Pular para o conteúdo
Farol Bíblico
Início

← Mateus

Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento

Mateus — Capítulo 9

Infográfico de “Mateus 9 — Capítulo a capítulo”, gerado automaticamente a partir do estudo publicado, com 7 partes: O perdão que se vê num homem de pé; O médico à mesa dos publicanos; O noivo presente e o vinho novo; Duas filhas: a menina e a mulher dos doze anos; Os cegos que viram o Filho de Davi; A boca que se abre e o coração que se fecha; O rebanho sem pastor e a colheita sem braços.

Título do capítulo: O médico que veio aos doentes
Gênero literário: Evangelho (narrativa de milagres e controvérsias, fechada por um sumário do ministério de Jesus e pela compaixão pelas multidões, que preparam o discurso da missão; fim do bloco narrativo dos capítulos 8 e 9)
Número de versículos: 38

Nota de precisão: este estudo segue a numeração das Bíblias em português, que neste capítulo coincide com a do texto grego. Os episódios têm paralelos em Marcos e Lucas (Mc 2.1-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 5.21-43; Lc 5.17-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 8.40-56), quase sempre mais longos; as diferenças são apontadas no lugar próprio. Três pontos pedem cautela: a relação entre o nome Mateus, deste capítulo, e o nome Levi, de Marcos e Lucas (v. 9); a casa em que se dá a refeição (v. 10); e o v. 34, que falta em alguns poucos manuscritos de um ramo antigo do texto, mas está na grande maioria deles, inclusive nos mais antigos. A apresentação do livro inteiro está no estudo do capítulo 1.


🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural

Onde o capítulo está no livro

O estudo do capítulo 1 apresenta o Evangelho segundo Mateus: a autoria atribuída pela tradição ao publicano que este capítulo mostra sentado na coletoria, as posições modernas sobre a formação do livro, a data provável e os cinco grandes discursos que lhe dão a arquitetura. Aqui basta situar o capítulo 9.

Mateus abre o ministério na Galileia com um sumário: Jesus andava pela região, ensinava nas sinagogas, proclamava a boa notícia do Reino e livrava o povo de males de todo tipo (Mt 4.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Vêm então o Sermão do Monte (5–7), em que Jesus ensina com autoridade, e dois capítulos de narrativa (8–9), em que a mesma autoridade aparece em atos. No fim do capítulo 9, o sumário volta quase com os mesmos termos (Mt 9.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As duas frases fecham o conjunto como as tampas de uma caixa: dentro dela estão o Messias que fala e o Messias que age.

Os capítulos 8 e 9 reúnem dez relatos de milagre, que muitos estudiosos, como W. D. Davies e Dale C. Allison, organizam em três grupos, separados por cenas sobre o que é seguir Jesus (Mt 8.18-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 9.9-17).

Cafarnaum, publicanos e pecadores

Jesus volta à sua própria cidade (v. 1), Cafarnaum, onde foi morar depois de deixar Nazaré (Mt 4.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 2.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ficava na margem norte do lago, perto da divisa entre o território de Herodes Antipas e o de seu irmão Filipe, numa estrada comercial onde se cobravam taxas: daí a coletoria do v. 9.

Os telōnai, os publicanos, cobravam taxas e pedágios. Na Galileia, recolhiam para Antipas, não diretamente para Roma, mas aos olhos do povo serviam ao poder estrangeiro e aos seus aliados. A cobrança era arrendada: quem a assumia pagava adiantado e depois recuperava o valor com sobra, o que abria espaço para o abuso (Lc 3.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19.8). O nome era sinônimo de desonestidade; os Evangelhos registram que o povo juntava os publicanos aos pecadores e às prostitutas (Mt 11.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.31-32). Os "pecadores", na linguagem da época, eram pessoas conhecidas por viver abertamente fora da lei de Deus. Sentar-se com eles tinha peso: comer junto era sinal de aceitação e comunhão.

Escribas, fariseus e discípulos de João

Os escribas eram os especialistas na lei (v. 3); os fariseus, um movimento de leigos piedosos que procurava levar à mesa de casa a santidade que a lei pedia dos sacerdotes (v. 11). É preciso lê-los com justiça: a pergunta deles sobre a mesa de Jesus nasce de um zelo sincero pela pureza do povo de Deus, e Paulo, que foi um deles, fala desse zelo (Fp 3.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A crítica de Jesus não atinge o povo judeu, a que ele mesmo pertence, mas uma maneira de praticar a fé que se fecha aos que mais precisam de misericórdia, e vale antes de tudo para a igreja e os seus líderes.

Os discípulos de João Batista, preso naquele tempo (Mt 4.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11.2), mantinham a disciplina austera do mestre (Mt 11.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A lei prescrevia o jejum no Dia da Expiação (Lv 16.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), depois do exílio surgiram outros (Zc 8.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o fariseu de uma parábola de Lucas se gaba de jejuar duas vezes por semana (Lc 18.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Pureza, luto e franjas

Uma mulher com fluxo de sangue fora do período ficava impura por todo o tempo do fluxo e transmitia a impureza ao que tocava e a quem tocasse os objetos sobre os quais se sentava ou deitava (Lv 15.19-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O contato com um cadáver também tornava impuro (Nm 19.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Impureza não era pecado: era um estado que impedia de entrar no templo e que terminava com o tempo e os ritos prescritos. Mas uma doença de doze anos fazia dela uma condição permanente.

Os enterros se faziam no mesmo dia, com carpideiras e flautistas (Jr 9.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a Mixná registra a opinião de que até o mais pobre devia contratar dois flautistas e uma carpideira para o enterro da esposa (Ketubot 4.4). E as franjas do manto eram as tsitsit, os fios que a lei mandava pôr nas pontas da roupa para lembrar os mandamentos (Nm 15.37-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 22.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).


📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo

De volta à sua cidade (v. 1), Jesus recebe um paralítico trazido numa maca; percebe a fé dos que o trazem, chama o homem de filho, anima-o e lhe anuncia o perdão dos pecados (v. 2). Alguns escribas concluem, em silêncio, que ele blasfema (v. 3). Jesus lê os pensamentos deles e pergunta o que custa menos, declarar o perdão ou mandar o homem andar (vv. 4-5); e, para mostrar que o Filho do Homem dispõe, aqui entre os homens, do poder de perdoar, ordena ao paralítico que se ponha de pé e volte para casa com a maca (v. 6). O homem obedece (v. 7), e a multidão, tomada de temor, louva a Deus, que confiou a seres humanos um poder assim (v. 8).

Jesus chama Mateus, sentado na coletoria, e ele se levanta e vai (v. 9). À mesa numa casa, muitos publicanos e pecadores se reclinam com Jesus e os discípulos (v. 10), e os fariseus perguntam por que o mestre come com essa gente (v. 11). Jesus responde com a imagem do médico, cujo lugar é junto dos que passam mal (v. 12), manda os críticos estudarem Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e diz que o seu convite tem por destinatários os pecadores, não os que se têm por justos (v. 13).

Os discípulos de João perguntam por que os de Jesus não jejuam (v. 14). Jesus responde que luto não combina com casamento: enquanto o noivo está presente, os amigos festejam; quando ele lhes for arrancado, haverá jejum (v. 15). E fala do retalho de tecido cru que, num manto gasto, alarga o rasgo, e do vinho que ainda fermenta, que rompe os odres ressecados, mas fica preservado, com o odre, quando os odres são novos (vv. 16-17).

Um chefe se prostra e pede que Jesus ponha a mão sobre a filha que acabou de morrer (vv. 18-19). No caminho, uma mulher que sangrava havia doze anos toca por trás a franja do manto de Jesus, certa de que isso bastaria para ser salva (vv. 20-21); ele se volta, chama-a de filha, anima-a e atribui à confiança dela a salvação recebida, e ela fica curada (v. 22). Na casa do chefe, Jesus manda sair os flautistas e a multidão, dizendo que aquilo não é morte, é sono, e riem dele (vv. 23-24); depois toma a menina pela mão, e ela se levanta (v. 25). A notícia corre por toda a região (v. 26).

Dois cegos seguem Jesus aos gritos, chamando-o de Filho de Davi e pedindo compaixão (v. 27). Em casa, confessam crer que ele pode curá-los, e Jesus lhes toca os olhos, dizendo que a confiança deles será a medida do que recebem (vv. 28-29). Eles passam a ver e, apesar da ordem severa de segredo, espalham a fama dele (vv. 30-31). Trazem então um mudo dominado por um demônio; expulso o demônio, ele fala, e a multidão comenta que Israel nunca vira nada assim (vv. 32-33), enquanto os fariseus atribuem tudo ao chefe dos demônios (v. 34).

Jesus vai de cidade em cidade, ensina, proclama a boa notícia do Reino e cura gente de todo tipo de mal (v. 35). Diante das multidões maltratadas e largadas, como rebanho sem quem o guie, enche-se de compaixão (v. 36). Diz aos discípulos que a colheita é farta e faltam braços (v. 37), e os manda orar ao dono da colheita para que ele despache gente para o trabalho (v. 38).


🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)

Um fio costura o capítulo: a autoridade de Jesus provoca reações opostas. A multidão louva a Deus (v. 8) e se admira (v. 33); os escribas pensam em blasfêmia (v. 3) e os fariseus falam do chefe dos demônios (v. 34).

Versículos 1-8 — O perdão que se vê num homem de pé
Mateus conta a cena sem o telhado aberto (Mc 2.2-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 5.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus vê a pistis, a fé, deles, no plural: dos que carregam o doente e talvez do próprio doente. A primeira palavra é tharsei, ânimo, a mesma que ele dirá à mulher do v. 22; e chama o homem de teknon, filho, termo de ternura. Então vem o inesperado: em vez de curar, anuncia o perdão. O verbo aphientai está no presente e na voz passiva, o que muitos chamam de passivo divino: quem perdoa é Deus. Mas é Jesus quem o declara, sem sacrifício e sem dizer que Deus mandou dizer.

Os escribas pensam que ele blasphēmei, blasfema (v. 3). Marcos explica o raciocínio: só Deus perdoa pecados (Mc 2.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A objeção tem base nas Escrituras (Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 43.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Natã anunciou a Davi o perdão de Deus (2Sm 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas não perdoou em nome próprio. Jesus conhece as enthymēseis, os pensamentos, e os chama de maus (v. 4). A pergunta do v. 5 é engenhosa: declarar o perdão parece mais fácil, porque ninguém pode verificar; mandar um paralítico andar se verifica na hora. Jesus fará o visível para atestar o invisível.

O v. 6 traz o grande título do capítulo. Jesus atribui ao Filho do Homem a exousia, a autoridade, de perdoar, exercida sobre a gē, a terra. A expressão ecoa a figura de Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que recebe do Ancião de Dias o domínio, e a antiga tradução grega de Daniel usa ali a mesma palavra, exousia. O perdão que pertence ao céu está disponível na terra, na pessoa de Jesus. O homem se levanta, com o verbo egeirō, o mesmo da ressurreição de Jesus (Mt 28.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A reação final é própria de Mateus: as multidões louvam a Deus por ter confiado aos anthrōpoi, aos seres humanos, um poder desse tamanho (v. 8). O plural pode ser só a maneira de falar de Jesus como um homem a quem Deus deu poder; muitos comentaristas veem aí também uma ponte para o poder de ligar e desligar confiado aos discípulos (Mt 16.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18.18). As tradições entendem o alcance disso de modos diferentes: a católica e a ortodoxa veem aí um fundamento do sacramento da reconciliação; as protestantes, a autoridade da igreja para anunciar o perdão em nome de Cristo. Todas concordam que o perdão vem de Deus por meio de Cristo.

Versículos 9-13 — O médico à mesa dos publicanos
O chamado cabe num versículo: Jesus vê um homem sentado no telōnion, a coletoria, e lhe dirige uma ordem curta, o convite para ir com ele, com o verbo akoloutheō, seguir, a palavra do discipulado em Mateus. Os pescadores podiam voltar às redes (Jo 21.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); um cobrador que largava o posto dificilmente o recuperava.

Em Marcos e Lucas, o publicano desta cena se chama Levi, filho de Alfeu em Marcos (Mc 2.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 5.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); nas listas dos Doze há um Mateus, e só este Evangelho o chama de publicano (Mt 10.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 3.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 6.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A explicação tradicional, seguida por muitos, é que se trata do mesmo homem com dois nomes, como Simão e Pedro; Mateus, nome ligado ao hebraico Mattityahu, quer dizer algo como dom do SENHOR. Alguns estudiosos, como Richard Bauckham, consideram possível que Levi e Mateus fossem pessoas distintas. A questão não se resolve com certeza. Para a tradição que atribui o livro ao publicano, este versículo é a assinatura discreta do autor, um homem que se lembra de onde Jesus o tirou.

A refeição acontece na casa (v. 10), a do publicano, como em Lucas (Lc 5.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ou a que Jesus usava em Cafarnaum. Os fariseus falam com os discípulos (v. 11) e chamam Jesus de didaskalos, mestre: um mestre da lei deveria ensinar os pecadores a distância, não reclinar-se com eles.

A resposta tem três tempos. Primeiro, um provérbio sobre o iatros, o médico, que contrapõe os ischyontes, os que têm força, aos que passam mal: é a estes que o médico serve (v. 12). Segundo, uma ordem de estudo, com o verbo manthanō, aprender (v. 13); muitos estudiosos ouvem aí uma fórmula dos mestres judeus para mandar estudar um texto. O texto é Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que Deus prefere a misericórdia ao sacrifício. Mateus o cita pela forma da antiga tradução grega, que verte o hebraico ḥesed, amor leal, por eleos, misericórdia; e o estudo de Oseias 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) mostra que o profeta não condenava o culto, mas o culto separado da lealdade a Deus e ao próximo. Jesus aplica o princípio à mesa: uma piedade que guarda a própria pureza e deixa os pecadores do lado de fora entendeu o sacrifício e esqueceu a misericórdia. Terceiro, uma declaração de missão, com o verbo kaleō, chamar, o mesmo do convite para o banquete (Mt 22.3-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): o chamado que ele veio fazer tem por destinatários os pecadores, e não os que se têm por justos. Lucas acrescenta que o chamado é ao arrependimento (Lc 5.32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): Jesus não aprova o pecado de quem se senta com ele, mas o médico não exige que o doente sare antes da consulta. E quem não se acha doente não chama o médico.

Versículos 14-17 — O noivo presente e o vinho novo
A pergunta dos discípulos de João é sincera (v. 14). A resposta usa a imagem do casamento. Os filhos do nymphōn, a câmara nupcial, expressão semítica, são os amigos do noivo e os convidados da festa, que durava dias. Onde Marcos diz que eles não podem jejuar (Mc 2.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Mateus diz que não podem penthein, estar de luto: o jejum era sinal de luto, e ninguém se põe de luto num casamento.

A imagem é ousada. No Antigo Testamento, o esposo de Israel é o próprio Deus (Is 54.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 62.5; Os 2.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e João Batista se dirá amigo do noivo (Jo 3.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus toma esse lugar: a presença dele é o tempo da festa anunciada pelos profetas (Is 25.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o v. 15 tem uma sombra: chegará o dia em que o noivo será arrancado do meio deles, com o verbo apairō, que sugere retirada violenta. É a primeira alusão de Mateus à morte de Jesus, muito antes dos anúncios claros (Mt 16.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então os discípulos jejuarão, como a igreja de fato fez (At 13.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

As duas imagens seguintes falam do novo que não cabe no velho (vv. 16-17). O pano agnaphos, não pisoado, ainda vai encolher; costurado numa roupa velha, repuxa o tecido gasto e o schisma, o rasgo, piora. Os askoi eram odres de pele, e o velho, sem elasticidade, arrebenta com o vinho que fermenta. O que Jesus traz não é um remendo nas práticas de piedade: é o Reino presente, que pede formas novas. Mateus, porém, acrescenta uma observação que Marcos não tem: no recipiente certo, os dois ficam preservados (v. 17). Não quer jogar fora o antigo, mas guardar o vinho onde deve estar; é o Mateus que registra que Jesus veio cumprir a lei, não aboli-la (Mt 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que fala do escriba que tira do seu tesouro coisas novas e velhas (Mt 13.52 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Versículos 18-26 — Duas filhas: a menina e a mulher dos doze anos
As duas histórias vêm entrelaçadas nos três sinóticos, e Mateus as conta em nove versículos, onde Marcos usa vinte e três (Mc 5.21-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Não dá o nome do pai, Jairo, nem diz que era chefe da sinagoga; chama-o archōn, chefe. Ele prosekynei, prostra-se, o gesto dos magos (Mt 2.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e diz que a filha acabou de morrer (v. 18). Em Marcos e Lucas, ela está morrendo e a notícia da morte chega no caminho (Mc 5.23, 35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 8.42, 49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Mateus põe a morte no começo, e o pedido fica espantoso: o pai não pede cura, pede vida.

No caminho, a mulher (v. 20). Mateus não lhe dá nome, mas não a diminui. Ela sangrava havia doze anos, e Marcos acrescenta que gastara tudo com médicos e só piorara (Mc 5.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aproxima-se por trás e toca o kraspedon do manto, a franja que a lei mandava pôr na roupa (Nm 15.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); a palavra volta com os doentes de Genesaré (Mt 14.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O estudo de Malaquias 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra, com razão, que a ligação devocional dessas franjas com as asas do sol de justiça (Ml 4.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é bonita, mas o Novo Testamento não a faz.

Ela pensa que bastaria tocar a roupa para ser salva (v. 21). O verbo sōzō significa curar, livrar e salvar, e aparece três vezes em dois versículos. Pela lei, o toque dela tornaria Jesus impuro. Aqui é preciso cuidado: não se deve pintar o judaísmo do tempo de Jesus como um sistema que fazia dessas mulheres intocáveis; a impureza não era culpa, e estudiosas como Amy-Jill Levine advertem contra leituras que engrandecem Jesus à custa do seu povo. Mas doze anos de fluxo, de pobreza e de restrições eram doze anos de vida diminuída, e por isso ela chega por trás, sem pedir nada.

Jesus strapheis, voltando-se, e idōn, vendo-a, fala (v. 22). Em Mateus não há busca na multidão: há um olhar que encontra a mulher e uma palavra que a levanta. Ele a chama de thygater, filha, a única vez em Mateus que Jesus chama alguém assim, e o capítulo põe essa filha ao lado da outra. Diz tharsei, ânimo, como ao paralítico, e atribui à fé dela a salvação recebida; Mateus registra que ela ficou curada a partir daquela hōra. A impureza não passou dela para Jesus: a vida passou dele para ela. Ao falar com ela em público, Jesus lhe devolve o lugar no meio do povo, sem repreender o toque nem expô-la. Ela entrou na história escondida e sai dela como filha.

Na casa do chefe, os aulētai, flautistas, e a multidão em alvoroço já cumprem o luto (v. 23). Jesus manda que saiam e diz que a menina katheudei, dorme: a morte dela não é o fim que parece (v. 24). Ele não nega a morte; diz o que ela é diante dele. O Novo Testamento usará a linguagem do sono para a morte dos que pertencem a Cristo (Jo 11.11-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Ts 4.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Riem dele, com o riso de quem sabe reconhecer um cadáver. Afastada a multidão, Jesus segura com firmeza a mão da menina, com o verbo krateō, e ela se levanta (v. 25). Tocar um morto tornava impuro (Nm 19.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); mais uma vez a corrente vai ao contrário: Jesus toca a morte, e a morte se retira.

Versículos 27-31 — Os cegos que viram o Filho de Davi
Mateus gosta de pares: dois endemoninhados em Gadara (Mt 8.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), dois cegos aqui e outros dois em Jericó (Mt 20.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), talvez pelo cuidado judaico com o testemunho de duas pessoas (Dt 19.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pedido dos cegos, com o verbo eleeō, ter compaixão, ecoa a misericórdia, eleos, do v. 13: o que Jesus mandou os fariseus aprenderem é o que os cegos pedem. E eles o chamam de huios Dauid, Filho de Davi, a primeira vez que alguém dá a Jesus esse título depois da genealogia (Mt 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os que não veem enxergam primeiro quem ele é.

O título designa o rei esperado da casa de Davi (2Sm 7.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 11.1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus o usa mais que os outros Evangelhos, quase sempre na boca de quem pede cura ou de gente simples (Mt 12.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.22; 20.30-31; 21.9, 15). Alguns estudiosos lembram que a tradição judaica, como se vê no historiador Flávio Josefo, celebrava Salomão, filho de Davi, como conhecedor das curas e dos espíritos; talvez por isso o título soasse natural num pedido de cura. Em Mateus, o Filho de Davi não é um guerreiro, mas alguém que se inclina sobre cegos.

Jesus os recebe em casa e pergunta se creem que ele pode fazer isso (v. 28). A resposta é afirmativa e vem com um título, kyrie, Senhor: é uma confissão. Ele lhes toca os olhos e diz que a confiança deles será a medida do que recebem (v. 29). A fé não é o preço da cura nem uma força que a produz; é a mão aberta que recebe o que Jesus dá. Segue uma ordem severa de silêncio, com o verbo embrimaomai, que sugere firmeza quase indignada (v. 30). Muitos estudiosos falam aqui do segredo messiânico: Jesus evita que a fama de curador e o título de Filho de Davi alimentem a esperança de um messias político antes que a cruz mostre que rei ele é. Mateus o explicará com Isaías: o Servo do SENHOR não grita nas ruas (Mt 12.15-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 42.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os dois saem e espalham a fama dele (v. 31). Desobedecem por entusiasmo; o texto não os elogia nem os esmaga.

Versículos 32-34 — A boca que se abre e o coração que se fecha
O homem é kōphos (v. 32), palavra que pode designar o surdo, o mudo ou os dois, e Mateus atribui a mudez a um demônio. Sem rituais nem fórmulas, o demônio é expulso e o mudo fala (v. 33). Mateus conta sem enfeite: o Reino chega e toma de volta o que estava cativo.

A multidão se espanta, com o advérbio oudepote, nunca: em toda a história de Israel não se vira nada parecido. É o fecho de todos os milagres dos capítulos 8 e 9. Os fariseus atribuem o poder de Jesus ao archōn, o chefe, dos demônios (v. 34). O capítulo começou com a acusação de blasfêmia e termina com a de feitiçaria, e a acusação vai crescer: Jesus lembrará aos Doze que o dono da casa já foi chamado de Belzebu (Mt 10.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, numa cena parecida, responderá que expulsa os demônios pelo Espírito de Deus (Mt 12.22-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A acusação reconhece o fato extraordinário; disputa a fonte. Diante dos mesmos sinais, uns glorificam a Deus e outros veem o diabo. Sinais não obrigam ninguém a crer.

Versículos 35-38 — O rebanho sem pastor e a colheita sem braços
O v. 35 repete Mt 4.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) quase termo a termo e fecha a moldura aberta no capítulo 4; ao mesmo tempo, prepara o capítulo 10, em que Jesus dará aos Doze autoridade para fazer o mesmo (Mt 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O v. 36 diz o que move Jesus: ele vê as multidões e esplanchnisthē, encheu-se de compaixão. O verbo vem de splanchna, as entranhas, tidas pelos antigos como sede dos sentimentos mais fundos. As multidões estão eskylmenoi, esfoladas, maltratadas, e errimmenoi, jogadas ao chão, largadas. E são como rebanho sem quem o guie. A imagem vem de longe: Moisés pediu um líder para que o povo não ficasse assim, e Deus deu Josué (Nm 27.15-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Micaías viu Israel espalhado pelos montes (1Rs 22.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Ezequiel acusou os pastores que se alimentavam do rebanho e prometeu que Deus mesmo buscaria as ovelhas e lhes daria um pastor da casa de Davi (Ez 34.1-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Zacarias viu o povo errante por falta de pastor (Zc 10.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pedido de Moisés recebe aqui, como observa o estudo de Zacarias 10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), a resposta definitiva no novo Josué. O diagnóstico também julga os líderes do capítulo, que discutiam pureza enquanto o rebanho sangrava.

Nos vv. 37-38, a imagem passa à lavoura. O therismos, a colheita, é farta, e faltam ergatai, trabalhadores. Nos profetas, a colheita é imagem da reunião final e do juízo (Is 27.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jl 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Jesus a usará assim (Mt 13.30, 39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui ela diz que chegou a hora. O remédio é a oração: pedir ao Senhor, o kyrios, da colheita que mande trabalhadores, com o verbo ekballō, forte, o mesmo da expulsão do demônio (v. 33) e da retirada da multidão da casa do chefe (v. 25). E a ironia santa vem logo: os discípulos a quem Jesus manda orar são os que ele enviará no capítulo seguinte. Quem ora por trabalhadores costuma descobrir que é um deles.


✨ 4. Versículos-Chave

Mt 9.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O versículo atribui ao Filho do Homem, aqui entre os homens, o poder de perdoar pecados, e a cura do paralítico é o sinal visível dessa autoridade invisível. Liga o nome dado a Jesus, porque salvaria o povo dos seus pecados (Mt 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), ao cálice da última ceia, com a menção ao perdão que só Mateus registra (Mt 26.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

Mt 9.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O provérbio do médico e a citação de Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) resumem a missão de Jesus e corrigem toda religião que se protege dos pecadores. Não há pessoas sem doença, mas há quem não se reconhece doente. Na história da igreja, o texto sustentou a convicção de que a igreja é hospital de pecadores, não clube de pessoas corretas.

Mt 9.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A mulher que tocou a franja ouve que a fé dela a salvou. A fé aparece como confiança que se estende para Cristo, mesmo tímida e misturada com ideias imperfeitas sobre o poder da roupa; e Jesus aparece como aquele que não se contamina com a impureza, mas a vence. O título de filha, dado em público, devolve dignidade a quem a doença isolara.

Mt 9.36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A compaixão de Jesus pelas multidões largadas como ovelhas sem pastor é a raiz da missão: antes de enviar, ele vê e se comove. O versículo reúne a esperança de Nm 27.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Ez 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Zc 10.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e a mostra cumprida no pastor que, mais tarde, se dirá ferido pelo rebanho (Mt 26.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É texto clássico das missões e da ação social da igreja.


⛪ 5. Temas Teológicos Centrais

A autoridade do Filho do Homem. Todo o capítulo gira em torno da exousia de Jesus, do pecado aos demônios. O Sermão terminou com as multidões admiradas porque ele ensinava com autoridade (Mt 7.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os capítulos 8 e 9 mostram essa autoridade em atos. Não é poder bruto, mas a autoridade do Filho do Homem de Daniel, exercida a favor dos fracos.

Misericórdia e santidade que contagia. Os fariseus temiam que a impureza dos pecadores passasse ao mestre; no capítulo acontece o contrário. Craig Blomberg chamou isso de santidade contagiosa. A santidade de Jesus não se protege do impuro; vai até ele e o purifica. É Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) em pessoa, e o caminho termina na cruz, onde o Santo é contado entre os transgressores (Is 53.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) para que pecadores sejam contados entre os santos.

O tempo novo do Reino. O noivo, o pano novo e o vinho novo dizem que, com Jesus, começou algo que não cabe nas formas antigas, sem desprezo do antigo, que Mateus quer conservar. A festa de casamento é imagem bíblica da salvação (Is 25.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o noivo será arrancado: a festa passa pela cruz, e a igreja vive entre a alegria da presença do Senhor e a saudade da sua volta.

Fé que se aproxima e compaixão que envia. O capítulo é uma galeria da fé imperfeita e recebida. No fim, quem se move é Jesus: a compaixão dele gera a oração por trabalhadores e, no capítulo seguinte, o envio dos Doze. A missão nasce do coração de Cristo.


✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo

6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?

Mateus 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) está na Redenção consumada, quando as promessas se cumprem diante de todos. A Queda aparece com muitos rostos, do pecado que paralisa à dureza religiosa que prefere a própria pureza à misericórdia. Cada milagre é uma pequena reversão da Queda. Isaías anunciara que, no tempo da salvação, os cegos veriam e a língua do mudo cantaria (Is 35.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); os vv. 27-33 mostram isso, e Jesus apontará esses sinais aos mensageiros de João (Mt 11.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Nova Criação ainda não chegou por inteiro: a menina ressuscitada morrerá um dia. Mas o capítulo é um antegosto do mundo sem luto e sem morte (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o noivo arrancado voltará para a festa definitiva.

6.2 — Quem é Jesus neste capítulo

O Filho do Homem que perdoa na terra. Jesus faz o que só Deus faz e o faz como Filho do Homem, título que une a fraqueza humana à figura gloriosa de Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os escribas tinham razão num ponto: perdoar pecados contra Deus é prerrogativa divina. Erraram na conclusão. Ou Jesus blasfema, ou o perdão de Deus chegou à terra em pessoa; o capítulo não deixa meio-termo.

O médico. O Antigo Testamento chamava Deus de quem cura o seu povo (Êx 15.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 6.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O médico de Mateus 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cura corpos, mas o diagnóstico vai mais fundo: o pecado é a doença, o perdão é o remédio.

O noivo. Jesus ocupa o lugar que os profetas reservavam a Deus diante de Israel; a igreja será chamada noiva de Cristo (Ef 5.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 21.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

O Filho de Davi e o Senhor. Os cegos lhe dão os dois títulos (vv. 27-28): o rei da promessa e aquele que merece a confiança devida a Deus. O título com que Mateus abriu o livro (Mt 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) sai da genealogia e entra na boca dos pobres.

O pastor. A compaixão pelo rebanho largado (v. 36) apresenta Jesus como o pastor prometido de Ez 34.23-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o novo Davi, enviado às ovelhas extraviadas de Israel (Mt 15.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na noite da prisão, ele dirá que o pastor seria ferido e as ovelhas dispersas (Mt 26.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 13.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O pastor que se compadece é o pastor que morre.

6.3 — Como Mateus lê o Antigo Testamento neste capítulo

O capítulo não tem uma das fórmulas de cumprimento típicas de Mateus, mas está cheio do Antigo Testamento. Há a citação direta de Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), usada não para provar que Jesus é o Messias, mas para corrigir uma leitura da lei: as Escrituras se leem pela misericórdia (cf. Mt 12.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há o cumprimento das esperanças proféticas, em que os cegos e o mudo encenam Is 35.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), texto que Mateus deixa ressoar aqui e explicitará depois (Mt 11.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há as imagens que Jesus assume: o esposo e o pastor de Israel (Is 54.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 2.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), não por alegoria arbitrária, mas porque nele o Deus de Israel veio visitar o seu povo. E há a lei vivida por dentro: as franjas (Nm 15.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as regras de pureza (Lv 15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Nm 19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o jejum aparecem sem polêmica contra a lei. Jesus usa as tsitsit, deixa-se tocar e toca; e faz, com o toque, o que os ritos apontavam: purifica e devolve a vida.

6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este capítulo

A missão: o perdão que custará a vida do noivo. O perdão declarado ao paralítico é gratuito para ele, mas não é barato. No mesmo capítulo, Jesus avisa que o noivo será arrancado (v. 15), e na última ceia ligará o perdão ao seu sangue (Mt 26.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus já aplicou às curas o texto de Isaías sobre o Servo que leva as nossas enfermidades (Mt 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 53.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e o estudo de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) lembra que a cura e o perdão vêm da mesma obra do Servo.

O Reino: o Rei que toca o impuro. O Reino dos céus, expressão própria de Mateus, que, segundo a explicação mais comum, evita por reverência repetir o nome de Deus, não chega com exércitos, mas pelo toque. Em vez de afastar os impuros para proteger os santos, o Santo vai aos impuros e os faz santos. Paulo dirá que Cristo foi feito pecado por nós para que nele fôssemos justiça de Deus (2Co 5.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).

A identidade: Deus conosco. O Emanuel da abertura do livro (Mt 1.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) aparece aqui no chão da Galileia: Deus à mesa com pecadores, no caminho de uma mulher doente, no quarto de uma criança morta.

O que Jesus pede. Segui-lo, como Mateus, deixando o que dava segurança (v. 9); aprender a misericórdia de Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) sentando-se com quem precisa dela (v. 13); viver o tempo certo, a alegria da presença e o jejum da espera (v. 15); ver as multidões com os olhos dele e orar ao Senhor da colheita (vv. 36-38). E Mateus deixa implícito que o Senhor da colheita é aquele que, no versículo seguinte, chama e envia os Doze.

6.5 — O Evangelho no capítulo

Mateus 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) prega o evangelho com uma imagem simples: Jesus é o médico e veio para os doentes. A má notícia está no diagnóstico: todos estamos paralisados pela culpa, cegos para Deus, mortos no pecado, e inclinados, como os críticos do capítulo, a achar que a doença é dos outros. A boa notícia é que o médico não espera que melhoremos para nos receber. Ele declara o perdão antes da cura, chama o publicano sem pedir currículo, deixa-se tocar por quem a lei mandava evitar e entra no quarto onde só havia luto. Pregar este capítulo é convidar o ouvinte a fazer o que fizeram o paralítico, o publicano, a mulher e os cegos: reconhecer a necessidade e estender a mão para Cristo. Quem o faz ouve a mesma palavra de ânimo, e aprende a olhar as multidões como ele olha.


🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)

Na história da igreja, a frase sobre o médico inspirou a imagem de Cristo médico das almas, frequente nos escritores cristãos antigos.


🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico

Deixar-se diagnosticar. O maior obstáculo à cura, no capítulo, é a convicção de estar bem. A fé cristã começa quando alguém se reconhece paciente e não juiz, e isso vale para quem está longe da igreja e, talvez mais, para quem está nela há muito tempo. O médico só trata quem lhe mostra a ferida.

Sentar-se com quem a igreja evita. Se Jesus se reclinou com publicanos e pecadores, os seus discípulos não podem viver numa bolha de gente parecida com eles. Não se trata de aprovar o pecado, mas de criar lugares em que pessoas feridas ou de má fama se sintam recebidas: a refeição em casa, a amizade com o colega que todos evitam, a comunidade que acolhe sem exigir que todos cheguem arrumados. Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) serve de exame: estamos guardando a nossa pureza ou praticando a misericórdia de Deus?

Tratar com dignidade quem sofre há muito tempo. A mulher dos doze anos representa os que carregam dor crônica, física ou emocional, e aprenderam a viver escondidos. Jesus não a expõe nem a reduz à doença: chama-a de filha. A igreja segue o seu Senhor quando acolhe os doentes crônicos e os que vivem com transtornos mentais, sem pressa de explicar o sofrimento deles nem de prometer curas que Deus não prometeu.

Olhar as multidões e orar por trabalhadores. As multidões continuam maltratadas e largadas, nas periferias, nos hospitais, nas telas. O primeiro passo da missão não é um plano, mas um olhar que se comove como o de Jesus; o segundo, a oração ao Senhor da colheita; o terceiro, que o capítulo 10 mostrará, é a disposição de ir.


🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo

  1. No v. 2, Jesus anuncia o perdão antes de curar o paralítico. Por que começa por aí? O que isso diz sobre as nossas prioridades quando oramos por alguém?
  2. Quem seriam hoje os "publicanos" que a sua comunidade tem dificuldade de receber à mesa? O que Os 6.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) tem a dizer a ela?
  3. Compare a mulher do fluxo de sangue e a filha do chefe (vv. 18-26). O que as duas histórias juntas revelam sobre Jesus diante da impureza e da morte?
  4. Os cegos chamam Jesus de Filho de Davi e de Senhor (vv. 27-28). O que esses títulos revelam sobre ele, e por que Jesus pede silêncio?
  5. Diante dos mesmos fatos, a multidão se admira e os fariseus falam do chefe dos demônios (vv. 33-34). O que impede alguém de reconhecer a obra de Deus mesmo quando ela é evidente?
  6. Para meditação e oração: leia Mt 9.35-38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) devagar. Peça a Cristo o olhar compassivo dele para as pessoas à sua volta, ore pelo envio de trabalhadores e pergunte, com honestidade, para onde você mesmo está sendo enviado.

📚 10. Para Aprofundamento

Cristocêntrica / Teologia Bíblica:

  • Craig L. Blomberg — Contagious Holiness: Jesus' Meals with Sinners (série New Studies in Biblical Theology, Apollos/IVP, 2005)
  • G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Comentário do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (Vida Nova), sobre Mt 9.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 9.36
  • Richard Bauckham — Jesus e as testemunhas oculares (Paulus) / Jesus and the Eyewitnesses (Eerdmans, 2006), sobre os nomes dos Doze e a questão de Levi e Mateus

Comentários de Mateus:

  • R. T. France — The Gospel of Matthew (NICNT, Eerdmans, 2007); e Mateus: introdução e comentário (série Cultura Bíblica, Vida Nova)
  • W. D. Davies e Dale C. Allison — A Critical and Exegetical Commentary on the Gospel According to Saint Matthew (International Critical Commentary, T&T Clark, 3 vols., 1988–1997)
  • Craig S. Keener — The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary (Eerdmans, 2009)
  • Ulrich Luz — Matthew 8–20 (série Hermeneia, Fortress, 2001)

Pano de fundo histórico:

  • Amy-Jill Levine — The Misunderstood Jew (HarperSanFrancisco, 2006), sobre as leituras da pureza e dos fariseus

Sabedoria para o Cotidiano
Em Mateus 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus perdoa antes de curar, chama um publicano para a sua mesa, deixa-se tocar por uma mulher que se escondia e segura a mão de uma menina morta. Não espere estar apresentável para se aproximar dele: o médico veio exatamente para os doentes, e a sua fé, mesmo tímida como a mão que tocou a franja do manto, é recebida. Depois de recebido, aprenda a olhar como ele olha: as pessoas à sua volta estão cansadas e largadas, e o Senhor da colheita costuma responder a quem ora por trabalhadores enviando quem orou.

Ficou com alguma dúvida sobre este capítulo?

Pergunte ao Farol

Interpretação e comentários da Bíblia. Esta página não reproduz texto bíblico protegido: traz referência, interpretação e comentário.

Conteúdo criado com os recursos de inteligência artificial da plataforma, com a curadoria do Pastor Mário Levy. Ainda assim, a IA pode cometer erros — na dúvida, confira na própria Bíblia.