Mateus · 40 de 66 · Novo Testamento
Mateus — Bloco 11: O Rei Entra na Cidade: Templo, Controvérsias e Juízo
Capítulos principais: Mateus 21:1–23:39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Tema central do bloco:
Depois da longa viagem, Jesus chega a Jerusalém. Os capítulos 21 a 23 narram os primeiros dias da semana final e formam o grande confronto público entre Jesus e as autoridades religiosas de Israel. O bloco começa com uma entrada carregada de simbolismo messiânico: o Rei manso, montado num jumento, é aclamado como Filho de Davi. Segue imediatamente uma ação profética no templo, coração religioso e político da nação. A partir daí, cada cena aprofunda o conflito:
- a figueira sem fruto é amaldiçoada;
- as autoridades questionam a origem da autoridade de Jesus;
- três parábolas anunciam o juízo sobre os líderes que rejeitaram os mensageiros de Deus;
- quatro perguntas tentam enredar Jesus em armadilhas teológicas e políticas;
- uma série de sete "ais" denuncia a hipocrisia religiosa.
O bloco termina com um lamento comovente sobre Jerusalém.
O tema central é a realeza de Jesus diante de um sistema religioso que se recusa a reconhecê-lo. Jesus entra como Rei, purifica o templo como seu Senhor, responde com autoridade a todas as perguntas, revela-se como o Filho rejeitado da parábola e como o Senhor de Davi, e anuncia o juízo sobre uma religião que tem folhas, mas não frutos. Ao mesmo tempo, o bloco mostra o coração de Jesus. Ele acolhe cegos, coxos e crianças no templo, chora sobre a cidade e deseja reunir seus filhos como a galinha reúne os pintinhos. O juízo é anunciado com lágrimas, e não com prazer.
Versículos-chave do Livro estudado:
- Mateus 21:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus manda buscar uma jumenta e um jumentinho, em cumprimento de Zacarias 9:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 21:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A multidão estende mantos e ramos e aclama Jesus com Hosana; a cidade inteira se agita.
- Mateus 21:12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus expulsa vendedores e cambistas do templo, citando Isaías 56:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Jeremias 7:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 21:14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Cegos e coxos são curados no templo, e as crianças aclamam o Filho de Davi.
- Mateus 21:18-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A figueira sem fruto seca, e Jesus ensina sobre o poder da fé e da oração.
- Mateus 21:23-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os líderes questionam a autoridade de Jesus, e ele responde com uma pergunta sobre João Batista.
- Mateus 21:28-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A parábola dos dois filhos: publicanos e prostitutas entram no Reino antes dos líderes.
- Mateus 21:33-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A parábola dos lavradores maus, que matam os servos e o filho do dono da vinha.
- Mateus 21:42-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pedra rejeitada torna-se pedra angular; o Reino será dado a um povo que produza frutos.
- Mateus 22:1-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A parábola das bodas do filho do rei e do convidado sem veste nupcial.
- Mateus 22:15-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pergunta sobre o tributo a César e a resposta sobre a imagem na moeda.
- Mateus 22:23-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os saduceus questionam a ressurreição, e Jesus responde com Êxodo 3:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 22:34-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O maior mandamento: amar a Deus e amar o próximo, base de toda a Lei e dos Profetas.
- Mateus 22:41-46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus pergunta de quem o Cristo é filho e cita o Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Mateus 23:1-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Advertência contra a hipocrisia e a busca de títulos; o maior é o que serve.
- Mateus 23:13-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os sete ais contra escribas e fariseus.
- Mateus 23:37-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O lamento de Jesus sobre Jerusalém, que ele quis reunir como a galinha reúne os pintinhos.
Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia:
- Zacarias 9:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Isaías 62:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O rei justo e humilde que vem a Sião montado num jumento.
- Gênesis 49:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cetro de Judá e o jumentinho preso à videira, imagem messiânica antiga.
- 1 Reis 1:33-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Salomão é proclamado rei montado na mula de Davi.
- 2 Reis 9:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os mantos estendidos sob os pés de Jeú, aclamado como rei.
- Salmo 118:19-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O salmo de entrada no templo, com o clamor por salvação, a bênção ao que vem e a pedra rejeitada.
- Malaquias 3:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor que vem repentinamente ao seu templo para purificá-lo.
- Isaías 56:6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O templo como casa de oração para todos os povos.
- Jeremias 7:1-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O sermão do templo contra a falsa segurança religiosa e a casa transformada em covil de ladrões.
- 2 Samuel 5:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A exclusão dos cegos e coxos ligada à conquista de Jerusalém por Davi.
- Salmo 8:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Da boca dos pequeninos e das crianças de peito Deus suscita louvor.
- Jeremias 8:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Oseias 9:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Miqueias 7:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A videira e a figueira sem fruto como imagens do juízo sobre Israel.
- Isaías 5:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 80:8-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O cântico da vinha que produziu uvas bravas.
- Daniel 2:34-35, 44-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pedra que esmaga os reinos e se torna um grande monte.
- Isaías 25:6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Apocalipse 19:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O banquete escatológico e as bodas do Cordeiro.
- Gênesis 1:26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O ser humano criado à imagem de Deus.
- Romanos 13:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Atos 5:29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O dever de pagar tributos e o limite da obediência às autoridades humanas.
- Deuteronômio 25:5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A lei do levirato, base da pergunta dos saduceus.
- Êxodo 3:6 — Deus se apresenta como o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
- Deuteronômio 6:4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Levítico 19:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Shemá e o amor ao próximo, os dois mandamentos que resumem a Lei.
- Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Atos 2:34-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hebreus 1:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Davi chama o Messias de Senhor, texto que o Novo Testamento aplica a Jesus.
- Miqueias 6:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Praticar a justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus.
- 2 Crônicas 24:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O assassinato do profeta Zacarias, filho de Joiada, no átrio do templo.
- Jeremias 22:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ezequiel 10:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A casa que se torna desolação e a glória do Senhor que deixa o templo.
- Rute 2:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Salmo 91:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O refúgio sob as asas de Deus.
- Lucas 13:34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19:41-44 — Os lamentos de Jesus sobre Jerusalém no Evangelho de Lucas.
- Romanos 9:1-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11:1-2, 25-29 — A dor de Paulo por Israel e a fidelidade de Deus às suas promessas.
Explicação teológica e bíblica:
A entrada do Rei manso em Jerusalém (21:1-11)
Ao se aproximar de Jerusalém, em Betfagé, junto ao monte das Oliveiras, Jesus envia dois discípulos para buscar uma jumenta e seu jumentinho. O monte das Oliveiras tinha forte conotação messiânica: Zacarias 14:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) anunciava que ali os pés do Senhor pousariam no dia de sua vinda. Mateus vê na cena o cumprimento de Zacarias 9:9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), combinado com Isaías 62:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Sião deve alegrar-se porque seu rei vem a ela, justo, humilde e montado num jumento.
O detalhe do jumento é decisivo. Reis guerreiros entravam montados em cavalos de guerra. O rei de Zacarias vem montado num animal de paz e anuncia o fim dos carros de guerra (Zc 9:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Há também ecos davídicos: Salomão foi proclamado rei montado na mula de Davi (1Rs 1:33-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a bênção de Jacó a Judá menciona o jumentinho preso à videira (Gn 49:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Só Mateus menciona dois animais, a jumenta e o jumentinho. Alguns intérpretes veem nisso uma leitura literal do paralelismo poético hebraico de Zacarias. Outros lembram que um jumentinho ainda não domado seria levado com a mãe para acalmá-lo. O ponto teológico não depende dessa questão: Jesus entra como o Rei manso prometido.
A multidão estende mantos no caminho, gesto de homenagem a um rei (2Rs 9:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), corta ramos das árvores e aclama Jesus com Hosana ao Filho de Davi e com a bênção ao que vem em nome do Senhor (21:9). As aclamações vêm do Salmo 118:25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), parte do Hallel (Salmos 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cantado nas grandes festas, especialmente na Páscoa e na festa dos Tabernáculos. "Hosana" vem do hebraico hoshi'a-na, "salva, por favor", um clamor por salvação que se tornara expressão de louvor. Ao entrar, toda a cidade se agita (21:10). O verbo seiō é o mesmo que descreverá o terremoto na morte e na ressurreição de Jesus (27:51; 28:2). Jerusalém pergunta quem é este, e a multidão responde que é o profeta Jesus, de Nazaré da Galileia. A resposta é verdadeira, mas incompleta. Jesus é profeta, mas também Rei, Filho de Davi e, como o bloco mostrará, Senhor de Davi.
A purificação do templo e o louvor das crianças (21:12-17)
Jesus entra no templo e expulsa os que vendiam e compravam, derruba as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. É preciso entender o cenário. Esse comércio acontecia provavelmente no átrio dos gentios, a área mais externa do templo, a única onde os não judeus podiam entrar para orar. Os cambistas trocavam moedas comuns por siclos de Tiro, exigidos para o imposto do templo por causa de sua alta pureza de prata. Os vendedores de pombas forneciam os animais para os sacrifícios dos pobres (Lv 5:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 12:8). O serviço em si era útil aos peregrinos, mas havia se tornado ocasião de lucro e exploração, e ocupava o espaço destinado à oração das nações.
Jesus justifica sua ação com duas citações proféticas. A primeira é Isaías 56:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): a casa de Deus deve ser chamada casa de oração. Marcos completa a citação com "para todos os povos" (Mc 11:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Mateus a encurta. A segunda é Jeremias 7:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): os líderes a transformaram em covil de ladrões. O termo lēstēs designa bandidos, salteadores. No contexto de Jeremias, o "covil" é o esconderijo para onde os bandidos voltam depois do crime, para se sentirem seguros. O profeta denunciava quem praticava injustiças durante a semana e depois buscava segurança religiosa no templo, e anunciava que o templo seria destruído, como acontecera com Siló (Jr 7:12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A ação de Jesus é, portanto, um gesto profético de juízo, mais que uma simples reforma. Ela anuncia que o templo, tal como funcionava, estava condenado, o que se cumprirá no ano 70 d.C. Também cumpre Malaquias 3:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): o Senhor vem repentinamente ao seu templo para purificá-lo.
João narra uma purificação do templo no início do ministério de Jesus (Jo 2:13-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), enquanto os sinóticos a situam na última semana. Alguns estudiosos pensam em dois episódios distintos; outros, num único episódio que João deslocou por razões teológicas. A questão continua aberta.
Logo depois, cegos e coxos vêm a Jesus no templo, e ele os cura (21:14). O detalhe é significativo. Uma tradição ligada à conquista de Jerusalém por Davi associava cegos e coxos a uma exclusão da "casa" (2Sm 5:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Filho de Davi faz o contrário: acolhe-os no templo e os cura. As crianças clamam no templo o mesmo Hosana ao Filho de Davi, e os principais sacerdotes e escribas se indignam. Jesus responde com o Salmo 8:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), na forma da tradução grega: da boca dos pequeninos e das crianças de peito, Deus preparou o louvor perfeito. O salmo fala do louvor dirigido a Deus, e Jesus o aplica ao louvor que as crianças lhe dirigem. Os pequeninos do capítulo 18 reconhecem o que os sábios não veem (cf. 11:25). Jesus então deixa a cidade e passa a noite em Betânia.
A figueira sem fruto (21:18-22)
Pela manhã, voltando à cidade, Jesus tem fome e vê uma figueira à beira do caminho. Encontra apenas folhas, sem frutos, e diz que nunca mais nasça fruto dela. A figueira seca imediatamente. Marcos narra o episódio em dois dias, intercalado com a purificação do templo (Mc 11:12-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), deixando clara a relação entre os dois. Mateus o condensa, mas o sentido é o mesmo: trata-se de uma ação profética simbólica. No Antigo Testamento, a figueira e a videira são imagens de Israel, e a falta de frutos é imagem do juízo (Jr 8:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 9:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mq 7:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A figueira coberta de folhas, mas sem frutos, representa uma religiosidade de aparência, com templo, sacrifícios e cerimônias, mas sem os frutos de justiça e fidelidade que Deus esperava. É exatamente o que Jesus encontrou no templo.
Marcos observa que não era tempo de figos (Mc 11:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o que parece tornar a ação de Jesus estranha. Na Palestina, porém, as figueiras costumavam produzir pequenos frutos comestíveis, chamados em árabe moderno de taqsh, junto com as primeiras folhas. Uma figueira cheia de folhas e sem nenhum desses frutos indicava que não daria colheita naquele ano. O gesto simboliza uma esterilidade real, e não apenas sazonal.
Os discípulos se admiram, e Jesus transforma o episódio em ensino sobre a fé e a oração (21:21-22). Com fé, não apenas fariam o mesmo, mas poderiam ordenar a este monte que se lançasse ao mar, e isso aconteceria. Alguns intérpretes veem em "este monte" uma alusão ao próprio monte do templo, cujo sistema seria removido. Em qualquer caso, a promessa é que a oração feita com fé recebe o que pede, entendida no conjunto do ensino de Jesus, que submete toda oração à vontade do Pai (6:10; 26:39).
A questão da autoridade e a parábola dos dois filhos (21:23-32)
Enquanto ensina no templo, Jesus é abordado pelos principais sacerdotes e anciãos do povo, a liderança oficial. Eles perguntam com que autoridade ele faz essas coisas e quem lhe deu essa autoridade (21:23). É uma pergunta legítima do ponto de vista institucional, mas carregada de hostilidade. Jesus responde com outra pergunta: o batismo de João vinha do céu ou dos homens? Os líderes ficam presos. Se disserem que veio do céu, Jesus perguntará por que não creram em João. Se disserem que veio dos homens, temem a multidão, que considerava João um profeta. Respondem que não sabem, e Jesus se recusa a responder também (21:24-27). A resposta, porém, está implícita: João testemunhou sobre Jesus, e quem reconhece a autoridade de um reconhece a do outro.
Segue a parábola dos dois filhos (21:28-32), exclusiva de Mateus. Um pai pede aos dois filhos que trabalhem na vinha. O primeiro diz que não vai, mas depois se arrepende e vai. O segundo diz que vai, mas não vai. Qual fez a vontade do pai? O primeiro, respondem os líderes. Jesus então aplica a parábola: publicanos e prostitutas entram no Reino de Deus antes deles, porque creram em João, enquanto eles, mesmo vendo isso, não se arrependeram. O verbo proagousin, "vão à frente", sugere que a porta ainda não está fechada para os líderes; eles estão apenas atrás dos pecadores arrependidos. A parábola retoma o tema do Sermão do Monte: não basta dizer "Senhor", é preciso fazer a vontade do Pai (7:21).
Os lavradores maus e a pedra angular (21:33-46)
A segunda parábola é a dos lavradores maus (21:33-41). Um proprietário planta uma vinha, cerca-a, cava um lagar, constrói uma torre e a arrenda a lavradores. A descrição retoma quase literalmente o cântico da vinha de Isaías 5:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), em que a vinha representa Israel. Na época da colheita, o proprietário envia servos para receber os frutos, mas os lavradores espancam um, matam outro e apedrejam outro. Ele envia outros servos, e o mesmo acontece. Por fim, envia o próprio filho, pensando que o respeitarão. Mas os lavradores raciocinam que, matando o herdeiro, ficarão com a herança. Lançam-no fora da vinha e o matam.
A alegoria é transparente: a vinha é Israel, o proprietário é Deus, os lavradores são os líderes, os servos são os profetas e o filho é Jesus. O detalhe de o filho ser morto fora da vinha antecipa a crucificação fora dos muros de Jerusalém (cf. Hb 13:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus pergunta o que o dono fará com aqueles lavradores, e os próprios líderes pronunciam a sentença: destruirá aqueles malvados e arrendará a vinha a outros que entreguem os frutos no tempo certo.
Jesus então cita o Salmo 118:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (21:42): a pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular. É o mesmo salmo das aclamações da entrada triunfal. A imagem muda da vinha para a construção. O filho rejeitado se tornará a pedra principal do novo edifício de Deus, uma referência à ressurreição. O versículo seguinte é central e delicado: o Reino de Deus será tirado deles e dado a um povo (ethnos) que produza os seus frutos (21:43). O versículo 21:44, sobre a pedra que esmaga quem cai sobre ela, ecoa Daniel 2:34-35, 44-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), embora falte em alguns manuscritos antigos. Os principais sacerdotes e fariseus entendem que Jesus fala deles e querem prendê-lo, mas temem a multidão (21:45-46).
O versículo 21:43 exige cuidado interpretativo, porque foi historicamente usado para justificar o desprezo pelo povo judeu. O texto se dirige explicitamente aos líderes que rejeitaram Jesus (21:45), e não ao povo judeu como tal. Mateus é um Evangelho profundamente judaico, escrito em grande parte por e para judeus que creram em Jesus, e Jesus e todos os apóstolos eram judeus. O "povo que produz frutos" é o novo povo de Deus reunido em torno do Messias, formado por judeus e gentios (cf. 1Pe 2:9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo insiste em que Deus não rejeitou o seu povo e que seus dons e chamado são irrevogáveis (Rm 11:1-2, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A relação entre a Igreja e Israel é objeto de diferentes formulações teológicas. As principais tradições cristãs, porém, rejeitam hoje o antissemitismo. A Igreja Católica o fez formalmente na declaração Nostra Aetate do Concílio Vaticano II (1965), e muitas denominações protestantes fizeram declarações semelhantes.
As bodas do filho do rei e a veste nupcial (22:1-14)
A terceira parábola de juízo é a das bodas (22:1-14). Um rei prepara a festa de casamento de seu filho e envia servos para chamar os convidados, que não querem vir. Envia outros servos para dizer que o banquete está pronto, mas os convidados não fazem caso: um vai para o seu campo, outro para o seu negócio, e os demais agarram os servos, maltratam-nos e os matam. O rei se enfurece, envia seus exércitos, destrói aqueles assassinos e incendeia a cidade deles. Muitos estudiosos veem nesse detalhe uma alusão à destruição de Jerusalém em 70 d.C., embora ele também retome imagens comuns de juízo nos profetas.
Então o rei manda os servos às encruzilhadas para convidar todos os que encontrarem, maus e bons, e a sala se enche. A imagem retoma o banquete escatológico de Isaías 25:6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), aberto a todos os povos, e antecipa as bodas do Cordeiro (Ap 19:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lucas narra uma parábola semelhante, com diferenças importantes (Lc 14:15-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A parábola de Mateus tem uma segunda parte, exclusiva. Quando o rei entra para ver os convidados, encontra um homem sem veste nupcial. Chama-o de amigo e pergunta como entrou ali sem a veste adequada, e o homem fica calado. O rei manda amarrá-lo e lançá-lo nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. Jesus conclui que muitos são chamados (klētoi), mas poucos escolhidos (eklektoi) (22:14).
A identidade da veste é discutida:
- Agostinho a entendia como a caridade.
- Muitas leituras protestantes a associam à justiça de Cristo recebida pela fé (cf. Is 61:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Gl 3:27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Outros intérpretes, mais próximos do contexto imediato de Mateus, a entendem como a vida transformada, os "frutos" exigidos em 21:43.
As leituras convergem num ponto: aceitar o convite gratuito do Reino não é compatível com permanecer inalterado. O convite é aberto a maus e bons, mas quem entra é chamado a revestir-se de uma vida nova. A frase final não ensina que Deus chama muitos com a intenção de rejeitar a maioria. Ela adverte que pertencer externamente à comunidade não garante pertencer ao Reino.
As perguntas-armadilha: César, a ressurreição e o maior mandamento (22:15-40)
Seguem quatro debates, três iniciados pelos adversários e um por Jesus. O primeiro é sobre o tributo a César (22:15-22). Os fariseus se unem aos herodianos, partidários da dinastia de Herodes e favoráveis a Roma, numa aliança incomum, para apanhar Jesus em alguma palavra. Depois de elogiá-lo falsamente, perguntam se é lícito pagar o tributo a César. O imposto em questão era o census, o imposto por pessoa cobrado diretamente por Roma desde 6 d.C., que provocara a revolta de Judas, o Galileu (Josefo, Antiguidades 18.1-10). Se Jesus dissesse que sim, perderia o apoio do povo, que odiava o imposto. Se dissesse que não, poderia ser denunciado como rebelde.
Jesus pede que lhe mostrem a moeda do tributo, e eles lhe apresentam um denário. É significativo que eles, e não Jesus, tenham a moeda no templo. Jesus pergunta de quem é a imagem (eikōn) e a inscrição. É de César. O denário do imperador Tibério trazia sua efígie e a inscrição que o declarava filho do divino Augusto, uma afirmação idolátrica para os judeus. Jesus então declara que se deve restituir a César o que pertence a César, e a Deus o que pertence a Deus (22:21).
A resposta é mais profunda do que parece. Por um lado, reconhece que a autoridade civil tem direitos legítimos, como o tributo, princípio que Paulo desenvolverá (Rm 13:1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por outro, relativiza essa autoridade: César não é Deus, e há coisas que pertencem só a Deus. Muitos intérpretes desde a Igreja antiga, como Tertuliano (Sobre a Idolatria 15), observam a lógica implícita. A moeda traz a imagem de César e deve ser dada a César; o ser humano traz a imagem de Deus (Gn 1:26-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e deve ser dado inteiramente a Deus. Quando César exige o que pertence só a Deus, vale o princípio apostólico de obedecer antes a Deus que aos homens (At 5:29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O segundo debate vem dos saduceus (22:23-33), o grupo aristocrático ligado ao sacerdócio, que negava a ressurreição dos mortos (At 23:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Josefo, Antiguidades 18.16) e dava autoridade principal aos livros de Moisés. Eles apresentam um caso hipotético baseado na lei do levirato (Dt 25:5-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): uma mulher se casa sucessivamente com sete irmãos, que morrem sem deixar filhos. Na ressurreição, de qual deles ela será esposa? A pergunta pretendia ridicularizar a crença na ressurreição. Jesus responde que eles erram por não conhecerem nem as Escrituras nem o poder de Deus. Na ressurreição, não haverá casamento; os ressuscitados serão como os anjos no céu, não porque se tornem anjos, mas porque a vida ressuscitada não depende da reprodução para continuar. E então Jesus argumenta a partir da própria Torá, que os saduceus aceitavam. Deus disse a Moisés que é o Deus de Abraão, Isaque e Jacó (Êx 3:6), no presente, séculos depois da morte dos patriarcas. Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. A relação de aliança de Deus com seus fiéis não pode ser destruída pela morte. As multidões ficam maravilhadas com o ensino.
O terceiro debate é sobre o maior mandamento (22:34-40). Um intérprete da Lei pergunta qual é o grande mandamento da Lei. A tradição rabínica posterior contaria 613 mandamentos na Torá, segundo o ensino atribuído ao rabino Simlai (Talmude Babilônico, Makkot 23b), e os mestres discutiam quais eram os mais importantes. Jesus responde com o Shemá (Dt 6:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)): amar o Senhor com todo o coração, toda a alma e todo o entendimento. Este é o primeiro e grande mandamento. E acrescenta que o segundo é semelhante a ele: amar o próximo como a si mesmo (Lv 19:18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (22:40). O verbo "depender" (krematai) evoca a imagem de algo pendurado num prego: toda a Escritura está suspensa nesses dois amores. Jesus não inventa os mandamentos, que estão na Torá. O que ele faz é uni-los de forma inseparável e colocá-los como chave de interpretação de toda a Lei, como já fizera com a regra áurea (7:12).
O Filho e Senhor de Davi (22:41-46)
Agora é Jesus quem pergunta aos fariseus: de quem o Cristo é filho? De Davi, respondem eles, de acordo com a expectativa messiânica comum (2Sm 7:12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus então cita o Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), atribuído a Davi, no qual o Senhor diz ao senhor de Davi que se assente à sua direita até que ponha seus inimigos debaixo de seus pés. Se Davi chama o Messias de Senhor, como pode ele ser apenas seu filho? (22:43-45). Ninguém consegue responder, e a partir daquele dia ninguém mais ousa fazer-lhe perguntas.
A pergunta não nega que o Messias seja descendente de Davi, o que Mateus afirmou desde o primeiro versículo. Mostra que ele é muito mais que um descendente: é o Senhor do próprio Davi, entronizado à direita de Deus. O Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o versículo do Antigo Testamento mais citado ou aludido no Novo Testamento (At 2:34-36 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1:13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 15:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), entre muitos outros), e se tornou uma das bases da confissão de Jesus como Senhor exaltado.
Advertência contra a hipocrisia e a busca de títulos (23:1-12)
O capítulo 23 é dirigido às multidões e aos discípulos. Jesus reconhece que os escribas e fariseus se assentam na cadeira de Moisés, isto é, exercem a função de ensinar a Lei. Arqueólogos encontraram em algumas sinagogas antigas, como a de Corazim, assentos de pedra que muitos identificam com essa "cadeira de Moisés". Jesus manda fazer e guardar o que eles dizem, mas não imitar o que fazem, porque dizem e não fazem (23:2-3). Eles amarram fardos pesados e os colocam sobre os ombros dos outros, mas não os movem com um dedo, contraste direto com o jugo suave de Jesus (11:30). Fazem tudo para serem vistos: alargam os filactérios, as pequenas caixas com textos da Lei amarradas na testa e no braço (cf. Dt 6:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alongam as franjas das vestes (cf. Nm 15:38 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Amam os primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas, as saudações nas praças e o título de rabi.
Jesus então ordena aos discípulos que não se deixem chamar de rabi, porque um só é o Mestre, e todos são irmãos. Que não chamem ninguém de pai na terra, porque um só é o Pai, o celestial. Que não se deixem chamar de guias, porque um só é o Guia, o Cristo (23:8-10). As tradições cristãs interpretam esses versículos de modos diferentes quanto ao uso de títulos eclesiásticos. Muitos lembram que o próprio Paulo se apresenta como pai espiritual de seus convertidos (1Co 4:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que o Novo Testamento reconhece mestres na Igreja (Ef 4:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O alvo de Jesus parece ser menos as palavras em si do que a busca de status, a reivindicação de autoridade que pertence só a Deus e a hierarquia que esquece a fraternidade. O princípio final é claro: o maior será servo, e quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado (23:11-12; cf. 20:26-27).
Os sete ais contra a hipocrisia religiosa (23:13-36)
Em seguida vêm os sete ais, uma forma profética de lamento e acusação usada por Isaías, Amós e Habacuque (Is 5:8-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Am 6:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hc 2:6-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O versículo 23:14, presente em algumas traduções, falta nos melhores manuscritos e parece vir de Marcos 12:40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Cada ai expõe um aspecto da hipocrisia religiosa:
- Fechar o Reino (23:13). Eles fecham o Reino dos céus diante das pessoas: não entram e impedem os que querem entrar.
- Proselitismo destrutivo (23:15). Percorrem mar e terra para fazer um prosélito, e depois o tornam duas vezes mais filho da Geena que eles mesmos.
- Casuística dos juramentos (23:16-22). Como guias cegos, ensinam que jurar pelo templo não obriga, mas jurar pelo ouro do templo obriga. Jesus retoma o ensino de 5:33-37: tudo pertence a Deus, e a palavra deve ser verdadeira.
- Inversão de prioridades (23:23-24). Dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas negligenciam o que é mais importante na Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade, numa clara alusão a Miqueias 6:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Jesus não condena o dízimo cuidadoso, e diz que deviam fazer uma coisa sem omitir a outra. Mas expõe a incoerência com uma imagem cômica: coam um mosquito e engolem um camelo. Em aramaico, provavelmente havia um jogo de palavras entre galma (mosquito) e gamla (camelo), hipótese difundida entre os estudiosos.
- Exterior limpo, interior sujo (23:25-26). Limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro estão cheios de roubo e intemperança.
- Sepulcros caiados (23:27-28). Eles são como sepulcros caiados, bonitos por fora e cheios de ossos e podridão por dentro. Os túmulos eram pintados de cal antes das festas para que os peregrinos não os tocassem por engano e se tornassem impuros; a Mishná menciona a marcação dos túmulos no mês de Adar, antes da Páscoa (Shekalim 1:1). A imagem é devastadora: aquilo que parecia puro era, na verdade, fonte de impureza.
- Herdeiros dos que mataram os profetas (23:29-36). Constroem e adornam os túmulos dos profetas e dizem que, se tivessem vivido nos dias de seus antepassados, não teriam participado da morte deles. Mas, ao fazê-lo, testemunham que são filhos dos que mataram os profetas. Jesus os manda encher a medida de seus pais e anuncia que enviará profetas, sábios e escribas, e eles os matarão, crucificarão e perseguirão. Sobre aquela geração cairá todo o sangue justo derramado, desde Abel até Zacarias, filho de Baraquias, morto entre o santuário e o altar.
A referência a Abel e Zacarias abrange a primeira e a última morte de um justo nas Escrituras hebraicas, na ordem judaica dos livros, que termina com Crônicas. Abel aparece em Gênesis 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e Zacarias, filho do sacerdote Joiada, é apedrejado no átrio do templo em 2 Crônicas 24:20-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). A menção a "filho de Baraquias" levanta uma questão, porque esse era o nome do pai do profeta Zacarias, autor do livro (Zc 1:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As explicações vão de uma confusão entre os dois personagens a uma identificação de nomes ou uma tradição familiar. A dificuldade é reconhecida pelos estudiosos, e o sentido do texto é claro: toda a história de rejeição dos mensageiros de Deus chega ao seu ponto culminante na rejeição de Jesus.
Uma nota histórica e pastoral é indispensável. Os ais de Mateus 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não descrevem todos os fariseus nem o judaísmo como um todo. Os fariseus eram um movimento de leigos piedosos que buscavam viver a Lei com seriedade no cotidiano, e entre eles havia homens justos. O Novo Testamento menciona Nicodemos (Jo 3:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 19:39), Gamaliel (At 5:34-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o próprio Paulo, que se apresentava como fariseu (Fp 3:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O próprio Jesus reconhece sua função de ensinar (23:2-3). O capítulo é uma crítica profética interna, no mesmo estilo das duras denúncias que Isaías, Jeremias e Amós fizeram contra os líderes de Israel. Seu alvo é a hipocrisia religiosa, um perigo que ameaça qualquer comunidade de fé, inclusive a Igreja. Ler esses textos como condenação do povo judeu é uma distorção que causou enormes sofrimentos na história e deve ser rejeitada. O cristão sábio lê Mateus 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) como um espelho para si mesmo e para seus líderes.
O lamento sobre Jerusalém (23:37-39)
O bloco termina com uma das passagens mais comoventes do Evangelho. Jesus se dirige à cidade que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados, e declara quantas vezes quis reunir os filhos dela, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas eles não quiseram (23:37). A imagem das asas é usada no Antigo Testamento para o cuidado protetor de Deus (Rt 2:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 91:4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 32:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui ela é aplicada a Jesus com uma ternura quase maternal. O juízo que ele acabou de anunciar não nasce do ódio, mas do amor rejeitado.
Jesus anuncia que a casa deles ficará deserta (23:38), em eco a Jeremias 22:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que ameaçava o palácio real com a desolação. Muitos intérpretes lembram também a visão de Ezequiel, em que a glória do Senhor deixa o templo antes de sua destruição (Ez 10:18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 11:22-23). Imediatamente após este discurso, Jesus sairá do templo (24:1). Mas a última palavra não é de desolação. Jesus diz que não o verão mais até que digam a bênção sobre aquele que vem em nome do Senhor (23:39), retomando o Salmo 118:26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), o mesmo das aclamações da entrada. A frase deixa uma porta aberta: haverá um dia em que Jerusalém reconhecerá seu Messias. Os intérpretes discutem se isso aponta para uma conversão futura de Israel, em conexão com Romanos 11:25-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), ou para o reconhecimento final de todos diante de Cristo no juízo. Em qualquer leitura, o lamento termina com uma nota de esperança.
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia
Os capítulos 21 a 23 são o clímax do conflito entre Jesus e a liderança religiosa de Israel, e preparam diretamente a paixão. Mateus mostra que a rejeição de Jesus não é um acidente, mas o ponto culminante de uma longa história de resistência aos mensageiros de Deus, já denunciada pelos profetas. Ao mesmo tempo, revela Jesus como o Rei messiânico, o Senhor do templo, o Filho amado do dono da vinha, a pedra angular e o Senhor de Davi. Dentro do Evangelho, o bloco prepara o discurso escatológico (caps. 24–25), que começa com o anúncio da destruição do templo. No conjunto da Bíblia, ele recapitula temas de Isaías (a vinha), Jeremias (o templo como covil), Zacarias (o rei humilde), os Salmos (118 e 110) e Ezequiel (a glória que deixa o templo), mostrando que em Jesus convergem a realeza davídica, a profecia e o próprio Deus que visita seu povo.
Visão cristocêntrica:
A conexão com Cristo é direta e explícita, e o bloco revela Jesus em várias dimensões.
- Cristo, o Rei manso de Zacarias. Sua entrada em Jerusalém não é uma demonstração de força, mas o cumprimento da profecia do rei humilde que traz paz. Sua realeza será plenamente revelada na cruz, onde estará escrito o mesmo título de rei.
- Cristo, o Senhor do templo. Ao purificar o templo, Jesus age como o Senhor que vem repentinamente ao seu santuário (Ml 3:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é maior que o templo (12:6) e, pela sua morte e ressurreição, se tornará o novo lugar da presença de Deus (cf. Jo 2:19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Cristo, o Filho amado rejeitado e a pedra angular. Na parábola dos lavradores, Jesus se revela como o Filho e herdeiro, enviado depois de todos os profetas. Sua morte fora da vinha e sua exaltação como pedra angular resumem o Evangelho: rejeitado pelos homens, escolhido e exaltado por Deus (cf. At 4:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2:4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Cristo, o noivo das bodas. O banquete preparado pelo rei é a festa de casamento do seu Filho. Jesus é o Noivo (9:15), e a salvação é apresentada como a alegria de uma festa de casamento, que culminará nas bodas do Cordeiro (Ap 19:7-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Cristo, o Senhor de Davi. Pelo Salmo 110 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), Jesus mostra que o Messias é mais que um descendente de Davi: é o Senhor entronizado à direita de Deus. É uma das revelações mais elevadas de sua identidade antes da paixão.
- Cristo, o único Mestre e a imagem de Deus. Jesus é o único Mestre e Guia da comunidade. E se o ser humano traz a imagem de Deus, Cristo é a imagem perfeita do Deus invisível (Cl 1:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aquele que restaura essa imagem em nós.
- Cristo, o coração de Deus que chora. O lamento sobre Jerusalém revela a compaixão de Deus encarnada. O mesmo Jesus que pronuncia os ais deseja reunir os rebeldes sob suas asas. Ele é o juiz, mas também o salvador que chora pelos que o rejeitam.
Aplicações espirituais e práticas:
-
Acolher o Rei manso, não o rei que esperamos. A multidão aclamou Jesus na entrada, mas poucos dias depois gritaria por sua crucificação. Muitos querem um Messias poderoso que resolva seus problemas e derrote seus inimigos, mas Jesus vem montado num jumento, oferecendo paz e chamando ao serviço. A aplicação é examinar se seguimos o Jesus real ou o que projetamos, e se nossa fé resiste quando ele não age como esperávamos.
-
Purificar o templo do coração e da comunidade. Jesus se indignou com o comércio que ocupava o espaço de oração e explorava os pobres. A advertência alcança toda forma de mercantilização da fé: a venda de bênçãos, a exploração financeira dos fiéis e o uso da religião para lucro ou poder. Também alcança o coração de cada um. Cristo quer purificar o templo interior de tudo o que impede a comunhão com Deus e fecha o acesso aos que buscam.
-
Dar frutos, não apenas folhas. A figueira tinha aparência de vida, mas não frutos. É fácil manter folhas religiosas: frequência ao culto, linguagem cristã, atividades, cargos. O que Deus procura são frutos: justiça, misericórdia, fidelidade, amor a Deus e ao próximo. A aplicação é avaliar a vida espiritual não pela aparência, mas pela transformação real que ela produz nas relações, no trabalho e no uso dos recursos.
-
Ser o filho que vai, não o que apenas promete. A parábola dos dois filhos confronta a religiosidade de palavras. Melhor um "não" que se converte em obediência do que um "sim" que nunca se cumpre. Na vida cristã, isso significa transformar compromissos assumidos em oração, nos cultos e nas decisões em ações concretas, e reconhecer que pecadores arrependidos podem estar à frente de religiosos satisfeitos.
-
Cidadania responsável, com lealdade suprema a Deus. A resposta sobre o tributo orienta a relação do cristão com o Estado. O cristão paga seus impostos, cumpre as leis justas e contribui para o bem comum, inclusive na vida empresarial e profissional, com honestidade fiscal e responsabilidade social. Mas não entrega a César o que pertence só a Deus: a consciência, a adoração e a lealdade última. Quando as exigências humanas contrariam a vontade de Deus, a obediência a Deus prevalece.
-
Colocar o amor a Deus e ao próximo no centro. Num mundo de regras, procedimentos e debates religiosos, Jesus resume tudo em dois amores inseparáveis. A pergunta prática para qualquer decisão, norma, projeto ou ministério é se ele expressa amor a Deus e amor ao próximo. Uma religião que perde esse centro se torna peso; uma vida que o encontra se torna livre.
-
Olhar no espelho de Mateus 23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os ais não foram escritos para que apontemos o dedo para outros, mas para que nos examinemos. A hipocrisia é um perigo de todo líder e de todo crente: dizer e não fazer, buscar títulos e reconhecimento, cuidar de detalhes e negligenciar a justiça e a misericórdia, manter aparência impecável com um interior desordenado. A aplicação é pedir a Deus coerência entre o que se ensina e o que se vive, e cultivar a humildade de quem sabe que só há um Mestre.
Mensagem de reflexão:
Sabedoria para o Cotidiano
Jesus entrou em Jerusalém como Rei, mas montado num jumento; purificou o templo com zelo, mas acolheu cegos, coxos e crianças; denunciou a hipocrisia com palavras duras, mas chorou pela cidade que o rejeitava. Ele não procura folhas, procura frutos; não quer promessas, quer filhos que façam a vontade do Pai; não exige títulos, exige amor a Deus e ao próximo. Hoje, deixe que o Rei manso entre no templo do seu coração, tire dali o que não pertence a Deus e o reúna, como a galinha reúne os pintinhos, debaixo das suas asas.