os salmos da criação (Sl 104 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com a teologia da criação de Isaías (Is 40:12-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com a sabedoria de Provérbios (Pv 8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Preparam também o Novo Testamento, onde o Deus que falou do redemoinho se revelará de modo ainda mais surpreendente: não apenas falando do meio da tempestade, mas entrando no próprio sofrimento humano, na pessoa do Filho.
Visão cristocêntrica
Este bloco se conecta a Cristo por meio de temas que o Novo Testamento desenvolve de forma direta. Há uma citação explícita: Romanos 11:35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) retoma Jó 41:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Há também ecos no ensino e nas obras de Jesus, e o tema do encontro com Deus encontra sua plenitude na encarnação. As demais conexões são temáticas e tipológicas.
O Filho estava presente na criação. Deus pergunta a Jó onde ele estava quando os fundamentos da terra foram lançados (Jó 38:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jó não estava lá, e ninguém estava, exceto Deus. Mas o Novo Testamento revela que o Filho estava. Todas as coisas foram feitas por meio dele (Jo 1:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e na terra (Cl 1:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por meio dele Deus fez o universo (Hb 1:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus fala da glória que tinha junto ao Pai antes que o mundo existisse e do amor com que o Pai o amou antes da fundação do mundo (Jo 17:5,24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta que silencia Jó tem uma resposta em Cristo: o Filho eterno estava lá, e é Ele quem pode revelar o sentido da criação e da história.
O Senhor do mar. Deus descreve o mar como um recém-nascido envolto em faixas, a quem Ele fixa um limite (Jó 38:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nos Evangelhos, Jesus repreende o vento e ordena ao mar que se cale, e há grande bonança. Os discípulos, cheios de temor, perguntam quem é Ele, a quem até o vento e o mar obedecem (Mc 4:39-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta tem uma resposta implícita no Antigo Testamento: só o Criador comanda o mar. Aquele que falou do redemoinho a Jó é o mesmo que, em Cristo, acalma a tempestade.
O cuidado com os corvos. Deus pergunta a Jó quem prepara o alimento do corvo quando seus filhotes clamam a Deus (Jó 38:41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus usa o mesmo exemplo para ensinar a confiança na providência: considerai os corvos, que não semeiam nem colhem, e Deus os alimenta; quanto mais valeis vós do que as aves (Lc 12:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))! O Deus que cuida das criaturas selvagens cuida ainda mais dos seus filhos. O ensino de Jesus sobre a ansiedade (Mt 6:25-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) se apoia na mesma teologia da criação que os discursos de Jó expressam.
A graça soberana. Deus pergunta quem primeiro lhe deu algo para que Ele tenha de devolver (Jó 41:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo cita essa pergunta ao final da sua reflexão sobre a misericórdia de Deus, numa doxologia: ninguém deu primeiro a Deus para que lhe seja retribuído, pois dele, por meio dele e para ele são todas as coisas (Rm 11:35-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta que desmonta a lógica da retribuição em Jó torna-se, em Paulo, o fundamento da salvação pela graça. Deus não deve nada a ninguém; tudo o que dá, dá gratuitamente, e o maior dos seus dons é o próprio Filho.
A vitória sobre o Leviatã. Deus apresenta o Leviatã como uma força que nenhum ser humano consegue dominar, mas que está sob o seu governo (Jó 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Isaías anuncia que, no dia do Senhor, Deus castigará o Leviatã, a serpente tortuosa (Is 27:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento revela que essa vitória foi conquistada por Cristo. Ele despojou os principados e as potestades e triunfou sobre eles na cruz (Cl 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por meio da morte, destruiu aquele que tinha o poder da morte (Hb 2:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o Apocalipse anuncia que a antiga serpente será amarrada e lançada fora (Ap 12:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20:2). O que Jó não podia dominar, Cristo venceu.
Só a mão direita de Deus pode salvar. Deus desafia Jó a abater os soberbos e os ímpios, e diz que só então reconheceria que a mão direita de Jó poderia salvá-lo (Jó 40:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O ser humano não pode salvar a si mesmo. O Novo Testamento anuncia que a salvação vem da mão de Deus: Cristo foi exaltado à direita de Deus (At 2:33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, de lá, salva os que se aproximam dele. Maria canta o Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes (Lc 1:51-52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cumprindo o que Deus disse a Jó que só Ele poderia fazer.
Do ouvir ao ver. Jó conhecia Deus de ouvir falar, mas agora seus olhos o viam (Jó 42:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A encarnação é o cumprimento supremo desse anseio. Ninguém jamais viu a Deus; o Filho unigênito o revelou (Jo 1:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem vê Jesus vê o Pai (Jo 14:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os apóstolos anunciam aquilo que ouviram, viram com os próprios olhos, contemplaram e tocaram com as mãos: o Verbo da vida (1 Jo 1:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a esperança cristã aponta para uma visão ainda mais plena: agora vemos como em espelho, de modo obscuro, mas então veremos face a face (1 Co 13:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A voz que fala da nuvem. Deus falou a Jó do meio da tempestade. No monte da transfiguração, a voz do Pai falou do meio de uma nuvem luminosa, mandando ouvir o Filho amado (Mt 17:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A revelação que começou no redemoinho culmina na pessoa de Jesus, em quem Deus disse sua palavra definitiva (Hb 1:1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A resposta do redemoinho e a resposta da cruz. Deus respondeu a Jó mostrando sua sabedoria e seu poder na criação, mas não explicou o sofrimento. O Novo Testamento acrescenta uma resposta que Jó não recebeu. Em Cristo, o Deus que fala do redemoinho entra no sofrimento humano. O Criador do Leviatã se fez carne, foi acusado injustamente, clamou na cruz sem resposta aparente, morreu e ressuscitou. A resposta do redemoinho mostra que Deus é grande demais para ser julgado pelo ser humano. A resposta da cruz mostra que esse Deus grande se fez pequeno para sofrer com o ser humano e por ele. As duas respostas se completam: a majestade que silencia Jó é a mesma que se inclina até a cruz.
Aplicações espirituais e práticas
1. Buscar a presença de Deus mais do que as explicações. Jó queria respostas; recebeu a presença de Deus, e isso lhe bastou. Em momentos de sofrimento, é natural buscar explicações: por que isso aconteceu? Por que comigo? Muitas dessas perguntas não terão resposta nesta vida. Mas a presença de Deus está disponível. O salmista, depois de lutar com a prosperidade dos ímpios, concluiu que, tendo a Deus, nada mais desejava na terra (Sl 73:25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na prática, isso significa, nos dias difíceis, buscar a Deus na oração, na Escritura e na adoração, e não apenas procurar entender a situação.
2. Reconhecer os limites da própria perspectiva. A pergunta "onde estavas tu?" (Jó 38:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) lembra que vemos apenas uma parte muito pequena da realidade. Isso vale para o sofrimento pessoal e também para os julgamentos que fazemos sobre Deus, sobre os outros e sobre a vida. Na prática, é saudável cultivar a humildade intelectual: reconhecer que não temos todas as informações, evitar conclusões precipitadas sobre os propósitos de Deus e confiar que Ele vê o que não vemos.
3. Admirar e cuidar da criação. Os discursos divinos mostram um Deus que se deleita com a criação, inclusive com as criaturas selvagens e aparentemente inúteis. Ele envia chuva ao deserto onde ninguém vive (Jó 38:26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A criação tem valor diante de Deus independentemente da sua utilidade para o ser humano. Isso fundamenta uma atitude de reverência e cuidado com o meio ambiente, como parte da responsabilidade que Deus confiou à humanidade (Gn 2:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na prática, inclui escolhas de consumo mais responsáveis, cuidado com os recursos naturais e tempo para contemplar a natureza como obra de Deus.
4. Confiar na providência de Deus. Se Deus alimenta os filhotes do corvo e conhece o tempo do parto das cabras montesas (Jó 38:41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 39:1), certamente cuida dos seus filhos. Jesus usou esse argumento para combater a ansiedade (Lc 12:22-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Diante das preocupações com o sustento, a saúde, o futuro dos filhos ou o trabalho, o cristão é chamado a lembrar que o Deus que cuida das aves e das flores conhece as suas necessidades.
5. Saber quando pôr a mão sobre a boca. Jó, que falou tanto, finalmente se calou diante de Deus (Jó 40:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há momentos em que o silêncio é a resposta mais sábia: diante da grandeza de Deus, do mistério do sofrimento ou da dor alheia. Na prática, isso pode significar reservar momentos de silêncio na oração, em vez de apenas falar a Deus; aprender a ouvir mais do que falar; e, diante de situações que não entendemos, reconhecer com humildade que não temos palavras.
6. Não acusar a Deus para justificar a si mesmo. A pergunta de Deus em Jó 40:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é uma das mais importantes do livro. É possível sermos inocentes numa situação específica e, mesmo assim, errar ao concluir que Deus é injusto. Na prática, quando passamos por injustiças, podemos afirmar nossa inocência diante das pessoas e, ao mesmo tempo, confiar que Deus é justo, mesmo sem entender como. As duas coisas não se excluem.
7. Lembrar que o caos tem limites. Deus fixou um limite ao mar e mantém o Leviatã sob seu governo (Jó 38:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 41). As crises, doenças, perdas e injustiças da vida podem parecer forças incontroláveis, mas não têm a última palavra. Deus estabelece até onde elas podem ir. Na prática, essa verdade traz esperança nos momentos de crise: por maior que seja a tempestade, ela não está fora do alcance de Deus.
8. Passar de uma fé de ouvir falar para uma fé de encontro pessoal. Jó era piedoso, mas conhecia Deus de ouvir falar; o sofrimento o levou a vê-lo (Jó 42:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitas pessoas crescem num ambiente cristão e conhecem Deus pela tradição familiar, pelos sermões e pelos livros, mas ainda não o encontraram pessoalmente. Essa fé de segunda mão pode ser um bom começo, mas Deus deseja ser conhecido de forma pessoal. Na prática, isso significa ler a Escritura por conta própria, orar com sinceridade, obedecer ao que se aprende e, nas crises, buscar a Deus em vez de se afastar dele.
9. Viver o arrependimento como reorientação, não como autodesprezo. O "arrependimento" de Jó não foi a confissão de pecados que ele não cometeu, nem uma forma de ódio a si mesmo. Foi uma mudança de perspectiva: deixar de exigir que Deus prestasse contas e aceitar, em adoração, sua condição de criatura. O arrependimento bíblico saudável não é autodepreciação crônica; é voltar-se para Deus com humildade e confiança, reconhecendo quem Ele é e quem nós somos. Quem vive sob culpa permanente e desprezo por si mesmo deve lembrar que o arrependimento verdadeiro leva à paz, e não ao tormento (2 Co 7:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
10. Redescobrir a alegria e o humor da criação. Os discursos divinos têm momentos de ironia e humor, como a avestruz que ri do cavalo e do cavaleiro e o Leviatã com quem Deus brinca. O Deus que criou o mundo se deleita nele. A fé cristã não precisa ser sombria. Ela pode incluir a alegria de contemplar a criação, o bom humor diante das próprias limitações e a leveza de quem confia que o mundo está nas mãos de Deus.
Mensagem de reflexão
Sabedoria para o Cotidiano
Jó pediu explicações e recebeu a presença de Deus; queria um veredito e recebeu um encontro. O Senhor não lhe revelou o porquê do seu sofrimento, mas lhe mostrou um mundo imenso, cheio de beleza, mistério e forças terríveis, todo ele sustentado e governado por mãos sábias e generosas. Em Cristo, esse mesmo Deus foi mais longe: além de falar da tempestade, entrou nela, acalmou o mar, venceu a antiga serpente e deixou-se ver com os olhos humanos. Talvez você nunca entenda tudo o que está vivendo. Mas pode passar do "ouvir falar" ao "ver", buscando mais a face de Deus do que as respostas e descansando naquele que fixou limites até para o caos.