Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento
Mateus — Capítulo 19
Título do capítulo: Entre o princípio e a regeneração
Gênero literário: Evangelho (narrativa com diálogos de controvérsia e de ensino: a partida para a Judeia; a pergunta sobre o repúdio e a resposta a partir da criação; a vida sem casamento por causa do Reino; as crianças abençoadas; o jovem rico; o ensino sobre a riqueza e a promessa aos que deixaram tudo)
Número de versículos: 30
Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português. No v. 9, alguns manuscritos acrescentam uma frase sobre quem se casa com a mulher repudiada, parecida com a de Mt 5.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); os mais antigos e importantes, em sua maioria, não a trazem aqui. A palavra porneia, no mesmo versículo, recebe leituras diferentes entre as tradições cristãs, apresentadas no lugar próprio. O estudo do capítulo 1 apresenta o livro inteiro (autoria, data, destinatários e estrutura); aqui se pressupõe essa apresentação.
Uma palavra pastoral: os vv. 3-12 falam do divórcio, e frases deste trecho já foram usadas para ferir quem passou por uma separação. Jesus afirma com seriedade o desígnio de Deus para o casamento e se opõe ao repúdio fácil, que deixava a mulher desamparada; ele não condena quem foi abandonado, nem obriga ninguém a permanecer numa relação em que corre perigo. O estudo tratará disso com cuidado, no mesmo espírito do estudo de Malaquias 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O fim do quarto discurso e a estrada para Jerusalém
O capítulo abre com a fórmula que encerra cada um dos cinco grandes discursos de Mateus: depois de terminar essas palavras, Jesus seguiu adiante (Mt 7.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). O discurso sobre a comunidade ficou para trás, e começa a última parte da narrativa antes da Paixão. Jesus deixa a Galileia e só voltará a ela depois da ressurreição (Mt 26.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 28.16). Desde Cesareia de Filipe, ele anunciava que precisava ir a Jerusalém para sofrer, morrer e ressuscitar (Mt 16.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o terceiro anúncio virá logo depois deste capítulo (Mt 20.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O caminho que começa no v. 1 termina na cruz.
O destino é a região da Judeia do outro lado do Jordão. A expressão pode indicar a rota dos peregrinos galileus que desciam pela margem oriental do rio, evitando a Samaria, ou a Pereia, a faixa a leste do Jordão (cf. Mc 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Pereia era governada por Herodes Antipas, que mandara matar João Batista porque ele o censurara por ter tomado a mulher do irmão (Mt 14.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes notam que a pergunta sobre o divórcio, feita ali, não era só acadêmica: o assunto já custara a vida de um profeta.
O debate sobre o repúdio no tempo de Jesus
A Lei de Moisés não instituía o divórcio, mas o pressupunha e o regulava. Dt 24.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) trata do homem que despede a mulher porque encontrou nela 'erwat davar, literalmente algo de nudez, alguma coisa vergonhosa; ele devia dar-lhe um documento de repúdio, e não podia tomá-la de volta se ela se casasse com outro. A lei limitava uma prática existente, e o documento protegia a mulher, que podia mostrar que estava livre.
No tempo de Jesus, a expressão de Dt 24.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) dividia os mestres. A Mishná, compilada por volta de 200 d.C., registra o debate entre as escolas de Shammai e de Hillel, mestres do século I a.C. A de Shammai punha a ênfase em 'erwah, nudez, e só admitia o repúdio por imoralidade sexual. A de Hillel punha a ênfase em davar, coisa, e o admitia por qualquer motivo, até porque a mulher deixara queimar a comida; e o rabino Aqiba, pouco depois, dizia que bastava o marido encontrar outra mais bonita. Alguns estudiosos pensam que a expressão kata pasan aitian, por qualquer motivo, no v. 3, era quase um termo técnico do divórcio segundo a escola de Hillel. Os dados vêm de fontes posteriores e pedem cautela, mas mostram que a pergunta tocava um debate vivo dentro do judaísmo.
Duas coisas convém lembrar. Na prática judaica do tempo, o repúdio era em regra iniciativa do marido, e a mulher despedida ficava muito vulnerável. E o debate era interno ao judaísmo, entre mestres que levavam a Lei a sério. Os fariseus perguntam para pôr Jesus à prova, mas a questão era legítima, e Jesus responde como mestre judeu, com a Torá na mão. Ler o episódio como se os fariseus representassem os judeus contra Jesus seria trair o texto e a história.
Riqueza, bênção e uma sequência sobre a casa
Em boa parte da tradição bíblica, a prosperidade era vista como sinal da bênção de Deus (Dt 28.1-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), enquanto os profetas denunciavam os ricos que oprimiam os pobres (Am 4.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a sabedoria advertia contra confiar nas riquezas (Sl 62.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 11.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O espanto dos discípulos no v. 25 nasce dessa mistura.
Muitos estudiosos notam que Mt 19.3–20.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) percorre os assuntos que, no mundo antigo, definiam a casa: marido e mulher, filhos, bens e trabalho (cf. Ef 5.21–6.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus os percorre à luz do Reino, até a parábola da vinha (Mt 20.1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
Terminado o discurso, Jesus parte da Galileia para a região da Judeia além do Jordão. Grandes multidões o seguem, e ele as cura ali (vv. 1-2).
Alguns fariseus perguntam, para pô-lo à prova, se é permitido ao homem despedir a mulher por qualquer motivo. Jesus remete às Escrituras: o Criador, no princípio, fez o ser humano homem e mulher, e por isso o homem sai da casa dos pais e se liga à esposa, e os dois deixam de ser duas existências separadas para formar uma unidade; a união feita por Deus não pode ser desfeita por mão humana. Os fariseus replicam com a lei de Moisés, que mandava dar à mulher o documento de repúdio. Jesus explica que a permissão de Moisés foi uma concessão ao coração endurecido deles, e que o desígnio do princípio era outro; e declara adúltero o homem que despede a mulher, fora do caso de porneia, para unir-se a outra (vv. 3-9).
Os discípulos concluem que, assim, é melhor não se casar. Jesus responde que essa palavra não cabe em todos, só em quem recebeu esse dom, e fala de três situações: a de quem nasceu eunuco, a de quem foi castrado por outros e a de quem renunciou ao casamento em vista do Reino dos céus; e deixa o convite a quem tiver capacidade para aceitar (vv. 10-12).
Trazem crianças a Jesus, para que ele lhes imponha as mãos e ore, e os discípulos repreendem quem as traz. Jesus manda que ninguém as impeça de chegar até ele, porque é de gente assim que o Reino dos céus é feito. Impõe-lhes as mãos e parte (vv. 13-15).
Alguém pergunta a Jesus que coisa boa deve fazer para ter a vida eterna. Jesus devolve a pergunta: por que interrogá-lo sobre o bem, se o bom é um só? E o caminho para a vida passa pela obediência aos mandamentos. Diante da pergunta sobre quais, Jesus enumera os que tratam do homicídio, do adultério, do roubo, do falso testemunho e da honra aos pais, e acrescenta o amor ao próximo. O jovem diz que tem cumprido tudo e quer saber o que ainda falta. Jesus lhe mostra o caminho da inteireza: desfazer-se dos bens em favor dos pobres, ganhar com isso um tesouro junto de Deus e, então, tornar-se seu seguidor. O jovem vai embora triste, porque possuía muitos bens (vv. 16-22).
Jesus diz aos discípulos que a entrada do rico no Reino dos céus é difícil, e a compara com a passagem de um camelo pelo buraco de uma agulha, declarando mais fácil a do camelo. Espantados, os discípulos perguntam se, nesse caso, alguém consegue ser salvo. Jesus olha para eles e responde que o que está fora do alcance humano está ao alcance de Deus (vv. 23-26).
Pedro lembra que eles deixaram tudo para seguir Jesus e pergunta o que terão. Jesus promete que, no tempo da renovação de tudo, com o Filho do Homem entronizado em glória, os que o seguiram receberão doze tronos e a tarefa de governar e julgar as tribos de Israel, que também são doze. A quem tiver renunciado a casa, família ou terras por causa do nome de Jesus, a promessa é o cêntuplo e, como herança, a vida eterna. E o capítulo fecha com a advertência de que haverá muitas trocas de lugar entre primeiros e últimos (vv. 27-30).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — A partida da Galileia
A fórmula do v. 1 fecha o quarto discurso e marca uma virada geográfica. Jesus deixa a Galileia, onde Mateus viu brilhar a luz anunciada em Is 9.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Mt 4.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e se dirige ao sul. As multidões o seguem, e ele as cura; Marcos diz que as ensinava (Mc 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Messias que caminha para a cruz continua a fazer, pelo caminho, as obras do Reino.
Versículos 3-9 — A pergunta sobre o repúdio e a resposta do princípio
Os fariseus se aproximam peirazontes, pondo-o à prova, o mesmo verbo usado para o tentador no deserto (Mt 4.1, 3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e para outras perguntas armadas (Mt 16.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 22.35). Qualquer resposta parecia perigosa: concordar com Hillel seria aprovar o repúdio fácil; concordar com Shammai seria tomar partido e, talvez, atrair a ira do tetrarca da região.
Jesus não entra no debate pelo caminho proposto. Não começa por Dt 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), mas por Gênesis. A pergunta sobre se eles não tinham lido é a que ele faz quando os interlocutores conhecem as Escrituras sem entendê-las (Mt 12.3, 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.16, 42; 22.31). Ele junta dois textos da criação. Em Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Criador, ho ktisas, fez o ser humano, desde o princípio, em duas formas, arsen kai thēly, homem e mulher. Em Gn 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), por essa razão o homem sai da casa dos pais e se liga à esposa, e os dois se tornam basar 'eḥad, no grego sarx mia, uma única carne, isto é, uma unidade de vida. O verbo grego para essa ligação, kollaō, quer dizer colar, aderir. O v. 6 tira a conclusão: a dualidade deu lugar a uma unidade, e a união que Deus pôs sob o mesmo jugo, synezeuxen, não está à disposição humana para ser desfeita. O verbo vem de zygos, o jugo que une dois animais para o trabalho. O casamento é obra de Deus antes de ser contrato humano.
Um dos textos de Qumran, o chamado Documento de Damasco, também invoca Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), contra quem tomava uma segunda mulher enquanto a primeira vivia; Jesus vai mais fundo e atinge a própria facilidade em desfazer o que Deus uniu.
Os fariseus respondem no v. 7 com Moisés: por que, então, ele mandou, eneteilato, dar o biblion apostasiou, o documento de repúdio? Jesus corrige o verbo no v. 8: Moisés não mandou, permitiu, epetrepsen, e o fez em atenção à sklērokardia, o coração endurecido do povo. A lei de Dt 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não expressava o ideal de Deus, mas uma concessão para limitar os danos de um mal existente. E Jesus acrescenta que o desígnio do princípio era outro. A frase é decisiva para a ética cristã: há leis que regulam o pecado num mundo caído, e há o desígnio do Criador, que o Reino vem restaurar.
O v. 9 traz a sentença, com o legō de hymin, eu, porém, vos digo, das antíteses do Sermão do Monte (Mt 5.22, 28, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o homem que despede a mulher, fora do caso de porneia, para unir-se a outra, incorre em adultério, moichatai. A frase é dirigida ao homem, que tinha o poder de despedir, e o acusa: despedir a mulher para casar-se com outra não é um ato legal e neutro, é adultério com aparência de procedimento. Marcos, escrevendo para quem conhecia o direito romano, em que a mulher também podia pedir o divórcio, aplica a palavra aos dois (Mc 10.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas a registra numa só frase (Lc 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A cláusula de exceção, que só Mateus traz (aqui e em Mt 5.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é das mais discutidas do Novo Testamento. Porneia designa a imoralidade sexual em sentido amplo. As principais leituras são estas:
- Infidelidade sexual grave. Muitas igrejas da Reforma e muitos intérpretes evangélicos entendem que, nesse caso, o vínculo foi rompido por quem traiu; a parte inocente pode divorciar-se e, segundo muitos, casar-se de novo. Algumas confissões reformadas acrescentam o abandono pelo cônjuge descrente (1Co 7.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Uniões ilegítimas. Muitos intérpretes católicos entendem porneia como uniões proibidas pela Lei, como as de parentesco próximo (Lv 18.6-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), lembrando que a palavra aparece nas exigências do concílio de Jerusalém aos gentios (At 15.20, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A exceção seria, então, o reconhecimento de que tal união nunca foi casamento válido. A Igreja Católica sustenta a indissolubilidade do casamento sacramental consumado e admite a separação, mas não um novo casamento enquanto o cônjuge vive, salvo declaração de nulidade.
- A infidelidade no noivado. Alguns ligam a exceção ao caso de José, que pensou em despedir Maria durante o noivado (Mt 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A tradição ortodoxa afirma o ideal da união para a vida inteira, mas admite, por oikonomia, isto é, por condescendência pastoral, um segundo casamento em certos casos, com caráter penitencial. As diferenças não escondem o que todas as tradições reconhecem: Jesus afirma com seriedade a permanência do casamento como desígnio de Deus e se opõe ao repúdio fácil, que tratava a mulher como descartável.
Versículos 10-12 — A vida sem casamento como dom do Reino
A reação dos discípulos mostra o quanto a palavra os surpreendeu. Cresceram num mundo em que o homem podia sair do casamento com relativa facilidade, e um compromisso sem essa porta de saída lhes parece pesado demais.
Jesus responde que nem todos chōrousin, conseguem dar lugar, acolher, essa palavra; só aqueles que receberam o dom. Discute-se se a palavra é a frase dos discípulos ou o ensino de Jesus sobre o casamento; a maioria dos intérpretes entende a primeira, que Jesus toma para ensinar algo novo: a vida sem casamento é um dom, não uma fuga.
O v. 12 fala de três tipos de eunouchoi. Os primeiros nasceram assim, sem poder casar-se ou gerar filhos. Os segundos foram castrados por outros, muitas vezes servos de cortes reais, como o etíope que Filipe batizou (At 8.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os terceiros escolheram essa condição em vista do Reino dos céus: não por mutilação, mas por renúncia ao casamento para dedicar a vida ao Reino. A tradição cristã quase toda entendeu assim o terceiro grupo. Segundo o historiador Eusébio, Orígenes, o grande mestre de Alexandria, teria tomado o versículo ao pé da letra na juventude; a igreja rejeitou essa leitura.
A palavra ganha força com Is 56.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus promete aos eunucos fiéis um lugar na sua casa e um nome melhor do que filhos e filhas. Num mundo em que a descendência era o modo de continuar existindo, Jesus diz que a vida sem casamento e sem filhos pode ser fecunda no Reino. Ele mesmo viveu assim. Paulo, que também não era casado, fala do celibato como charisma, dom, e da vantagem de servir ao Senhor sem divisão (1Co 7.7, 32-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 12 termina com um convite, não uma ordem, dirigido a quem tiver capacidade para aceitar. Não há aqui desprezo pelo casamento, que Jesus acabou de defender, nem imposição do celibato; há um lugar digno para quem não se casa.
Versículos 13-15 — As crianças que os discípulos barravam
Depois do marido e da mulher, os filhos. Pessoas trazem paidia, crianças pequenas, para que Jesus lhes imponha as mãos e ore. O gesto era sinal de bênção, como o de Jacó sobre os filhos de José (Gn 48.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os discípulos repreendem quem as traz; talvez quisessem poupar o Mestre. Mas acabaram de ver, no capítulo 18, Jesus pôr uma criança no meio deles, e não aprenderam a lição. Jesus manda que as deixem e proíbe que lhes barrem o caminho, mē kōlyete, porque o Reino dos céus é tōn toioutōn, dos que são assim. Marcos registra a indignação de Jesus e o gesto de tomá-las nos braços (Mc 10.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas diz que eram bebês, brephē (Lc 18.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O verbo kōlyō, impedir, aparece em textos de Atos sobre o batismo (At 8.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.47), e a passagem é usada no debate sobre o batismo de crianças. As igrejas que batizam crianças veem aqui um sinal de que elas pertencem à comunidade da aliança; as que batizam só quem professa a fé leem a cena como bênção e acolhimento, sem relação direta com o rito. Em qualquer leitura, ninguém tem o direito de afastar as crianças de Jesus.
Versículos 16-22 — O jovem que tinha muitos bens
Mateus apresenta o homem como alguém, heis, e só no v. 20 o chama de neaniskos, jovem; Lucas diz que era um chefe (Lc 18.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os três Evangelhos dizem que era rico. A sua pergunta é sincera: que agathon, que bem, ele precisa fazer para ter a vida eterna. Pensa em termos de uma obra que garanta o resultado.
A resposta de Jesus em Mateus difere da de Marcos e Lucas. Nos outros dois, o homem chama Jesus de bom mestre, e Jesus questiona o adjetivo, lembrando que só Deus é bom (Mc 10.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 18.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Mateus, a palavra bom está na pergunta sobre o que fazer, e Jesus questiona a pergunta sobre o bem. Muitos estudiosos pensam que Mateus reformulou a cena para que ninguém entendesse que Jesus negava ser bom; outros notam que a ênfase passa do título de Jesus para a fonte do bem: o bem não é uma obra que se acrescenta à vida, é Deus mesmo, cuja vontade foi revelada nos mandamentos.
Jesus enumera, nos vv. 18-19, cinco mandamentos da segunda tábua do Decálogo, os que tratam do próximo (Êx 20.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 5.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus, só ele, acrescenta o amor ao próximo de Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que Jesus chamará de segundo grande mandamento (Mt 22.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos leitores notaram uma ausência: o mandamento que proíbe a cobiça (Êx 20.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É nele que o jovem vai tropeçar.
O jovem diz ter cumprido tudo e pergunta ti eti hysterō, o que ainda lhe falta: cumpre e sente que falta algo. Jesus responde no v. 21 com a palavra teleios, perfeito, completo, a mesma de Mt 5.48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que os discípulos são chamados a ser completos como o Pai celeste. Não indica uma categoria superior de cristãos, mas a inteireza de quem não tem o coração dividido. E Jesus põe o dedo no ponto exato: desfazer-se das propriedades em favor dos pobres, o que lhe daria um tesouro junto de Deus, e então caminhar atrás dele como discípulo. Os dois movimentos são inseparáveis: não basta vender, é preciso seguir, e não se segue com o coração preso aos bens. Jesus já tinha ensinado que o coração mora junto do tesouro, e que é impossível estar a serviço de Deus e do dinheiro ao mesmo tempo (Mt 6.19-21, 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 22 registra o fim com sobriedade: o jovem vai embora lypoumenos, triste, porque tinha ktēmata polla, muitas propriedades. A tristeza é real, mas ele sai. O amor ao próximo que dizia cumprir esbarrou no amor aos bens. Marcos acrescenta que Jesus olhou para ele e o amou (Mc 10.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a exigência nasce de um amor que quer libertá-lo do que o prende.
Versículos 23-26 — O camelo e o buraco da agulha
Com o amēn, Jesus diz aos discípulos que um rico entra no Reino dyskolōs, com dificuldade. E o v. 24 aumenta a imagem com um exagero que se tornou proverbial. Compara duas passagens: a do camelo, o maior animal da região, pelo trēma rhaphidos, o buraco de uma agulha, a menor abertura conhecida; e a do rico pela porta do Reino de Deus. A primeira, diz Jesus, é a mais fácil. Mateus, que quase sempre diz Reino dos céus, usa aqui Reino de Deus, como em poucos outros lugares (Mt 12.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.31, 43).
Houve tentativas de suavizar a imagem. Uma fala de uma porta pequena de Jerusalém chamada buraco da agulha, pela qual um camelo só passaria ajoelhado; nenhuma fonte antiga menciona tal porta, e a explicação parece tardia. Outra lembra que alguns manuscritos tardios trazem kamilos, corda grossa, em vez de kamēlos, camelo; a leitura é secundária. As duas tropeçam nos versículos seguintes: se fosse só difícil, os discípulos não perguntariam se alguém consegue ser salvo, e Jesus não falaria do que está fora do alcance humano. A imagem é de impossibilidade. O Talmude, bem posterior, usa uma figura parecida, a de um elefante pelo buraco de uma agulha, para algo impossível.
Os discípulos ficam exeplēssonto sphodra, muito espantados: se os ricos, que pareciam abençoados e tinham meios para esmolas e sacrifícios, não conseguem, quem conseguirá? Jesus olha para eles, emblepsas, e responde no v. 26 contrapondo o que os seres humanos não conseguem ao que Deus pode fazer: o adynaton, o impossível, pertence ao lado humano; do lado de Deus, nenhuma porta está fechada. A frase ecoa a pergunta feita a Abraão sobre se havia algo difícil demais para o SENHOR (Gn 18.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a confissão de Jó (Jó 42.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a palavra do anjo a Maria (Lc 1.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A salvação não é conquista humana, nem do rico nem do pobre. É obra de Deus.
Versículos 27-30 — Os doze tronos e o cêntuplo
Pedro, como sempre, fala pelos outros: eles deixaram tudo e seguiram Jesus; o que terão? A pergunta é honesta: fizeram o que o jovem rico não fez, deixaram redes, barcos, pai, mesa de coletoria (Mt 4.18-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.9). Jesus responde com uma promessa solene.
O v. 28 fala da palingenesia, a regeneração, palavra que no Novo Testamento só aparece aqui e em Tt 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde designa o novo nascimento pelo Espírito. No mundo grego, podia indicar a renovação do cosmos; em textos judaicos, a restauração do povo. Aqui é a renovação de todas as coisas, com o Filho do Homem entronizado em glória. A imagem vem de Dn 7.9-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que tronos são postos e um como Filho de Homem recebe autoridade e realeza, e os santos do Altíssimo recebem o reino e o julgamento (Dn 7.22, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aos Doze, Jesus promete tronos, um para cada um, e a tarefa de julgar as tribos de Israel. O verbo krinō pode ter o sentido de governar, como os juízes de Israel. O número doze evoca o Israel restaurado, e os Doze são o núcleo do povo renovado. Lucas registra promessa parecida na última ceia (Lc 22.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Apocalipse põe os nomes das doze tribos nas portas da nova Jerusalém e os dos doze apóstolos nos seus fundamentos (Ap 21.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 29 alarga a promessa a todo discípulo. A lista do que se deixa é concreta: a casa, os irmãos e as irmãs, o pai e a mãe, os filhos, os campos. Quem renunciou a isso por causa do nome de Jesus recebe o cêntuplo, hekatontaplasiona, e tem a vida eterna como herança. Marcos explicita que o cêntuplo vem já neste tempo, junto com perseguições (Mc 10.29-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não é promessa de riqueza, como se renunciar fosse investimento rentável; é a nova família de Jesus, a dos que fazem a vontade do Pai (Mt 12.48-50 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), em que quem perdeu os seus encontra irmãos, mães e filhos em quantidade. E a herança final é a vida eterna, exatamente o que o jovem rico procurava.
O v. 30 encerra o capítulo com uma frase enigmática sobre a troca de lugares entre primeiros e últimos. Ela prepara a parábola dos trabalhadores da vinha, que termina com a mesma frase invertida (Mt 20.1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e as duas formam uma moldura. Os discípulos que deixaram tudo não ganham com isso direito a nada: a recompensa vem da generosidade de Deus, não de um cálculo de mérito. E a ordem deste mundo não é a do Reino: o jovem rico, primeiro aos olhos do mundo, saiu triste; as crianças, últimas, receberam a bênção.
✨ 4. Versículos-Chave
Mt 19.4-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus responde à pergunta sobre o repúdio voltando a Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 2.24. O casamento é obra de Deus, que une homem e mulher numa unidade de vida, e não um contrato que o homem desfaz quando quer. O texto é a base da doutrina cristã do casamento em todas as tradições, e Paulo o retomará para falar do mistério de Cristo e da igreja (Ef 5.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mt 19.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As crianças não devem ser impedidas de chegar a Jesus, porque o Reino é feito de gente como elas. O versículo completa Mt 18.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): Jesus não só usa a criança como exemplo, mas a acolhe por ela mesma.
Mt 19.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A exigência ao jovem rico: entregar os bens aos pobres, trocá-los por um tesouro junto de Deus e tornar-se seguidor de Jesus. Atanásio conta que Antão, no Egito, ao ouvir este texto lido na igreja, vendeu as suas terras e foi viver no deserto, e daí nasceu boa parte do monaquismo cristão. O discipulado pode exigir a renúncia a tudo que disputa o coração com Jesus.
Mt 19.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O que está fora do alcance humano está ao alcance de Deus. O versículo é a chave da seção sobre a riqueza e uma das afirmações mais claras dos Evangelhos sobre a salvação pela graça: ninguém entra no Reino pelo próprio esforço; entra porque Deus faz o que ninguém pode fazer.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O casamento segundo o desígnio da criação. Jesus não responde com uma lista de motivos, mas com o propósito de Deus: a união de homem e mulher, feita por Deus, que não pode ser desfeita pela conveniência de um dos dois. Ao mesmo tempo, reconhece que o mundo caído exige leis que limitem os danos do pecado. A igreja é chamada a sustentar o ideal sem esmagar com ele quem sofre as consequências da queda.
O Reino que inverte as posições. A mulher despedida, sem voz, é defendida; os eunucos, sem descendência, recebem lugar; as crianças, barradas, são abençoadas; o rico, aparentemente abençoado, vai embora triste; os discípulos que deixaram tudo recebem tronos. É o mesmo Reino do capítulo 18, em que o maior é quem se faz pequeno.
O perigo da riqueza e o tesouro no céu. A riqueza não é condenada em si, mas aparece como um dos maiores obstáculos ao Reino. Promete segurança, identidade e controle, e assim disputa com Deus o coração. Jesus já falara da sedução da riqueza que abafa a palavra semeada (Mt 13.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e da impossibilidade de servir ao mesmo tempo a Deus e ao dinheiro (Mt 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A alternativa é o tesouro no céu.
A salvação como obra de Deus. A pergunta do jovem e a dos discípulos recebem a mesma resposta de fundo: a salvação é impossível para os homens e possível para Deus. O capítulo não diminui a exigência do discipulado; mostra que ela só se cumpre pela graça.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O capítulo se estende, literalmente, do princípio à regeneração. No v. 4, Jesus volta à Criação, ao desígnio de Deus antes da queda. No v. 8, aponta a Queda, na dureza do coração que levou à concessão de Moisés. Na sua pessoa e no seu ensino está a Redenção consumada, o Reino que restaura o desígnio do princípio. E no v. 28 aponta para a Nova Criação, a regeneração de todas as coisas. O que foi perdido no princípio, Jesus restaura; o que ainda falta, ele consumará.
6.2 — Quem Jesus se revela ser
Jesus aparece como o intérprete autorizado da Lei. Os fariseus perguntam o que é lícito, e ele responde a partir do desígnio do Criador e declara, com o legō de hymin, o que é adultério. Não anula a Lei, mas a lê pelo seu sentido mais profundo, como no Sermão do Monte (Mt 5.17-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), com a autoridade que os escribas não tinham (Mt 7.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Aparece também como aquele que pode exigir tudo. Ao jovem rico, pede que venda os bens e o siga. Nenhum mestre judeu pedia isso; só Deus podia exigir tal entrega. Seguir Jesus é o que completa a obediência aos mandamentos.
E aparece, no v. 28, como o Filho do Homem que reinará em glória. O título vem de Dn 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e Jesus o retomará ao falar do juízo das nações (Mt 25.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e diante do sumo sacerdote (Mt 26.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O homem que caminha para a cruz é o Rei que julgará o mundo.
6.3 — Como Mateus lê as Escrituras neste capítulo
A fórmula de cumprimento não aparece aqui, mas o capítulo está cheio de Escritura, e mostra Jesus lendo-a de um modo próprio.
- Ele lê Dt 24.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz de Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 2.24: o propósito original de Deus ilumina as concessões posteriores.
- Cita o Decálogo e Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), unindo os mandamentos e o amor ao próximo, como fará no grande mandamento (Mt 22.37-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- O v. 26 ecoa Gn 18.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o Deus que fez nascer Isaque de uma mulher estéril faz entrar no Reino quem não podia entrar.
- O v. 28 retoma Dn 7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o Filho do Homem que recebe o reino e os santos que recebem o julgamento.
Os paralelos sinóticos são próximos (Mc 10.1-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 18.15-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus se distingue pela cláusula de exceção (v. 9), pela palavra sobre os eunucos (vv. 10-12), pela reformulação da pergunta sobre o bem (v. 17), pelo acréscimo do amor ao próximo (v. 19), pela palavra perfeito (v. 21) e pelos doze tronos neste lugar (v. 28).
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo
O casamento que Jesus defende é, no Novo Testamento, imagem da relação de Cristo com a igreja. Jesus se apresenta como o noivo (Mt 9.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25.1-13), e Paulo, citando o mesmo Gn 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), diz que o mistério do casamento se refere a Cristo e à igreja (Ef 5.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O amor fiel pedido aos cônjuges reflete o amor do Cristo que não repudia a sua noiva, mas se entrega por ela (Ef 5.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, diante da dureza do coração, Jesus não se limita a exigir: veio dar o coração novo prometido pelos profetas (Ez 36.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os que renunciam ao casamento pelo Reino têm em Jesus o seu modelo. Ele não se casou nem teve filhos segundo a carne, e a sua vida foi a mais fecunda de todas.
As crianças abençoadas mostram o coração do Messias. O Rei que caminha para Jerusalém para morrer para um momento e impõe as mãos sobre crianças que os discípulos queriam afastar. Pouco depois, no templo, crianças o aclamarão como Filho de Davi, e ele defenderá o louvor delas com o Sl 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (Mt 21.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O jovem rico, enfim, é iluminado pela pobreza de Cristo. Paulo lembra que Jesus abriu mão da sua riqueza e assumiu a pobreza, para que, por meio dela, os pobres fossem enriquecidos (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não pede ao jovem nada que ele mesmo não tenha feito: deixou a glória, não tinha nem um lugar seu para descansar (Mt 8.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na cruz foi despojado até das vestes (Mt 27.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O tesouro no céu que ele oferece é, no fundo, ele mesmo, como o tesouro escondido no campo pelo qual alguém vende tudo com alegria (Mt 13.44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar Mateus 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz de Cristo é levar o ouvinte à pergunta dos discípulos: se nem esse, então quem? O jovem rico fez tudo o que podia, e não bastou; o seu coração estava dividido. O mesmo acontece com todos nós, ricos ou pobres: há sempre algo que disputa com Deus o primeiro lugar.
Mas a resposta de Jesus é o evangelho: o que ninguém consegue, Deus pode. O camelo não passa pelo buraco da agulha por esforço próprio. E o Novo Testamento mostra como Deus fez o impossível: pela entrega do Filho que empobreceu por nós, para que pecadores de coração dividido fossem perdoados e recebessem um coração novo. O próprio Mateus registrará, no fim da Paixão, um homem rico, José de Arimateia, que se tornara discípulo e deu o próprio túmulo para o corpo do Senhor (Mt 27.57-60 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O impossível aconteceu. Deus pode fazer de qualquer um, até de um rico, um discípulo, e a recompensa de seguir Jesus é infinitamente maior do que tudo o que se deixa.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Mc 10.1-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18.15-30 — os paralelos sinóticos.
- Gn 1.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.24; Ml 2.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ef 5.25-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o casamento como obra de Deus, a aliança traída que Malaquias denuncia e o mistério de Cristo e da igreja.
- Dt 24.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 5.31-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 7.10-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o documento de repúdio, a palavra de Jesus no Sermão do Monte e o ensino de Paulo sobre separação e abandono.
- Is 56.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 8.26-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 7.7, 32-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os eunucos na casa de Deus, o etíope batizado e o celibato como dom.
- Gn 48.14-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 18.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.15-16 — a bênção pela imposição das mãos, a criança no meio e o louvor das crianças no templo.
- Êx 20.12-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 19.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 22.37-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os mandamentos e o amor ao próximo.
- Mt 6.19-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.22, 44-46; 1Tm 6.6-10, 17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o tesouro no céu, o engano da riqueza, o tesouro no campo e as instruções de Paulo aos ricos.
- Lc 19.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.57 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Zaqueu, alcançado pela salvação, e José de Arimateia, rico e discípulo.
- Gn 18.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 42.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 1.37 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o poder de Deus, que não conhece limite.
- Dn 7.9-14, 22, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 22.28-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Filho do Homem no trono, os santos que recebem o reino e os doze apóstolos no Israel renovado.
- Tt 3.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a regeneração pessoal e a renovação de todas as coisas.
- Mt 20.1-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os trabalhadores da vinha, emoldurados pela inversão entre primeiros e últimos.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Honrar o casamento como aliança. O casamento, para Jesus, é obra de Deus, não um contrato que se desfaz quando deixa de ser conveniente. Isso pede fidelidade nas pequenas coisas e nas grandes: cuidar do cônjuge quando o encanto passa, buscar ajuda quando a relação adoece, perdoar e pedir perdão. O amor de Cristo pela igreja, fiel até a cruz, é o modelo e a força desse compromisso.
Acolher, sem condenar, quem passou por um divórcio. O texto não autoriza a igreja a envergonhar quem se divorciou. Muitos foram abandonados ou traídos; outros erraram e se arrependeram; todos precisam da graça que a igreja recebeu. Jesus falou contra o homem que despedia a mulher por conveniência, e a vítima, no texto, é a mulher desamparada. Nenhuma leitura deste capítulo obriga alguém a permanecer sob violência, física, sexual ou psicológica. Procurar proteção, pessoas de confiança, a liderança da igreja, profissionais e as autoridades não é falta de fé; é cuidar da vida que Deus deu. Paulo lembra que Deus chamou os seus para a paz (1Co 7.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Respeitar os solteiros e os celibatários. Muitas comunidades tratam quem não se casou como alguém incompleto. Jesus, que não se casou, ensinou o contrário: a vida sem casamento pode ser dom e vocação, com lugar pleno no Reino. A igreja deve ser família para quem não tem família própria e honrar quem vive sem se casar, por escolha ou por circunstância.
Abrir caminho para as crianças. Muitas igrejas ainda tratam as crianças como barulho a ser contido, e não como membros do povo de Deus. Jesus as abençoou. A comunidade é chamada a levá-las a ele, ensiná-las com paciência, protegê-las e aprender com elas o que é receber o Reino.
Examinar o lugar do dinheiro no coração. O texto não deve ser amaciado nem transformado em regra universal. Jesus pediu ao jovem rico que vendesse tudo; não pediu o mesmo a Zaqueu, que deu metade dos bens aos pobres e devolveu o que tomara (Lc 19.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), nem a José de Arimateia, nem às mulheres que sustentavam o ministério com os seus bens (Lc 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tradição católica fala dos conselhos evangélicos, pobreza, castidade e obediência, como chamado especial para alguns; as igrejas da Reforma insistiram que todo discípulo é chamado à entrega total, ainda que a forma varie. Em qualquer caso, a pergunta de Jesus atinge a todos: o que disputa com ele o primeiro lugar? Paulo pede aos ricos que não confiem nas riquezas, que façam o bem e sejam generosos (1Tm 6.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Só o Cristo que empobreceu por nós pode libertar o coração do domínio do dinheiro.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Por que Jesus responde à pergunta sobre o divórcio voltando a Gênesis, e não a Deuteronômio? O que essa escolha ensina sobre o desígnio de Deus e as leis que regulam o mundo caído?
- Como a sua comunidade trata quem passou por um divórcio, quem vive sozinho ou quem não se casou? O que este capítulo pede que mude?
- Os discípulos repreenderam quem trazia as crianças logo depois do ensino do capítulo 18. Em que situações nós também as afastamos de Jesus?
- O jovem rico cumpria os mandamentos e sentia que lhe faltava algo. O que lhe faltava de fato? O que, na sua vida, ocupa o lugar que os bens ocupavam na dele?
- Por que as tentativas de suavizar a imagem do camelo e da agulha esbarram no v. 26? O que esse versículo ensina sobre a salvação?
- Para meditação e oração: contemple o Cristo que trocou a riqueza pela pobreza por amor a você (2Co 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Peça a ele que mostre o que ainda prende o seu coração e que faça em você o que você não consegue fazer sozinho.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)
- Craig L. Blomberg — Neither Poverty nor Riches: A Biblical Theology of Possessions (Apollos/IVP, 1999)
Comentários de Mateus:
- R. T. France — Mateus: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica) e The Gospel of Matthew (série de comentários do Novo Testamento, Eerdmans, 2007)
- Craig S. Keener — The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (Eerdmans, 2009)
- Donald A. Hagner — Matthew 14–28 (Word Biblical Commentary, 1995)
- W. D. Davies e Dale C. Allison — Matthew (International Critical Commentary, T&T Clark, 3 vols.)
Sobre casamento e divórcio:
- David Instone-Brewer — Divorce and Remarriage in the Bible: The Social and Literary Context (Eerdmans, 2002)
- Craig S. Keener — And Marries Another: Divorce and Remarriage in the Teaching of the New Testament (Hendrickson, 1991)
Sabedoria para o Cotidiano
Jesus leva a vida de volta ao princípio, quando Deus uniu o homem e a mulher, e a aponta para a regeneração, quando tudo será refeito. Entre esses dois pontos, honre o casamento como aliança, sem desprezar quem sofreu a dor da separação nem quem vive sem se casar; abra caminho para as crianças chegarem a Jesus; e pergunte, com honestidade, o que disputa com ele o seu coração. O que é impossível para você, Deus pode fazer: o Cristo que abraçou a pobreza por amor é o tesouro pelo qual vale a pena deixar tudo.
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