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Lucas · 42 de 66 · Novo Testamento

Lucas — Capítulo 23

Infográfico de “Lucas 23 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 8 partes: As acusações diante do governador; Herodes, o silêncio e a amizade dos poderosos; Três vezes inocente, e entregue; Simão atrás de Jesus e as filhas de Jerusalém; A Caveira, a oração e os escárnios; O malfeitor que pediu para ser lembrado; As trevas, o véu, a entrega e as testemunhas; O homem justo, o túmulo novo e o descanso das mulheres.

Título do capítulo: O Justo nas mãos do Pai
Gênero literário: Evangelho (narrativa da Paixão: Jesus diante de Pilatos e de Herodes, as três declarações de inocência, Barrabás, as filhas de Jerusalém, a crucificação entre dois malfeitores, a oração pelos executores, o malfeitor arrependido, a entrega do espírito ao Pai, o centurião, o sepultamento e o sábado)
Número de versículos: 56

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. O v. 17 não está nos manuscritos mais antigos e aparece entre colchetes ou em nota em muitas Bíblias; a primeira metade do v. 34, a oração pelos que crucificavam Jesus, falta em manuscritos antigos importantes e está em outros também antigos. Os dois casos são tratados no lugar próprio, sem mudar a numeração. As horas seguem a contagem judaica, a partir do amanhecer: a hora sexta fica por volta do meio-dia; a nona, por volta das três da tarde. A apresentação do livro está no estudo do capítulo 1; a visão de conjunto, no do capítulo 24. Os estudos de Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Marcos 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tratam a mesma Paixão.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Onde estamos no Evangelho

O capítulo 22 terminou ao amanhecer de sexta-feira. Depois da ceia, da oração no monte das Oliveiras e da prisão, Jesus passou a noite na casa do sumo sacerdote, onde Pedro o negou e os guardas zombaram dele (Lc 22.54-65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Com o dia claro, o conselho o interrogou, e ele anunciou que, dali em diante, o Filho do Homem estaria sentado à direita do poder de Deus (Lc 22.66-71 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 110.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 7.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde Lc 9.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus caminhava decidido para Jerusalém, onde cumpriria o seu exodos, a sua partida (Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo 23 é esse êxodo, contado numa manhã e numa tarde.

O que só Lucas conta

Lucas segue o caminho de Mateus e de Marcos, mas boa parte do capítulo é só dele: Herodes Antipas (vv. 6-12), a inocência declarada três vezes por Pilatos (vv. 4, 14-16, 22), as filhas de Jerusalém (vv. 27-31), a oração pelos executores (v. 34), o malfeitor arrependido (vv. 39-43), a última palavra com o Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (v. 46), o centurião que chama Jesus de justo (v. 47), as multidões que batem no peito (v. 48) e José de Arimateia, que não consentira na decisão (v. 51). Ao mesmo tempo, deixa de lado a coroação de espinhos, o vinho com mirra e o grito do abandono. O material próprio desenha um retrato coerente: o Justo que ora, perdoa, salva e entrega a vida ao Pai.

Pilatos e Herodes

Pôncio Pilatos governou a Judeia de cerca de 26 a 36 d.C., com o título de prefeito; o estudo de Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) apresenta as fontes que o mostram como homem duro, e Lucas já contara que ele misturara o sangue de galileus aos sacrifícios deles (Lc 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Sob Roma, a pena capital dependia do governador, e a crucificação era castigo romano: por isso a acusação religiosa da madrugada vira, diante dele, acusação política.

Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, governava a Galileia e a Pereia como tetrarca desde a morte do pai, por volta de 4 a.C., e governaria até 39 d.C. (veja o estudo de Marcos 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mandara matar João Batista, ficara perplexo com as notícias sobre Jesus e queria vê-lo (Lc 9.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, segundo fariseus que avisaram Jesus, queria matá-lo (Lc 13.31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Estava em Jerusalém para a Páscoa. Joana, mulher de um administrador de Herodes, acompanhava Jesus (Lc 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns sugerem que a cena chegou a Lucas por esse caminho; é possibilidade, não certeza.

Um processo contado a um leitor do Império

Lucas escreve a Teófilo, para que ele conheça a solidez do que lhe foi ensinado (Lc 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a leitores do mundo romano que podiam perguntar se o fundador dessa fé não era um rebelde executado por Roma. A resposta está no processo: o governador não achou culpa nele, nem o tetrarca, nem o crucificado ao lado, nem o centurião. Em Atos, o padrão se repetirá com Paulo (At 23.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25.25; 26.31). E não se esconde a violência de Roma: é o próprio governador quem entrega o inocente.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

O conselho leva Jesus a Pilatos e o acusa de desencaminhar a nação, proibir o tributo a César e dizer-se Cristo, rei. À pergunta se é o rei dos judeus, Jesus dá uma resposta curta, que a devolve. Pilatos não acha culpa nele; os acusadores insistem que ele agita o povo desde a Galileia (vv. 1-5). Ouvindo falar da Galileia, Pilatos o manda a Herodes, que se alegra, porque esperava ver algum sinal. Jesus não responde a nenhuma das muitas perguntas, enquanto os chefes dos sacerdotes e os escribas o acusam com violência. Herodes e os seus soldados o desprezam, vestem-no com uma roupa vistosa e o devolvem. Naquele dia, Herodes e Pilatos, antes inimigos, tornam-se amigos (vv. 6-12).

Pilatos reúne os chefes, as autoridades e o povo e declara que nem ele nem Herodes acharam culpa em Jesus: vai castigá-lo e soltá-lo. Todos gritam pela soltura de Barrabás, preso por revolta e homicídio, e depois pela cruz de Jesus. Pela terceira vez, Pilatos diz não achar nele motivo de morte; mas as vozes prevalecem, e ele solta Barrabás e entrega Jesus à vontade deles (vv. 13-25).

No caminho, põem a cruz em Simão de Cirene, para que a leve atrás de Jesus. Uma multidão o segue, e mulheres lamentam por ele. Jesus as chama de filhas de Jerusalém e lhes diz que o pranto deveria ser por elas e pelos filhos, por causa dos dias terríveis que virão, e termina com a imagem da madeira verde e da seca. Dois malfeitores são levados com ele (vv. 26-32). No lugar chamado Caveira, é crucificado entre os dois. Pede ao Pai que perdoe os que o crucificam. Os soldados sorteiam as suas vestes; o povo olha; as autoridades escarnecem e o desafiam a salvar a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o Escolhido; os soldados zombam e lhe oferecem vinagre; a inscrição o chama de rei dos judeus (vv. 33-38).

Um dos malfeitores o insulta; o outro o repreende, reconhece a própria culpa e a inocência de Jesus e lhe pede que não o esqueça quando tomar posse do seu Reino. Jesus lhe promete que naquele mesmo dia estará com ele no paraíso (vv. 39-43). Do meio-dia às três há trevas, o sol falta e o véu do santuário se rasga ao meio. Jesus clama em alta voz, entrega o espírito ao Pai e expira. O centurião glorifica a Deus e o reconhece justo; as multidões voltam batendo no peito; os conhecidos e as mulheres da Galileia olham de longe (vv. 44-49). José de Arimateia, membro do conselho, homem bom e justo, que não concordara com a decisão e esperava o Reino de Deus, pede o corpo, envolve-o num lençol e o põe num túmulo cavado na rocha, onde ninguém fora posto. O sábado começava. As mulheres veem o túmulo, preparam perfumes e, no sábado, descansam, como a Lei mandava (vv. 50-56).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Dois fios atravessam o capítulo. O primeiro é a inocência de Jesus: Pilatos a declara três vezes (vv. 4, 14, 22) e invoca Herodes (v. 15); o malfeitor a confessa (v. 41); o centurião a proclama (v. 47); e José, que não consentiu, é chamado de justo (v. 50). O segundo é o verbo sōzō, salvar: quatro vezes, entre os vv. 35 e 39, alguém desafia Jesus a salvar a si mesmo. O Evangelho que começou com o anúncio de um sōtēr, Salvador (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostra-o salvando justamente porque não se salva.

Versículos 1-5 — As acusações diante do governador

Hapan to plēthos autōn, toda a assembleia, o conselho que acabara de interrogar Jesus (Lc 22.66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o conduz a Pilatos (v. 1). A acusação ganha três itens, todos políticos (v. 2): Jesus estaria diastrephonta, desencaminhando a nação; proibindo o tributo a César; e dizendo ser Cristo, rei. O segundo é falso, e o leitor o sabe: dias antes, diante de espiões, Jesus mandara devolver ao imperador o que lhe pertence, e a Deus o que é dele (Lc 20.20-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O terceiro torce uma verdade: Christos, ungido, é traduzido para ouvidos romanos como pretensão ao trono.

Pilatos pergunta se ele é ho basileus tōn Ioudaiōn, o rei dos judeus (v. 3). Jesus responde sy legeis, tu o dizes, a resposta reticente que dera ao conselho (Lc 22.70 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): não nega, mas devolve o título, porque o sentido em que é rei não cabe na pergunta. E Pilatos conclui: ouden heuriskō aition, não encontra motivo de acusação (v. 4). É a primeira declaração de inocência. Os acusadores insistem que ele anaseiei, agita, o povo, ensinando por toda a Judeia, a começar da Galileia (v. 5). Sem querer, resumem o Evangelho, que começou na Galileia e subiu a Jerusalém, como Pedro contará (At 10.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a palavra Galileia dá a Pilatos uma saída.

Versículos 6-12 — Herodes, o silêncio e a amizade dos poderosos

Sabendo que Jesus é da jurisdição de Herodes, Pilatos o anepempsen, remete, ao tetrarca (vv. 6-7), termo técnico para transferir um caso.

Herodes echarē lian, alegra-se muito (v. 8): havia tempo queria vê-lo (Lc 9.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e esperava algum sēmeion, sinal. É a alegria de quem espera um espetáculo, e Jesus já dissera que aos que pedem sinais não seria dado outro além do de Jonas (Lc 11.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Herodes o interroga en logois hikanois, com muitas palavras, e Jesus ouden apekrinato, não responde nada (v. 9). Diante de Pilatos disse duas palavras; diante de Herodes, nenhuma. Em acordo com o estudo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) deste acervo, que lembra este versículo, é o silêncio do Servo que não abre a boca (Is 53.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E há nele um juízo: o homem que calou João Batista, a voz que preparava o caminho, não ouvirá a Palavra para quem o caminho era preparado. Jesus o chamara de raposa e dissera que seguiria até o fim em Jerusalém (Lc 13.32-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); agora não lhe deve explicação.

Os chefes dos sacerdotes e os escribas o acusam eutonōs, com veemência (v. 10). Herodes e os seus soldados, exouthenēsas, tratando-o como nada, zombam dele (v. 11). O verbo é o que Pedro usará para a pedra desprezada pelos construtores e posta como pedra angular (At 4.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 118.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em acordo com o estudo do Salmo 118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Herodes o veste com uma esthēs lampra, roupa brilhante, e o devolve; alguns pensam numa veste branca de rei ou de candidato, outros só num traje de luxo para ridicularizar o pretendente.

O v. 12 é amargo: naquele dia, Herodes e Pilatos, antes inimigos, tornaram-se amigos. Lucas não dá a causa da inimizade; alguns lembram os galileus mortos por Pilatos (Lc 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas é hipótese. O que reconcilia os poderosos é o desprezo comum por Jesus. A igreja de Jerusalém lerá a cena à luz do Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): Herodes, Pôncio Pilatos, os gentios e os povos de Israel se juntaram contra o Ungido para fazer o que o desígnio de Deus determinara (At 4.25-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 2.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A oração junta todos, gentios e israelitas, e não deixa ninguém fora da culpa nem do plano de Deus.

Versículos 13-25 — Três vezes inocente, e entregue

Pilatos convoca os chefes dos sacerdotes, as autoridades e o povo (v. 13) e se pronuncia formalmente (vv. 14-16): interrogou o acusado diante deles e não achou nenhuma das culpas alegadas, nem Herodes, que o devolveu; nada digno de morte foi feito por ele. É a segunda declaração, agora com dois juízes. A conclusão é estranha: vai paideusas, castigá-lo, uma surra de advertência, e soltá-lo. Se é inocente, por que castigá-lo? É a lógica do poder que quer agradar a todos: um pouco de sangue para os acusadores, e a liberdade para salvar as aparências.

O v. 17, que explica que o governador devia soltar um preso na festa, não está nos manuscritos mais antigos, como o P75 e o Vaticano, e aparece em lugares diferentes nos que o trazem; o de Beza o põe depois do v. 19. Por isso muitas Bíblias o deixam entre colchetes ou em nota, sem tirar o número. A explicação mais simples é que um copista quis esclarecer, a partir de Mt 27.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Mc 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por que de repente se fala de Barrabás. Nada se perde: o costume é atestado pelos outros Evangelhos (Jo 18.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Todos gritam juntos, pamplēthei, que o tirem dali e soltem Barrabás (v. 18), homem preso dia stasin, por uma revolta na cidade, e por homicídio, como Lucas diz duas vezes (vv. 19, 25). É exatamente o que acusavam Jesus de ser. Quem de fato agitou o povo sai livre; quem foi falsamente acusado disso é condenado. Pedro dirá que trocaram o Santo e Justo por um homicida e mataram aquele de quem vem a vida (At 3.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pilatos fala de novo, querendo soltar Jesus (v. 20), e ouve o grito pela cruz (v. 21). Então Lucas marca: ho de tritos, pela terceira vez, ele pergunta que mal o homem fez, declara não achar nele motivo de morte e repete que vai castigá-lo e soltá-lo (v. 22). O número é deliberado: a Lei exigia duas ou três testemunhas para firmar um caso (Dt 19.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o governador testemunha três vezes. João também registra três declarações de Pilatos (Jo 18.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19.4, 6). Mas as vozes katischyon, prevaleciam (v. 23). Pilatos decide atender ao pedido (v. 24), solta o preso por revolta e homicídio e paredōken tō thelēmati autōn, entrega Jesus à vontade deles (v. 25). Lucas não narra o açoite; encerra o processo com uma palavra pesada. Na noite anterior, Jesus entregara a própria vontade à do Pai (Lc 22.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); agora é entregue à vontade dos homens, e por meio dela a do Pai se cumpre.

Este trecho exige uma palavra clara, como nos estudos de Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Marcos 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Durante séculos, as narrativas da Paixão foram lidas para acusar o povo judeu inteiro pela morte de Jesus, e essa leitura alimentou desprezo, expulsões e massacres. Esse uso trai o texto e precisa ser recusado sem rodeios. Lucas menciona o povo no v. 13, mas o mesmo Lucas mostra o povo pendente das palavras de Jesus no templo (Lc 19.47-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.38), seguindo-o com lamento (v. 27), olhando em silêncio enquanto as autoridades escarnecem (v. 35) e voltando batendo no peito (v. 48). Quem decide são pessoas determinadas, numa manhã: chefes do templo, um grupo reunido diante do pretório e um governador romano que, declarando três vezes a inocência do réu, o entregou a soldados romanos. Jesus era judeu, como os Doze, as mulheres da Galileia e José de Arimateia, e a primeira igreja nasceu judia em Jerusalém. Pedro atribuiu à ignorância o que o povo e as autoridades fizeram e os chamou à conversão, não à maldição (At 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o próprio Jesus pediu perdão pelos que o crucificavam (v. 34): quem amaldiçoa aqueles por quem o Senhor orou não está do lado dele. Em 1965, o Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, afirmou que o que se fez na Paixão não pode ser imputado indistintamente a todos os judeus daquele tempo nem aos de hoje, e várias igrejas protestantes fizeram declarações semelhantes. O capítulo fala antes de tudo contra o líder que, para manter a posição, entrega um inocente, e contra a religião que acusa com veemência sem amar a verdade, personagens que não estão só no passado, nem só fora da igreja.

Versículos 26-31 — Simão atrás de Jesus e as filhas de Jerusalém

Apēgagon auton, levaram-no (v. 26). Lucas não nomeia o sujeito, e a gramática poderia ligá-lo ao versículo anterior; mas ele mesmo mostra que a execução estava com soldados romanos sob um centurião (vv. 36, 47). Agarram um certo Simão, de Cirene, que vinha do campo, e lhe põem a cruz pherein opisthen tou Iēsou, para levá-la atrás de Jesus. Cirene ficava na costa da atual Líbia e tinha grande comunidade judaica (At 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.9). Lucas não menciona os filhos de Simão (Mc 15.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas acrescenta as palavras que fazem da cena um retrato: atrás de Jesus. Duas vezes Jesus definira o discipulado assim: levar a cruz de cada dia no seguimento dele, caminhando às suas costas (Lc 9.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 14.27). O primeiro que, em Lucas, carrega de fato uma cruz atrás de Jesus é um estrangeiro que não pediu para isso.

Seguia-o uma grande multidão do povo, e mulheres que batiam no peito e lamentavam por ele (v. 27). Não são as discípulas da Galileia, que aparecerão no v. 49, mas mulheres de Jerusalém. Jesus se volta para elas (v. 28), na única palavra que diz no caminho, e não é sobre si. Chama-as de thygateres Ierousalēm, filhas de Jerusalém, expressão dos profetas para a cidade e o seu povo (Sf 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 9.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e desvia o pranto delas para elas mesmas e os seus filhos. Virão dias em que a mulher sem filhos se dirá afortunada (v. 29), o avesso de uma bênção que atravessa o Evangelho (Lc 1.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.27); em acordo com o estudo de Oseias 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é difícil não ouvir Os 9.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Então chamarão os montes e as colinas para soterrá-los (v. 30), palavras de Os 10.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que o estudo de Oseias 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra como a expressão clássica de quem enfrenta o juízo sem refúgio (Ap 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Jesus fala da catástrofe que já anunciara chorando sobre a cidade (Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ao falar de Jerusalém cercada por exércitos (Lc 21.20-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ela veio em 70 d.C., quando os romanos destruíram a cidade e o santuário. Não é ameaça de quem se vinga, mas lamento de profeta, dito por quem caminha para a morte e ainda pensa nas mães e nas crianças da cidade.

O v. 31 fecha com um provérbio que compara a madeira verde e a seca: o que se faz com uma anuncia o que espera a outra. A verde, cheia de seiva, custa a queimar; a seca pega fogo de imediato. Em acordo com os estudos de Ezequiel 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 21, muitos ouvem aqui o fogo que consome a árvore verde e a seca (Ez 20.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A leitura mais comum vê em Jesus a madeira verde: se o inocente é tratado assim, qual será a sorte dos culpados e de uma cidade que corre para a guerra? Quem faz? Os romanos, para uns; os homens em geral, para outros; Deus, que permite este sofrimento e permitirá aquele juízo, para outros ainda. As leituras não se excluem: ninguém deve olhar a morte do Justo como espectador.

Versículos 32-38 — A Caveira, a oração e os escárnios

Dois kakourgoi, malfeitores, são levados com ele (v. 32). Na véspera, Jesus dissera que precisava cumprir-se nele a palavra sobre o Servo posto no rol dos transgressores (Lc 22.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); agora caminha entre eles. O lugar se chama Kranion, Caveira (v. 33): Lucas não dá aos leitores gregos o nome aramaico Gólgota. A crucificação cabe num verbo, estaurōsan, crucificaram, sem descrição dos cravos.

Então Jesus fala (v. 34a): chama Deus de Pai e lhe pede que perdoe os que o crucificam, porque ignoram o alcance do que estão fazendo. A frase falta em manuscritos antigos importantes, como o P75 e o Vaticano, e está em outros também antigos, como o Sinaítico, e na grande maioria dos posteriores. Os estudiosos se dividem: uns pensam num acréscimo antigo, vindo da tradição oral; outros, numa supressão por copistas que não aceitavam Jesus pedir perdão pelos responsáveis por sua morte, sobretudo depois da destruição de Jerusalém. Há sinais fortes do estilo de Lucas: o vocativo Pai abre as orações de Jesus no Evangelho (Lc 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.2; 22.42; 23.46), e Estêvão, ao morrer, pede que aquele pecado não seja lançado na conta dos que o apedrejam (At 7.60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos, mesmo entre os que duvidam que Lucas a tenha escrito, a têm por tradição autêntica sobre Jesus, e a Igreja a guardou entre as palavras da cruz. A ignorância é tema de Lucas: Pedro e Paulo dirão que os moradores de Jerusalém e as suas autoridades agiram sem saber (At 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.27). Ignorância não é inocência, ou não haveria o que perdoar; mas é a porta pela qual o perdão entra. Em acordo com o estudo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é o Servo que intercede pelos transgressores (Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os soldados repartem as vestes, tirando a sorte (v. 34b), o que o Sl 22.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descrevera. O povo, ho laos, fica de pé, olhando (v. 35). Lucas separa com cuidado: o povo olha; os archontes, as autoridades, exemyktērizon, escarnecem, torcendo o nariz, o verbo raro que, em acordo com o estudo do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a antiga tradução grega usou no Sl 22.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ironizam: quem salvou outros que mostre o poder salvando-se, se é ho Christos tou theou ho eklektos, o Cristo de Deus, o Escolhido. Os dois títulos são verdadeiros: Pedro o confessara como o Cristo de Deus (Lc 9.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a voz do céu o chamara de Filho escolhido (Lc 9.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 42.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Os soldados também zombam e lhe oferecem oxos, vinho azedo (v. 36; Sl 69.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), desafiando-o a salvar a si mesmo, se é o rei dos judeus (v. 37); acima dele, a inscrição diz que ele é o rei dos judeus (v. 38). O desafio tríplice, das autoridades, dos soldados e do malfeitor, repete a forma das tentações no deserto, quando o diabo condicionava as propostas à filiação divina de Jesus (Lc 4.3, 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O diabo se afastara achri kairou, até o tempo oportuno (Lc 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na prisão Jesus dissera que aquela hora pertencia aos seus captores, e que as trevas tinham o seu momento de domínio (Lc 22.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A última tentação é a primeira: usar o poder para si. E Jesus vence de novo, ficando.

Versículos 39-43 — O malfeitor que pediu para ser lembrado

Um dos malfeitores pendurados eblasphēmei, insulta Jesus: se é o Cristo, que salve a si mesmo e a eles (v. 39). É o quarto desafio, e o mais desesperado. O outro o repreende (vv. 40-41), perguntando se nem o temor de Deus lhe resta, já que os dois sofrem a mesma sentença. Eles a sofrem dikaiōs, com justiça, mas este ouden atopon epraxen, nada fez fora do lugar. Em poucas palavras, o homem faz o que o Evangelho pede: teme a Deus, reconhece a própria culpa sem desculpas e reconhece a inocência de Jesus.

Então se dirige a ele chamando-o apenas pelo nome (v. 42). Em Lucas, os que pedem algo a Jesus costumam acrescentar um título, Mestre, Senhor, Filho de Davi; este diz Jesus, nome que quer dizer o Senhor salva. Pede que Jesus não o esqueça quando tomar posse do seu Reino. Os manuscritos se dividem entre a vinda de Jesus com o Reino e a sua entrada nele; as duas leituras têm bom apoio e mostram a mesma fé espantosa. Um moribundo olha para outro moribundo, coberto de escárnio, e vê nele um rei com um Reino depois da morte. A tradição posterior lhe deu o nome de Dimas; o Evangelho não diz o nome nem o crime.

Jesus responde (v. 43) com a fórmula solene amēn soi legō, em verdade te digo, e promete que sēmeron, hoje, ele estará met' emou, com ele, no paradeisos. Hoje é palavra de Lucas: o anjo anunciou aos pastores um Salvador nascido naquele dia (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em Nazaré Jesus declarou a profecia cumprida no mesmo dia em que a leu (Lc 4.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a salvação chegou à casa de Zaqueu no dia em que ele desceu da árvore (Lc 19.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O último hoje de Jesus antes da morte é dito a um criminoso. O pedido olhava para um futuro distante; a resposta traz o futuro para hoje. Os manuscritos antigos não tinham vírgulas, e alguns ligaram o hoje ao verbo dizer; a imensa maioria dos tradutores e intérpretes o liga à promessa, pelo peso da palavra em Lucas e pelo modo como Jesus usa a fórmula em verdade te digo, sempre abrindo a declaração que vem depois. E o centro da promessa não é um lugar, mas uma companhia: comigo.

Paradeisos vem do persa e designava um jardim cercado. A antiga tradução grega o usou para o jardim do Éden (Gn 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na literatura judaica do tempo de Jesus a palavra designava o lugar onde os justos estão com Deus à espera da ressurreição. No Novo Testamento aparece só mais duas vezes (2Co 12.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Cabe cautela. O versículo não foi escrito para descrever o estado dos que morrem antes da ressurreição, e as tradições cristãs o descrevem com vocabulários diferentes. Todas, porém, encontram aqui o que Paulo diz: morrer é ir para junto de Cristo (Fp 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a esperança final continua sendo a ressurreição do corpo, que o capítulo seguinte começará a mostrar (Lc 24.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 15.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O malfeitor não foi batizado nem teve tempo de reparar nada. Tinha um pedido e um nome. Bastou.

Versículos 44-49 — As trevas, o véu, a entrega e as testemunhas

Por volta da hora sexta, o meio-dia, houve trevas sobre toda a terra até a hora nona (v. 44), tou hēliou eklipontos, faltando o sol (v. 45). O verbo deu a palavra eclipse, mas quer dizer falhar; não pode ser um eclipse solar, porque a Páscoa caía na lua cheia, e alguns manuscritos dizem apenas que o sol escureceu. Lucas não explica o fenômeno: aponta o sentido. A hora das trevas (Lc 22.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) cobre a terra, como Amós anunciara para o dia de luto pelo filho único (Am 8.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Na mesma frase, o véu do santuário eschisthē meson, rasga-se ao meio (v. 45). Lucas põe o rasgo antes da morte; Marcos e Mateus, depois (Mc 15.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): os evangelistas agrupam os sinais pelo sentido, não pelo relógio. Em Lucas, o templo emoldura o Evangelho, do incenso de Zacarias (Lc 1.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) aos discípulos que louvam a Deus no templo (Lc 24.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O véu rasgado pode significar o acesso aberto à presença de Deus (Hb 10.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o juízo anunciado sobre o santuário (Lc 21.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os dois sentidos convergem: a presença de Deus está agora no Crucificado.

Então Jesus, clamando em alta voz, diz ao Pai que confia às suas mãos o seu espírito, e exepneusen, expira (v. 46). As palavras são do Sl 31.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com o acréscimo do nome Pai. Em acordo com o estudo do Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) deste acervo, o verbo do salmo na antiga tradução grega é o que Lucas usa, paratithēmi, depositar algo à guarda de alguém, e na tradição judaica o versículo se tornou oração antes de dormir, não se sabe desde quando. Jesus morre como quem se deita confiando a Deus a vida, para ser despertado.

A grande voz é a mesma de que falam Marcos e Mateus no momento da morte (Mc 15.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas não registra o grito do abandono do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e isso não deve ser lido como se ele o negasse ou como se os Evangelhos se opusessem. Cada evangelista escolheu, entre as palavras da cruz, as que serviam ao retrato que pintava. Marcos e Mateus mostram a profundidade da noite que Jesus atravessou; Lucas mostra o Filho que não solta a mão do Pai. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e o próprio Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que começa no abandono, termina com o Deus que não desprezou o aflito (Sl 22.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há uma moldura em Lucas: as primeiras palavras de Jesus no livro, aos doze anos, falam da casa do seu Pai (Lc 2.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); as últimas antes da morte começam chamando Deus de Pai.

O centurião, vendo o que aconteceu, edoxazen ton theon, glorificava a Deus (v. 47), a resposta que Lucas registra em quem vê Deus agir: os pastores, o paralítico, o povo de Naim, o samaritano curado (Lc 2.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.25-26; 7.16; 17.15). E declara que aquele homem era dikaios, justo. Marcos e Mateus registram que ele o chamou de Filho de Deus (Mc 15.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); não há contradição a resolver à força, e cada evangelista guardou o que iluminava o seu relato. Para Lucas, justo diz inocente, e fecha a série de testemunhos do processo; e diz o Justo, título que os apóstolos darão a Jesus (At 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7.52; 22.14), o Servo justo cuja obra torna justos a muitos (Is 53.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As multidões que tinham vindo à theōria, o espetáculo, voltam typtontes ta stēthē, batendo no peito (v. 48), o gesto do publicano que pedia misericórdia no templo (Lc 18.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O espetáculo vira luto, talvez começo de arrependimento. Semanas depois, em Pentecostes, muitos em Jerusalém sentirão o coração atingido e perguntarão o que fazer (At 2.37-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os conhecidos de Jesus e as mulheres da Galileia ficam de longe, olhando (v. 49), como os amigos à distância dos salmos de sofrimento (Sl 38.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 88.8). Lucas as apresentara servindo com os seus bens (Lc 8.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); elas ligam a cruz ao túmulo e o túmulo à ressurreição.

Versículos 50-56 — O homem justo, o túmulo novo e o descanso das mulheres

Entra em cena José (v. 50), bouleutēs, membro do conselho, anēr agathos kai dikaios, homem bom e justo, que ouk ēn synkatatetheimenos, não dera o seu assentimento à decisão e à ação dos outros (v. 51). Marcos dissera que todos condenaram Jesus (Mc 14.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas esclarece que José não concordou, estivesse ausente ou tivesse votado contra. Era de Arimateia, cidade da Judeia de localização incerta, e prosedecheto, esperava o Reino de Deus, o verbo usado para Simeão, justo, que aguardava o consolo prometido a Israel, e para os que aguardavam o resgate de Jerusalém (Lc 2.25, 38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Evangelho começa e termina com israelitas justos à espera da ação de Deus (Lc 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.25; 23.50). Nenhum leitor honesto pode tirar dele a ideia de que Israel rejeitou Jesus em bloco.

José pede o corpo a Pilatos (v. 52), desce-o, envolve-o numa sindōn, um lençol de linho, e o põe num túmulo talhado na pedra, onde ninguém ainda tinha sido posto (v. 53), como o jumentinho em que ninguém montara (Lc 19.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o que é do Rei não serviu a outro antes. Em acordo com o estudo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a sepultura digna lembra o Servo que teve a sepultura com um rico (Is 53.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sem que se deva forçar o detalhe.

Era o dia da paraskeuē, a Preparação, e sabbaton epephōsken, o sábado começava a raiar (v. 54); o dia judaico começa ao pôr do sol, e a expressão talvez lembre as lâmpadas acesas na entrada do sábado. As mulheres da Galileia, seguindo de perto, veem o túmulo e como o corpo foi posto (v. 55); voltam, preparam arōmata e myra, perfumes e unguentos, e, no sábado, hēsychasan kata tēn entolēn, descansam, como a Lei mandava (v. 56; Êx 20.8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo termina com as discípulas de Jesus guardando o sábado da Lei de Moisés. O Senhor delas está num túmulo, e elas obedecem e esperam. O versículo seguinte, já no capítulo 24, começará no primeiro dia da semana, de madrugada.


✨ 4. Versículos-Chave

Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A oração pelos que o crucificavam, que falta em manuscritos antigos importantes e está em outros também antigos, mostra o coração do Evangelho no momento mais cruel. Jesus ensinara o amor aos inimigos e a oração em favor de quem nos ofende (Lc 6.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o cumpre com os cravos já postos. É a intercessão do Servo pelos transgressores (Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que continua no Cristo exaltado (Rm 8.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se torna o modelo do primeiro mártir (At 7.60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Lc 23.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa ao malfeitor é o último hoje de Jesus antes da morte e o retrato mais simples da graça. Um homem sem obras e sem tempo pede para ser lembrado e recebe mais do que pediu: a companhia de Jesus naquele mesmo dia. O Filho do Homem, que viera à procura dos perdidos para salvá-los (Lc 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ainda o faz na cruz.

Lc 23.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A entrega do espírito ao Pai, com as palavras do Sl 31.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), é a última palavra de Jesus em Lucas. Ele morre como viveu, orando e confiando; deposita a vida nas mãos de quem pode guardá-la e devolvê-la. Estêvão repetirá o gesto diante do Senhor Jesus (At 7.59 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o versículo se tornou a oração dos cristãos no fim do dia e no fim da vida.

Lc 23.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O centurião glorifica a Deus e chama Jesus de justo. A palavra fecha a série de testemunhos da inocência e abre o título que os apóstolos darão a Jesus. Um soldado do Império, diante da execução que comandou, faz o que os pastores fizeram diante da manjedoura.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

O Justo condenado. Nenhum Evangelho insiste tanto na inocência de Jesus. A insistência tem uma razão histórica, mostrar a leitores do Império que ele não foi um rebelde, e uma razão mais funda: só um inocente pode morrer no lugar de culpados. Barrabás, culpado de revolta e homicídio, sai livre; Jesus, falsamente acusado de agitar o povo, morre. Pedro resumirá: o inocente sofreu uma vez em favor dos culpados, para levá-los a Deus (1Pe 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Salvar a si mesmo ou salvar os outros. Jesus ensinara que agarrar-se à própria vida é perdê-la, e entregá-la por causa dele é ganhá-la (Lc 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na cruz, ele não se salva, e salva. Há quem diga que Lucas vê a cruz sobretudo como o martírio exemplar de um inocente, e menos como sacrifício pelo pecado. O retrato do mártir está presente, e Estêvão o seguirá. Mas Lucas guardou as palavras da ceia sobre o corpo dado e o sangue derramado em favor dos discípulos (Lc 22.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a citação de Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Lc 22.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a leitura de Is 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) que leva o etíope ao batismo (At 8.32-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a igreja adquirida com sangue (At 20.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O inocente que morre fiel é também o Servo que morre por muitos.

O perdão e a ignorância. A oração pelos executores e a promessa ao malfeitor põem o perdão no centro da cruz. Lucas trata a ignorância não como desculpa, mas como o espaço onde a graça age: os que agiram sem saber são chamados à conversão (At 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Evangelho que terminará com o anúncio do perdão a todas as nações, começando por Jerusalém (Lc 24.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mostra aqui de onde ele vem.

A confiança filial até o fim. O Jesus de Lucas ora no batismo, antes de escolher os Doze, na transfiguração, no monte das Oliveiras (Lc 3.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.12; 9.28-29; 22.41-44). Na cruz, duas das suas três palavras são orações ao Pai. Isso não suaviza a cruz; mostra o modo como o Filho a atravessou.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Lucas 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no centro da Redenção consumada. Convergem aqui o Servo de Isaías, calado, posto no rol dos transgressores e intercessor por eles; o justo do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), de quem as autoridades escarnecem; o justo do Salmo 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que entrega o espírito a Deus; as trevas de Amós; o lamento de Oseias e o fogo de Ezequiel. A Queda aparece com todos os rostos: a acusação falsa, a curiosidade frívola, a amizade selada no desprezo, a covardia do juiz, o escárnio. E a Criação volta ao começo: o sol falta ao meio-dia, e um criminoso ouve falar do jardim. A promessa do paraíso abre, ainda na cruz, uma janela para a Nova Criação, quando a árvore da vida estará de novo ao alcance dos homens (Ap 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.2).

6.2 — Quem Ele é: o Cristo, o Rei, o Escolhido, o Justo, o Filho

Nos Evangelhos, Cristo não é projetado no texto; é visto diretamente. Em Lucas 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), os títulos de Jesus aparecem quase todos na boca de quem não acredita neles, e todos são verdadeiros. É o Cristo, acusado de dizer-se Cristo (v. 2) e desafiado como Cristo de Deus (v. 35), o mesmo que os anjos anunciaram aos pastores como Salvador, Cristo e Senhor (Lc 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o Rei dos judeus, na pergunta de Pilatos, na zombaria e na inscrição (vv. 3, 37-38), e o malfeitor é o único que fala do seu Reino como coisa real (v. 42). É o Escolhido da transfiguração (Lc 9.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o Justo do centurião (v. 47) e o Filho, que ora ao Pai pelos inimigos e lhe entrega o espírito (vv. 34, 46). O profeta ungido pelo Espírito para anunciar soltura aos presos (Lc 4.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) a anuncia, da cruz, a um condenado.

Os paralelos mostram como cada evangelista viu a mesma morte. Mateus e Marcos trazem o grito do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o centurião que confessa o Filho de Deus (Mt 27.46, 54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 15.34, 39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); João, a mãe e o discípulo amado, a sede e a obra consumada (Jo 19.25-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas, o Justo que perdoa, promete e confia. Das sete palavras da cruz que a devoção cristã reúne, três são só de Lucas. E Lucas lê o Antigo Testamento como Marcos, tecendo-o na narrativa sem fórmulas de cumprimento: os salmos do justo sofredor, o Servo de Isaías e os profetas do juízo contam, por dentro, o que acontece.

6.3 — A missão redentora: o necessário cumprido

Lucas mostra um é necessário, dei, guiando a vida de Jesus: estar na casa do Pai (Lc 2.49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sofrer e ser rejeitado (Lc 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), chegar a Jerusalém (Lc 13.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cumprir a palavra sobre o Servo (Lc 22.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Ressuscitado mostrará que o sofrimento do Cristo era o caminho necessário para a sua glória (Lc 24.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é esse necessário acontecendo, por mãos humanas que agem por vontade própria e por ignorância, e pelo desígnio de Deus que as atravessa (At 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.28). E a missão aparece em miniatura na cena dos malfeitores. Jesus viera à procura dos perdidos (Lc 19.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se sentava à mesa com pecadores (Lc 15.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); morre entre dois deles, e um é salvo. A cruz não interrompe o ministério de Jesus; leva-o ao ponto mais alto.

6.4 — O Reino: como Ele reina

O Reino de Deus aparece duas vezes no capítulo, nos lugares mais improváveis: no pedido de um criminoso que morre (v. 42) e na esperança de um conselheiro que vai buscar um cadáver (v. 51). Os reis da terra também aparecem, Pilatos e Herodes, amigos no desprezo. É o contraste de todo o Evangelho: os governantes pagãos se impõem pela força, e entre os discípulos a grandeza se mede pelo serviço (Lc 22.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus reina perdoando, prometendo e entregando-se. A inscrição diz a verdade que o governador não entendeu: aquele é o Rei, e aquele é o seu trono.

6.5 — O que Ele pede dos discípulos, e o Evangelho no capítulo

O capítulo é uma galeria de discípulos inesperados. Simão leva a cruz atrás de Jesus, a imagem exata do discipulado (Lc 9.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As filhas de Jerusalém aprendem a chorar pelo que importa. O malfeitor mostra como se começa: temer a Deus, reconhecer a culpa e confiar no Crucificado. O centurião dá glória a Deus; as multidões batem no peito; José se expõe; as mulheres olham, preparam e guardam o mandamento. E o próprio Jesus mostra o que pede: perdoar os inimigos e entregar a vida ao Pai.

Pregar Lucas 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é pôr o ouvinte entre os dois malfeitores. Todos estão debaixo da mesma condenação, como o arrependido disse ao outro; ninguém assiste à cruz como espectador. Mas o Jesus pendurado entre eles pode ser insultado ou invocado, e quem o invoca, mesmo no último momento, ouve um hoje. O Justo morreu pelos injustos, orou por eles e entregou-se ao Pai, e o Pai não deixará o seu Justo no túmulo.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Na tradição cristã, as três palavras próprias de Lucas estão entre as sete palavras da cruz meditadas na Sexta-feira da Paixão, tema de sermões, devoções e de obras como As sete últimas palavras de nosso Redentor na cruz, de Joseph Haydn.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Quando a dor parece não ter saída. Jesus atravessou a injustiça, a humilhação pública, a dor do corpo e a escuridão do meio-dia, e no fim chamou Deus de Pai e lhe confiou a vida. Quem sofre não precisa fingir uma força que não tem: pode entregar a Deus, com as palavras que tiver, o que já não consegue segurar. Se a escuridão chegou ao ponto de a vida parecer não valer a pena, não fique sozinho. Procure hoje alguém de confiança, um pastor, um amigo, um profissional de saúde. No Brasil, o CVV atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone 188.

Nunca mais usar a cruz contra os judeus. O capítulo mostra o povo chorando, olhando em silêncio e batendo no peito, um conselheiro justo que não consentiu e Jesus orando pelos que o crucificavam. Toda pregação que transforma a Paixão em acusação contra o povo de Jesus contradiz a oração dele. A cruz leva cada um a reconhecer a própria parte, e a igreja a perguntar onde, entre os seus líderes, a conveniência ainda entrega inocentes.

Perdoar antes de ser pedido. Ninguém pediu perdão a Jesus no Calvário, e ele orou pelos que o feriam. Perdoar não é fingir que nada aconteceu, nem ficar à mercê de quem faz mal; é entregar a Deus o direito de cobrar e pedir a ele o bem de quem nos feriu, com a força daquele que perdoou primeiro.

Nunca é tarde para pedir. O malfeitor tinha poucas horas e nenhuma obra a apresentar, e foi recebido. Mas ao lado do mesmo Jesus havia outro malfeitor, que preferiu o insulto: a graça oferecida não deve ser adiada.

Carregar a cruz atrás dele. Simão não escolheu o peso; recebeu-o no caminho, como tantas cruzes que chegam numa doença ou numa perda. Até uma cruz imposta pode ser levada atrás de Jesus, que vai à frente.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. Pilatos declara Jesus inocente três vezes e, mesmo assim, o entrega (vv. 4, 14-15, 22-25). Em que situações você reconhece o que é certo e cede à pressão?
  2. Diante de Herodes, que queria ver um sinal, Jesus não diz nada (vv. 8-9). Que diferença há entre procurar Jesus por curiosidade e procurá-lo por necessidade?
  3. Quatro vezes Jesus é desafiado a salvar a si mesmo (vv. 35-39). Por que a salvação dos outros dependia de ele não se salvar? Como isso ilumina Lc 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)?
  4. O malfeitor arrependido teme a Deus, reconhece a própria culpa e a inocência de Jesus e lhe faz um pedido (vv. 40-42). O que essa sequência ensina sobre a fé? O que a resposta revela sobre o hoje da salvação?
  5. Lucas não registra o grito do abandono, e sim a entrega do espírito ao Pai (v. 46). Como as duas cenas, lidas juntas, ajudam a compreender a cruz sem opor os Evangelhos?
  6. Para meditação e oração: leia o Sl 31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) inteiro, lembrando que Jesus morreu com o seu v. 5 nos lábios. Entregue a Deus o que você não consegue mais carregar e peça a graça de perdoar alguém que ainda não perdoou.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • John Stott — A cruz de Cristo (Vida) / The Cross of Christ (IVP, 1986)
  • Raymond E. Brown — The Death of the Messiah (2 vols., Doubleday, 1994)
  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)

Comentários de Lucas:

  • Leon Morris — Lucas: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
  • I. Howard Marshall — The Gospel of Luke (New International Greek Testament Commentary, Eerdmans, 1978)
  • Joel B. Green — The Gospel of Luke (NICNT, Eerdmans, 1997)
  • Darrell L. Bock — Luke (2 vols., Baker Exegetical Commentary on the New Testament, Baker, 1994–1996)
  • Joseph A. Fitzmyer — The Gospel According to Luke (2 vols., Anchor Bible, Doubleday, 1981–1985)

Texto e pano de fundo histórico:

  • Bruce M. Metzger — A Textual Commentary on the Greek New Testament (Sociedade Bíblica Alemã, 2ª ed., 1994)
  • Robert C. Tannehill — The Narrative Unity of Luke-Acts (2 vols., Fortress, 1986–1990)
  • Concílio Vaticano II — declaração Nostra Aetate (1965), n. 4

Sabedoria para o Cotidiano
Em Lucas 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), todos dizem que Jesus é inocente, e ninguém com poder o defende; os poderosos fazem as pazes no desprezo, e um condenado é o único que fala do Reino dele. Mas o Justo não responde com maldição: ora pelos que o ferem, abre o paraíso a quem pede e morre entregando a vida ao Pai. Quando a injustiça cair sobre você, não troque a confiança pela amargura; entregue a sua causa e a sua vida às mãos que o receberam. E nunca pense que é tarde para pedir: o último hoje de Jesus antes da morte foi para um homem que só tinha um pedido e um nome para invocar.

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