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Marcos · 41 de 66 · Novo Testamento

Marcos — Bloco 7: A Paixão do Filho do Homem

Capítulos principais: Marcos 14–15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).

Tema central do bloco

Tudo o que Marcos narrou até aqui converge para estes dois capítulos. Os três anúncios da paixão (8:31; 9:31; 10:33-34) se cumprem quase palavra por palavra: Jesus é entregue, rejeitado pelos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas, condenado, entregue aos gentios, ridicularizado, cuspido, açoitado, crucificado e morto. A narrativa desacelera de forma impressionante: o Evangelho que corria com seu "imediatamente" passa a contar as horas, da tarde da ceia ao entardecer da sexta-feira. Dois movimentos atravessam o bloco. O primeiro é o abandono progressivo. Judas trai; os discípulos dormem no Getsêmani e fogem na prisão; um jovem escapa nu; Pedro nega três vezes; as autoridades religiosas condenam; Pilatos lava as mãos politicamente; a multidão prefere Barrabás; os soldados zombam; os transeuntes, os sacerdotes e até os crucificados ao lado insultam; e, por fim, Jesus clama com o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) o abandono do próprio Deus. O segundo movimento é a revelação paradoxal. É justamente na humilhação que a identidade de Jesus é proclamada com mais clareza: ele se declara o Cristo diante do sumo sacerdote com o "Eu Sou" e as palavras de Daniel e do Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); é chamado de "Rei dos Judeus" em zombaria e na inscrição da cruz; e, no momento de sua morte, um centurião romano faz a confissão que o livro esperava desde a primeira linha: aquele homem era verdadeiramente Filho de Deus (15:39). A ironia de Marcos atinge seu ponto máximo. Os inimigos dizem a verdade sem saber, e o Rei é coroado com espinhos e entronizado numa cruz, entre dois criminosos, à direita e à esquerda.

Versículos-chave do Livro estudado

Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia

Explicação teológica e bíblica

A conspiração e a unção: o perfume e as moedas (14:1-11)

Faltam dois dias para a Páscoa e para a Festa dos Pães Asmos, que celebravam a libertação do Egito e enchiam Jerusalém de peregrinos. Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuram prender Jesus à traição, mas não durante a festa, para evitar tumulto (14:1-2). O plano humano é adiar; o plano de Deus fará a morte de Jesus coincidir exatamente com a Páscoa.

Marcos constrói aqui outro "sanduíche". Entre a conspiração dos líderes (14:1-2) e a traição de Judas (14:10-11), coloca uma cena de devoção extravagante. Em Betânia, na casa de Simão, o leproso (provavelmente alguém curado por Jesus), uma mulher anônima quebra um frasco de alabastro com nardo puro, perfume importado da Índia, e o derrama sobre a cabeça de Jesus (14:3). João identifica a mulher como Maria, irmã de Lázaro (Jo 12:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns presentes se indignam com o desperdício: o perfume valia mais de trezentos denários, quase um ano de salário de um trabalhador, e poderia ter sido vendido em benefício dos pobres. Jesus defende a mulher e chama o gesto de "boa obra" (kalon ergon, obra bela). Os pobres estarão sempre com eles — uma alusão a Deuteronômio 15:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), cujo contexto é justamente a ordem de abrir a mão aos necessitados, e não um descaso por eles —, mas ele não estará sempre. Ela fez o que pôde: ungiu antecipadamente seu corpo para a sepultura. E Jesus promete que, onde o evangelho for pregado no mundo inteiro, o que ela fez será contado em sua memória (14:6-9).

O gesto é carregado de sentido. Ungir a cabeça era o rito de investidura dos reis de Israel (1Sm 10:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 9:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e "Cristo" significa precisamente "ungido". O único ritual de unção messiânica de Jesus em Marcos é feito por uma mulher anônima, numa casa de um ex-leproso, e Jesus o interpreta como preparação para a morte. É a realeza que passa pela sepultura. Ela parece ser a única personagem que compreendeu que Jesus ia morrer e respondeu com amor, e não com resistência.

O contraste com o que vem a seguir é deliberado. Judas Iscariotes, "um dos Doze", como Marcos enfatiza, vai aos chefes dos sacerdotes para entregar Jesus, e eles prometem dar-lhe dinheiro (14:10-11). A mulher gasta uma fortuna por Jesus; o discípulo vende Jesus por dinheiro. Marcos não oferece motivações psicológicas para Judas; registra o fato e o choque de que o traidor era de dentro.

A preparação e a ceia: o corpo e o sangue da aliança (14:12-26)

No primeiro dia dos Pães Asmos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntam onde preparar a Páscoa. Jesus envia dois deles à cidade com instruções precisas: encontrarão um homem carregando um cântaro de água, o que era incomum, pois essa tarefa costumava ser das mulheres, e o seguirão até a casa onde há uma sala superior mobiliada (14:12-16). Como na entrada triunfal (11:1-6), Jesus mostra conhecer e conduzir os acontecimentos.

Ao entardecer, à mesa, Jesus anuncia que um deles, um dos que comem com ele, o entregará (14:18), numa alusão ao Salmo 41:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o amigo íntimo que come do mesmo pão e se volta contra o companheiro. Comer juntos era sinal de amizade e aliança, o que torna a traição ainda mais grave. Cada discípulo, entristecido, pergunta se seria ele (14:19). Marcos não identifica Judas na cena. O efeito sobre o leitor é levá-lo a fazer a mesma pergunta. Jesus afirma que o Filho do Homem vai conforme está escrito, mas declara um ai sobre aquele por quem ele será entregue (14:21). A soberania de Deus, que cumpre as Escrituras, não anula a responsabilidade humana.

Durante a refeição, Jesus toma o pão, o abençoa, parte e dá aos discípulos, declarando que aquilo é o seu corpo. Depois toma o cálice, dá graças e o entrega, e todos bebem. Ele declara que aquele é o seu sangue da aliança, derramado por muitos (14:22-24). Os verbos são os mesmos das multiplicações (6:41; 8:6): o pão do deserto apontava para esta mesa. As palavras sobre o cálice reúnem três textos fundamentais. O sangue da aliança remete a Êxodo 24:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando Moisés aspergiu sobre o povo o sangue que selava a aliança do Sinai. A ideia de uma aliança nova, implícita aqui e explícita em Lucas e Paulo (Lc 22:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), remete a Jeremias 31:31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). E "derramado por muitos" retoma Isaías 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o resgate "por muitos" de 10:45. Jesus interpreta sua morte iminente como o sacrifício que inaugura a nova aliança e liberta o povo, como o sangue do cordeiro pascal no Egito. Ele acrescenta que não voltará a beber do fruto da videira até o dia em que o beber novo no reino de Deus (14:25), apontando para o banquete escatológico prometido em Isaías 25:6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A ceia olha ao mesmo tempo para trás, para o êxodo, para o presente, para a cruz, e para a frente, para o reino consumado.

Há um debate conhecido sobre a natureza da refeição. Nos Sinóticos, ela é claramente uma refeição pascal (14:12-16). Em João, Jesus morre na véspera da Páscoa, na hora em que os cordeiros eram imolados (Jo 18:28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19:14). Joachim Jeremias (As Palavras Eucarísticas de Jesus, 1966) defendeu que a ceia foi uma refeição pascal, com base em diversos indícios: a refeição noturna em Jerusalém, o vinho, a interpretação dos elementos e o hino final. Outros estudiosos propõem que os calendários diferiam entre grupos judaicos, ou que se tratou de uma refeição de despedida com características pascais. A diferença não afeta o essencial: os quatro Evangelhos associam a morte de Jesus à Páscoa, e Paulo resume que Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado (1Co 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois de cantarem o hino, provavelmente a parte final do Hallel (Salmos 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que se cantava ao fim da ceia pascal, saem para o Monte das Oliveiras (14:26).

A dispersão anunciada e a confiança de Pedro (14:27-31)

No caminho, Jesus anuncia que todos se escandalizarão, citando Zacarias 13:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o pastor será ferido, e as ovelhas, dispersas. A citação atribui a Deus o golpe — "ferirei o pastor" —, indicando que a morte de Jesus é parte do plano divino. Mas Jesus acrescenta uma promessa: depois de ressuscitar, irá adiante deles para a Galileia (14:28). Esse versículo é a chave do final do livro, pois o anjo do túmulo o repetirá (16:7). O Pastor ferido reunirá de novo o rebanho disperso.

Pedro protesta que, ainda que todos se escandalizem, ele não. Jesus anuncia que, naquela mesma noite, antes que o galo cante duas vezes, Pedro o negará três vezes. A menção ao duplo canto do galo é exclusiva de Marcos, coerente com a tradição de que o Evangelho reflete a memória do próprio Pedro. Pedro insiste com veemência que, mesmo que precise morrer com Jesus, não o negará, e todos dizem o mesmo (14:29-31). A autoconfiança é sincera, mas desconhece a própria fragilidade.

O Getsêmani: a angústia do Filho e a vontade do Pai (14:32-42)

Getsêmani significa "prensa de azeite", nome que a tradição cristã leu como símbolo da pressão que esmagou Jesus. Ele leva consigo Pedro, Tiago e João — as testemunhas da filha de Jairo e da transfiguração, os que viram seu poder e sua glória e agora verão sua angústia. Marcos usa verbos fortíssimos: Jesus começa a ficar tomado de pavor e de angústia (ekthambeisthai e adēmonein). Ele declara que sua alma está triste até a morte (14:33-34), numa expressão que ecoa os Salmos 42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 43. Não há em Marcos nenhuma tentativa de suavizar a humanidade de Jesus. Ele pede aos três que vigiem, adianta-se, cai por terra e ora para que, se possível, aquela hora passe (14:35).

A oração é registrada com a palavra aramaica Abba, "Pai". Joachim Jeremias argumentou que essa forma de dirigir-se a Deus era excepcional no judaísmo antigo e expressava uma intimidade única. Estudos posteriores, como o de James Barr ("Abbā Isn't 'Daddy'", Journal of Theological Studies 39, 1988), corrigiram a popularização dessa ideia: abba não equivale a uma linguagem infantil como "papai", mas a uma forma familiar e respeitosa, usada também por filhos adultos. A intimidade filial permanece, mas sem sentimentalismo. Jesus afirma que tudo é possível ao Pai e pede que afaste dele aquele cálice. O cálice é o mesmo de 10:38, imagem bíblica da ira e do juízo de Deus (Sl 75:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 51:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E então vem a submissão: não o que ele quer, mas o que o Pai quer (14:36). O Filho não deseja o sofrimento, nem o aceita com indiferença estoica, mas entrega a própria vontade à do Pai. Hebreus 5:7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descreve essa cena com forte clamor e lágrimas e afirma que, embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.

Três vezes Jesus volta e encontra os discípulos dormindo. Pergunta a Simão — chamado aqui pelo nome antigo, e não por Pedro — se não conseguiu vigiar nem uma hora, e o exorta a vigiar e orar para não cair em tentação, porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca (14:37-38). A cena retoma a parábola do porteiro de 13:33-37: o senhor chegou e encontrou os servos dormindo. Na terceira vez, Jesus declara que chegou a hora e que o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores, e manda que se levantem, porque o traidor se aproxima (14:41-42). A luta está vencida na oração, e Jesus caminha ao encontro dos que vêm prendê-lo.

A prisão e a fuga (14:43-52)

Judas chega com uma multidão armada de espadas e porretes, enviada pelos chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos. O sinal combinado é um beijo, saudação comum de um discípulo ao seu mestre, aqui transformada em sinal de traição. Judas o chama de "Rabi" e o beija efusivamente (14:44-45). Um dos presentes, que João identifica como Pedro (Jo 18:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), puxa a espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote. Jesus não aprova a violência; questiona por que vieram prendê-lo como a um bandido (lēstēs), se ensinava diariamente no templo, e declara que isso acontece para que se cumpram as Escrituras (14:48-49). A ironia é forte: o termo é o mesmo que Jesus usara para denunciar o templo como esconderijo de bandidos (11:17), e ele será crucificado entre dois bandidos (15:27). O cumprimento é imediato e doloroso: todos o abandonam e fogem (14:50). Os que haviam prometido morrer com ele desaparecem.

Marcos registra então um episódio que só ele conta. Um jovem que seguia Jesus, vestido apenas com um lençol de linho, é agarrado, larga o lençol e foge nu (14:51-52). As interpretações são variadas:

  • Uma "assinatura" do autor. Uma tradição antiga identifica o jovem com o próprio Marcos, cuja família tinha casa em Jerusalém (At 12:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • Um símbolo do abandono total. Até o último seguidor foge, deixando tudo, em contraste com os primeiros discípulos que deixaram tudo para seguir Jesus (1:18, 20). Alguns veem aqui o cumprimento de Amós 2:16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o valente que fugirá nu naquele dia.
  • Um contraponto ao túmulo. O termo neaniskos ("jovem") reaparece no jovem vestido de branco que anuncia a ressurreição (16:5), e o lençol de linho (sindōn) é o mesmo tipo de tecido em que Jesus será envolto (15:46). A fuga vergonhosa seria revertida pela ressurreição.

O texto não decide, e as leituras não se excluem. O ponto narrativo é claro: Jesus fica completamente sozinho.

O julgamento no Sinédrio e a negação de Pedro (14:53-72)

Mais um "sanduíche" marcano, desta vez com contraste máximo. Pedro segue Jesus de longe até o pátio do sumo sacerdote e se aquece junto ao fogo com os guardas (14:54). Lá dentro, Jesus é julgado (14:55-65); lá fora, Pedro é "julgado" por uma criada e pelos presentes (14:66-72). Enquanto Jesus confessa a verdade sob ameaça de morte, Pedro nega a verdade diante de uma serva.

O Sinédrio procura testemunhos para condenar Jesus, mas os depoimentos falsos não concordam entre si, e a Lei exigia a concordância de duas ou três testemunhas (Dt 19:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns afirmam tê-lo ouvido dizer que destruiria o templo feito por mãos humanas e construiria outro, não feito por mãos, em três dias (14:58). A acusação distorce algo que Jesus de fato anunciara, a destruição do templo (13:2), e encerra uma verdade irônica: o novo templo, não feito por mãos, será o Cristo ressuscitado e sua comunidade (Jo 2:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus permanece em silêncio, como o Servo que não abre a boca diante de quem o fere (Is 53:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Então o sumo sacerdote faz a pergunta decisiva: Jesus é o Cristo, o Filho do Bendito? A resposta é a declaração mais explícita de Jesus em todo o Evangelho. Ele responde egō eimi ("Eu sou"), a mesma fórmula da teofania sobre o mar (6:50), e acrescenta que verão o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu (14:62). O "segredo messiânico" termina aqui, no momento em que a confissão significa a morte. A resposta funde o Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Senhor entronizado à direita de Deus, com Daniel 7:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Filho do Homem que vem nas nuvens. Jesus anuncia que os juízes de agora verão o juiz verdadeiro. O sumo sacerdote rasga as vestes, gesto prescrito diante da blasfêmia, e o conselho o declara digno de morte. Alguns começam a cuspir nele, cobrem seu rosto, esbofeteiam-no e mandam que profetize; os guardas o recebem a tapas (14:63-65). A ironia de Marcos é cortante: enquanto zombam do "profeta" de olhos vendados, sua profecia sobre Pedro está se cumprindo, palavra por palavra, no pátio de baixo.

Os historiadores costumam apontar irregularidades jurídicas nesse julgamento, como o fato de ser noturno, realizado em véspera de festa e com sentença no mesmo dia, comparando-o com as regras do tratado Sanhedrin da Mishná (4:1; 5:1). Com prudência, deve-se lembrar que a Mishná foi codificada por volta de 200 d.C. e nem sempre reflete a prática do século I. Também se discute se o Sinédrio podia executar sentenças de morte sob o domínio romano; João indica que não podia (Jo 18:31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que explica a necessidade de levar Jesus a Pilatos.

No pátio, uma criada do sumo sacerdote reconhece Pedro como alguém que estava com o Nazareno, e ele nega saber do que se trata. Ele se afasta para a entrada, e o galo canta. A criada insiste com os presentes, e ele nega de novo. Por fim, os circunstantes o identificam como galileu, provavelmente pelo sotaque, e Pedro começa a praguejar e a jurar que não conhece aquele homem (14:66-71). A gradação é evidente: da evasiva à negação, e da negação ao juramento com imprecações. Pedro, que fora chamado a negar a si mesmo (8:34), nega a Jesus. O galo canta pela segunda vez, Pedro se lembra da palavra de Jesus e cai em choro (14:72). Que essa cena humilhante tenha sido preservada no Evangelho associado à pregação do próprio Pedro é um sinal de honestidade da tradição. É também uma semente de esperança: as lágrimas de Pedro não são as de Judas, e o anjo do túmulo o mencionará pelo nome (16:7).

Diante de Pilatos: o Rei e Barrabás (15:1-15)

Logo de manhã — a última das quatro vigílias da parábola do porteiro (13:35) —, o Sinédrio delibera, amarra Jesus e o entrega a Pilatos (15:1). Pôncio Pilatos foi prefeito da Judeia entre 26 e 36 d.C. Sua existência e seu título foram confirmados pela inscrição descoberta em Cesareia Marítima em 1961. Fílon de Alexandria (Embaixada a Caio 299-305) e Josefo o retratam como governante duro e insensível às sensibilidades judaicas. Diante dele, a acusação muda de natureza: já não é blasfêmia, uma questão religiosa, mas pretensão real, uma questão política. Pilatos pergunta se Jesus é o Rei dos Judeus, e ele responde com uma fórmula que é afirmativa, mas ambígua: é Pilatos quem o diz (15:2). Diante das muitas acusações dos sacerdotes, Jesus não responde mais nada, e Pilatos se admira (15:3-5). O silêncio do Servo de Isaías 53:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) continua.

Era costume, na festa, soltar um preso escolhido pelo povo. Havia um certo Barrabás, preso com rebeldes que haviam cometido homicídio numa insurreição (15:7). Pilatos oferece soltar o Rei dos Judeus, percebendo que os sacerdotes o haviam entregado por inveja. Os chefes dos sacerdotes incitam a multidão a pedir Barrabás. Quando Pilatos pergunta o que fazer com o Rei dos Judeus, a resposta é que o crucifique. Ele pergunta que mal Jesus fez, e a multidão grita ainda mais alto (15:9-14). A ironia do nome é amplamente notada: Bar-abbas significa, em aramaico, "filho do pai". Alguns manuscritos de Mateus 27:16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) chegam a chamá-lo "Jesus Barrabás". O povo escolhe entre dois "filhos do pai" e solta o culpado, um rebelde e homicida, enquanto condena o inocente, o Filho do Pai. A cena se tornou, na tradição cristã, uma imagem vívida da substituição: o culpado sai livre porque o justo toma o seu lugar. Marcos não a desenvolve explicitamente, mas ela está em perfeita sintonia com o resgate "por muitos" (10:45).

Querendo satisfazer a multidão (15:15), Pilatos solta Barrabás e, depois de mandar açoitar Jesus, entrega-o para ser crucificado. O retrato de Pilatos em Marcos não é o de alguém bondoso e fraco, mas o de um político que calcula: ele reconhece a inocência de Jesus e, mesmo assim, o executa para manter a ordem e agradar. A flagelação romana era feita com chicotes de tiras de couro com pedaços de osso ou metal, e frequentemente deixava o condenado à beira da morte, o que ajuda a explicar a rapidez da morte de Jesus (15:44).

A zombaria dos soldados: a coroação às avessas (15:16-20)

Os soldados levam Jesus ao pátio do pretório e reúnem toda a coorte (speira, unidade que podia chegar a seiscentos homens). Vestem-no de púrpura, a cor imperial, trançam uma coroa de espinhos e colocam-na em sua cabeça. Saúdam-no como Rei dos Judeus, batem em sua cabeça com uma vara, cospem nele e se ajoelham em falsa homenagem (15:16-19). T. E. Schmidt ("Mark 15.16-32: The Crucifixion Narrative and the Roman Triumphal Procession", New Testament Studies 41, 1995) mostrou como toda a sequência, do pretório ao Gólgota, parodia a cerimônia romana de triunfo e de aclamação imperial: a guarda reunida, a púrpura, a coroa, a aclamação, a procissão até o "lugar da cabeça" e o "trono". Os leitores romanos de Marcos certamente perceberiam a paródia e entenderiam a ironia mais profunda: os soldados zombam de um rei falso sem saber que estão diante do verdadeiro. A cena cumpre também Isaías 50:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o Servo que não esconde o rosto das cusparadas.

A crucificação: o Rei entronizado entre bandidos (15:21-32)

Jesus, provavelmente enfraquecido pela flagelação, não consegue carregar a trave da cruz. Os soldados obrigam Simão de Cirene, que voltava do campo, a carregá-la (15:21). Marcos acrescenta um detalhe que só faz sentido se os leitores conheciam as pessoas: Simão era pai de Alexandre e de Rufo. Um Rufo é saudado por Paulo na igreja de Roma (Rm 16:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns sugerem que seja o mesmo, o que é possível, mas não comprovado. Simão se torna, literalmente, o primeiro a tomar a cruz e seguir Jesus (8:34).

Chegam ao Gólgota, nome aramaico que Marcos traduz como "lugar da Caveira". Oferecem a Jesus vinho misturado com mirra, bebida que provavelmente servia para entorpecer o condenado (cf. Pv 31:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas ele recusa (15:23). Jesus beberá o cálice do Pai com plena consciência. Os soldados o crucificam e repartem suas vestes, tirando a sorte (15:24), em cumprimento do Salmo 22:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Marcos não descreve os detalhes físicos da crucificação; seus leitores os conheciam bem. Cícero a chamou de o mais cruel e repugnante dos suplícios (Contra Verres 2.5.165), e Martin Hengel (Crucifixion, 1977) documentou como ela era reservada a escravos, rebeldes e criminosos de classe baixa, uma morte destinada não só a matar, mas a humilhar publicamente. Que os cristãos proclamassem um Messias crucificado era, como Paulo reconhece, escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1Co 1:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Marcos situa a crucificação na terceira hora, por volta das nove da manhã (15:25); João menciona a sexta hora ainda no julgamento (Jo 19:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A diferença é explicada de várias formas — sistemas de contagem, aproximação dos horários antigos por blocos de três horas —, sem consenso definitivo. A inscrição com a acusação dizia "O Rei dos Judeus" (15:26). Pilatos pretendia expor a acusação e zombar dos judeus; Marcos vê nela, sem que Pilatos saiba, a proclamação da verdade. Com Jesus são crucificados dois bandidos (lēstai), um à direita e outro à esquerda (15:27). É o cumprimento sombrio do pedido de Tiago e João (10:37): os lugares à direita e à esquerda do Rei em sua "glória" foram ocupados por criminosos. O versículo 28, presente em algumas traduções, que cita Isaías 53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), falta nos manuscritos mais antigos, mas expressa corretamente a teologia do momento: ele foi contado com os transgressores.

Três grupos insultam Jesus. Os transeuntes balançam a cabeça, como no Salmo 22:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e zombam do suposto destruidor do templo, desafiando-o a salvar a si mesmo descendo da cruz. Os chefes dos sacerdotes e os escribas comentam entre si que ele salvou outros, mas não pode salvar a si mesmo, e dizem que, se o Cristo, o Rei de Israel, descesse da cruz, eles veriam e creriam. Até os crucificados com ele o insultam (15:29-32). A zombaria dos sacerdotes encerra uma verdade teológica: Jesus não pode salvar a si mesmo precisamente porque está salvando os outros. Não é incapacidade, mas fidelidade à missão: quem quiser salvar a vida a perderá (8:35). E o pedido de um sinal para crer é a mesma exigência recusada em 8:11-12: eles querem ver para crer, mas o centurião crerá vendo-o morrer.

A morte do Filho: o clamor, o véu e a confissão (15:33-39)

Ao meio-dia, a sexta hora, trevas cobrem toda a terra até as três da tarde (15:33). Amós 8:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) anunciava que Deus faria o sol se pôr ao meio-dia num dia de juízo e de luto, e as trevas evocam também a nona praga do Egito (Êx 10:22), que precedeu a morte dos primogênitos e a Páscoa. A criação escurece no momento em que o Filho sofre o juízo.

À nona hora, Jesus clama em alta voz o primeiro versículo do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em aramaico, que Marcos transcreve e traduz: a pergunta a Deus sobre por que o abandonou (15:34). São as únicas palavras de Jesus na cruz registradas por Marcos, e as mais difíceis de todo o Evangelho. A tradição cristã as leu em duas dimensões que se completam:

  • O abandono real. O Filho, que em toda a vida chamara Deus de Pai, agora se dirige a ele simplesmente como "meu Deus". O clamor expressa uma experiência real de desamparo. A teologia do Novo Testamento a entende como o momento em que Cristo leva sobre si o pecado e a maldição que separam o ser humano de Deus (2Co 5:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não se trata de uma ruptura na Trindade, mas de um abandono vivido pelo Filho em sua humanidade, carregando o juízo que não era seu.
  • A oração do justo sofredor. O clamor é também uma oração das Escrituras. Ao citar a primeira linha, Jesus evoca todo o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que começa no desamparo e termina na vindicação, no louvor e no anúncio de que todas as nações se voltarão para o Senhor. Mesmo no abismo, Jesus continua orando e continua chamando Deus de "meu".

As duas leituras devem ser mantidas juntas. Reduzir o clamor a uma mera citação piedosa esvazia o sofrimento real; reduzi-lo a puro desespero ignora que ele é dito em forma de oração bíblica.

Alguns presentes entendem mal o clamor e pensam que Jesus chama Elias, de quem se esperava socorro aos justos em perigo. Alguém embebe uma esponja em vinagre — o vinho azedo e barato dos soldados — e oferece a Jesus, cumprindo o Salmo 69:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), enquanto zomba esperando ver se Elias viria tirá-lo dali (15:35-36). A ironia final: Elias já viera, na pessoa de João, e fora morto (9:13). Então Jesus dá um grande grito e expira (exepneusen, 15:37). Não é a morte lenta e exausta do crucificado comum, que sufocava por horas ou dias; é um grito forte, que sugere que ele entrega a vida, e não que ela lhe é arrancada (cf. Jo 10:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

No mesmo instante, o véu do santuário se rasga em dois, de alto a baixo (15:38). O verbo é schizō, usado apenas aqui e no batismo, quando os céus se rasgaram (1:10). A moldura do Evangelho se fecha. Discute-se se se trata do véu interno, que separava o Santo dos Santos, ou do externo, à entrada do santuário. A tradição e a maioria dos comentaristas preferem o interno, com base em Hebreus. O rasgo "de alto a baixo" indica uma ação de Deus. O significado tem duas faces. É abertura: o acesso à presença de Deus, antes restrito ao sumo sacerdote uma vez por ano, está aberto pelo sangue de Jesus (Hb 10:19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E é juízo: o templo cujo fim Jesus anunciara (13:2) perdeu sua razão de ser; Deus abandona a casa que rejeitou seu Filho.

E então o clímax de todo o livro. O centurião, o oficial romano encarregado da execução, que estava diante de Jesus, vendo como ele expirou, declara que aquele homem era verdadeiramente Filho de Deus (15:39). O título de 1:1, declarado pelo Pai no batismo (1:11) e na transfiguração (9:7), reconhecido com pavor pelos demônios (3:11; 5:7) e proibido aos discípulos até a hora certa, é finalmente confessado por um ser humano. E esse ser humano não é um discípulo, nem um judeu, nem alguém que viu um milagre, mas um gentio, um soldado do império que acabara de crucificar Jesus, e ele o confessa ao vê-lo morrer. Os gramáticos discutem se a frase grega, sem artigo, significa "o Filho de Deus" ou "um filho de deus" no sentido pagão. A regra de Colwell e, sobretudo, a função narrativa da frase no Evangelho — a moldura com 1:1 e 1:11 — levam a maioria dos comentaristas a lê-la como confissão plena no nível do texto, ainda que o centurião histórico pudesse entendê-la de modo limitado. Para Marcos, é na cruz que se vê quem Jesus é. Ninguém o reconhece plenamente nos milagres; só se pode reconhecê-lo plenamente no Crucificado.

As mulheres e o sepultamento (15:40-47)

Os Doze fugiram, mas algumas mulheres observam de longe: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé, além de muitas outras que haviam subido com ele a Jerusalém (15:40-41). Marcos revela, só agora, que essas mulheres o seguiam e o serviam (diakoneō) desde a Galileia, isto é, que eram discípulas no sentido pleno do termo — seguir e servir. Elas permanecem quando os homens fugiram. Observar "de longe" ecoa o Salmo 38:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre amigos e parentes que ficam à distância do sofredor. Mas elas estão ali, e serão as testemunhas da morte, do sepultamento e do túmulo vazio.

Ao entardecer, véspera do sábado, era urgente sepultar o corpo, porque a Lei não permitia que o corpo ficasse no madeiro durante a noite (Dt 21:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), muito menos no sábado. José de Arimateia, membro respeitado do conselho, que também esperava o reino de Deus, tem a ousadia de ir a Pilatos pedir o corpo (15:43). Era um gesto arriscado: identificar-se com um condenado por sedição. Pilatos se admira de que Jesus já esteja morto e confirma com o centurião (15:44-45). O detalhe é importante: a morte de Jesus é atestada oficialmente, contra qualquer teoria posterior de que ele apenas teria desmaiado. José compra um lençol de linho, envolve o corpo, coloca-o num túmulo escavado na rocha e rola uma pedra sobre a entrada (15:46). O sepultamento por um homem rico e respeitado ecoa Isaías 53:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), sobre o Servo que, na morte, esteve com o rico. Maria Madalena e Maria, mãe de José, observam onde ele foi colocado (15:47). Elas sabem exatamente qual é o túmulo e não se enganarão de lugar na manhã do domingo.

Como o bloco se conecta ao restante do livro e à Bíblia

O Bloco 7 é o cumprimento de tudo o que Marcos preparou. O "noivo tirado" (2:20), o profeta rejeitado (6:4), o destino de João (6:14-29), os três anúncios da paixão, o cálice e o batismo (10:38), o resgate por muitos (10:45), o filho amado morto pelos lavradores (12:6-8) e as vigílias do porteiro (13:35) se realizam nestas páginas. A moldura do livro se fecha: os céus rasgados e a declaração do Pai no batismo (1:10-11) correspondem ao véu rasgado e à confissão do centurião (15:38-39). No quadro maior da Bíblia, a paixão reúne as grandes linhas do Antigo Testamento: a Páscoa e o cordeiro (Êx 12), o sangue da aliança (Êx 24), o justo sofredor dos Salmos (22, 41, 69), o Servo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Pastor ferido de Zacarias 13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e o Filho do Homem de Daniel 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). E abre a nova aliança: o acesso a Deus está aberto, e o povo de Deus agora inclui um centurião romano. A pergunta "quem é este?", que atravessou o Evangelho, recebe sua resposta definitiva ao pé da cruz.

Visão cristocêntrica

Todo o bloco é, de modo direto, sobre a pessoa e a obra de Cristo. Algumas faces se destacam:

  • O Cordeiro pascal e o sangue da aliança. Jesus interpreta sua morte, na ceia, como o sacrifício que liberta e sela uma nova aliança. Ele é a Páscoa do novo êxodo (1Co 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • O Servo sofredor. Silencioso diante dos acusadores, cuspido e esbofeteado, contado com os transgressores e sepultado com o rico, Jesus cumpre traço por traço Isaías 50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 53, levando o pecado de muitos.
  • O Filho obediente. No Getsêmani, o Filho que chama Deus de Abba entrega sua vontade à do Pai. A salvação nasce dessa obediência (Hb 5:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
  • O Messias que se revela na hora da condenação. Diante do sumo sacerdote, Jesus rompe o segredo com o "Eu Sou" e com a promessa do Filho do Homem entronizado. Ele não esconde sua identidade quando isso significa a morte.
  • O Rei coroado de espinhos. A paródia dos soldados e a inscrição de Pilatos proclamam, sem saber, a verdade: Jesus reina a partir da cruz.
  • O substituto. Barrabás sai livre enquanto Jesus é condenado, e Jesus não salva a si mesmo para salvar os outros. Cristo morre o que não merecia para que os culpados recebessem o que não mereciam (1Pe 2:24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3:18).
  • O que abre o caminho até Deus. O véu rasgado mostra que, pela morte de Jesus, o acesso à presença de Deus está aberto a todos, inclusive aos gentios, representados pelo centurião.
  • O Filho de Deus revelado na cruz. A confissão do centurião mostra que a identidade de Jesus se revela plenamente não no poder, mas na entrega.

Aplicações espirituais e práticas

  • A devoção que não calcula. A mulher de Betânia foi criticada por "desperdiçar" com Jesus o que poderia ter outro uso. Há gestos de amor a Cristo — tempo de oração, generosidade, dedicação — que o mundo e até os religiosos consideram exagerados. Jesus os chama de obra bela. A pergunta é se nossa fé tem espaço para o extravagante amor a Cristo, e não apenas para o útil e o calculado.

  • "Seria eu?" À mesa, nenhum discípulo apontou para outro; cada um perguntou sobre si mesmo. A traição veio de dentro do grupo mais íntimo. A pergunta saudável, diante das falhas e escândalos na comunidade cristã, começa pelo autoexame, e não pela acusação dos outros.

  • A ceia como memória, aliança e esperança. Cada vez que a igreja celebra a ceia, ela relembra a entrega de Jesus, renova a pertença à nova aliança selada em seu sangue e antecipa o banquete do reino. Participar dela de modo consciente — com gratidão, arrependimento e reconciliação com os irmãos — é responder ao próprio gesto de Cristo.

  • A autoconfiança que se quebra. Pedro estava sinceramente seguro de que não negaria Jesus. A sinceridade não o protegeu, porque ele desconhecia a própria fraqueza. A lição é humildade: a firmeza na fé não vem da confiança em si, mas da vigilância, da oração e da dependência de Deus.

  • A oração honesta do Getsêmani. Jesus não fingiu tranquilidade: confessou angústia, pediu que o cálice passasse e, ao mesmo tempo, entregou-se à vontade do Pai. Esse é o modelo para os momentos de crise — doença grave, perdas, decisões dolorosas. É legítimo pedir livramento com sinceridade e, ao mesmo tempo, submeter o próprio desejo ao Pai que ama.

  • Vigiar e orar na fraqueza. O espírito pronto e a carne fraca descrevem a condição de todo discípulo. O antídoto que Jesus propôs aos discípulos foi concreto: vigiar e orar. A disciplina da oração não é um luxo dos fortes, mas o recurso dos fracos.

  • Recusar a espada. Um discípulo reagiu à prisão com violência, e Jesus a rejeitou. O reino de Cristo não avança por coerção, retaliação ou força. Diante de injustiças e hostilidades, o discípulo é chamado a não revidar o mal com o mal (1Pe 2:23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

  • Cristo conhece o abandono. Jesus foi traído, negado, abandonado pelos amigos e clamou o abandono de Deus. Ninguém que passa pela solidão, pela traição ou pela sensação de que Deus está distante está fora do alcance de sua compreensão. A oração do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que é possível lamentar diante de Deus sem deixar de chamá-lo de "meu Deus". Os salmos de lamento são um recurso legítimo e precioso para os momentos mais escuros.

  • As lágrimas que abrem caminho à restauração. Pedro caiu de modo vergonhoso, mas chorou, e Jesus o chamaria de volta (16:7). Quem falhou gravemente na fé não está definitivamente fora; o choro sincero do arrependimento é o começo da restauração.

  • A política do cálculo. Pilatos sabia que Jesus era inocente e o condenou para satisfazer a multidão. A cena adverte todos os que exercem autoridade — na política, na empresa, na igreja, na família — contra decisões que sacrificam a justiça à conveniência, à popularidade ou à manutenção do próprio poder.

  • Somos Barrabás. O culpado saiu livre porque o inocente foi condenado. A fé cristã convida cada pessoa a se ver nesse lugar: libertada não por mérito, mas porque Cristo tomou o seu lugar. Essa consciência gera gratidão, humildade e uma nova liberdade.

  • Carregar a cruz quando ela nos alcança. Simão de Cirene não escolheu carregar a cruz: foi obrigado, a caminho de outra coisa. Há cruzes que chegam sem aviso — doença de um familiar, crises, responsabilidades inesperadas. A tradição de que seus filhos se tornaram conhecidos da igreja sugere que esse encontro forçado com a cruz se tornou bênção para a família.

  • A fidelidade das testemunhas silenciosas. As mulheres que seguiam e serviam permaneceram até o fim, e José de Arimateia arriscou a reputação para sepultar Jesus. Quando os protagonistas fogem, a obra de Deus continua sustentada por pessoas fiéis, muitas vezes discretas, que não abandonam Cristo na hora mais escura.

Sabedoria para o Cotidiano
Na noite em que foi traído, Jesus deu aos seus o pão e o cálice; no jardim, entregou ao Pai sua vontade; diante dos juízes, confessou quem era; na cruz, não salvou a si mesmo para salvar os outros. Todos o abandonaram, e mesmo assim ele não abandonou ninguém. Se hoje você se sente como Pedro, envergonhado das próprias quedas, ou como Barrabás, livre sem merecer, olhe para o Crucificado como o centurião olhou e reconheça nele o Filho de Deus. O véu está rasgado: o caminho até o Pai está aberto.

Interpretação e comentários da Bíblia, sob direção editorial de José Carlos Fortes. Conteúdo elaborado com apoio de inteligência artificial, sob curadoria e revisão editorial. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.