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Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento

Mateus — Capítulo 27

Infográfico de “Mateus 27 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 7 partes: O conselho da manhã e o fim de Judas; Diante de Pilatos: o Rei calado e o preso trocado; O manto, a coroa e a vara; O Gólgota e as zombarias; As trevas, o grito e o véu rasgado; O sepulcro novo de José; A pedra selada e a guarda.

Título do capítulo: O Rei coroado de espinhos
Gênero literário: Evangelho (narrativa da Paixão: Jesus entregue ao governador romano, o fim de Judas, o julgamento diante de Pilatos e a troca por Barrabás, a zombaria dos soldados, a crucificação no Gólgota, as trevas e o grito, o véu rasgado e a confissão do centurião, o sepultamento e a guarda do túmulo; o penúltimo capítulo do Evangelho)
Número de versículos: 66

Nota de precisão: neste capítulo, a numeração das Bíblias em português coincide com a do texto grego. Cinco passagens são próprias de Mateus: o fim de Judas (vv. 3-10), o sonho da mulher de Pilatos (v. 19), as mãos lavadas e o grito da multidão (vv. 24-25), os sepulcros abertos (vv. 51b-53) e a guarda do túmulo (vv. 62-66). Há pontos de texto discutidos, tratados no lugar próprio: o nome do profeta no v. 9, o nome completo de Barrabás nos vv. 16-17 e duas frases, nos vv. 35 e 49, que só alguns manuscritos trazem. As horas seguem a contagem judaica, a partir do amanhecer: a hora sexta é o meio-dia; a nona, por volta das três da tarde. A apresentação do livro está no estudo do capítulo 1; a visão de conjunto, no do capítulo 28.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Onde estamos no Evangelho

O capítulo 26 terminou numa madrugada de sexta-feira, na casa de Caifás. Jesus fora preso no Getsêmani, os discípulos fugiram (Mt 26.56 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o sumo sacerdote, ouvindo-o anunciar que o veriam entronizado junto de Deus e chegando entre as nuvens (Mt 26.64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 7.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 110.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), declarou que ele blasfemara. No pátio, Pedro negou três vezes e saiu chorando amargamente (Mt 26.75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo 27 começa ao raiar do dia e termina no sábado, diante de uma pedra selada.

Mateus segue de perto a ordem de Marcos (Mc 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Lucas (Lc 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e João (Jo 18.28–19.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) contam a mesma Paixão com outras ênfases. O que é próprio de Mateus revela as suas preocupações: o sangue inocente, a inocência de Jesus atestada por gente inesperada e o cumprimento das Escrituras.

Pôncio Pilatos

Pôncio Pilatos governou a Judeia de cerca de 26 a 36 d.C., sob o imperador Tibério. Mateus o chama de hēgemōn, governador, termo genérico; o título oficial parece ter sido o de prefeito. Em 1961, no teatro de Cesareia Marítima, a cidade do litoral onde os governadores residiam, achou-se uma pedra com inscrição latina que menciona Pôncio Pilatos como prefeito da Judeia; a pedra está danificada e parte das letras é reconstruída, mas a leitura do nome e do cargo é aceita pela grande maioria dos estudiosos. O historiador romano Tácito, no início do século II, registra que Cristo foi executado sob Tibério pelo governador Pôncio Pilatos.

As fontes judaicas não guardaram dele boa lembrança. Fílon de Alexandria reproduz uma carta que o acusa de violência e de execuções sem julgamento; Flávio Josefo conta que ele usou dinheiro do tesouro sagrado do templo para construir um aqueduto e reprimiu os protestos com sangue; Lucas menciona galileus cujo sangue ele misturou aos sacrifícios (Lc 13.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo Josefo, foi afastado depois de uma ação violenta contra samaritanos, por volta de 36 d.C. Os Evangelhos mostram outro lado do mesmo homem: um governador que percebe a inocência do acusado e, mesmo assim, o condena. Quem é duro com os fracos pode ser fraco diante de uma multidão que ameaça a sua posição (Jo 19.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Por que levar Jesus a Pilatos

O Sinédrio julgava questões religiosas, mas, sob Roma, a pena de morte dependia do governador (Jo 18.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os estudiosos discutem as exceções, mas a crucificação era castigo romano, reservado sobretudo a escravos, rebeldes e criminosos das províncias. Para chegar a ela, a acusação religiosa precisava virar acusação política: um homem que se dizia Messias podia ser apresentado como rei rival de César. É com essa pergunta que Pilatos abre o interrogatório (v. 11).

A crucificação e a Páscoa

Roma fez da crucificação um instrumento de terror público, à beira dos caminhos; o condenado era açoitado, levava a trave até o lugar da execução e podia agonizar horas ou dias. Cícero a chamou de o mais cruel e repugnante dos castigos. Em 1968, num túmulo de Jerusalém, achou-se o calcanhar de um crucificado do século I ainda atravessado por um cravo; o achado mostra também que um crucificado podia receber sepultura em túmulo de família. Mateus narra tudo com sobriedade: não pinta o sofrimento físico, mostra o que os homens fizeram e o que Deus estava fazendo.


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

De manhã, os chefes dos sacerdotes e os anciãos decidem levar Jesus à morte, amarram-no e o entregam a Pilatos (vv. 1-2). Judas, ao vê-lo condenado, sente remorso, devolve as trinta moedas e confessa ter entregado sangue inocente; os sacerdotes respondem que isso é problema dele. Judas lança a prata no santuário, retira-se e tira a própria vida. Com o dinheiro, que não podia entrar no tesouro por ser preço de sangue, os sacerdotes compram o campo do oleiro para sepultar estrangeiros, chamado desde então Campo de Sangue, e Mateus vê nisso o cumprimento de uma palavra atribuída a Jeremias (vv. 3-10).

Interrogado sobre ser o rei dos judeus, Jesus dá uma resposta curta, que devolve a pergunta ao governador, e diante das acusações não diz mais nada (vv. 11-14). Pilatos oferece à multidão a escolha entre Jesus e um preso famoso, Barrabás; a mulher dele manda avisar que sofreu num sonho por causa daquele justo. Persuadida pelos chefes, a multidão pede Barrabás e a crucificação de Jesus. Pilatos lava as mãos, declarando-se inocente daquele sangue, e o povo assume sobre si e sobre os filhos a responsabilidade por ele. Barrabás é solto; Jesus, açoitado e entregue para ser crucificado (vv. 15-26).

No pretório, os soldados vestem Jesus com um manto escarlate, põem-lhe uma coroa de espinhos e uma vara na mão, ajoelham-se em zombaria, cospem nele e lhe batem na cabeça; depois o levam para crucificar (vv. 27-31). Simão de Cirene é obrigado a carregar a cruz. No Gólgota, Jesus recusa o vinho com fel; os soldados o crucificam, sorteiam as suas vestes e põem acima dele a acusação que o chama de rei dos judeus. Dois bandidos são crucificados com ele. Os que passam, os chefes e até os bandidos o insultam (vv. 32-44).

Do meio-dia às três da tarde, há trevas sobre a terra. Jesus clama em alta voz as palavras iniciais do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); alguns pensam que chama Elias, e um lhe oferece vinagre numa esponja. Jesus clama outra vez e deixa partir o espírito. O véu do santuário se rasga de alto a baixo, a terra treme, sepulcros se abrem e santos ressuscitados aparecem na cidade depois da ressurreição dele. O centurião e os soldados confessam que ele era Filho de Deus. Muitas mulheres vindas da Galileia observam de longe (vv. 45-56).

À tarde, José de Arimateia, homem rico e discípulo de Jesus, pede o corpo a Pilatos, envolve-o num lençol limpo, põe-no no seu túmulo novo, cavado na rocha, e rola uma grande pedra para a entrada; Maria Madalena e a outra Maria ficam sentadas diante do sepulcro (vv. 57-61). No dia seguinte, os chefes dos sacerdotes e os fariseus lembram a Pilatos que Jesus anunciara voltar da morte depois de três dias e pedem guarda para o túmulo. Pilatos lhes diz que usem a guarda que têm; eles selam a pedra e deixam os guardas (vv. 62-66).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Um verbo atravessa o capítulo: paradidōmi, entregar. Os chefes entregam Jesus a Pilatos (v. 2), Judas confessa tê-lo entregado (v. 4), Pilatos sabe que o entregaram por inveja (v. 18) e o entrega para ser crucificado (v. 26). Jesus o anunciara: seria posto nas mãos de homens, dos chefes dos sacerdotes e depois dos gentios (Mt 17.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.18-19). Por trás das mãos humanas, Paulo verá o Pai que, sem reservar para si o próprio Filho, o deu em favor de todos nós (Rm 8.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 1-10 — O conselho da manhã e o fim de Judas

À luz do dia, os chefes e os anciãos tomam symboulion, deliberação formal, para matar Jesus, a mesma expressão da primeira conspiração (Mt 12.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e da última, o suborno dos guardas (Mt 28.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Jesus que desamarrava os oprimidos agora está amarrado (vv. 1-2).

Mateus interrompe o tribunal para contar o fim de Judas, e a interrupção é deliberada: enquanto Pedro chorava no pátio, Judas também sofria, e os dois que falharam terminam de modos opostos. Judas metamelētheis, sentiu remorso (v. 3). O verbo não é negativo em si; Mateus o usa para o filho que voltou atrás e foi trabalhar na vinha (Mt 21.29, 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas aqui o remorso não encontra caminho. Judas devolve as trinta moedas que lhe tinham sido pesadas (Mt 26.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e confessa ter pecado entregando haima athōon, sangue inocente (v. 4). É o primeiro testemunho da inocência de Jesus no capítulo, e vem de quem o vendeu.

A resposta dos sacerdotes, sy opsē, algo como é contigo, está entre as mais frias da Bíblia. Os homens cujo ofício era receber a confissão do culpado e oferecer o sacrifício pela culpa despacham o arrependido. A mesma expressão voltará na boca de Pilatos (v. 24): todos querem lavar as mãos. Judas lança a prata eis ton naon, no santuário, gesto que lembra Zc 11.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), retira-se e se enforca (v. 5). O texto não acrescenta nada. A única morte desse tipo narrada no Antigo Testamento é a de Aitofel, o conselheiro que traiu Davi (2Sm 17.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus aplica a Judas o salmo do amigo íntimo que se volta contra o rei (Sl 41.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 13.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Mateus, porém, não faz a ligação, e convém tomá-la só como eco.

Os sacerdotes têm um escrúpulo: não é lícito pôr no korbanas, o tesouro do templo, um dinheiro que é timē haimatos, preço de sangue (v. 6). Quem pagou pela morte de um inocente cuida da pureza do cofre. Compram o agros tou kerameōs, o campo do oleiro, para sepultar os xenoi, estrangeiros, provavelmente peregrinos mortos em Jerusalém, e o lugar fica conhecido como Campo de Sangue (vv. 7-8). A tradição antiga o situou no vale de Hinom, o mesmo de Jr 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); a localização exata não pode ser confirmada.

Atos guarda outra tradição sobre o fim de Judas (At 1.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): ali ele adquire o campo com a recompensa do crime e morre de modo violento, numa queda, e o lugar se chama, na língua de Jerusalém, Hakeldama, campo de sangue. As diferenças são reais. Em Mateus, os sacerdotes compram e o nome vem do dinheiro; em Atos, a compra é atribuída a Judas e o nome parece vir do sangue derramado ali. Desde a igreja antiga se propõem harmonizações: o campo, comprado com o dinheiro dele, poderia ser atribuído a ele; a queda poderia ter vindo depois do enforcamento. Outros preferem reconhecer duas tradições independentes, que concordam no essencial: Judas morreu tragicamente, e um campo de Jerusalém, ligado ao seu dinheiro, recebeu o nome de Campo de Sangue. A fé não precisa forçar o encaixe de cada detalhe.

Os vv. 9-10 trazem a última fórmula de cumprimento do Evangelho. Mateus atribui a Jeremias palavras sobre as trinta moedas, o preço daquele que foi avaliado, e a compra do campo do oleiro, que lembram sobretudo Zc 11.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Por que Jeremias? Em acordo com os estudos de Zacarias 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Jeremias 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), 19 e 32 deste acervo: a explicação mais aceita é que Mateus funde textos dos dois profetas e nomeia o mais conhecido, como Marcos atribui a Isaías uma citação que junta Malaquias e Isaías (Mc 1.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os elementos de Jeremias são vários: o oleiro (Jr 18.2-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o vale de Ben-Hinom que mudaria de nome e se tornaria cemitério por causa do sangue inocente (Jr 19.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o campo comprado com prata pesada (Jr 32.6-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns manuscritos trazem outro nome ou nenhum, o que a maioria entende como correção de copistas. O preço de um escravo (Êx 21.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) foi o preço do Filho, e o dinheiro da traição comprou um lugar de descanso para estrangeiros.

Versículos 11-26 — Diante de Pilatos: o Rei calado e o preso trocado

Pilatos pergunta se Jesus é ho basileus tōn Ioudaiōn, o rei dos judeus (v. 11). O título apareceu pela primeira vez na boca dos magos, que vieram adorar o rei recém-nascido (Mt 2.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); volta na de outro estrangeiro, agora com desconfiança, e reaparecerá na zombaria (v. 29) e na acusação da cruz (v. 37). Jesus responde com a fórmula sy legeis, literalmente tu dizes, a mesma dada a Judas e, com variação, ao sumo sacerdote (Mt 26.25, 64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): uma afirmação reticente, que reconhece o título e o devolve a quem o pronunciou, porque o sentido em que Jesus é rei não cabe na pergunta.

Diante das acusações, Jesus se cala, e o governador fica muito admirado (vv. 12-14). O silêncio lembra o Servo de Is 53.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que sofre calado como um cordeiro, e o Servo manso de Mt 12.18-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que não ergue a voz em disputas. Não é fraqueza: Jesus já disse a verdade sobre si, e confia a sua causa ao Pai, juiz justo (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Nos vv. 15-18 aparece Barrabás, preso episēmos, notório. Marcos diz que ele estava entre os rebeldes que tinham matado numa revolta; João o chama de lēstēs, palavra usada para bandidos e para insurgentes armados (Mc 15.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O costume de soltar um preso na festa (Mc 15.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 18.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) não aparece em fontes romanas conhecidas; alguns duvidam dele, outros o julgam plausível numa província inquieta. Nos vv. 16-17, alguns manuscritos antigos chamam o preso de Jesus Barrabás. Orígenes, no século III, conhecia essa leitura e a estranhava; muitos estudiosos pensam que ela pode ser original e ter sido retirada por copistas, outros a consideram acréscimo. Jesus, forma grega de Yeshua, era nome comum, e Barrabás, do aramaico bar abba, significa filho do pai. Se a leitura for original, a escolha fica entre dois homens com o mesmo nome: um filho do pai que fez violência e o Filho do Pai que não fez violência alguma. Convém dizê-lo com cautela. O v. 18 revela o que Pilatos percebe: o motivo dos chefes é phthonos, inveja, o pecado que matou Abel e vendeu José (Gn 4.4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 19, próprio de Mateus, mostra a mulher de Pilatos pedindo que ele não se meta no caso daquele homem dikaios, justo, pois naquele dia passou por grande aflição num sonho por causa dele. No Evangelho, Deus fala por sonhos no começo, a José e aos magos (Mt 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.12-13), e agora a uma mulher pagã, que vê o que os mestres de Jerusalém não viram. É o segundo testemunho da inocência de Jesus. A tradição posterior lhe deu o nome de Prócula, ou Cláudia Prócula, e algumas igrejas do Oriente a veneram; o Evangelho não diz o nome.

Persuadida pelos chefes, a multidão pede Barrabás (vv. 20-23). Pilatos pergunta o que fazer com aquele a quem chamam Messias e ouve o pedido da cruz; quer saber que crime ele cometeu e só recebe o grito mais alto. Dias antes, outra multidão aclamara o Filho de Davi (Mt 21.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 24, próprio de Mateus, mostra Pilatos vendo que nada consegue e que o tumulto cresce. Lava as mãos diante da multidão, declara-se inocente daquele sangue e acrescenta hymeis opsesthe, é com vocês, a expressão que os sacerdotes disseram a Judas. O gesto vinha da Lei: quando se achava um morto sem saber quem o matara, os anciãos lavavam as mãos sobre uma novilha e declaravam não ter derramado aquele sangue (Dt 21.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas ali ninguém sabia quem matara; Pilatos sabe, porque é ele quem condena. A água não lava o que a mão vai assinar. Sem querer, porém, ele dá o terceiro testemunho da inocência de Jesus.

O v. 25 é um dos versículos mais tristemente usados da Bíblia. Pas ho laos, todo o povo, assume sobre si e sobre os seus filhos a responsabilidade pelo sangue de Jesus. A fórmula era conhecida: assim alguém tomava sobre si uma morte ou a atribuía a outro (Js 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Sm 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 26.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 18.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No relato, quem fala é a multidão reunida naquela manhã, persuadida pelos chefes (v. 20), em resposta ao gesto de Pilatos. O versículo registra o que aquelas pessoas disseram; não é sentença de Deus contra um povo inteiro, muito menos contra gerações futuras. Muitos intérpretes entendem que Mateus via nos filhos a geração que presenciaria a destruição de Jerusalém em 70 d.C., anunciada por Jesus com lágrimas (Mt 23.35-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); outros leem a frase como expressão da responsabilidade daqueles líderes e daquela multidão, sem mais alcance.

Nenhuma leitura séria autoriza o que se fez com o versículo. Durante séculos, ele foi usado para acusar o povo judeu inteiro de deicídio, alimentar pregações de ódio na Semana Santa e justificar humilhações, expulsões e massacres. Esse uso trai o Evangelho e precisa ser recusado com toda clareza. Jesus era judeu, filho de Davi e de Abraão (Mt 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como os seus discípulos, as mulheres junto à cruz e José de Arimateia. Pedro atribuiu à ignorância o que o povo e os chefes tinham feito e os chamou ao arrependimento, não à maldição (At 3.17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo negou com veemência que Deus tivesse descartado o seu povo (Rm 11.1, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em 1965, o Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, afirmou que o que se fez na Paixão não pode ser imputado indistintamente a todos os judeus de então nem aos de hoje, e que eles não devem ser apresentados como rejeitados ou amaldiçoados por Deus; várias igrejas protestantes fizeram declarações semelhantes nas décadas seguintes, algumas pedindo perdão pelo antijudaísmo do próprio passado.

A teologia cristã vai mais fundo: Jesus morreu pelos pecados de todos, e todos estão implicados na cruz, os chefes que o entregaram, o governador romano, os soldados, os discípulos que fugiram e cada pecador cuja culpa ele carregou (Rm 3.23-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na Paixão segundo São Mateus, de Bach, um coral põe na boca da igreja a confissão de que é ela quem deveria pagar. E o Evangelho prepara uma ironia: na véspera, Jesus ligara o cálice ao seu próprio sangue, com o qual selaria a aliança em favor de muitos e obteria o perdão dos pecados (Mt 26.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sangue invocado como culpa é o único que lava a culpa (Hb 12.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pilatos solta Barrabás, manda açoitar Jesus, phragellōsas, castigo que às vezes matava antes da cruz, e o entrega para ser crucificado (v. 26). O culpado sai livre; o inocente toma o seu lugar, imagem do que o Novo Testamento ensina sobre a morte do inocente em favor dos culpados (1Pe 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 27-31 — O manto, a coroa e a vara

No praitōrion, a residência do governador em Jerusalém, que uns situam no antigo palácio de Herodes e outros na fortaleza Antônia, a coorte se reúne em volta de Jesus. As tropas eram em boa parte auxiliares recrutados entre povos vizinhos, conhecidos pela hostilidade aos judeus. Despem Jesus e lhe põem uma chlamys escarlate, o manto dos soldados, no lugar da púrpura real; trançam uma coroa de espinhos, põem-lhe uma vara na mão direita como cetro, ajoelham-se e o saúdam com chaire, imitando a saudação ao imperador; depois cospem nele e lhe batem na cabeça com a vara (vv. 28-30). Isaías descrevera o Servo que se deixa ferir e não protege o rosto de quem o humilha e cospe nele (Is 50.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus anunciara a zombaria dos gentios (Mt 20.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O leitor sabe o que os soldados não sabem: tudo o que fazem por escárnio é verdade. O manto, a coroa e a homenagem são devidos, e o Evangelho terminará com Jesus declarando que o Pai lhe entregou o governo do céu e da terra (Mt 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tradição cristã nunca deixou de ouvir outro eco: os espinhos entraram no mundo com a maldição do solo depois da queda (Gn 3.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Rei os leva na cabeça. Tiram-lhe o manto, devolvem-lhe as roupas e o levam para fora (v. 31).

Versículos 32-44 — O Gólgota e as zombarias

Os soldados obrigam um homem de Cirene, cidade da costa da atual Líbia com grande comunidade judaica, chamado Simão, a carregar a cruz, provavelmente a trave horizontal (v. 32). O verbo é angareuō, requisitar à força, o mesmo do Sermão do Monte para o soldado que obriga alguém a andar uma milha (Mt 5.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Simão anda a milha forçada ao lado de Jesus. Marcos o apresenta como pai de Alexandre e Rufo, nomes que os leitores pareciam conhecer (Mc 15.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Chegam ao Golgotha, nome aramaico que quer dizer caveira; o latim calvaria deu o nosso Calvário (v. 33). A tradição situa o lugar onde hoje está a Igreja do Santo Sepulcro, que no século I ficava fora das muralhas, e muitos arqueólogos consideram a identificação plausível; o Jardim do Túmulo, proposto no século XIX, tem menos apoio. Oferecem a Jesus vinho misturado com cholē, fel, palavra do Sl 69.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Marcos fala de mirra (Mc 15.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus prova e recusa (v. 34): bebe o cálice do Pai sem atenuar a dor (Mt 26.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A crucificação é narrada numa oração subordinada (v. 35). Nenhum Evangelho descreve os cravos; o peso recai nos soldados que sorteiam as vestes, o que o Sl 22.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) descrevera. Alguns manuscritos tardios acrescentam aqui uma citação do salmo vinda de Jo 19.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); os mais antigos não a trazem. Acima da cabeça de Jesus põem a aitia, a causa da condenação, com o nome dele e o título de rei dos judeus (v. 37): Pilatos o condena pelo que ele de fato é. Os lugares à direita e à esquerda do Rei, que os filhos de Zebedeu tinham pedido (Mt 20.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ficam com dois lēstai, bandidos (v. 38). O Servo é incluído entre os rebeldes (Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Três grupos zombam (vv. 39-44). Os que passam balançam a cabeça, gesto do Sl 22.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), lembram a acusação de que ele derrubaria o templo (Mt 26.61 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o desafiam a se livrar e abandonar a cruz, como prova de que é o Filho de Deus. A condição posta é a mesma do tentador no deserto (Mt 4.3, 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a última tentação de Jesus é a primeira. Os chefes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos zombam de quem livrava os outros e agora não consegue livrar-se. Sem perceber, formulam o evangelho: é porque não se poupa que ele pode resgatar os outros. Prometem crer, se ele deixar a cruz, e retomam de perto o Sl 22.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), ironizando a confiança dele em Deus. Até os bandidos o insultam. Lucas conta que um deles mudou de atitude (Lc 23.39-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); talvez os dois tenham zombado no início, talvez Mateus fale de modo geral. Para Mateus, o ponto é que Jesus foi deixado absolutamente só.

Versículos 45-56 — As trevas, o grito e o véu rasgado

Do meio-dia às três, há skotos, trevas, sobre toda a terra ou toda a região (v. 45). Não foi eclipse, porque a Páscoa caía na lua cheia. Amós anunciara um dia em que o sol se esconderia no meio do dia, com luto como pelo filho único (Am 8.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a nona praga cobriu o Egito de trevas antes da morte dos primogênitos (Êx 10.21-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A criação escurece quando o seu Senhor morre.

Por volta da hora nona, Jesus clama com grande voz Eli, Eli, lema sabachthani (v. 46), as palavras iniciais do Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e Mateus traduz para os leitores gregos a pergunta do salmista ao seu Deus sobre o porquê do abandono. Marcos traz a forma aramaica Eloi; o Eli de Mateus, mais próximo do hebraico, explica melhor o mal-entendido seguinte. Em acordo com o estudo do Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) deste acervo, três coisas podem ser ditas. O grito é real: Jesus não recita um texto para a plateia; experimenta o que as palavras dizem, porque Deus tratou como pecado, em nosso favor, aquele que nunca pecou (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O grito é oração: mesmo no abandono, Jesus continua chamando Deus de seu. E o grito evoca o salmo inteiro, que termina com Deus que não desprezou o aflito e com as nações que se voltam para o SENHOR (Sl 22.24, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); isso não esvazia a dor, mas impede lê-la como desespero sem esperança. A fé da Igreja confessa que a unidade do Pai, do Filho e do Espírito não se rompeu no Calvário; o mistério se contempla mais com adoração do que com explicações.

Alguns pensam que ele chama Elias, que a crença popular esperava como socorro dos justos (v. 47). Um corre e lhe dá oxos, o vinho azedo dos soldados, numa esponja (v. 48; Sl 69.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); outros mandam esperar Elias (v. 49). O leitor sabe que Elias já veio em João Batista (Mt 11.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 17.11-13). No v. 49, alguns manuscritos antigos e importantes acrescentam o golpe de lança no lado de Jesus; a maioria dos estudiosos entende que a frase veio de Jo 19.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e não pertence ao texto original. Jesus clama outra vez e aphēken to pneuma, deixou partir o espírito (v. 50). O verbo é ativo: ele não é vencido pela morte, entrega a vida (Jo 10.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Kai idou, e eis que: o katapetasma do naos, o véu do santuário, rasga-se em dois, de alto a baixo (v. 51). Havia uma cortina diante do Santo dos Santos (Êx 26.31-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e outra na entrada do santuário; muitos pensam na interior. O rasgo de cima mostra que a ação é de Deus, e o sentido é duplo. O acesso à presença de Deus está aberto: Hebreus dirá que os crentes entram com confiança no lugar santíssimo graças ao sangue de Jesus, por uma via recém-inaugurada que atravessa o véu, a própria humanidade dele (Hb 10.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E é sinal de juízo sobre o templo, cuja destruição Jesus anunciara (Mt 24.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o lugar da presença de Deus passa a ser o próprio Cristo (Mt 12.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O sumo sacerdote rasgara as vestes diante de Jesus (Mt 26.65 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); agora é Deus quem rasga o véu.

Os vv. 51b-53, só de Mateus, estão entre os mais difíceis do Novo Testamento. A terra treme, as rochas se partem, sepulcros se abrem, e muitos hagioi, santos, que dormiam, são ressuscitados; saindo depois da ressurreição de Jesus, entram na cidade santa e aparecem a muitos. O terremoto é linguagem das manifestações de Deus (Sl 18.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 2.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os túmulos abertos lembram Ez 37.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde Deus promete abrir as sepulturas do seu povo, e Zc 14.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que descreve o monte das Oliveiras fendido e o SENHOR chegando com o seu séquito de santos. Muitos intérpretes leem o texto como relato de acontecimento: na morte de Jesus, Deus deu sinais visíveis de que a ressurreição dos mortos começava. Outros, também entre estudiosos que confessam a autoridade das Escrituras, entendem que Mateus usa a linguagem apocalíptica dos profetas para dizer o que essa morte significa; a proposta provocou debate e não há consenso. O texto não diz se esses santos voltaram a morrer. A observação de que saíram só depois da ressurreição de Jesus parece preservar a primazia dele, o primeiro fruto da colheita dos mortos (1Co 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhuma outra fonte antiga registra o episódio. Em qualquer leitura, a mensagem é clara: essa morte abala o poder da morte.

O v. 54 traz o quarto e mais alto testemunho. O centurião e os que guardavam Jesus, vendo o terremoto, ficam tomados de temor e confessam que ele era, de fato, theou huios, Filho de Deus. Sem artigo, a expressão poderia significar um filho de Deus no sentido pagão, mas em Mateus ecoa as confissões dos discípulos (Mt 14.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.16). Os chefes exigiram um sinal para crer (v. 42); quem crê são os gentios que executaram Jesus, como os magos no começo e as nações no fim (Mt 2.1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 28.19; cf. Mc 15.39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Muitas mulheres olhavam apo makrothen, de longe; tinham seguido Jesus desde a Galileia, servindo-o (vv. 55-56). Os Doze fugiram; elas ficaram. Mateus nomeia Maria Madalena, de Magdala, junto ao mar da Galileia; Maria, mãe de Tiago e de José, a outra Maria do v. 61; e a mãe dos filhos de Zebedeu, que pedira para eles os lugares à direita e à esquerda do Rei (Mt 20.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e vê agora quem os ocupa. Elas testemunham a morte, o sepultamento (v. 61) e o túmulo vazio (Mt 28.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 57-61 — O sepulcro novo de José

Cai a tarde (v. 57). A Lei mandava não deixar o corpo de um executado no madeiro durante a noite (Dt 21.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o dia seguinte era sábado. Entra em cena um homem rico de Arimateia, cidade da Judeia de localização incerta, chamado José, que emathēteuthē, tornara-se discípulo de Jesus. O verbo é o da ordem final de fazer discípulos (Mt 28.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Marcos e Lucas dizem que ele era membro do conselho e esperava o Reino de Deus (Mc 15.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.50-51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); João, que era discípulo em segredo, por medo (Jo 19.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando os Doze se escondem, o discípulo secreto se expõe.

Pilatos manda entregar o corpo (v. 58). José o envolve numa sindōn, lençol de linho, limpa, põe-no no seu próprio túmulo novo, escavado na rocha, rola uma grande pedra para a entrada e vai embora (vv. 59-60). A riqueza de José lembra Is 53.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), onde o Servo tem a sepultura com um rico; em acordo com o estudo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) deste acervo, os evangelistas não citam o versículo e não convém forçar o detalhe, mas a correspondência é difícil de ignorar. Maria Madalena e a outra Maria ficam sentadas diante do sepulcro (v. 61). Viram onde e como o corpo foi posto, e não irão, depois do sábado, a um túmulo qualquer.

Versículos 62-66 — A pedra selada e a guarda

No dia seguinte à paraskeuē, a Preparação, isto é, no sábado, os chefes dos sacerdotes e os fariseus vão ao governador pagão para tratar de um morto (v. 62). Chamam Jesus de planos, enganador, e lembram que ele anunciara voltar da morte passados três dias (v. 63; Mt 12.40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 16.21; 20.19). Os inimigos se lembram da promessa que os discípulos parecem ter esquecido. Pedem guarda até o terceiro dia, para que o corpo não seja roubado, ou o engano final, planē, superaria o primeiro (v. 64). A resposta de Pilatos, echete koustōdian (v. 65), pode significar tomem uma guarda, de soldados romanos, ou vocês têm a sua, a do templo; o capítulo seguinte, com os guardas temendo o governador (Mt 28.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), leva muitos a pensar em romanos. Eles selam a pedra, provavelmente com cordão e lacre, e deixam a guarda (v. 66). Em acordo com o estudo de Daniel 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) deste acervo, a cena lembra a pedra selada sobre a cova dos leões (Dn 6.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): nenhum selo humano impede a ação de Deus. As precauções dos inimigos se tornarão testemunhas involuntárias do túmulo vazio.


✨ 4. Versículos-Chave

Mt 27.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A confissão de Judas abre a série de testemunhos da inocência de Jesus: o traidor, a mulher do governador (v. 19), o próprio governador com o seu gesto (v. 24) e o centurião (v. 54). E mostra o limite do remorso que não encontra perdão: Judas confessou a quem não podia absolvê-lo. Pedro, que também falhou, levou as lágrimas ao lugar certo e foi restaurado (Jo 21.15-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo distingue a dor vivida diante de Deus, que leva a uma mudança de rumo e à salvação, da dor à maneira do mundo, que termina em morte (2Co 7.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mt 27.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Lido no contexto, o grito registra a decisão de uma multidão persuadida pelos seus chefes naquela manhã. Usado durante séculos para culpar o povo judeu e justificar a sua perseguição, tornou-se ocasião de pecado grave da cristandade, que a Igreja precisa reconhecer e recusar. À luz de Mt 26.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), revela a ironia mais funda do Evangelho: o sangue invocado como culpa é o sangue que sela a aliança e alcança perdão para muitos.

Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O clamor Eli, Eli, lema sabachthani é o centro escuro do capítulo. O Filho experimenta o abandono que o pecado produz, carregando o pecado dos outros, mas o clamor continua sendo oração ao Deus que ele chama de seu, e o salmo de onde vem termina em louvor. Quem um dia se sentiu abandonado por Deus sabe, por este versículo, que Cristo esteve antes nesse lugar.

Mt 27.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O véu rasgado de alto a baixo é o comentário de Deus sobre a morte de Jesus: o acesso à sua presença está aberto pelo sangue do Filho (Hb 10.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o templo caminha para o fim, enquanto a presença de Deus passa a habitar no Cristo e no povo reunido em seu nome (Mt 18.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

O Rei entronizado na cruz. O título rei dos judeus aparece na pergunta de Pilatos, na zombaria, na acusação escrita e no desafio dos chefes (vv. 11, 29, 37, 42). Cada vez que é dito com desprezo, é verdade. Mateus mostra uma coroação às avessas, com manto, coroa, cetro, homenagem e trono, que é a cruz. O Evangelho que começou chamando Jesus de filho de Davi (Mt 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) chega ao seu paradoxo central: o Reino dos céus não vem pelas legiões que Jesus recusou chamar (Mt 26.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas pelo Rei que dá a vida. Paulo dirá que o anúncio do Crucificado soa absurdo para uns e, para os que estão sendo salvos, é a própria força de Deus (1Co 1.18, 23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O sangue inocente e a responsabilidade humana. Judas confessa o sangue inocente e não acha perdão; os sacerdotes não querem o preço do sangue no tesouro, mas compram com ele um campo; Pilatos lava as mãos; a multidão assume o sangue. Todos tentam livrar-se da culpa ou empurrá-la para outros, e o Evangelho não deixa o leitor de fora. Mas a resposta de Deus a esse sangue não é vingança, e sim aliança: o sangue que pesava como acusação torna-se o sangue que purifica a consciência (Hb 9.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O cumprimento das Escrituras na Paixão. Além da citação formal de Zacarias e Jeremias (vv. 9-10), Mateus narra com uma rede de alusões: o Servo silencioso, humilhado, incluído entre os rebeldes e sepultado com um rico (Is 50.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 53.7, 9, 12); o justo do Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), com as vestes sorteadas, os que balançam a cabeça, o desafio a Deus e o grito; o fel e o vinagre do Sl 69.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); as trevas de Am 8.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); os túmulos abertos de Ez 37.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A cruz não interrompeu o plano de Deus; cumpriu-o, por mãos que não sabiam o que faziam (At 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A morte que abre o caminho e abala a morte. O véu rasgado e os sepulcros abertos mostram que a morte de Jesus atinge o céu e a terra. Hebreus diz que, morrendo, Jesus desarmou o diabo, senhor do império da morte, e soltou os que passavam a vida presos ao pavor de morrer (Hb 2.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O capítulo termina com uma pedra selada, mas o leitor já viu sepulcros se abrindo.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no centro da Redenção consumada. Convergem aqui o Cordeiro pascal, morto na Páscoa; o Servo de Isaías, que carrega o pecado de muitos; o justo do Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), cujo sofrimento termina na adoração das nações; o pastor avaliado em trinta moedas. A Queda aparece com todos os rostos: a traição, a inveja, a covardia, a crueldade, a zombaria religiosa, a indiferença diante do arrependido. E Deus age no meio disso: o véu se rasga, a terra treme, a morte começa a devolver os seus mortos. A Nova Criação se anuncia nos sepulcros abertos e espera o capítulo seguinte para irromper.

6.2 — Quem Ele é: o Rei, o Filho de Deus, o Servo

Nos Evangelhos, não se projeta Cristo no texto: ele é visto diretamente. Em Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quem ele é aparece no que os outros dizem dele, quase sempre sem saber. É o rei dos judeus, título dado com suspeita, com escárnio e com desprezo, e verdadeiro em cada boca. É o Filho de Deus, desafiado pelos que passam e pelos chefes (vv. 40, 43) e confessado pelo centurião (v. 54), o que fecha o arco aberto no batismo, quando a voz do céu o chamou de Filho amado (Mt 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e na tentação (Mt 4.3, 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É o Messias, assim nomeado por Pilatos (vv. 17, 22). É o Servo de Isaías, calado diante dos acusadores. E o nome que o Evangelho lhe deu no início, Emanuel, Deus conosco (Mt 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ganha aqui o sentido mais fundo: Deus está conosco até na zombaria, no abandono e na morte.

6.3 — A missão redentora: por que Ele morreu

Mateus não expõe uma teoria da expiação, mas deixa as peças à vista. Jesus dissera que viera entregar a vida como preço da libertação de muitos (Mt 20.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e ligara o cálice ao seu sangue da aliança, para o perdão dos pecados (Mt 26.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui isso acontece. Barrabás, culpado, sai livre; Jesus, inocente, morre no lugar preparado para outro. O grito do abandono mostra o peso do que ele carregava; o véu rasgado, o resultado. O Novo Testamento desdobrará essas peças: Pedro dirá que Cristo carregou no próprio corpo, sobre a cruz, a culpa que era nossa (1Pe 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Paulo, que Deus o deu como hilastērion, o meio da expiação, no seu sangue (Rm 3.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Hebreus, que ele entrou de uma vez para sempre na presença de Deus levando o próprio sangue (Hb 9.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

6.4 — O Reino: como Ele reina

O Reino dos céus, a expressão própria de Mateus, chega pela porta mais inesperada. O Rei não desce da cruz para provar o seu poder; reina permanecendo nela. A tentação de alcançar os reinos do mundo sem a cruz (Mt 4.8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) volta na boca dos zombadores e é vencida pela última vez. Os primeiros a reconhecer o Rei não são os chefes de Israel nem os discípulos, mas soldados gentios e mulheres que olhavam de longe. O Reino anunciado aos que se sabem pobres diante de Deus, aos que choram e aos perseguidos (Mt 5.3-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) tem como rei um homem que, na cruz, é pobre, chora e é perseguido; e é esse Rei que, no capítulo seguinte, aparecerá com o governo do céu e da terra nas mãos.

6.5 — O que Ele pede dos discípulos, e o Evangelho no capítulo

Os Doze aparecem pela ausência. Ficam as mulheres, Simão de Cirene, que carrega a cruz contra a vontade, e José de Arimateia, que finalmente se expõe. Jesus dissera que o discípulo teria de carregar a própria cruz atrás dele (Mt 16.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o capítulo mostra que isso pode ser levar uma cruz posta por outros nos nossos ombros, permanecer quando todos se afastam e dar o melhor que temos a quem o mundo julga derrotado. E mostra, sobretudo, que o discípulo que falhou ainda tem caminho, se não fizer como Judas.

Pregar Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é levar o ouvinte a encontrar-se na multidão: entre os que entregaram, os que lavaram as mãos, os que zombaram, os que fugiram. Nenhum grupo do capítulo é mais culpado que o leitor. Mas o capítulo não termina na acusação. O sangue que todos derramaram é o sangue que lava a todos; o Rei que não se poupou poupou os outros; o véu foi rasgado de cima. A resposta pedida é a do centurião: olhar para o Crucificado e reconhecer nele o Filho de Deus.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Na liturgia da Semana Santa, a Paixão segundo Mateus é lida desde os primeiros séculos.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Quando o remorso parece não ter saída. Judas confessou a culpa a quem dava de ombros. A diferença entre ele e Pedro não está no tamanho da falha, mas no lugar para onde cada um levou a dor. Cristo nunca diz a ninguém que a culpa é problema seu: morreu para carregá-la. Se você carrega um peso que parece imperdoável, ou tem pensado que a vida não vale mais a pena, não fique sozinho. Procure hoje alguém de confiança, um pastor, um amigo, um profissional de saúde. No Brasil, o CVV atende gratuitamente, a qualquer hora, pelo telefone 188. E a quem perdeu alguém para o suicídio: o texto narra o fim de Judas, mas não autoriza ninguém a pronunciar sentença sobre o destino eterno de quem morre assim. A Escritura fala com gravidade de Judas por causa da traição, não por causa da forma da sua morte; o juízo pertence a Deus, que conhece o que não conhecemos e cuja misericórdia é maior que o nosso entendimento.

Recusar a água que não lava. Pilatos sabia o que era justo e não o fez. Lavamos as mãos de muitos modos: dizendo que não é conosco, que seguimos ordens, que a maioria decidiu. O Cristo condenado por um homem que preferiu a posição à verdade chama os seus a fazer o que é justo, mesmo com custo, e oferece, para a culpa que não sabemos lavar, o único sangue que limpa.

Nunca mais usar a cruz contra os judeus. Toda pregação que faz da Paixão uma acusação contra o povo de Jesus trai o próprio Jesus, que era judeu e cujo sangue foi vertido em favor de muitos. A cruz não autoriza o cristão a apontar o dedo para ninguém; obriga-o a bater no próprio peito. O antijudaísmo, em conversas, piadas, pregações ou redes sociais, deve ser recusado por quem leu este capítulo com seriedade.

Quando você se sente abandonado por Deus. O grito de Jesus dá voz a quem sente o céu fechado, na doença, no luto, na depressão, na oração sem resposta. Jesus não repreende quem clama assim; ele próprio clamou, e mostrou o caminho: continuar chamando Deus de meu, continuar dirigindo a dor a ele. O Sl 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) começa no abandono e termina no louvor, e a história de Jesus não terminou na cruz.

Ficar perto quando todos se afastam. As mulheres, Simão e José mostram uma fidelidade sem barulho. Em Cristo, que foi fiel até o fim, os discípulos são chamados a estar junto à cruz dos outros, quando ficar perto custa.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. A inocência de Jesus é atestada por Judas, pela mulher de Pilatos, pelo próprio Pilatos e pelo centurião. O que chama a sua atenção no fato de nenhum desses testemunhos vir dos discípulos?
  2. Compare o remorso de Judas (Mt 27.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) com as lágrimas de Pedro (Mt 26.75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde está a diferença? Como 2Co 7.10 ajuda a entendê-la?
  3. Como você explicaria Mt 27.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) no seu contexto? Por que o uso histórico desse versículo contra o povo judeu contradiz o próprio Evangelho?
  4. Os chefes prometem crer se Jesus deixar a cruz (v. 42). Por que a salvação dependia justamente de ele não descer? Que formas de fé sem cruz tentam você?
  5. O véu se rasgou de alto a baixo (v. 51). O que muda na sua oração saber que o caminho até Deus está aberto pelo sangue de Jesus?
  6. Para meditação e oração: leia o Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) inteiro, lembrando que Jesus o orou na cruz. Leve a Deus, com as palavras do salmo, os lugares em que você se sente abandonado, e agradeça ao Filho que passou pelo abandono para que você nunca fosse deixado só.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • John Stott — A cruz de Cristo (Vida) / The Cross of Christ (IVP, 1986)
  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova)
  • Raymond E. Brown — The Death of the Messiah (2 vols., Doubleday, 1994)

Comentários de Mateus:

  • R. T. France — Mateus: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica) e The Gospel of Matthew (NICNT, Eerdmans, 2007)
  • D. A. Carson — Matthew (Expositor's Bible Commentary, Zondervan)
  • Craig S. Keener — The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (Eerdmans, 2009)
  • Donald A. Hagner — Matthew 14–28 (Word Biblical Commentary, 1995)
  • W. D. Davies e Dale C. Allison — Matthew (International Critical Commentary, 3 vols., T&T Clark, 1988–1997)

Pano de fundo histórico:

  • IVP Bible Background Commentary: New Testament (Craig S. Keener)
  • Martin Hengel — Crucifixion in the Ancient World and the Folly of the Message of the Cross (Fortress, 1977)
  • Concílio Vaticano II — declaração Nostra Aetate (1965), n. 4

Sabedoria para o Cotidiano
Em Mateus 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), todos tentam lavar as mãos: os sacerdotes despacham Judas, Pilatos pede água, a multidão grita sem pensar. Só um não se livra da responsabilidade, e é o único inocente, que carrega a culpa de todos até o grito do abandono. Não procure a água que não lava nem leve a sua culpa a quem dá de ombros; leve-a ao Rei coroado de espinhos, cujo sangue foi vertido justamente por ela. E, quando sentir o céu fechado, continue chamando-o de seu Deus: Jesus esteve aí antes de você, e o véu já foi rasgado de cima.

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