Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento
Mateus — Capítulo 4
Título do capítulo: O Filho provado e a luz na Galileia
Gênero literário: Evangelho (narrativa: a tentação de Jesus no deserto, contada em três diálogos com o diabo e três respostas tiradas do Deuteronômio; a mudança para Cafarnaum, com a citação de Isaías e a fórmula de cumprimento; o início da pregação do Reino; o chamado dos primeiros quatro discípulos; e um sumário do ministério na Galileia que prepara o Sermão do Monte)
Número de versículos: 25
Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português, igual à do texto grego impresso. A apresentação do Evangelho inteiro está no estudo do capítulo 1. A passagem de Isaías citada nos vv. 15-16 corresponde, nas Bíblias em português, a Is 9.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); no hebraico impresso, a Is 8.23–9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Pontos discutidos são tratados no lugar próprio: a natureza da experiência da tentação, o lugar do pináculo do templo e a ordem diferente das tentações em Lucas. As datas e medidas são aproximadas.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
Do Jordão ao deserto
O capítulo continua sem pausa o anterior. A palavra que abre o v. 1, tote, então, liga a tentação ao batismo: o mesmo Espírito que desceu sobre Jesus no Jordão o conduz ao deserto, e a mesma filiação proclamada pela voz do Pai é o alvo do tentador. Marcos conta a tentação em dois versículos (Mc 1.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Mateus e Lucas a narram em três cenas, com diálogos quase iguais, mas em ordem diferente (Lc 4.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas põe a genealogia de Jesus entre o batismo e a tentação, e ela termina chamando Adão de filho de Deus (Lc 3.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); logo em seguida, o Filho de Deus enfrenta a prova em que o primeiro filho caiu.
João não narra a tentação; registra, depois do batismo, encontros com discípulos do Batista e um tempo em que os dois batizavam, antes da prisão de João (Jo 1.35-42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.22-24). Mateus salta da prova no deserto para o ministério na Galileia (v. 12). Os relatos se completam.
O deserto e os quarenta
O deserto, como no capítulo 3, é o da Judeia; uma tradição antiga localiza o jejum de Jesus num monte acima de Jericó, que por isso ficou conhecido como monte da Quarentena, mas não há como confirmar. O número quarenta tem peso nas Escrituras. Israel andou quarenta anos no deserto, e Moisés lembra ao povo que aqueles anos foram uma escola: a fome e o maná ensinaram que a vida vem da palavra de Deus (Dt 8.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moisés jejuou quarenta dias e quarenta noites no monte, diante de Deus (Êx 34.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 9.9, 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites, sustentado pelo alimento do anjo, até o Horebe (1Rs 19.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus usa a mesma expressão, quarenta dias e quarenta noites, e o leitor ouve nela as três histórias.
O diabo nas Escrituras
O Antigo Testamento fala pouco do adversário. Em Jó, o satan, o acusador, aparece entre os seres celestes e põe em dúvida a fidelidade de Jó (Jó 1–2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); em Zacarias, acusa o sumo sacerdote Josué e é repreendido pelo SENHOR (Zc 3.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A serpente do Éden, que distorce a palavra de Deus (Gn 3.1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), será identificada no Apocalipse com o diabo e Satanás (Ap 12.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No tempo de Jesus, os escritos judaicos já falavam com frequência de um chefe dos espíritos maus.
Os Evangelhos falam do diabo com sobriedade. Mateus o chama de diabolos, o caluniador, e de ho peirazōn, o tentador (v. 3); Jesus o chama de Satanas (v. 10), forma grega do hebraico satan, o adversário. Não há descrição da sua aparência nem curiosidade sobre o seu mundo: o adversário existe, é astuto o bastante para citar a Escritura e foi vencido pelo Filho. Entre os dois erros que C. S. Lewis apontou no prefácio de Cartas de um diabo a seu aprendiz, descrer dos demônios ou interessar-se por eles de modo doentio, o Evangelho segue um caminho sereno.
A Galileia de Herodes Antipas
Depois da morte de Herodes, o Grande, em 4 a.C., a Galileia coube ao filho dele, Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Pereia até 39 d.C., o mesmo que mandou matar João Batista (Mt 14.1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antipas reconstruiu Séforis, perto de Nazaré, e fundou Tiberíades, à beira do lago, por volta de 20 d.C. A Galileia era terra de aldeias de agricultores e pescadores, majoritariamente judaica, mas cercada de cidades de cultura grega.
Os galileus tinham fama de piedosos e independentes, e os de Jerusalém às vezes os olhavam de cima (Jo 7.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A expressão de Isaías, Galileia das nações, lembrava que aquela fora a primeira terra de Israel arrasada pela Assíria, por volta de 733-732 a.C., e povoada depois por gente de fora (2Rs 15.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como mostra o estudo de Isaías 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Para muitos, era periferia.
Cafarnaum e o mar da Galileia
O mar da Galileia, também chamado lago de Genesaré (Lc 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e mar de Tiberíades (Jo 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), é um lago de água doce de cerca de vinte e um quilômetros por doze, mais de duzentos metros abaixo do nível do mar, sujeito a ventos súbitos e rico em peixes. Em 1986, uma seca revelou perto de Genosar o casco de um barco de pesca do século I, do tipo usado pelos pescadores do Evangelho.
Cafarnaum, Kefar Naḥum, aldeia de Naum, ficava na margem noroeste do lago, perto da fronteira entre o território de Antipas e o de seu irmão Filipe, e tinha um posto de cobrança de impostos, provavelmente aquele onde Mateus foi chamado (Mt 9.1, 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus a chamará de cidade de Jesus (Mt 9.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e ali estava a casa de Pedro (Mt 8.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As ruínas da sinagoga de calcário que se veem hoje são de séculos posteriores, provavelmente sobre os alicerces de uma mais antiga; e uma casa venerada desde muito cedo como a de Pedro foi encontrada ali perto. As identificações são prováveis, não certas.
As regiões do v. 25
O fim do capítulo menciona a Decápole, a liga de cidades de cultura grega, quase todas a leste do Jordão, que Plínio, o Velho, conta como dez; a Síria, a província romana ao norte; Jerusalém e a Judeia; e a região além do Jordão, a Pereia: um mapa de Israel e das suas fronteiras, com judeus e gentios.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O Espírito conduz Jesus ao deserto para ser posto à prova pelo diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, Jesus tem fome (vv. 1-2). O tentador se aproxima e propõe que, sendo o Filho de Deus, ele transforme as pedras em pão. Jesus responde com a Escritura, que ensina que a vida humana não se sustenta só de alimento, mas de cada palavra que Deus pronuncia (vv. 3-4).
O diabo o leva então à cidade santa, coloca-o no ponto mais alto do templo e o desafia a saltar, já que um salmo promete ao fiel o amparo dos anjos. Jesus responde que a Escritura também proíbe pôr o Senhor Deus à prova (vv. 5-7).
Por fim, o diabo o leva a um monte muito alto, mostra-lhe todos os reinos do mundo e o esplendor deles e promete dar-lhe tudo, se Jesus se prostrar e o adorar. Jesus o manda embora, chamando-o de Satanás, e lembra que a Escritura reserva a adoração e o serviço só ao Senhor Deus. O diabo o deixa, e anjos se aproximam e passam a servi-lo (vv. 8-11).
Ao saber que João fora preso, Jesus se retira para a Galileia. Deixa Nazaré e vai morar em Cafarnaum, à beira do lago, nos limites de Zebulom e de Naftali. Mateus vê nisso o cumprimento da palavra de Isaías sobre a terra dessas tribos, a Galileia das nações, onde o povo que estava na escuridão viu uma grande luz. A partir daí, Jesus começa a pregar o mesmo chamado de João: a conversão, porque o Reino dos céus se aproximou (vv. 12-17).
Andando à beira do mar da Galileia, Jesus vê dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, lançando a rede, pois eram pescadores. Chama-os a segui-lo e promete transformar o ofício deles: em vez de peixes, pessoas. Eles deixam as redes na mesma hora e o seguem. Um pouco adiante, vê outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, no barco com o pai, consertando as redes. Chama-os, e eles, na mesma hora, deixam o barco e o pai e o seguem (vv. 18-22).
Jesus percorre toda a Galileia ensinando nas sinagogas, proclamando a boa notícia do Reino e curando os males de todo tipo que afligiam o povo. A sua fama se espalha por toda a Síria; trazem-lhe doentes, atormentados, endemoninhados, os que sofriam de ataques e paralíticos, e ele os cura. Grandes multidões o seguem, de toda a região (vv. 23-25).
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
O capítulo tem duas metades. Na primeira (vv. 1-11), Jesus está sozinho diante do adversário, e o tema é quem ele é: o Filho que obedece. Na segunda (vv. 12-25), está entre o povo, e o tema é o que ele faz: anuncia, chama, ensina e cura. Antes de enfrentar os demônios dos outros e de chamar alguém a segui-lo, o próprio Jesus atravessou a prova.
Versículos 1-2 — Conduzido pelo Espírito ao deserto
O v. 1 diz que Jesus anēchthē, foi levado para cima, ao deserto, hypo tou pneumatos, pelo Espírito. A tentação não pega o Filho de surpresa nem acontece longe de Deus; faz parte do caminho que o Espírito lhe abre. A finalidade é peirasthēnai hypo tou diabolou, ser tentado pelo diabo. O verbo peirazō tem dois lados: pode ser provar, testar a fidelidade, como Deus provou Abraão (Gn 22.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e Israel no deserto (Dt 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); e pode ser tentar, induzir ao mal, como faz o diabo. No mesmo acontecimento, Deus prova o seu Filho e o diabo tenta derrubá-lo. Tiago dirá que Deus não tenta ninguém para o mal (Tg 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mas Deus permite e usa a prova.
O v. 2 é breve: Jesus nēsteusas, tendo jejuado, quarenta dias e quarenta noites, depois epeinasen, teve fome. A frase é de um realismo comovente. O Filho amado do capítulo anterior é homem de carne, com corpo que enfraquece. Hebreus tira daí um consolo: quem passou pela prova sabe socorrer os provados (Hb 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Como entender a experiência? Muitos intérpretes pensam que os deslocamentos ao templo e ao monte de onde se veem todos os reinos sugerem uma experiência visionária; outros a leem em sentido mais físico. As duas leituras levam a sério a realidade do adversário e da luta, que o texto não permite reduzir a uma parábola.
Versículos 3-4 — As pedras e o pão
O tentador, ho peirazōn, se aproxima. A primeira palavra dele é ei huios ei tou theou, uma condição. Em grego, a forma da frase não exprime dúvida; supõe a coisa verdadeira para argumentar, como quem dá a filiação por certa. O diabo não discute o que a voz do Pai disse no Jordão; tenta usá-lo. A lógica é que, sendo Filho, Jesus use o poder em proveito próprio.
O pedido parece inocente: transformar as pedras do deserto em pão. Jesus tem fome, e o pão não é pecado. O problema é o caminho. Israel teve fome no deserto e murmurou contra Deus, exigindo comida (Êx 16.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tentação propõe que o Filho resolva a necessidade por conta própria, fora da dependência do Pai, e use a filiação como privilégio, e não como obediência. Há ainda uma ironia que o leitor de Mateus percebe: no capítulo 3, João disse que Deus podia fazer filhos de Abraão das pedras; agora o diabo quer que o Filho faça pães de pedras.
A resposta (v. 4) começa com gegraptai, está escrito, no perfeito: o que foi escrito permanece valendo. Jesus cita Dt 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O contexto de Deuteronômio é exatamente o dos quarenta anos: Deus deixou o povo passar fome e o sustentou com o maná, para ensinar que a vida humana não se sustenta apenas com comida, mas com tudo o que Deus diz. Jesus não nega a importância do pão; ele próprio alimentará multidões (Mt 14.13-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.32-39). Mas recusa fazer do pão o centro. A obediência à palavra do Pai vale mais do que a fome satisfeita. João registra uma palavra de Jesus que ecoa a cena: o que o alimenta de verdade é obedecer ao Pai e terminar a obra recebida (Jo 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 5-7 — O pináculo e o salmo torcido
A segunda cena é em Jerusalém, que Mateus chama de hagia polis, a cidade santa, como fará de novo na ressurreição dos santos (Mt 27.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O diabo põe Jesus sobre o pterygion tou hierou, literalmente a pequena asa do templo. Não se sabe ao certo que ponto era; muitos pensam no canto sudeste da grande esplanada, onde o pórtico real dominava o vale do Cedrom, numa altura que Josefo descreve como vertiginosa. O lugar é o mais público e mais sagrado de Israel.
O tentador repete a condição da filiação e agora propõe o salto. E, como Jesus respondeu com a Escritura, ele também cita a Escritura: o Sl 91.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que promete o cuidado dos anjos para que o fiel não se machuque no caminho. O estudo do Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra dois detalhes notados pelos intérpretes: a citação deixa de lado a menção aos caminhos do fiel, e o diabo para antes do v. 13, que fala de pisar o leão e a serpente. A promessa do salmo vale para quem anda nos caminhos de Deus, não para quem se lança ao perigo para forçar Deus a agir.
A tentação é a do espetáculo. Um Messias que descesse do alto do templo diante da multidão, amparado por anjos, seria aclamado sem demora. Seria também um Messias que obriga Deus a provar o seu amor. Jesus responde (v. 7) com palin gegraptai, também está escrito, e cita Dt 6.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que proíbe pôr o Senhor à prova. O contexto lembra Massá, onde Israel exigiu água e perguntou se o SENHOR estava ou não no meio do povo (Êx 17.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pôr Deus à prova é exigir sinais para confiar. Jesus confia sem exigir. A Escritura não se interpreta isolando um versículo contra outro; Jesus responde a um texto torcido com outro texto, lido no seu sentido.
Versículos 8-11 — O monte, os reinos e a adoração
A terceira cena se passa num oros hypsēlon lian, um monte muito alto. Montes são lugares decisivos em Mateus: o Sermão do Monte (Mt 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a transfiguração (Mt 17.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o monte da Galileia onde o Ressuscitado declara que o Pai lhe entregou autoridade sobre o céu e a terra (Mt 28.16-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Moisés, antes de morrer, viu do alto do Nebo toda a terra prometida (Dt 34.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Do monte da tentação, o diabo mostra a Jesus pasas tas basileias tou kosmou kai tēn doxan autōn, todos os reinos do mundo e o seu brilho.
A oferta é direta: o diabo entregará tudo aquilo em troca de um gesto, Jesus prostrado diante dele em adoração. O verbo proskyneō significa prostrar-se, inclinar-se até o chão, e é o verbo que Mateus usou para os magos diante do menino (Mt 2.2, 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O diabo não pede uma vida inteira de serviço; pede um gesto. Oferece o que o Pai já prometera ao Filho: no Salmo 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o rei recebe as nações por herança (Sl 2.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Daniel vira o filho do homem receber o domínio sobre todos os povos (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tentação é a de chegar ao Reino sem passar pela cruz, receber a coroa do adversário em vez de recebê-la do Pai.
A resposta de Jesus (v. 10) começa com uma ordem de expulsão, Hypage, Satana: o verbo manda ir embora, e o adversário é chamado pelo nome. É a primeira vez que isso acontece no Evangelho. Jesus usará palavras quase iguais para Pedro, quando ele tentar desviá-lo do caminho da cruz (Mt 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): a mesma tentação reaparecerá na boca de um amigo. Jesus cita então Dt 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a adoração e o serviço cabem só ao Senhor. A forma da citação em Mateus usa o verbo adorar, que responde ao pedido do diabo, e acrescenta monō, só a ele. O primeiro mandamento, e o Shemá que Israel recitava (Dt 6.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), estão no centro da resposta.
O v. 11 fecha a cena. Aphiēsin auton ho diabolos, o diabo o deixa. Lucas acrescenta que se afastou até outra ocasião (Lc 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o Evangelho mostrará que a luta continua. Então anjos se aproximam e diēkonoun autō, passaram a servi-lo. O imperfeito sugere um serviço contínuo, talvez de alimento, como o anjo que alimentou Elias no deserto (1Rs 19.5-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus não se lançou do templo para ser servido pelos anjos; recusou o espetáculo, e os anjos vieram no tempo de Deus. Marcos acrescenta que ele estava com as feras (Mc 1.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Versículos 12-17 — A luz que nasce na Galileia
O v. 12 muda de cena com uma notícia: João paredothē, foi entregue, foi preso. O verbo é o mesmo que Mateus usará para Jesus entregue aos homens (Mt 17.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20.18; 26.2). O destino do precursor antecipa o do Messias. Jesus anechōrēsen, retirou-se, para a Galileia. Mateus usa esse verbo para os movimentos de afastamento diante do perigo (Mt 2.12-14, 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 12.15; 14.13). Mas há uma ironia: a Galileia era o território de Herodes Antipas, que prendera João. Jesus não foge da luta; muda o lugar de onde ela será travada.
No v. 13, Jesus deixa Nazaré e vai morar, katōkēsen, em Cafarnaum, à beira do lago, nos limites de Zebulom e de Naftali. Mateus não diz por que deixou Nazaré; Lucas conta a rejeição na sinagoga da cidade (Lc 4.16-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 14-16 trazem a quinta fórmula de cumprimento do Evangelho, que remete a Isaías. A citação é de Is 9.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e Mateus a apresenta numa forma própria, mais curta, que não segue ao pé da letra nem o hebraico nem a antiga tradução grega. Nomeia a terra de Zebulom e a de Naftali, o caminho do mar, a região além do Jordão e a Galilaia tōn ethnōn, a Galileia das nações. E descreve o povo que estava kathēmenos, sentado, na escuridão; em Isaías, o povo caminhava. O verbo de Mateus sugere imobilidade, gente que já se acomodou à sombra. Sobre os que viviam na região e na skia thanatou, sombra da morte, uma luz aneteilen, raiou, como o sol que nasce.
O estudo de Isaías 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra o sentido original: a região das tribos do norte, a primeira humilhada pela Assíria, seria a primeira a ver a luz. Mateus vê essa promessa se cumprir quando Jesus vai morar ali. A expressão Galileia das nações tem peso especial no Evangelho que termina com o envio a todas as nações (Mt 28.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): desde o começo do ministério, a luz brilha numa terra em que judeus e gentios se misturavam.
O v. 17 é uma das dobradiças do livro: com apo tote ērxato, Mateus marca o começo da pregação de Jesus. A mesma expressão marcará, em Mt 16.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o início dos anúncios da paixão. A mensagem é idêntica à de João (Mt 3.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): conversão, porque o Reino dos céus se aproximou. Na boca de Jesus, porém, a mesma frase ganha outro peso, porque quem anuncia o Reino é o próprio Rei.
Versículos 18-22 — As redes deixadas na praia
Jesus caminha junto ao mar da Galileia e vê Simão, que Mateus já identifica como o chamado Pedro, e André, seu irmão, lançando o amphiblēstron, a tarrafa, rede circular atirada da margem ou da água rasa. O quarto Evangelho conta que André fora discípulo de João Batista e levara o irmão a Jesus (Jo 1.35-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Lucas narra uma pesca extraordinária ligada ao chamado (Lc 5.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos pensam que os irmãos já conheciam Jesus e que Mateus conta o momento decisivo.
A palavra de Jesus (v. 19) é um chamado e uma promessa. Deute opisō mou, literalmente um convite a vir atrás dele. Andar atrás de alguém era a imagem do discípulo. Costuma-se notar que, no judaísmo da época, o aluno escolhia o mestre e se apresentava a ele; aqui é o mestre que escolhe e chama. A promessa vem com a linguagem do ofício: Jesus fará deles halieis anthrōpōn; a pesca, agora, seria de pessoas. Jeremias falara de pescadores enviados por Deus para apanhar o povo, num contexto de juízo (Jr 16.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jesus toma a imagem e a transforma em missão de reunir gente para o Reino. Jesus não apaga o que eles eram; aproveita o ofício para dizer o que farão.
A resposta (v. 20) é imediata: eutheōs, na mesma hora, deixam as redes e o seguem. Elias permitira que Eliseu se despedisse dos pais (1Rs 19.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jesus pedirá prontidão ainda maior (Mt 8.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 21-22 repetem a cena com outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João. Estão no barco com o pai, katartizontes, consertando as redes. O verbo é o mesmo que o Novo Testamento usará para restaurar o irmão que caiu e para o Deus que aperfeiçoa os seus (Gl 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus os chama, e eles deixam o barco e o pai. Marcos acrescenta que ficaram com Zebedeu os empregados (Mc 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), sinal de que era um pequeno negócio familiar. Os quatro deixam o que tinham: o ofício, os instrumentos, o barco, a família. O texto não idealiza a renúncia nem a torna regra para todos; mostra que o chamado de Jesus reorganiza tudo à volta dele.
Versículos 23-25 — O Reino em palavras e curas
O sumário do v. 23 resume o ministério com três particípios. Jesus percorria toda a Galileia didaskōn, ensinando nas sinagogas, onde o povo se reunia aos sábados para ouvir a Lei e os Profetas; kēryssōn to euangelion tēs basileias, proclamando a boa notícia do Reino, expressão própria de Mateus; e therapeuōn, curando toda nosos, doença, e toda malakia, fraqueza, enfermidade. Mateus repete o sumário quase igual em Mt 9.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Entre os dois estão o ensino do Sermão do Monte (capítulos 5–7) e as obras dos capítulos 8 e 9; como se costuma dizer, o Messias da palavra e o Messias da ação. E, em Mt 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus dará aos doze autoridade para curar, com a mesma expressão grega.
Mateus fala de sinagogas autōn, deles. Alguns estudiosos veem nesse pronome a distância que, no tempo do evangelista, já separava a comunidade dos que seguiam Jesus da sinagoga local. Isso não autoriza ver ali hostilidade a Israel: Jesus ensinava nas sinagogas, e o seu ministério se dirige primeiro ao povo de Israel, o rebanho disperso (Mt 15.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 24 diz que a fama de Jesus se espalhou por toda a Síria. Trazem-lhe os que sofrem de poikilais nosois, doenças variadas, e de basanois, tormentos, dores fortes; os daimonizomenoi, endemoninhados; os selēniazomenoi, palavra que liga a doença à lua, como se pensava na Antiguidade, e que costuma ser entendida como epilepsia; e os paralytikoi, paralíticos. A lista distingue os endemoninhados dos que tinham ataques. O próprio texto, portanto, não confunde doença e possessão, e quem lê hoje deve evitar fazer essa confusão. Jesus cura todos. O Evangelho narra essas curas com sobriedade: são sinais de que o Reino invade o mundo ferido, como Isaías anunciara (Is 35.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 11.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 25 fecha com as ochloi polloi, grandes multidões, vindas de Israel e das suas fronteiras gentias. É diante delas que Jesus subirá ao monte no começo do capítulo seguinte (Mt 5.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✨ 4. Versículos-Chave
Mt 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A primeira resposta de Jesus, com Dt 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), afirma que a vida humana depende da palavra de Deus mais do que do pão. No contexto, é a recusa de usar a filiação em proveito próprio; no conjunto das Escrituras, é a lição que Israel devia aprender no deserto e que o Filho vive com perfeição. A tradição cristã leu aqui também a centralidade da Escritura na vida do povo de Deus: o pão alimenta o corpo, a palavra sustenta a vida inteira.
Mt 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A ordem que expulsa Satanás e a citação de Dt 6.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) colocam a adoração no centro da luta. Toda tentação, no fundo, é proposta de adorar outra coisa que não Deus. O versículo antecipa a palavra de Jesus a Pedro (Mt 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o monte final do Evangelho, onde os discípulos se prostram diante do Ressuscitado, que recebeu do Pai a autoridade que o diabo oferecera (Mt 28.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Mt 4.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O começo da pregação de Jesus repete a de João: conversão, porque o Reino dos céus se aproximou. A expressão desde então marca uma das grandes divisões do Evangelho. O versículo mostra o centro da mensagem de Jesus: não um sistema de ideias, mas o anúncio de que Deus está assumindo o governo, e o chamado a reorientar a vida por isso.
Mt 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O chamado de Pedro e André une a ordem de seguir e a promessa de ser transformado. Jesus não pede só uma adesão; promete fazer deles algo novo. O versículo deu à Igreja uma das suas imagens mais duradouras da missão: reunir pessoas para Cristo, com os dons e o ofício que cada um já tem.
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A prova do Filho. A filiação proclamada no Jordão é provada no deserto. Nas três tentações, o diabo não pede que Jesus deixe de ser o Filho, mas que seja Filho de outro modo: independente do Pai, exigindo provas do Pai, ou recebendo o Reino de outras mãos. Jesus responde cada vez com a obediência. A sua identidade não está em usar o poder, mas em confiar no Pai. Os que zombarão dele diante da cruz repetirão a mesma condição sobre a filiação, desafiando-o a descer (Mt 27.40-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele não desceu.
A Palavra como resposta. As três respostas vêm de Dt 6–8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a parte do Deuteronômio em que Moisés relê a experiência do deserto. Jesus não improvisa; responde com a Escritura que conhecia e vivia. O diabo também cita a Escritura, e o episódio ensina que não basta citar: é preciso ler cada texto no seu sentido e à luz do conjunto. A Palavra é a arma do Filho porque ela é a voz do Pai.
A luz que começa na periferia. O Reino não começa em Jerusalém, mas na Galileia das nações, a terra humilhada e misturada. A fórmula de cumprimento mostra que essa escolha estava no plano de Deus anunciado por Isaías. O Evangelho de Mateus, profundamente judaico, abre desde já a janela para as nações.
O chamado e o seguimento. O Reino anunciado cria uma comunidade de seguidores. O chamado parte de Jesus, é pessoal, exige deixar coisas e promete transformação. Os quatro pescadores são o começo do povo que Jesus reúne em torno de si, e que Mateus, único entre os Evangelhos, chamará de ekklēsia, igreja (Mt 16.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18.17).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
Mateus 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está no coração da Redenção consumada, mas olha para trás até a Queda. No jardim, o primeiro Adão, cercado de fartura, ouviu a palavra torcida da serpente, desejou o que era bom para comer e caiu (Gn 3.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No deserto, o novo Adão, faminto, ouve a Escritura torcida do diabo e permanece fiel. Israel, o filho chamado do Egito, falhou no deserto; o Filho, chamado também do Egito (Mt 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), atravessa o deserto sem cair. A luz que começa na Galileia anuncia a Nova Criação, quando não haverá mais noite e a luz será o próprio Deus (Ap 22.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — O Filho fiel onde Israel falhou e o novo Adão
A leitura mais firme da tentação é a que o próprio texto sugere pelas suas citações. Israel foi chamado filho de Deus (Êx 4.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 11.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e provado no deserto durante quarenta anos (Dt 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ali teve fome e murmurou (Êx 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), pôs Deus à prova em Massá (Êx 17.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e adorou o bezerro de ouro (Êx 32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As três respostas de Jesus vêm dos capítulos do Deuteronômio que relembram o deserto e advertem contra essas mesmas quedas. Jesus refaz o caminho do povo e, onde o povo caiu, permanece fiel. Ele é o Israel verdadeiro, o Filho em quem a vocação do povo se cumpre.
A leitura do novo Adão se apoia em Lucas, que põe a tentação logo depois da genealogia que termina em Adão (Lc 3.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e em Paulo, que contrapõe a desobediência de um homem à obediência do outro (Rm 5.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes antigos aproximaram as três tentações dos desejos que levaram à primeira queda; é uma leitura sugestiva, desde que não se force a correspondência. O essencial está em Hebreus: o Filho foi provado em todas as frentes que conhecemos, sem jamais pecar (Hb 4.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); o sofrimento foi a escola da sua obediência (Hb 5.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e por isso ele socorre os que passam pela prova (Hb 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há ainda o eco de Moisés, que jejuou quarenta dias e quarenta noites antes de receber a Lei e que, do alto do monte, viu a terra que não pisaria (Dt 34.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus jejua o mesmo tempo e, no capítulo seguinte, sobe a outro monte para ensinar. A comparação é discreta e pede cautela, mas o Evangelho mostra um Mestre maior que Moisés: ele vive sem falha a palavra que ensina.
6.3 — Como Mateus lê as Escrituras neste capítulo
As citações do Deuteronômio. Jesus não usa a Escritura como amuleto. Cada citação vem com o seu contexto inteiro: o maná, Massá e a idolatria. A tentação de Jesus é a releitura viva de Dt 6–8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
O Salmo 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) na boca do tentador. O diabo mostra que a Escritura pode ser usada contra a vontade de Deus. A promessa do salmo é verdadeira, e se cumpriu em Jesus: os anjos o serviram (v. 11). Mas veio no caminho da obediência, não no do espetáculo.
Isaías 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em quatro níveis. (a) No contexto histórico imediato, por volta de 733-732 a.C., a Assíria arrasou a Galileia e as terras de Zebulom e Naftali, e Isaías anunciou que a região humilhada veria a luz. (b) Para Judá, no tempo de Acaz, a promessa dizia que a escuridão não seria a última palavra e preparava o anúncio do menino dado ao povo (Is 9.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). (c) Muitos veem em Ezequias um cumprimento parcial, mas ele não trouxe luz à Galileia, que continuou sob domínio estrangeiro. (d) Mateus vê o cumprimento pleno quando o Filho de Davi vai morar exatamente naquela região e ali começa a pregar. A luz de Isaías é uma pessoa.
6.4 — Quem é, o que faz, como reina e o que pede
Quem ele é. O Filho de Deus, que não precisa provar o que é usando o poder para si. O Senhor do mundo, a quem o diabo oferece o que já lhe pertence pela promessa do Pai, e que o recusa da mão errada. A luz prometida às nações.
A sua missão. O deserto anuncia a cruz. O Filho que recusou transformar pedras em pão daria o próprio corpo como pão (Mt 26.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que recusou lançar-se do templo para ser amparado pelos anjos não pediria as legiões de anjos no Getsêmani (Mt 26.53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que recusou receber os reinos do diabo recebeu toda a autoridade do Pai depois da cruz (Mt 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As três recusas do deserto são o caminho do Calvário.
O seu Reino. O Reino chega com a vitória sobre o adversário e se manifesta em palavra e em cura. Mais adiante, Jesus apresentará as expulsões de demônios pelo Espírito como sinal de que o Reino já alcançou os ouvintes (Mt 12.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O homem forte foi amarrado no deserto; as curas da Galileia são o saque da casa dele.
O que ele pede. Conversão, porque o Reino está perto. E seguimento: deixar as redes e andar atrás dele. O chamado é pessoal, imediato e cheio de promessa.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar Mateus 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) à luz de Cristo é mostrar ao ouvinte que a vitória decisiva sobre a tentação não é a dele, mas a de Jesus. Ninguém passa pelo deserto sem cair; o Filho passou. Ele venceu no nosso lugar, como cabeça de uma nova humanidade, e a sua obediência é contada a favor dos que se unem a ele pela fé (Rm 5.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso o cristão enfrenta a tentação não para conquistar o amor de Deus, mas como quem já pertence ao Vencedor.
E o capítulo não termina no deserto. Termina na praia, com um chamado, e nas aldeias, com doentes curados. O Filho que venceu o adversário vem buscar pescadores comuns e gente atormentada. A luz que raiou sobre a Galileia continua a buscar os que estão sentados na sombra. O evangelho é o anúncio de que essa luz chegou e chama cada um pelo nome.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Dt 8.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.13, 16; Êx 16–17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 32 — o deserto de Israel, o maná, Massá e a idolatria: o pano de fundo das três respostas de Jesus.
- Mc 1.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 4.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os paralelos da tentação; Lucas termina a sequência no templo, em Jerusalém, o lugar para onde o seu Evangelho caminha; Mateus termina no monte, com a adoração.
- Gn 3.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 3.38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 5.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o primeiro Adão vencido e o novo Adão fiel.
- Sl 91.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o salmo citado pelo tentador, sem o verso que fala de pisar a serpente.
- Hb 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.15; 5.8 — o Filho provado que socorre os provados.
- Is 9.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Rs 15.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a Galileia humilhada pela Assíria e a luz prometida.
- Mt 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 27.40-43; 28.16-20 — as mesmas tentações na boca de Pedro e dos zombadores, e o monte final da autoridade recebida do Pai.
- Jo 1.35-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 5.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 1.16-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os outros relatos do encontro de Jesus com os primeiros discípulos.
- Mt 9.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 10.1; 11.4-5 — o sumário repetido, a autoridade dada aos doze e as obras do Messias.
Na tradição da Igreja, a tentação de Jesus deu forma à Quaresma, os quarenta dias de preparação para a Páscoa, e o relato é lido no primeiro domingo desse tempo em muitas igrejas. Na literatura, Dostoiévski fez das três tentações o centro da lenda do Grande Inquisidor, em Os Irmãos Karamázov.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Enfrentar a tentação com a Palavra. Jesus respondeu ao tentador com textos que conhecia de dentro, no seu contexto. A Escritura não é uma fórmula mágica para repetir na hora do aperto; é a voz de Deus guardada no coração ao longo da vida. Paulo a chama de espada do Espírito (Ef 6.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quem a lê e a medita com constância está mais preparado para reconhecer a mentira quando ela vem disfarçada de versículo. E, quando falhamos, a vitória de Cristo continua sendo nossa: ele venceu por nós, e é a ele que recorremos.
Desconfiar dos atalhos. As três tentações oferecem coisas boas por caminhos errados: pão sem dependência, proteção sem obediência, poder sem cruz. A vida de muitos cristãos, igrejas e líderes é tentada pelos mesmos atalhos: resolver tudo por conta própria, buscar o espetáculo que prova a fé, fazer alianças com o poder para alcançar resultados. Jesus mostra que o fim não justifica o caminho. O Reino se recebe do Pai, não do adversário.
A conversão como mudança de direção. Jesus começou pregando o que João pregara. Conversão não é um momento só do início da fé; é a direção de toda a vida, a cada vez que o Reino toca uma área que ainda não lhe pertence. O anúncio vem primeiro: o Reino está perto. A mudança é a resposta de quem crê nisso.
O chamado que deixa as redes. Os quatro pescadores deixaram as redes, o barco e o pai. Nem todo discípulo é chamado a abandonar a profissão; muitos servem a Cristo no mesmo ofício em que foram encontrados. Mas todo discípulo é chamado a pôr Jesus acima das redes, isto é, de tudo o que dá segurança, renda e identidade. Dietrich Bonhoeffer, em Discipulado, insistiu que a graça que chama ao seguimento é preciosa justamente porque custa, e que só quem obedece aprende a crer. O seguimento começa com um passo concreto.
Levar a luz às Galileias. Jesus começou pela periferia. A igreja que o segue não pode escolher só os lugares confortáveis. Os doentes, os atormentados, as regiões esquecidas e as pessoas que vivem sentadas na sombra são o primeiro endereço do Reino. Servir aos que sofrem, com oração e com cuidado concreto, inclusive o cuidado médico, é continuar o ministério do v. 23.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O Espírito conduz Jesus ao deserto (v. 1). Que diferença faz saber que a prova pode estar dentro do caminho de Deus, e não fora dele?
- Compare as três tentações com as falhas de Israel no deserto (Êx 16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 17.1-7; 32) e com as respostas de Jesus em Dt 8.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 6.16; 6.13. O que esse paralelo revela sobre quem Jesus é?
- O diabo cita o Sl 91 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) de modo distorcido. Como podemos evitar usar a Bíblia para justificar o que já decidimos fazer?
- Por que é significativo que Jesus comece o ministério na Galileia das nações? Que Galileias existem hoje à sua volta?
- Os pescadores deixaram as redes na mesma hora. O que são as redes na sua vida, e o que significa, para você, pôr Jesus acima delas?
- Para meditação e oração: agradeça a Cristo, que venceu no deserto onde todos nós falhamos. Apresente a ele uma tentação que você enfrenta e peça que a palavra dele more em você, para que você reconheça os atalhos e siga o caminho do Filho.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), na parte sobre Mateus (de Craig L. Blomberg)
- Dale C. Allison Jr. — The New Moses: A Matthean Typology (Fortress, 1993)
- Richard B. Hays — Echoes of Scripture in the Gospels (Baylor University Press, 2016)
- Dietrich Bonhoeffer — Discipulado (várias edições em português)
Comentários de Mateus:
- R. T. France — Mateus: introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica) e The Gospel of Matthew (NICNT, Eerdmans, 2007)
- Craig S. Keener — The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (Eerdmans, 2009)
- Donald A. Hagner — Matthew 1–13 (Word Biblical Commentary, 1993)
- W. D. Davies e Dale C. Allison Jr. — Matthew (International Critical Commentary, 3 vols., T&T Clark, 1988–1997)
- D. A. Carson — Matthew (série de comentários Expositor's Bible Commentary, Zondervan)
Pano de fundo histórico:
- Craig S. Keener — Comentário histórico-cultural da Bíblia: Novo Testamento (Vida Nova)
- Seán Freyne — Galilee, Jesus and the Gospels (Fortress, 1988)
Sabedoria para o Cotidiano
No deserto, o Filho faminto recusou o pão fácil, a prova espetacular e o poder oferecido pelo adversário, e venceu com a palavra do Pai onde todos nós caímos. Quando a tentação oferecer um atalho para coisas que parecem boas, lembre-se de que o caminho importa tanto quanto o destino, e de que Cristo já venceu por você. Depois, Jesus foi à periferia, chamou pescadores e curou os atormentados. A mesma luz procura hoje quem está sentado na sombra: deixe as redes que o prendem, siga atrás dele e leve essa luz aonde ela ainda não chegou.
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